Autor de bons curtas como “Saliva” (2007) e “Alguma Coisa Assim” (2006), Esmir Filho faz sua estreia em longas-metragens com o belo “Os Famosos e os Duendes da Morte”, apresentado em competição na noite de ontem no Festival do Rio.
O filme conta a história de um adolescente que vive numa pequena cidade gaúcha de raízes alemãs e que encontra na internet uma saída para o isolamento do interior do Rio Grande do Sul. Essa interação digital do personagem é ponto central do filme e resultado da pesquisa do cineasta para a obra: ele encontrou parte do elenco pela rede, em pesquisas entre os jovens descendentes de imigrantes da região do vale do Taquari, onde o longa foi rodado.
Para Esmir, seu filme é a peça principal de “um movimento integrado”, que transborda o cinema. Outra peça é o romance homônimo e autobiográfico de Ismael Caneppele, que inspirou o filme e que está sendo lançado pela editora Fina Flor.
Os outros dois braços do movimento estão na internet. Primeiro: os canais de Jingle Jangle no YouTube e no Flickr. No filme, Jingle Jangle é a garota misteriosa por quem o protagonista se interessa. Ele passa boa parte do tempo assistindo aos vídeos que ela grava e coloca no YouTube. Esses vídeos, que aparecem em vários momentos do filmes, estão na íntegra nesse canal de Jingle Jangle.
Segundo: as músicas de Nelo Johann, jovem gaúcho que compôs quase todas as canções de “Os Famosos e os Duendes da Morte”. Johann disponibiliza seu trabalho na internet desde 2001. São 16 discos inteiros (incluindo alguns EPs), divulgado na página dele no MySpace e pelo site 4shared.com, de troca gratuita de arquivos na rede.
“Eu queria que o filme juntasse várias formas de expressão que estavam soltas na internet. Que trouxesse uma voz, criasse uma rede entre essas pessoas”, diz Esmir Filho, que ficou conhecido na internet em 2006 pelo curta “Tapa na Pantera”, um dos primeiros grandes hits do YouTube no Brasil.
No vídeo no alto deste post, assista a um teaser do filme de Esmir Filho, que passa ainda nesta terça no Festival do Rio. O longa também será exibido na Mostra de SP em outubro e deve entrar em cartaz no país em fevereiro ou março de 2010. Abaixo, alguns dos vídeos de Jingle Jangle (em que ela aparece com Julian, outro personagem misterioso do filme). São ótimos para entender um pouco o espírito do longa.
Leia a cobertura diária do Festival do Rio na versão impressa da Ilustrada. A reportagem completa sobre "Os Famosos e os Duendes dos Mortos" será publicada na edição desta terça.
Na entrevista a seguir, concedida no Rio de Janeiro anteontem, a atriz francesa Jeanne Moreau, 81, fala sobre passagens importantes de sua carreira, do trabalho com grandes amigos, como Orson Welles, François Truffaut, Louis Malle e Luís Buñuel. Principal homenageada do Festival do Rio, ela também discute suas técnicas de interpretação e relembra as filmagens de “Joana Francesa”, que fez com Cacá Diegues em 1973, em Marechal Deodoro (Alagoas). Pela agenda apertada da atriz no Brasil, a conversa foi curta, apenas 40 minutos. E ficaram de fora questões sobre nomes importantes na carreira dela, como Antonioni, Fassbinder e Wenders.
A DESCOBERTA DO TEATRO Vivi em Paris durante toda a ocupação, criada de forma bastante rigorosa. Era proibida de ler jornais, de ver filmes, de ir ao teatro. Mas, nos momentos de ausência do meu pai, ficava um pouco mais fácil. Minhas amigas costumavam ir ao teatro. Éramos um grupo de quatro garotas. Menti para meu pai e fui com elas ver uma apresentação em um teatro de Paris, numa tarde. E era “Antígona”. Quando vi aquela performance, soube que ali era o local onde gostaria de estar. Por causa da heroína da peça, que diz ‘não’ ao poder, que se rebela. Quando contei em casa que queria ser atriz, meu pai me estapeou. Mas minha mãe me apoiava. Comecei a estudar no conservatório em 1937, mesma época em que peguei meus primeiros papéis na Comedie Française. Assinei um contrato com a Comedie em 1938 e comecei a fazer cinema naquela mesma época.
MALLE E TRUFFAUT Conheci Louis em 1957, depois de fazer “A Rainha Margot”, o primeiro filme francês em Tecnicolor, um grande sucesso. Estava no teatro na época, com Peter Brook, encenando “Gata em Teto de Zinco Quente”, de Tennessee Williams, quando recebi a visita de dois representantes da produtora de Louis Malle. Ele já era conhecido na época pelo filme que fez com Jacques Costeau [“O Mundo Silencioso”]. Meu agente não queria que eu trabalhasse com Malle. Ele disse: “Esse homem só sabe filmar peixes”. Mas eu me interessei por Malle e por suas ideias, troquei de agente e fiz “Ascensor para o Cadafalso”. Em 1957, estava com Louis em Cannes, para apresentar “Ascensor”, no antigo Palácio do Festival, quando vi um homem pequenino vindo em nossa direção. Era François Truffaut, que conhecia Louis. Em um momento em que Louis estava longe, François pediu meu telefone e disse que queria me mandar um livro. Era “Jules e Jim”. Quando estávamos filmando “Jules e Jim”, o coprodutor, de repente, parou de acreditar no filme, nas cenas que vira filmadas, e foi embora. Tivemos que parar as filmagens. Eu já tinha feito um bom dinheiro naquela época. Então disse a François: tenho dinheiro. E virei coprodutora do filme.
A ARTE E A NATUREZA HUMANA Na minha vida, todos os filmes, mesmo os que não foram bem-sucedidos, construíram quem eu sou, não só a atriz mas principalmente a mulher. Minha vida toda é dedicada à tentativa de descobrir a natureza humana. Temos uma vida que nos é dada e precisamos fazer alguma coisa com ela. Não só ganhar dinheiro, casar, ter filhos, ficar velhos e morrer sem entender porque estamos neste mundo. Temos que buscar respostas. E eu sempre tive uma enorme curiosidade em relação à vida. Tenho certeza que morrerei sem ter entendido a natureza humana, mas não vou deixar de tentar.
BUÑUEL E WELLES A criação de cada personagem é sempre diferente. Depende do diretor. Por exemplo, Don Luís [Buñuel, com quem ela fez “Diário de uma Camareira”] nunca falava sobre um filme ou um personagem. Nunca. Eu conhecia os filmes dele e intuía. Descobria o personagem só no set, pelas roupas que ele vestia. Orson [Welles, com quem fez quatro filmes] era parecido, ele não intelectualizava. Você nunca sabia o que iria filmar. Ele não deixava você ver o roteiro. Só dava algumas indicações, mas também era tudo muito intuitivo. Gosto assim. Conheço atores que gostam de decorar suas falas, estudá-las, decorá-las. Eu nunca decoro minhas falas. Mas leio o roteiro todos os dias. Do começo ao fim, para ver como o personagem se encaixa.
FÚRIA NO SET (sobre a briga que teve com os irmãos Hakim, produtores de “Eva”, em 1962) Estávamos muito desapontados, porque os produtores cortaram o dinheiro, curtaram cenas, não gostavam do filme, não corresponderam ao que esperávamos deles. Eu tinha imposto Joe Losey como diretor, e eles eram contra. Um dia, eles foram ao estúdio na Cinecittá. Havia uma mesa enorme no fundo, onde a equipe do filme comia. E havia uma faca grande para cortar pão. Eu ameacei um deles com uma faca. Disse que abriria o estômago dele, se ele não fosse embora. Ele foi.
FILMAGENS DE “JOANA FRANCESA” NO BRASIL Sou uma eterna viajante. Estou sempre de malas prontas. E Cacá me convidou, fiquei encantada com a ideia, com a possibilidade de conhecer um novo país. O que mais me lembro é da cachaça. Bebíamos muito. Lembro do calor. Da Dona Maria, da fazenda em que filmamos perto de Marechal Deodoro. Não havia hotéis lá. Tive que dormir em um convento. Era obrigada a estar no quarto antes das dez da noite, enquanto os brasileiros da produção ficavam se divertindo. Lembro-me de ter acordado uma vez no meio da noite com duas freiras me olhando. Foi uma experiência muito poderosa, durante dois meses. E, claro, outro momento forte foi gravar a canção de Chico [“Joana Francesa”, tema do filme]. Eu o conheci, Milton Nascimento e Caetano Veloso também estavam lá.
A “MALA” DO ATOR; A CRIAÇÃO DOS PERSONAGENS Orson me dizia que ser ator é como ter nascido em um trem que ficará rodando por décadas sem parar. E você precisa ter todo o necessário em uma mala. Guarde nessa mala sua história, ideias, emoções. Não deixe nada para trás. E você a usa quando o personagem pede. Quando tenho que retratar um ser humano nascido da imaginação, estou a serviço não só do diretor mas desse pessoa à qual entreguei minha carne, meu rosto, minha voz. Me entrego completamente para criar algo novo, que tem tudo de mim, mas que não se parece comigo. E, quando acabo um filme, me separo totalmente do personagem. Algumas vezes nem vejo os filmes prontos. Porque já vi o filme de perto demais.
MEDO DO PALCO E OS AMIGOS QUE MORRERAM Minha relação com os amigos que morreram é ainda tão importante quanto a que tenho com os vivos. Quando faço algo no palco, sempre há aquele momento de pânico, pouco antes da estreia, em que você esquece tudo, todo o trabalho que foi feito, a relação com outros atores, técnicos, o que o diretor espera de você. E de repente surge uma enorme calma. E eu dedico a noite a todas as pessoas que não estão lá. Amigos, família e todos esses homens e mulheres que foram e ainda são muito importantes para mim. Alguns atores encaram o palco como um ringue, como uma luta com o público. Eu não. Eu me entrego ao público com todo o amor de que sou capaz.
A ESTREIA COMO DIRETORA (com “Lumière”, de 1976) Queria contar uma história sobre relacionamentos entre atrizes, algo que surgiu de uma conversa com François Truffaut. Sempre dizem que as atrizes se odeiam, são inimigas. Eu achava tudo isso estranho, coisa de americano. Mas, quando casei com um americano [o diretor William Friedkin], descobri que essa competição existe nos EUA, porque o mercado é diferente, a razão pela qual eles fazem cinema é diferente. A bilheteria é muito mais importante, e surgem essas brigas. Por causa disso, comecei a escrever a partir de minha própria experiência. Conversei com Orson sobre isso. Ele foi a única pessoa que me encorajou a dirigir. Disse que eu conhecia a profissão, que estava sempre no set, e que tinha um desejo poderoso. E que, com um bom diretor de fotografia, eu conseguiria resolver qualquer dúvida técnica que tivesse. Quando falei com François, ele não gostou da história. Mandei o roteiro para ele. E ele me devolveu cheio de anotações. Já não era mais minha história, era dele. Me arrependo de não ter guardado aquele roteiro.
O FILME QUE NÃO FEZ Tinha um plano de fazer um filme sobre grandes atrizes na velhice. Sete grandes atrizes do cinema americano desde o nascimento do cinema. Comecei com Lillian Gish, fiz contato com Bette Davis e Ava Gardner. Greta Garbo também aceitou participar, desde que eu não filmasse o rosto dela. Eu queria filmar o andar dela. Na época, o produtor do filme, de quem eu era bastante próxima, ficou muito doente. Teve câncer no cérebro e se foi. E eu decidi abandonar o projeto.
A IMPORTÂNCIA DO CINEMA O cinema, como toda arte, representa uma rebelião de uma certa parte da sociedade. É muito saudável para qualquer país ter um cinema forte, que discuta as questões. E eu sou e sempre fui uma rebelde.
*
Leia mais sobre Jeanne Moreau na versão impressa da Folha deste sábado (Ilustrada, pág. E5).
Fotos Divulgação "35 Shots of Rhum", de Claire Denis, um dos filmes imperdíveis
Por Leonardo Cruz
Ainda falta pouco mais de um mês para a 33ª Mostra de SP, mas grande parte da programação do festival já está definida. Mais de 200 longas estão confirmados para o evento, que acontece de 22 de outubro a 5 de novembro. Muitos outros ainda devem entrar, e alterações ainda podem acontecer. A seguir, a lista dos filmes estrangeiros definidos até o momento, em ordem alfabética e seguindo os títulos divulgados pela Mostra. Os títulos em negrito são apostas e/ou recomendações do blog. Ao final do post, estão as homenagens e retrospectivas, que também ainda estão sujeitas a acréscimos e modificações.
“1ª Vez 16 mm”, de Rui Goulart (Portugal) “35 Shots of Rum”, de Claire Denis (França) “500 Dias com Ela”, de Marc Webb (EUA)
“A Farewell to Hemingway”, de Svetoslav Ovtcharov (Bulgária) "A Fita Branca", de Michael Haneke (Áustria) “A Frozen Flower”, de Yu Ha (Coreia) “A Man who Ate his Cherries”, de Payman Haghani (Irã) “À Procura de Eric”, de Ken Loach (Inglaterra) “A Religiosa Portuguesa”, de Eugéne Green (Portugal) “A Zona”, de Sandro Aguilar (Portugal) “Accidents Happen”, de Andrew Lancaster (Austrália) "Aconteceu em Woodstock", de Ang Lee (EUA) “Adam”, de Max Mayer (EUA) “Adam Resurrected”, de Paul Schrader (EUA) “Altiplano”, de Peter Brosens e Jessica Woodworth (Alemanha) “Amer”, de Hélène Cattet e Bruno Forzani (Bélgica, França) “American Swing”, de Jon Hart e Mathew Kaufman (EUA) “Amor en Tránsito”, de Lucas Blanco (Argentina) “Amreeka”, de Cherien Dabis (EUA) “Anaphylaxis”, de Ayman Mokhtar (Reino Unido) “Ander”, de Roberto Castón (Espanha) “Art Inconsequence”, de Robert Kaltenhaeuser (Alemanha) “Arte de Roubar”, de Leonel Vieira (Portugal)
“Backyard”, de Carlos Carrera (México) “Bad Day to Go Fishing”, de Alvaro Brechner (Espanha, Uruguai) “Bathory”, de Juraj Jakubisko (Eslováquia) “Be Calm and Count to Seven”, de Ramtin Lavafipour (Irã) “Being Mr. Kotschie”, de Norbert Baumgarten (Alemanha) “Beket”, de Davide Manuli (Itália) “Bilal”, de Sourav Sarangi (Índia) “Borderline”, de Lyne Charlebois (Canadá) “Bright Star”, de Jane Campion (Reino Unido) “Buddenbrooks”, de Heinrich Breloer (Alemanha)
“Carmel”, de Amos Gitaï (Israel, França) “Chasing Che”, de Alireza Rofougaran (Irã) “Cinerama”, de Inês de Oliveira (Portugal) “Coffin Rock”, de Rupert Glasson (Austrália) “Cold Souls”, de Sophie Barthes (EUA) “Colin”, de Marc Price (Reino Unido) “Comrade Couture”, de Marco Wilms (Alemanha) “Cooking with Stella”, de Dilip Mehta (Canadá) “Courting Condi”, de Sebastian Doggart (EUA, Reino Unido) “Coweb”, de Xin Xin Xiong (Hong Kong, China) “Crap’s Game”, de Ali Özgentürk (Turquia)
“Daniel & Ana”, de Michel Franco (México, Espanha) “Dark Buenos Aires”, de Ramon Termens (Espanha, Argentina) “Dear Lemon, Lima”, de Suzi Yoonessi (EUA) “Delphi - 6”, de Rakeysh Omprakash Mehra (Índia) “Desperados on the Block”, de Tomasz Emil Rudzik (Alemanha) “Dogtooth”, de Yorgos Lanthimos (Grécia) “Dorfpunks”, de Lars Jessen (Alemanha)
O grego "Dogtooth", prêmio da Um Certo Olhar em Cannes
“Efeitos Secundários”, de Paulo Rebelo (Portugal) “El Sistema”, de Paul Smaczny, Maria Stodtmeier (Alemanha) "Eastern Plays", de Kamen Kalev (Bulgária) “Every Little Step”, de James D. Stern e Adam Del Deo (EUA) “Everyone Else”, de Maren Ade (Alemanha)
“Fence”, de Toshi Fujiwara (Japão) “Film Is a Girl & a Gun”, de Gustav Deutsch (Áustria) "Food Inc.", de Rebert Kenner (EUA) “Formosa Betrayed”, de Adam Kane (EUA, Tailândia) “Frontier Blues”, de Babak Jalali (Irã, Reino Unido, Itália) “Futebol Brasileiro”, de Miki Kuretani (Japão)
“German Souls”, de Martin Farkas, Matthias Zuber (Alemanha) “Germany 09”, de Fatih Akin, Tom Tykwer e outros (Alemanha) “Go Get Some Rosemary”, de Joshua e Ben Safdie (EUA) “Green Water”, de Mariano de Rosa (Argentina)
“Hair India”, de Raffaele Brunetti e Marco Leopardi (Itália) “Hangtime”, de Wolfgang Groos (Alemanha) “Havan York”, de Luciano Larobina (México) “Heiran”, de Shalizeh Arefpour (Irã) “Henri-Georges Clouzot’s Inferno”, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea (França) “Huacho”, de Alejandro Fernández Almendras (Chile) “Humpday”, de Lynn Shelton (EUA)
“Ibrahim Labyad”, de Marwan Hamed (Egito) “Initiation”, de Peter Kern (Áustria) “Into The Lion’s Den”, de Nicolas Bénac, Cedric Robion (França) "Irene", de Alain Cavalier (França)
"Katalin Varga", de Peter Strickland (Romênia) “Kalandia - A Checkpoint Story”, de Neta Efrony (Israel) “Kicks”, de Lindy Heymann (Reino Unido) “Kids and Kids”, de Zhang Feng (China) “King Hugo and His Dumsel”, de Franco De Peña (Polônia, Venezuela)
“La Guerre des Fils de la Lumière Contre les Fils des Ténèbres”, de Amos Gitaï (França) “La Pivellina”, de Rainer Frimmel e Tizza Covi (Áustria, Itália) "Les Beaux Gosses", de Riad Sattouf (França) "Les Herbes Folles", de Alain Resnais (França) “Life in the Building Blocks”, de Alfredo Hueck, Carlos Caridad (Venezuela) “Little Joe”, de Nicole Haeusser (EUA) “London River”, de Rachid Bouchareb (Reino Unido, França, Argélia)
“Madholal Keep Walking”, de Jaí Tank (Índia) “Mamachas of the Ring”, de Betty M Park (Bolívia, EUA) “Menino Peixe”, de Lucía Puenzo (Argentina) “Miss Stinnes Motors Round the World”, de Erica von Moeller (Alemanha) “Morrer como um Homem”, de João Pedro Rodrigues (Portugal, França) “Mother”, de Bong Joon-ho (Coreia)
“O Cerco - A Democracia nas Malhas do Neoliberalismo”, de Richard Broullitte (Canadá) “O Fantástico Sr. Raposo”, de Wes Anderson (EUA) "O Imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gilliam (Reino Unido) “Of Heart and Courage, Ballet Bejart Lausanne”, de Arantxa Aguirre (Espanha) “Of Parents and Children”, de Vladimir Michalek (República Tcheca) “On Foot”, de Fereydoun Hasanpour (Irã) “One Week”, de Michael McGowan (Canadá) “Only When I Dance”, de Beadie Finzi (Reino Unido) “Os Sorrisos do Destino”, de Fernando Lopes (Portugal) “Outrage”, de Kirby Dick (EUA) “Oye Lucky! Lucky Oye!", de Dibakar Banerjee (Índia)
"Politist, Adjectiv", mais um destaque do cinema romeno
“Paperplanes”, de Simon Szabó (Hungria) “Partners”, de Frederic Mermoud (França, Suíça) “Peter & Vandy”, de Jay Di Pieto (EUA) “The Private Lives of Pippa Lee”, de Rebecca Miller (EUA) “Playground”, de Libby Spears (EUA) "Politist, Adjectiv", de Corneliu Porumboiu (Romênia) “Prank”, de Péter Gárdos (Hungria) "Polytechnique", de Denis Villeneuve (Canadá)
“Ramirez”, de Albert Arizza (Espanha) “Red Sunrise”, de Gianfranco Pannone (Itália) “Salvage”, de Lawrence Gough (Reino Unido) “Samson & Delilah”, de Warwick Thornton (Austrália) “Searching for the Elephant”, de S. K. Jhung (Coreia) “Sede de Sangue”, de Park Chan-wook (Coreia) “Sex Volunteer”, de Kyeong-duk Cho (Coreia) “She, a Chinese”, de Xioalu Guo (China) “Shirin”, de Abbas Kiarostami (Irã) “Should I Really do It?”, de Ismail Necmi (Turquia) “Singularidades de uma Rapariga Loura”, de Manoel de Oliveira (Portugal) “Sleeping Soungs”, de Andreas Struck (Alemanha) “Spiral”, de Jorge Pérez Solano (México) “Still Walking”, de Hirokazu Kore-Eda (Japão) “Super Star”, de Tahmineh Milani (Irã) “Sweet Rush”, de Andrzej Wajda (Polônia)
"Tales From the Golden Age", de Cristian Mungiu e outros (Romênia) "The 40th Door”, de Elchin Musaoglu (Azerbaijão) “The Anarchist’s Wife”, de Marie Noëlle, Peter Sehr (Alemanha) “The Arrivals”, de Claudine Bories, Patrice Chagnard (França) “The Dispensables”, de Andreas Arnstedt (Alemanha) “The Invention of Flesh”, de Santiago Loza (Argentina) “The Mermaid and the Diver”, de Mercedes Moncada Rodriguez (Espanha, México) “The Misfortunates”, de Felix van Groeningen (Bélgica) “The Nature of Existence”, de Roger Nygard (EUA) “The People I’ve Slept With”, de Quentin Lee (Canadá, EUA) “The Pope’s Miracle”, de Pepe Valle (México) “The Red Spot”, de Marie Miyayama (Alemanha) “The Room in the Mirror”, de Rubi Gaul (Alemanha) “The Stoning of Soraya M.”, de Cyrus Nowrasteh (EUA) “The Wolberg Family”, de Axelle Ropert (França) “This Very Instant”, de Manuel Huerga (Espanha) “Tide of Sand”, de Gustavo Montiel Pagés (México-Argentina) “Todos Mentem”, de Matías Piñeiro (Argentina) “Tokyo!”, de Michel Gondry, Leos Carax, Bong Joon-ho (França, Japão, Alemanha) “Tom Zé Astronauta Libertado” (Tom Zé Liberated Astronaut), de Ígor Iglesias González (Espanha) “Tomorrow at Dawn”, de Denis Dercourt (França) “Trimpin: O Som da Invenção”, de Peter Esmonde (EUA) “Tsar”, de Pavel Luguin (Rússia) "Twenty", de Abdolreza Kahani (Irã)
“Under Rich Earth”, de Malcoml Rogge (Canadá, Equador) “Unmade Beds”, de Alexis dos Santos (Inglaterra) “Unmistaken Child”, de Nati Baratz (Israel)
"Vincere", de Marco Bellocchio, destaque de Cannes-09
"Vincere", de Marco Bellocchio (Itália)
“Ward Number 6”, de Karen Shakhnazarov (Rússia) “West of Pluto”, de Henry Bernadet, Myriam Verreault (Canadá) “When the Lemons Turned Yellow...”, de Mohammad Reza Vatandoost (Irã) “White on Rice”, de Dave Boyle (EUA, Japão) “Wolson: Aria of the Straits”, de Ota Shinichi (Japão) “Worldrevolution”, de Klaus Hundsbichler (Áustria)
“Zapping-Alien@Mozart-Balls”, de Vitus Zepichal (Alemanha, Áustria) “Zero”, de Pawel Borowski (Polônia)
RETROSPECTIVA DE THEO ANGELOPOULOS “Dust of Time” “Paisagem na Neblina” “A Eternidade e um Dia” “O Passo Suspenso da Cegonha” “Um Olhar a Cada Dia” “O Vale dos Lamentos”
RETROSPECTIVA DE GIAN VITTORIO BALDI (filmes dirigidos e produzidos por ele) “Fuoco!”, de Gian Vittorio Baldi (Itália) “Il Cielo Sopra di Me”, de Gian Vittorio Baldi (Itália) “Luciano, una Vita Bruciata”, de Gian Vittorio Baldi (Itália) “Nevrijeme, Il Temporale”, de Gian Vittorio Baldi (Itália) “Ultimo Giorno di Scuola Prima Delle Vacanze di Natale”, de Gian Vittorio Baldi (Itália) “Appunti Per Un’Orestiade Africana”, de Pier Paolo Pasolini (Itália) “Cronaca di Anna Magdalena Bach”, de Danièle Huillet, Jean-Marie Straub (Itália) “Diario di una Schizofrenica”, de Nelo Risi (Itália) “Porcile”, de Pier Paolo Pasolini (Itália, França)
PANORAAM DO CINEMA SUECO “Corações em Conflito”, de Lukas Moodysson “Metropia”, de Tarik Saleh “Mr. Governor”, de Mans Mansson “Quase Elvis” (Almost Elvis), de Petra Revenue “The Ape”, de Jesper Ganslandt “The Eagle Hunter’s Son”, de Renè Bo Hansen “The Great Adventure”, de Arne Sucksdorff “The King of Ping Pong”, de Jens Jonsson “The Swimsuit Issue”, de Mans Herngren
“Os Emigrantes” (The Emigrants), de Jan Troell “Everlasting Moments”, de Jan Troell “The New Land”, de Jan Troell “Who Saw Him Die?”, de Jan Troell
“Gabrielle”, de Hasse Ekman “Girl with Hyacinths”, de Hasse Ekman “Ombyte Av Tág”, de Hasse Ekman “The Banquet”, de Hasse Ekman “Wandering with The Moon”, de Hasse Ekman
HOMENAGEM A FANNY ARDANT "Cinza Sangue”, de Fanny Ardant (França) “A Mulher do Lado”, de François Truffaut (França) “Crimes de Autor”, de Claude Lelouch (França) “De Repente, Num Domingo”, de François Truffaut (França)
*
Leia mais na versão impressa da Ilustrada deste sábado (pág. E6)
Divulgação O filipino Brillante Mendoza: oito filmes em cinco anos
Por Leonardo Cruz
Brillante Mendoza chega nesta quinta a São Paulo como principal convidado do Indie, o festival que acontece até o próximo dia 24 no Cinesesc. Nome ascendente no circuito internacional de festivais, o cineasta filipino disputou a Palma de Ouro em Cannes em 2008, com “Serbis”, e em 2009, com “Kinatay”, pelo qual recebeu o prêmio de melhor diretor. Na semana passada, apresentou no Festival de Veneza seu segundo filme do ano, “Lola”, que também disputou o Leão de Ouro.
O público do Indie poderá ver, de graça, sete dos oito longas de Mendoza _só “Lola” não veio. A convite do blog, o diretor filipino comentou cada um dos filmes que serão exibidos por aqui. Leia abaixo.
“Massagista” (2005) A rotina de Iliac, massagista de clientela gay, moralmente dividido entre o trabalho e a origem de família religiosa. Quando: amanhã, às 24h; quarta, às 22h40
“Foi o trabalho que mudou minha vida. Alterou minha perspectiva sobre cinema, me fez abandonar a publicidade. Acho que poderia ter feito um filme melhor, mas fiquei satisfeito com o resultado. No fundo é uma história de amor. Mas eu não queria que fosse uma história romântica, melodramática, sobre um cara fazendo massagem em um prostíbulo. Queria mostrar as coisas como elas eram, o tipo de gente que vivia lá, sem filtros.”
“A Professora” (2006) A vida numa comunidade indígena filipina pelos olhos de uma garota de 13 anos que alfabetiza adultos, num esforço para que eles votem nas eleições. Quando: segunda, às 16h30
“Eu tinha vontade de retratar essas pessoas, que habitam uma região de montanhas e são conhecidos como ‘africanos filipinos’, porque são negros e têm cabelos encaracolados. É um povo socialmente deslocado, isolado, e isso me atraía. Nessa época, depois de ‘Massagista’, tive muitas ofertas para fazer filmes comerciais, mas abri mão, porque eu já tinha feito publicidade. Seria quase a mesma coisa."
“Kaleldo” (2006) As relações entre um pai dominador e suas três filhas ao longo de uma temporada de verão nas Filipinas. Quando: sábado, às 20h20; quinta, às 22h20
“Tentei fazer uma experiência, um filme um pouco mais comercial, com atores famosos nas Filipinas, mas mantendo meu estilo, minhas ideias. Por causa do elenco, foi meu filme de maior sucesso no país. Mas não funcionou.”
“John John” (2007) Thelma é a assistente social contratada para dar abrigo e cuidar de órfãos até que eles sejam adotados. Quando: domingo, às 18h30
“Esse é um assunto muito caro para mim, porque tenho uma filha adotiva. Não tinha como errar, porque é um tema ao qual eu estava emocionalmente muito ligado. Consegui contar a história ao meu modo, com liberdade para fazer o que queria.”
“Tirador” (2007) Batedores de carteiras e políticos em campanha se misturam nas favelas de um bairro comercial de Manila. Quando: sábado, às 16h45; terça, às 22h
“É um olhar cínico sobre o sistema político filipino. No começo, um filme sobre os pequenos ladrões, mas, no fundo, uma crítica aos grandes trapaceiros que dominam a política do país.”
“Serbis” (2008) Um cinema decadente, que exibe filmes pornôs e atrai garotos de programa, é também a casa de uma família. Quando: domingo, às 22h50
“Em um país muito católico e conservador como as Filipinas, quis discutir o que é moral e o que é imoral. E o que uma família é capaz de fazer para continuar junto, unida.”
“Kinatay” (2009) Para ganhar um dinheiro extra, um aspirante a policial se envolve no sequestro de uma prostituta. Quando: hoje, às 20h30 (apenas para convidados)
“É todo baseado em um depoimento real, um comentário sobre como atua a polícia filipina e como a vida cotidiana no país é perigosa.”
*
Confira mais trechos da entrevista com Brillante Mendoza na pág. E6 da versão impressa da Ilustrada desta quinta.
Divulgação "A Fuga da Mulher-Gorila", um dos filmes da nova Semana dos Realizadores
Por Leonardo Cruz
Um cinema brasileiro mais autoral, mais arriscado, menos preocupado com resultados comerciais a curto prazo. E que busca espaço para ser visto. Essa é a proposta da Semana dos Realizadores, mostra organizada por um grupo de diretores (e curadores de festivais) que começa nesta sexta no Rio.
Há cerca de dez dias, Eduardo Valente, Felipe Bragança, Gustavo Spolidoro, Helvécio Marins Jr., Kléber Mendonça Filho, Lis Kogan e Marina Meliande colocaram de pé o evento, que apresentará 19 filmes, entre curtas, médias e longas, no Unibanco Arteplex, na praia de Botafogo.
A inspiração, como o nome deixa claro, é a Quinzena dos Realizadores, a mostra paralela ao Festival de Cannes que surgiu há 40 anos como um desafogo para uma produção que não cabia mais na programação oficial. Nesse raciocínio, a Semana se coloca como uma alternativa ao Festival do Rio, que vai de 24/9 a 8/10 e exibe mais de 300 títulos.
"O Festival do Rio cresceu muito, reunindo filmes muitos diferentes entre si, numa programação sem um rumo muito claro", diz Valente, crítico de cinema, editor da revista Cinética e cineasta. "E esse cinema de matriz mais autoral ficaria deslocado, marginal demais na programação", completa o diretor de "No Meu Lugar", apresentado em Cannes neste ano e que passará na Semana.
Além de "No Meu Lugar", outros destaques da mostra são "A Fuga da Mulher-Gorila", de Felipe Bragança e Marina Meliande, recém-exibido no Festival de Locarno, e "Morro do Céu", de Gustavo Spolidoro, o mesmo de "Ainda Orangotangos".
Valente rebate o argumento que o projeto seria a "Semana dos Recusados", de longas que teriam sido rejeitados pelo Festival do Rio. "Boa parte desses filmes nem foi inscrita no festival. Três receberam convite para participar, mas não quiseram", comenta o diretor, que evita uma posição de confronto com a maior mostra de cinema carioca. "Não queremos atentar contra ninguém nem criar polêmicas. Só queremos que esses filmes sejam de fato vistos."
Encerrado o sexto dia do Festival de Veneza, já é possível apontar alguns destaques da competição pelo Leão de Ouro e afirmar que 2009 já se mostra bem mais interessante que 2008. A seguir, alguns highlights desta primeira metade do festival, que vai até o próximo sábado.
1. “White Material” - Sem dúvida o melhor filme da competição até aqui. É a veterana Claire Denis, diretora francesa pouco conhecida no Brasil, mas de grandes filmes como “Beau Travail” (2001). Agora, ela dirige Isabelle Huppert num filme que tem como cenário Camarões à beira de uma guerra civil. Huppert é a francesa branca que tem uma fazenda de café no meio de um país negro em convulsão social. Contrariando todos os avisos, ele decide ficar e defender sua propriedade. É um filme sobre a incapacidade de enxergar, de ver o que se passa ao nosso redor, e sobre o que é o sentimento de posse, sobre coisas e pessoas.
2. “Persécution” - Patrice Chéreau conta a história de um homem rancoroso (Romain Duris), agressivo com os amigos, em crise constante com a namorada (Charlotte Gainsbourg) e que, de súbito, começa a ser perseguido por um desconhecido. Um filme em que tudo parece fora de lugar, sobre os tempos angustiados em que vivemos.
3. Duas Vezes Herzog - O diretor alemão dominou o final de semana. Depois de exibir sua refilmagem de “Vício Frenético” na sexta, reapareceu no sábado, com o filme-surpresa “My Son, My Son, What Have Ye Done?”. No primeiro, Herzog se afasta radicalmente do original de Abel Ferrara. Seu “The Bad Lieutenant” é quase uma paródia do filme de 1992, ao mesmo tempo que uma reflexão sobre a América ficou mais cínica desde então. “My Son, My Son” é tudo o que você poderia esperar de uma parceria entre Herzog e David Lynch (que assina a produção). Brad Macallam (Michael Shannon) é o homem que mata a mãe a golpes de espada e se tranca em casa com reféns. Ele ainda possui dois flamingos de estimação, mora numa casa cor de rosa e crê ter encontrado o rosto de Deus no rótulo de uma lata de aveia. Sacou o espírito?
4. “Capitalism, a Love Story” - Ah, esse Michael Moore. Sensacionalista, manipulador, autocentrado, o documentarista americano usa todos esses defeitos para fazer um filme extremamente engraçado e sedutor sobre a relação que os EUA têm com seu sistema econômico. Leia a crítica completa aqui.
5. “35 Vues du Pic Saint Loup” - depois do ótimo “Não Toque no Machado” (2007), Jacques Rivette retorna com uma comédia dramática bem-humorada e de enorme leveza. Sergio Castellito interpreta um viajante que cruza a França em seu Porsche conversível e encontra pelo caminho Kate (Jane Birkin), uma ex-acróbata que reencontra sua trupe circense após 15 anos de ausência. Se no filme anterior Rivette explorava os espaços fechados de um convento para construir sua ficção, aqui o picadeiro do circo é o espaço para desenvolver as relações de seus personagens.
*
Acompanhe a cobertura diária do Festival de Veneza na versão impressa da Ilustrada.
Divulgação Louis Malle, em 1969, filma "A Índia Fantasma"
Por Leonardo Cruz
Saiu a programação da segunda metade do É Tudo Verdade, o festival internacional de documentários. Para quem não se lembra, a mostra deste ano foi dividida em duas partes – na primeira, realizada em abril, foram concentradas as seções competitivas nacional e internacional.
Agora é a hora do bis, com as mostras especiais, não-competitivas, que acontecem de 31 de agosto a 7 de setembro na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e de 4 a 12 de setembro no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. E o chorinho é generoso: tem Louis Malle, Robert Drew, dois docs nacionais inéditos, um pacote iraniano e um filme que reúne depoimentos dos principais documentaristas do mundo.
A retrospectiva de Malle parece ser o mais suculento. São sete documentários do cineasta francês cuja carreira ficou marcada por ficções como “Ascensor para o Cadafalso” (1958), “O Sopro do Coração” (1971) e “Adeus Meninos” (1987). Entre os filmes do lado B do É Tudo Verdade estão “Humano, Demasiadamente Humano”, que acompanha os trabalhos na fábrica da Citroën em 1972, e dois episódios da série “A Índia Fantasma”, fruto de quatro meses de viagens do cineasta pelo país em 1969.
Robert Drew volta a abordar seu tema favorito em “Um Presidente a Lembrar - Na Companhia de John F. Kennedy”. O filme é composto por imagem dos filmes que Drew fez sobre JFK nos anos 60, incluindo “Primárias”, marco do cinema direto norte-americano. O material de divulgação do filme, disponível no site de Drew, diz que trata-se que uma “inteligente montagem” das quatro obras sobre Kennedy. A conferir se o cineasta, aos 85 anos, conseguiu de fato extrair uma reflexão nova desse material antigo.
A história social e política do Brasil surge nos dois docs nacionais. “Fordlândia”, de Daniel Augusto e Marinho Andrade, volta ao Pará dos anos 20 para mostrar o que foi a cidade fundada por Henry Ford no meio da Amazônia. Já “Ecos”, de Pedro Henrique França e Guilherme Menechini, trata da trajetória de Toninho do PT, o prefeito de Campinas que foi assassinado em setembro de 2001.
O panorama iraniano tem três filmes. “A Rainha e Eu”, de Nadih Persson, tem em seu centro Farah Diba Pahlevi, viúva do ex-xá do Irã. “Um Povo nas Sombras”, de Bani Khoshnoudi, faz uma viagem pela Teerã atual. “Cartas ao Presidente”, que abriu o É Tudo Verdade 2009, completa o pacote – o filme de Petr Lom sobre as viagens de Mahmoud Ahmadinejad será reapresentado.
Para os estudiosos de assunto, “Capturando a Realidade – A Arte do Documentário” é o filme imperdível deste lado B. A diretora Pepita Ferrari discute a importância do documentários com 33 cineastas, incluindo, Werner Herzog, Errol Morris e Eduardo Coutinho. A seguir, veja o trailer.
“Ao propor a encenação, Eduardo Coutinho sabia estar fazendo uma aposta de risco. Esperava que o confronto das personalidades envolvidas no ensaio fizesse surgir algo que pudesse documentar. Mas gravou cerca de 80 horas, com duas câmeras, e nada de interessante ocorreu. Influiu nesse resultado, sem dúvida, a aparente falta de engajamento das atrizes e dos atores, apesar de advertidos, logo no início, de que não poderiam ‘ficar só brincando’. Mais decisiva ainda foi a omissão deliberada do próprio Coutinho. Desde o início, embora decepcionado com o resultado dos ensaios, deixou de intervir e redirecionar o projeto.”
Esse é o trecho mais contundente da crítica que o cineasta e montador Eduardo Escorel faz de “Moscou”, o novo documentário de Eduardo Coutinho, que entra em cartaz em São Paulo na próxima sexta. O texto “Coutinho não sabe o que fazer”, publicado na página 62 da revista “Piauí” deste mês, é a primeira avaliação francamente negativa sobre “Moscou” –até então, o longa fora motivo de resenhas merecidamente positivas quando passou no Festival É Tudo Verdade, em abril, e de prêmio no Festival de Paulínia, no mês passado.
A nova obra registra os ensaios que o Galpão, grupo teatral mineiro, fez de “As Três Irmãs”, de Tchecov, a pedido de Coutinho. A peça não seria encenada depois, o que interessava ao diretor era acompanhar o processo de criação.
Poucas pessoas entendem mais de documentário no Brasil do que Escorel, tanto na teoria quanto na prática. Ele coordena o curso de pós-graduação sobre o assunto da Fundação Getulio Vargas. Entre os filmes que dirigiu, estão “Vocação do Poder” (2005) e “Bethânia Bem de Perto” (1966). Entre os que montou, “Santiago” (2007) e “Fé” (1998). Além de ter conhecimento de causa, Escorel é amigo de Coutinho e assina a montagem do filme mais conhecido dele, “Cabra Marcado Para Morrer” (1984), clássico do documentário nacional.
Em conversa com a repórter da Ilustrada Fernanda Ezabella na última sexta-feira, Coutinho comentou a análise do amigo e a crítica pública feita por ele:
"Eu estava perdido. E mesmo a minha montadora, que não conhecia o material e depois de três meses ficou envolvida, não tinha como solucionar isso. Aí veio uma pessoa de fora, veio o Escorel, e disse: ‘Aqui não tem filme’. Ele acaba de publicar um artigo em que fala isso: Quando tinha 20 horas e depois com o filme pronto, ele continuou a dizer que não era um filme."
Coutinho lembrou que Escorel também fez uma avaliação negativa de “Santo Forte” (1999), documentário que marcou a retomada de sua carreira. “Ele achou que nunca seria um filme, que seria uma tortura. E errou. E depois reconheceu que tinha avaliado mal. Só espero que agora ele esteja errado também.”
Na avaliação de Coutinho, Escorel tem ressalvas não só a “Santo Forte” e “Moscou”:
“Eu considero que todos os filmes que eu fiz depois, mesmo ‘Santo Forte’, que ele não gosta desse tipo de cinema. [...] Vou continuar amigo dele, mas há uma incompatibilidade com ele na coisa que eu faço. Ele continua meu amigo. Fez o artigo, detona o filme. Eu só lamento porque é em cima do lançamento.”
*
Na versão impressa da Ilustrada de hoje, Coutinho conta que “Moscou” foi seu filme mais difícil, de montagem mais longa (cinco meses) e que pensou em parar de fazer cinema. “Foi uma crise realmente muito forte”, disse o diretor a Fernanda Ezabella.
Além da reportagem, a Ilustrada publica duas resenhas de “Moscou”, ambas positivas. Para o crítico Inácio Araujo, o filme representa um ao mesmo tempo uma sequência da obra de Coutinho e um recomeço. Para o romancista Bernardo Carvalho, o diretor cria uma analogia entre o projeto de filmar um ensaio, uma obra inacabada, e a vida frustrada das personagens de Tchecov.
Assinantes da Folha ou do UOL podem ler esses três textos aqui, a partir da manhã desta terça.
Carol Sachs/Divulgação Paulo José, em "Insolação", um dos brasileiros em Veneza-09
Por Leonardo Cruz
Dois filmes brasileiros foram selecionados para a 66a edição do Festival de Veneza, que acontece de 2 a 12 de setembro.
“Insolação”, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, serão exibidos dentro da seção Horizontes, principal mostra paralela competitiva do festival italiano.
“Insolação” entrelaça quatro histórias baseadas em contos russos do final do século 19 – em comum, todas tem o amor como tema. Daniela e Felipe são parceiros de longa data no teatro, e ele faz sua estreia na direção em cinema. Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Leandra Leal estão no elenco.
“Viajo Porque Preciso” também é fruto do trabalho de dois antigos parceiros. Entre outros trabalhos, Karim e Marcelo escreverem juntos os roteiros de “Madame Satã”, dirigido por pelo primeiro, e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, dirigido pelo segundo. O novo longa é uma narrativa ficcional que usa como base imagens que os cineastas captaram na virada do milênio para um documentário chamado “Sertão de Acrílico Azul Piscina”. Conta a história de uma pessoa que viaja e vive uma desilusão amorosa.
A lista completa de filmes de Veneza 2009 está aqui. Entre os destaques, os novos filmes de Werner Herzog, Jacques Rivette, Claire Denis, Fatih Akin e Michael Moore.
Kimberly White/Reuters Werner Herzog, que diz ver apenas dois filmes por ano
Por Fernanda Ezabella (em Los Angeles)
O diretor alemão Werner Herzog, 66, tem dois longas inéditos na manga e um curta que rodou na Etiópia, além de uma ópera montada na Espanha e um livro em inglês, tudo realizado nos últimos 11 meses.
A seguir, leia trechos inéditos da entrevista que o cineasta deu à Folha, em sua casa em Los Angeles, cidade onde mora há cerca de dez anos. Aqui, ele fala sobre Hollywood, reality shows, financiamento de filmes e a busca pelo “êxtase da verdade”.
Como é viver em Los Angeles, onde se concentra a indústria do cinema? Ela existe, mas não me afeta. Não que eu vá dizer que é ridícula. É como deve ser. Eu amo alguns filmes de Hollywood, como os filmes de Fred Astaire, são alguns dos melhores que Hollywood já criou. Então, tem sua beleza. Mas só por coincidência eu vivo aqui. Não sou parte disso. Hollywood é uma definição cultural. Quando você vê “Transformers” ou “Transporters”, qual é mesmo o nome? Existe uma certa definição cultural ali. E a minha definição cultural é bavariana.
Mas também existem os filmes independentes em Hollywood. Cinema independente não existe. É um mito. Cinema independente apenas existe nos filmes caseiros, que você faz nas férias, na praia no Havaí, para mostrar para sua família. Todo o resto é dependente, de finanças, sistema de distribuição, mídia, de tudo, dos sindicatos, sindicatos de atores, diretores, roteiritistas.
E quanto aos programas de TV americanos? Li que o senhor gostava dos reality shows. Não, não vejo nada. Na época assisti ao [reality] da [ex-coelhinha da ‘Playboy’] Ann Nicole Smith. Claro que ela era um fenômeno interessante, porque você tem que pensar em novos ícones de “beleza”, e eu tenho que dizer isso entre aspas. É uma beleza disforme, como os bodybuilders. Quase grotesco. E por causa disso ela era um fenômeno interessante. O que te faz dizer então que Los Angeles é a cidade com mais substância dos Estados Unidos? Por exemplo, o Museum of Jurassic Technologies, que provavelmente você nunca conheceu. Foi um homem genial que o fundou, fica no Venice Boulevard e muito do conteúdo do museu é completamente fantástico. E a 30 minutes daqui, em Pasadena, tem um laboratório de aviões a jato, com um centro de controle de inúmeras missões e um arquivo da Nasa com milhões e milhões de coisas preservadas de explorações do nosso sistema solar, da Lua. Los Angeles é cheia de coisas assim. E você encontra aqui os melhores escritores, fotógrafos, músicos, as coisas realmente são feitas aqui. Mas você precisa olhar além da superfície. E eu vivo completamente além da superfície. Por isso as pessoas mal sabem que eu vivo aqui.
O senhor costuma ir com que frequência aos cinemas? Eu raramente vejo filmes. Nunca vou a nenhuma première de cinema, vejo talvez dois filmes por ano.
Por quê? Não sei. Não tenho muito tempo de ver filmes. Nos últimos 11 meses, eu fiz dois longas-metragens e um curta na Etiópia. Fiz uma ópera (Parsifal) em Valência, publiquei o livro “Conquest of the Useless” em inglês e trabalhei muito na sua tradução, e agora estou preparando outros projetos. Não sou um workaholic, eu trabalho muito focado e quieto e é isso. Eu nunca fui de ver muitos filmes. Nunca, nunca. Nem quando era mais jovem e decidiu fazer cinema? Não, eu não via muitos filmes.
O senhor gosta de dizer que o cinema verdade [vertente do documentário] não vai a fundo na verdade. Mas, ao mesmo tempo, diz que seus documentários não são documentários. Isso me levaria 48 horas para explicar. Mas, para encurtar, digo que estou atrás de algo diferente do que o cinema verdade, simplesmente porque o cinema verdade é muito baseado em fatos, e fatos não signifcam necessariamente a verdade.
Mas, quando você faz um documentário, você encena, repete as cenas várias vezes. Como acha que está chegando mais perto da verdade assim? Estou chegando perto da poesia, perto da imaginação, de algo que nos ilumina. E daí temos outra qualidade de verdade nisso, é um êxtase da verdade. E da onde vêm as ideias para tantos filmes? Elas sempre vêm até mim, como uma invasão, como ladrões na calada da noite, invadindo uma casa. Agora, enquanto estamos sentados aqui, sete, oito novos projetos estão forçando a porta para entrar. Não é que eu fico planejando uma carreira, eu nunca tive uma carreira. Você vê, outros [diretores] vão atrás de livros best-sellers, recém-lançados, para ver o que dá para transformar em um filme. Eu nunca estive nisso. Mas você pode ficar tranquila, eu tenho muitas histórias boas ainda para contar. Ficou mais fácil para financiar seus filmes hoje? Nao. É mais difícil hoje.
Por quê? Não vou falar da crise financeira, que claro que dificulta as coisas. Mas todos os distribuidores que existiam dos meus filmes, ou as distribuidoras dos meus filmes no Brasil e outros lugares, se extinguiram. E o público quase do mundo inteiro mudou sua atenção para filmes mais como “O Exterminador do Futuro” e menos para filmes como “Aguirre”. Então é uma grande mudança. E agora a atenção é mais para a internet. Mas eu nunca vou reclamar, porque sempre dou um jeito de fazer o meu próximo filme, e o próximo e o próximo.
*
LEIA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA Este post complementa a longa entrevista com Werner Herzog publicada na versão impressa da Ilustrada deste domingo. Nela, o cineasta alemão fala sobre as filmagens de “Fitzcarraldo” no Brasil e no Peru, tema do livro “Conquest of the Useless”, em que Herzog publica seus diários sobre o período em que passou na selva amazônica rodando o longa. Fala também de sua relação com Glauber e diz que Garrincha é um de seus grandes ídolos. Assinantes da Folha e do UOL podem ler a íntegra dessa entrevista aqui, a partir da manhã deste domingo.
Começam a tomar forma as esperadas mudanças editoriais da “Cahiers du Cinéma”. A revista de cinema mais famosa do mundo anunciou nesta semana, em um comunicado em seu site, que Stéphane Delorme será seu novo editor-chefe, responsável por “liderar a reformulação” da publicação mensal.
Este é o primeiro passo concreto de mudança da “Cahiers” depois que a revista foi comprada pelo grupo editorial britânico Phaidon Books, especializado em livros de arte. O anúncio desta semana deixa claro que o publisher da Phaidon, Richard Schlagman, vai acompanhar de perto o trabalho do novo editor.
O comunicado diz que, trabalhando com Schlagman, “Delorme focará na revitalização da ‘Cahiers’, desenvolvendo uma revista que se coloque no coração da cultura fílmica contemporânea, que fale aos cinéfilos de hoje e que consolide o papel central da ‘Cahiers’ na produção cinematográfica internacional”.
O resultado prático de todo esse bonito blablablá ainda é um mistério. Mas a verdade é que a “Cahiers” precisa mesmo de um “extreme makeover” já há um bom tempo. Publicação que redefiniu a crítica de cinema no mundo a partir de sua fundação em 1951, com nomes como André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, a “Cahiers” perdeu o fôlego e deixou de ser a revista mais influente para quem se interessa por cinema _para ficar num único exemplo, a norte-americana “Film Comment” faz hoje um trabalho bem mais interessante.
Ao menos em teoria, a escolha de Delorme é interessante. Aos 35 anos, ele é crítico da “Cahiers” desde 1998 e integra o conselho editorial da revista desde 2001 _e tem um dos melhores textos da revista nos últimos anos. Também faz parte do comitê de seleção da Quinzena dos Realizadores, a mostra mais ousada do Festival de Cannes. Delorme já apontou como subeditor outro nome em ascensão na crítica francesa, Jean-Philippe Tessé, 32.
A revista manterá seu visual atual até o fim deste ano e deverá apresentar um novo projeto gráfico e editorial no início de 2010. E Delorme promete “levar vida nova à ‘Cahiers’, abri-la ao exterior e transformá-la em um lugar de desejo, entusiasmo, criatividade e troca de ideias”. A ver se consegue.
*
O primeiro aniversário da pequena “Juliette”
Manter um revista de cinema no Brasil é quase impossível. Especialmente se tal revista não estampa em suas capas os Harry Potters ou Transformers da vida. Fazê-lo fora do eixo Rio-SP, sem o suporte de uma grande editora, é ainda mais complicado. Por isso, é admirável que a revista “Juliette” complete agora seu primeiro aniversário.
Publicação mensal editada em Curitiba por Josiane Orvatich e Rafael Urban, a “Juliette” chega a seu décimo número, sempre focada no cinema autoral e independente. A revista tem um visual delicado –cada edição ganha singelas ilustrações de um artista convidado– e oferece entrevistas, ensaios e críticas.
Nas duas edições que li (maio e junho/09), os textos eram em geral bem escritos, com destaque para o perfil da cineasta argentina Lucrecia Martel e a entrevista com o documentarista João Moreira Salles, ambos do número de junho. Se há uma ressalva a fazer, é a temperatura. O destaque de maio, por exemplo, foi para Marcos Jorge, de “Estômago”, filme de sucesso em 2008. Na edição de junho, há um ensaio sobre “Che - o Argentino”, muito depois de o filme ter saído de cartaz.
Relevado isso, a “Juliette” se revela uma leitura interessante, revista que ainda tem muito a amadurecer, mas que engatinha com admirável vigor. Para quem quiser se aventurar, a revista pode ser encontrada em São Paulo na livraria do Espaço Unibanco Augusta (r. Augusta, 1.475).
Divulgação Tarantino, que mudou "Bastardos Inglórios" após Cannes
Por Leonardo Cruz
Mike Fleming, blogueiro da “Variety”, publicou nesta quinta uma boa entrevista com Quentin Tarantino sobre a versão final de “Bastardos Inglórios”, o novo longa do diretor de “À Prova de Morte”, “Kill Bill” e “Pulp Fiction”. Como é uma entrevista da “Variety”, a discussão gira em torno mais da pressão do lançamento comercial e da expectativa de retorno financeiro por parte dos estúdios (Weinstein e Universal). E as respostas do cineasta são um interessante exemplo de como as coisas funcionam em Hollywood.
A seguir, os trechos mais interessantes da conversa, na tradução mambembe deste blogueiro. Para ler o original, em inglês, clique aqui. Para quem é fã de Tarantino, o fim de 2009 promete. "Bastardos Inglórios" deve estrear em 23 de outubro. E, se não for adiado pela milésima vez, "À Prova de Morte", de 2007, entrará em cartaz em 13 de novembro.
*
Sobre a suposta ordem para cortar o filme após a estreia no Festival de Cannes Ouvi esses rumores de que o estúdio teria me mandado cortar 40 minutos. É tudo mentira. O filme está um minuto mais longo em relação a Cannes. Tinha 2h28, sem créditos finais, e agora tem 2h29. Ou 2h32, com os créditos.
Fico ofendido com a ideia de que esses caras [os produtores] ficariam mandando em mim. Ao contrário, não tenho do que reclamar. Você não tem que fazer nada sob pressão. É o seu filme, é você quem tem que viver com ele e sabe que não pode fazer julgamentos precipitados porque se arrependerá depois.
Mas você fica mais inclinado a ouvir, porque não o estão forçando a nada. Harvey Weinstein [dono do estúdio] é um cara legal. Foi ótimo trabalhar com David Linde [da Universal]. Eles têm coisas válidas a dizer. Com algumas eu concordei. Com outras, não. Sempre tentei as sugestões deles, porque eles têm muito dinheiro investido. Eles não estavam na sala [de montagem] quando tentei, e em metade das vezes eles estavam errados. Mas, algumas vezes, me peguei dizendo: “Diabos, Harvey está certo. É melhor deste jeito.”
Sobre uma eventual “prequela” de “Bastardos Inglórios” Já escrevi metade [do roteiro]. Tenho que terminá-lo, reunir os Bastardos de novo e inserir todo um outro grupo de personagens. Durante as filmagens, Brad Pitt e Eli Roth ficavam falando: “Prequela, pequela”. Brad dizia: “Vamos convencê-lo a fazer uma prequela”. Os caras adoram a ideia. Eu tenho a história. Mas [no passado] eu ia fazer todas aquelas prequelas de “Kill Bill”, em animação. E acabei não fazendo nenhuma delas.
Sobre a pressão dos estúdios por um sucesso comercial É, os caras estão ansiosos, e eu sei de onde isso vem. Mas um filme é um filme. Eles leram o roteiro, sabiam no que estavam se enfiando. De tempos em tempos, nós conversávamos e eu dizia: “Ouço o que vocês dizem, mas não vou fazer o filme em nada diferente do que escrevi”. Pode parecer estranho quando digo que acrescentei um minuto, mas você pode acrescentar pequenas coisas e melhorar o ritmo. E nós estávamos muito atentos a manter um bom ritmo. Para acrescentar uma cena, eu reduzi pequenos trechos de algumas cenas. Conversava com os Weinstein e a Universal, e eles diziam: “Esta sequência está um pouco longa”. Eu respondia que o máximo que podia fazer era cortar uma linha aqui, outra ali. E eles concordavam. Aí você precisa achar essa linha. É cirurgia cosmética. Harvey queria que eu acrescentasse mais música, pediu para que eu voltasse à minha coleção de discos e escolhesse mais algumas músicas. Achei quatro. E uma delas é a música-tema do filme “Os Mercenários”, de Jack Cardiff, que eu sempre quis usar.
Sobre o star system Tem havido escolhas seletivas de evidências para argumentar seu o star system ainda é confiável ou não. Se você se refere àquele filme do jornal com o Russel Crowe [“Intrigas de Estado”], que eu não vi, talvez o star system não tenha funcionado para aquele filme. Brad teve sucesso com “Benjamin Button” e acho que ele foi uma grande razão [desse sucesso]. No passado, eu ouvia sugestões deste ou daquele ator e perguntava: “Por que você quer estas pessoas? Eles realmente levam gente ao cinema?” Olhava os filmes deles, e a resposta era não. Aprendi que a questão era menos sobre público e mais sobre marketing. Este cara é famoso, então podemos levá-lo no Leno, no Conan, no Letterman, conseguir uma capa de uma revista. Eu escolho o elenco que funciona melhor para o filme. Rosario Dawson era a garota mais famosa que usei em “À Prova de Morte”, e ela foi a todos os talk shows. Mas ela também era uma das melhores do filme. Ela é uma grande atriz, tem toneladas de carisma. Não vou contratar ninguém apenas para o pôster. E a integridade dos meus filmes fala por si.
Sobre o impacto de Brad Pitt no desempenho comercial de “Bastardos Inglórios” Sempre confiei no meu nome na maior parte do tempo. Minha esperança agora é que eu vou atrair os meus fãs e ele vai atrair os dele. No exterior, a admiração por Brad é intensa, quase louca, mas por mim também. Espero que, conosco juntos, haja um empate. Mas posso dizer sinceramente que, se Pitt não fosse um astro e eu o tivesse encontrado na seleção de elenco, teria feito lobby para que o papel fosse dele.
Na última quinta, poucos minutos após o anúncio da morte de Michael Jackson, começou a circular na internet, via Twitter, a informação de que o ator Jeff Goldblum também teria morrido, em um acidente num set de filmagens na Nova Zelândia. Um ou outro site estrangeiro chegou a cravar a morte, e, por uns cinco minutos, muitos jornalistas acreditamos que Goldblum tinha ido desta para melhor.
Mas quem já se transformou em mosca e enfrentou dinossauros não bate as botas assim tão facilmente. Goldblum sempre esteve bem vivinho e aceitou o convite do canal Comedy Central para comentar sua própria morte. Com vocês, a ressurreição de Jeff Goldblum (em inglês, sem legendas):
Divulgação Tomas Alfredson, diretor do ótimo horror "Deixe Ela Entrar"
Por Leonardo Cruz
Um diretor de um filme de vampiros que nunca se interessou muito pelo cinema de horror. Essa aparente contradição talvez seja o segredo do sueco Tomas Alfredson, responsável por “Deixe Ela Entrar”, melhor longa de vampiros em muitos anos, obra de sutileza incomum em seu gênero.
O filme acompanha a amizade entre duas crianças de 12 anos, Oskar e Eli, durante um rigoroso inverno na periferia de Estocolmo. A diferença é que Eli é uma mini-Drácula, garotinha que ataca jugulares quando a fome aperta.
“Deixe Ela Entrar” é um dos destaques do SP Terror, festival que acontece até quinta-feira no cine Reserva Cultural, em São Paulo. O filme terá sua segunda (e última) sessão nesta quarta, às 21h. Por conta da exibição, Tomas Alfredson respondeu a algumas perguntas por e-mail. A seguir, a íntegra da conversa virtual.
Quando e por que você decidiu adaptar o romance original de John Lindqvist? Peguei o romance de John há quatro anos, numa praia na Polônia, nas férias de verão. Li em 48 horas e não conseguia tirá-lo da cabeça. O elemento que mais me tocou foi a descrição direta, sem sentimentalismo, de Oskar, o menino intimidado, porque eu também passei por tempos difíceis na escola. Outro ponto que me impressionou no livro foi a ambientação seca da história, em um retrato fiel, sem espaço para nostalgia, do subúrbio sueco no começo dos anos 80.
Você precisou fazer alguma grande adaptação na história original? No livro, o personagem Hakan é um pedófilo assumido. Abuso de crianças é um ingrediente muito forte para um filme. É muitas vezes usado de forma descuidada, para causar um efeito, caracterizar um personagem como muito-muito-louco-indecente, sem nenhuma profundidade.
Na versão para o cinema de “Deixe Ela Entrar”, isso teria prejudicado o foco. No filme, Hakan é uma aparição misteriosa. Para mim, ele é ou um “Oskar velho”, um antigo amor de Eli, ou o oposto, o único tipo de homem com quem ela é capaz de conviver, uma pessoa que ela despreza, porque amor e proximidade são as únicas coisas que a ameaçam.
Como foi a escolha do elenco? Você teve dificuldade para encontrar as crianças que fariam Eli e Oskar? Na Suécia, não há atores mirins profissionais. Então, você sempre tem que começar do zero quando tem um projeto com crianças. Fizemos vários testes em toda a Suécia durante 12 meses. Tínhamos uma decisão assustadora a tomar: escolher os dois protagonistas. Mas acho que nossa escolha se revelou muito boa.
Como você preparou Lina Leandersson, uma menina de 12 anos, para interpretar um vampiro? Dirigir crianças é um trabalho de desconstruir sequências em pedaços menores, mais compreensíveis. Não faz sentido tentar descrever a síntese de uma sequência, um longo intervalo de tempo, para crianças dessa idade.
Um exemplo. Uma sequência de quatro cenas:
A.Um menino está andando triste pela rua, lambendo os lábios. Talvez ele esteja com fome?
B.O garoto observa os doces em uma vitrine e olha para sua carteira vazia.
C.Ele está sentado em sua cama, mastigando, cercado por 50 embalagens vazias de balas.
D.O garoto vomita no banheiro. Ouvimos a mãe dele chamando para o jantar, mas ele não responde.
Dessa sequência, talvez o espectador entendesse que o garoto está sem grana, que começou a roubar, que tem um distúrbio alimentar e que esconde tudo isso de sua mãe.
Essas quatro cenas provavelmente não seriam filmadas de forma contínua e talvez com intervalos de semanas entre si. Nessa sequência, eu orientaria o garoto da seguinte forma:
A.“Você está indo da escola para casa. Quando chegar perto daquele carro azul, pare por quatro segundos e pense com muita vontade em um bife bem suculento.”
B.“Olhe para os doces, eles parecem deliciosos. Depois, veja se você tem algum dinheiro na carteira.” A equipe do filme já teria entregado uma carteira ao garoto, sem que ele soubesse que ela está vazia. Assim, a reação do menino seria a mais espontânea possível.
C.“Cara, você está muito cansado depois de comer todos estes doces.”
D.“Você está doente, vomitando.” E provavelmente não diria nada sobre o chamado da mãe, cuja voz extra-plano seria inserida em outra ocasião.
Trabalhando assim, o ator mirim não tem que assumir a responsabilidade de toda a construção [do personagem] em cada bloco. Ao contrário, focamos no dia a dia e em ações e sentimentos compreensíveis.
Nem Kare [Hedebrant, que faz Oskar] nem Lina leram o roteiro antes. Eles recebiam suas cenas a cada manhã. Se fossem cenas curtas, eu as leria em voz alta, eles não receberiam nenhum papel. É claro que os pais deles já haviam lido e aprovado o roteiro.
Oskar e Eli são outsiders, cada um ao seu modo. Esse é o elo que une os dois? Sim. Sempre os considerei os dois lados da mesma moeda. Em termos dramáticos, eles são o mesmo personagem. Ela é o que ele precisa ser, representa os sentimentos que ele não pode extravasar, por ser frágil fisicamente.
Que filmes você viu e que livros leu na preparação para este filme? Que influências identifica no projeto? Tento evitar a influência de outros cineastas quando faço um filme. Ouço música e estudo pinturas. No caso desse filme, vi muitas telas do pintor renascentista Hans Holbein [alemão, 1497/98-1543].
Qual sua opinião sobre filmes de horror? Você gosta do gênero? Tem favoritos? Na verdade, sou totalmente ignorante em relação a filmes de horror _não que não goste deles, apenas nunca me interessei o suficiente. Suponho que, como qualquer criança, eu tenha visto Bela Lugosi correndo por aí como conde Drácula, em filmes em preto e branco na TV. Então, trabalhar com esse gênero foi uma experiência totalmente nova para mim. Se eu precisava de alguma informação sobre vampirismo, ligava para o autor [do romance original] e ele me explicava tudo.
Quais seus planos futuros? Já está trabalhando em algum novo filme? Neste momento, estou envolvido com uma peça no Royal Dramatic Theatre de Estocolmo. Estreará em setembro. Estou analisando vários projetos internacionais, mas ainda não decidi nada.
Divulgação Del Toro, cujo livro "Noturno" sai no Brasil em agosto, pela Rocco
Por Leonardo Cruz
Um Boeing 777 com 210 passageiros a bordo aterrissa normalmente no aeroporto de Nova York. Assim que a aeronave para na pista, suas luzes se apagam. Todas, interiores e exteriores. A torre de controle tenta contato com os pilotos. Sem resposta. O avião permanece inerte por muitos minutos, sem nenhuma manifestação da tripulação e dos passageiros.
Assim começa “Noturno”, nova obra do cineasta mexicano Guillermo Del Toro, do premiado “O Labirinto do Fauno” (2006). Mas “Noturno” não é um novo filme, e sim um livro. O primeiro volume de uma trilogia de terror, sobre uma Nova York atacada por vampiros, numa invasão iniciada por um vírus.
Escrito em parceria com o americano Chuck Hogan, autor de narrativas de suspense, “Noturno” foi lançado nos EUA no mês passado e em alguns países da Europa nas últimas semanas. Chegará às livrarias brasileiras em agosto, pela editora Rocco.
Em uma entrevista ao diário espanhol “El País”, Del Toro contou que inicialmente planejava fazer uma minissérie de TV, por acreditar que o projeto tinha “um largo arco dramático, que não poderia ser resumido nas duas horas de um filme nem em um livro”. Apresentou a ideia ao braço televisivo da Fox _a emissora lhe respondeu que estava mais interessada em uma comédia.
Foi então que o cineasta-escritor decidiu alterar seu plano inicial, acertou a parceria com Hogan e transformou a minissérie em uma trilogia. O jornal espanhol colocou em seu site o primeiro capítulo do romance, e já dá para sentir a pegada de “Noturno”. Aqui vai um trechinho da edição em espanhol:
"Cuando se acercó a la parte superior del avión, el viento se detuvo. Hay que señalar algo sobre las condiciones climáticas de la pista de estacionamiento del JFK: el viento nunca se detiene. Nunca jamás. Siempre hay viento en la pista; allí, donde los aviones vienen y van, entre los saladares y el helado oceano Atlántico al otro lado de Rockaway. Pero, de repente, todo se hizo realmente silencioso, tanto que Lo se quitó los grandes protectores de felpa para estar segura de lo que sucedía. Creyó escuchar un martilleo en el interior del avión, pero no tardó em comprender que era tan sólo el latido de su propio corazón. Encendió su linterna y alumbró el costado derecho de la nave.
Siguió el rayo circular de la luz, y notó que el fuselaje aún estaba húmedo y resbaladizo tras el aterrizaje, y sintió un repentino olor a lluvia de primavera. Iluminó la larga hilera de ventanas con la linterna, pero todas las persianas estaban cerradas.
Se asustó, pues eso era muy extraño. Se sintió apabullada por el enorme avión de 250 millones de dólares y 150.000 toneladas de peso. Tuvo una sensación fugaz, pero fría y palpable de estar ante una bestia semejante a un dragón; un demônio que solo aparentaba estar dormido, y que en realidad era capaz de abrir sus ojos y su horrible boca en cualquier momento. Fue como un relámpago psíquico, un escalofrío que la recorría com la fuerza de un orgasmo al revés, tensionando y anudándolo todo.
Entonces notó que una de las persianas estaba levantada. Los vellos de la nuca se le erizaron tanto que tuvo que poner su mano sobre ellos para aquietarlos, como apaciguando a uma mascota nerviosa. Ella no había visto esa persiana antes. Siempre había estado abierta: siempre.
Tal vez...
La oscuridad se agitaba en el interior del avión, y Lorenza sintió que algo la estaba observando.
Gimió inútilmente como una niña. Estaba paralizada. Uma punzante avalancha de sangre, precipitándose como si acatara una orden, le apretó la garganta...
Y entonces ella entendió de manera inequívoca: algo iba a devorarla..."
A íntegra desse primeiro capítulo pode ser lida aqui. A seguir, um vídeo em que Del Toro conta (em inglês) mais detalhes da trilogia.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.