Mulheres na direção
Lina Wertmuller, Jane Campion, Sofia Coppola e Kathryn Bigelow: o restrito clube das quatro
Em tom de piada, um amigo costuma comparar a habilidade das mulheres na direção de um filme e na direção de um carro.
Ok, além de ser uma inverdade, trata-se de uma piada de mau gosto e machista. Mas voltei a pensar nela quando os concorrentes ao Oscar 2010 foram anunciados na semana passada. Com a indicação de Kathryn Bigelow ao prêmio de melhor direção, esta é apenas a quarta vez (o Oscar está na 82ª edição) em que uma mulher concorre na categoria _as outras foram Lina Wertmuller por “Pasqualino Sete Belezas” em 1977; Jane Campion por “O Piano” em 1994; e Sofia Coppola por “Encontros e Desencontros” em 2003.
Para mim, o fato ainda é um grande mistério. Hollywood é machista? O Oscar não é referência para nada? Cinema é um negócio de homens? Os filmes dirigidos por mulheres não têm apelo comercial? Ou elas não fazem filmes tão bons quanto os homens?
Nora Ephron (“Julie e Julia”) é um exemplo de que filmes dirigidos por elas são rentáveis. E uma longa lista de cineastas mulheres responde a última questão: Lucrecia Martel, Agnès Varda, Claire Denis, Catherine Breillat, Chantal Akerman, Leni Riefenstahl, Ana Carolina, Suzana Amaral etc.
Ganhe Kathryn Bigelow ou não (se sim, será a primeira mulher a receber o prêmio), os indicados deste ano nos dão uma boa oportunidade de pensar sobre a questão. Isso porque o filme de Kathryn, “Guerra ao Terror”, sobre um grupo que desarma bombas durante a Guerra do Iraque, tem um equivalente, “Avatar”, de James Cameron, que, convenhamos, é também sobre a Guerra do Iraque.
É possível partir para uma análise baseada no sexo e destacar elementos femininos em “Guerra ao Terror” e elementos masculinos em “Avatar”? Ampliando a questão: o que muda num filme dirigido por uma mulher e num filme dirigido por um homem?
Fui ver “Guerra ao Terror” no fim de semana para ver se eu encontrava algum elemento feminino no filme. São diferenças sutis, talvez apenas sugestionamento. Se eu fosse desavisado ao cinema, não saberia dizer o sexo de quem dirigiu.
Não é como ser homem e fazer análise com uma psicóloga, ou ser mulher e fazer análise com um psicólogo. Cinema é um trabalho em (numeroso) grupo e, se considerarmos roteiro e direção de fotografia os elementos centrais da linguagem de um filme, os dois longas têm apenas homens ocupando as funções.
AQUI VÃO SPOILERS
Acabei, no entanto, caindo em estereótipos mulher x homem. “Guerra ao Terror” seria uma visão madura, realista, sobre o conflito no Iraque e, por isso mesmo, “chata”, ao menos no ponto de vista do cinema de ação ininterrupta de Hollywood. As competentes cenas lentas, repletas de tensão, principalmente naquelas em que Jeremy Renner veste seu traje para desarmar bombas, seriam uma representação fílmica do ritmo mais cuidadoso e jeitoso de ser de uma mulher. O clichê diz que elas valorizam as preliminares antes do sexo mais do que o homem.
São várias as vezes em que a câmera de Kathryn Bigelow enquadra seus homens como se de surpresa, sem chance para respiro, inquisidora (seria como a mulher que resolve enquadrar o marido e discutir a relação?).
E, bem lá pro final, quando Jeremy Renner retorna para a vida familiar e se vê perdido em uma prateleira infinita com os mais variados tipos de cereais: será que um homem repara que há tantas opções, na vida real? Seria mais provável dizer que quem repara que um homem não repara é uma mulher.
Claro, tudo pode ser uma grande bobagem minha. Mas não consigo deixar de pensar nesses estereótipos quando vejo “Avatar” e penso num meninão (James Cameron) brincando de guerra com seus bonecos.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h21 PM
Elia Suleiman: tolerar, resistir, evadir
Por Silvana Arantes
De Buenos Aires
O cineasta de origem palestina Elia Suleiman dirige e atua no filme “O que Resta do Tempo”, que estreia hoje nos cinemas brasileiros. A Folha e um grupo de jornalistas conversaram com Suleiman no Festival de Cannes, em maio passado.
O filme é um relato em primeira pessoa dos reflexos do conflito na vida de uma família palestina em território ocupado por Israel. Suleiman tece a trama a partir de 1948, ano da criação do Estado de Israel, até hoje.
Veja o trailer:
A seguir, a continuação da entrevista com o cineasta, publicada hoje na Ilustrada.
VIOLÊNCIA
É difícil. O problema é tentar manter certa elasticidade em face da intolerância. Não sou um padre. Também não sou um macaco, mas não estou longe da fé num certo sentido espiritual. Quer dizer que tentei trabalhar certas coisas em mim.
Não aprendi técnicas de meditação, mas inventei as minhas. Com o tempo, você desenvolve sua maneira de lidar com certos temas _escrever, amar, cozinhar. São maneiras que você aprende de afastar a agressividade dirigida a você.
Há duas maneiras de lidar com a agressividade _ou você a enfrenta com o peito ou você desvia para ela passar. Muitas vezes você aprende que, quando você desvia da agressão, ela se espatifa em outro lado.
Muitas vezes, a agressividade exige confrontação. Se você tenta ficar transparente, a agressividade perde sua autoconfiança. Isso nem sempre funciona. Não funcionou com os judeus, por exemplo. Não importa como eles reagissem, havia uma solução final, que foi levada adiante.
HUMOR NEGRO
Há um tipo de humor negro que alarga o seu tempo de vida, num certo sentido, porque o tempo não é algo que se guie pelo relógio. Quando você ri de você mesmo, você vive um momento que não pode ser medido. Isso vale para o humor dos guetos. Acho que o humor é sempre uma combinação do que você é com as circunstâncias em que você vive.
ATUAR
Atuar pode ser um prazer. É um outro tipo de “momentum” espiritual em que você se revela e pode ser muito interessante. O tipo de atuação que eu faço, que se esvazia de toda psicologia, para se fixar na tela sem ter nenhuma expressão não é a coisa mais fácil do mundo. Exige que você tire tudo de dentro de você para fora, de tal forma que você se transforme numa espécie de transparência. Isso requer muita solidão no set, o que não é fácil conseguir. Quando você chega a esse momento, é como o de uma sensação translúcida.
O SENTIDO DO FILME
O que eu quis dizer com tudo isso é que, passados 60 anos, ainda estamos lidando com uma ocupação histórica. Israel queria ocupar todas aquelas áreas há muito tempo, desde 1948. Se você lê os israelenses, percebe o plano e vê que a ocupação que fracassou em 1948 teve sucesso em 1967, quando eles tomaram parte do que eles querem chamar Israel. Em 1982, aconteceu a mesma coisa _eles ocuparam o Líbano e isso era um plano de 1948.
As montanhas do Golan eram um plano de 1948, não de 1967. Todas essas guerras em que eles reclamam ter sido atacados pelos árabes, estavam planejadas por Ben-Gurion.
O que estou querendo dizer, politicamente, é que em 60 anos depois, há um caixão em Ramallah, assim como havia um caixão em Nazaré, em 1948.
A CARREIRA
Quando tinha uns 15 anos, comecei a fugir da escola e menti para umas pessoas, dizendo que estudava cinema. De alguma forma, essa mentira se tornou verdade.
Nunca estudei cinema, mas sempre tive uma grande tendência para contar histórias. Até os meus 20 e poucos anos, só tinha visto uns filmes medíocres, a meio caminho entre o comercial e o independente.
Mas eu tinha a sensação de que poderia fazer cinema, pela reação das pessoas às histórias que eu inventava e contava de diversas maneiras diferentes. Essa reação me deu autoconfiança.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h03 AM
A Itália para estrangeiros de "Nine"

Penélope Cruz em "Nine"
De todos os gêneros cinematográficos, o musical sempre foi o mais intrigante para mim. Nunca entendi direito essa coisa do sujeito que para tudo que está fazendo para dançar e falar cantando como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ignorância pura minha, óbvio.
Hoje, com televisão, MTV, internet, celular e tantas outras formas de entretenimento audiovisual, fica um tanto difícil entender por que o gênero foi um dos grandes favoritos do público lá pelos idos de 1930/ 40.
Mas “Cantando na Chuva”, que vi quando não era mais adolescente, desarmou meus preconceitos e me fez entender o poder dos musicais. Está tudo lá: a força das canções, as coreografias com Gene Kelly, as pernas de Cyd Charisse, a suspensão da realidade. Um mundo colorido e um tanto ingênuo, enfim. A experiência estética única mantém o filme vivo.
Claro que não dá nem para comparar a produção atual com a quantidade de musicais feitos na época de ouro do gênero. Mas considerá-lo morto é exagero. Assim como o faroeste, de tempos em tempos temos exemplares do gênero pelas telas. Grande parte pela força dos musicais da Broadway _sucessos de público nos EUA e nas franquias mundo afora, que, no esquema capitalista dos produtores de Hollywood, é um formato de lucro certo para adaptações. O sucesso do recente “Mamma Mia!” entra na mesma lógica das continuações, remakes e adaptações de HQs.
Talvez só isso explique a existência de “Nine”, filme que desafia a fé dos apaixonados por musicais.

Marion Cotillard tem a melhor atuação de "Nine"
“Nine”, adaptação de um musical que por sua vez é adaptação de “8 e Meio”, é um enigma. Não vi a montagem da Broadway de 1982 com Raul Julia no papel principal e nem a de 2003 com Antonio Banderas. Mas, com certeza, “Nine” não reproduz a experiência sensorial de ver atores e dançarinos em carne e osso no palco (em tempos de “Avatar”, talvez fazer o filme em 3D fosse uma alternativa).
Também não acrescenta nada ao filme de Fellini (e não vou nem entrar no mérito de comparar ao original, já que é covardia, e nem vou comentar o desfecho diferente). E, aqui, uma questão extremamente pessoal: não tem nenhuma música/ figurino/ coreografia excepcionais que garantissem uma apreciação apenas do ponto de vista estético. Ok, “Nine” tem Penélope Cruz, mas ela está muito mais deslumbrante/ sexy em “Vicky Cristina Barcelona”. Quando vi “Mamma Mia!”, há uns dois anos, presenciei uma das cenas mais marcantes para mim no cinema: durante a exibição, duas faxineiras da sala estavam no cantinho, escondidas, cantando e dançando ao som de “Dancing Queen”.
“Nine” não é um musical contemporâneo, como os excelentes “Dançando no Escuro” (Lars von Trier), “Sweeney Todd” (Tim Burton), “Todos Dizem Eu Te Amo” (Woody Allen) ou “Canções de Amor” (Christophe Honoré), que usam a nostalgia por um passado que não existe mais para discutir questões atuais. Filmes que usam esse recurso hoje extremamente não realista de personagens falando por meio da música numa época obcecada pelo real.
Apesar de parente próximo de “Moulin Rouge”, “Nine” está em outro patamar; o primeiro tinha ao menos uma “proposta”, o aspecto novidadeiro da montagem videoclípica.
Há a questão da nostalgia, mas por outro viés, o do fetiche pelo “star system” de Hollywood. O atrativo é ver Penélope Cruz, Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, mas da mesma maneira que folheamos os editoriais de moda da “Vogue” ou que clicamos os sites de fofocas.
Não há nada de condenável nisso, o leitor poderá dizer _e terá razão, já que isso ocorre desde que o cinema é cinema.
A própria questão do filme (um cineasta em crise criativa que não consegue escrever um roteiro) parece ser uma defesa de certa vertente de filmes sem uma espinha dorsal, da qual “Nine” pode muito bem fazer parte.
Mas o que me incomodou de fato foi ver a maneira que esse musical trata a Itália. Hoje, o próprio país, com Berlusconi à frente, não ajuda muito e passa a imagem de nação em ruínas. Mas o filme não tem viés político; se fosse uma crítica a Berlusconi, teria ainda algum mérito. A Itália de “Nine” é cheia de estereótipos; é como se fosse aquela hilariante sequência de “Bastardos Inglórios” em que Brad Pitt tenta falar “Buon giorno”. A Itália, aqui, é apenas um país exótico, “felliniano”, onde “cinema italiano” é um gênero cinematográfico, e não a produção local. O que “Nine” fala é o velho “american way” de olhar o estrangeiro.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h26 PM
Sherlock e o retrato de época

Sherlock (Nicholas Rowe) e Watson (Alan Cox)
em "O Enigma da Pirâmide"
Cada geração tem sua referência de heróis. Eu, que nasci em 1977, quando penso em Super-Homem, penso em Christopher Reeve; a lembrança de Homem-Aranha vem atrelada àquela série tosca que passava na Manchete; e Hulk, por mais que eu goste do filme de Ang Lee, me remete à dupla Bill Bixby/Lou Ferrigno.
Não que os antigos sejam sempre melhores: Tobey Maguire encarnou à perfeição Peter Parker na trilogia de Sam Raimi, e quem quiser superá-lo terá que suar a camisa no “reboot” da série.
Esse é um dos fatores que garante os intermináveis remakes, novas versões etc. em Hollywood. Se um personagem deu certo no passado, por que não apresentá-lo às novas gerações, aproveitar os fãs antigos, saudosos do personagem, e faturar mais alguns milhões? Na atual toada, é provável que personagens como Batman, Homem-Aranha etc. continuem nas telas do cinema por anos a fio, como é típico com James Bond.
O mesmo acontece agora com Sherlock Holmes. Em termos de produção hollywoodiana, ele estava longe das telas desde “O Enigma da Pirâmide” (1985).
Mais do que comparar quais dos Sherlocks é mais eficaz (Nicholas Rowe ou Robert Downey Jr.), penso no retrato de época que os dois filmes trazem.
“Um bom filme é também um documentário”, disse Eric Rohmer. A frase, usada por Jean-Claude Carrière, roteirista de filmes como “A Bela da Tarde”, no livro “A Linguagem Secreta do Cinema”, é evocada num momento em que ele fala sobre o retrato histórico que, no futuro, ficará evidente. Escreve Carrière: “O filme entra na História por todas as portas. Refaz a História, ajuda a recontar o passado, torna-se a própria História. ‘Satyricon’, de Fellini, pode ser visto como uma visão de um planeta distante, mas, se olharmos com cuidado, também veremos um filme que é inequivocadamente sobre o ano de 1968”.
“O Enigma da Pirâmide” tem Steven Spielberg como produtor-executivo. Insere-se numa tradição iniciada com “Tubarão” (1975) e cristalizada com “Star Wars” (1977), ou seja, o blockbuster, filme para grandes audiências que mira principalmente o público jovem. Nos anos 80, essa fatia lucrativa de consumidores definiu a cara da produção norte-americano. “Indiana Jones”, “De Volta para o Futuro”, “Curtindo a Vida Adoidado” etc., a lista vai longe.
“O Enigma da Pirâmide” é menos um filme sobre Sherlock Holmes e mais sobre a juventude e os conflitos que a chegada da vida adulta e suas responsabilidades trazem. Algo que Spielberg fez muito a partir de “ET”. “O Enigma...” tem um quê de “Os Goonies”, já que mostra as peripécias de um grupo de adolescentes espertos. As sequências na pirâmide são quase uma cópia de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. E os vilões, os seguidores da seita, parecem ter saído de “Mad Max 3”. Não é a Londres vitoriana que vemos ali, mas sim a estética oitentista.

Watson (Jude Law) e Sherlock (Robert Downey Jr) em "Sherlock Holmes"
Já o novo Sherlock é muito mais um filme de Guy Ritchie e Robert Downey Jr. Da época presente está a montagem videoclípica, rápida, que o próprio Ritchie ajudou a consolidar em longas como “Snatch”.
Há um tom marcante atual que é a busca pela realidade, seja no 3D de “Avatar”, seja no tom realista do recente “Batman”. O novo Sherlock, na sua rigorosa reconstituição de época, é fruto desse momento.É um Sherlock físico, assim como o James Bond atual. Não basta ser inteligente, tem que ter corpão, ser eficiente, ter aproveitamentó máximo é a ideia.
Por isso não chega a ser um absurdo a escalação de Downey Jr. para o papel. Sua marca registrada, o cinismo, parece ser um elemento essencial para a sobrevivência nos dias de hoje. Há uma necessidade de se duvidar de tudo, de derrubar mitos. Quando Sherlock deduz coisas inacreditáveis baseado na observação, na lógica e na pesquisa, é como se ele consultasse um mestre Google embutido na sua cabeça.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h37 PM
Criticando o crítico

Cinema não é apenas entretenimento. Não é apenas arte. Essa forma de expressão, que muitas vezes tenta recriar o real, acaba gerando reações mais do que reais. Todos têm uma opinião sobre determinado filme. É o futebol do mundo das artes. Sai o papo de boteco, entra o papo em cafés ou cinemarks da vida. Por isso, textos de jornalistas/críticos de cinema mexem tanto com os leitores cinéfilos.
Basta uma rápida olhada nos comentários deste blog, por exemplo. Não são poucos os leitores que reclamam de determinados posts; às vezes, um ou outro mais ousado parte para o ataque pessoal. “Como assim, o que esse mané está falando desse filme que EU amo tanto?” ou “Por que esse imbecil recebe um salário para ficar assistindo a filmes e escrever bobagens?”, são algumas das questões dos críticos dos críticos de cinema.
Não só para eles, mas para todos que gostam de pensar sobre cinema, recomendo o documentário “Crítico”, de Kleber Mendonça Filho. Teve passagem relâmpago aqui em São Paulo, mas deve estrear em breve em Porto Alegre, Salvador e Recife, “para uma pequena carreira nos cinemas”, segundo seu realizador.
Kleber coletou, entre 1998 e 2007, depoimentos de 70 críticos e cineastas sobre “o conflito que existe entre artista e o observador”. Do lado dos cineastas, tem gente como Gus Van Sant, Richard Linklater, Tom Tykwer, Walter Salles, Cláudio Assis e Carlos Reichenbach, entre outros. Do outro lado, críticos franceses, brasileiros e norte-americanos de importantes publicações.
Kleber, cineasta que também é crítico, ou crítico que também é cineasta, conhece os dois lados da moeda. As principais questões para quem pensa cinema como algo além de entretenimento estão lá. A “ditadura” das cotações/estrelinhas/ bonequinhos. A função da crítica (falar se um filme é bom ou ruim? analisar, complementar o pensamento do cineasta?). O poder do crítico (“auto-masturbação”?). O crítico dentro da engrenagem das grandes distribuidoras. A diluição da importância da crítica com a proliferação de blogs e sites. E por aí vai.
Fernanda Torres conta: “Tem uma frase do Oscar Wilde que me curou para a crítica: ‘Toda crítica é uma auto-biografia’”.
Hector Babenco polemiza: “Eu raramente leio [críticas], às vezes leio o início, o final (...) Fico muito nervoso, meu coração dispara (...) É raro achar jornalista inteligente”.
Samuel L. Jackson aparece no momento mais hilariante do filme. Um jornalista pergunta para ele como foi trabalhar na série “Matrix”.... (isso porque quem trabalhou em “Matrix” foi Laurence Fishburne).
Para mim, que trabalho com texto e filmes, “Crítico” serviu como uma sessão de auto-análise. Mas, em determinado momento, senti que o documentário estava excluindo um elemento importante na discussão. Nenhum representante do público “comum” está presente.
Questionei o Kleber, e ele me respondeu:
“Meus filmes são todos muito pessoais. Por conhecer bem as tensões entre o realizador e o crítico, sou os dois, queria fazer um registro exatamente disso. Incluir o público seria algo meramente burocrático (“Ok, temos que ouvir o público”). Outra coisa, procurar um cineasta e/ou um crítico é uma coisa, procurar ‘o público’ é uma outra bem diferente. A ideia de registrar uma senhora na porta de um cinema e creditá-la como ‘público’, ou ‘advogada’ não me agradava. Acho que o público está no filme apenas como o observador que ele sempre é, o que não impede que reaja positiva e negativamente em relação a qualquer filme, inclusive esse. Por último, quando a gente faz um filme, é o filme que vai pedindo as coisas, e esse pareceu estar confortável com os dois lados representados no filme”.
*Aliás, este meu post não se configura como uma crítica de "Crítico".
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h51 PM
Não quero ser Nicolas Cage
Antes de qualquer consideração sobre “Vício Frenético”, filme de Werner Herzog em cartaz em São Paulo.
Veja o cartaz:

Agora, dê uma olhada nessa cena de “Nosferatu” (1979), remake do mesmo Herzog para o clássico de F.W. Murnau de 1922:

Conclusão: Nicolas Cage = Klaus Kinski = vampiro?
Quem me deu a dica sobre a semelhança entre os dois foi a jornalista Fernanda Ezabella.
Não sei se foi algo intencional de Herzog. Já Cage disse, em entrevistas, que Kinski foi, sim, inspiração para ele compor o personagem do policial viciado em drogas.
Seja como for, gostei do filme e da atuação de Cage. Mas, para mim, “Vício Frenético” é uma comédia sobre a decadência de um homem. Não dá para ser levado a sério, como se fosse um típico policial hollywoodiano. Salta aos olhos a ironia de Herzog em várias cenas, a começar pela escalação de Cage.
Existe ator com imagem mais desgastada do que ele? Cage foi bem interessante no começo da carreira, em “Asas da Liberdade”, “Peggy Sue” ou “Arizona Nunca Mais”. Mas, após “Despedida em Las Vegas” (1995), virou daqueles irritantes atores onipresentes, perdendo o rumo da carreira, perdendo credibilidade com o público e, aparentemente, ganhando muito dinheiro.
Quando quis abraçar Hollywood, Cage virou apenas uma caricatura ambulante (para mim, isso explica sua escalação em outro bom filme, “Adaptação”).
Essa imagem é bem explorada por Herzog em “Vício Frenético”. Como o Mickey Rourke de “O Lutador”, parece que estamos vendo o próprio Cage, decadente e decrépito, nas telas, e não apenas um ator interpretando um personagem. É candidato a ator a ser resgatado por Tarantino, no futuro.
Portanto, a associação de Cage com o simbolismo de um vampiro não chega a ser esdrúxula. Em termos artísticos, ele está vivo, mas não muito.
Até determinada altura, “Vício Frenético” é um filme policial tradicional. Na sua obsessão em cumprir um objetivo, o personagem de Cage se insere na tradição de heróis herzogianos, como o próprio Kinski em “Aguirre, a Cólera dos Deuses” e “Fitzcarraldo”. Mas, lá pelas tantas, quando entram em cena os lagartos, a dica está dada.
Alemão, Herzog mora atualmente em Los Angeles. Será sempre um estrangeiro a olhar com certa distância para a tradição local. Quanto mais Cage vai se afundando em seu vício (como uma metáfora dos EUA, que vai perdendo sua dignidade), mais e mais aparecem situações absurdas, como se ele fosse um vilão de desenho animado. Se o espectador ainda estiver levando o filme a sério, a cena (aí vai spoiler) em que ele começa a dar uns tabefes na velhinha é a cartada final de Herzog. Dá para imaginar, fácil, ele rindo por trás das câmeras.
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Começa na sexta-feira, dia 22, a 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Até o dia 30, a cidade histórica mineira traz uma programação gratuita em três espaços: o Cine-Praça (capacidade para 2.000 espectadores), o Complexo de Tendas (capacidade para 700 pessoas) e o Cine-Teatro (150).
Para quem não conhece, a mostra de Tiradentes, que neste ano homenageia o diretor cearense Karim Aïnouz, é uma das principais do país para quem quer pensar e debater cinema. No time de curadores, estão críticos tarimbados, como Cléber Eduardo, Eduardo Valente e Cássio Starling Carlos, que traçam um panorama da produção brasileira atual, com exibição de longas e uma importante e extensa programação de curtas. Para quem quer entender o que é o atual cinema brasileiro, Tiradentes é etapa essencial.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h44 PM
Eric Rohmer: gostar ou não gostar
A informação mais reveladora, ao menos para mim, sobre Eric Rohmer, veio de um vídeo postado pelo crítico Pedro Butcher em sua página no Facebook. É a imagem do cineasta francês, morto na última segunda-feira, dançando numa pista de dança. Parece até pegadinha.
Pesquisando melhor no YouTube, logo achei um vídeo mais longo, que está no começo deste post. São os bastidores de “Conto de Verão”. No começo do vídeo, vemos Rohmer instruindo atores e dançando uma tradicional valsa.
O “choque” está lá perto dos três minutos. É uma cena de discoteca, e Rohmer se joga loucamente na pista ao som de “The Bomb (These Sounds Fall Into My Mind), do The Buckethead, hit “poperô” de 1995, que no Brasil ficou conhecido como a “melô da pizza, hambúrguer e guaraná”.
“Choque” porque Rohmer, na época, devia ter uns 76 anos. Não era só na mente que mantinha atitude extremamente jovem, criativa e produtiva.
“Choque” também porque o peso da história e de 50 anos nos fazem esquecer, às vezes, que a nouvelle vague foi um movimento de jovens querendo mexer o establishment.
Uma atitude que a cena de Rohmer dançando ilustra bem. Mas é dessas coisas inevitáveis _hoje, quando penso em Rolling Stones, por exemplo, me vêm à mente a instituição roqueira fossilizada, e não a banda revolucionária dos anos 60.
Lembrei disso porque entre os vários comentários que tenho ouvido (e lido em blogs) desde a tarde de segunda são reclamações sobre um suposto hermetismo dos filmes de Rohmer. Ou, em português claro, gente falando o quanto era chato e maçante ver os filme dele. Principalmente para aqueles que consideram cinema sinônimo de coisas extraordinárias acontecendo na tela.
Se você se interessa pelo cineasta, já deve estar cansado de saber que, em sua filmografia, a imagem costumava revelar (e, muitas vezes contradizer) aquilo que os personagens tentavam esconder na racionalização de longos diálogos.
Acontece que, grosso modo, os fãs de Rohmer têm uma relação passional com o seu cinema. Digo isso em tom pessoal. Quando “descobri”, bem tardiamente, Rohmer, por indicação de uma amiga, foi uma revelação conhecer aquelas histórias que versavam sobre desencontros amorosos de uma forma que eu nunca havia visto antes. Fazendo uma comparação esdrúxula, é como quando você ouve uma música de amor e pensa: “Mas, peraí, essa letra está contando a minha vida”.
Uma das primeiras coisas que lembrei quando recebi a notícia da morte foi uma citação feita pelo escritor francês Alain de Botton em “Ensaios de Amor” (1993). Deve ser porque li o livro na mesma época em que entrei em contato com Rohmer.
A lembrança vem bem a calhar e serve para esclarecer a questão (como é possível não gostar de Rohmer? Ou, como é possível gostar de Rohmer?).
Resumidamente, o livro conta todas as etapas de uma relação amorosa. Botton escreve em primeira pessoa e narra o encontro com a namorada Chloe. Desde o momento em que se conhecem, quando pegam o mesmo avião, passando pelo ápice do amor até o fim. Mas, num espírito Rohmer, Botton racionaliza tudo. Ele usa argumentos e fatos matemáticos, filosóficos, históricos e políticos para explicar o amor. É como se ele “desromantizasse” o amor.
A citação a Rohmer vem no capítulo 8, “Amor ou Liberalismo”, em que Botton narra a “segunda maior discussão” do seu namoro. Ela acontece quando, em frente a uma vitrine, Botton desdenha dos sapatos que a namorada adorou. “A questão sustenta interesse filosófico porque simboliza uma escolha tão radical na esfera pessoal quanto política: a escolha entre amor e liberalismo”, escreve Botton.
No tópico 12, ele continua: “A intolerância começa com dois elementos, um conceito do que é certo e errado, e a ideia de que não se pode deixar os outros viver sem a luz. Quando Chloe e eu começamos a discutir um dia sobre os filmes de Rohmer (ela os detestava, eu os adorava), esquecemos que havia uma chance de que os filmes de Rohmer pudessem ser tanto bons quanto ruins, dependendo de quem os visse. A discussão se reduziu a um exercício para forçar a outra pessoa a aceitar o seu ponto de vista, em lugar de nós percebermos a legitimidade da divergência. Da mesma forma, meu ódio pelos sapatos de Chloe não era limitado por uma sensação de que, embora eu pudesse não ter gostado deles, eles não eram inerentemente horríveis”.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h43 PM
Cinema de resistência

Cena de "Ninguém Sabe dos Gatos Persas"
Durante um bom tempo, cinema iraniano, para as plateias ocidentais, foi sinônimo de Abbas Kiarostami e filmes áridos de títulos como “O Jarro”. Para nós, chamava a atenção certa aura de exotismo vinda desse país fechado.
Um dos grandes méritos de “Persépolis” (2007), de Marjane Satrapi, foi mostrar, de forma direta e clara para não iniciados, a história recente do Irã. E, para muitos, foi um instante de revelação descobrir que parte da população local é “gente como a gente”, ou seja, pessoas abertas às influências culturais do Ocidente.
Mas “Persépolis” é uma produção França/EUA, então as coisas foram mais fáceis para Satrapi, em termos de distribuição. A coisa é mais complicada para cineastas iranianos querendo produzir dentro do próprio país. E, levando em conta dois exemplos recentes, “Procurando Elly” e “Ninguém Sabe dos Gatos Persas”, a necessidade de driblar a censura fez tais cineastas criarem filmes que pulsam energia.
Ou seja, não é apenas nas passeatas questionando os resultados das últimas eleições no país que a população demonstra força. Irã é o país para se ficar de olho. Há toda uma produção cultural feita por gente relativamente jovem, em busca de liberdade de expressão, renovando o ar não apenas no Irã.
Enquanto escrevo este post, “Procurando Elly”, vencedor do Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim, está em cartaz em três salas em São Paulo. Não perca. Vale aquela dica: corra, Lola, corra.

Cena de "Procurando Elly"
A história é simples, mas repleta de significados. Solução inteligente do diretor, Asghar Farhadi. Sob um governo repressor, metáforas são essenciais, para falar o que não pode ser dito.
Três famílias iranianas resolvem passar o final de semana na praia. Entre eles, está Ahmad, que está voltando da Alemanha. Ele está solteiro e busca uma nova mulher. Os amigos armam um blind date dele com Elly, uma das convidadas. Ela é professora da filha de uma das mulheres.
Mas, em determinado momento, as coisas começam a dar muito errado. Elly desaparece. E, em um clima de tensão constante, os amigos começam a entrar em conflito. Cada um deles começa a mostrar o pior de si. É como se fosse um filme de Lars Von Trier, mas em chave realista.
Será que tudo é uma crítica às crenças arcaicas, repressoras? Será um retrato de um Irã que quer se modernizar, mas ainda precisa prestar contas à tradição. Ou, ao contrário, será que “Procurando Elly”, no fundo, é uma defesa dos valores religiosos e familiares?
Já “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” deixa tudo claro. Como é uma produção banida do país, assim como seu diretor, Bahman Ghobadi, o filme vai direto ao ponto e não precisa de metáforas. Levou o prêmio na mostra Um Certo Olhar de Cannes, passou na Mostra de SP e, por enquanto, não há previsão de estreia no Brasil.
Em tom que mistura ficção e documentário, “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” conta a história de uma banda indie em busca de passaportes para poder viajar e tocar em Londres.
No caminho, o filme vai intercalando números musicais de bandas locais, do rap ao heavy metal, do blues ao pop eletrônico. Tudo mostrado de forma clandestina, o que dá ao filme um caráter saudavelmente subversivo e outsider.
Para quem perdeu, o negócio é seguir o exemplo iraniano e procurar caminhos alternativos.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h36 PM
Os 12 passos do mito
Rui Ricardo Dias em cena de "Lula, o Filho do Brasil"
Todos os brasileiros sabem o final da história, mas isso não incomodou as quase 200 mil pessoas (os números ainda não estão fechados) que viram “Lula, o Filho do Brasil” no primeiro final de semana em cartaz.
Isso porque, entre outras razões, o que importa é saber como a história será contada, e não como ela termina. Questões ideológicas/políticas à parte, o que me vinha à mente durante a projeção de “Lula” eram filmes como “Star Wars”, “Matrix”, “Avatar”...
Ou seja, filmes com heróis (refiro-me aqui ao Lula fictício).
Porque as histórias contadas nesses filmes seguem estrutura similar. É o monomito, ou a Jornada do Herói, conceito que ficou famoso mundialmente quando George Lucas usou em “Star Wars” (1977) ideias descritas pelo mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987). Ele, por sua vez, partiu do “mito do herói” descrito por Carl G. Jung (1875-1961).
Escreve Joseph L. Henderson no didático "O Homem e Seus Símbolos", livro organizado e concebido por Jung:
"O mito do herói é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo. Encontramo-lo na mitologia clássica da Grécia e de Roma, na Idade Média, no Extremo Oriente e entre tribos primitivas contemporâneas. Aparece também em nossos sonhos. Tem um flagrante poder de sedução dramática e, apesar de menos aparente, uma importância psicológica profunda (...) Ouvimos repetidamente a mesma história do herói de nascimento humilde mas milagroso, provas de sua força sobre-humana precoce, sua ascensão rápida ao poder e à notoriedade, sua lutra triunfal contra as forças do mal, sua falibilidade ante a tentação do orgulho (hybris) e seu declínio, por motivo de traição ou por um ato de sacrifício "heróico", onde sempre morre".
Como se trata de algo presente no inconsciente coletivo, tal estrutura parece já ter vindo pronta para Hollywood. Depois de “Star Wars”, a estrutura virou fórmula de roteiro para certa vertente do cinema.
Em linhas gerais, com diferenças aqui e ali já que não segue a sequência temporal, “Lula” contém os 12 pontos centrais da Jornada do Herói (apesar de “Lula, o Filho do Brasil” acompanhar os passos reais do presidente, é óbvio que todo filme biográfico faz recortes específicos).
*Ainda assim, para não ter reclamações de leitores, aí vai o aviso: spoilers pela frente.
**Conforme lembrado por leitor do blog, os 12 passos da Jornada do Herói foram detalhados pelo roteirista norte-americano Christopher Vogler
1. Mundo comum
Lugar onde o herói mora antes da jornada começar. Luiz Inácio nasceu em 1945 no sertão nordestino.
2. O chamado para a aventura
A saga do herói começa quando ele recebe um chamado para a aventura. No caso de Lula, acontece quando a família recebe uma carta e decide ir a São Paulo, com ele ainda criança.
3. Recusa
O herói entra em dúvida e demora a aceitar o desafio que lhe foi imposto. O filme mostra que Lula relutou, no início, em participar das atividades do sindicato. Preferia, segundo o filme, ver novelas na TV e se dedicar à mulher.
4. Encontrando o mentor
O herói encontra uma pessoa sábia, que irá treiná-lo para enfrentar os desafios. São ao menos dois no filme: a mãe (dona Lindu, que dará coordenadas morais) e o irmão (Ziza, que irá introduzir noções políticas e sociais).
5. Cruzando o portal
O herói decide aceitar o chamado e partir para a aventura. É o momento em que Lula finalmente vai a uma reunião do sindicato.
6. Provações, aliados, inimigos
Fora de sua zona de conforto, o herói vai encontrar uma série de desafios pelo caminho. No filme, Lula terá que descobrir quem são seus verdadeiros aliados e quem são os inimigos. Um dos testes que ele enfrentará no filme (que difere da versão real) é quando vê a morte de um funcionário que fura a greve.
7. Aproximação
O herói vai se aproximando da sua grande provação, e enfrenta êxitos e dúvidas durante as provações a que é submetido. Entre outros momentos, um que pode ser destacado é quando Lula fica sabendo da morte do pai, ou quando entra em dúvida sobre se deve ou não continuar com a greve.
8. Provação traumática
É o momento crítico da jornada. Em “Lula, o Filho do Brasil”, é também o momento mais triste, quando o personagem-título perde o filho e a mulher, no parto. Outra provação também é quando Lula perde o dedo.
9. Recompensa
Após sobreviver ao grande trauma, o herói emerge da batalha mais forte, geralmente com um prêmio. Em “Lula”, é quando ele reúne as forças e decide mergulhar de vez no movimento sindical.
10. O caminho de volta
O herói volta temporariamente para o mundo comum. Deprimido, Lula tem todo o apoio da mãe para se recuperar da perda da mulher e do filho. Em seguida, quando a mãe começa a ter problemas de saúde, Lula tentará estar sempre ao seu lado.
11. Ressurreição
Outro teste crucial, em que o herói quase encontra a morte e deve usar o que aprendeu. É quando Lula, já líder sindical, é preso.
12. Regresso.
Estágio final, quando o herói retorna mudado, crescido, com um “elixir” para ajudar as pessoas. No final do filme, vemos imagens de arquivo de Lula já eleito presidente, desfilando em carro aberto em Brasília, durante a posse.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h30 PM
2009, o ano que não terminou
Falta pouco mais de um dia para o ano acabar. Mas, para o cinema, 2009 vai durar ainda alguns anos. É o “zeitgeist”, o espírito de época, que paira sobre anos recentes (para frente e para trás).
Basta ver qualquer lista de melhores filmes do ano. Grosso modo, estão lá no meio produções com alguma ligação forte com o real, o verdadeiro, como se uma crise de identidade do cinema estivesse anunciada.
Os fatores, sabemos, são vários. A proliferação de imagens caseiras pelo YouTube, o 11 de Setembro, a crise da indústria, downloads etc., causaram mudanças definitivas no modo de se ver e entender cinema. E 2009 é um dos anos em que toda essa carga de informações desembocou com força.
Listei aqui alguns filmes relevantes, não necessariamente os melhores, que estrearam no Brasil em 2009 (muitos são de 2008).
Imitando documentários
“Distrito 9”, com suas imagens que imitam noticiários da CNN, e “Atividade Paranormal”, com a câmera tremida e a estética de YouTube, deixam claro: para conquistar a atenção do público, é necessário se aproximar do real, como se faltasse credibilidade ao cinema.
“Entre os Muros da Escola” segue caminho paralelo. Ao criar uma representação da realidade que remete ao naturalismo de documentário, o diretor Laurent Cantet conseguiu imprimir vigor à discussão sobre o multiculturalismo.
“O Casamento de Rachel”
O diretor, Jonathan Demme, brilhou nos anos 90 com filmes como “O Silêncio dos Inocentes”. Parecia meio perdido nos últimos anos. Temos o treme-treme da câmera, muitas vezes sem necessidade, que simula registros caseiros em festas de casamento. Demme seguiu a moda para se reinventar.
“O Lutador”
Aqui prevalece a estética dos irmãos Dardenne e o tom realista. Mas, antes disso, temos Mickey Rourke que parece nem estar interpretando. Dá a impressão que o diretor falou: “Vai lá e conta sua vida pra câmera”.
Fantasia de real
“Avatar”
O filme de James Cameron nos lembra que o cinema é, antes de mais nada, uma arte dependente e fruto da tecnologia. As câmeras desenvolvidas especialmente para essa aventura são capítulo importante nessa história. No final das contas, a sensação da realidade proporcionada pelo 3D nos remete à “Chegada do Trem na Estação”, um dos primeiros experimentos dos irmãos Lumière, que, diz a lenda, fez a plateia sair correndo do cinema achando que um trem iria atropelá-los.
“Watchmen”
O filme dividiu opiniões, mas a essência da HQ de Alan Moore estava lá: o que seria do mundo se sujeitos sem superpoderes resolvessem vestir máscaras e fantasias para combater (ou perpetuar) o crime? É a mesma questão central que move o Batman realista de Christopher Nolan.
O selo “baseado em fatos reais”
Do telefilme tosco que passa na TV no sábado à noite às novas produções dos principais autores do cinema, entre biopics e casos estranhos, os tais “baseados em fatos reais” não são invenção da década. Mas não há como negar que o fetiche, sim. Como se o pensamento fosse: “Ah, é baseado em fatos reais? Então eu vou ver”. “A Troca”, “Milk” e “Che” são alguns dos excelentes filmes da safra recente.
Tudo que você está vendo é mentira
“Bastardos Inglórios”, “Abraços Partidos”, “Ervas Daninhas”, “Aquele Querido Mês de Agosto”, “Hotel Atlântico”, “Synedoque”, entre outros, são filmes que discutem o próprio cinema. Questionam a capacidade do cinema de reproduzir o real. Eles nos lembram o tempo todo que aquilo que estamos vendo na tela não é de verdade. Que tudo é cinema, que tudo é representação da realidade. São filmes que parecem nos dizer que tudo é um engodo. Mas um maravilhoso engodo.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h13 PM
Fidelidade às lágrimas

Cena de "Sempre ao Seu Lado"
Ontem levei minha mãe para ver "Sempre ao Seu Lado", "o" filme de cachorro da temporada. Do mesmo jeito que nesta época temos a Xuxa na telona ou filme francês com o Mathieu Amalric, o gênero filme fofo com bichinhos tá aí para nos fazer debulhar em lágrimas.
Sessão das 4 da tarde no shopping, e aqui e ali algumas famílias orientais se acomodavam nas cadeiras. Essa fidelidade de descendentes de japoneses aos poucos longas do país que estreiam por aqui sempre me fascinou. "Sempre ao Seu Lado", apesar de ser uma produção norte-americana, conta uma história famosa no Japão, a do cão Hachiko e seu dono.
É nessas horas que o jornalista/crítico de cinema se revela um ser bipolar. Vou citar minha experiência, para ser menos genérico. O lado racional diz que o crítico deve analisar a obra com isenção, ver com olhos rigorosos, contextualizar o filme dentro da história do cinema, tentar entender a relevância dos temas propostos, a moral em jogo, os aspectos técnicos de direção, atuação etc. etc.
Mas ao mesmo tempo que eu via e tinha noção da fragilidade de "Sempre ao Seu Lado" e os mecanismos usados para conduzir a emoção do espectador, não pude deixar de me envolver com a história.
Antes de entrar na sala, já sabia o que esperar. Que se trata da história real de um cão que, mesmo após a morte do dono, vai todos os dias à estação de trem à sua espera. Que o apelo às lágrimas era o aspecto central. Que da música melosa aos inúmeros closes em Hachiko, "Sempre ao Seu Lado" nem parece cinema, mas sim uma visita à vitrine do pet-shop em que todos ficam com cara de bobo e se pegam falando com voz fininha.
Depois de uns 3 minutos de projeção, tudo isso já estava na tela. Ou seja, "Sempre ao Seu Lado" é um filme que promete algo e o entrega ao espectador. Visto dessa forma, é honesto.
E vejo relevância em "Sempre ao Seu Lado", ao menos como produto, porque é uma espécie de outro lado do filme de bichinho do final do ano passado, "Marley e Eu". Aliás, se formos analisar esse gênero, tenho sentido uma certa mudança no foco. Se antes tínhamos produções como "Lassie", em que os bichos eram os astros, com seus dotes físicos, lealdade e esperteza, há agora um enfoque claro no público consolidado que trata seus bichos de estimação como pessoas e que torram altas quantias de dinheiro na sua criação. Fenômeno dos dias atuais que o cinema não poderia deixar de retratar, portanto.
E não pude deixar de levar a sério ao menos duas questões levantadas pelo filme, que o tornam mais ousado que "Marley". Em determinado momento, o personagem de Richard Gere comenta com um amigo que Hachiko não vai buscar a bolinha que ele atira para brincar. O amigo, oriental, comenta algo do tipo: "Ele é japonês, e não americano. Por isso ele não tenta ficar te agradando". Há, nesse comentário, algo maior para se pensar.
"Sempre ao Seu Lado" é bem japonês, ao menos no fato de tratar a questão da morte sem rodeios. Há algo de ousado numa produção em que o personagem principal (que é Richard Gere, e não o cão) morre antes de o filme acabar. Claro que somos manipulados pelo diretor, mas não há como negar que surge um vácuo quando Richard Gere desaparece. Daí para sentirmos a mesma angústia que o cão sente é um passo. E é aí que "Sempre ao Seu Lado" se torna um filme digno. Não um grande filme, mas um filme Ok, do diretor Lasse Hallström, que fez o belo "Minha Vida de Cachorro" (1985).
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h59 PM
Alain Resnais, 87, o jovem

André Dussollier e Sabine Azéma em cena de "Ervas Daninhas"
Se a programação de cinema não mudar, nesta sexta-feira teremos dois filmes de Alain Resnais em cartaz em São Paulo. “Medos Privados em Lugares Públicos” é daqueles fenômenos cultivados pelos programadores do HSBC Belas Artes: está em cartaz desde 13 de julho de 2007. “Ervas Daninhas”, o mais recente, estreia agora.
Aos 87 anos, Resnais segue o passo de outros veteranos, como Manoel de Oliveira, 101, e Woody Allen, 74, e parece rejuvenescer a cada filme.
Tudo bem que Resnais tem uma produção espaçada se comparada a esses diretores: cinco filmes nos anos 80 e quatro nos 90, por exemplo. Mas o fato é que ele praticamente renasceu para os brasileiros, com “Medos Privados”.
Não são poucos os que simplesmente odeiam esse belo filme. É até compreensível. A referência sobre Resnais sempre será “Hiroshima Mon Amour” (1959) e “O Ano Passado em Marienbad” (1961), filmes graves, modernos e desconcertantes.
“Medos Privados” e, agora, “Ervas Daninhas”, parecem ser a expressão de alguém que cansou da seriedade, da pompa. Mas, ao contrário de anunciar senilidade, demonstram um jeito coerente e mais flexível de lidar com os mesmos temas.
O colorido excessivo e artificial dos dois filmes são como a antítese da beleza formal do preto e branco de “Hiroshima” e “Marienbad”. Mas não estão lá a memória que se apaga, a incerteza sobre o real e o imaginário, a modernidade que agora se traveste de kitsh?
Neste final de ano, ver filmes de Alain Resnais é daquelas tarefas que também ajudam a entender a produção cinematográfica atual. “Ervas Daninhas” parte de situações banais que poderiam estar em qualquer comédia hollywoodiana, dessas que os casais adoram ver em shopping center. Mas trata-se de uma reflexão sobre a própria linguagem e as nossas expectativas depois de ficarmos com a retina amortecida com tantos filmes de Nora Ephron e Meg Ryan.
De um lado temos o blockbuster autoral “Avatar” buscando no passado de faroestes a fórmula para o futuro do cinema. Alain Resnais vem lá dos tempos de Godard e Truffaut, de quando os franceses anunciaram a revolução do cinema baseada na simplicidade e no despojamento. Resnais é o símbolo da sobrevivência e relevância de uma época áurea da modernidade _que parece às vezes ameaçada de ser mero verbete de enciclopédia. E, melhor, faz isso mostrando que o passado não é algo estanque, mas que aponta novas direções.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h39 PM
Enquanto ainda há autores

Mariana Ximenes e Júlio Andrade em "Hotel Atlântico"
Neste final de semana, em que os cinemas vão ficar ainda mais movimentados, com a estreia de “Avatar” ao lado dos blockbusters “Lua Nova” e “2012”, sugerir filmes nacionais como “Hotel Atlântico” e “É Proibido Fumar” soa até como ingenuidade.
O que me vem à mente agora são duas matérias que a repórter Ana Paula Sousa fez para a Ilustrada. Em uma delas, publicada em 11/12, o diretor-presidente da RioFilme dizia: “Se queremos enfrentar o produto estrangeiro, temos de priorizar o que é competitivo. Hoje, 80% da produção é de filmes autorais ou documentários. Ficam uma semana em cartaz e ninguém vê”.
Em outra matéria, de 6/10, sobre produtores de Hollywood de olho no potencial do mercado brasileiro, o vice-presidente internacional da Paramount, Matt Brodlie, era sincero: “A Paramount faz ‘Transformers’, ‘Indiana Jones’. Não temos interesse em filmes de autor, mas em filmes locais que sejam comerciais. Cineastas que fazem filmes porque amam cinema é uma coisa, indústria é outra”.
Ainda que tais afirmações sejam revoltantes num primeiro instante, não há como negar que fazem sentido sob determinado aspecto. O problema, grave, é o que acontece a partir desses pensamentos, como se o vilão da história fossem o filme autoral.
Explico.
Filmes têm que ser vistos, senão há pouco sentido em produzi-los. Melhor ainda quando dialogam com um público maior e geram uma renda que sustente uma indústria.
É melhor ainda quando a equação reúne apelo popular e respeito à inteligência do espectador. Em Hollywood, temos Spielberg, por exemplo. Hitchcock, em seu tempo, era visto como um bom diretor de produções comerciais. Truffaut já dizia que um filme bom é aquele com o qual o sujeito comum, sem nenhum conhecimento prévio de cinema, consegue se emocionar e se divertir.
Em termos de números, 2009 foi um bom ano para o cinema nacional, o melhor desde 2003 (renda de R$ 129 milhões, até novembro, contra R$ 89 milhões em 2008). Os filmes mais vistos foram “Se Eu Fosse Você 2”, “A Mulher Invisível”, “Os Normais 2”, “Divã”, “O Menino da Porteira” e “Besouro”.
Se, por um lado, é animador ver que o cinema brasileiro não está morto em termos de bilheteria, por outro é deprimente imaginar que alguns dos títulos citados transformam o cinema numa grande sucursal da televisão.
A partir daí, surgem algumas questões. Filmes com esse perfil serão os visados a ganhar incentivos financeiros? Ao mirar o “povão”, produtores sugerem que pessoas das classes C e D só se interessam por narrativas mais “mastigadas”, vindas da estética novelesca da televisão? Os filmes brasileiros autorais terão um fim próximo?

Glória Pires e Paulo Miklos em "É Proibido Fumar"
Como não sei dar as respostas, fui logo ver “Hotel Atlântico” e “É Proibido Fumar” antes que eles saiam de cartaz. Se pelo resultado em si são filmes que merecem aplausos, nesse cenário onde nadam contra a corrente eles ganham ainda mais o meu respeito.
O primeiro é mais difícil de agradar. De cara, já rompe com uma convenção. Temos um personagem que é transparente, difícil de ganhar a empatia do público. Ele é como um nada, que sai de lugar nenhum para chegar a qualquer lugar. Gosto do retrato do Brasil profundo que “Hotel Atlântico” propicia. Parece que não há nada mais moderno que Suzana Amaral no cinema brasileiro atual.
Já o excelente “É Proibido Fumar” tem uma relação mais ambígua com essa mentalidade de cinema “mastigado” vindo da televisão. Glória Pires, a protagonista, ganha logo de cara a cumplicidade do espectador. Temos situações engraçadas, de fácil entendimento. Mas a diretora, Anna Muylaert, não entrega o jogo fácil. O drama que propicia a virada na trama, a chantagem, não é mostrado diretamente.
Ficamos sabendo de tudo pelas entrelinhas, pelas sugestões das imagens. Anna não precisa explicar detalhe por detalhe, ela se recusa a pegar na mão do espectador.
No contexto atual do cinema brasileiro, o que Suzana Amaral e Anna Muylaert fazem chega a ser tão ousado quanto o 3D de “Avatar”.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h21 PM
O primo rico e o primo pobre
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Cena de "Avatar"
Tem assuntos dos quais não dá para escapar. E, a partir desta semana, só vai dar “Avatar”, o primeiro filme de James Cameron desde “Titanic” (1997).
Você já deve ter lido por aí que o diretor levou 12 anos para conseguir fazê-lo porque teve que esperar a tecnologia se desenvolver; que custou algo em torno de R$ 230 milhões, segundo o site Imdb (os números chegariam a R$ 400 mi contando gastos em publicidade); que o estúdio tenta empurrar a ideia de que a revolução causada pelo filme será semelhante à chegada do som e da cor ao cinema etc. etc.
Mas, e aí? O filme é tudo isso mesmo?
Sim e não.
Sim porque “Avatar” empolga. Não porque “Avatar” não muda radicalmente a forma de se contar histórias no cinema (posso mudar de ideia daqui a uns dez anos).
Fui assistir a “Avatar” ontem em sessão para a imprensa e, por incrível que pareça, ao final da projeção eu me lembrei de “Atividade Paranormal”, que vi no domingo.
Obviamente a saga de ficção científica de Cameron não tem nada a ver com o terror barato do estreante Oren Peli, em termos de trama.
Mas os dois filmes evidenciam como Hollywood está desesperada para sair do buraco, para levar de volta às salas de cinema aquelas pessoas que preferem o DVD, o download, a TV a cabo, a internet.
A grande estrela, nos dois casos, é o marketing, a propaganda (seja dos estúdios, seja do público), o velho boca a boca.
“Avatar”, que tem pré-estreias nesta quinta-feira, pretende ser a cereja do bolo do formato 3D, que, os números comprovam, é o que hoje faz um número expressivo de pessoas ir ao cinema.
Na prática, o longa não é uma experiência transcendental. Ele oferece aquilo que já vimos em várias produções 3D, mas apenas de forma mais ostensiva e caprichada (na sala IMax do Bourbon Shopping, as imagens e as legendas ficaram fora de foco em alguns momentos). A história de que “Avatar” te leva para dentro da tela é exagero. O velho e bom 2D, quando tem roteiro bem amarrado, atores eficazes, direção de arte impecável etc. também faz o espectador esquecer do seu mundo.
Por outro lado, o que faz “Avatar” ser um bom filme não é esse blablablá tecnológico, mas sim a velha e tradicional jornada do herói, já descrita por Joseph Campbell e levada às telas em sagas como “Star Wars”, “Matrix” e “Senhor dos Anéis”. Todos os elementos simbólicos estão ali: um herói em formação que encontrará em contato com novos valores, que irá percorrer um longo caminho ao ouvir o chamado da aventura etc.

Cena de "Atividade Paranormal"
“Atividade Paranormal” é como se fosse o outro extremo da equação. O orçamento é estimado em US$ 15 mil (quantia que não deve pagar nem o salário do estagiário de produção de “Avatar”). Já rendeu mais de US$ 107 milhões. Não é preciso ser nenhum especialista para ver que foi um bom negócio.
O marketing, nesse caso, foi mais discreto, mas se espalhou rapidamente. A campanha diz algo na linha “se você quer ver esse filme em sua cidade, visite o site tal”. E, de boca em boca, “Atividade Paranormal” pegou.
Já tínhamos visto esse fenômeno em 1999, com “A Bruxa de Blair”. Novamente, vemos na tela os supostos registros em vídeo caseiro de algo que realmente aconteceu (muitos desavisados por aí tendem a acreditar ser de fato real). E, ao contrário de “Avatar”, o fetiche é o mal-acabamento, as imagens toscas, mal-enquadradas, de câmeras semiprofissionais.
No final das contas anima saber que o cinemão comercial e seus diretores, produtores e marqueteiros encontram artifícios e meios inteligentes e dignos, como “Avatar” e “Atividade Paranormal”, para continuar atiçando a curiosidade do público e fazê-lo ir à sala de projeção mais próxima. A lamentar o espaço em circuito que tais filmes retiram das produções mais autorais. Mas isso é outra história.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h15 PM
Os vampiros de Almodóvar

Diego e Harry, os criadores dos vampiros de "Abraços Partidos"
Levando em conta que “Lua Nova” é a segunda maior abertura da década no Brasil, atrás apenas de “Homem-Aranha 3”, vale retomar o assunto.
No post anterior eu falava sobre os castos vampiros de “Lua Nova” e os comparava a outros similares do gênero. Esqueci de falar que, no mesmo final de semana que assisti à segunda parte da saga Crepúsculo, “vi” o melhor filme sobre os sanguessugas dos últimos tempos (digo isso porque ainda não tive a chance de conferir a série “True Blood”, que fontes confiáveis dizem ser sensacional).
“Vi” entre aspas porque “Doe Sangue” não existe, ele é um filme dentro do filme “Abraços Partidos”, o mais recente de Pedro Almodóvar, que, assim como “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, é uma homenagem ao cinema.
Posso estar sugestionado e enganado, mas, para mim, soou como uma alfinetada de Almodóvar à saga Crepúsculo (aliás, uma das reclamações que mais tenho ouvido é sobre esse clima de “liberou geral” nas tradições vampirescas. Que história é essa de vampiro sair passeando em plena luz do dia?).
“Doe Sangue” não aparece em imagens dentro de “Abraços Partidos”. Ele é um roteiro em processo de criação feito por Diego (o filho da produtora) e Harry (o diretor cego); apenas ouvimos o diálogo entre os dois narrando a trama.
A história do filme imaginário é sobre um grupo de vampiros que trabalha num hospital onde pessoas vão doar sangue. Vou transcrever uns pedaços, baseado no que achei aqui:
DIEGO
Os vampiros seriam como um grupo étnico, completamente assimilados dentro da sociedade espanhola (...) Há vampiros que ocupam importantes cargos, mantendo segredo (como a Opus Dei). Mesmo vivendo nas sombras, eles conseguiram grande influência social e poder econômico.
HARRY
Eles controlam várias indústrias. Como a responsável pelos óculos escuros, por exemplo.(...)
HARRY
Protegidos por filtro solar, eles podem trabalhar durante o dia. A loção tem que ser tão densa quanto uma armadura.
DIEGO
(empolgado) A história poderia começar assim: uma mulher deslumbrante, totalmente pelada, passando o filtro solar no corpo antes de ir trabalhar no hospital.
HARRY
Que ótimo começo! Também precisamos de uma história de amor.
DIEGO
Uma história de amor híbrido, entre uma vampira e um cara normal.
HARRY
Como em “Cat People” , uma história de amor entre seres de diferentes espécies...
DIEGO
Ela trabalha em um desses laboratórios onde o sangue é doado e eles mesmo consomem. O cara vai fazer uma doação. Eles se gostam de imediato. Após a primeira picada de agulha em sua veia, ela fica completamente excitada. Então eles começam a namorar. Mas ela não quer transformá-lo num vampiro (...)
HARRY
Mas eles gostam de sexo, certo?
DIEGO
É claro. Este é um dos problemas, o casal se deseja desesperadamente. Mas, quando chega a hora do sexo, ela fica pudica.
HARRY
Por quê?
DIEGO
Porque ela tem medo de perder o controle ao ficar excitada e dar uma mordida na jugular dele. (...) Quando eles estão excitados, ela deixa ele fazer de tudo: pela frente, por trás, tudo que ele quiser, menos na boca
HARRY
E os peitos dela?
DIEGO
Também. Mas aí é um território de alto risco. Quando ele chupa os peitos dela, ela tem que proteger a boca com um travesseiro, que ela acaba retalhando com seus caninos.
*****
Bem, daí para frente eles descrevem como é o sexo oral, e como ela acaba usando uma focinheira nessas horas....
Travesseiros, focinheiras....Seria essa a solução para o drama de Bella e Edward?
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h42 PM

