Ilustrada no Cinema

 

 

Lançamentos em DVD

A vida não se copia

A vida não se copia

 

Por Bruno Yutaka Saito

Ele teve uma infância difícil. A família, disfuncional, o botou para trabalhar desde cedo em subempregos. Nunca deram atenção para o talento artístico que ele demonstrava. Mas ele batalhou.

Certo dia uma pessoa muito influente percebeu seu potencial e lhe deu uma chance _que ele agarrou com unhas e dentes. Em pouco tempo, pôde largar o trabalho que odiava e se dedicar à sua arte. Mas as coisas não foram fáceis. Logo o sucesso lhe subiu à cabeça e, incapaz de lidar com a fama, começou a usar drogas. Mansões, carrões e mulheres não bastavam, e logo a decadência veio. Quando ele olhou para trás, viu que ainda havia tempo para uma nova guinada na vida.

Troque o “ele” por “ela”, o “drogas” por “frustrações amorosas” e um ou outro detalhe e a trama descrita acima serve para resumir as biopics de nomes como Ray Charles, Johnny Cash, Bob Dylan, Jim Morrison, Ian Curtis, Edith Piaf etc., ainda que tais personalidades habitem universos distintos. Todos os artistas são iguais? Ou todos os retratos são falhos?

Entre as fórmulas que a indústria do cinema encontrou para enfrentar a falta de idéias originais, a das biopics é, ao lado dos remakes e das adaptações de HQs, uma das que mais proliferam pelas telas. Afinal, trata-se de reconhecimento artístico (atores que incorporam tiques de seus retratados sempre comovem no Oscar) e financeiro quase certos.

À parte a chatice que a maioria desses filmes são para quem não é fã do retratado em questão, as biopics se deparam com o absurdo que é resumir uma vida em torno de duas horas. “Cidadão Kane” (1941) já atentava para a dificuldade de explicar fielmente o que é, enfim, uma pessoa.

Dois lançamentos recentes em DVD levantam esses paradoxos por vias diferentes: “A Vida É Dura” (Walk Hard), que chega direto ao formato no Brasil, e “Não Estou Lá” (I’m Not There), que fez boa carreira nos cinemas.

Dirigido por Jake Kasdan e com Judd Apatow no roteiro, a comédia “A Vida É Dura” é a biopic de Dewey Cox, um astro do rock imaginário. A ironia já começa pela escolha do protagonista. John C. Reilly é um ótimo ator e tem cara de tudo, menos de galã libidinoso do rock.

A trama? É a mesma do começo deste post, mas com referências mais explícitas à vida de Johnny Cash, Bob Dylan, e Brian Wilson. Entre as ótimas ironias está o fato de que Reilly, 43 anos, interpreta o personagem principal desde que este tem uns 13 anos na trama. Não há registro realista que possa reproduzir a “verdade” propriamente dita, parece dizer o filme.

Já “Não Estou Lá” é a engenhosa maneira que Todd Haynes encontrou para retratar Bob Dylan sem citar o nome Bob Dylan. Haynes não conta linearmente a trajetória do artista, mas busca representações diversas em torno do mito, e não do homem. É mais honesto e real à sua maneira, já que admite e incorpora a impossibilidade do retrato fiel.

Ainda que o DVD (disponível apenas para locação) seja pobre, sem extras, trata-se de boa oportunidade para revê-lo em cores e áudio decentes, já que a maioria das salas de cinema o exibiam naquela já conhecida projeção digital tosca aqui em SP.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h12 AM

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Tudo em família

Tudo em família

Por Bruno Yutaka Saito

Filmes sobre família não são necessariamente “filmes família”. Ao contrário, quando o campo em questão é o cinema independente, ou com ares mais alternativos, eles têm mais cara é de filme de terror. Dois lançamentos recentes em DVD são bons exemplos.

Chegando direto ao formato, “Margot e o Casamento” (“Margot at the Wedding”) é o novo longa de Noah Baumbach (de “A Lula e a Baleia”).

Margot (Nicole Kidman) é a escritora de meia-idade que viaja a Long Island para o casamento de sua irmã, Pauline (Jennifer Jason Leigh), com o traste Malcom (Jack Black). Elas estão brigadas há tempos, e resolvem fazer as pazes.

O que parece guiar o longa, no entanto, é uma profunda devoção ao estilo e ao clima dos filmes de John Cassavetes. Ficam evidentes a colaboração íntima e cúmplice entre atores e diretor, uma tensão permanente no ar, algo claustrofóbica, necessária quando o assunto é família (as disfuncionais, ao menos). O mérito de Baumbach é fazer parecer que a câmera flutua entre os atores, sempre entrando no meio das cenas, dando ao espectador certa sensação de proximidade.

Diz Baumbach à revista “Sight & Sound”: “Um encontro de família pode trazer o melhor e o pior de você, com pessoas freqüentemente regredindo a atos infantis. Além disso, membros de uma família dividem uma história, uma linguagem secreta, uma série de questões de orgulho e suposições etc., mas quando todos se tornam mais velhos, essas questões se quebram, e eu estou interessado em como as pessoas lidam com isso”.

Já em outro extremo, nada realista, está o registro de David Lynch para questões pessoais. Seu primeiro longa, o cultuado “Eraserhead” (1977) finalmente ganha lançamento em DVD no Brasil.

Longa-metragem que têm mais a ver com os primeiros trabalhos de videoarte de David Lynch, “Eraserhead” não têm uma estrutura convencional. Pode parecer óbvio, para quem assistiu a “Cidade dos Sonhos” ou “Império dos Sonhos”, mas o fato é que em “Eraserhead” estamos em um lugar não-identificado, que poderia ser a Terra ou qualquer outro planeta, época ou dimensão. E as pessoas não se parecem muito com pessoas, são criaturas/monstros literais.

No sentido simbólico, são metáforas claras de Lynch para um drama que ele vivia na época. Ele buscava representar seu medo da paternidade. Enquanto Lynch não chega ao Brasil para sua palestra, “Eraserhead” é fundamental para se entender as paisagens mentais do artista.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h37 PM

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Os estranhos de Jim Jarmusch

Os estranhos de Jim Jarmusch

 

Por Bruno Yutaka Saito

Era 2003, e o Cinesesc resolvera abrir uma micromostra-relâmpago com dois filmes de Jim Jarmusch: “Estranhos no Paraíso” (84) e “Down by Law” (86). Surpresa: na primeira exibição, do primeiro filme, uma fila quilométrica fazia o público dobrar a esquina da rua Augusta.

Supresa, mas nem tanto. A pequena multidão ali presente apenas confirmava o fato de que Jarmusch está num lugar privilegiado da memória afetiva de quem acompanhou seu surgimento, nos anos 80, ou apenas ouviu relatos de amigos apaixonados.

Para esses fãs, a boa notícia: “Permanent Vacation” (80), seu primeiro filme, visto por pouquíssimas pessoas por aqui, já está nas lojas de DVDs. Na seqüência, chegam “Estranhos no Paraíso” e “Dead Man” (95).

Jarmusch em registro ainda bruto, como costumam ser filmes de estréias, “Permanent Vacation” acompanha Allie, jovem fã de Charlie Parker, que vagueia à esmo pelo Lower East Side, em Manhattan (Nova York), que mais parece uma cidade destruída por bombas (o registro de época é um dos pontos fortes do filme). Ele está num profundo vazio existencial, e vai encontrando estranhos personagens pelo caminho.

Ou seja, personagens solitários em uma trama sobre o “nada”, território que Jarmusch refinaria em suas produções seguintes. A diferença é que, em “Permanent Vacation”, o tom cômico fica um pouco por baixo do drama. Não é exagero comparar a melancolia de Allie ao zeitgeist da época, do pós-punk, ainda que seja o jazz que dê o tom do filme.

E por que Jarmusch causa filas e fascínio? É fácil entender a razão na geração próxima dos 40 anos. Filmes como “Estranhos no Paraíso” fazem parte de um contexto que englobava bandas como The Smiths, Legião Urbana e The Cure, livros de Caio Fernando Abreu etc., nomes, enfim, que evocam um romantismo urbano, adequado para certo clima de fim da civilização. Para os mais novos, desolação, alienação, solidão e busca por contato e afeto, questões também tocadas por Jarmusch, são fatores que sempre vão causar fascínio.

Veja abaixo uma cena, com uma sensacional dança de Allie, personagem que adota o lema “viva intensamente, morra jovem”:

 

A seguir, trailer de "Estranhos no Paraíso":

E um videoclipe de "Dead Man" (com trilha de Neil Young):

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h39 PM

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'Taxi Driver' volta cheio de extras

'Taxi Driver' volta cheio de extras

 

A solidão tem um nome. Travis é o andarilho solitário de "Paris, Texas", de Wim Wenders. Travis é também uma banda escocesa tristonha, que canta versos como "Why Does It Always Rain on Me?" (Porque sempre chove em mim?). Mas nenhum Travis é mais solitário, perdido e perdedor do que Travis Bickle, o "Taxi Driver".

O clássico de 1976 de Martin Scorsese retorna agora em "edição definitiva", pela Sony, em um caprichado DVD duplo que traz um disco inteiro de extras, a preço razoável: R$ 29,90.

"Taxi Driver" faz parte daquela restrita e subjetiva galeria dos cult movies, em que uma simples imagem se descola do filme para criar vida própria. Neste caso, a imagem de Travis (Robert De Niro), com seu sorriso ambíguo e corte de cabelo moicano, enquanto aponta o dedo para a cabeça, ensanguentada, como se fosse uma arma.

Para quem não conhece, um breve resumo. Estamos na Nova York dos anos 70, época barra-pesadíssima. Drogas, decadência, inocência perdida, Hollywood em momento de reinvenção: o clima nada leve contagiava os filmes norte-americanos do período. Travis é o sujeito insone que resolve trabalhar como taxista. Cansado da "sujeira" das ruas, se torna um justiceiro.

É um personagem com várias nuances, fechado em si mesmo, complexo. Por isso mesmo, e pelo caráter mítico que o filme adquiriu, os extras não se tornam redundantes.

Ficamos sabendo de curiosidades: é estranho imaginar que o filme poderia ter sido dirigido por Brian De Palma e estrelado por Dustin Hoffman, por exemplo. No segmento dedicado a Scorsese, ele fala sobre as influências que "Taxi Driver" recebeu. Diz que, naquela época, o cinema europeu exercia grande fascínio sobre os novos cineastas norte-americanos. Que, em "Taxi Driver", ele buscou incorporar o modo como Godard filmava, em que prevalecia um certo distanciamento das coisas. Fassbinder, Franceso Rosi, Salvatore Giuliano e Hitchcock, em especial "The Wrong Man" ("O Homem Errado"), foram outras fontes de inspiração.

Scorsese e o roteirista Paul Schrader falam de sua identificação com Travis, que em dado momento é descrito como uma espécie de Nosferatu, preso em um caixão de metal que flutua por Nova York _um dos melhores extras é um documentário onde ex-taxistas contam como era uma experiência "leve" rodar pela cidade na época.

Schrader dá o resumo definitivo: "Não é um filme sobre a solidão. É um filme sobre a patologia da solidão. A solidão [de Travis] era seu mecanismo de defesa. Ele não é só por natureza, é só por opção. É uma patologia bem americana".

*

Saudade de "Taxi Driver"? Aí vai um trechinho. Tá falando comigo?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h13 AM

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No universo onírico de Kar-wai

No universo onírico de Kar-wai

Você já sofreu por amor? Ou, melhor, você já foi abandonado(a) por alguém, sem entender direito por que, e desde então sua vida anda meio estranha? Se sim, já é meio caminho andado para entender o que é o universo de Wong Kar-wai. Universo que está presente em dois filmes do diretor chinês recém-lançados em DVD: "Felizes Juntos" (1997, Lume Filmes, foto) e "Dias Selvagens" (1991, Imagem Filmes, só para locação).
 
Essas duas produções reúnem todas as características que tornaram Kar-wai mais do que mero objeto de culto entre cinéfilos (a narração em off, para desespero dos professores de roteiro, cortes abruptos, trilha nostálgica e ocidental etc.). Seus filmes são, antes de tudo, objetos de fetiche, onde a forma tem poder determinante, quase ofuscante, mas não esvazia a força poética e cinematográfica do que está sendo contado.
 
Em "Felizes Juntos", um casal chinês gay que vive às turras resolve ir à Argentina (eles querem ver as cataratas do Iguaçu). Terminam. Resolvem ficar em Buenos Aires. Um deles vira porteiro de boate. O outro, michê. E eles sofrem, enquanto são embalados pelo mais melancólico dos tangos. "Felizes Juntos" marca o reconhecimento "oficial" de Kar-wai, que ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes com o longa.
 
"Dias Selvagens" é outro tipo de marco. Trata-se do pontapé numa espécie de trilogia de Kar-wai, que seria seguida por "Amor à Flor da Pele" (2000) e "2046" (2004). Não espere, no entanto, algo que realmente ligue "Dias Selvagens" a esses dois outros filmes.
 
Neste longa, ambientado nos anos 60, Leslie Cheung é o Don Juan que vai abandonando mulheres apaixonadas, até o dia em que resolve ir atrás de sua verdadeira mãe biológica.
 
A conexão entre os três filmes está no clima, na eterna temática que Kar-wai repete em toda a sua obra, e que, volta e meia, lhe rende comparações com Michelangelo Antonioni. Kar-wai também se pergunta: o que é real, o que é imaginário? Foi um sonho? O que é o passar do tempo e a memória?
 
O único porém desses dois lançamentos são os extras, que se resumem a textos e trailers (a edição norte-americana de "Felizes Juntos", da Kino Vídeo, por exemplo, traz extras como um documentário de 59 minutos sobre o filme). Mesmo assim, são DVDs necessários, e pouco a pouco as distribuidoras estão completando essa lacuna nas lojas. De Kar-wai, há ainda, no Brasil, "Amor à Flor da Pele", "Conflito Mortal" (nome tosco para "As Tears Go By") e "Eros", em que ele dirige um dos episódios. Se você procurar bastante, vai achar em VHS o fundamental "Amores Expressos" e "Anjos Caídos".

A seguir, o trailer de "Dias Selvagens".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 3h24 PM

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Filmes de Kubrick em edições de luxo

Filmes de Kubrick em edições de luxo

Todo cinéfilo que se preze tem em casa alguns filmes de Stanley Kubrick. Não só pela importância do diretor mas também pela facilidade para comprar no Brasil os DVDs de seus longas, especialmente os lançados pela Warner, figurinhas freqüentes nos saldões de lojas reais e virtuais. Mas são edições simples, com pouquíssimos extras ou materiais de apoio _em alguns casos, nenhum.

Pois cinco desses filmes de Kubrick pela Warner ganharão edições de luxo, a serem lançadas em outubro nos EUA e em novembro no Brasil. A caixa "Director Series: Stanley Kubrick Collection" será formada por "2001, uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica", "O Iluminado", "De Olhos Bem Fechados" e "Nascido para Matar". Os quatro primeiros serão DVDs duplos, e o último terá extras, mas sairá um disco só. O documentário "Stanley Kubrick: Imagens de uma Vida" completa o pacote. Ao que tudo indica, será um lançamento à altura do diretor americano.

O cardápio de extras promete. "2001", por exemplo, terá o documentário "2001: a Produção de um Mito", uma entrevista em áudio com o diretor e especiais sobre os efeitos especiais do filme e sobre o legado da obra e mais alguns penduricalhos. Nada disso constava do DVD lançado originalmente no Brasil.

"De Olhos Bem Fechados" trará, entre outras coisas, as duas versões do filme (a suavizada para o público dos EUA e a integral), comentários de Sydney Pollack, um documentário sobre o último filme do diretor e especiais sobre os projetos inacabados dele.

A Warner afirma que cada longa foi recuperado digitalmente, algo que já acontecia com parte das edições simples. Resta esperar o lançamento para conferir se houve de fato algum ganho na qualidade do filme em DVD.

Nos EUA, a caixa custará cerca de 80 dólares, e cada DVD será lançado separadamente por 27 dólares. No Brasil, o preço ainda não foi definido, e também não está fechado se os filmes serão lançados fora da caixa.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h56 PM

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Linklater em dose dupla

Linklater em dose dupla

Sem muito alarde, Richard Linklater, 47, vem construindo uma das obras autorais mais interessantes do cinema norte-americano atual. Se, por um lado ele faz obras mais comerciais (como "Escola do Rock"), é em filmes como "Antes do Amanhecer" que ele consolidou seu status de cult, ao lado de diretores que afloraram nos anos 90, como Quentin Tarantino e Kevin Smith. Linklater é uma espécie de versão pop do francês Eric Rohmer: muito papo-cabeça, pouca ação.

Dois de seus filmes cult, "Waking Life" (2001, foto acima) e "O Homem Duplo" (2006, foto abaixo), que dialogam entre si tanto na forma quanto no conteúdo, chegam quase ao mesmo tempo em DVD, o primeiro pela Fox e o segundo pela Warner. Em ambos Linklater usa a técnica da rotoscopia, que aplica recursos de animação sobre cenas filmadas com atores. O resultado são filmes que parecem desenho animado, mas não são.

Há quem ache essa opção estética mera afetação. Mas ela funciona bem em "Waking Life". O filme surgiu de uma experiência pessoal de Linklater. Certo dia, ele ficou "preso" dentro de um sonho. Nele, tinha plena consciência de que estava sonhando, mas não conseguia acordar de verdade. Sempre acordava dentro de outro sonho.

Não há trama propriamente dita no filme. O que há é um fiapo de narrativa nas andanças de um rapaz sem nome (Wiley Wiggins), que vai cruzando com inúmeras pessoas. Com cada uma delas, vai ouvindo monólogos que discorrem sobre assuntos que vão desde existencialismo e reencarnação e discursos políticos. Pode-se considerar o filme confuso e raso (a distância entre o papo-cabeça e o papo de boteco não é muito longa), mas o fato é que "Waking Life" capta com precisão seu tema: a dúvida sobre o que é real e o que é imaginário.

Dúvida que era central também para o escritor de ficção científica americano Philip K. Dick (1928-1982). O diálogo final de "Waking Life", que ajuda a elucidar a charada do filme, não por acaso é todo construído sobre uma experiência de K. Dick.

Já "O Homem Duplo" é baseado num conto de tintas autobiográficas do escritor, e novamente, uma das questões centrais é a dúvida sobre a realidade e o imaginário. Não chega a funcionar tão bem quanto "Waking Life", mas ainda assim tem seu charme (nem que seja só para ver os extras, que trazem trechos de entrevistas com o próprio K. Dick).

*

A seguir, um trechinho de "Waking Life".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h24 PM

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Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

 

Não é de hoje a história de que o cinema acabou. Para muitos críticos e estudiosos, a criatividade, os melhores roteiros e diálogos migraram das telas de cinema para as séries de TV. Se a tese é controversa, um lançamento em DVD permite ver como se sai quem faz o caminho inverso.

"Correndo com Tesouras" ("Running with Scissors") chegou a ter sessões para a imprensa, mas sai direto em DVD, por enquanto apenas para locação. É a estréia na direção em longas de Ryan Murphy, o criador da série "Nip/Tuck". Com o bordão "Diga-me o que você não gosta em você", o programa abusa do humor negro ao contar a história de dois cirurgiões plásticos às voltas com clientes bizarros. É uma sátira pesada à sociedade das aparências.

"Correndo com Tesouras" mostra que Murphy tem fôlego para sustentar um longa-metragem. O filme é baseado no livro homônimo de Augusten Burroughs e conta sua infância e adolescência. Entre o drama e a comédia, o jovem Augusten (Joseph Cross) enfrenta a separação dos pais _ele, um alcoólatra (Alec Baldwin); ela, uma poetisa medíocre e bipolar (Annette Bening, indicada ao Globo de Ouro).

Empurrado pela mãe, Augusten vai morar com o psiquiatra dela (Brian Cox), sujeito que se mostra malévolo, chefe de uma família igualmente disfuncional _Evan Rachel Wood e Gwyneth Paltrow interpretam suas filhas. Enquanto isso, Augusten vai deixando aflorar sua (homo)sexualidade na América dos anos 70.

O clima lembra "Os Excêntricos Tenenbauns" (2001, de Wes Anderson), então o grande mérito de "Correndo com Tesouras" é tratar esses personagens com um olhar de igual para igual, sem sensacionalismos ou de forma caricata _que, no fim das contas, é o grande mal do cinema indie contemporâneo.

Assim, o diretor ameniza a sátira pesada de "Nip/Tuck", que às vezes descamba para o grotesco, e busca refinar seus traços autorais, de forma mais abrangente: algo que cabe bem numa grande tela de cinema.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 2h29 PM

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Billy Wilder faz o melhor noir

Billy Wilder faz o melhor noir

Quer saber o que é filme noir em poucas palavras? Então preste atenção em Walter Neff: "Eu o matei pelo dinheiro e pela mulher. Não consegui o dinheiro....e não consegui a mulher".

E quer saber qual é "O" filme noir? Então assista a "Pacto de Sangue" ("Double Indemnity", 1944), de Billy Wilder, que acaba de sair em DVD no Brasil pela Versátil, com o bom documentário sobre o longa "Sombras do Suspense" como material extra.

Hoje, depois de tantas imitações, a trama não parece nada original. Mas não se engane. A originalidade está aqui. Walter Neff (Fred MacMurray) é o eficiente e cínico vendedor de apólices de seguro que um dia vai bater à porta da pérfida e cachorra Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck, que formatou "A" imagem de femme-fatale em Hollywood com este filme).

Ela quer se livrar rapidinho de seu velho marido e ganhar uma fortuna de indenização. Apaixonado (ou melhor, excitado), Walter será o mané perfeito para ajudá-la no crime.
Com a ajuda do lendário escritor de romances policiais Raymond Chandler no roteiro, "Pacto de Sangue" nos lembra que o noir surgiu num momento em que a América tinha perdido definitivamente sua inocência. O público pedia tramas menos ingênuas e a idéia era retratar pessoas comuns cometendo atos nada nobres.

O filme, baseado em livro de James M. Cain, traz os elementos essenciais do gênero no cinema: narração em primeira pessoa, em off; fotografia com fortes contrastes entre o preto e o branco; cenários e enquadramentos expressionistas, que refletem a alma corrompida de seus personagens. Não bastasse isso, este é o primeiro grande filme do gênio Billy Wilder e traz atuações arrasadoras de Barbara Stanwyck (grande atriz de Hollywood à época, que inicialmente ficou com medo que esse papel fosse manchar sua imagem) e Edward G. Robinson, que deixou aqui seus habituais papéis de vilão para interpretar o implacável chefe de Walter.

Se você se empolgar, não deixe de ver "Dália Negra" (2006), de Brian De Palma, que sai agora para vendas em DVD pela Imagem. Esta é uma excepcional releitura do gênero, feita por um sujeito que adora contar histórias de perdição. Mas poucos entenderam. Teve gente que achou De Palma previsível demais. E tem gente que conhece a tradição noir de menos...

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h17 PM

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As peripécias amorosas de Antoine Doinel

As peripécias amorosas de Antoine Doinel

 

Em uma entrevista para a TV francesa no início dos anos 80, François Truffaut contou que o ciclo de filmes sobre seu personagem mais fascinante, Antoine Doinel, surgiu quase por acaso. Interpretado pelo ainda garoto Jean-Pierre Léaud, Doinel protagonizara “Os Incompreendidos” em 1959 e não havia planos para seu retorno às telas. Mas em 1961, Truffaut foi convidado para dirigir um dos segmentos de “Amor aos 20 Anos”, obra em cinco episódios rodada na França, na Alemanha, na Itália, na Polônia e no Japão.


A parte que cabia ao cineasta francês virou “Antoine e Colette” (foto). Se “Os Incompreendidos” abordava a conturbada infância de Doinel, o alter-ego de Truffaut, “Antoine e Colette” tratava, em 30 minutos, da primeira aventura amorosa do personagem, com o mesmo estilo e a mesma temática que marcariam os outros três filmes da série: “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “Amor em Fuga” (1979).


Quase todos inéditos em DVD no Brasil, esses filmes estarão disponíveis até setembro no mercado nacional, pela coleção “As Aventuras de Antoine Doinel”. Lançada pela Versátil, a série começou com “Os Incompreendidos”, numa edição muito bem cuidada, que trouxe “Antoine e Colette” como um dos extras.


Nesta semana, chega às lojas “Beijos Proibidos”. Recém-saído do Exército, Doinel arruma emprego numa agência de detetives e, mais importante, conhece Christine (a então estreante Claude Jade), jovem que invadiria sua vida e, por tabela, os filmes seguintes da série. A seguir, o trailer original, já com a canção “Que Reste-t-il de Nos Amours”, de Charles Trenet, uma das marcas de “Beijos Proibidos”.


Para os fãs de Truffaut, a Versátil lança ainda “Domicílio Conjugal” em agosto, “Amor em Fuga” em setembro e “As Duas Inglesas e o Amor” em outubro.
 

Escrito por Leonardo Cruz às 2h31 PM

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Novo selo para filmes independentes

Novo selo para filmes independentes

Chama-se Lume Filmes o novo selo que começa a colocar bons títulos independentes no mercado brasileiro de DVDs. Com sede em São Luís, onde já atuava como produtora de eventos culturais, a distribuidora lança neste mês "Felicidade", o melhor filme do americano Todd Solondz. E já possui os direitos mais 27 filmes, que serão divididos entre a Coleção Lume e a Coleção Lume Clássicos.

Na primeira, filmes de diretores como Jim Jarmusch (o ultracult "Down By Law", foto acima), Emir Kusturica, David Lynch, Wong Kar-wai e Werner Herzog. Na segunda, obras de Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Otto Preminger.

A Lume também busca os direitos de filmes importantes do cinema marginal, como "A Margem", de Ozualdo Candeias. Mas ainda é tudo negociação. A seguir, o cronograma de lançamento da nova distribuidora até o final deste ano.

Junho
"Felicidade" (Todd Solondz, 1998)
"Reconstrução de um Amor" (Christoffer Boe, 2003)

Julho
"Felizes Juntos" (Wong Kar-wai, 1997)
"Na Companhia de Homens" (Neil LaBute, 1997)

Setembro
"Exótica" (Atom Egoyan, 1994)
"Luna Papa" (Bakhtyar Khudojnazarov, 1999)
"Filhos de Hiroshima" (Kaneto Shindô, 1952, Lume Clássicos)
"Madre Joana dos Anjos" (Jerzy Kawalerowicz, 1961, Lume Clássicos)

Outubro
"Down by Law" (Jim Jarmusch, 1986)
"Gothic" (Ken Russell, 1986)

Novembro
"Underground" (Emir Kusturica, 1995)
"O Sucesso a Qualquer Preço" (James Foley, 1992)
"Mãe e Filha" (Yazujiro Ozu, 1949, Lume Clássicos)
"O Cardeal" (Otto Preminger, 1963, Lume Clássicos)

Dezembro
"Eraserhead" (David Lynch, 1977)
"Stroszek" (Werner Herzog, 1977)

Para o ano que vem, ficam grandes filmes como "Contos da Lua Vaga", de Mizoguchi, e "O Fundo do Coração", de Francis Ford Coppola.

*

Leia mais sobre os lançamentos, especialmente "Felicidade", na versão impressa da Ilustrada do próximo domingo.

*

Este post inaugura uma nova seção no blog, voltada aos lançamentos do mercado de DVD, um pedido antigo de alguns leitores. A prioridade aqui será para os lançamentos de filmes raros, inéditos nos cinemas ou há muito tempo fora de cartaz.

Escrito por Leonardo Cruz e Bruno Saito às 4h02 PM

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