Ilustrada no Cinema

 

 

Cinema em debate

Dez filmes na sala de aula

Por Bruno Yutaka Saito

A relação entre professores e alunos é das mais célebres do cinema. Basta notar que dois bons filmes atualmente em cartaz, “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet, e “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh, dão uma atualizada nesse gênero à parte. O primeiro, uma incômoda visão sobre multiculturalismo e caráter, o segundo, verdadeiro lobo em pele de cordeiro, tem na figura da professorinha irritantemente alegre uma reflexão muitas vezes amarga sobre maneiras de estar e sobreviver no mundo.

A seguir, uma listagem de 11 filmes (todos disponíveis em DVD no Brasil) que abordam, de uma maneira ou de outra, essa complicada relação. Não são os melhores, nem os mais importantes, apenas filmes que de certa maneira deixaram suas marcas. Para você, quais são os principais filmes sobre a escola? (aliás, o título do post está como "Dez filmes", já que eu tinha esquecido de incluir "Sociedade dos Poetas Mortos")

“Zero em Comportamento” (1933)
Direção: Jean Vigo

Produção mais conhecida de Vigo, “Zero em Comportamento” é o modelo para os filmes que abordam crianças se rebelando contra o “sistema”. Vigo mostra alunos que retornam das férias para as aulas e se deparam com adultos que tentam “discipliná-los”. A produção pode ser vista no excelente DVD duplo “Jean Vigo Integral”, lançado pela Versátil no ano passado, com os outros filmes do diretor: “A Propósito de Nice” (1930), “A Natação por Jean Taris” (1931) e “O Atalante” (1934).

“Os Incompreendidos” (1959)
Direção: François Truffaut

Primeiro longa-metragem de Truffaut, “Os Incompreendidos” é também o primeiro filme com o personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud ainda adolescente), que seria retomado em mais quatro produções do diretor. Com muitos elementos autobiográficos de Truffaut, “Os Incompreendidos” faz ainda referências a “Zero em Comportamento” ao contar, quase em chave documental, o dia-a-dia do rebelde e quase marginal Doinel, dos problemas com os pais à sua conturbada relação com os professores e a escola.

“Ao Mestre com Carinho” (1967)
Direção: James Clavell

Clássico dos clássicos no quesito “professor que enfrenta alunos ariscos e acaba ganhando o coração de todos”. Sidney Poitier encontrou o papel de sua vida no engenheiro desempregado Mark Thackeray, que vai lecionar jovens no bairro operário de East End, em Londres.

“If” (1968)
Direção: Lindsay Anderson

Filme que se tornou indissociável das agitações do Maio de 68 francês, “If” ajudou a celebrizar a imagem rígida e sisuda que ainda temos sobre as escolas britânicas. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1969, “If” é também a produção que levou seu ator principal, Malcolm McDowell, a ser escolhido por Stanley Kubrick como o insano Alex de outro clássico, “Laranja Mecânica” (1971). A impactante sequência final (sonho ou realidade?) é inesquecível. “If” acabou de ser lançado em DVD no Brasil pela Lume.

“Na Idade da Inocência” (1976)
Direção: François Truffaut

Truffaut retoma o tema da infância e da escola, mas agora com um olhar diferente do de “Os Incompreendidos”. Desta vez, os professores não são os inimigos, e a escola não é vista como local de abusos e castigos. “Na Idade da Inocência” faz, ainda, bela reflexão sobre o tornar-se adulto, na memorável fala final do ator Jean-François Stévenin, um dos professores.

“Pink Floyd - The Wall” (1982)
Direção: Alan Parker

Música, imagens e a poesia do Pink Floyd resultaram num dos mais viscerais gritos contra as opressões da escola. Difícil não esquecer, por exemplo, a cena em que os estudantes caem em moedores de carne, além dos versos de “Another Brick in the Wall, Part 2”: “We don’t need no education/We don’t need no thought control/...Teachers, leave them kids alone”

“O Clube dos Cinco” (1985)
Direção: John Hughes

“Clássico” da rebeldia juvenil dos anos 80, só compete com “Curtindo a Vida Adoidado” (leia abaixo). É o filme “cabeça” de John Hughes, o cineasta que melhor soube captar o espírito jovem (mainstream) da década. De personalidades diferentes, cinco estudantes têm que cumprir uma pena por diferentes problemas de conduta: passar um sábado à tarde na escola e escrever uma redação.

“Curtindo a Vida Adoidado” (1986)
Direção: John Hughes

No ano seguinte a “O Clube dos Cinco”, Hughes criou o herói de toda uma geração. Ferris Bueller é o adolescente malandro, boa-praça, querido por todos na escola —menos, é claro, pelo seu arqui-inimigo, o diretor. A escola, aqui, é vista como o contraponto para o “dia de folga” de Ferris, que “resolve curtir a vida enquanto ainda dá tempo”.

“Sociedade dos Poetas Mortos” (1989)
Direção: Peter Weir

No papel do professor de poesia John Keating, Robin Williams mudou a vida não apenas dos rapazes de uma repressora escola, mas de toda uma geração de espectadores. “Sociedade dos Poetas Mortos” popularizou, para o grande público, a expressão latina “carpe diem”, que pode ser traduzido como “aproveite o momento”. Difícil não se emocionar ou não querer buscar algo mais da vida após ver esse filme (principalmente quando é visto por jovens). Robin Williams viraria um ator esquecível pouco depois, mas a cena final é marcante.

“Ser e Ter” (2002)
Direção: Nicholas Philibert

Sucesso do cinema francês, o documentário vai até o interior do país para registrar crianças de quatro a dez anos de uma sala de aula. Não é apenas a relação aluno x professor que está em jogo, mas sim a própria formação da personalidade, do indivíduo.

“Escola de Rock” (2003)
Direção: Richard Linklater

Bobagem das mais divertidas, “Escola do Rock” é mais do que mero veículo para o comediante (muitas vezes irritante) Jack Black. Ainda que não apareça aqui nada muito autoral do irregular Richard Linklater, “Escola do Rock” é anárquico na medida em que inverte os papéis de mestre e alunos. Claro, no final as coisas se constróem para que haja uma “mensagem”, mas o tom é dos mais acertados.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h12 PM

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"Gran Torino" é sobre aprender a mudar, diz Clint

                                                                                     Divulgação

Thao e Kowalski, o encontro de culturas em "Gran Torino" 

Por Leonardo Cruz

Na noite do último dia 25, Clint Eastwood recebeu em Paris uma Palma de Ouro especial por toda sua obra no cinema. Foi apenas a segunda vez em sua história que o Festival de Cannes entregou tal prêmio _a primeira havia sido em 1997, para o sueco Ingmar Bergman.

Nada mais justo. Com 78 anos de idade e 54 de carreira, Clint é um dos mais importantes cineastas americanos na ativa, de trajetória só comparável à de outros três gigantes: Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen.

Após despontar como ator nos anos 60 em filmes como “Por um Punhado de Dólares”, de Sergio Leone, e “Meu Nome É Coogan”, de Don Siegel, ele percorreu um caminho entre a atuação, fonte de prazer, dinheiro e fama, e a direção, sua maior satisfação profissional.

Viveu personagens que se tornaram célebres, como o detetive justiceiro Harry, o sujo, em “Perseguidor Implacável” (1971) e mais quatro longas. E realizou trabalhos premiados e elogiados pela crítica, como “Os Imperdoáveis” (1992).

No mesmo 25 de fevereiro, horas antes do tributo na França, o cineasta atendeu a Folha por telefone, na única entrevista ao Brasil para falar sobre “Gran Torino”. No novo filme, Clint dirige e interpreta Walt Kowalski, metalúrgico aposentado, que mora em um bairro empobrecido da Detroit de indústria automotiva decadente. Gran Torino é o Ford 1972 que Kowalski guarda na garagem, memória do passado próspero.

Veterano da Guerra da Coreia, ele mantém uma bandeira americana na entrada de casa e detesta seus vizinhos. São de uma comunidade hmong, etnia asiática que apoiou os EUA na Guerra do Vietnã, foi perseguida após o conflito e, em boa parte, fugiu para o Ocidente.

A ação do filme nasce dessa convivência entre o americano racista e rancoroso e os asiáticos da porta ao lado, em especial o jovem Thao. Xenofobia, crise dos valores da família e da igreja e negação da vingança como justiça social emergem em “Gran Torino”, ótima síntese das questões centrais da obra mais recente do diretor.

O filme, que estreia na próxima sexta no país, é o tema deste primeiro trecho da entrevista exclusiva. No post seguinte, o diretor faz um balanço da carreira.

*

Muitos de seus filmes mostram uma sociedade em declínio moral. Em “Gran Torino”, há também a decadência econômica. Isso reflete o espírito dos EUA hoje?
De certa forma, sim. Principalmente da região de Detroit, onde a indústria automobilística, antes símbolo do país e que hoje produz carros que ninguém mais quer, espera ser resgatada pelo governo. É um pouco sobre essa região em depressão, de fábricas fechadas e desemprego.
“Gran Torino” está no meio disso tudo, porque Walt Kowalski é um aposentado com problemas ligados a pessoas de dentro e de fora de seu círculo social. Muitos de seus amigos e contemporâneos estão mortos. E ele tem problemas com a igreja, com sua família, e seus preconceitos o colocam em choque com a vizinhança. Até que ele percebe que esses vizinhos asiáticos são mais voltados para a família do que ele é.

O contraste entre valores ocidentais e orientais foi algo que o atraiu no roteiro de Nick Schenk?
Sim. Gosto desse espírito de Kowalski, de homem obstinado. E também do fato de ele conseguir mudar, aprender algo. É isso que o filme resume: não importa a idade, sempre há algo a aprender sobre a vida, as pessoas e tolerância.

Críticos nos EUA disseram que Kowalski é uma espécie de Harry, o sujo, na velhice. Mas Kowalski carrega um forte sentimento de culpa pelo que fez na Coreia, e a forma como resolve as coisas em “Gran Torino” fazem dele o oposto da figura do vingador.
Creio que as pessoas concluíram apressadamente essa relação com “Dirty Harry”, sem refletir muito ou observar essa questão sob outro ângulo. Vejo o personagem como você colocou. Walt Kowalski é uma pessoa diferente. Tem que lidar com uma série de problemas que Harry nunca enfrentou.

Kowalski é uma espécie de resposta a Harry e àquela visão romântica do vingador dos anos 70?
Não estou tentando fazer um comentário sobre os anos 70. Os anos 70 foram os anos 70. E isso é agora. Mas, se há ou não alguma resposta escondida, eu desconheço. Só penso sobre “Gran Torino” no tempo presente. Nesse personagem e em seus problemas de agora. Kowalski me traz lembranças da época em que eu era militar. Senti que era capaz de compreendê-lo. Apesar de não ter ido à Guerra da Coreia, conheci muita gente que foi e que passou por aquilo que Kowalski passou. E você faz coisas malucas quando é jovem, coisas que, quando olha para trás, revê com certo arrependimento.

Dúvidas sobre a autoridade religiosa estão presentes em “Gran Torino” e em outros filmes recentes seus, como “Menina de Ouro” e “A Troca”. Por que esse é um tema tão relevante?
Não sei explicar. Em “Menina de Ouro”, isso era parte da estrutura do roteiro. Frankie Dunn [o personagem de Clint naquele filme] tinha uma atitude de confronto em relação a seu padre, uma coisa quase sádica. Ia à igreja todos os dias para confrontar o padre. Mas Kowalski é uma pessoa que simplesmente não quer ser importunado pela igreja. Não é o crente que sua mulher foi, mas volta para fazer uma confissão e pôr sua vida em ordem.

Você teve que fazer alguma grande mudança no roteiro?
Não. O roteiro original estava muito bom. Mudei alguns diálogos e algumas coisas aqui e ali, mas, em geral, o roteiro estava em boa forma. Filmei da maneira como estava.

Alguma cena foi mais difícil de filmar em “Gran Torino”?
Toda cena tem seus pequenos obstáculos. O grande desafio foi trabalhar com a cultura hmong, usando pessoas reais, amadoras, sem atores de grande experiência. Mas todo mundo entendeu o projeto e fez um bom trabalho.

Como você os preparou?
Eles trabalharam muito por si mesmos. Eu só cuidava da atmosfera das cenas, para que todos entrassem no clima que eu queria. Eles perceberam que, se para mim o resultado estava bom, para eles também.

Thao e Kowalski são, de formas distintas, “outsiders” em suas comunidades. Esse é um elemento de ligação entre os dois?
Sem dúvida. Walt tem reticências, mas sente prazer em tutorar o garoto e orientá-lo até o ponto em que ele aprende a ética do trabalho e uma profissão. Walt espera ser uma influência sobre Thao, quer que ele tenha uma vida melhor. Minha intenção sempre foi a de que o filme mantivesse um tom de esperança.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 2h38 AM

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"Kurosawa teve grande influência sobre mim"

                                                                                                  Divulgação

"Yojimbo" (1961), filme que levou Clint a filmar com Sergio Leone

Por Leonardo Cruz

“Se não gostasse de Kurosawa, minha vida teria sido muito diferente.” Neste segundo trecho da entrevista exclusiva à Folha, Clint Eastwood volta no tempo e conta que decidiu fazer “Por um Punhado de Dólares” por saber que o longa era inspirado em “Yojimbo”, filme sobre samurai mercenário, do japonês Akira Kurosawa, de quem era fã.

Afirma ainda que “Os Imperdoáveis” foi uma virada em sua carreira, reclama dos “brinquedos” digitais de Hollywood e crava: “A história é o rei”.

*

Qual o papel de Sergio Leone e Don Siegel em sua carreira?
Os dois foram muito importantes. Sergio estava fazendo uma experiência importante, um diretor europeu, italiano, trabalhando com um gênero americano e fazendo faroestes muito estilizados, operísticos. E a forma corajosa como ele fazia esses filmes me serviu de base. Com Don Siegel era um outro tipo de diretor, um contador de histórias urbano. Aprendi muito com os dois. E também com diretores com quem nunca trabalhei, vendo seus filmes ao longo da vida.

Por exemplo?
John Ford. Quando eu estava crescendo, ele era uma enorme influência para todo mundo. Howard Hawks também, além de [Frank] Capra e [Alfred] Hitchcock. Esses eram os que eu mais acompanhava.

E fora dos EUA?
Sempre fui um grande fã de Akira Kurosawa. Foi esse apreço que me fez atuar em “Um Punhado de Dólares”. Só fui filmar com Sergio Leone porque sabia que ele estava fazendo uma refilmagem de “Yojimbo”, um dos grandes filmes de Kurosawa. Mesmo sem nunca ter trabalhado com ele, Kurosawa teve grande influência na minha vida, pelo fato de que gostava demais de seus filmes. Se eu não gostasse, provavelmente não teria feito “Por um Punhado de Dólares” e minha vida teria sido muito diferente.

Então, você deve sua carreira a Kurosawa?
Sim, sim [risos].

Nos anos 60 e 70, você fez muitos filmes de gênero _faroestes e policiais. Os anos 80, com longas como “Bird”, foram uma transição?
De certa forma, sim. É verdade que nos anos 70 eu já dirigia, fiz filmes como “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. Mas foi nos anos 80 que meu trabalho como diretor tomou uma forma mais definida. Uma espécie de preparação para os anos 90, quando comecei a filmar meus melhores trabalhos, a começar por “Os Imperdoáveis”, em 1992, e depois com filmes como “Um Mundo Perfeito” e “As Pontes de Madison”.

“Os Imperdoáveis” foi um ponto de virada?
Sim, sem dúvida.

O sucesso como ator permitiu que você abrisse a Malpaso, sua produtora, já nos anos 70. Quando decidiu que queria dirigir?
Sempre quis dirigir. Decidi no fim dos anos 60 e, no início dos 70, já estava filmando.

Então sempre preferiu dirigir a atuar?
Sim. Como diretor, tenho liberdade para contar as histórias que quero. E não preciso ficar na frente das câmeras o tempo todo e ser acusado de má atuação [risos].

Acha que teria se firmado como diretor sem a Malpaso?
Provavelmente, não. Sempre me interessei pelos bons argumentos, em vez de só fazer o trabalho pelo dinheiro e seguir em frente. Mas nem sempre os estúdios estão interessados nas melhores histórias, ou nas histórias que considero mais interessantes. Por isso a Malpaso foi fundamental.

Fazer cinema hoje é mais difícil do que no passado?
Não creio. Acho que o cinema está bem e sempre esteve bem. O cinema nunca enfrentou uma grande crise. Nem econômica nem de criatividade, pois sempre houve público interessado em ver filmes e artistas interessados em criá-los.

Mas, hoje, o que atrapalha o cinema às vezes são os “brinquedos”. E por “brinquedos” eu me refiro à enorme habilidade atual de criar grandes efeitos especiais. Isso pode ser uma ótima ferramenta, mas às vezes esses “brinquedos” se tornam a coisa mais importante de um filme, deixando a história de lado. É um erro. A história é o principal, a história é o rei.

Você tem atuado cada vez menos nos últimos anos. Perdeu o interesse pela atuação ou faltam bons personagens mais velhos?
É um pouco das duas coisas. Não sei quantos bons papéis para caras com 78 anos ainda aparecerão no futuro. Mas, se alguma boa história aparecer, com um bom personagem, eu o farei. Só não estou procurando papéis. Sinto muito prazer em dirigir os filmes e assistir à atuação dos outros.

Você já dirigiu quase 30 filmes e atuou em mais de 50. Tem um favorito?
Ai, Deus... Não sei.

“Os Imperdoáveis”?
Certamente é um deles. Mas gosto muito dos mais recentes, “Sobre Meninos e Lobos”, “Menina de Ouro”, “A Troca”, “Gran Torino”. Mas não tenho um grande favorito. Talvez em alguns anos eu consiga olhar para trás e escolher um deles. Hoje é difícil demais. Mas “Os Imperdoáveis” certamente estaria no topo da lista.

Como ex-prefeito de Carmel, como vê a política dos EUA?
Precisamos de bons políticos. Espero que o presidente Obama vire um deles, mas é cedo para saber, porque só o que sabemos dele é o que vimos na eleição. E campanha é só conversa. Mas estou otimista.

Seu próximo filme, “The Human Factor”, é sobre um episódio da presidência de Nelson Mandela na África do Sul em 1995. É uma coincidência fazê-lo agora, quando há um presidente negro nos EUA?
Não foi programado. Faria “The Human Factor” antes, mas resolvi adiá-lo ao ler o roteiro de “Gran Torino”. O fato é que sempre fui grande admirador de Mandela, acho a trajetória dele admirável, e ele fez coisas fantásticas para a reunificação da África do Sul. Coisas que espero de Obama faça nos EUA a partir de agora.

*

Leia mais na versão impressa da Ilustrada (exclusivo para assinantes Folha ou UOL):
Análise da obra de Clint Eastwood como diretor, por Inácio Araujo
Análise da carreira dele como ator, por Sérgio Rizzo

Escrito por Leonardo Cruz às 2h35 AM

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Um filme a favor do Rio

                                                                            Fotos Divulgação

Cena de "No Meu Lugar", um dos destaques de Tiradentes

Por Silvana Arantes (em Tiradentes)

“No Meu Lugar”, o primeiro longa de Eduardo Valente, exibido pela primeira vez numa concorrida sessão da 12ª Mostra de Tiradentes, na noite da última sexta, alinhava as histórias de três núcleos de personagens, em acontecimentos que se dão ora simultaneamente, ora em tempos díspares.

No debate sobre o filme, na manhã de sábado, Valente (que além de cineasta é crítico de cinema) disse que aderiu à estrutura do “multiplot” apesar de seu desprezo pela obra do mexicano Alejandro González Iñárritu (“Babel”, “21 Gramas”, “Amores Brutos”), que fez desse recurso uma marca registrada. “Iñárritu criou certo trauma do “multiplot” entre as pessoas que não gostam dele, como eu, que só vejo ali a estrutura e o cineasta trabalhando”, afirmou Valente.

Outra “modinha”, esta de alcance nacional, que Valente também desafiou foi a do “filme de favela”. Um dos personagens centrais de “No Meu Lugar”, o entregador de supermercados Beto (Raphael Sil), é morador de uma favela onde ocorrem tiroteios e revistas policiais, fatos a que o filme se refere sem alarde. Citando o eventual esgotamento do interesse do público pelos “filmes de favela”, Valente disse: “Não vou me negar a entrar na favela por uma questão que está externa a mim”.

Muita gente deixou a sessão de “No Meu Lugar” com uma asfixiante sensação da inevitabilidade da tragédia no contexto da oficiosa guerra civil carioca, que influencia o destino de quase todos os personagens do filme.

A esses espectadores, Valente lembrou que, “se há um grande momento simbólico” neste seu primeiro longa, ele está no correr dos créditos _ou seja, na hora em que se relacionam os nomes de todas as pessoas que, vivendo no Rio de Janeiro, realizaram aquela obra_, ao som de “Caracanta na Central”, de Pereba e Jair, que afirmam: “Vamos ficar/ Vamos resolver/Vamos curtir”.

*

Debates acima da média
Ao apresentar a sessão de “No Meu Lugar”, Valente disse: “É um prazer especialmente grande estar passando [o filme] em Tiradentes. Esse festival significa muito para mim e significa muito para o cinema brasileiro, quer ele saiba ou não. Em breve, irá saber”.

Era uma reafirmação do trabalho que ele mesmo e o também crítico Cleber Eduardo vêm fazendo como curadores da Mostra de Tiradentes, à qual deram um perfil de descoberta e valorização de novos cineastas e um acento marcadamente acadêmico às discussões sobre os filmes exibidos.

Nesse sentido, Tiradentes de fato conquistou sua autopropalada singularidade. Os debates sobre os filmes e também sobre temas propostos pela curadoria _o deste ano foi o personagem e seu lugar no cinema_ têm densidade muito acima da média dos demais festivais brasileiros.

Para ficar num exemplo, o pesquisador e professor Cesar Guimarães, indo na contramão da voga da dissolução das fronteiras entre ficção e documentário, chacoalhou convicções e neurônios ao defender que a distinção entre os dois gêneros não apenas é pertinente como necessária para que o cinema reflita sobre si mesmo.

De resto, as sessões ao ar livre (na praça da cidade) e na tenda armada ao lado da rodoviária não diferem das de outros festivais (à exceção talvez da projeção em telão, que não tem qualidade igualável à das salas regulares): reúnem tanto um público interessado em filmes quanto um público interessado apenas em badalação, além de um certo número de desavisados que vão às sessões sem informações prévias sobre o que irão ver, encontram algo muito em desacordo com suas expectativas e abandonam a sala antes do fim da projeção.

*


"A Fuga da Mulher Gorila", principal vencedor do festival

Os méritos da mulher gorila
Foi o crítico e professor Ismail Xavier, membro do júri da mostra Aurora, quem leu a justificativa para a escolha de “A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila”, de Felipe Bragança, como vencedor da disputa (entre sete longas de estreantes).

“A Fuga da Mulher Gorila” acompanha duas jovens irmãs que viajam por pequenas cidades numa kombi, apresentando o show da mulher gorila _“ao vivo”, como ressaltam em sua propaganda movida a megafone.

Em sua explanação, o professor e crítico exaltou no filme:

- A apresentação vigorosa e coerente entre estilo e modo de produção ao narrar o percurso dos personagens em fuga;
- A transfiguração pop;
- A ambivalência entre o gesto ferino e a delicadeza;
- O cumprimento da promessa explosiva contida no título, em que o poético não se confunde com a inocência.

*

"No Meu Lugar" deve estrear no circuito comercial em abril. "A Fuga da Mulher Gorila" ainda não tem data para entrar em cartaz.

Escrito por Silvana Arantes às 1h20 PM

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Quando é melhor cancelar a sessão

Quando é melhor cancelar a sessão

                                                                                      Divulgação

"Nucingen Haus", de Raoul Ruiz, em cartaz na 32ª Mostra

Por Leonardo Cruz

Melhor revista de cinema do país, a Cinética colocou no ar nesta quarta um protesto contra projeções capengas em salas de exibição brasileiras. Assinado pelo editor Eduardo Valente, o artigo "Por que não escreveremos sobre Raoul Ruiz" tem como mote uma sessão de "Nucingen Haus", novo longa do diretor franco-chileno, na Mostra de SP, na noite da última segunda, no Unibanco Arteplex 3.

Valente conta que a sessão ficou sem som por cinco minutos, que o formato de exibição estava errado (legendas cortadas no meio) e que a qualidade da cópia digital era das piores: "Algo que lembrava muito uma gravação em VHS que fizéssemos da CNT Gazeta nos anos 80/90". O crítico usa esse caso como exemplo, mas também cita outros em que a obra exibida estava longe das condições adequeadas: "Um Amor de Perdição" nesta Mostra, "Um Conto de Natal" no último Festival do Rio e mais algumas sessões em anos anteriores.

O editor da Cinética não nega nem relativiza a importância de eventos como a Mostra e o Festival do Rio, que "trazem uma quantidade enorme de filmes do mundo inteiro que ficariam inéditos para nossos olhos". O que Valente coloca em questão, acertadamente, é: se a cópia que chega ao Brasil é sofrível, qual a razão para exibi-la?

Pessoalmente, me arrependi de ter visto "Um Conto de Natal" no Festival do Rio, em uma projeção em DVCam que arrebentou o belo filme de Arnaud Depleschin. O que justifica passar um filme assim? Fazer volume? Nenhum desses festivais precisa disso. Por respeito ao público (e aos realizadores), o mais correto seria pedir desculpas e cancelar a sessão. Pois, como bem escreve Eduardo Valente, o momento mais importante de um festival de cinema é a projeção dos filmes ao espectador. O resto é fru-fru, é complemento, é extra.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h00 PM

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A superpopulação dos super-heróis

A superpopulação dos super-heróis

Por Bruno Yutaka Saito

Poucas temporadas, como a atual, foram salvas por tantos super-heróis ao mesmo tempo. Com a onipresença de seres como Homem de Ferro, Hulk e Batman, a impressão generalizada é a de que o cinema regrediu (“Eles roubam o espaço do cinema ‘sério’”, é a acusação mais freqüente).

Apesar de achar o novo “Hulk” um erro em todos os sentidos, não sou da turma dos que estão saturados do gênero “adaptações de HQ”. O motivo é simples: como em todos os gêneros, há filmes bons e ruins.

O que há é superexposição de um gênero específico, como acontece de tempos em tempos _seja porque ele está na “moda” seja porque gera interesse no público. Sem levar em conta o poder de distribuição dos blockbusters, vale lembrar que em determinados momentos parece só haver documentários estreando na cidade _já tivemos ondas de filmes iranianos, orientais ou franceses estrelados por Daniel Auteuil.

O problema está na questão comercial (os super-heróis parecem agir como supervilões e roubam o espaço dos filmes “sérios”), e não na questão artística propriamente dita. Porque pode-se extrair boas questões em “Homem de Ferro” ou “Batman”. O fato de um longa ser aventura pura não significa que é totalmente desmiolado. Fosse assim, poderíamos jogar na vala comum inúmeros faroestes clássicos, ou mesmo excelentes ficções científicas.

E é também a sanha nada artística dos estúdios que provavelmente vai decretar a nova falência do gênero (que surgiu da forma como conhecemos hoje em 1978 com “Superman”). De tempos em tempos os super-heróis são derrotados por péssimos roteiros e pela necessidade de produção em série (o próprio Batman da fase Joel Schumacher, “Quarteto Fantástico” e “Demolidor”, só para citar alguns). E quando todos os heróis do primeiro time acabarem? Vamos agüentar adaptações de heróis menos populares como “Besouro Azul”?

Enquanto isso, nota-se aqui e ali uma preocupação de alguns diretores em relação à saturação dos super-heróis, numa tentativa de torná-los mais “sérios”. O Batman realista de Christopher Nolan já surtiu efeitos _nota-se a indignação de vários críticos, que analisam e atacam o filme sob um prisma político. O mais simbólico dessa movimentação toda ainda está por vir.

“Watchmen”, o clássico de Alan Moore, questiona o tempo todo (ao menos na versão em quadrinhos): como seria o mundo se sujeitos sem superpoderes vestissem máscaras e saíssem às ruas para combater o crime? (Questão que também move o novo "Batman") Não é esta uma indagação relevante para um filme dito “sério”? A pergunta, se bem explorada, pode ir muito além de “apenas” mais uma adaptação de HQ.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h32 AM

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Um cineasta que move a câmera

Um cineasta que move a câmera

Por Cássio Starling Carlos

Para os espectadores das gerações que não viveram os anos 60, o nome do diretor húngaro Miklós Jancsó não significa muito mais do que dizem verbetes de enciclopédias que destacam seu lugar e seu papel de holofote na emergência de cinematografias do leste europeu naquela época.

Apesar de ainda ativo (seu último título foi lançado em 2006), o cineasta é considerado em decadência há três décadas. Sua produção contemporânea ainda costuma freqüentar as seleções da Mostra Internacional de Cinema, mas poucos devem se lembrar da retrospectiva de seus principais filmes apresentada na Mostra de 1985.

Com isso, a visão de “Vermelhos e Brancos”, recém-lançado em DVD pela Lume, ganha o impacto de um tiro de fuzil para quem, como eu, só conhecia Jancsó pelo renome.

Como em outros trabalhos de Jancsó dos anos 60, “Vermelhos e Brancos”, feito em 1967, propõe uma releitura alegórica, na interpretação recorrente dos críticos da época, da situação histórica da Hungria após a invasão soviética ocorrida em 1956. Ao lado de dois outros títulos de Jancsó, “Így Jöttem” (1964) e “Os Sem-Esperança” (1966), “Vermelhos e Brancos” coloca em foco as relações entre tiranos e vítimas em diferentes momentos da história húngara.

Apesar de ter sido aproximado do polonês Andrzej Wajda pela crítica dos anos 60 em busca de sinais comuns de dissidência provenientes de países sob o julgo soviético, as similitudes entre as duas obras não ultrapassam o vago universo de temas como a revolta e a reinterpretação alegórica de fatos históricos. Com o fim daquela época, Jancsó (como Wajda) acabaram condenados ao museu.

A despeito desse interesse arqueológico, é outro, estético, que justifica a atenção ao lançamento de “Vermelhos e Brancos”. Nesta trinca de filmes o diretor explora o plano-seqüência como uma opção coerente de encenação, e não apenas como o fetiche técnico ou virtuosístico que a tomada longa adquiriu em tempos recentes.

Nestes filmes, os movimentos de câmera ao longo dos planos impõem uma dinâmica que não se limita à da unidade espaço-temporal e à suspensão dos efeitos ilusionistas da montagem tal como pensado por André Bazin e seus seguidores.

Nas entradas e saídas de campo, no deslocamento de personagens de posições secundárias para os primeiros planos e closes e, sobretudo, na coreografia do espaço que Jancsó efetua com a câmera emerge um modo de filmar que visa intensificar significados.

Em “Vermelhos e Brancos” esta escolha funciona como demonstração dos deslocamentos do poder no âmbito de uma guerra civil.

As ações, filmadas quase exclusivamente em espaços abertos, deslocam-se de um lado a outro do quadro, escapam provisoriamente, mas são logo reenquadradas na janela larga, num efeito que transforma a paisagem em prisão.

Jansó não oferece ao espectador nenhuma redenção na montagem paralela, nem a identificação da inocência na alternância de pontos de vista. Quando revoltosos suplantam forças repressoras é “no mesmo plano” que aqueles se convertem em algozes. É também na unidade do plano que uma personagem passa de resistente a traidora.

Na unidade do mesmo movimento, o da câmera, que explora a continuidade de espaço e tempo do plano-seqüência, e o da história, que apenas desloca as tiranias sem de fato suplantá-las pelo fator humano, o diretor pensou a história de seu tempo. E conseguiu representá-la usando a imagem para expressar idéias, não apenas para fazer filmes bonitos.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 7h36 AM

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A projeção digital que estraga o filme

A projeção digital que estraga o filme

 
"O Escafandro e a Borboleta": em SP, só em digital capenga 

Por Leonardo Cruz

Em cartaz nos cinemas paulistanos desde a última sexta, "O Escafandro e a Borboleta" é, à primeira vista, um programa imperdível. Afinal, o filme francês de Julian Schnabel acumula boas críticas e prêmios ao redor do mundo, incluindo a palma de melhor direção em Cannes no ano passado.

Mas a forma como a obra está sendo exibida no circuito paulistano a transforma em um programa "perdível". "O Escafandro e a Borboleta" pode ser visto apenas em cópias digitais em todas as suas sete salas. Ou seja, nesses cinemas a boa e velha película analógica foi trocada por uma projeção eletrônica de qualidade inferior, que altera som e imagem originais.

O filme de Schnabel não é o único nessa situação _além dele, sete longas são exibidos em SP exclusivamente nesse sistema digital porcaria: "1958 - O Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil", "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto", "A Banda", "Dot.com", "Lady Jane", "A Última Amante" e "Personal Che". Esse número representa 19% dos filmes em cartaz, marca inédita para o circuito paulistano. Isso sem contar obras como "Do Outro Lado", que passam em película em alguns cinemas e em digital em outros.

Nada contra a migração do analógico para o digital, que fique bem claro. A questão é que o digital que se espalha por aqui é muito inferior ao que vem sendo adotado lá fora. Atualmente, apenas seis salas brasileiras seguem o padrão internacional de projeção, o DCI, de qualidade da imagem superior à da película. Em contrapartida, mais de cem salas nacionais instalaram esse digital inferior, desenvolvido e comercializado pela Rain Network.

A questão é econômica: o sistema da Rain é mais barato que o digital DCI e que a película. Resulta em menos custos para o distribuidor e para o exibidor. Só quem perde é o espectador, que continua pagando os mesmos muitos reais para ver uma projeção pouca coisa superior à de um DVD. Para essas sessões, um descontinho no valor do ingresso cairia muito bem.

Esse cenário incomoda ainda mais porque a tecnologia Rain cresce com mais força nas salas dos "filmes de arte". Nesta semana, Espaço Unibanco (Augusta e Pompéia), Cine Bombril, HSBC Belas Artes, Cine UOL Lumière, Frei Caneca Unibanco Arteplex e Reserva Cultural exibem longas no formato capenga. Mantido o ritmo atual de expansão do sistema e o baixo nível do software de exibição da Rain, o futuro não é dos melhores para os cinéfilos paulistanos: grandes filmes "off-Hollywood", como "O Escafandro e a Borboleta", ficarão cada vez mais restritos a essas projeções sofríveis.

*

Para quem quiser entender um pouco mais essa passagem da película para o digital, vale conferir o especial sobre o assunto escrito por Pedro Butcher para o portal Filme B.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h27 PM

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Uma fraude chamada 'Johnny'

Uma fraude chamada 'Johnny'

Por Sylvia Colombo (da Reportagem Local)

A pior produção do cinema brasileiro desde a fraude de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", "Meu Nome Não É Johnny" atingiu nesta semana 1 milhão de espectadores no Brasil. É uma pena que, depois do show de roteiro e montagem de “Tropa de Elite”, um filme com a trama levada de modo tão arrastado e preguiçoso faça tanto sucesso. Era de se esperar pelo menos um pouco mais de rigor crítico por parte das platéias. 

Se o filme de Cao Hamburger procurava copiar as fórmulas de sucesso de filmes latino-americanos como “Kamchatka” ou “Machuca”, o de Mauro Lima descaradamente reúne ingredientes manjados da produção recente brasileira. Estão ali a malandragem carcerária de “Carandiru”, os horrores de uma prisão psiquiátrica de “Bicho de Sete Cabeças”, um banditismo nostálgico de “Cidade de Deus”, o encanto da violência e o “charme” do submundo urbano de filmes de Beto Brant.

A prática não se limita ao cinema nacional; "Johnny" absorve até elementos típicos de Quentin Tarantino. A certa altura, há um diálogo, conversa fiada, entre dois personagens que confundem Tarcísio Meira e Francisco Cuoco. Seria gracioso se não fosse uma verdadeira cópia de um recurso usado por Tarantino _sacar fantasmas do esquecimento e transformá-los em referência cult. A menção poderia ser um gesto carinhoso de reverência ao diretor norte-americano. Porém, num contexto de tantos pequenos plágios, a cena acaba virando só mais um deles.

“Meu Nome Não É Johnny” segue uma toada previsível. João Estrella é um garoto de classe média que era arruaceiro na infância e torna-se um adolescente revoltado após a separação dos pais. Num inocente encontro com amigos na praia, dá seu primeiro “pega”. E, do inocente baseado, logo se transforma em viciado em cocaína. Sem o apoio dos pais _a mãe, distante, e o pai, adoecido, com um apelativo câncer de pulmão_, João “se perde” nas drogas”. Dizer que essa trama é um exemplo de moralismo raso seria um chavão. Dá até preguiça.

Os falsos anos 80
A história se passa nos anos 80. E, para criar o clima dessa década, os recursos são os piores possíveis. Como se não bastasse João possuir um Passat e um punhado de gírias oitentistas surgirem a cada diálogo, tenta-se também criar, de um modo romântico e nostálgico, o contexto que produziu artistas como Cazuza. Adivinhe só, basta juntar rock, álcool, sexo e desesperança política, que o resultado imediato será a produção de sonhos e tragédias heróicas.

Só que tudo é tão mal-feito _o casting principalmente_, que essa idéia fracassa. O resultado é artificial não só porque os atores principais não conseguem entrar naturalmente no clima da época mas também porque os figurantes são ainda piores do que eles. Os convidados das festinhas de João Estrella, por exemplo, sempre aparecem rindo para a câmera. Até mesmo quando são expulsos depois do chilique da personagem de Cleo Pires (uma atração à parte de humor involuntário), ou, pior, quando o pai de João tem um ataque cardíaco fatal. Tudo embalado por clássicos da rebeldia classe média de então, com Titãs (“Polícia”, é claro) e outras faixas óbvias.

O clichê da salvação
E temos Cássia Kiss como juíza durona _cuja falta de envolvimento com o personagem só perde para Julia Lemmertz, incapaz de soltar uma lágrima convincente em cenas como a do julgamento que condena o filho. A juíza, no final, vê salvação no caso de João Estrella. Obviamente só porque ele é branco, sincero, tem um olhar de Selton Mello triste (irresistível, não?), e não parece de modo nenhum um bandido de verdade, negro e violento. Dizer que aqui está um outro clichê _seja da ficção, seja da vida real mesmo_ seria também fazer uma crítica repetitiva.

Cadê Selton Mello?
Por fim, onde está o excelente ator que protagonizou “Lavoura Arcaica”, a adaptação para o cinema do livro de Raduan Nassar? Apesar de, em “Meu Nome Não É Johnny”, Selton Mello ser exposto por todos os ângulos e com todas as expressões possíveis, não se vê ali nem um vestígio do talento que o ator demonstrou ao encarnar o atormentado André, do filme de Luiz Fernando Carvalho. É difícil adivinhar a que mais se presta o longa a não ser para abrir espaço para uma arrastada egotrip de Selton Mello.

Escrito por Sylvia Colombo às 6h38 PM

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Como unir cinema autoral e cinema popular?

Como unir cinema autoral e cinema popular?

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Com seu primeiro longa, "Bicho de Sete Cabeças", Laís Bodanzky deixou o Festival de Brasília consagrada por sete troféus Candango, em 2000. Ontem, o segundo filme da diretora, "Chega de Saudade" (foto), estreou no festival com calorosa acolhida do público.
Mas, no debate em torno dele, hoje à tarde, o diretor Edgar Navarro ("Eu Me Lembro"), confessou-se frustrado. "O filme é ótimo. Mas eu esperava mais. É um filme ótimo que qualquer um faria. De Laís Bodanzky eu queria mais", disse Navarro, tocando na questão que é o tema de fundo da disputa que se desenrola neste festival _de que modo(s) a marca autoral é capaz de se conjugar com o gosto popular no cinema brasileiro?

Antes da intervenção de Navarro, Laís havia dito que ouve com freqüência a observação de que foi longo demais o intervalo entre seu primeiro e seu segundo filmes. Nesse tempo, ela e o roteirista Luiz Bolognesi, com quem é casada, idealizaram e executaram o projeto Cine Tela Brasil, de exibições itinerantes de títulos brasileiros para populações de baixa renda e/ou que moram muito longe das salas de cinema.

Exibindo filmes, Laís disse que aprendeu muito sobre como fazê-los. "A gente sempre imagina o tal 'grande público' achando que, para dialogar com ele, é preciso nivelar por baixo, como a TV muitas vezes faz." Com a experiência do Cine Tela Brasil, a diretora disse haver descoberto que não é bem assim, que um público não-familiar ao cinema é capaz de perceber sutilezas e apreciar filmes complexos. Citou o exemplo da poesia de Arnaldo Antunes em "Bicho de Sete Cabeças", que era elogiada por quem nunca antes tivera contato com a obra do músico.

A Navarro, Laís respondeu com franqueza e sem confrontação: "Sei que, por causa do 'Bicho...', havia uma grande expectativa sobre meu segundo filme. Por isso tive tanto frio na barriga [na hora de apresentá-lo, ontem à noite]. Mas te digo que fiz 'Chega de Saudade' com toda a minha concentração. Fui até aonde consegui. Talvez esse seja o meu limite".

O ator Stepan Nercessian, que interpreta um dos personagens de destaque no filme, pediu então a palavra e questionou o ponto de vista de Navarro. "Talvez leve algum tempo para entendermos que o 'algo mais' de que você sente falta nesse filme é justamente o fato de que ele não tem um 'algo mais'. Não há um herói, uma vítima, ninguém que queira romper com nada neste filme. Lá, somos todos apenas o que somos: pessoas vivendo com suas limitações. O que você viu é o que você é."

*

A estréia de "Chega de Saudade" está prevista para 21 de março de 2008. Os irmãos produtores Caio e Fabiano Gullane disseram que pretendem lançá-lo nos mesmos moldes adotados para "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", que fez aproximadamente 400 mil espectadores _estréia em várias capitais simultaneamente, mas com poucas cópias em cada uma. A seguir, o trailer do longa de Laís Bodansky.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 5h54 PM

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Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

                                                                 Aline Arruda/Divulgação

O diretor Daniel Bandeira apresenta seu filme em Brasília

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Na história recente do cinema brasileiro, Pernambuco entra no capítulo das boas surpresas, inauguradas com "Baile Perfumado", de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Depois vieram Cláudio Assis ("Amarelo Manga", "Baixio das Bestas") e Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"). Agora, Daniel Bandeira segue a "tradição", com "Amigos de Risco", seu primeiro longa, que abriu ontem a competição do 40o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Realizado com R$ 200 mil, orçamento modesto para os padrões nacionais, "Amigos de Risco" é mais do que o cartão-de-visita de Bandeira; é seu estatuto pessoal de cinema. No debate de hoje de manhã, ele evitou a ladainha da dificuldade de filmar no Brasil. "Não nos interessa alardear que este filme foi feito na raça", declarou, ao assumir como próprio à linguagem do filme a precariedade de suas condições de filmagem: "Neste filme existe um diálogo entre técnica e conteúdo. Nenhum dos erros que existem nele parte do relaxamento".

O diretor disse que, se tivesse mais dinheiro, melhoraria alguns aspectos, como o áudio do longa, mas afirmou que não buscaria um "padrão de qualidade" hoje perseguido pela maioria das produções no Brasil, cuja idéia de perfeição técnica o incomoda. Em outras palavras, Bandeira fez a defesa de um cinema precário, imperfeito ou subdesenvolvido, para usar o termo definidor da cinematografia nacional segundo Paulo Emílio Salles Gomes, o criador do Festival de Brasília, nesta edição (merecidamente) lembrado a cada filme e a cada debate.

"Existe uma urgência [de filmar] em Recife. Com 'Amigos de Risco', fomos até aonde foi possível chegar", disse Bandeira. O longa foi filmado digitalmente. Ao ser ampliado para o formato 35mm e encher a tela grande do Cine Brasília, resultou numa imagem que incomodou muita gente, conforme ficou claro no debate desta quinta.

Mas a equipe do filme tem orgulho do resultado que alcançou. O fotógrafo Pedro Sotero explicou aos que reclamaram de "falta de foco" que não é exatamente esse o problema de acabamento que eles identificaram. "Este filme foi captado com câmera mini-DV. É um formato semiprofissional. O que parece fora de foco é falta de definição, porque a mini-DV não segura a ampliação [para 35mm]. Na verdade, a câmera surpreendeu. A gente esperava menos dela."

Quanto à trama, a discussão que "Amigos de Risco" propõe é sobre os limites da amizade. Ou, nas palavras de Bandeira, uma investigação sobre "até que ponto os laços de amizade agüentam a alteridade e a pressão das condições sociais".

Trocando em miúdos, Joca (Irandhir Santos, o Quaderna da minissérie "A Pedra do Reino", de Luiz Fernando Carvalho) é o amigo encrenqueiro de Benito (Rodrigo Riszla) e Nelson (Paulo Dias), que volta para Recife depois de dois anos "foragido" no Rio de Janeiro. Ela havia deixado a cidade depois de dar diversos golpes na praça e retorna com a intenção de retomar os "negócios", usando os amigos como "laranjas".

O histórico do afeto e das desavenças entre os três surge de suas conversas, de bar em bar, na noite do reencontro. Até que Joca sofre uma overdose, e os amigos têm que, literalmente, carregá-lo nas costas, Recife acima e abaixo. Assim, a amizade _e a vida do imperfeitíssimo Joca_ viram um peso nas mãos de Benito e Nelson, que decidem, até o amanhecer, se o suportam ou o descartam.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 6h01 PM

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Desconstruindo Mojica

Desconstruindo Mojica

Como já contado aqui no blog, em um post logo abaixo, começa amanhã para o público em São Paulo a maior retrospectiva da obra do cineasta José Mojica Marins. Para acompanhar a exibição dos 40 filmes, a Heco, produtora da mostra, elaborou em belo catálogo, com 178 páginas e muitas fotos inéditas. Nele, cineastas, críticos e pesquisadores de cinema analisam cada filme do mestre do terror brasileiro. O livro estará à venda durante o ciclo de Mojica, por R$ 30, mas todo seu conteúdo estará em breve disponível no site da Heco. A seguir, trechos dos artigos escritos especialmente para o livro, em seleção feita pelo editor do Folhateen, Ivan Finotti.

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Sobre “A Praga” (1980/2007), por Carlos Reichenbach, cineasta
Rodado em Super-8, “A Praga” era um de seus projetos fílmicos dados como inacabados e/ou interrompidos. Foi o ensejo prospectivo de Eugênio Puppo que trouxe à tona (e à vida) essa história de danação concebida pelo fértil Rubens Lucchetti. A primeira coisa que chama a atenção no trabalho de Puppo como montador do filme é a absoluta fidelidade ao "estranho mundo de Zé do Caixão". Ao incluir um certo grafismo ao delírio imagético concebido pelo diretor, Puppo buscou subverter a precariedade da bitola e do apuro técnico com imaginação e originalidade. "A Praga" nos deixa perplexos, comovidos e deliciosamente incomodados.

Curiosamente, "A Praga" lembra muito alguns dos filmes mais radicais de outro outsider, o espanhol Jesus Franco (o homem dos quase duzentos filmes), e em particular de "Macumba Sexual" (1983). Em ambos os enredos, um personagem é assolado constantemente por pesadelos tenebrosos vaticinados por uma entidade terrível. Os dois diretores mandam o realismo às favas e reinventam uma religião e um sincretismo quase blasfemos. Franco faz uma salada mista de personagens mitológicos. Mojica, mais modesto, mistura mesa branca, candomblé, umbanda e quimbanda; na verdade, ele cria uma religião própria, cujo guia espiritual se assemelha ao índio Aymoré; aquele das antigas latas de biscoito. Mas, aparentemente, não existe em nenhum dos dois casos o intuito de deboche ou menosprezo pela fé dos deserdados, mas uma recusa explícita do realismo. Não interessa a Mojica e a Jesus Franco reproduzir fielmente o ritual dos cultos e seitas existentes, pois eles sabem que toda encenação do real, por mais bem intencionada que seja, pressupõe a perfídia.

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Sobre “D'Gajão Mata para Vingar” (1971), por Inácio Araujo, crítico da Folha
O melhor de "D’Gajão Mata para Vingar" está no início, na seqüência de abertura, em que uma mulher, num idioma que não conhecemos, pronuncia palavras das quais nossos ouvidos não sabem captar mais do que os sons. A isso correspondem gestos e expressões que, logo, nos informam tratar-se de um casamento. Em seguida, percebemos que a cena se passa em uma comunidade cigana. Quem casa com uma bela jovem é D’Gajão, aparentemente o líder do grupo ou seu representante mais eminente.

À cerimônia segue-se a comemoração, com as danças. D’Gajão olha feliz para sua noiva. Esta responde com o semblante sombrio. Pesa-lhe a intuição de que momentos árduos estão por vir. Ela está certa: os ciganos são vítimas de preconceito e racismo —e o filme não ajuda muito a desfazer os lugares-comuns a respeito deles. Não demora para as mulheres saírem às ruas de uma cidadezinha atrás de alguém que pretenda conhecer o destino pela leitura de suas mãos.

D’Gajão, entrementes, passa a demonstrar as virtudes dos heróis de faroeste. Como durante um jogo de cartas, em que vence implacavelmente seus adversários, mas termina, magnânimo, por deixar o dinheiro para seus parceiros. Os ciganos são magnânimos, compreendemos, mas isso é insuficiente para aplacar os preconceitos.

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Sobre “Finis Hominis” (1970), por Ruy Gardnier, editor da Contracampo
Dependendo do ponto de vista adotado, "Finis Hominis" pode ser visto como um anárquico libelo antitradição ou simplesmente um bizarro e engraçado filme-piada, aproveitando a bem conhecida e já bastante utilizada semelhança formal entre profecia e loucura, entre relativização dos valores da sociedade e insanidade. É possível pensar em, entre outros grandes filmes da história do cinema, "A Vida de Brian" (1979), de Terry Jones, "Europa 51" (1952), de Roberto Rossellini, "Nazarin" (1959), de Luis Buñuel. As ênfases, naturalmente, variam de acordo com as predileções de cada cineasta. Mas resiste em todas essas obras um desejo de afrontar a hipocrisia de uma sociedade que busca a salvação enquanto na prática abusa de todos os egoísmos, oportunismos e outras maldades.

Feito de pequenos episódios interligados de forma tênue –ou mesmo nada interligados–, o filme tem um rico imaginário de heresia e de choque em relação aos valores instituídos. Visto assim, nada mais é do que uma continuação lógica da filosofia dos filmes de Zé do Caixão, que colocava a nu preconceitos e crendices estúpidas da população mais humilde.

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Sobre “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, por Alexandre Agabiti, autor de tese sobre Zé do Caixão na Universidade de Paris
A figuração do inferno faz parte de um pesadelo de Zé [em "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver"]. Esse sonho terrível começa sutilmente com uma fusão, que introduz um salto de nível narrativo, em que passamos da realidade do personagem ao seu inconsciente. Zé é arrancado da cama e arrastado até o cemitério por uma figura estranha, extremamente magra, de pele escura, que lembra uma múmia sem bandagens. Situada entre o mundo dos vivos e o dos mortos, pois conserva algo da aparência humana, a múmia é a instância mediadora entre o protagonista e o inferno, entre o mundo dos vivos e o dos mortos condenados ao suplício. No cemitério, Zé é “engolido” pela terra, e um jogo de associações se põe em marcha: o buraco lembra as pinturas de Hieronymous Bosch (c. 1450-1516), nas quais as figurações da oralidade vão além da boca e se apresentam sob a forma de fendas, cavidades e cloacas; Zé chega ao inferno pelo cemitério, enquanto a múmia remete à pirâmide, a um túmulo; o inferno, com seus sucessivos círculos, como no poema de Dante, tem a forma de um funil, que lembra uma pirâmide invertida.

As correspondências entre "A Divina Comédia" e o filme são numerosas. A descida aos infernos de Zé começa quando ele cai sobre a lama onde estão deitados os danados (canto 6 do "Inferno"). Em seguida, há um terremoto (canto 3), que leva Zé ao círculo seguinte; os demônios chicoteiam (canto 18) e cravam tridentes na carne dos pecadores (canto 22); estes se arrastam pelos caminhos (canto 29); sofrem crucificações (cantos 16 e 23); são presos com correntes (canto 31); mordidos por serpentes (canto 24); enterrados de ponta-cabeça no fundo da gruta (canto 19) e colocados em poços (canto 31).

Ao vasto repertório dantesco de tormentos, Mojica acrescenta martírios que inventou, como as marteladas na cabeça dos danados e o emparedamento dos pecadores na gruta. Os gases fétidos, o gelo e as chamas são abundantes, como no poema. Zé fica muito impressionado com o que vê, como Dante, mas segue seu périplo.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h26 AM

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Para Jia, só o digital capta a velocidade do mundo

Para Jia, só o digital capta a velocidade do mundo

Por Sérgio Rizzo (Crítico da Folha)

A edição impressa da Ilustrada publica hoje entrevista com o cineasta chinês Jia Zhang-ke, 37, homenageado pela 31ª Mostra Internacional com uma retrospectiva de sua obra. A seguir, trechos inéditos, traduzidos do mandarim para o português pelo brasileiro Inty Mendoza, 32.
 
O cinema na China
A produção cinematográfica na China é concentrada em Pequim e Xangai. São as nossas grandes cidades, onde houve transformações mais radicais, e que ostentam a riqueza do país. As pessoas pensam que elas são a China, mas há outras regiões, mais periféricas, onde se percebe a desigualdade social, a pobreza. São regiões pouco retratadas nos filmes. Sou da Província de Shanxi, que fica no interior, mais pobre. Vivi até os 18 anos ali. Eu me sinto muito ligado a ela. Aquela região sou eu. Levo meus projetos sempre em sua direção. Há uma série de lacunas no cinema chinês, regiões que não foram mostradas, que não aparecem nas telas. Esse é o meu projeto, dar visibilidade a elas.

Menor orçamento, maior liberdade
Meu primeiro curta-metragem, feito em vídeo, custou pouco mais de US$ 1.000. No meu primeiro longa, em 16 mm, trabalhei com uma produtora de Hong Kong e orçamento maior. Outros de meus filmes tiveram produtoras coreanas, francesas, japonesas, e orçamentos maiores. Não gosto de orçamentos altos para ter maior liberdade. “Em Busca da Vida” (2006, foto abaixo) teve patrocínio exclusivo de empresas chinesas, muito por conta do crescimento da economia. Foi rodado em HDTV e custou US$ 400 mil. “O Mundo” (2004), feito em película, dentro de um parque temático, saiu um pouco mais caro, cerca de US$ 800 mil. Para os padrões chineses, são muito baratos. Mas, assim, tenho 100% de liberdade. Nenhum dos meus filmes recebeu dinheiro do Estado, que só participa quando há algo que lhe interesse no sentido de propaganda política.

Pirataria & crítica
É muito difícil contabilizar o público de filmes na China. A bilheteria de cinema não dá uma idéia precisa, porque as pessoas têm mais acesso aos filmes em DVD e pela internet. “Em Busca da Vida” vendeu 600 mil cópias de DVD, mas a pirataria na China é algo muito sério. Meus filmes são muito pirateados. Meus três primeiros longas foram censurados, mas apareceram cópias piratas e fiquei num dilema terrível: me sentia roubado, mas ao mesmo tempo percebia que as pessoas ao menos conseguiam vê-los.
Os críticos vinculados aos maiores veículos de comunicação, que divulgam o discurso oficial, são da velha-guarda e não gostam do meu trabalho, porque, segundo eles, mostra uma China “atrasada”, do jeito “que o Ocidente quer ver”. Na internet, recebo críticas positivas.

Digital & película
Optei pelo digital nos filmes mais recentes pela velocidade. A digitalização corresponde à velocidade do mundo hoje; só o digital consegue captar a velocidade do que está acontecendo. E também pela questão estética, por causa do que posso fazer em relação a cores e a efeitos especiais. Entre os meus projetos, há uma série de histórias da China moderna mas também uma série de histórias da China antiga. Se eu for para a China antiga, é possível que volte a usar película.

Cinema asiático
Como diretor asiático, noto que há uma nova geração, muito autoral, procurando uma linguagem própria, de cineastas coreanos, japoneses e de outros países da região. É algo que vem da década de 1980 para cá: Tsai Ming-liang, Hirokazu Kore-eda, Hou Hsiao-Hsien, entre outros. No cinema ocidental, admiro os irmãos Dardenne. São os que me vêm à cabeça neste momento.

O processo de criação
O mais trabalhoso, para mim, é a concepção, a escritura. Depois, a edição. Durante a filmagem, a relação é direta e menos trabalhosa. Pensei muito tempo, por exemplo, se os dois personagens principais de “Em Busca da Vida” iriam ou não se encontrar. No fim, concluí que o ser humano é solitário e optei pela solução do filme. Até chegar a essa estrutura, tive muito trabalho. É quando percebo qual é a minha visão de mundo e o que eu quero transmitir. Mas sou totalmente aberto a inserir uma novidade enquanto filmo. Às vezes são coisas que acontecem, espaços que eu vejo, a interação com os atores, algo que surge e coloco no meio do filme, sem problemas, e aí o resultado escapa do que havia sido planejado.

O “filho” preferido
Sinto enorme identificação com “Plataforma”. Ele se passa de 1979 até 1990. Pega dos 10 aos 20 anos de minha vida. Tenho uma relação de proximidade muito grande com o filme. A primeira metade é a história da minha irmã mais velha, e a segunda foi vivida por mim.

Próximos projetos
Estou rodando meu novo filme, “História da Cidade 24”. É a história de uma fábrica estatal, de 1959 até hoje. O filme seguinte será um documentário sobre um arquiteto, formando com “Dong” (2006) e “Inútil” (2007, foto acima) uma trilogia sobre artistas.

China & Brasil
Sinto que existem semelhanças muito grandes entre a China e o Brasil, principalmente no desenvolvimento econômico e em suas conseqüências. Quero ver qual é a reação das pessoas, aqui, a essas questões em meus filmes, se elas percebem dessa forma ou não.
Não se deve temer o desenvolvimento econômico de nenhum país, mas sim as suas conseqüências, se ele está promovendo maior desigualdade ou não. Os chineses estão conscientes disso e querem mais liberdade, democracia. Haverá maquiagem durante os Jogos Olímpicos, mas há um movimento, que o governo não consegue conter, em direção à democracia. Ninguém conceberia hoje um retorno à situação em que não havia nem mesmo o direito de ir e vir, em que eu não poderia estudar em Pequim.

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Na Mostra
"O Mundo" tem sessão hoje, às 13h30, no Cinesesc. Projeção digital.
"Em Busca da Vida" tem sessão hoje, às 19h, no Cinemark - Shopping Eldorado. Projeção em película.
"Dong" tem sessão hoje, às 19h, no Cine Tam. Projeção digital.
"Pickpocket" tem sessão hoje, às 19h, na Sala Cinemateca (Petrobras). Projeção digital, cópia ruim.
"Prazeres Desconhecidos" tem sessão hoje, às 20h, no Centro Cultural São Paulo. Projeção digital, cópia ruim.

A Mostra anunciará ainda nesta quinta os filmes que estarão em sua "repescagem", que acontecerá até o dia 8 no Cinesesc e no Cine Bombril. Já está definido que filmes de Jia Zhang-ke terão novas exibições.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
A versão impressa da entrevista com Jia Zhang-ke, por Sérgio Rizzo
Crítica de "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, por Amir Labaki
Crítica de "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, por Marco Aurélio Canônico

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h11 AM

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'Caótica Ana' cataloga os males do mundo

'Caótica Ana' cataloga os males do mundo

Inácio Araujo (Crítico da Folha)

A “Caótica Ana” referida no título do novo filme de Julio Medem não é tão caótica assim. É apenas uma jovem pintora que vive numa caverna com o pai, ao abrigo dos males do mundo até ser descoberta por Justine (Charlotte Rampling), uma mecenas que abriga em Madri um grupo de artistas que julga promissores.

Ana (Manuela Vellés) vive ali um primeiro amor com Said (Nicolas Cazalé), um berbere, portanto, alguém desse grupo incômodo que costuma lembrar aos árabes que eles não são apenas perseguidos, também sabem perseguir com ferocidade.

Do desaparecimento precoce de Said _que abre a porta do afeto para Ana_ resulta o centro narrativo do filme: ele estará na relação de Ana com um hipnotizador que a colocará em contato com suas vidas passadas (seja isso o que for, e o filme não é tolo a ponto de julgá-las verdadeiramente passadas: ele as vê como constitutivas da vida de alguém).

As inúmeras vidas de Ana nos conduzirão, ao mesmo tempo, à metáfora básica do filme (o cinema espanhol adora metáforas): o falcão, ave capaz de, com rapidez, prender e destroçar outras aves. Medem criará a partir delas algumas pérolas de mau gosto, como o momento em que um falcão arranca os olhos de um cadáver.

Se todos os problemas fossem estes, não estaríamos tão mal. O fato é que, desde que o assunto Guerra Civil se esgotou, uma parcela do cinema espanhol não sabe mais o que fazer da vida. Desta vez Medem faz um passeio pelo mundo. Vai do deserto do Saara a Monument Valley, dos berberes aos índios, catalogando as violências e iniquidades dos homens.

Todas elas Ana experimentou, vivenciou, sofreu. Os transes hipnóticos são momentos em que revive essas dores. Ana não é tão caótica quanto pretende o título. O filme, que nos leva de maneira um tanto arbitrária de um ponto a outro do mundo _até se fechar nos EUA_, tratará de maneira não menos arbitrária de ilustrar a metáfora do falcão enunciada no início.

Convém não contar como se dão as relações entre Ana e o falcão, que acontecem na parte final do filme. Digamos que não primam pelo bom gosto. E vale lembrar, quase num anexo, que este cinema habitualmente tão deficiente quanto o espanhol é hoje talvez o único no mundo a filmar cenas de sexo com desenvoltura: uma herança que devemos, por ironia, ao atraso e ao moralismo do franquismo.

Avaliação: regular


Na Mostra: "Caótica Ana" tem sessão hoje (1/11), às 18h40, no Cine Bombril 1.

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Escrito por Inácio Araujo às 11h30 PM

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Cinco razões para ver 'Senhores do Crime'

Cinco razões para ver 'Senhores do Crime'

Por Alcino Leite Neto (editor de Moda da Folha)

"Senhores do Crime" (2007) é um impactante thriller sobre máfias, que de certa forma dá continuidade ao flerte do diretor canadense David Cronenberg com um cinema mais tradicional. Ao lado de "Marcas da Violência" (2005), a obra anterior de Cronenberg, "Senhores do Crime" forma um díptico interessantíssimo, feito de temas semelhantes e dominado pela figura perturbadora do ator Viggo Mortensen. O novo filme, porém, foi feito com muito mais liberdade do que permitia o neoclassicismo de "Marcas de Violência". Sendo mais livre, é também muito mais cronenberguiano.

No início, temos apenas isso: uma jovem russa morre na hora do parto e, entre os seus pertences, a médica (Naomi Watts) encontra um diário. A fim de descobrir a origem da moça e do bebê, a médica acaba se aproximando de um núcleo mafioso russo que atua em Londres. Os segredos contidos no diário deslancharão a trama _e muito mais coisas, a depender da disposição do espectador.

A seguir, cinco motivos para assistir a este filme excelente.

1. O elenco multicultural

"Senhores do Crime" reúne um elenco impecável. O chefe mafioso é interpretado por Armin Mueller-Stahl, um dos grandes atores alemães no cinema, estrela de "Lola" e "O Desespero de Veronika Voss", de Fassbinder. A mãe do personagem de Naomi Watts é uma formidável atriz irlandesa, formada no teatro shakespeareano: Sinéad Cusack (que tem dois filhos de Jeremy Irons).

A estrela do filme é, claro, Viggo Mortensen. Mas em certos momentos o ator francês Vincent Cassel praticamente rouba a cena, num dos seus melhores papéis no cinema. Neste panorama, Naomi Watts faz uma atuação correta, mas afinal modesta.

Uma curiosidade: o tio Stepan é encarnado pelo diretor polonês Jerzy Skolimovsky, pouco conhecido no Brasil, mas um dos principais cineastas dos anos 60 _na foto acima, ele aparece ao lado de Mortensen. No tópico interpretação, vale atentar à difícil recriação do sotaque russo pelo elenco multicultural. Conta-se, inclusive, que o nova-iorquino Mortensen fez uma longa viagem à Rússia antes das filmagens para ajudar a construir o personagem e sua dicção.

2. Uma arte do espaço

A construção dos espaços de "Os Senhores do Crime" é algo para prestar muita atenção. A idéia de ambientar o núcleo da máfia num restaurante de culinária russa é um achado, de alguma forma devedor da modernização que "Sopranos" imprimiu ao imaginário visual da máfia.

Cronenberg filma de maneira notável esse espaço, distribuindo os planos entre a porta de entrada muito britânica, o salão principal de ambiência russa, a cozinha moderna e certos recantos obscuros, como a adega.
O lugar adquire múltiplas funções: aparece como um restaurante de luxo kitsch, um sinistro bunker da máfia, um refúgio nostálgico de imigrantes e o "palácio" familiar do poderoso chefão _o "palco" onde se enfrentam o pai e o filho beberrão e sexualmente ambíguo.

Um dos duetos mais brilhantes do filme se passa no fundo da adega: o interlúdio entre Kirill (Cassel) e Nikolai (Mortensen), em que o primeiro quase não esconde a sua atração pelo segundo.

3. As histórias do pai

É evidente que Cronenberg coloca neste filme alguns assuntos relevantes da  Europa atual, como a atuação da máfia russa no Ocidente, o tráfico de mulheres e os dramas da imigração. Mas estes não são os temas principais de "Senhores do Crime", que está longe de pretender ser uma obra de cunho sociológico, à la Ken Loach.

São outras as questões que interessam ao diretor canadense. Como em "Marcas da Violência", os temas da origem, da família e da paternidade são bem importantes.

O chefe mafioso é uma espécie de Grande Pai, que domina as linhas ficcionais. Ele é o pai da bebê nascida de um estupro. É o pai zeloso do mimado Kirill (Vincent Cassel). E é o pai simbólico do personagem interpretado por Viggo Mortensen. Este, ao ser entronizado na máfia, precisa renegar o seu pai natural diante do grupo de chefões, adotando a nova família do crime.

Quando a médica de origem russa (Naomi Watts) encontra pela primeira vez o chefe mafioso, ele logo de cara pergunta à doutora o nome de seu pai, para saber o patronímico (o nome do meio na tradição russa, que remete ao nome paterno). É uma forma de ele reiterar a hierarquia paterna _o que ela recusará a respeitar, complicando a trama.

Nesse passeio pelo cinema mais clássico que Cronenberg tem feito ultimamente, é como se o diretor dissesse que a função simbólica do pai estrutura a ficção tradicional, que a família é a cena central do melodrama e que o mistério da origem é similar ao mistério policial.


4. A grande cena

 "Senhores do Crime" não é um filme feito de cenas virtuosísticas, inclinado ao fetichismo cinematográfico, à maneira de Tarantino. Mas tem seqüências memoráveis, particularmente a briga na sauna, que deverá ficar como uma das maiores do cinema policial, não apenas por causa da orquestração perfeita da ação e da planificação estupenda mas também porque Cronenberg teve a ousadia de fazê-la com Viggo Mortensen inteiramente nu.

Deve ser a primeira vez no cinema que uma estrela é mostrada assim, sem roupa, lutando violentamente por sua vida, entre ladrilhos molhados e poças de sangue. Trata-se do grande momento de "Senhores do Crime", o mais perverso e o mais elucidativo. Pode-se até mesmo dizer que o filme todo foi construído em função dessa cena _e da obsessão evidente de Cronenberg, como metteur-en-scène, pela plasticidade estranha, reptilineana, do corpo de Mortensen.

O corpo nu de Mortensen, estampado com um sem número de tatuagens, explicita que ele está lutando também por sua história. Cada tatuagem é um ícone de um passagem de sua vida. "Nas prisões russas, sua vida está escrita nas tatuagens. Se você não tem tatuagens, não existe", diz um personagem (vale lembrar a importância do ícone na religião, na arte e no imaginário russos).

Para sujeitos como Nikolai (nome do personagem de Mortensen), lançados no crime desde a infância e sem eira nem beira, trazer a sua história no corpo é uma garantia de que ela poderá ser lida por outros, mesmo depois da morte. Aliás, é o que acontece quando a polícia descobre o cadáver de um mafioso no rio: ele não traz as impressões digitais, mas a pele tatuada narra as suas origens (como se as histórias fossem mais importantes que a identidade).

Garantir que sua história seja lida deve ser também o que motivou a garota russa feita escrava branca na Inglaterra a escrever o diário que deslanchará toda a trama do filme. Vê-se assim que, mais que um thriller sobre máfias, "Senhores do Crime" é um filme sobre a própria narrativa.

De um lado, temos a ficção clássica, regida pela lei simbólica do pai e conforme aos códigos tradicionais. De outro, o cinema cronenberguiano, construído com o corpo, buscando um modo de transfigurar a carne e as vísceras em signos e linguagem.

5. Promessas não cumpridas

Referências religiosas perpassam "Senhores do Crime". A trama acontece entre o Natal, época em que nasce a criança, e o Ano Novo. No corpo de Mortensen, vê-se as tatuagens de um crucifixo (no peito) e de uma catedral russa ortodoxa (nas costas). Mas não há mensagem de salvação no filme, pelo contrário. As promessas, sejam as do Leste ou do Oeste (o filme se chama "Eastern Promises"), não são cumpridas nunca.

Toda história nasce e termina num ato de violência. "Às vezes, parto e morte vão juntos", diz um personagem. Nascer já é por si só uma violência. Os bebês são como uma golfada de sangue mundo afora. Depois, basta uma navalhada no pescoço de um homem para ele, zás!, retornar ao nada. Os túmulos não passam de pedras frias onde se pode mijar. É um terrível pessimismo.


Na Mostra: "Senhores do Crime" tem sessão hoje, às 19h20, no Cinesesc.

*

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Escrito por Alcino Leite Neto às 11h14 PM

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