Ilustrada no Cinema

 

 

O espírito 2000 - Parte 2

Algo que não pode faltar em nenhuma retrospectiva sobre o cinema dos anos 2000 é a valorização do “real”. No Brasil, tivemos um boom de bons documentários estreando nos cinemas; no exterior, a estética de câmera na mão e falsos documentários pipocaram, como se a ficção não desse mais conta do relato de uma boa história.
Neste post, continuo na busca do espírito do cinema dos anos 2000:

VERDADE EM XEQUE
Muito espaço nos anos 2000 foi dedicado a Sacha Baron Cohen. Ao menos até agora, ele não chegou a revolucionar o cinema como prometia. No máximo, causou um comichão. A estratégia que parecia revolucionária em “Borat” (foto), de colocar um personagem interagindo com o mundo real, para revelar a hipocrisia, logo se tornou repetitiva em “Bruno”.

A VERDADE É RELATIVA
Já faz muito tempo que sabemos que um documentário não é sinônimo de verdade absoluta. Mas foi nos anos 2000 que vários filmes mostraram, com maestria, como a realidade pode ser moldada para se adequar a um ponto de vista. No Brasil, o mestre absoluto é Eduardo Coutinho; nos EUA, Michael Moore é a face mais midiática desse segmento. Filmes: “Santiago”, “Edifício Master”, “Tiros em Columbine” (foto).

FICÇÃO IMITANDO O REAL
Alguns traços estéticos são a cara de uma década. Logo se tornam datados. Nos anos 80, o “neon-realismo” é exemplo claro. Na década de 2000, em que o YouTube e os vídeos de câmeras de celulares se tornaram referência no dia a dia, colocar imagens falsamente toscas em grandes produções parece quase uma regra. Filmes: Trilogia Bourne (foto), “Distrito 9”, "Atividade Paranormal".

MAIS REAL QUE O REAL
São filmes de ficção, mas os intérpretes acabam levando a experiência de vida para as telas. É ficção, mas é um pouquinho real também. Filmes: “O Lutador” (foto), “Entre os Muros da Escola”.

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO
A milenar China é essencial nos anos 2000, principalmente no aspecto econômico. Zhang Yimou e Jia Zhang Ke são como pólos. Enquanto um celebra o país, o outro lança questionamentos. Filmes: “Em Busca da Vida”, “Herói” (foto).

O CONTINENTE EUROPEU MOSTRA A SUA CARA
O velho continente e suas mazelas, desemprego, crise econômica, política e moral. Os irmãos Dardenne, Michael Haneke e Lars Von Trier estão na estrada faz tempo, mas nos anos 2000 lançaram filmes essenciais, conectados com seu tempo. Filmes: “A Criança” (foto); “Dogville”; “Caché”, “A Fita Branca”.

TÃO LONGE TÃO PERTO
O Oscar para “O Segredos dos Seus Olhos” só veio confirmar o óbvio: o cinema brasileiro tem muito a aprender com o cinema argentino. No Brasil, a mentalidade de narrativa de telenovela domina grande parte da produção. Filmes: “O Pântano” (foto), “Nove Rainhas”.

ESPÍRITO DE ÉPOCA
Qual o “zeitgeist” dos anos 2000? O mundo altamente conectado tem gerado seres desesperadamente solitários. Filmes: “Elefante” (foto); “Guerra ao Terror”; “O Curioso Caso de Benjamim Button”; “A Rede Social”.

EM BUSCA DO BRASIL
Os filmes brasileiros mais surpreendentes e ousados da década tem alguma relação com o Nordeste. Uma cinematografia pulsante a se acompanhar com dedicação. Filmes: “Cinema Aspirinas e Urubus”, “Amarelo Manga”, “Madame Satã” (foto), “Viajo porque Preciso Volto porque Te Amo”.

O BRASIL “GLOBAL”
O grande público brasileiro gostou de sair de casa para ver filmes no cinema que lembram as produções da TV. “Se Eu Fosse Você” (foto), “Dois Filhos de Francisco” são exemplos bem acabados da dominação global da Rede Globo no cinema.

INDEPENDENTES
Em décadas anteriores, cinema independente norte-americano era sinônimo de John Cassavetes ou Jim Jarmusch. O sucesso de “Pequena Miss Sunshine” fez com que o indie virasse uma caricatura.

CINEMA DE RESISTÊNCIA
Mahmoud Ahmadinejad foi presença constante no noticiário dos anos 2000. Os olhos do mundo se voltaram para o Irã, e o cinema, ainda que vigiado, é uma arma de resistência. E não nos esqueçamos da prisão e condenação de Jafar Panahi. Filmes: “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” (foto), “Procurando Elly”.

DA TV PARA O CINEMA
O cinema virou saco de pancadas nos anos 2000. A tese é: toda a criatividade que historicamente esteve associada ao cinema migrou para a televisão. As badaladas séries teriam os melhores roteiristas, as histórias mais envolventes e revolucionárias. E outra migração se fez: os badalados diretores e roteiristas das séries começaram uma bem-sucedida carreira no cinema. Filmes: “Star Trek” (foto), “Cloverfield”.

ERA BUSH
Os vampiros castos de “Crepúsculo” são modelos da era Bush. Mas, ironicamente, carregam alta dose de subversão, já que deixam de lado o imaginário de Belo Lugosi e tantos outros vampiros assustadores. Romeu e Julieta dos tempos atuais. O discurso final de “Batman - O Cavaleiro das Trevas” também é pura doutrina Bush.

FILMES BRINQUEDOS
Se George Lucas e Steve Spielberg revolucionaram o cinema nos anos 70, com os filmes-produtos, hoje temos “Transformers”. São os tempos dos filmes-brinquedos, que assumem descaradamente o lado business do cinema.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h44 PM

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O espírito 2000

Há cenas de filmes que sintetizam um espírito de época. Os poucos segundos da dança de John Travolta e Uma Thurman em “Pulp Fiction” são a visão clara dos anos 90.

Luke Skywalker e Han Solo, de “Star Wars”, ou o Marlon Brando de “O Poderoso Chefão” personificam a nova Hollywood dos anos 70.

“Os Incompreendidos” (1959) e “Acossado” (1960) são as diretrizes para se entender os anos 1960.

Hoje, isso está claro. Mas, e no calor do momento? Conseguimos, hoje, ter uma visão clara desta primeira década do século 21? Se uma análise mais profunda ainda é prematura, já que a história ainda está sendo escrita, conseguimos ao menos tatear.

Tento seguir um critério simples, escrever de imediato, ao pensar nos principais filmes da década. Não me refiro aos melhores. Mas aqueles que, de alguma maneira, explicam o que é o cinema entre 2001 e 2010. Meu método, que muitos chamarão de superficial, é puxar pela memória. Tente fazer isso. Você pode se surpreender com o resultado.

BRASIL, MUNDO CÃO
A retomada do cinema brasileiro foi nos anos 90, mas nos anos 2000 uma fórmula se mostrou quase sempre eficaz. Denúncia social + violência nua e crua = sucesso. Assim o Brasil conseguiu ir para o exterior, com filmes como “Cidade de Deus” (foto) e “Tropa de Elite”. A explosão de “Tropa de Elite 2” é extra-fílmica, um evento sociológico. Outros exemplares: “Carandiru - O Filme”, “Ônibus 174”.

TODOS CONECTADOS
Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga transformaram em dogma a estrutura de histórias paralelas no mesmo filme, para sugerir que todas as pessoas estão interligadas. É a velha história do efeito borboleta: o bater de asas de uma borboleta pode influenciar até um tufão do outro lado do mundo. O Oscar de melhor filme para “Crash - No Limite” só veio coroar essa moda. Outros filmes: “Babel” (foto), “21 Gramas”.

GERAÇÃO MULTIMÍDIA
É nos anos 2000 que o trio Charlie Kaufman, Michel Gondry e Spike Jonze fizeram a festa. Egressos da cultura dos videoclipes, do skate, é uma geração criada não apenas na cinefilia, mas na releitura pós-pós-moderna dos itens de consumo da cultura pop. Filmes: “Adaptação”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (foto), “Onde Vivem os Monstros”.

GUERRA ANIMADA
Para explicar os horrores da guerra, é necessário uma reinvenção, um novo olhar sobre a realidade. Uma câmera não parece ser mais capaz de dar conta de registrar e reproduzir a surrealidade do real. Filmes: “Persépolis”, “Valsa com Bashir” (foto).

SAGA
Cinesséries são parte fundamental de uma década. Os anos 2000 serão lembrados por duas sagas gigantescas: “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, iniciadas em 2001. São filmes que marcam uma geração inteira, vide "Star Wars".

O NOVO FUTURO DO CINEMA
“Avatar” é o primeiro de uma saga, mas, ficará marcado pelo fato de trazer o 3D de volta ao noticiário. Após o filme de James Cameron, o 3D virou o Santo Graal do cinema. Mas nem só de tecnologia vive o cinema.

RENOVAÇÃO ASIÁTICA
Depois dos cinemas novos pelo mundo afora, são os cinemas nacionais que dão o sopro de renovação. É na Ásia onde surgem alguns dos exemplares mais surpreendentes. Filmes: “O Hospedeiro” (foto), “Oldboy”, “Síndromes e um Século”.

ANIMAÇÃO DE ADULTOS
Animação virou cinema de autor, local para se experimentar fórmulas e discutir temas sérios. Filmes: “A Viagem de Chihiro” (foto), “Up - Altas Aventuras”.

EXISTENCIALISMO MADE IN USA
Fãs de Antonioni podem se entediar, mas Sofia Coppola encontrou seu rumo ao virar cineasta. E, em filmes como “Encontros e Desencontros” (foto) e “Um Lugar Qualquer”, propõe uma pausa para questionar a existência em uma potência tão obcecada pelo sucesso.

SUPER-HERÓIS
“Homem Aranha” (foto) é o exemplo mais bem acabado de como um filme pode ser fiel à HQ que lhe inspirou e ser uma grande obra de arte ao mesmo tempo. Pena que, no decorrer da década, até heróis de quinta categoria ganharam seus filmes. “Batman Begins” segue por outra via, ao optar pelo realismo, como se tivesse vergonha de ter surgido a partir de uma HQ.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h15 PM

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A solidão de David Fincher

David Fincher gosta de fazer filmes sobre seres solitários. Seus personagens costumam ser um tanto alheios ao mundo e não são raras as vezes em que lutam sozinhos contra o "sistema".

Existe solidão mais penosa do que percorrer o ciclo da vida em sentido contrário, como sabe bem o personagem título de "O Curioso Caso de Benjamin Button"?

Ou então os investigadores de "Zodíaco", que têm suas vidas destroçadas de uma forma ou de outra ao se verem na impossibilidade de decifrar um mistério?

Em "O Clube da Luta", o "inimigo" é declarado sem rodeios. É o mundo, de certa forma, que deve ser combatido.

Penso em quem são os solitários de hoje, da vida real.

Mark Zuckerberg, retratado em "A Rede Social", com certeza é um deles (ou ao menos é o que Fincher nos faz crer).

Mas será apenas a solidão ou é uma espécie de mediocridade emocional que faz um sujeito, após terminar com a namorada, postar uma série de baixarias em seu blog na internet?

Fincher não está apenas contando a história do Facebook.

Ele está novamente contando uma história de solidão. Mas uma solidão épica, já que se trata do "mais jovem bilionário do mundo".

O que faz de Zuckerberg um gênio?

Não é essa resposta que Fincher busca responder.

No filme, o tempo todo vemos Zuckerberg ter lapsos, ficar alheio ao que acontece à sua volta, imerso em pensamentos. Pensa o tempo todo na ex-namorada. Somos sugestionados a crer que ele criou o Facebook apenas para impressionar a ex-namorada, para tentar reavê-la.

É uma visão que torna o filme mais interessante do que uma tradicional biopic. Pelas bordas, Fincher analisa esse tipo de solidão que é bem contemporânea. Que nos prende à frente da tela de computador. Que torna os medíocres da vida real em seres sedutores e donos da bola quando postam em blogs e redes sociais da vida.

É necessário essa interface do computador, o anônimo computador, que hoje serve como uma máscara. Fantasia que divide o mundo "real" do "virtual" e mantém todos, no fundo, grandes anônimos. Se a vida no mundo exterior é frustrante para muitos, dentro da rede, todos podem ser reis (e não apenas por um dia, como diria Bowie em "Heroes").

O que torna Zuckerberg fascinante é que ele conseguiu se tornar um bilionário com a sua mediocridade. Nós, não. Apenas remoemos nossas frustrações e dores e delírios na tela do computador. Tem solidão maior?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h10 PM

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Encontro com Coppola

 
Foi uma sensação estranha quando me pediram para entrevistar Francis Ford Coppola. Filmes como “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now” são parte do imaginário do cinema; parecem que estão lá no panteão sagrado de Hollywood desde sempre. Lembrar que Coppola é o homem por trás de tais monumentos é lembrar que ele é um dos grandes cineastas ainda vivos e em atividade e, imaginar que terei 15 minutos para entrevistá-lo é ter certeza de que inúmeras perguntas e dúvidas ficarão de fora.

Na minha mente, Coppola, era um tiozão bonachão, mas rigoroso, daqueles de clichês de família italiana. Na coletiva de imprensa e nos poucos minutos que conversei em entrevista individual, o que encontrei foi um.... tiozão bonachão de família italiana.

Quando, na coletiva de imprensa para divulgar "Tetro", os assessores pediram para os jornalistas encerrarem as perguntas, Coppola foi enfático e fez pouco caso. Dirigindo-se aos jornalistas, disse: “Façam mais quatro perguntas. Não dêem ouvidos a eles [os assessores]”.

Na entrevista individual, entro na sala e dou de cara com um cansado Coppola, suado, sentado em uma cadeira, com as pernas bem abertas. Meu olhar fixa nas pernas do diretor. Ele está com as calças arregaçadas, deixando as canelas à mostra. Vejo a meia de “tio”, cor vinho, bem esticada. Estou numa cantina italiana?

Estendo a mão e ele retribui, sorridente, olhando nos meus olhos. Na hora, lembro da sequência inicial de “O Poderoso Chefão”, e é como se eu estivesse no escritório de Don Corleone pedido sua bênção. Peço apenas 15 minutos de sua atenção e respostas para meia dúzia de perguntas.

Quando Coppola conta que acabou há poucos dias as filmagens de sua nova produção, ele pede para eu olhar seus pés: “Veja, ainda há barro nos meus sapatos”. E tinha mesmo.

Terminada a entrevista, saí de lá com a vontade de rever todos os filmes do diretor. Tarefa feliz, que vai me tomar bastante tempo nos próximos dias. Gosto até dos chamados pontos baixos da carreira do diretor.

Como foi o período que o sr. passou na Argentina para filmar “Tetro”? O sr. acompanhou as notícias sobre a morte do ex-presidente Néstor Kirchner?

Francis Ford Coppola - Sim, acompanhei. Foi tão repentino, uma morte trágica... O tempo que passei na Argentina foi ótimo. O país tem uma grande tradição de teatros, cinema, música e artes em geral, mas particularmente teatro. Há uma grande vitalidade em Buenos Aires na cena teatral e, por isso, há muito espaço para os atores. Foi uma ótima experiência, fiquei por ali quase um ano.

O sr. costuma dizer que está começando a segunda fase de sua carreira agora. Há algo da primeira fase da qual o sr. se arrependa?

Coppola - Fui incrivelmente sortudo na primeira parte da minha carreira. A única coisa errada foi que eu não estava fazendo o que realmente queria. Eu queria escrever coisas mais experimentais, mais ousadas, fazer filmes mais pessoais. Claro que foi empolgante ser um diretor bem sucedido, ter fama, ganhar muito dinheiro etc. Mas, em minha história pessoal, todas as vezes em que ganhei muito dinheiro, acabei perdendo tudo. Minha paixão real é fazer filmes experimentais e pessoais, como se eu fosse o autor de um livro.

O sr. é mais feliz agora?

Coppola - Eu era feliz antes. Mas sou muito mais sortudo agora. Nesta idade em que estou, em que os homens costumam jogar golfe, posso fazer filmes mais pessoais um atrás do outro. Acabei de terminar outro filme agora [“Twixt Now and Sunrise”], há dois dias, ainda há lama nos meus sapatos.


O sr. tem planos de fazer um filme no Brasil?

Coppola - Gostaria de fazer um filme aqui, mas não sei se é muito caro. Desde que comecei a visitar o país, anos atrás, o real tem se valorizado, e há uma maravilhosa prosperidade, mas, ao mesmo tempo, parece que tem se tornado tão caro quanto trabalhar em outro país. Romênia e Argentina são países mais vantajosos por causa da cotação da moeda local em relação ao dólar, e o padrão de pagamento para a equipe é menor do que no resto da Europa. A questão de escolher um lugar para fazer um filme é: posso pagar ou não (já que coloco meu dinheiro nisso)? Mas talvez o Brasil não seja tão caro assim. Você sabe se é muito caro filmar no Brasil?

O sr. acha que seus filmes são como alguns vinhos, que ficam melhores com o passar do tempo?

Coppola - Fico surpreso como agora, na minha idade, 71 anos, as pessoas falam de alguns filmes meus de uns 30 anos atrás, que não foram particularmente populares ou bem sucedidos na época. Então faz sentido que, se seus filmes são pouco usuais, diferentes daquilo que está sendo feito, podem não ser populares, mas, mais tarde, vão parecer mais interessantes e contemporâneos. Isso certamente acontece comigo. Engraçado que as pessoas dizem “Oh, os filmes que você faz agora não são tão bons quanto os de antes”, mas eu digo que os filmes que eu fazia antes também não eram bons na época.

Qual é a grande contribuição da sua geração para o cinema?

Coppola - Inspirar os jovens a fazer filmes e serem bem sucedidos. Gosto de imaginar que, se um jovem vê um filme meu e faz um belo filme, de alguma forma fiz parte disso. É maravilhoso quando os jovens pegam o que você fez, rearranjam e fazem algo novo a partir disso.

O sr. costuma criticar bastante os blockbusters. George Lucas, um cineasta da sua geração e amigo do sr., é um dos responsáveis pelo atual estado de Hollywood?

Coppola - George e Steven [Spielberg] fizeram alguns filmes que foram muito bem sucedidos, mas porque atingiram o público de uma maneira ampla, e isso é uma coisa boa. O problema é a indústria do cinema só querer fazer filmes desse tipo. Acredito que a melhor política é a diversidade, em que você tem filmes de entretenimento, outros mais experimentais. Tem que haver uma mistura. Hoje, em Hollywood, você não pode fazer um filme a não ser que seja um blockbuster.

O sr. poderia descrever como é uma reunião da família Coppola?

Coppola - É como uma verdadeira família italiana. Amamos ficar juntos, passar o Dia de Ação de Graças reunidos, jantar, ver filmes, conversar sobre filmes. Aprendemos muito com os mais jovens. É como uma grande família que ama vinho, comida, filmes e arte.

É por isso que família é tão importante nos seus filmes?

Coppola - Acredito que família é importante para todos, mesmo para aqueles que a perderam. Nós damos muito aos filhos, e eles nos dão muito em retorno.

O sr. ainda é convidado para dirigir filmes de grande orçamento?

Coppola - Sou convidado para filmes médios hoje em dia. A não ser que seja uma produção como “Homem-Aranha”, a produção de um filme tende a ser longa, é um processo que passa dos oito meses. Ser convidado para dirigir um filme significa se juntar a eles e sair por aí implorando por dinheiro. Prefiro fazer filmes de baixo custo e colocar dinheiro meu desde que esteja dentro do meu orçamento.

Como é a sensação de não ter produtores pressionando o sr., como acontecia no passado?

Coppola - É maravilhoso. A situação agora é muito boa. Eu acabei de terminar um filme; eu apenas decidi rodar. Falei “Vamos fazer”, e nós fizemos, e não sei se é bom ou não, mas foi divertido.

Seria possível fazer um filme como “Apocalypse Now” nos dias de hoje?

Coppola - É tudo uma questão de dinheiro. Se eu for sortudo e acontecer de eu fazer um filme pequeno que dê dinheiro, com certeza eu teria mais dinheiro e o usaria para fazer filmes maiores. Tem tudo a ver com os recursos. Eu faria um filme maior se eu tivesse o dinheiro para fazer, sem a pressão dos produtores. Hoje em dia tenho que fazer filmes que custam menos que US$ 6 ou 7 milhões. Geralmente filmes grandes custam US$ 4 ou 10 bi, e não disponho dessa quantia.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h38 PM

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O afeto de "Tetro"

A família Coppola é, atualmente, a grande família do cinema. Francis, Sofia, Nicolas, Roman, Jason e Talia, só para citar os membros mais conhecidos do clã, encarnam um imaginário de talento unido pelo sangue antes pertencente aos Huston.

Por um lado, são uma grande família italiana como qualquer outra. Imaginá-los reunidos no Natal, num almoço de domingo, em uma ampla mesa com massas e vinhos, só para citar o clichê, não é algo absurdo.

Não faltam referências autobiográficas de Coppola em “Tetro”. À parte o tom de tragédia grega que já se anuncia no título, a família está no centro. Bennie (Alden Ehrenreich) é o jovem que vai a Buenos Aires em busca do adorado irmão mais velho, Tetro (Vincent Gallo).

Coppola hoje está mudado. Agora ele é o pai de Sofia. Ele aprendeu a ser minimalista. Menos é mais. Nossa memória afetiva logo nos lembra que ele é o homem intenso que criou filmes gigantes, monumentos como “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now”. Que, nos anos 80, dirigiu filmes subestimados, mas definitivos, como “O Selvagem da Motocicleta”. E que, agora, surge feliz e tranquilo, com o passado de dívidas e turbulências bem distante.

“Tetro” é um filme de afetos. O afeto está em cada sequência filmada por Coppola. No amor intenso de Bennie por Tetro nos lembramos do amor que demos e recebemos (ou não compreendemos) (ou não ganhamos) de nossos próprios familiares.

Coopola gera angústias ao remeter a experiências tão íntimas do espectador. Porque se trata de um amor puro, incondicional, desinteressado.

De onde vem esse poder? O afeto transborda no sorriso encantador do estreante Alden Ehrenreich, uma espécie de jovem DiCaprio de “Gilbert Grape”, outro filme de família, de amor fraterno.

Mesmo quem não tem irmãos, mas já teve uma figura mais velha, de “treinador”, alguém que serviu de guia, que apresentou livros e filmes definidores de caráter, vai sentir um afago no coração ao ver “Tetro”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h21 AM

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