Ilustrada no Cinema

 

 

A laranja mecânica e a tropa da vida real

Por mais que sejam de “mentira”, a violência mostrada em determinados filmes é insuportável para algumas pessoas. Sabemos que atores ou animais não foram maltratados durante as filmagens, mas, uma vez feita a encenação, a verdade fictícia está criada. É o antigo princípio de são Tomé, ver para crer. Até hoje ditaduras fazem alterações em imagens para moldar o mundo segundo seus critérios.

“Laranja Mecânica” ficou proibido durante 27 anos no Reino Unido. As razões são controversas até hoje. Nos anos 1970 ocorreram vários crimes supostamente inspirados pelas cenas de ultraviolência do filme.

Isso não impediu que “Laranja Mecânica” se tornasse um dos pontos altos da carreira de Stanley Kubrick.

Experimente, no entanto, assistir, via YouTube, às cenas de agressão na av. Paulista. Chegam a ser insuportáveis tamanha a indignação que causam. Lembram, de certa maneira, as sequências de “Laranja Mecânica” em que Alex e sua gangue atacam o velho no túnel, ou a cena de estupro.

Ligando a TV agora, você provavelmente verá a ampla cobertura dos canais sobre a onda de violência no Rio. Estão lá tiroteios, vistas aéreas, traficantes correndo, o Caveirão em ação. Novamente, um misto de sensação de impotência e indignação.

No conforto do cinema, imagens semelhantes em “Tropa de Elite 2” nos ferem, mas sobrevivemos. Por mais complexo que seja um filme, os limites estão bem determinados pela tela. Sempre há uma verdade que não cabe lá dentro.

É a vida que está cada vez mais surreal ou é o cinema que está cada dia mais real?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h23 PM

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Woody Allen, o cruel

A rotina do dia a dia chega a ser desgastante em vários momentos, quando tudo é repetição e nada é criação, mas alguns rituais, algumas tradições, são bem-vindas. Sou da turma que espera ansioso pelos encontros com a família no Natal e no Ano Novo, por exemplo.

Todos os anos temos o Imposto de Renda. Carnaval. Show do Roberto Carlos. E filme do Woody Allen _nem todos os anos, mas ao menos essa é a impressão.

Um pouco por essa questão de rotina é que coloco Woody em categoria além do mundo cultural. Seus filmes são referências que ajudam os cinéfilos a se situar no tempo. Para mim, são filmes-coisa. Já sabemos do que se trata, mas, como um perito, nos deliciamos com as pequenas sutilezas e peculiaridades de “coisa” em “coisa”.

Todos os anos esperamos pelo novo filme de Woody. Já sabemos de antemão que alguns personagens vão se repetir. O sujeito meio atrapalhado que vai trair a mulher. Ou então o sujeito que comete algum infração e tenta ocultar seu crime. A mulher linda, mas meio tola, que irá inicialmente fazer um homem subir às alturas, mas que depois irá se mostrar um estorvo. O neurótico, paranoico, inseguro.

Tudo isso está em “Você Vai Conhecer os Homens dos Seus Sonhos”. Mas, ao mesmo tempo, há um gosto amargo.

São basicamente dois casais e suas infidelidades. Após anos de casamento, Alfie (Anthony Hopkins) se separa de Helena (Gemma Jones). Esta irá se consolar com uma vidente charlatã. Ele irá se casar com uma prostituta.

Sally (Naomi Watts), filha do casal, não está em situação melhor. Ela é casada com um pretendente a escritor, Roy (Josh Brolin), que está de olho na vizinha. Já Sally está de olho no chefe.

A questão de acaso e destino, ou a nossa impotência em relação ao desenrolar dos acontecimentos, está totalmente atrelado à construção da personagem de Helena.

Na sessão em que eu estava, ouvi poucas risadas. Este filme teoricamente é uma comédia, mas ela é sombria. Cruel demais com seus personagens. Woody nunca foi santo com eles, mas aqui ele é sádico, como podemos ver numa das cenas finais, entre Sally e Helena.

Esse tom estranho vem, em grande parte, da escolha do elenco, em especial Anthony Hopkins e Josh Brolin. Hopkins é um Hannibal Lecter adaptado ao universo de Woody.

Canibal em outro sentido, mas ainda canibal e frio. Já Brolin encarna parte daquela “reserva de mercado” de alter ego “alleniano”. É inseguro, infiel, desesperado. Mas não é engraçado. Brolin parece estar se especializando em personagens com caráter duvidoso, difícil de criar empatia com o público, como em “W” ou “Wall Street 2” _não que isso signifique ser um mau ator; pelo contrário.

“Você Vai Conhecer os Homens dos Seus Sonhos” está longe de ser ruim. Mas a sensação é estranha, como se, neste ano, a tradição da repetição tivesse sido pervertida.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h04 PM

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Julio Medem e o sexo

"Os Amantes do Círculo Polar" (1998) é daqueles filmes que ficam num lugar especial na memória. Na memória das pessoas minimamente românticas, diga-se. Como não ficar tocado por um filme que trabalha com a deliciosa e confortável idéia de que o encontro amoroso é algo predestinado, místico, imortal até?

Questão parecida aparece no filme seguinte do diretor espanhol Julio Medem, "Lúcia e o Sexo" (2001). Os relacionamentos parecem seguir uma lógica de encontros e desencontros, em que imaginação e realidade, idealização e desconstrução, são elementos constantes.

"Lúcia e o Sexo" exala ainda um tom de celebração quase pueril do encontro amoroso e torna ainda mais explícitas as metáforas de Medem. Elas "gritam" na mise-en-scène que explora os elementos físicos, seja o corpo de Paz Vega, seja a geografia esburacada e cheia de reentrâncias da ilha.

Em seu filme mais recente, "Um Quarto em Roma", Medem tenta reduzir os elementos ao mínimo, como se buscasse fazer uma síntese. Pena que essa busca pelo minimalismo tenha alcançado um resultado justamente oposto, maneirista e pomposo. Aquela magia de "Amantes" e "Lúcia" surge apenas ocasionalmente e de raspão neste "Quarto".

Mas a tentativa é boa, e os efeitos que Medem ainda consegue nos causar são notáveis.

"Um Quarto em Roma" é sobre duas moças que voltam de um bar, meio bêbadas, e resolvem terminar a noite no quarto de hotel de uma delas. Eram completas desconhecidas antes daquele encontro, e ficamos sabendo apenas que uma delas é lésbica e a outra não. Na manhã seguinte, cada uma irá voltar para seu país; Espanha e Rússia, respectivamente.

Passaremos o restante do filme trancados com essas duas mulheres no quarto de hotel. Elas ficarão nuas praticamente o tempo todo, farão confidências e iremos acompanhar suas transas em diferentes cômodos e posições.

O espectador voyeur, no entanto, que não se empolgue. Este filme é traiçoeiro.

De tanto que Medem explora a nudez das duas atrizes, Elena Anaya e Natasha Yarovenko, em determinado momento nos abstraímos do fato de que elas nada vestem. As imagens das atrizes chegam a um estado de pureza, e paramos de ver malícia na nudez. Vemos corpos belos, como se estivéssemos vendo estátuas de uma distante beleza apolínea em um museu. O corpo nu vira uma espécie de roupa, de carcaça. Como se aquela nudez cobrisse o que as duas moças realmente pensam e sentem.

Algo como a nudez em trabalhos de videoarte ou performances de artistas plásticos. É o corpo nu, sem apetrechos para nos desviar a atenção, em seu estado mais puro. Mas lá pela enésima cena de sexo, começam a vir à mente comerciais estilizados de xampu e de carros...

As referências à arte grega e ao Renascimento são desnecessárias, como se Medem precisasse nos explicar o que sentir e pensar. Parece que, desta vez, ele não teve coragem em deixar as imagens falarem por si só.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h21 AM

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As asas de Wim Wenders

O alemão Wim Wenders é um exemplo de resistência. Sua reputação continua em alta conta, apesar de tentar sistematicamente se auto-sabotar com filmes fracos já faz uns 20 anos.

Não há nenhum segredo. Ninguém consegue esquecer a excelência do seu período de projeção no exterior, evolução e ápice (entre 1972 e 1987). Depois de “Asas do Desejo”, poderia simplesmente ter se aposentado e, ainda assim, continuar figurando entre os grandes do cinema.

Fato é que após “Alice nas Cidades”, “Paris, Texas” e o próprio “Asas”, Wenders parecia já ter dito tudo que realmente queria dizer. O que veio depois, com uma ou outra exceção, foi repetição e diluição de seus temas e, em casos extremos, tristes caricaturas.

É como se Wenders já tivesse cumprido a sua missão. Como se Wenders estivesse insistindo no cinema, apesar de ainda estar ativo como artista. Como um artista em busca de um novo meio de expressão.

Apenas com a exposição “Lugares, Estranhos e Quietos”, em cartaz no Masp, é que me dei conta da verdadeira vocação de Wenders.

Wim Wenders é um viajante profissional.

E cinema é apenas uma das formas que encontrou para exercer a sua “profissão”. Um meio que lhe permite mostrar imagens e histórias coletadas pelo mundo afora.

Ele diz no folder da exposição: “Se eu tivesse nascido há 150 anos teria sido um viajante que registraria suas impressões em aquarelas”.

Ainda que a beleza das fotos que registram paisagens de lugares como Armênia, Israel, Austrália, Alemanha e Brasil seja inegável, é de se perguntar se um museu do porte do Masp abriria suas portas para alguém sem o currículo de Wenders.

Mas, em algumas obras, a mágica se faz. Como nas imagens de uma roda gigante abandonada na Armênia. Nelas, o Wenders dos bons tempos se manifesta. Paisagem desolada, perdida no meio do nada, nos lembrando de como esse mundo é gigantesco e de como é fácil ser solitário nele.

Na hora me lembrei de uma grande amiga, também apaixonada por lugares, como Wenders. No projeto Pocket Films for Travelers, Juliana Mundim utiliza mídias diversas para mostrar sua visão poética sobre diferentes cantos do mundo. São filmes curtos, textos, fotos, músicas.

Para Wenders ou para a Juliana, a vida é um grande road movie, em que personagens inesperados entram e saem a toda hora do roteiro, em que a mise-en-scène enfatiza o movimento e a contemplação. É uma experiência quase mística. Cada lugar tem sua energia própria, e é necessário um desprendimento nada fácil para deixar de lado conceitos culturais pré-estabelecidos e se deixar possuir .

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h27 PM

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Conversa sobre "Air Doll"

Hirokazu Kore-eda contradiz o senso comum de que o cinema japonês hoje em dia está morto. Em filmes como "Maborosi", "Depois da Vida", "Ninguém Pode Saber" e "Seguindo em Frente", Kore-eda tem construído uma sólida carreira, poderosa o suficiente para extrapolar questões nacionais.

Kore-eda é um grande humanista, que tem questionado temas tão subjetivos e metafísicos como o sentido da vida e o peso das tradições. Seu filme mais recente, "Air Doll", foi um dos destaques da Mostra de Cinema de SP, e infelizmente, até agora, não há previsão e estréia do filme no Brasil.

Assim que soube que "Air Doll" estaria na programação da Mostra, enviei, por e-mail, algumas questões para a produção do diretor, para uma matéria na Ilustrada. Por uma questão de tempo, as respostas chegaram apenas agora. Ainda, assim, vale a recomendação para que o leitor tente assistir a "Air Doll", drama poético sobre uma boneca inflável que ganha vida e tenta entender o que é ter um coração e ser um ser humano.

Você começou sua carreira fazendo documentários, antes de fazer filmes de ficção. O que você aprendeu daqueles tempos? As experiências daquele período o ajudaram nos seus filmes de ficção?

Hirokazu Kore-eda - Aprendi a importância de observar as pessoas e o mundo bem de perto. Espero que essa experiência tenha algum reflexo sobre meus trabalhos.

Memória, morte e perda têm sido importantes temas em seus filmes. Isso é intencional? Se sim, por que você se sente atraído por esses temas?

Kore-eda - Não é intencional, mas o que estou tentando é captar tais temas não dentro de uma pessoa específica, mas sim nas relações entre as pessoas.

Solidão é um dos temas abordados em "Air Doll". Você acha que hoje em dia as pessoas têm medo de entrar em contato com os outros? O isolamento social é um problema específico da sociedade japonesa?

Kore-eda - Acho que é isso. Às vezes sinto que as pessoas estão até mesmo evitando o contato. Não acho que seja um problema específico do Japão, mas sim um problema global em qualquer cidade.

Ternura é algo que sempre sinto em seus filmes. Você nunca é cruel com seus personagens. Essa ternura reflete a maneira que você vê o mundo?

Kore-eda - Fico lisonjeado que você tenha escolhido a palavra "ternura". Acredito que você se sente dessa maneira porque eu sou um tipo de pessoa otimista. Mas essa ternura pode estragar meus personagens. Para evitar isso, eu teria que fazer documentários de tempos em tempos.

É verdade que você conheceu um personagem parecido com o dono da boneca inflável quando você estava fazendo pesquisas para "Air Doll"? Você poderia comentar um pouco essa experiência?

Kore-eda - É verdade. Fiquei sabendo do modo que ele vive com a boneca dele, e isso refletiu diretamente em alguns detalhes do meu personagem. Visitar um parque com a boneca em uma cadeira de rodas à noite, e esquentar a boneca durante o banho são alguns dos exemplos.

Filmes como "Depois da Vida"  e "Air Doll" são como poemas visuais. O que é mais difícil: fazer filmes assim ou fazer filmes mais realistas?

Kore-eda -  Como você notou, meu desafio com "Air Doll" foi escrever um poema com imagens. Foi mais difícil do que "Seguindo em Frente", que é um filme que fiz recolhendo fragmentos da realidade da vida diária. Trabalhando dessas formas diferentes, acredito que posso evoluir como cineasta.

Em "Air Doll", Nozomi trabalha numa videolocadora. Tudo que ela aprende vem de filmes. Você acredita que isso é possível? Isto reflete a sua paixão por cinema?

Kore-eda - Há muita coisa a se aprender dos filmes, mas você não pode aprender tudo. Para Nozomi, os filmes são catalisadores que a fazem ir adiante e interagir com as pessoas e o mundo afora.

Um mangá inspirou "Air Doll". Mas Pinóquio foi uma referência? Você acredita que é penoso ser um ser humano?

Kore-da - Sim, você está certo. Me inspirei em Pinóquio, na Pequena Sereia e no Príncipe Feliz. Acredito que apenas os humanos podem sentir tantas coisas, inclusive experimentar coisas difíceis.

Você veio ao Brasil em 2007 e naquela ocasião você disse que tinha planos de fazer um filme aqui. Por que você desistiu daquela ideia?

Kore-eda - Não desisti. Adiei o projeto, já que não consegui financiamento. Ainda tenho uma paixão pela idéia.

Quais são seus próximos planos?

Kore-eda - Acabei de terminar as filmagens de meu novo filme. Os personagens centrais são crianças. Espero que as pessoas no Brasil possam vê-lo logo.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h33 PM

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Sofia Coppola é a rainha

Sofia Coppola é a cineasta da crise de personalidade. Uma crise que os detratores podem acusar de “burguesa”, já que quem passa fome e tem que trabalhar todos os dias não tem muito tempo para pensar sobre temas como “vocação”, “o que fazer da vida” ou “minha vida anda meio vazia”. Será?

Seu pai, Francis Ford, foi um dos principais nomes dos anos 1970, senão o maior. Eram grandes filmes, épicos, gigantes nos temas, na forma, na boa pretensão.

Sob esse ponto de vista, os filmes de Sofia são menores. Quase minimalistas, são produções que olham essencialmente para dentro. Não por acaso, “Encontros e Desencontros” tem Bill Murray, um ator cômico da tradição da contenção, um descendente aloprado de Buster Keaton.

“Um Lugar Qualquer”, o novo filme, começa com a imagem de uma Ferrari correndo em círculos. Câmera parada durante longos e eternos segundos, para a sensibilidade média norte-americana. Piece of cake para os europeus.

Temos ali um ator chegando aos 40, Johnny Marco, astro de filmes americanos de ação (algo na linha Tom Cruise, Brad Pitt, e não um brutamontes). Sua vida é como os sites de celebridades nos fazem crer que é a vida de uma celebridade nesse perfil. Johhny está sempre cercado de mulheres. Não se lembra do nome delas. Vive em festas, toma porres homéricos. Acorda tarde e chega atrasado para as coletivas de imprensa para promover seu novo filme.

Johnny é divorciado, e tem uma filha de 11 anos, Cleo. Ela visita regularmente o pai e, a horas tantas, ainda que inconscientemente, ajudará a mexer na cabeça de Johhny.

Ele passa por uma crise de personalidade.

Mas não espere julgamentos morais de Sofia ou redenção. Não estamos no domínio dos telefilmes, ou dos filmes simplesmente óbvios, em que uma criança muda os maus hábitos de um adulto.

Porque Johhny é como Maria Antonieta, que é como a Charlotte (de “Encontros e Desencontros”), que é como a Lux Lisbon (de “Virgens Suicidas”), que é como Sofia Coppola nos faz crer que é.

Antes de enveredar pelo cinema, Sofia tentou várias coisas. Tentou ser atriz, fotógrafa, namorada de celebridade cool, até se encontrar como cineasta. Deve ter passado por uma crise de identidade e profissional dos diabos.

Seus temas e a forma de seus filmes transpiram uma conexão com os dias atuais. Sabemos que essa história de “encontrar a vocação” e “sentir um vazio existencial” é aceita sem maiores preconceitos nos dias de hoje. Não são mais meros luxos. É algo saudável, hoje, dar uma parada na vida, como diria o “sábio” Ferris Bueller. Parar para repensar.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h17 AM

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Filme meditação

Nos dias cínicos de hoje, soa um tanto ingênuo perguntar “mas o que você sentiu quando viu filme tal?”. Alguns dirão que choraram por causa de determinado personagem. Outros dirão que ficaram nervosos, com o coração acelerado. Outros sairão com uma sensação de bem-estar tremenda, já que deram boas risadas. São, todas, sensações físicas provocadas pelas imagens na tela.

O tailandês Apichatpong Weerasethakul faz filmes que acrescentam uma dimensão a mais nessa tradicional relação de espectador passivo-ativo.

De maneira geral, iniciamos a sessão de um filme como passivos. Recebemos as imagens, tentamos decodificá-las constantemente, e reagimos.

Apichatpong parece abrir um portal na tela, de entradas e saídas constantes. É necessário viver e sentir seus filmes, e não só acompanhá-los, como mostra seu mais recente, “Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, atração da Mostra de SP e vencedor da Palma de Ouro em Cannes.

Mesmo quando não “digerimos” o que nos é mostrado na tela, somos convidados a devolver as sensações e a receber mais estímulos visuais. Ou seja, passamos a viver, seguir em frente mesmo sem entender direito o que acontece. O que nos guia é um instinto natural de continuar.

Que o espectador não coloque o diretor na vala comum do “filme de arte”, “viagem”, nonsense, para o qual o ideal é apenas “curtir” a beleza do que é mostrado.

Trata-se de um filme-meditação, mas não doutrinário, apesar de budistas poderem reconhecer seus temas por ali.

No nível “físico”, a sinopse é simples. O tio Boonmee do título tem um problema grave nos rins e está à beira da morte. Ele recebe a visita do espírito da mulher, morta há anos, e do filho desaparecido, agora transmutado numa espécie de macaco.

Apichatpong coloca vivos, mortos, animais e plantas num mesmo plano. Em seus filmes, estão todos interligados. A noção de tempo se perde. Em “Eternamente Sua”, por exemplo, não há mal nenhum se dormirmos ao mesmo tempo que seus personagens, que repousam no meio do mato. Somo praticamente convidados para esse ato íntimo.

Em Apichatpong, o conceito de diegese parece se alargar. A realidade que só existe dentro daquela narrativa parece próxima demais da nossa realidade. Ficamos embaralhados.

Nós, os espectadores, estamos todos juntos na sala escura do cinema, mas estamos também lado a lado na floresta ancestral e primitiva de “Boonmee”.

“Para onde vamos depois de morrer?” é uma pergunta que fica escondida lá dentro da mente, e que o diretor vai cutucar. Mas não de uma forma tensa, inquisidora. Tudo vem de uma maneira leve, quase cômica e kitsch, saudavelmente pueril. Apichatpong parece filmar sorrindo.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h39 PM

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