Ilustrada no Cinema

 

 

Adeus, Gemini

Parece ironia, mas o filme que vai encerrar as atividades do cine Gemini se chama “Cabeça a Prêmio”. A última sessão da sala inaugurada em 1975 será neste domingo, às 21h40.

Há sempre um tom melancólico a percorrer acontecimentos como este. É a antiga lógica do mercado aposentando instituições que reinaram durante um bom tempo. Não se trata de algo necessariamente ruim; fosse assim, ainda estaríamos usando carroças.

Mas é inevitável, no entanto, a sensação de fim de um era, de um período específico. O que dizer, por exemplo, da extinção completa dos cinemas da Liberdade, fervilhante centro da cultura japonesa nos anos 60?

Sim, ainda há cinemas de rua na região, como o Reserva Cultural, o Espaço Unibanco Augusta e o Cinesesc.

No entanto, o Gemini era um dos últimos dinossauros nos velhos moldes. Salas gigantes (para os padrões atuais), aquele lobby charmoso com tapete e bomboniere, como se fosse um hotel decadente do Centro que já experimentou dias de glória.

O Gemini em si já era uma entidade cinematográfica. Sua decadência (filmes pornôs chegaram a passar por lá em 2003) e o fechamento dão um ar trágico, algo que lembra “Crepúsculo dos Deuses” e “Adeus, Dragon Inn” (este nos remete imediatamente aos cinemões que se vão).

Costumo dizer que ir ao cinema para ver um filme, e não ir ao shopping para ver um filme (uma experiência bem diferente), é uma atividade cada dia mais em vias de extinção.

Acredito que, no futuro próximo, ir ao cinema vai adquirir um sentido semelhante ao daquele da época de seu surgimento. Uma atividade curiosa, com certo tom de excentricidade.

Se, em casa, posso ver um filme com imagem e sons perfeitos, blu-ray etc., por que ver uma película às vezes tremida, ou uma projeção digital de quinta categoria com a imagem escura e borrada no cinema?

A experiência comunitária é o que vai contar, talvez mais do que o filme em si.

Recomendo o trecho de "Adeus, Dragon Inn", que ilustra bem o caso do Gemini: 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h44 PM

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Kurosawa no Indie 2010


Cena de "Futuro Brilhante"

Começa hoje, para o público, o festival Indie 2010 em São Paulo. São 46 longas e 20 curtas vindos de 12 países. Tudo com entrada gratuita, no Cinesesc.

Neste ano, o grande destaque é uma retrospectiva completa do cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa. Um dos maiores em atividade no seu país, ele é praticamente desconhecido no Brasil. Com exceção de um outro filme exibido em mostras, nunca nenhuma produção sua chegou ao circuito comercial.

Se você quiser conhecer a obra do cineasta, sugiro inicialmente "Cure" (1997). É um filme à la "Seven", sobre estranhos assassinatos. Mas, depois de determinado momento, Kurosawa nos leva à uma reflexão profunda sobre desejos reprimidos e o sentido da vida. Leia a seguir a entrevista que fiz com o diretor por e-mail.

Pela primeira vez no Brasil temos uma retrospectiva com a sua obra. Você tem dirigido filmes desde os anos 80. Como seus temas mudaram desde então? O que era importante para você antes e o que é importante agora?

Kiyoshi Kurosawa - Quando comecei a filmar, o mais importante era o filme em si, e essa crença continua até hoje. Mas, dentro de mim mesmo, a posição do cinema está sofrendo mudanças, aos poucos. Quando estreei, nos anos 80, o cinema era o centro de tudo, e ao seu redor derivava os mais diversos assuntos do cotidiano. Hoje, snto que os assuntos diversos vêm primeiro, e o cinema envolve-os de maneira ampla e delicada.

Por que a morte é um tema tão importante em seus filmes? É mais fácil para os japoneses lidarem com esse tema?

A morte é o fenômeno mais normal do cotidiano, mas ainda assim o mais misterioso. Portanto, sou naturalmente interessado no tema. O que acontece quando morremos? Essa questão simples é um tema universal para toda a humanidade. Não entendo por que a sociedade ocidental é tão relutante em lidar com o tema da morte. Me questiono se os ocidentais pensam sobre a morte. Vão para o paraíso? Ou será um nada? Porém, essas duas respostas são um tanto sem imaginação.

No Brasil, cineastas como Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi ainda são referências quando se fala de cinema japonês. Você se sente parte dessa tradição, ou o fato de ter nascido no Japão é a única coisa que os une?

Há um abismo geracional entre eles e eu. Eles são diretores que viveram em uma época feliz, quando seus filmes eram recebidos como um grande entretenimento para o público. Infelizmente, não conheço esses tempos. Nunca fiz filmes em tal situação. No entanto, é difícil negar que fiquei profundamente emocionado quando vi seus filmes nas cinematecas ou em DVD, da mesma maneira que fiquei quando vi filmes de grandes diretores estrangeiros, como Renoir, Fellini, Hitchcock, Rocha...

O que te inspira? Outros artistas ou a observação da vida?

Na maioria das vezes, sou fortemente inspirado quando assisto a grandes filmes feitos por outras pessoas. Nesses filmes, profundas observações da vida humana e formatos surpreendentes de linguagem coexistem, como se fosse um único organismo. Para mim, esses dois pontos não se separam.

Alguns de seus filmes têm finais ambíguos. Você se vê como uma pessoa realista ou pessimista? Você acha que todos nós estamos sozinhos, como "Pulse" sugere?

Sou um firme otimista, o que explica por que a maioria de meus filmes termina com os heróis sobrevivendo ao final em busca de um novo futuro, apesar de todas as situações desesperadoras. Qualquer um que vive nos dias atuais tem problemas como solidão e incertezas sobre o futuro. Sou profundamente interessado nas pessoas que tentam superar esses obstáculos e seguir adiante.

"Cure" é um marco em sua carreira, foi o momento em que os ocidentais começaram a prestar atenção à sua obra. Desde então, você tem usado filmes de gênero para contar histórias de fundo filosófico. Por que usar o formato de filmes de gênero?

Gênero é uma das melhores formas para eu pensar sobre o filme. Isso é provavelmente porque gênero é profundamente relacionado com a duração de 100 minutos, embora não haja nenhuma razão para que tenham essa duração. Entretanto, a maioria dos gêneros do cinema tem como base o cinema americano. Por isso os filmes japoneses que eu produzo nunca estarão adaptados exatamente em um gênero. Nessa distância entre gêneros e o cinema japonês, há o posicionamento natural do cinema propriamente dito e os problemas cotidianos. Acho que esse é a minha forma de filmar.

"Tokyo Sonata" é um filme mais tradicional. Para mim, no entanto, em alguns momentos lembra um filme de terror. Por que é tão aterrorizante? Foi intencional?

"Tokyo Sonata" não é um filme de terror, claro. Não tive a intenção de encaixá-lo nesse gênero. Mas acredito que é falsa a ideia que as famílias comuns que vivem na Tóquio dos dias atuais não tem nenhum tipo de medo. É certo dizer que é impossível para as pessoas viverem sem nenhum sensação vaga de destruição ou morte. Por isso eu retratei exatamente a maneira que elas vivem.

Crise econômica é um dos temas de "Tokyo Sonata". Você acredita que foi profético? Os dias atuais têm sido complicados para o povo japonês?

Não sei muita coisa sobre a crise econômica. O filme foi feito antes dessas questões virarem uma questão central no mundo. Mas você pode dizer que problemas que ocorrem em países estrangeiros, longe do Japão, podem influenciar diretamente os japoneses simples de maneira econômica, cultura e política, incluindo guerras.

Você tem planos de retomar gêneros? Tem planos de fazer comédia, musical ou épico?

Provavelmente irei retomar algum gênero. E, depois, farei um filme que não é de gênero. Gosto de comédia e amo musicais. Quando você diz "épico", você quer dizer filmes de samurai? Este é um gênero que realmente quero tentar. Meu próximo projeto ainda não foi publicamente anunciado, mas há projetos de filmes de guerra e  ficção científica também.

Há uma grande comunidade de descendentes de japoneses no Brasil. O que você sabe sobre a cultura brasileira e o cinema brasileiro?

Obviamente o Brazil é muito conhecido no Japão, mas infelizmente poucos filmes brasileiros são lançados no Japão. O mais conhecido cineasta brasileiro é, claro, Glauber Rocha. Quando eu era jovem, vi seu principal trabalho, "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", na cinemateca, e fiquei muito inspirado. E também alguns filmes recentes brasileiros começaram a ser lançados aqui. Walter Salles é o caso mais famoso. Sou seu fã também. "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta" são ótimos, mas meu favorito é "Linha de Passe".
E mais uma coisa. Não é um filme, mas quando ouça a palavra "Brasil", imediatamente me lembro do mais famoso desenhista japonês, Osamu Tezuka, e sua última HQ, "Gringo". Essa obra é sobre a comunidade de descendentes japoneses do Brasil, e a história é muito misterioso, assustadora, e atrativa. Infelizmente a HQ não foi finalizada porque Tezuka morreu. Gostaria de fazer um filme baseado nessa história algum dia.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h08 PM

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A verdade de Chris Marker

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Chris Marker. No Imdb consta que ele nasceu em 1921, na França, mas já houve registro de que é originário da Mongólia. Perto dele, Godard é um ser midiático. Não estranhe se você nunca ouviu falar dele. Estranhe menos ainda se você nunca viu uma foto dele. Não dá entrevistas; nas poucas vezes em que falou com jornalistas, buscou a poesia, não os fatos. Quando solicitam foto sua, costuma enviar imagens de um gato, o seu animal favorito.

Sendo radicalmente contra o culto à personalidade, Marker dá um baile na ideia ingênua, ainda persistente, de que a imagem é o real: se vejo uma foto, um vídeo, é porque é real (será que Marker existe mesmo, ou é um fantasma?). Não importa que anos e anos se passaram desde a invenção da fotografia, do cinema. A imagem ainda engana e ilude.

Na era digital, do YouTube, dos dias em que qualquer um que possui um celular pode filmar, Marker poderia ser um daqueles velhinhos a dizer que sempre estava certo. Sim, ele sempre esteve à frente de seu tempo. Mas, agora, com a tecnologia atual, pode andar de mãos dadas com o tempo.

***

Para quem quiser se aproximar do enigma Chris Marker, uma boa oportunidade é o DVD recém-lançado de seu mais recente filme, "Gatos Empoleirados".

Na época em que a última grande revolução do cinema estava acontecendo, Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda faziam parte, informalmente, de um grupo mais à esquerda da turma da "Cahiers du Cinéma" que foi desembocar na nouvelle vague (Godard, Truffaut, Rivette etc.).

Marker preferiu seguir pela trilha do documentário, fato que o ajudou a continuar sempre à margem. Desde o começo, questionou a essência do documentário (terminologia imprecisa). Sabemos que imagens são manipuláveis. Assim como os números, as imagens, quando bem torturadas, podem dizer o que quisermos.

Fôssemos buscar uma classificação para o estilo de Marker, o mais perto seria "ensaios poéticos audiovisuais". Porque o diretor sempre se coloca em narrações em primeira pessoa, registrando impressões. Ele coloca a ideia de autoralidade em xeque, já que muitas vezes, as imagens de seus filmes não foram captadas por ele. O que importa, sabemos, é a maneira como Marker utiliza imagens de arquivo, como ele constrói significados na mesa de montagem.

***

"Gatos Empoleirados" (2004) está longe de ser um marco como "La Jetée" (1962; filme que inspirou "Os 12 Macacos", de Terry Gilliam), "O Fundo do Ar É Vermelho" (1977) ou "Sans Soleil" (1983), mas, ainda assim, mostra que o cineasta mantém vivas muitas de suas questões fundamentais.

São registros em DV na Paris da ressaca pós-11 de Setembro. De início, Marker segue os grafites de um gato amarelo sorridente, Monsieur Chat, espalhados pelos muros de Paris. Seria Cheshire, de "Alice no País das Maravilhas", assombrando um mundo nada maravilhoso?

Mas, como se trata de Marker, o tom político sobe. Nas tais poucas entrevistas que o diretor já concedeu, diz não gostar do termo "político". Diz apenas ser uma pessoa interessada pela história e pelo seu tempo.

Pois o tempo registrado no filme não podia ser mais propício para questionar temas como a relatividade da verdade, a memória e o tempo.

Acompanhamos muitas manifestações de rua (e reforçamos o clichê de que franceses adoram manifestações). Vemos uma população assustada com o avanço da extrema-direita e a passagem de Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições para presidente na França.

A câmera de Marker está entranhada no povo, dentro das passeatas. Acompanhamos os protestos contra a invasão americana no Iraque. E existe tema mais propício à Chris Marker do que uma guerra baseada em um motivo irreal (ou alguém um dia chegou a ver as tais armas de destruição em massa que os iraquianos teriam?).

***

O DVD traz ainda quatro curtas: "Viva a Baleia" (1972), "Zoo Piece" (1990), "Bullfight in Okinawa" (1994) e "Slon Tango" (1993). Nem tudo o que Marker faz é genial. Destes, o mais interessante é o primeiro, que começa como um tradicional documentário expositivo para logo em seguida seguir o caminho da poesia e da denúncia social.

O público brasileiro está bem acostumado a documentários (raras são as semanas em que não estreia ao menos um documentário nacional). O que talvez não saiba (e nisso, entrar em contato com Chris Marker é essencial) é que o documentário aqui, com raras exceções, ainda é muito tímido, preso à antiquíssima ideia de que o registro da realidade é algo possível e deve seguir soberano.

A seguir, um documentário de 10 min. sobre o diretor: 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h19 AM

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Atores físicos

A atuação de Isabelle Carré em “O Refúgio”, filme de François Ozon que estreia nesta semana em SP, não chega a ser excepcional. No entanto, não estranhe se você ficar magnetizado pela presença da atriz na tela.

Isabelle realmente estava grávida durante as filmagens, e isso confere um aspecto “físico” ao longa. Ou seja, difícil é não ficar prestando atenção em sua barriga de quase oito meses.

Poderia aqui usar o clichê “força da natureza” para descrever esse peculiar tipo de atuação. Isabelle poderia ficar calada o filme inteiro, mas ainda assim ficaríamos impressionados.

Isso porque “O Refúgio” está na categoria de pequenos grandes filmes como “O Agente da Estação” (2003), em que todos os olhares, inclusive do público, recaem sobre o ator anão Peter Dinklage, ou “O Lutador” (2008), onde a decadência física de Mickey Rourke, ou melhor, a exploração da imagem de seu corpo decadente, chega a ser quase indecente.

São momentos particularmente ambíguos do cinema, em que personagem e ator se misturam. Porque o que está sendo “vendido” na tela é não apenas a capacidade dramática, mas o externo, o corpo. Ou seja, você é o que você aparenta.

Exemplo memorável é Rossy de Palma e seu protuberante nariz, uma verdadeira pintura de Picasso em carne e osso. Havia lugar melhor para ela do que nas películas de Pedro Almodóvar na sua fase mais kitsh?

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Se você é de São Paulo e costuma ler o “Guia”, já deve ter reparado que, semana sim, semana não, cartas enviados por leitores costumam reclamar da rede Cinemark.

Chamou-me atenção carta favorável à rede publicada na edição do dia 27 de agosto. Dizia a leitora: “Desde a adolescência, frequento o cinema todos os fins de semana e lembro como as salas eram no passado: repletas de filas, pipoca velha e medo de assalto dentro do cinema. A situação melhorou muito”.

Quando criança, frequentei muito o cine Jamour, na rua Domingos de Morais, e o Paramount, lá na Brigadeiro. Não me lembro de pipoca velha ou medo de ser assaltado. Lembro, isso sim, de uma saudável sensação de pertencer a um bairro. No Jamour, volta e meia encontrava conhecidos da escola ou primos, quase sempre por acaso.

Espero que os cinemas de rua continuem existindo. É saudável ter espaços que fogem à padronização; cinemas de grandes redes dão aquela sensação estranha que a globalização causa às vezes. Você pode estar em Paris, Nova York ou Tóquio, mas determinado estabelecimento é igual, não muda nada. A diversidade parece estar com os dias contados.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h39 PM

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