Ilustrada no Cinema

 

 

Chanel, Stravinsky e o balé

Ainda bem (ou não?) que saí de casa bem avisado. Li que a sessão das 21h10 de “Coco Chanel & Igor Stravinsky” no Reserva Cultural, no domingo, seria aberta por uma performance.

Ainda defensor do hábito de frequentar salas de cinema _o que me faz uma dessas espécies em extinção_, tenho acompanhado com interesse essas tentativas recentes de distribuidoras que tentam “agregar valores” aos filmes e oferecer algo mais aos espectadores.

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Semana passada vi “Reflexões de um Liquidificador” e ganhei de brinde um curta e uma apresentação de stand-up antes da projeção. Soa medonho? É muita interação e faz você desistir de vez de ir ao cinema?

Achei meio estranho no começo, já que a comediante parecia meio deslocada naquele espaço. Mas daí comecei a me lembrar de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e de Woody Allen subindo nervoso no palco para contar piadas e de Diane Keaton tentando cantar para ninguém num bar barulhento e comecei a achar a coisa toda meio tragicômica e relaxei.

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Já na sessão de “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, a questão foi mais complexa.

Doze bailarinos da Cia. Tribo de Dança surgem à frente da plateia logo que acabam os trailers. O esforço deles é notável, mas tudo soa meio deslocado. Eles não ficam num palco e estão no mesmo nível da primeira fila. O espaço é apertado, a iluminação, meio improvisada.

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Estão lá reproduzindo a genial sequência inicial do filme (veja no trailer acima), a atrapalhada estreia do balé “A Sagração da Primavera” no Théâtre des Champs-Élysées, em 1913, em Paris.

A modernidade da coreografia de Nijinsky e da música de Stravinsky, na obra que conta a história de jovem que deve ser sacrificada num ritual primitivo para o deus da primavera, chocou o público, que, consta, vaiou a apresentação.

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Daí vem a questão: é possível reproduzir essa sensação de choque, de estranhamento? Afinal, o que aqueles bailarinos estavam fazendo antes de uma sessão de cinema em São Paulo?

Se a proposta era causar estranhamento, de certa maneira a companhia brasileira conseguiu. Mas por outras vias, claro. Ganharam aplausos, e não vaias.

O que se via ali não era a vanguarda, uma nova proposta artística. E, sim, uma nova maneira de tentar conquistar o público, uma tentativa de criar uma experiência única.
É um 3D sem tecnologia, um 3D “orgânico”, com atores reproduzindo a vida da tela. Fico imaginando que loucura seria Zé Celso em experiência semelhante. E não esto sendo irônico _adoraria ver o Oficina reproduzindo cena de, sei lá, “Avatar 2”, antes da sessão do filme.

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Sinto apenas que tais experiências interativas podem assustar certos cinéfilos. Afinal, um dos argumentos recorrentes de quem prefere cinema a teatro é o fato de que, na sala de cinema, não é necessário interagir. É apenas sentar lá na sala, ficar quietinho e ver o filme.

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Da série ainda não vi mas já gostei.

Com Quentin Tarantino como presidente do júri do Festival de Veneza, que começa nesta quarta-feira, podemos esperar uma mostra mais radical?

Seja qual for o resultado, aguardo ansioso pelo novo filme de Sofia Coppola, “Somewhere”.

Pelo que o trailer dá a entender, lá está novamente aquela notável capacidade da diretora de filmar momentos-chave do vazio interior, do tédio, de uma maneira bem, digamos, contemporânea.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h16 AM

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Não conte o fim do filme!

Atenção, este post tem vários spoilers.

O recado é necessário, já que uma das coisas que mais tiram o leitor do sério é aquele texto com informações sobre o fim do filme, ou alguma informação crucial da trama.

De tempos em tempos surgem filmes-evento assim. “A Origem” é o mais recente deles. Enxurrada de textos, críticos e espectadores tentam decifrar o que Christopher Nolan estava querendo dizer.

Era tudo um sonho do personagem de Leonardo DiCaprio? Aquele final redentor é apenas uma enganação, já que nunca vemos se o pião vai parar de girar ou não?

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Na minha opinião, pouco importa saber a “verdade”, seja qual for o filme. Ou melhor, a “verdade” é relativa, cada um tem a sua conclusão. Mas gosto de compará-la com a de outros. E procuro entender o que o diretor tentou dizer com aquilo.

Por mais que um século de cinema nos tenha ensinado, algumas pessoas, às vezes até inconscientemente, ainda acham que as imagens projetadas na tela são de verdade. Que o trem dos irmãos Lumière, que está lá na frente, irá atropelar a plateia.

“Mas que bobagem, onde já se viu o cara de ‘A Origem’ comprar uma companhia aérea inteira? Isso não aconteceria nunca de verdade”
Ou então: “Achei aquele filme do James Bond ridículo!!! Até parece! O cara pula do helicóptero, entra num carro em alta velocidade, sai na mão com o vilão e não fica nem com o cabelo despenteado!!!”

Quantas vezes você já não ouviu comentários do tipo?

(Sugiro que procurem o significado da palavra “diegese” no dicionário)

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Seguindo essa lógica, é muito importante saber o final do filme. Aliás, a única coisa que importa é saber a “mensagem” de tudo, saber se tudo se encaixa, se tudo faz um sentido.

Por isso uma revolta de certos espectadores (e o pouco sucesso) de filmes como “Femme Fatale” (2002), de Brian De Palma. Quando o sujeito se dá conta de que a quase uma hora e meia de projeção que ele viu é “mentira”, ou simplesmente um sonho do personagem, bate a sensação de “Fui enganado!”.

Vários roteiristas norte-americanos já perceberam que uma surpresa lá no final pode garantir o sucesso de seu trabalho.

Pegue como exemplo filmes (nem por isso ruins) como “O Clube da Luta”, “O Sexto Sentido”, “Os Outros” (o “Guardian” fez uma relação dos finais mais surpreendentes da história). Ou então a tríade Spike Jonze/Charlie Kaufman/Michel Gondry. Todos mestres na arte de iludir e brinca com essa necessidade do ser humano de entender, compreender, racionalizar, colocar nos trilhos.

(Um caso à parte é “Psicose”, que continua assustador, ou até mais, mesmo quando assistimos pela segunda, terceira vez; talvez porque Hitchcock não se prendeu a um simples truque de surpresa)

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Pense por outro lado: você achou “Cidadão Kane” menos impactante apenas porque sabe que o personagem principal vai morrer no final?

A resposta, óbvia: não importa saber o final, mas sim, saber como a história irá se desenrolar.

Buñuel foi inúmeras vezes indagado sobre o conteúdo daquela caixinha que o chinês entrega a Catherine Deneuve em “Bela da Tarde”. Ele mesmo dizia que não fazia ideia.
Há alguns anos, quando entrevistei o diretor Tsai Ming-liang em sua visita ao Brasil, devido à Mostra de SP, elaborei uma longa pergunta sobre o significado da água em seus filmes. Queria saber por que cenas envolvendo água eram tão recorrentes, e elaborei toda uma teoria falando sobre a fluidez, que contrastava com certa estagnação dos personagens etc.

Ainda que a tradutora não tenha ajudado muito, reparei que a resposta dele foi curta. Segundo a tradutora, ele disse: “É, pode ser. Nunca pensei muito sobre isso”.

Ou alguém acha “2001 -Uma Odisséia no Espaço” um filme menor apenas porque aquele final é uma viagem?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h34 PM

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Em busca do público perdido

Quem frequenta o Espaço Unibanco Augusta, aqui em São Paulo, já deve ter passado um aperto na calçada. Nos finais de semana, chegar à sala é como tentar alcançar a saída de ônibus lotado. Muito calor humano.

As barraquinhas de DVDs piratas deixam o espaço ainda mais disputado. No último domingo eram cerca de quatro (há ainda aqueles que, para fugir mais facilmente do "rapa", "olha o rapa! olha o rapa!", preferem apenas estender um plástico no chão para expor os DVDs).

Mas a pirataria na frente do Espaço Unibanco sempre me espantou pela logística de mercado. Basta uma rápida olhada nos títulos para ver que nada ali é aleatório. Eles, os camelôs, sabem que aquele público gosta de "filme de arte". Por isso, vários Truffaut, Einsenstein, Godard etc. Aquela história de que quem compra DVDs piratas é o pessoal de regiões mais pobres, carentes, vai por água abaixo.

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Outro dia, na fila para pegar ingresso de "Guerra ao Terror", o casal na minha frente tinha acabado de desistir. O rapaz reclamava: "Credo, são mais de duas horas de filme. Vamos comprar o DVD aqui na frente e ver lá em casa, no sofá".

Tudo bem que o cinema não ajudava: a cópia era digital e, sabemos, o digital nas salas brasileiras não é a melhor das projeções. "Guerra ao Terror" virou um breu só, não havia nuances nos tons.

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Isso justifica a compra de pirata? Seja aqui no Brasil, seja lá no EUA, a solução da indústria é proporcionar experiências possíveis apenas na sala escura.

Se lá eles têm a tecnologia de ponta para um "Avatar" da vida, aqui, diretores como André Klotzel buscam soluções inusitadas. Este é o link perdido entre "Reflexões de um Liquidificador" e a superprodução de James Cameron.

A ideia é das mais simpáticas. Colocar o filme em apenas uma sala é maneira de torná-lo único, um filme-evento. Quando estreou aqui, há algumas semanas, "Vincere" estava apenas no Cinesesc. Resultado: filas quilométricas naquele cinema, como há muito não via.

Ao menos na sessão a que fui de "Reflexões...", no sábado à noite, a estratégia parecia ter funcionado. A sala estava quase lotada (o que, para um filme nacional fora da Globofilmes, é um feito), e o público parecia ser neófito.

Antes do filme, "ganhamos" de brinde um curta-metragem e uma apresentação de stand-up comedy (o que vi foi com a humorista Carol Zoccoli). A plateia estranhou o curta; pelas conversas paralelas deu para concluir que vários pensaram ter entrado na sala errada.

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A performance de Carol foi mais séria do que engraçada, já que pegou para Cristo o filme nacional. Enfim, por que temos esse gênero à parte chamado "cinema brasileiro", que, em muitos círculos, é sinônimo de "filme chato", "filme mal feito", "filme cabeça"? E por que o subgênero "filme da Globofilmes" é capaz de, ironicamente, levar as pessoas a sair de casa para ver no cinema um filme que parece a novela que elas vêem..... em casa?

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São reflexões não de um liquidificador, mas de qualquer um que, como Klotzel, acredita na produção brasileira, mas precisa ficar de olho no mercado (e correr o risco de ficar em cartaz por apenas duas semanas em salas minúsculas).

E, no final das contas, vale a pena ver o filme? Sim; até a moça que estava sentada ao meu lado e não parava de falar alto nos primeiros cinco minutos de projeção, se concentrou. Nem vi o rosto dela, mas sei de todas as suas opiniões. De meia em meia hora, ela praticamente dava um boletim e gritava para os amigos: "Gente, tô adorando !!!".

Talvez porque "Reflexões de um Liquidificador" é um filme bem irônico. Sem pudores. As tais reflexões são, na maior parte, lugares-comuns, frases de parachoques de caminhão. Podem ser vistas como uma grande tiração de sarro ou como pílulas de sabedoria para consumidores de manuais de auto ajuda.

Involuntária ou não, já começa aí a proposta democrática de Klotzel.

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"Reflexões de um Liquidificador" tem alguns ecos de Hitchcock, principalmente "Janela Indiscreta", e, por que não, Cronenberg? O liquidificador/Selton Mello poderia muito bem ser um dos seres mutantes do diretor de "A Mosca".

Na mesma toada, um programa cultural que "conversa" com o filme é a mostra do artista belga Jan Fabre no Instituto Tomie Ohtake. Sim, tem muita coisa de mau gosto por ali, como aquele monte de gatos empalhados em meio a uma cenografia de Carnaval. Mas a instalação "Umbaculum, a Place in the Shadow to Think and Work" (Umbaculum, um lugar à sombra para meditar e trabalhar), com ossos humanos e referências à velhice, poderia bem estar no filme de Klotzel.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h42 AM

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O som do cinema mudo

O quarentão solteiro está animado. Conseguiu ficar com aquela garota novinha, 20 e poucos anos, que ele estava de olho. Na casa dele, decorada com todo o arsenal de quinquilharias que os quarentões solteiros e com bom salário dispõe para impressionar as mulheres, o clima começa a ser armado. No aparelho de som, o melhor jazzinho de Chet Baker para criar um clima. Mas não há deslumbramento.

“Por que você ouve essas músicas com vocal?”, pergunta ela, da turma do tecno, para um boquiaberto quarentão.

Não é piada, é história contada por amigo de amigo (não, não foi comigo que aconteceu).

Tudo isso para dizer que, quando fui ver, no domingo passado, “A Rua das Lágrimas” (1925, de Georg Wilhelm Pabst) no encerramento da IV Jornada do Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira, lembrei dessas histórias.

A garota clubber teria convulsões se alguém lhe contasse que, um dia, os filmes eram mudos.

Ficaria mais espantada ainda se soubesse que um público final de 6.624 compareceu aos dez dias de mostra (segundo a assessoria de imprensa da mostra), que exibiu 35 filmes. O último dia, domingo, teve uma das madrugadas mais frias do ano; os termômetros à saída da sessão marcavam 9 graus.

Se é surpreendente essa disposição de cinéfilos, fiquei ainda mais espantado com o pouco silêncio na sessão. O público fazia o barulho que não havia na película.

O cinema mudo parece ser uma anomalia em determinados círculos. Uma "novidade". Talvez isso explique o entra-e-sai de pessoas da sala. Espectadores que não aguentaram cinco minutos de projeção desse “estranho” filme sem som.

Alguns, talvez incomodados com o fato de que a única sonoridade era o acompanhamento ao vivo executado pelo Duo N1, deixaram os celulares ligados. Ouvi uns três tocarem durante a sessão. Para alguns, o toque do celular era um alívio daquele silêncio “torturante”.

Dizem que os filmes mudos eram tão perfeitos em termos de narrativa que os cineastas dominavam à perfeição a arte de contar histórias apenas com imagens, que os filmes apenas faltavam falar. Desde então não parou de falar e, agora, o 3D ainda tenta interagir fisicamente com o público.

Silêncio, frio e a crueza de “A Rua das Lágrimas”, filme nada leve de Pabst, com certos toques expressionistas e uma profunda descrença na bondade humana. Deve ser insuportável para quem já considera os filmes de Spielberg muito parados.

Em “A Rua das Lágrimas”, o diretor de “A Caixa de Pandora” (1929; célebre por Louise Brooks) mostra uma sociedade que literalmente passa fome e é obrigada a se prostituir para sobreviver, enquanto apenas alguns mantêm privilégios.

A estrela do filme, Greta Garbo, abandonou logo o cinema, aos 36 anos. Já era uma estrela. Sofria de depressão. Disse a célebre frase: “Eu quero que me deixem sozinha”. Alguém consegue imaginar uma estrela dos dias de hoje falando isso? Uma twittada dessas? Mais do que filmes mudos, soa anacrônico uma estrela que tenta se desviar dos holofotes. Se vivesse hoje, conseguiria Garbo ser deixada sozinha?

Aguardo, assim, ansioso pela próxima edição da Jornada de Cinema Silencioso. À exceção de um ou outro filme de Chaplin, o que restou dessa produção para o, digamos, grande público? Praticamente nada. Não se trata de dar atenção a velharias. Mas, se durante décadas o cinema foi mudo, há uma gigantesca produção à espera de ser redescoberta (e para nos lembrar que, quem fala demais às vezes não têm nada a dizer).

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h14 AM

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Minha querida "Psicose"

Ela está cansada. O dia foi difícil, e agora ela precisa descansar. Dirigindo pela noite chuvosa, tudo que busca é um lugar tranquilo e seco. O hotel que encontrou pelo caminho era meio esquisito, não mais que o rapaz da recepção. Na falta de opções, resolveu se hospedar por ali mesmo. Um banho, tudo que ela precisa é um banho.

Apenas a água quentinha do chuveiro faria relaxá-la e esquecer um pouco daquele dia complicado. Ela quer reavaliar os últimos acontecimentos. Está mais vulnerável do que nunca. Porque um vulto preto se aproxima pela cortina...

O resto da história você já conhece. Aliás, se você está lendo este blog, provavelmente gosta de cinema e já deve ter visto e revisto "Psicose", esse clássico que completa 50 anos em 2010 (para ser mais exato, segundo o site Imdb, a première, em Nova York, foi em 16 de junho de 1960; no Brasil, estreou em 25 de agosto daquele ano).

Essa cena específica é a mais perfeita tradução do terror. Porque Marion é atacada brutalmente em um local de aconchego, sem nenhuma possibilidade de defesa, por uma pessoa cuja identidade não sabemos. Assistimos impotentes ao que ocorre. Somos torturados na medula pela música de Bernard Herrmann, ataques agudos e perfurantes que nos causam calafrios. E, em seguida, o corpo jaz imóvel e solitário. Agora não há mais nada a fazer. Não há mais vida. Apenas o olhar vazio para o nada de um corpo prestes a esfriar.

O pesadelo de "Psicose" não acaba nos créditos finais. Ficamos impregnados daquele medo. É outro filme que gera o terror, o filme que retorna à mente, lembranças recorrentes, quando voltamos para casa e nos vemos à noite, no escuro. Vi pela primeira vez no começo da adolescência. Mesmo sedado por tantos filmes tolos de terror que apareciam aos montes nos anos 80, acendi a luz do corredor e do banheiro naquela noite a que assisti "Psicose". Vai que Norman Bates ou a mãe dele aparecessem por ali...

Até hoje, esse terror ressurge. Outro dia comprei uma compilação com músicas de filmes de Hitchcock. Fiz a tola experiência de ouvir a "musiquinha do chuveiro" sozinho em casa, à noite, no mais completo silêncio. Você já fez isso? Não recomendo a ninguém. Mesmo adulto, aquele temor retorna. É o horror.

A "cena do chuveiro" é um desses patrimônios fílmicos da humanidade, um ícone. Inúmeras paródias e homenagens não param de surgir até hoje. Experimente digitar psycho shower scene no YouTube. Páginas e páginas de vídeos feitos por estudantes de cinema ou apenas fãs vão aparecer. Selecionei aqui alguns vídeos que valem ser citados:

1. A FORÇA DA MÚSICA

Este vídeo traz a cena do chuveiro com e sem música. A música de Herrmann amplifica de forma saudavelmente sensacionalista o impacto da cena. Sem música, não é menos pesada; o barulho da carne na faca e os gritos parecem ficar amplificados pelo "silêncio".

2. PARÓDIAS

São tantas as paródias/homenagens que foi até possível recriar a sequência apenas utilizando essas imagens. Tem de tudo: Pernalonga, Simpsons, boneco infável....

3. BRINQUEDO

Não é das melhores, mas vale a pena ver esta versão refeita com Lego.

4. SIMPSONS

Homer é campeão. Esta já está na história como uma das melhores paródias:

5. O HITCHCOCK DOS ANOS 80

A "cena do chuveiro" vira "a cena do elevador" em "Vestida para Matar", de Brian de Palma. Mais do que homenagem ou pastiche, De Palma manteve a tradição do terror, mas em outra chave.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h07 PM

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Garotas do rock para quem não é do rock


Kristen Stewart e Dakota Fanning em "The Runaways"

Biopics (filmes biográficos) sobre astros do rock são para um público tão específico quanto aqueles documentários sobre a baleia jubarte e o mico leão dourado que pululam pela TV paga. Se você não é fã da banda em questão, por que ver filmes como “The Runaways - Garotas do Rock” (que estreia no Brasil em setembro)?

Existe a possibilidade de você querer ver a Kristen Stewart fazendo caras diferentes daquela sua expressão única de susto “Ó, Edward, ó, Jacob” que ela faz na série Crepúsculo inteira e já virou quase uma máscara.

Ou então talvez você tenha curiosidade em ver Dakota Fanning (aquela ex-atriz mirim que assustou a todos por se comportar como um adulto) fazendo finalmente um papel adulto.

Mas deixando essas duas possibilidades de lado, o que sobra para o cinéfilo, ou para aquele público que cai de paraquedas no cinema (além da possibilidade de vir a se tornar um fã da banda)?

São questões que alguns filmes não se preocupam em responder. Vários deles, apesar das boas intenções, já entram com o jogo ganho. Diretores e roteiristas sabem que boa parcela do público já chegará gostando do filme porque são fãs.

Alguns pressupõe que, como estão se dirigindo a esse público, não precisam construir personagens, motivações etc., afinal, já sabem o que o futuro astro do rock pensa. No final das contas, é mais ou menos o que acontece nos filmes sobre super-heróis.

Espera-se o momento em que o herói (astro do rock) aparecerá na sua forma plena, como ficou conhecido no imaginário popular. Em vez das cenas de batalhas, temos as cenas infindáveis de shows, como se fossem videoclipes. E, daí, a preocupação maior é a verossimilhança, imitar o real, cabendo ao ator um trabalho de “receber o espírito” do astro do rock da vez.

“Control”, sobre Ian Curtis, o vocalista do Joy Division, é um caso típico. À parte os méritos da fotografia e da impressionante caracterização de Sam Riley, o diretor Anton Corbijn usou a mítica (enorme) da banda como sustentáculo. Eu, como sou fã da banda, entendi tudo e me emocionava todas as vezes que surgia alguma música do Joy Division. Fico, no entanto, imaginando se o impacto era o mesmo para quem nunca tinha ouvido falar em Joy Division.

O problema é que, com raras exceções, tais filmes seguem o mesmo roteiro. Mostram o garoto/garota comum que quer fugir da banalidade do dia-a-dia (e “The Runaways” tem uma cena que já virou clichê: o momento em que o personagem, geralmente ainda adolescente, está trancado no quarto e coloca o disco “Alladin Sane”, de David Bowie, para tocar; tem essa cena em “Closer” e em “C.R.A.Z.Y.”, que não é um biopic).

Em tais roteiros, temos o momento do primeiro ensaio. Vemos o momento em que a banda começa a despontar. E, inevitavelmente, o momento dramático do filme, quando o personagem principal começa a se perder nos delírios da fama ou da depressão ou das drogas ou tudo ao mesmo tempo.

“The Runaways” tem tudo isso. Mas o que o impede de cair na banalidade são alguns lampejos de percepção do diretor e do roteirista. E aí é que reside toda a diferença entre as biopics (as mais tradicionais e medianas são como documentários do canal VH1; as mais ousadas e experimentais investigam o universo do personagem, como “Não Estou Lá”, sobre Bob Dylan).

Porque “The Runaways” tem várias entradas. Antes de mais nada, há um teor feminista: se os garotos podiam montar bandas, por que não as garotas? É uma crônica de juventude, com crianças que sofrem para entrar no mundo adolescente e, ainda nem adolescentes, já encaram o mundo adulto. É um filme sobre famílias desestruturadas. Sobre o desejo de fugir da mediocridade, de ver no showbiz a única maneira de mobilidade social _nisso há certa semelhança com os jogadores brasileiros de futebol ou das duplas sertanejas. Se “The Runaways” desenvolve tudo isso de forma satisfatória, é outra história. Mas o simples fato de vislumbrar horizontes mais amplos já é um mérito. E, não, não sou fã da banda nem da Kristen Stewart e nem da Dakota Fanning.

*Essas são as Runaways originais; quando (e se) você for assistir ao filme, preste atenção na recriação desse show:

*****

Em depoimento nesta semana no caso do ditador africano, Mia Farrow dá seu testemunho e contradiz Naomi Campbell. Ambas estiveram em jantar beneficente organizado por Nelson Mandela. Campbell teria recebido um diamante do então presidente da Libéria. Seja pela entonação, seja pela calma que sugere certa fragilidade, não há como não lembrar de Mia Farrow nos filmes de Woody Allen:

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h27 PM

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"A Origem" no inconsciente

Faça a seguinte experiência. Relembre um sonho recente, que ainda esteja fresco na memória. Depois, pense em alguma experiência marcante de sua vida, de preferência uma sequência específica de acontecimentos. Em seguida, rememore na cabeça um filme que tenha causado grande impressão em você.

Não sou especialista em Jung, Freud, psicanálise etc. Li apenas “O Homem e Seus Símbolos”, livro básico, para completos iniciantes. Mas, a partir da experiência que proponho acima, tenho a impressão de que, no cérebro, essas três imagens acabam se tornando algo parecido.

É como se, para o cérebro, tudo fosse uma coisa só _não sei se acontece assim com todo mundo; para mim, ao menos, sim.

A forma como “vemos” essas imagens retrospectivas, na cabeça, são semelhantes. Todas elas são envoltas por uma certa bruma. Muitas experiências do passado surgem como num cineminha na cabeça. Várias vezes não temos a visão subjetiva, que é a “real”. Vemos nós mesmos desempenhando aquelas ações, do ponto de vista do espectador, do operador de câmera, do diretor.

É apenas uma linha bem tênue que as separa: a convicção racional de que tal coisa aconteceu com a gente e outra coisa foi um sonho (portanto, não “real”).

O cinema é, portanto, uma área propícia para representações de sonhos e delírios. Como escrevi em texto nesta semana para a Ilustrada, sobre “A Origem”, há quem diga que não há coisa mais chata do que ouvir a descrição do sonho de outra pessoa (tomo a liberdade aqui de retomar algumas ideias daquele texto). No cinema, os filmes-sonho são uma categoria à parte, que deixam essa ideia de chatice de lado.

Filmes se infiltram facilmente no inconsciente. Acabam se misturando às nossas experiências. Não é apenas o ato de ver o filme que absorvemos; de certa maneira, a própria trama, a vida retratada na tela, passa para nós.

A montagem de um filme, no entanto, sempre impõe dificuldades. O que vemos na tela sempre é um filme. Quando tentamos seguir uma lógica mais tradicional, tentamos estabelecer qual é o plano da “realidade” naquela história sendo exposta.

Como deixar claro que determinada sequência é um sonho, e não flashback ou ação paralela, e não cair no clichê de cenas com fumaça, ecos, cores saturadas?

David Lynch é a referência imediata nos exemplos mais recentes. Filmes como “Cidade dos Sonhos” e “O Império dos Sonhos” simulam os processos de associações. Durante o sonho geralmente não temos consciência de estarmos dormindo, nos dizem esses filmes, com mais sutileza que “A Origem” _este usa a verborragia para nos explicar que os personagens estão sonhando.

De certa forma, Christopher Nolan é uma versão blockbuster de Alain Resnais. Mesmo em filmes como os da franquia Batman, a questão é o limite entre o real e o imaginário. A sua versão de Batman parece responder à pergunta básica: como seria o mundo se super-heróis realmente existissem? Não é um absurdo, já que os habitantes do universo Batman não têm poderes mágicos.

Resnais, em filmes como “Eu Te Amo, Eu Te Amo” ou “O Ano Passado em Marienbad”, é particularmente incômodo, melancólico. Ele joga nossas certezas por terra. O tempo todo Resnais nos questiona, em forma de imagens: o que aconteceu no passado aconteceu mesmo ou foi apenas um sonho?

Há um peso excessivo em constatar que tudo ao qual nos agarramos, que as nossas lembranças mais queridas, às vezes podem ser apenas frutos de nossa imaginação, de uma mente que distorce a verdade para tornar o dia-a-dia mais suportável.

Falando no assunto, imagens de "Sonhos", de Akira Kurosawa, "O Ano Passado em Marienbad", de Alain Resnais, e "Waking Life", de Richard Linklater:

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 7h35 PM

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Conversando durante o filme


Cena de "Vincere"

Você fala alto na sala de cinema? Ou você respeita aqueles que dividem a sessão com você, e procura não soltar um pio durante o filme?

Sempre fui da turma que se irrita com o blablablá no cinema. Soltei muitos “psiu”, “chiu” e várias outras onomatopeias. Na época da faculdade, eu dava a cara a tapas. Não falava nada, apenas olhava torto para a pessoa que tagarelava. O resultado era pífio: eu é que virava o alvo de escárnio de tal pessoa por ser tão “sério”.

Voltei a pensar no assunto recentemente, por vias diferentes, quando fui ver “Vincere” e “O Pequeno Nicolau”.

No épico/ópera de Marco Bellocchio, o próprio cinema é um dos personagens. Em várias cenas vemos a representação de salas de exibição nos tempos do cinema mudo. Falar e se exaltar durante uma sessão não parecia, na visão de Bellocchio, ser algo assim tão criminoso.

Já “O Pequeno Nicolau” assisti no Espaço Unibanco Augusta, um espaço que, teoricamente, é frequentado por cinéfilos, que não gostam muito de gente falando alto. Para minha surpresa, a sessão foi uma festa da uva. Era uma sessão noturna durante a semana; a plateia se esgoelava de rir e gritava; alguns comentavam cenas e vários até batiam palmas.

Mas, desta vez, e já faz algum tempo, eu não surtei.

Cito algumas experiências que me fizeram repensar meus preconceitos e o dogma do silêncio do cinema.

Há alguns anos fui numa sessão para crianças de algum filme da Pixar (não me lembro qual). Parecia a hora do recreio. Várias crianças ficavam literalmente de costas para a tela. Outros corriam pela sala e brincavam de pega-pega. O barulho delas era tão alto quanto o som do filme. Era um cinema de shopping, claro.

Lembrei na hora o que dizem os livros sobre história do cinema. Quando surgiu, em fins do século 19, o cinema era uma curiosidade, uma nova técnica, mais uma das atrações das feiras. Tento imaginar como seriam as sessões dos filmes pioneiros. Há, claro, o contra-argumento de que o primeiro cinema não era necessariamente uma arte. E que o cinema só virou cinema quando começou a narrar histórias.

Em outra ocasião, fui numa sessão especial de “Rocco e Seus Irmãos”, filme de 1960 de Luchino Visconti. A sessão não estava muito cheia, devia ser eu mais meia dúzia de gatos pingados e um grupo de umas dez senhoras.

Do começo ao fim do filme (que é longo, quase três horas de duração) aquelas senhoras não paravam de conversar. E não era apenas uma conversa. Parecia que tinha uma cantina italiana na sala. Elas comentavam quase todos os segundos do filme, como se fossem um Galvão Bueno em Copa do Mundo.

Mas “Rocco...” em si é uma gritaria só. Os personagens gesticulam e também falam alto, como diz o estereótipo italiano.

Como eu queria muito rever o filme em tela grande, me resignei. E, para minha surpresa, a irritação passou, depois de alguns “xius” ignorados. Tela e plateia viraram uma coisa só, em determinado momento.
Meu lado bom samaritano falou mais alto. Comecei a pensar que aquelas senhoras deviam ser jovens quando viram “Rocco...” (1960) pela primeira vez. Que, naquela época, eram adolescente apaixonadas por Alain Delon. E que aquele retorno ao cinema, àquela altura da vida, era uma maneira de relembrar a própria (e agora distante) juventude. Elas podiam estar velhas, frustradas com a vida. Mas Alain Delon continuava lá, belo e congelado no tempo.

Se hoje eu aprovo o blablablá no cinema? Claro que não. Respeito ao próximo, e não só no cinema, é ato essencial. Mas, dependendo da situação e do lugar não há problema. Não costumo pedir silêncio em sessões de blockbusters em cinemas de shopping. Lá, eu é que sou o estranho no ninho.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h49 PM

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