Ilustrada no Cinema

 

 

Sonhos de Miyazaki

Hayao Miyazaki é um diretor de modos tradicionais. Em uma entrevista, ele conta: não usa internet, não tem computador e nem fax. Diz que raramente assiste a televisão e que não possui DVD player. E-mail é outra coisa dispensável: quando precisa, ele recorre à velha e boa carta de papel. Jogou uma vez um videogame, e não gostou.

Mas, nos dias de hoje, em que o 3D, CGI e efeitos especiais são dogmas para se fazer cinema de espetáculo, a idiossincrasia maior do cineasta japonês é o fato de fazer desenhos animados à moda antiga: tudo à mão, sem computadores, como no tempo da carochinha.

“Ponyo”, que estreia em SP nesta sexta-feira, serve como exemplo do método do diretor. São 100 minutos de filme, em que 170 mil desenhos foram feitos, por uma equipe de 70 pessoas, em um período de um ano e meio. Será que isso torna o filme mais “orgânico”, real? E ao conseguir esses efeitos, não estaria atingindo o objetivo de todos os filmes 3D que nos são despejados pela goela?

Dê uma olhada na exuberância visual do filme, para ter uma ideia do que essa numerália significa.

Em linhas gerais, “Ponyo” conta a história de uma peixinha dourada que decide se tornar humana após se apaixonar por um garoto de cinco anos.

O trabalho de artesão de Miyazaki resulta num mundo intermediário, nem de “verdade” e nem “apenas” desenho. Não é algo fácil de perceber com olhos mais apressados.

Suas narrativas, apesar das sequências de ação mirabolante, seguem um outro ritmo, misteriosamente mais lento, mas nada tedioso.

Em produções anteriores, como “Viagem de Chihiro”, “Mononoke hime” (princesa Mononoke) ou “O Castelo Animado”, Miyazaki vai construindo detalhes, em que elementos do passado, presente e futuro se misturam. São grandes epopeias, personagens em deslocamento físico em busca de redenção.

Os filmes se passam em épocas indefinidas, como se fossem as fábulas que ouvíamos quando éramos crianças.

É como se o diretor criasse filmes-sonhos, com imagens fortes e etéreas que ficam impregnadas na mente. Nossa razão batalha para entender o que são aqueles monstros e criaturas, tentamos encaixá-los em referências já processadas anteriormente, mas o esforço é em vão.

Simplesmente desistimos e nos deixamos tomar pelas imagens e aceitamos essa realidade paralela. Você pode dizer: “Sim, mas qualquer desenho animado tem esse efeito”.

Eu diria que Miyazaki é muito mais um autor, um cineasta surrealista (na linha de David Lynch), do que simplesmente um diretor de desenhos animados.

Dos fimes mais recentes do cineasta, “Ponyo” é o mais convencional e infantil, mas a questão do embaralhamento de realidades continua forte.

Há uma ênfase em elementos orgânicos, deformações do corpo (não há como não pensar em David Cronenberg), uma crença no mágico (como em Meliés) e numa melancolia assustadora. Como quando somos crianças e vemos que um dia vamos crescer, como quando temos medo de perder o amor de nossos pais e sermos deixados à mercê.

Talvez seja por isso, mais do que pelas imagens fantásticas, que Miyazaki causa um estranho sentimento de nostalgia e familiaridade. É como acordar e tentar, sem sucesso, lembrar como foi o sonho.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h13 AM

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Onde não há cinema

O leitor Marcelo Henrique é fascinado por cinema. Ele mora em Ribeirão Preto, SP, e recentemente enviou um e-mail para este blog contando como é difícil assistir a bons filmes morando numa cidade onde não há salas de cinema alternativo. Ele questiona: como manter o hábito [de assistir a bons filmes]?

Em São Paulo, capital, tudo é mais fácil, claro. Além do circuito normal, há, todos os dias uma boa mostra alternativa em cartaz. Amanhã, por exemplo, é a vez de “Dogma 95 - 15 Anos Depois”, na Cinemateca Brasileira.

No entanto, tudo é relativo. Sempre haverá alguém insatisfeito. Volta e meia ouço alguém aqui na cidade reclamar: “Nesta semana não tem nenhum filme legal em cartaz”. Ou então: “Só estreia coisa ruim aqui”. É desaforo para leitores como o Marcelo.

Comportamento natural do ser humano. Quando se entra em comparações, surgem frustrações. A programação de SP é boa comparada com a de Paris? E se for comparada com as cidades do interior do Brasil?
As coisas são menos drásticas desde pelo menos as invenções da televisão, do VHS, do DVD e da internet. Scorsese deve boa parte de seu conhecimento a noites sem dormir em que assistia a grandes clássicos que passavam na TV.

O modo tradicional (ultrapassado?) de se ver cinema é uma experiência que depende, sim, do local onde se vive. Se antes ver filmes solitariamente era uma opção, hoje é a única alternativa em muitos lugares.

Retornei semana passada de férias. Passei em dois extremos: Lins (SP), cidade com 73.183 habitantes, e Paris (França).

Numa das últimas vezes em que fui a Lins, havia um único cinema, anexo de um grande supermercado. Passava “A Paixão de Cristo”. Desta vez, não havia mais cinema. Meus tios me contam que não havia público, que o ingresso era muito caro. Os que gostam de cinema preferem alugar DVDs. No final das contas, é a grande crise do cinema mundo afora.

Soa saudosista falar assim, mas vale lembrar que cinema não é apenas o filme que está na tela. É o filme da vida real que já começa quando você se arruma em casa para ir à sala de projeção. É o burburinho na fila. É encontrar aqueles amigos que você não vê há tempos, oportunidade para colocar a conversa em dia. É a troca de ideias após a projeção. É o sentimento de pertencer a algo coletivo, quando se ouve as pessoas rindo ou lágrimas contidas da pessoa ao lado. É quando você, mesmo morando numa cidade grande, sente-se parte de uma vila.

Por mais que eu tenha me bodeado de ter perdido a sessão das 7 de “Vincere” no Cinesesc, no último sábado _era uma fila quilométrica, como eu não via há tempos_, não me incomodo. A vontade de fazer parte de algo coletivo é algo que compartilho com as pessoas que estavam nessa fila.

Paris é o oposto de Lins, sabemos. Em cada esquina, há uma sala de cinema. A existência de sala em uma cidade, diversidade na programação etc. é apenas uma grande metonímia. Sem preconceitos. Mas diz muito sobre a economia de uma região.

Ver filmes sozinho no computador é como viajar sozinho. É melhor do que não ir, mas depois de um tempo, a experiência fica meio vazia.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h12 PM

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Lembranças do cinema

Godard inicia “O Desprezo” com uma citação atribuída a André Bazin: “O cinema substitui nossa visão por um mundo mais em harmonia com os nossos desejos”.

Isso ajuda a entender em parte por que a apreciação de um filme é algo extremamente pessoal, subjetivo. Filmes, às vezes, dizem mais sobre nós mesmos do que sobre a história que está na tela. O que retemos, afinal, de determinado filme?

Mais do que mera homenagem ao cinema, o site Postcards to Alphaville trabalha com a relação visão pessoal/memória afetiva.

Nele, artistas gráficos produzem cartões postais baseados em determinado filme. Ou, melhor, escolhem um personagem específico que lhes marcou, e dão a sua visão pessoal/homenagem para ele.

Tenho alguns prediletos. Observe a humanidade latente no HAL 900 de “2001”. O tom moderno da Patricia de “Acossado”. O Bob Harris de “Encontros e Desencontros”, integrado à paisagem de Tóquio. A solidão de Valentina em “A Noite”.

Ver um filme é como conhecer uma pessoa. Nunca daremos conta de um total entendimento (já dizia Orson Welles em “Cidadão Kane”). Não há uma visão única. Selecionamos aspectos que nos interessam, e tomamos esses retalhos como verdades. Postcards to Alphaville nos lembra disso.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h43 PM

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Ozu e o cinema da vida

Você anda com frio nos últimos dias? Aqui, em São Paulo, poucas coisas, além do trabalho, me fazem sair de casa para enfrentar a chuva e o vento frio. Acredito que não sou o único a agir dessa forma. Costumo ir a lugares onde posso encontrar alguma espécie de calor.

Foi assim na última sexta-feira, dia 16. Eram quase oito da noite e uma turma de cerca de 50 pessoas (o número é impreciso) estava no centro da cidade, no Centro Cultural Banco do Brasil para assistir a uma palestra de Carlos Augusto Calil. Todos por espontânea vontade. O que faziam ali? Queríamos ouvir o que o professor e secretário municipal de cultura de SP tinha a dizer sobre o cineasta japonês Yasujiro Ozu, tema de uma extensa retrospectiva no local.

Calil se atrasou um pouco por causa do trânsito, sempre caótico e pior ainda quando chove. Ele também se espantou com tamanha audiência (a capacidade da sala é de 70 pessoas). Mas entendeu. Calil conhece bem o poder de atração e fidelidade exercido por Ozu.

Se escrevo este texto de uma forma ainda mais pessoal, o motivo é claro. Faço coro ao que Calil disse já no fim da palestra. Quando se sente meio atormentado, ele afirma assistir a um filme do Ozu. Há um poder até terapêutico, digamos, em produções como "Pai e Filha".

E por quê?

Esse é o grande enigma.

Ozu, na superfície, é até banal. As histórias são sempre as mesmas. Temos sempre conflitos de geração numa família. Há sempre um pai ou uma mãe querendo casar o (a) filho (a). Sempre temos o ritual do matrimônio ou da morte. A câmera é sempre baixa, com a lente 50mm, que dá uma visão, digamos "normal" das coisas, sem closes ou travellings. Praticamente não há grandes dramas. Cineastas japoneses de gerações seguintes, como Nagisa Oshima, consideram Ozu um conformista. Nas obras da maturidade, Ozu praticamente fazia remakes de seus próprios filmes.

Ozu tem um efeito mágico. Quando assisto a algum de seus filmes, é como se eu visse o próprio fluxo da vida passando diante dos meus olhos. Saio sempre mais aquecido, mas um pouco melancólico.

Esse "efeito terapêutico" causado por Ozu é algo que nenhum filme da mais alta tecnologia 3D consegue superar. Ozu reproduz a própria experiência da vida nas telas. Os personagens perdem um tempo enorme dizendo coisas banais. Não dizem frases de efeitos, não se debulham em lágrimas, não são extremos. Não somos assim a maior parte do tempo? Posso estar enganado, mas acho que gastamos mais tempo arrumando a casa, na fila do banco e falando sobre coisas triviais do que entabulando conversas profundas e intelectuais com nossos entes queridos.

Assim como a vida, os filmes de Ozu parecem lentos. Mas, quando você menos repara, lá está você, totalmente envolvido na trama banal do pai que quer achar um pretendente para a filha. E, novamente, quando você menos repara, o filme já acabou. E você pergunta, nossa, mas já acabou?

Nesses meus últimos dias de férias, aproveitei para ver vários filmes de Ozu. Fiquei particularmente tocado ao descobrir que um dos autores favoritos do cineasta, em sua fase inicial, era Tatsuo Saito, mesmo nome do meu falecido pai. E me debulhei em lágrimas ao ver, pela primeira vez, "Era uma Vez um Pai". Lindo, lindo, mas cruel. Quer dizer, não cruel, mas real. Ficou me martelando na cabeça a história do pai e filho que não conseguem morar juntos e que nunca conseguirão.

Foi aí que comecei a entender melhor a obsessão de Ozu pelos trens (em todos seus filmes há pela menos um passando). Há toda a simbologia do trem como sinônimo do progresso e modernização inevitáveis, também presentes em vários filmes ocidentais das primeiras cinco décadas do século 20. Em "Era uma Vez um Pai", o trem vai embora, implacável, sem pedir licença, para não mais voltar. Para gostar de Ozu, não é necessário ser oriental ou ter interesse especial por cultura japonesa ou ser cinéfilo. É necessário ter apenas um pouco de sangue nas veias.

*siga a programação de SP aqui e a do Rio aqui

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h20 PM

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