Ilustrada no Cinema

 

 

O sonho americano de Sam Mendes

AVISO: Este jornalista cometeu um lapso. Fiquei tão emocionado com minhas férias que esqueci de dizer aqui que retorno no dia 19 de julho. Abraços.

 
Verona (Maya Rudolph) e Burt (John Krasinski) em "Por uma Vida Melhor"

Desde que ganhou uma renca de Oscars com "Beleza Americana" (1999), Sam Mendes viu que criticar o sonho americano era um bom negócio.

Era como se o longa-metragem aliviasse certo sentimento de culpa. "Beleza Americana" é um filme-terapia.

Mendes apontava para os defeitos de caráter dessa nação que se pretende dona do mundo. Falhava, no entanto, nas soluções propostas. A saída, sugeria o personagem de Kevin Spacey, era a regressão, uma fuga para um mundo infantilizado.

Já em "Foi Apenas um Sonho" (2008), Mendes resolveu pegar pesado. Deixou de lado o aspecto cômico. Leonardo Di Caprio e Kate Winslet estão notáveis, há uma entrega total aos personagens. Lembram aqueles atores que, no teatro, falam quase cuspindo, para desespero da primeira fila.

Novamente, o sonho americano é o alvo. Mas tudo é tão excessivo, tão "over", que as coisas começam a soar inverossímeis e perdem a força. Principalmente na sequência final.

Apesar de ser uma produção mais tímida, "menor", é em "Por uma Vida Melhor" que Sam Mendes erra menos. O filme, do ano passado, chega ao Brasil direto ao DVD.

A comédia dramática conta a história de um casal nos seus 30 e poucos anos de idade, Verona (Maya Rudolph) e Burt (John Krasinski). São aqueles típicos losers que o cinema indie norte-americano já celebrizou em tantos filmes na linha de "Pequena Miss Sunshine". São gente boa, simpáticos, mas sem grandes perspectivas para o futuro.

Eles terão uma filha em breve, e decidem rodar os EUA para achar o melhor lugar para criar a criança. Ela deve ter uma infância "épica", acredita Burt. O casal vai cruzando parentes e outros casais igualmente disfuncionais apenas para chegar à conclusão de que, de perto, ninguém é normal. E de que não há modelo de sucesso e perfeição a ser copiado. Eles deverão forjar seu próprio estilo de família.

O espectador sentirá aquele inevitável dejà-vu (alguém ainda aguenta esses filmes pseudo-indies?).

No entanto, Mendes tem certa noção de que está pisando em território já gasto. Exagera nas caricaturas (como na extremista personagem neo-hippie de Maggie Gyllenhaal) e faz o casal Verona-Burt questionar a condição de losers.

É exatamente nos exageros que ele acerto o tom. O grande mérito de "Por uma Vida Melhor" são os grandes personagens que vão surgindo. É como se fosse um desfile de seres fraturados por uma guerra invisível. Como se fossem veteranos de guerra triturados pelo complexo de superioridade e pela cobrança de sucesso a todo custo ditados por certo espírito norte-americano.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h55 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Pense, McFly

O leitor deste blog já deve ter notado que um ar oitentista andou pairando sobre os últimos posts. Tento fugir do assunto, mas até nos lançamentos mais badalados o período retorna _ao menos para mim.

Fui ver bem tardiamente o “Alice no País das Maravilhas” tendo em mente os vários fãs das histórias de Lewis Carroll que reclamaram do filme.

Tim Burton criou uma trama com começo, meio e fim, como se fosse uma aventura de Harry Potter ou Senhor dos Anéis. É um espírito diferente daquele da Alice dos livros, muito mais um “filme de Tim Burton” do que outra coisa. Para mim, nada disso foi problema.

Fiquei mais intrigado, no entanto, com o vilão Stayne, que parece ter saído diretamente de uma tira de história em quadrinhos: malvado, duas-caras, cruel, assustador _os adjetivos são vários. Durante toda a projeção tentei lembrar que ator era aquele.

Crispin Glover, claro!, descobri só em casa, já no Imdb.

Você se lembra dele?

Alo-ou!! Tem alguém em casa? Hein? Pense, McFly, pense!

É ele, o inesquecível George McFly, o pai de Michael J. Fox em “De Volta para o Futuro” (1985). Revendo o filme hoje, dá para ver claramente que o personagem paspalho rouba a cena. Fui um dos vários garotos que torceram muito por ele, alvo de bully já nos anos 1950.

Mas você chegou a acompanhar a carreira de Glover nos anos seguintes? Nas continuações de “De Volta para o Futuro” até mataram o personagem, já que não foi possível um acordo sobre o salário com os produtores.

Glover se estabeleceu como um desses atores malditos de Hollywood. Uma figura que faz questão de alimentar a imagem de esquisito, excêntrico, maluco.

Quando o assunto é entrevista surreal em talk-show, Glover costuma aparecer entre os top five:

Um ponto alto nesse aspecto é a aparição curta, mas marcante, como o pirado e psicótico primo Dell em “Coração Selvagem”, de David Lynch.

Foi uma união de almas gêmeas, piada pronta. Sátiras existem aos montes:

Glover consegue imprimir uma marca pessoal até em produções mais comerciais, onde geralmente faz caras malvados. Em “As Panteras”, ele é o vilão magrelo que não abre a boca.

O ator diz seguir uma “estética do desconforto”. “What Is It” (2005), sua estreia na direção, é repleto de atores com síndrome de Down.

Claro que o culto de fãs não demorou a seguir. Tem até um selo musical, o norueguês Crispin Glover Records, que usa o ator no nome e no logotipo.

Sua atuação pode explicar um pouco o formato de “Alice”. Em uma produção Disney, com a direção autoral de Tim Burton e dois atores autorais (Glover e Johnny Depp), talvez não exista muito espaço para uma Alice convencionalmente inconvencional.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h27 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.