Ilustrada no Cinema

 

 

Impérios que contra-atacam

Na onda das comemorações dos 30 anos de “O Império Contra-Ataca”, Ivan Guerrero, “um talentoso roteirista/montador/diretor de arte em busca de um trabalho na indústria”, postou no seu canal no YouTube um “premake” do filme.

Depois dos remakes e das “prequels”, você deve estar se perguntando o que é esse novo termo. Para entender, busque o canal whoiseyevan no YouTube.

Guerrero pega filmes famosos dos anos 1980 e 1990, como “Os Caçadores da Arca Perdida”, “Forrest Gump” e “Os Caça-Fantasmas”, e imagina como eles seriam caso tivessem sido produzidos nos anos 1950.

Ou melhor, utiliza cenas de obscuros filmes antigos, dá uma bela editada e pronto: um desavisado pode acreditar que “O Império Contra-Ataca” (aquele filme já clássico e idolatrado por toda uma geração) é apenas um remake.

Veja frame por frame: 

Os “premakes” são brincadeiras que demonstram o talento de Guerrero. No entanto, ainda que indiretamente, ele nos mostra como tudo em Hollywood é reciclado, seja intencionalmente ou não (já que George Lucas e Steven Spielberg devem ter visto vários filmes B na infância que ficaram no inconsciente).

***

Não se sabe ao certo a influência dos protestos no Festival de Cannes ou dos abaixos-assinados que circulam pela internet, mas fato é que finalmente a Justiça iraniana ordenou a libertação do cineasta Jafar Panahi _que, por sua vez, havia anunciado greve de fome. O negócio é torcer para que cumpram o prometido.

Tudo é muito obscuro na maneira com que o país persa lida com a censura, as prisões e execuções.

Surpreendente é que, do outro lado, as coisas também não sejam muito claras. A diretora Torang Abedian, do filme “Not an Illusion”, acusa Bahman Gohbadi e seu “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” de plágio.

Os dois filmes contam a história de mulheres que tentam montar uma banda e tocar no exterior. Nos dois casos, a cena musical do Irã é mostrada em tom documental.

Se a questão dos direitos autorais já é complicada em países democráticos, no Irã ela praticamente não existe _ainda mais quando são obras não muito favoráveis ao regime.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h41 PM

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O culto aos "Caça-Fantasmas"

Na atual onda de remakes e reboots (é a época do prefixo “de”) em Hollywood, chega a ser reconfortante a ideia de que “Os Caça-Fantasmas 3”, se existir mesmo, deverá manter o elenco original.

Ao menos é isso que dão a entender as recentes declarações, ainda que desencontradas, do diretor Ivan Reitman e dos atores Harold Ramis, Dan Aykroyd e Bill Murray.

Um dos grandes sucessos de bilheteria da história do cinema, a franquia está parada desde 1989, se não contarmos os desenhos animados que apareceram pelo caminho.

Mas, durante esse hiato, “Os Caça-Fantasmas” foi adquirindo um status de filme idolatrado por toda uma geração, algo digno de fãs de “Star Wars”.

Exagero?

Dê uma olhada na mais recente ação do grupo nova-iorquino Improv Everywhere. Criado em 2001, eles executam aquilo que um dia já chamamos de “flashmob”. Ou seja, um grupo de pessoas executa uma ação pré-combinada em algum lugar público.

Desta vez, eles se inspiraram na sequência inicial de “Os Caça-Fantasmas”, a famosa cena de assombração na biblioteca.

É um espírito semelhante ao usado pelo diretor Michel Gondry em “Rebobine, Por Favor”, onde Jack Black e Mos Def criam uma versão caseira do filme.

Mais fanática ainda é a trupe de Hank Braxtan, diretor do longa-metragem caseiro “Return of the Ghostbusters”. Aliás, a geração dos “filmes de fãs” é sintomática dos tempos atuais, de acesso fácil a aparelhos digitais, distribuição imediata e o espírito “faça você mesmo (e seja marqueteiro) na internet”.

Por que o fascínio? É uma questão nostálgica. A série fala especialmente para pessoas na faixa dos 30 e poucos anos, como eu (foi um dos primeiros filmes que eu vi no cinema).

As gerações mais novas talvez nem saibam quem são os “Caça-Fantasmas”. Para as gerações mais velhas, é apenas mais uma bobagem cheia de efeitos especiais da Hollywood dos anos 1980.

Quando revi os dois filmes, já adulto, não senti a mesma empolgação de quando era criança. Filmes da mesma época, como “De Volta para o Futuro” ou “E.T”, no entanto, resistiram bem ao teste do tempo.

Mas, relembrando a minha lógica de criança, não havia nada tão empolgante como aquele misto de comédia e filme de ação com sujeitos repletos de apetrechos fantásticos correndo pela cidade atrás de fantasmas (no fundo, a vontade era SER um caça-fantasmas). E os fantasmas eram monstrengos suportáveis, distante daqueles dos filmes de terror que davam pesadelos à noite.

Se estou ansioso pelo novo “Os Caça-Fantasmas”? Nem um pouco. Os filmes antigos e as homenagens de fãs já bastam. Foi péssima a sensação recente de ver um novo e redundante Indiana Jones.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h10 PM

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Cinema físico

Entre as experiências que mostras de cinema (seja o Festival de Cannes, seja a Mostra Internacional de Cinema de SP) proporcionam, uma de minhas prediletas é o teste físico de assistir a vários filmes no mesmo dia, às vezes um emendado no outro.

O julgamento crítico fica um tanto afetado. Os sentidos, amortecidos, após a quarta hora sentado na sala de projeção. A trama de um filme começa a se misturar com a de outro, lá pela oitava hora. Não há tempo para “digestão”, para comentar tranquilamente a obra com o amigo, com a namorada etc., enquanto se toma café e um pouco de ar puro.

No último sábado, não cheguei a esses demonstrações exageradas de cinefilia, mas, na tentativa de tirar o atraso e ver alguns filmes importantes em cartaz, praticamente emendei sessões de duas obras que são extremos opostos: “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” e “Homem de Ferro 2”.

Ao menos para mim, a experiência de embotar os sentidos trouxe uma percepção ampliada do que essas duas obras representam. Não me entenda mal _não estou insinuando que os dois filmes, no final das contas, são parecidos. Foi muito mais uma experiência, como disse, física.

Fiquei hipnotizado com “Viajo Porque Preciso...”; há tempos não via filme tão radical. Não é apenas a mistura de ficção e documentário ou o fato de uma narração dar todo um novo sentido às imagens.
Em nenhum momento o protagonista aparece. Ele é apenas uma voz solitária que caminha pelas estradas. Opção acertadíssima, logo se percebe. 

Ele sofreu uma decepção amorosa, e viaja porque quer esquecer. Mas, quanto mais tenta esquecer, mais ele se lembra. Ele é como um fantasma, ele é todo divagações _menos corpo e mais imaginação. Não se trata, portanto, de uma experimento como “A Dama do Lago” (1947, de Robert Montgomery), rodado em câmera subjetiva.

“Viajo Porque Preciso....” é daqueles filmes tristes, tristes, mas não deixa uma sensação ruim após a projeção. Senti-me leve e otimista ao sair da sala.

O protagonista de “Homem de Ferro 2” também tem no corpo uma questão central.

Tony Stark é o milionário que se torna super-herói graças a uma poderosa armadura. A horas tantas, diz que ele e a armadura são uma coisa só. Não está errado.

Apenas mostrar o Homem de Ferro não basta _seria o equivalente a ter uma Ferrari como protagonista. Teríamos, assim, mais um “Transformers” e aqueles personagens difíceis de gerar empatia.

Volta e meia, o Homem de Ferro abre a lataria para mostrar o rosto do ator principal, Robert Downey Jr. Aí, sim, vemos um corpo, que é a alma do personagem.

Mas apesar de toda a pirotecnia e da produção milionária, “Homem de Ferro 2” causou-me um amortecimento dos sentidos e uma apatia que nem o ritmo lentíssimo de “Viajo Porque Preciso...” conseguiu.

E não acho que seja porque vi “Homem de Ferro” na última sessão do dia. Mas, sim, porque “Homem de Ferro” é como andar a mais de 200km por hora, num carro de Fórmula 1, e “Viajo Porque Preciso....” é como ir sem pressa numa viagem à praia com amigos queridos, enquanto se observa a paisagem.

****

Godard acabou dando bolo e não apareceu em Cannes para apresentar "Film Socialisme".

As passagens do cineasta pelo festival nunca são completamente tranquilas, como mostram esses vídeos de 1968 e 1988:

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h30 PM

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David Lynch, o homem-sonho

No ar há quase um ano, a série de documentários “Interview Project”, de David Lynch, ganhou recentemente o Webby Awards da categoria.

Ainda que não sejam dirigidos por Lynch, os curtas têm seu toque subliminar. Vem aquela sensação de que há algo muito estranho escondido sob as coisas mais banais. São retratos de pessoas desconhecidas da América profunda. É um cruzamento de “História Real” com Eduardo Coutinho.

Lynch fez campanha pesada pelo Twitter. Ele é um dos principais cineastas a usar a internet como extensão de possibilidades artísticas. Em 2002, já mostrava as séries “Rabbits” e “Dumbland”.

É um meio de expressão mais imediato, que supre a carência dos fãs por novos filmes seus_ cada dia mais raros.

Esse David Lynch dos dias atuais contrasta com o David Lynch de 1983. Um recente vídeo postado pela atriz Sean Young em seu canal no YouTube nos relembra que Lynch, naquela época, era “o” cara em Hollywood, após ter dirigido dois filmes (“Eraserhead” e “O Homem-Elefante”).

Sean mostra um vídeo com imagens captadas em Super-8. Era a primavera de 1983, na Cidade do México, e Lynch tinha um orçamento e expectativas gigantes para “Duna”. No final das contas, o filme, que deveria ser um sucesso, é mais lembrado como o único fracasso artístico na carreira de Lynch (ele não teve direito ao corte final).

Mas nas imagens captadas por Sean, tudo é festa. Vemos a equipe feliz, sorridente e otimista. Ela nos conta que todos o “amavam e fariam tudo por ele”.

“Veludo Azul” (1986) foi a produção seguinte, que salvou a pele de Lynch. Mas foi com a série televisiva “Twin Peaks” (1990-1991) que o diretor finalmente alcançou o grande público.

Se, hoje, as expectativas para o final de “Lost” são imensas, é necessário reconhecer que “Twin Peaks” pavimentou o caminho para esquisitices na linguagem da TV.

A lembrança do impacto da série voltou recentemente à minha mente quando achei no YouTube esses comerciais feitos por Lynch para uma marca japonesa de café. É coisa de louco. Lynch se entrega totalmente à lógica do mercado, mas ainda assim, parece estar tirando um sarro de todos.

E, outra proeza, encaixa a necessidade básica de vender um produto ao universo policial e sobrenatural de “Twin Peaks”. Há até uma visita ao quarto vermelho.

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h18 PM

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O conforto de "Inferno"

"Inferno" é reconfortante.

Não é necessário ser especialista. Vamos supor que você seja um conhecedor médio do cinema dito de arte. O que lhe vem à mente quando o assunto é cinema francês?

Provavelmente você puxará pela memória os filmes recentes a que assistiu e pensará em nomes como Juliette Binoche e Louis Garrel. Mas a nouvelle vague de Godard e Truffaut, com certeza, surgirá em algum momento.

O que faz com que eles continuem marcantes e outros, antes gigantes, tenham sumido do inconsciente coletivo cinéfilo? Esse não é exatamente o tema de “O Inferno de Henri-Georges Clouzot”, mas a questão da memória é central no documentário.
Nos anos 1960, Henri-Georges Clouzot (1907-1977) era um dos monstros sagrados do cinema francês. Exatamente o tipo de artista que a jovem geração da nouvelle vague adorava atacar. “O Inferno”, com toda a pompa, alto orçamento e pretensões, seria a obra-prima de Clouzot, um filme que buscava mudar a história do cinema e calar a boca desses detratores.

“Inferno”, no entanto, nunca chegou a ser finalizado. A trama era relativamente simples. Conta a história do ciúme doentio que o personagem de Serge Reggiani começa a sentir pela mulher, Romy Schneider.

A realização, por outro lado, era das mais complicadas. Para mostrar o ciúme crescente de Reggiani, Clouzot criou imagens de delírio, para reproduzir o estado de deformação mental do personagem. Eram experiências com a arte cinética. Teve liberdade total para gastar e experimentar.

Mas Clouzot entrou numa espiral de loucura. Era tirano com a equipe. Nunca estava satisfeito com os resultados. Por fim, Reggiani simplesmente não apareceu mais para as filmagens, antes de Clouzot ter um ataque cardíaco.
Essa imagens ficaram arquivadas durante anos. Os diretores do documentário “Inferno”, Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, encontraram os rolos, mas sem som, e levam a público extratos de uma obra que nunca existiu. Os experimentos de Clouzot impressionam pela beleza estética.

Mas ele era realmente um gênio, como o tom laudatório do documentário insiste em ressaltar? Pensar nos nomes que são citados durante o documentário ajudam a entender a real posição de Clouzot na história, além do funcionamento da indústria cinematográfica.

O diretor, assim como vários de sua geração, ficou impressionado com “8 e 1/2”, de Fellini. Queria fazer o seu próprio “8 e 1/2”. Mas conseguiu, no máximo, incorporar na vida real, por trás dos bastidores e longe dos olhos do público, o drama de um diretor que fica perdido e sem rumo, afogado no próprio ego.

O desprezo com que trata a nouvelle vague parece ser muito mais reflexo de uma insegurança. Sabia que seu tempo estava passando, que os novos vinham com algo mais consistente do que uma moda passageira. Quando questionado sobre a importância da improvisação durante as filmagens, dizia que improvisava no papel.

Há atores que reencenam, hoje, trechos do roteiro, dando sentido e vida a um filme que nunca foi visto. “O Inferno de Henri-Georges Clouzot” é sedutor e reconfortante porque cria a possibilidade de uma segunda chance. É como se os incontáveis filmes e livros que nunca saíram da mente de seus escritores, e portanto nunca existiram, finalmente criassem forma, encontrando e fascinando seu público.

Tivesse sido finalizado, "Inferno" poderia ser apenas um grande de um abacaxi. Mas, do jeito que é revisto pelo documentário, torna-se uma obra-prima.

É a ação, e não a intenção, o que realmente conta na vida? Em “O Inferno de Henri-Georges Clouzot”, basta a intenção.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h16 PM

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Medo de cinema

Cinema pode ser uma arma política poderosa, e nomes como os russos Dziga Vertov e Serguei Eisenstein já sabiam bem como a montagem podia manipular e induzir sentidos.

Ao mesmo tempo em que adoram o cinema, as ditaduras e a censura também morrem de medo dele. Sabem bem que se trata de uma faca de dois gumes.

No Irã, por exemplo, o diretor Jafar Panahi (de “O Balão Branco” e “Fora do Jogo”, entre outros) está preso desde o dia 1º de março. Nos últimos dez anos seus filmes foram banidos dos cinemas do país. Desde os últimos quatro anos, ele não pode mais trabalhar. Em outubro passado, seu passaporte foi confiscado e ele foi proibido de deixar o país.

Hoje, uma carta assinada por 20 nomes centrais do cinema mundial pediram a libertação de Panahi.

São eles: Paul Thomas Anderson, Joel & Ethan Coen, Francis Ford Coppola, Jonathan Demme, Robert De Niro, Curtis Hanson, Jim Jarmusch, Ang Lee, Richard Linklater, Terrence Malick, Michael Moore, Robert Redford, Martin Scorsese, James Schamus, Paul Schrader, Steven Soderbergh, Steven Spielberg, Oliver Stone e Frederick Wiseman.

*****

Caso surreal também é o da Coreia do Norte, um dos países mais fechados do mundo.

Veja “The Vice Guide to North Korea”, a série de 14 vídeos que a revista “Vice”, em seu braço de televisão pela internet, produziu sobre o país há alguns anos (vou colocar apenas a primeira parte; dá para encontrar fácil digitando north korea vice no Youtube.

Lá, apenas uma figura engloba as funções de galã, diretor, roteirista, montador etc.: o “querido líder” Kim Jong-il. Sabe-se pouca coisa sobre o país. Entre elas, que o ditador é obcecado por cinema e que seu filme favorito é “...E o Vento Levou”. Ele mesmo se auto-denomina “gênio do cinema”, em livro que escreveu nos anos 70 sobre o assunto.

Não há como saber quantos filmes o país produz por ano. O Imdb indica apenas 45 filmes (ever, ou seja, na história) em que a Coreia do Norte aparece como produtor ou co-produtor. A Coreia do Sul, por outro lado, aparece com 4.574 títulos.

E é por meio do cinema que o embaixador brasileiro no país, Arnaldo Carrilho, tentará buscar afinidades. Carrilho também é cinéfilo e, em entrevistas, já disse que pretende mostrar ao líder filmes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hirszman. Segundo o jornalista Sério Rangel, Carrilho tentará, ainda, incluir produções brasileiras recentes, como “Dois Filhos de Francisco” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” na próxima edição do Festival de Pyongyang, entre setembro e outubro.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h28 PM

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