Ilustrada no Cinema

 

 

A dificuldade de ser jovem no cinema

Beatriz Lefèvre/Divulgação

Cena de "As Melhores Coisas do Mundo"

No Brasil, o público adolescente não tem muito interesse em se ver retratado nas telas de cinema. Ao menos essa é uma das conclusões que podemos tirar do desempenho tímido de “Os Famosos e os Duendes da Morte” e “As Melhores Coisas do Mundo” nas bilheterias.

Em São Paulo, o filme de Esmir Filho é exibido apenas em duas sessões, três semanas após a estreia. Já o longa de Laís Bodanzky, em cartaz há pouco mais de uma semana, tem um circuito exibidor maior, mas não está entre as cinco maiores bilheterias do fim de semana.

Agora, no entanto, não podemos usar o velho argumento de que não há bons filmes sobre jovens feitos no Brasil. O primeiro semestre ainda nem acabou, mas dá para incluir tranquilamente as duas obras entre as mais interessantes do ano. O negócio é torcer para que os grandes estúdios, como a Warner, não desistam de produções como essas.

Há quem defenda a tese de que o espectador gosta de sonhar com outro mundo quando vai ao cinema. Em outras palavras, a massa preferiria ver um mundo idealizado, seja por meio do riso (a comédia destrambelhada), seja por meio da adrenalina (filmes de ação, terror) ou seja por meio do glamour (o filme com o galã/a musa do momento), que serviriam como válvula de escape.

“Para que me ver refletido na tela se já estou cansado da minha própria vida?”, seria o mantra desse público.

Seguindo esse raciocínio, “Os Duendes...” e “As Melhores Coisas...” são quase como documentários. O primeiro é um filme feito por um jovem com uma visão de jovem destinado a jovens _os jovens sonhadores, com a mente embaralhada entre o real e o imaginário. O segundo é um filme de adultos destinado a jovens, que fala a linguagem dos jovens, mas com uma visão nostálgica e paternalista da juventude ("As Melhores Coisas..." é o "Chega de Saudade" com adolescentes no lugar dos idosos).

Deixando de lado questões de mercado, os dois filmes já cumpriram bem uma das “funções” mais nobres do cinema, que é o registro _e a análise_ de uma época, uma geração _ou várias gerações, como a mais introspectiva, de “Os Duendes...”, e a mais extrovertida, de “As Melhores Coisas...”.

***

O curta “Space Monkey” é tanto o novo trabalho da ONG internacional World Wide Fund for Nature, que visa a conservação da natureza, quanto o videoclipe para a música “Song for the Divine Mother of the Universe”, do músico australiano Ben Lee.

O filme mostra o retorno à Terra, após 65 anos, de um macaco que foi enviado ao espaço. Preste atenção. Os ecos de “2001 -Uma Odisséia no Espaço” e “Planeta dos Macacos” soam fortes _aliás, Tim Burton bem que poderia retomar a série, não?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h01 PM

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O corajoso cinema iraniano

Já escrevi sobre o filme iraniano “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” aqui no blog. Passou na Mostra de SP no ano passado e estreou nos EUA na semana passada. O filme causa furor por onde passa, já que mostra a repressão no Irã de uma forma sincera e pop, a partir do ponto de vista de músicos locais alternativos.

Por aqui no Brasil não há ainda nenhuma previsão de lançamento. Qual a solução? Se levarmos em conta o que o diretor Bahman Ghobadi diz, pode-se baixar o filme na internet sem nenhum complexo de culpa (ao menos no Irã):

“Olá, meu querido povo iraniano. Aqui é Bahman Ghobadi, diretor deste filme, ‘Ninguém Sabe dos Gatos Persas’. Estou muito orgulhoso de que você possa assistir ao meu filme sem pagar nada (...) No Irã nossos filmes são proibidos de serem exibidos nos cinemas. Então assista! E peço duas coisas: primeiro, assista em grandes monitores com boa qualidade de som; segundo: se você conhece alguém que, como os jovens do filme, trabalha com música underground, ajude-o(a). Essas pessoas trabalham numa situação difícil no Irã, sem nenhuma ajuda do governo ou outras organizações. O futuro do Irã está na mão desses jovens e de outros artistas”.

Você se lembra de outro diretor de destaque que tenha incentivado os internautas a baixar um filme de sua própria autoria?

É atitude condizente com o espírito do filme, que tenta quebrar as barreiras de uma ditadura _que, por sinal, mantém preso desde março outro grande cineasta, Jafar Panahi.

No Brasil, país onde o presidente mantém uma relação de apoio a Mahmoud Ahmadinejad, assistir a “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” se faz ainda mais necessário.

COMENTÁRIO DOS LEITORES:

Rodrigo de Oliveira, Rio de Janeiro
Por razões políticas completamente diversas, mas ainda assim imperativas, o Guilherme de Almeida Prado disponibilizou, ele mesmo, seu "Onde Andará Dulce Veiga?" na internet, via uma comunidade de downloads de filmes brasileiros no Orkut.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h50 PM

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O astro vulcão

Atualmente, ele é o grande assunto nas editorias de internacional. A erupção do vulcão na Islândia causou uma pane aérea na Europa, fechando aeroportos de cinco países e restringindo o voo em outros 20.

Parece coisa de cinema _e também é. Quer dizer, vulcões, mais precisamente vulcões em erupção, mexem com a imaginação do público. Essa estrutura geológica é a própria representação da natureza impiedosa, explodindo sem freios, indiferente à manipulação humana.

É um material fascinante para roteiristas e diretores em busca de imagens de forte impacto. Mas cenas com um vulcão em erupção obviamente nem sempre garantem bons filmes. Tente lembrar de que maneira eles são usados nas tramas. Há o clichê do vulcão entrando em erupção lá pelo final do filme, gerando um último susto antes do desfecho.

Outro uso bem comum nas tramas é o vulcão como metáfora de sentimentos represados dos personagens principais prestes a explodir (ou então, uma situação tensa, insustentável). O vulcão é o elemento primitivo, o fim de tudo. Ou o começo de tudo: a explosão de lava surge como uma espécie de ejaculação gigantesca.

Não são poucas as tramas que mostram vulcões como elementos divinos adorados por uma tribo/civilização específica, que fazem rituais em sua homenagem, para mante-lo “calmo”.

Veja, a seguir, trechos de alguns filmes como “Joe contra o Vulcão”, “O Senhor dos Anéis -O Retorno do Rei”, “Fantasia”, “O Inferno de Dante”, “Volcano” e “Com 007 só se Vive Duas Vezes”. Será que teremos uma nova safra de filmes com vulcões aí pela frente?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h02 PM

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Andy Warhol e o imaginário do cinema


Edie Sedgwick em um dos "Screen Test"

“Você viu ‘The Doors’? Então, é aquele cara de peruca branca que aparece, sabe? Aquele que é o David Bowie quem interpreta.”* Esse era um visitante da exposição “Andy Warhol, Mr. America”, em cartaz na Estação Pinacoteca, em SP, tentando explicar à parceira quem era o tal do artista, no domingo passado.

No outro andar, uma senhora e o acompanhante veem um dos “Screen Tests”. “Ai, esse aí é o..... aquele...., sabe? Aquele cara do ‘Sem Destino’, como é mesmo o nome dele?”

Tão interessante quanto observar a excelente retrospectiva do artista plástico, a mais completa já feita por aqui, é separar um tempo para analisar a reação dos visitantes. A exposição é daquelas tipo blockbuster. Filas enormes na entrada e disputa de espaço dentro do museu para conseguir ver as obras.

Levando em conta que se trata de Warhol, fica ainda mais interessante o fato de a exposição reunir aquele tipo de público raramente interessando em artes plásticas.

Há sempre algo aqui ou ali, um item do cotidiano mais banal, nas obras, que é familiar ao visitante. Warhol dizia que era fascinante saber que a Coca Cola é consumida tanto pelo presidente quanto pelo mendigo; que nenhuma riqueza faria uma Coca Cola ser melhor do que a outra.

Não é apenas a questão pop, o blablablá de culto à celebridade que torna Warhol um dos grandes de todos os tempos.

Tome, por exemplo, as seguintes declarações _textos que estão nas paredes expositivas_ do artista para entender a observação atenta que ele fez da nossa sociedade:

“São os filmes que têm realmente feito as coisas andarem na América, desde que eles foram inventados. Eles te mostram o que fazer, como fazer, quando fazer, como se sentir. É fantástico quando eles te mostram como beijar como James Dean ou se parecer com Jane Fonda ou vencer como Rocky”;

“Se você ver uma pessoa que lembra a sua fantasia adolescente andando na rua, ela muito provavelmente não é sua fantasia adolescente, mas sim alguém que tinha a mesma fantasia que você, e decidiu, em vez de sê-la, parecer-se com ela. Ele então foi à uma loja e comprou o visual que vocês dois gostavam. Então pode esquecer. É só pensar em todos os James Dean e no que isso significa”.

A seguir, trechos de alguns dos vídeos que estão presentes na exposição:

*ATENÇÃO

Quem interpreta Andy Warhol em "The Doors" é o ator Crispin Glover (o pai de "De Volta para o Futuro"). David Bowie faz Andy Warhol em "Basquiat" (1996, de Julian Schnabel)

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h18 PM

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Jean-Paul Belmondo, 77

Só para a data não passar em branco: Jean-Paul Belmondo completa hoje 77 anos.

O homem que melhor representou o espírito libertário e “das ruas” da nouvelle vague (em “Acossado”, 1960) e encarnou como ninguém o protótipo do homem feio bonito, também já passou por aqui.

Em “O Homem do Rio” (1964), Belmondo corre por um fascinante cenário de uma Brasília ainda em construção. Aventuras mirabolantes e ações escusas não estão muito distante da realidade local de hoje.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h43 PM

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Por um cinema jovem


Cena de "Os Famosos e os Duendes da Morte"

O público jovem/adolescente foi essencial para a guinada que o cinema teve nos anos 1970. Filmes como “Tubarão” (1975) e “Star Wars” (1977) formataram aquele que é o padrão até hoje. A obra que está sendo projetada na tela é apenas parte de um esquema maior, de uma indústria. Gostou do filme? Então compre os derivados _o bonequinho, o brinquedo, o caderno etc._, e vá não apenas uma, mas duas, três vezes ao cinema, para rever o filme. E assim nasceu o blockbuster. Se foi bom negócio ou não, a história é outra.

Aqui no Brasil, a lógica funcionou de forma parecida, mas obviamente em outra escala e em outro contexto _pornochanchadas, Trapalhões e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” foram os nossos blockbusters.

A visão de produtos/franquias para jovens guiou, por exemplo, o cinema com os nomes centrais da jovem guarda, nos anos 60. Mais tarde, filmes como “Menino do Rio” (1982), de Antônio Calmon, já estavam em sintonia com o boom do rock brasileiro, como bem notou o jornalista Ricardo Alexandre no livro “Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos Anos 80”. Eram os tempos do primeiro Rock in Rio, de “Bete Balanço” (1984), enfim, um momento em que a juventude teve voz _e se mostrou um voraz público consumidor.

Com belas exceções aqui e ali (Glauber e Sganzerla começaram bem novos), no entanto, um cinema jovem e levado adiante por jovens, não chegou a se consolidar por aqui _e não me refiro apenas a filmes que retratam adolescentes, mas sim obras vibrantes, com um olhar não viciado, disposto a errar, disposto a ousadias.

Por isso, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, deve ser visto com toda a atenção. É até covardia que tenha estreado no mesmo final de semana que “Chico Xavier” _fui ver “Os Famosos...” na sessão da meia-noite do último sábado no Reserva Cultural e tinha meia dúzia de gatos pingados por ali.

Esmir nos mostra uma parte do Brasil que o Brasil raramente vê nas telas. É uma história que acontece no Sul do país, mas poderia ser num vilarejo da Suécia, Dinamarca, Alemanha. Por que tão poucos retratos dessa parcela de realidade? Talvez justamente porque não é uma história com elementos “locais” que os estrangeiros esperam do Brasil. Produtores e roteiristas parecem pensar “pra que vender geladeira pra um esquimó?”.

“Os Famosos...” mostra com precisão uma parcela específica da juventude brasileira. Mesmo isolados geograficamente, os personagens conhecem o que acontece ao redor do mundo. Para nós, isso é mais visível na música pop. Me lembrei na hora dos rapazes da banda Vanguart, de Cuiabá (MT). Ou da Mallu Magalhães, aqui de SP. Um pessoal novo, mas com influências fortes de Bob Dylan, com conhecimento já enciclopédico de música popular.

No dia seguinte à sessão do filme, fui ao parque Ibirapuera, no MAM, ver o último dia da exposição sobre o Gordon Matta-Clark. Estava chovendo forte, e uma multidão de adolescentes entediados estava espremida embaixo da marquise. Numa rodinha, uma garota coloca no chão seu celular para mostrar um vídeo _de algo comprometedor ou engraçado sobre alguém, a julgar pelo interesse de todas elas. É uma realidade que “Os Famosos e os Duendes da Morte” soube captar tão exemplarmente.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h03 PM

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Mistérios do cinema sul-coreano


Cena de "Sede de Sangue"

O cinema é sempre reflexo de seu povo? Tomemos como exemplo o Brasil. Se um estrangeiro tentar conhecer nossa cultura pelo cinema, o que ele irá concluir? Provavelmente que aqui todos são pobres ou corruptos/malandros, com enormes injustiças sociais e violência constante; um país quase em guerra civil, portanto.

Errado, mas não muito, certo?

Tudo isso para dizer que, das grandes cinematografias da atualidade, a da Coreia do Sul é uma das que mais fascina e desconcerta.

Experimente, por exemplo, assistir a “Sede de Sangue”, de Park Chan-wook, que estreia no Brasil neste final de semana.

O filme provoca nós em cima de nós. A trama diz respeito a um padre católico que resolve se voluntariar para o desenvolvimento de uma vacina para um vírus mortal. O experimento dá errado, ele se contamina e morre. O padre acaba ressuscitando quando recebe uma transfusão de sangue.

Mais tarde, descobriremos que ele renasceu graças ao sangue de vampiro. E o que fará para continuar “vivo” sem pecar? Vampiros, aprendemos com o cinema, precisam do sangue alheio para se alimentar, e geralmente são criaturas que exalam sexualidade _quer dizer, desde que não se trate da saga “Crepúsculo”.

Particularmente, não sou muito fã das produções de Park Chan-wook. Filmes como “Oldboy”, por exemplo, seu grande hit, exalam um virtuosismo estilístico que me soa meio vazio, quase publicitário. O tom sádico, no entanto, é o que mais incomoda. Afinal, a exibição de tantas perversidades humanas é crítica ou cúmplice da violência?

Ao lado de Bong Joon-ho e Kim Ki-duk, Park Chan-wook forma uma espécie de santíssima trindade do cinema sul-coreano _ao menos no Brasil, já que seus filmes costumam estrear por aqui.

Ainda que seguindo linhas distintas, os três traçam um painel da sociedade sul-coreana de difícil assimilação para nós, brasileiros.

Meu predileto é Bong Joon-ho, de “O Hospedeiro”. Apesar de seu recente “Mother - A Busca pela Verdade” ter levado o prêmio de melhor filme no Asian Film Awards, o filme ficou pouco tempo em cartaz em São Paulo.

Assim como “Sede de Sangue”, “Mother” e “O Hospedeiro” promovem releituras de gêneros e figuras clássicas do cinema ocidental. É o filme de vampiro, o filme de monstro ou o suspense hitchcockiano revistos sob uma ótica nova, acrescida de tons locais.

A Coreia do Sul se livrou de uma ditadura nos anos 80. Nos anos 1960, tinha taxa de analfabetismo típica de países subdesenvolvidos, como o Brasil, beirando os 35%. Com investimentos e políticas de longo prazo, reverteram o quadro e praticamente erradicaram o analfabetismo, deixando o Brasil bem para trás.

Mas o que podemos concluir do povo sul-coreano, usando como base os filmes? A julgar por esses três diretores, há por ali um desconcertante estado de humor e de existir no mundo ainda impenetrável para nós _algo fascinante, mostrando que a globalização e o Ocidente não padronizaram por completo certa parte do mundo capitalista.

Muito vago? Veja "Incoherence", curta-metragem do começo de carreira de Bong Joon-ho: 

e o epílogo

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h54 PM

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