Ilustrada no Cinema

 

 

Herzog, o saco plástico existencialista

Nas salas de cinema, a reação é imediata. Antes dos trailers, o vídeo da campanha Saco É um Saco, do Ministério do Meio Ambiente, causa gargalhadas no público.

“Beleza Americana” (Sam Mendes, 1999) vem à mente na hora, mais especificamente o “vídeo do saco”. É aquele momento “poético” em que Ricky (Wes Bentley) descreve seus sentimentos ao ver um saco plástico voando ao vento:

A risada na sala de cinema é um pouco nervosa. Principalmente para habitantes de cidades brasileiras que ficam completamente caóticas em dias de chuva. Há inúmeras questões (de ordem política) que fazem bairros inteiros ficarem inundados, que fazem cidadãos perderem suas casas. Nesse contexto, saco plástico é algo menor, mas, com certeza, o seu descarte nas ruas é um dos elementos que contribuem para esse cenário surreal/expressionista.

O diretor alemão Werner Herzog tem muito a dizer sobre o tema. Ele faz a voz do saco plástico existencialista do curta-metragem “Plastic Bag”, de Ramin Bahrani (de “Goodbye Solo”).

De início, o curta tem um lado cômico e poético, mas logo a questão ambiental se impõe, mesmo que quase subliminarmente. Não é um filme claramente de denúncia.

Herzog é conhecido por filmes de protagonistas obstinados com uma causa, uma questão, todos à beira de uma certa demência. Ainda que em “Plastic Bag” ele seja apenas o narrador, o personagem carrega um pouco dessas características _sacos plásticos não são biodegradáveis e podem levar até cem anos para se decompor.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h25 PM

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A atualidade de "Hunger"

Alguns leitores deste blog, principalmente aqueles que defendem um cinema mais voltado ao espetáculo/entretenimento, costumam questionar: qual é o problema em se alienar dos problemas do mundo durante uma hora e meia?

Realmente, não há problema nenhum. Um cinema mais “cabeça”, intelectualizado, não é necessariamente melhor do que a mais recente produção de Steven Spielberg sobre alienígenas, por exemplo.

Mas, às vezes, há questões do dia a dia que não deveriam passar em branco, mesmo numa sala de cinema/refúgio. Filmes como “Hunger” (fome), de Steve McQueen (não é “The Hunger”, de Tony Scott), são um eco, uma reflexão sobre as questões sociopolíticas/ econômicas do mundo.

Destaque da excelente mostra Zona Livre no Cinesesc _“um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na Internet”_ “Hunger” é necessário para pensarmos nas recentes declarações do presidente Lula sobre os presos políticos em Cuba.

“Hunger” conta a história real da greve de fome feita em 1981 por presos políticos irlandeses envolvidos com os atentados do IRA. A então primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher, negava status diferenciado para tais presos.

Durante cinco anos, os prisioneiros protestaram de dentro das celas. Recusavam-se a vestir o uniforme de presos comuns _ficavam nus, usando apenas um cobertor. Fizeram um protesto de sujeira: não tomavam banho, jogavam urina por baixo dos portões das celas e cobriam as paredes com os próprios excrementos.

O passo seguinte foi a radicalização. Partiram para a greve de fome. O filme destaca Bobby Sands, o primeiro de uma série de dez prisioneiros que levaram o protesto às últimas consequências e morreram.

Claro, há várias diferenças de contexto entre o que é mostrado em “Hunger” e o episódio recente brasileiro. Terroristas não são santos.

Na fala reproduzida pelo filme, Thatcher diz:

“Não existe assassinato político, bombardeio político ou violência política. Há apenas assassinato criminoso, bombardeio criminoso e violência criminosa. Não haverá acordo. Não haverá status político”.

Mas, durante a projeção, não consegui me refugiar da realidade e parar de pensar na atual frase do presidente: “Acredito que a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem a liberdade”.

Questões partidárias à parte, não faz mal pensar na questão, dentro ou fora da sala de cinema.

“Hunger” é de 2008, levou o prêmio Caméra d’Or em Cannes, mas não estreou no Brasil. Nunca é tarde para os distribuidores repararem o erro.

O filme não terá mais exibições no festival; vale a pena, no entanto, conferir a programação restante:


DIA 23, TERÇA-FEIRA
14h - “Trash Humpers” (EUA, 2009), de Harmony Korine; classificação 18 anos

17h - “Daytime Drinking” (Coreia do Sul, 2008), de Noh Young-seok; classificação 14 anos

DIA 24, QUARTA-FEIRA
14h - “All About Lily Chou Chou” (Japão, 2001), de Shunji Iwai; classificação 16 anos

17h - “American Astronaut” (EUA, 2001), de Cory McAbee; classificação 10 anos

DIA 25, QUINTA-FEIRA
14h - “American Astronaut” (EUA, 2001), de Cory McAbee; classificação 10 anos

17h - “Stingray Sam” (EUA, 2009), de Cory McAbee; classificação 10 anos


MOSTRA ZONA LIVRE
Quando: de 19 a 26 de março de 2010
Onde: Cinesesc (r. Augusta, 2.075, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/3087-0500; e-mail: email@cinesesc.sescsp.org.br
Quanto: de R$ 2 a R$ 8

CORREÇÃO/RECADO DOS ORGANIZADORES:

Alisson Avila, SP
Olá Bruno, "Hunger" é parte de uma mostra concebida em 2009 no CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre (CEN). A "Mostra Zona Livre" foi um dos programas internacionais do festival. Por conta da repercussão da proposta, virou "Zona Livre - Mostra Internacional de Cinema", aumentou de tamanho e o festival de POA a levou para op CCBB do Rio em fevereiro e agora em versão menor no CineSESC, em março. www.cineesquemanovo.org, www.zonalivreinternacional.com

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h11 PM

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A vida pop (e triste) de Spike Jonze

Vocês já viram o novo filme de Spike Jonze? "I'm Here" é um curta-metragem de 30 minutos, feito sob encomenda para uma marca de vodca. Conta a história de amor de dois robôs que vivem em Los Angeles.

A maneira oficial de assistir é pelo simpático site oficial , que simula uma sala de cinema; se ela estiver lotada, você precisa esperar a próxima sessão.

Mas, se você não tiver tempo/paciência para entrar no clima da experiência, já caiu no You Tube:

 

 

 Muita gente torceu o nariz para seu filme anterior, "Onde Vivem os Monstros". Aliás, assim como ocorre com seus parceiros criativos Michel Gondry e Charlie Kaufman, Jonze costuma se situar entre dois extremos.

Há aqueles que os consideram gênios, com os trabalhos mais radicais e inovadores da atualidade. Outros, vêem apenas um cinema novidadeiro, para impressionar aquele público modernoso, sem muitas referências.

Na minha opinião, eles estão num meio-termo. Jonze, Gondry e Kaufman são de uma geração para quem cinema é apenas mais um elemento na fórmula. Para eles, música pop, moda, esportes de rua e outras coisas que não são necessariamente "alta" cultura, devem ser levadas a sério.

Veja "I'm Here", por exemplo. Há um tom melancólico percorrendo todo o curta, assim como em "Onde Vivem os Monstros", "Adaptação" e "Quero Ser John Malkovich". Às vezes, parece merio videoclipe ou comercial, mas tem algo mais ali. Não consigo deixar de perceber um tom autoral forte, marcante, que vê com certa nostalgia e tristeza o dia-a-dia. Assim como os personagens de seus filmes anteriores, a busca pelo afeto e amor é o que guia a todos. 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 2h52 PM

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A verdade (não) está na imagem

Nenhum de nós estava lá para confirmar, mas diz a lenda que, durante a exibição de “Arrivée du Train en Gare de La Ciotat” (1895), dos irmãos Lumière, um dos primeiros filmes da história, o público presente saiu correndo achando que um trem iria atropelá-los. E não era nem em 3D.

Em compensação, todos nós estamos aqui para garantir que, durante as exibições de “Avatar”, ninguém (ao menos que eu saiba) abaixou a cabeça para um N’avi que passou voando.

Mas é inegável e até espantoso que, nesse período de tempo que abarca a história do cinema até hoje, a imagem filmada ainda causa comoção. Mesmo que a ideia do “ver para crer” volta e meia seja colocada em dúvida (afinal, desde os primórdios, a fotografia e o cinema são manipuláveis), nos comportamos ainda como aqueles antigos franceses, totalmente suscetíveis à força do que vemos numa tela, seja de cinema, seja de televisão.

Dois exemplos recentes:

No último sábado, o canal Imedi, na Georgia, transmitiu um falso noticiário mostrando que o Exército russo havia invadido o país, com combates a menos de 30 km da capital Tbilisi. Mesmo que no início um aviso informava tratar-se de ficção, vários desavisados acreditaram. O resultado foi um início de pânico na população, ainda traumatizada com o conflito ocorrido (de verdade) em 2008. As linhas telefônicas entraram em pane e filas se formaram em postos de gasolina.

O noticiário, no final das contas, usava imagens de arquivo do combate anterior, uma narração convincente etc., ou seja, era um filme, com roteiro, montagem etc.

Mesmo com uma carga enorme de anos de imagens audiovisuais, os habitantes da Georgia acabaram se comportando de forma semelhante aos norte-americanos que, em 1938, ao ouvirem pelo rádio a narração de Orson Welles para “Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, acreditaram, realmente, que a Terra estava sendo invadida por alienígenas.

Outro exemplo que me fez pensar nesse poder da imagem como sinônimo da verdade é o documentário “The Cove”, vencedor do Oscar deste ano. Como não há previsão de estreia no Brasil, tente descolar uma cópia (saiu em DVD no exterior).

Por si só o tema do filme é chocante. É uma grande denúncia à matança de golfinhos que acontece em Taiji, Japão, e uma crítica pesada ao governo do país, que faz vista grossa para o assunto. Há tempos o Japão não surge como o grande vilão, e aqui há o agravante de não se tratar de uma ficção.
Entre outras questões que o filme levanta, está a questão: o que cria uma realidade? Se não vemos algo acontecendo, é porque não acontece realmente? Algo só se configura como real quando ele pode ser visto?

Porque o que move o filme é o esforço da equipe em tentar registrar imagens da matança dos golfinhos _e pescadores, polícia e agentes da burocracia japonesa fazem de tudo para barrar a presença dos documentaristas ao local dos abates.

Apenas quando eles conseguirem filmar é que conseguirão provar ao mundo os abusos cometidos na região. Enquanto isso não ocorre, enquanto a imagem não existe, tudo é abstração. Se eles conseguem? Não vou soltar aqui um spoiler, assista.

Se merecia ganhar o Oscar, no aspecto cinematográfico, não sei (não vi os outros). Mas foi uma atitude louvável da Academia dar projeção para um tema que não pode passar em branco. Apenas no Oscar é que eles, o filme e tudo o que ele representa, conseguiram ser vistos.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h00 PM

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A homenagem de Godard a Rohmer

Os dois jovens turcos se encontram novamente. Está lá no site da Cinemateca Francesa.

Godard homenageia Eric Rohmer, e nos lembra que, antes de cineasta, Rohmer foi um pensador, um crítico.
 

Preste atenção nas frases:

A terra do milagre

Redescobrindo a América

O nascimento da música

O melhor dos mundos

Arquitetura do Apocalipse

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h10 AM

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O verdadeiro vencedor do Oscar

Não gostou do prêmio para "Guerra ao Terror"? Dê uma olhada no trailer abaixo, e veja se o filme em questão não merecia estar no lugar. Na verdade, "Academy Award Winning Movie Trailer" é apenas uma sátira aos clichês de 99% dos filmes que concorrem ao Oscar (e, várias vezes ganham). São filmes "intensos", com muita "emoção" e atuações "viscerais". O trailer é uma obra de Brian McElhaney e Nick Kocher, dois sujeitos que, em 2007, criaram o site Britanick, com vídeos humorísticos em que fazem praticamente tudo.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h04 PM

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Tim Burton, o deslocado

Kristian Dowling/Associated Press

Por Fernanda Mena
Enviada especial a Londres

Tim Burton acha que estranho mesmo é o mundo fora das telas. “Tudo está cada vez mais estranho, e não mais normal”, disse Burton, 51, à Folha em Londres, às vésperas do lançamento de seu novo filme, “Alice no País das Maravilhas”.

Inspirado na obra homônima de Lewis Carroll, um dos clássicos da literatura mundial, Burton criou uma versão da história em 3D repleta de distorções bizarras, figurinos sofisticados, cenários e personagens fantásticos. “Seus personagens foram tão explorados na cultura pop que encarei a obra como aberta a interpretações.”

O filme custou à Disney cerca de US$ 240 milhões (ou R$ 420 milhões). Estreou nos cinemas dos EUA e da Europa na última sexta-feira, e chega ao Brasil dia 23 de abril. “Alice” bateu o recorde histórico de bilheteria de estreia em final de semana para um filme que não é continuação, arrecadando cerca de US$ 210 milhões pelo mundo.

Em uma mesa-redonda com o diretor, da qual a Folha participou, Burton falou durante 15 minutos sobre o projeto “Alice”. Ao entrar na sala, agitado, sentou-se à mesa e disparou: “De quem é essa colher aqui?”, perguntou, segurando uma colher de chá deixada sobre a mesa por sua mulher, Helena Bonham Carter, que acabara de deixar a sala de entrevistas. Carter cercou-se de uma garrafa de água, uma xícara de chá e outra de café para conversar com os jornalistas. “Alguém precisava inventar uma bebida que misturasse chá, água e café. Só assim Helena não deixaria esse tipo de vestígio por aí”, brincou ele.

Passado o entreato, teve início a entrevista. Gesticulando sem parar, com seus cabelos para cima e olhos arregalados sob os óculos de lentes azuis, o diretor discorreu sobre o fascínio pelos personagens de Carroll.

PERGUNTA - O que lhe interessou na obra de Lewis Carroll?
TIM BURTON - Não foi tanto a história que me interessou, mas seus personagens. Para falar a verdade, não me lembro de ter lido “Alice no País das Maravilhas” na infância. Mesmo assim, eu conhecia os seus personagens por meio de músicas, imagens e ilustrações. Eles estão tão arraigados na nossa cultura, são tão poderosos como imagens, que não precisei ler Carroll para saber que aquilo era fascinante.

PERGUNTA - Por que personagens têm tanto impacto até hoje?

BURTON - Aí é que está a beleza desta obra. Por mais que tenham sido feitas mil análises sobre “Alice no País das Maravilhas”, a história permanece um enigma e seu poder se mantém ao longo dos anos. Entrar em contato com essa história é como quebrar o “Código Da Vinci”. Eu amo isso! Carroll fez algo que você não consegue penetrar realmente, que não fala ao raciocínio lógico, mas que dialoga com algo profundo em todos nós, algo subconsciente. Para mim, esse é o tipo de criação mais puro e fascinante que existe.

PERGUNTA - A fronteira entre sonho e realidade, muito forte em “Alice”, é o território preferencial de seus filmes. Por quê?

BURTON - Porque o mundo está ficando mais estranho, e não mais normal. No entanto, as pessoas continuam se esforçando em separar realidade de fantasia, quando essa divisão está cada vez mais embaralhada por conta da internet, da televisão etc. Para mim, fantasia sempre foi uma forma de explorar a realidade. Essa é a razão por que gostei tanto de fazer “Alice”. Nela, a vida interior, os sonhos e as imagens bizarras que uma imaginação pode produzir são, no fim das contas, reais e se transformam em ferramentas importantes para lidar com questões concretas.

PERGUNTA - Houve algum tipo de limitação nas mudanças feitas no enredo original de Carroll?

BURTON - Existem mais de 20 versões de Alice que, a meu ver, sofrem do mesmo problema: tentam ser muito literais. É por isso que nunca me conectei com nenhuma delas. Aquilo de que gostei do roteiro de Linda [Woolverton, roteirista] foi o fato de ela ter pego o universo de Alice e o ter colocado num contexto um pouquinho diferente, criando uma Alice mais velha, com 19 anos. O meu objetivo foi tentar da melhor maneira possível ser verdadeiro com o legado e o espírito dos personagens de Carroll, e não com a história em si. Segui meus instintos e minhas emoções sem medo. E, para mim, essa é a mensagem de “Alice”: continuar a ver as coisas de formas novas, diferentes e estranhas, algo saudável e artístico ao mesmo tempo.

PERGUNTA - Seus filmes sempre trazem personagens deslocados, que parecem não se encaixar no contexto em que vivem. Alice também é uma deslocada?

BURTON - Certamente! Ela não se encaixa no mundo nem na idade que tem. Está naquela fase esquisita em que não se sente confortável na própria pele. Há uma certa tristeza naquele personagem, e me identifico muito com ela nesse sentido. Acho que de tempos em tempos me sinto esquisito, desconfortável. Isso se torna mais forte em certas fases da vida. Do início da adolescência aos meus 20 e poucos anos foi um período muito complicado e difícil porque não me identificava com nada nem ninguém. É uma sensação que não abandona você nunca mais. Fica lá em algum lugar por mais que você esteja feliz e realizado. Toda vez que completo uma idade redonda, 30, 40, 50 anos, também enfrento esse desconforto por me sentir vulnerável, em transição.

PERGUNTA - Para fazer o filme, você já declarou ter se inspirado em desenhos que Arthur Rackman fez para a história de Carroll. O que há de especial neles?

BURTON - Para começar, hoje eu vivo na casa que era o antigo estúdio de Rackman. É um carma muito bizarro! Ele fez ilustrações de Alice e do Cavaleiro Sem-Cabeça, e hoje moro na casa dele! É incrível! Conheci seu trabalho ainda pequeno, quando vi algumas ilustrações que acompanhavam um conto de Edgar Allan Poe e achei que eram imagens de grande impacto. Por isso sabia de suas ilustrações para um livro de Carroll e as usei como referência.

PERGUNTA - Seu primeiro emprego foi na Disney. Como foi trabalhar novamente lá?

BURTON - Tenho uma relação engraçada com a Disney. Eles já me convidaram para projetos e depois me mostraram o caminho da porta de saída umas cinco vezes (risos). É uma relação de amor e ódio. Eles me adoram e chamam de volta, depois ficam com raiva de mim e me chutam pra fora. Eu tenho certeza de que isso vai continuar. No caso de Alice, eu disse que queria fazer esse material, sem ser muito sombrio ou fazer nada muito maluco. O material é esquisito o suficiente! É tão subversivo que, se fosse feito hoje em dia, provavelmente seria banido!

PERGUNTA - E é literatura infantil!

BURTON - Pois é! Se fosse produzido nos dias de hoje, jamais seria chamado de literatura infantil. Seria, provavelmente, proibido para crianças. E talvez para adultos também!

PERGUNTA - Você já foi visto como um cineasta underground, mas agora está fazendo um filme para a Disney. Qual é a diferença?

BURTON - Eu converso com muita gente que faz filme independente e percebo que os problemas são sempre os mesmos: você precisa da grana de alguém, seja de um estúdio ou de algum ricaço maluco, o que pode ser ainda mais complicado. A natureza do cinema é essa. Eu entendo essa natureza e aprendi a aceitá-la. Hoje consigo fazer filmes grandes ou de orçamento pequeno.

PERGUNTA - Esse é o oitavo filme que você faz com Johnny Depp. Que tipo de alquimia existe entre vocês?

BURTON - Nós nunca pensamos nisso, e talvez seja essa a mágica. Nós vivemos o presente, não pensamos no que já fizemos nem no que vamos fazer no futuro. Além disso, temos um gosto muito parecido, e isso ficou muito claro pra mim em “Edward Mãos de Tesoura”. Temos um atalho na comunicação que torna tudo mais fácil e divertido.

PERGUNTA - Como foi fazer um filme em 3D? Este é o futuro do cinema?

BURTON - Eu não sei se teria feito esse filme se não fosse 3D. A proposta me pareceu uma mistura de mídias interessante. E isso me deixou muito animado. O 3D é mais uma ferramenta. Algo que tem potencial de adicionar mais uma camada extra de sensações ao cinema. Existe a música, a cor, o movimento... e o 3D. Mas essa tecnologia não vai ser salvadora de nada nem a razão de ser do cinema. Pode acreditar que nos próximos meses será lançada uma porção de filmes 3D bem porcarias porque muita gente vai achar que basta ser 3D para ser bom. É a nova onda.

PERGUNTA - Qual será seu próximo projeto?

BURTON - Vou refilmar “Frankenweenie”, o segundo filme da minha carreira, em 3D.

Veja o trailer:

Escrito por Fernanda Mena às 10h37 PM

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E você, o que achou do Oscar?

Comentei no post anterior algumas questões sobre o Oscar 2010, antes dos resultados. E você, no final das contas, o que achou da premiação?

“Guerra ao Terror” representa a vitória dos independentes sobre os blockbusters, como tem sido dito por aí? É simbólico o fato de uma mulher ter levado o prêmio de direção pela primeira vez na história do Oscar? (ou, como dizem os leitores do blog, é machismo fazer esse tipo de questionamento?)

E o Oscar para “O Segredo dos Seus Olhos”, o segundo da Argentina? Aliás, você sabia que Grécia e Noruega tem o mesmo placar que o Brasil (quatro indicações e nenhuma vitória), e que Israel tem o placar mais “contra”, de nove indicações e nenhuma vitória?

Mas é um detalhe bem pequeno que me chama mais a atenção. “O vencedor é...” é bem mais honesto do que “E o Oscar vai para...”.

Ok, pode não ser politicamente correto. Mas, mesmo que injustamente, os vencedores é que irão carregar por anos afora o título “Vencedor do Oscar etc.”. Os perdedores serão lembrados por seus méritos, ou esquecidos por sua insignificância. Claro que muitas vezes são os insignificantes que ganham, mas daí eles continuam lembrados apenas e graças à chancela do Oscar.

Por exemplo. Deixando de lado os fãs de Stallone, qual filme é mais lembrado e cresceu com o tempo: “Rocky, um Lutador” (vencedor de 1977), ou “Táxi Driver” (concorrente derrotado)?

E, se depender da audiência da TV, vai continuar a decisão de manter dez filmes indicados, em vez de cinco _segundo dados preliminares do instituto Nielsen (média de 41,3 milhões contra 36,3 milhões do ano passado).

Quanto aos prêmios de "Guerra ao Terror", vejo como fator positivo, já que coloca em evidência máxima um tema extremamente quente, feito no calor do momento.

A seguir, trechos de comentários de leitores do blog:

Alessandro, de Jaú (SP):

Na minha opinião, o melhor filme ficou fora da disputa: "Bastardos Inglórios", de Quentin Tarantino, que é um sopro de inovação e criativade em meio a mesmice, que é Hollywood. Entre premiar a tecnologia, representada por "Avatar", e o jeito indie de fazer cinema, que é o caso de "Guerra ao Terror", os votantes da Academia escolharam o segundo, o que à primeira vista parece ser uma escolha arriscada, já que o cinema depende do público para sobreviver (...)

Fabio Ornelas, SP:

As vitórias de "Guerra ao Terror" e "O Segredo dos Seus Olhos" já eram um tanto esperadas. O que me surpreendeu de fato na noite do Oscar (de maneira negativa) foi ver "Preciosa" desbancar "Amor Sem Escalas" na categoria de melhor roteiro adaptado. Este último, um filme extremamente contemporâneo, "feito no calor do momento", e que conta com diálogos impagáveis. Já na categoria de roteiro original, considero "Bastardos Inglórios" um trabalho superior e mais criativo do que "Guerra ao Terror" (...)

Rafael Wuthrich, RJ:
(...) Hollywood vive um paradoxo: implora pelo retorno do público ao cinema, hoje tentado a assistir filmes por DVD ou baixá-los ilegalmente na internet, mas ignora este mesmo público ao preterir nas premiações blockbusters de excelente qualidade, como "Batman", no ano passado, e "Avatar" neste ano. Se levarmos em consideração a pouca receptividade de "Guerra ao Terror" junto ao público e a premiação, temos uma prova de que os espectadores do cinemão de antigamente são tratados de forma meramente comercial pela Academia, ao passo que filmes de baixo orçamento e pouco apreciados são os mais premiados. O que Cameron e sua equipe fizeram com este filme, tecnicamente falando, supera qualquer coisa que Kathryn tenha feito com "Guerra", por isso achei o Oscar injusto neste ponto (...)

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h00 PM

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Dez questões sobre o Oscar 2010

1. TERAPIA

O Oscar é a grande terapia coletiva norte-americana. Se os EUA continuam no Iraque, “Guerra ao Terror” e “Avatar” fazem belos mea culpa; “Invictus”* e “Distrito 9” reveem o Terceiro Mundo; “Bastardos Inglórios” reescreve a história; “Amor sem Escalas” é um exame de consciência da realidade capitalista; “Preciosa” e “Um Sonho Possível” são como os filmes brasileiros que exploram a miséria e “Up - Altas Aventuras” e “Um Homem Sério” retratam crises pessoais;

2. TRIO

Espremendo os dez, não saem nem cinco. Apenas três filmes merecem o ostentoso título “Melhor filme do ano” (“Avatar”, “Guerra ao Terror”, “Bastardos Inglórios”); mas vale lembrar que o “melhor filme” do Oscar nem sempre é sinônimo de qualidade, vide “Shakespeare Apaixonado”;

3. PIEGUICE

“Um Sonho Possível” corre por fora, mas quem sabe? É como se fosse um “Invictus” sem o talento de Clint Eastwood e só com as partes cafonas. O Oscar já premiou filmes didáticos/maniqueístas que parecem ignorar os últimos 60 anos de evolução das técnicas narrativas (vide o Oscar para “Crash”);

4. EXPLORAÇÃO

“Preciosa”? Spike Lee** já fez melhor, e me incomoda particularmente a representação gráfica de toda aquela miséria; soa a sensacionalismo barato, exploração da miséria alheia, e não um filme cúmplice. É como se tudo fosse meio caricato, felliniano, daí ser difícil levar a sério o aspecto “social”, de denúncia;

5. É GUERRA

Nos últimos 40 anos, três filmes sobre guerra levaram o prêmio: “Patton - Rebelde ou Herói” (1970); “O Franco Atirador” (1978) e “Platoon” (1986). “Guerra ao Terror” seria mais um novo capítulo nessa tradição?

6. ACADEMIA MACHISTA

A Academia tem um débito com as mulheres, já que nenhuma nunca levou o prêmio de direção. Kathryn Bigelow é a quarta indicada; não é possível que em mais de 80 anos de existência do prêmio não tenham aparecido mulheres merecedoras do Oscar;

7. LOBBY

Faz toda a lógica “Avatar” vencer, se levarmos em conta o quesito interesses da indústria. Em termos técnicos, nada se compara à chegada do som; mas um prêmio para “Avatar” seria a coroação do 3D, a tábua de salvação do cinema (em termos de indústria), que, vale lembrar, é uma arte nascida da tecnologia e em constante transformação;

8. NÃO É HORA

É óbvio que “Avatar” terá sequência; o próximo da saga, segundo James Cameron, vai se chamar “Na’vi” e irá abordar a vida dos habitantes de Pandora. Em 2003, o terceiro “Senhor dos Anéis” venceu. Mas era a conclusão da saga, daí tinha cara de ser um prêmio pelo conjunto da obra. Será que o Oscar de “Avatar” não chegará só quando a saga concluir?

9. TERRA BRASILEIRA

Na minha lista de melhor filme brasileiro do ano para a votação do Cinesesc, indiquei “É Proibido Fumar”. Ainda assim, não o vejo como páreo dos indicados ao prêmio de filme estrangeiro, todos de altíssimo nível. Mas, na terra da Globofilmes, é rei

10. MOFO

Goste ou não do Oscar, não há como negar que esta edição tem, ao menos, o mérito de levantar questões relevantes sobre a indústria e seu futuro; tudo bem que as mudanças foram por questões mercadológicas, mas tem menos cara de coisa mofada.

*Como bem notou o leitor Angelo Pilla, "Invictus" não é indicado a melhor filme; no entanto, resolvi manter a citação pelo fato de a obra ser relevante na discussão sobre o Oscar 2010, uma vez que concorre a ator (Morgan Freeman) e ator coadjuvante (Matt Damon)

** O leitor Marcos lembra que Spike Lee não é diretor do filme; não foi confusão minha; a intenção é dizer que, em termos de filmes que abordam questões raciais/sociais, Spike Lee já fez outros bem melhores.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h10 PM

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A China pelos Olhos do Cinema

Começa na quarta-feira (dia 10) o curso “Sombras Elétricas - A China pelos Olhos do Cinema” no Espaço Unibanco de Cinema, com o professor, pesquisador e crítico de cinema Cássio Starling Carlos.

O curso vai abarcar o período desde os anos 20 até a produção atual, analisando a estética e os temas que justificam a repercussão dos filmes chineses junto às plateias globais.

Quando: de 10 de março a 30 de junho de 2010; das 19h30 às 22h (sessão extra, 24 de abril, às 10h)
Carga horária: 49h em 16 encontros
Onde: Espaço Unibanco de Cinema Anexo (Rua Augusta, 1.470, Cerqueira César, SP)
Quanto: R$ 660,00 (4 parcelas de R$ 165; desconto 10% para inscrições até 5 de março, R$ 594
Inscrições: 0/xx/11/3266-5115; ou e-mail cursos@espacounibancosp.com.br

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h05 PM

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