Ilustrada no Cinema

 

 

A sinceridade de Kevin Smith

Jessica Rinaldi/Reuters

Kevin Smith e a mulher, Jennifer Schwalbach: "Veja as
 minhas fotos na première de 'Cop Out' e me diga:

esse cara é realmente muito gordo para voar?"

Kevin Smith resolveu trocar de lugar. E nem estou me referindo ao “Fatgate”, o episódio do começo do mês em que o cineasta teve que deixar um voo por não caber “adequadamente” em apenas uma poltrona. Em outras palavras, foi considerado gordo pela companhia aérea. Smith pôs os dedos no Twitter e logo a polêmica estava criada.

Tudo acabou servindo como boa publicidade para o diretor, que tem filme estreando nos EUA nesta sexta, “Cop Out”.

Mas preste atenção no trailer. O nome Kevin Smith praticamente não aparece _só lá no finzinho, e bem pequeno. É que este não é realmente “um filme de Kevin Smith”. Ele atua apenas como diretor de encomenda para a Warner. É mais um grande nome do cinema independente sendo adotado por um grande estúdio.

Segundo matéria publicada no “Los Angeles Times”, Smith considera o filme um “O Balconista” com policiais (Bruce Willis e Willie Morgan). Enquanto eles falam e falam sobre banalidades, saem em perseguições de carros atrás de ladrões.

O que mais chama a atenção é a extrema sinceridade do diretor na entrevista:

“Filmes como ‘Fletch’ eram um modelo para mim. Não curam o câncer cerebral, mas descem bem, como um bom milk-shake. Durante anos fiz filmes como se fossem remédios. E, finalmente, aos 15 anos de carreira, após ‘Pagando Bem, que Mal Tem?’ [seu filme anterior] ter ido mal na bilheteria, percebi que não estava chegando a lugar nenhum. Não conseguia escrever nada, acho que porque senti que não tinha mais nada para dizer. Quer dizer, você tem que escrever sobre a sua vida, mas sobre o que eu iria escrever? Que o filme de um cara gordo flopou?”.

Não sou assim obcecado por Kevin Smith, apesar de simpatizar com seus trabalhos (dentro e fora do cinema); em “O Balconista” (1994) e “Procura-se Amy” (1997) é que ele consegue realmente dizer algo significativo; a saber, uma observação mordaz sobre relacionamentos e a boçalidade sempre à espreita. Smith é uma espécie de Quentin Tarantino sem o domínio total da linguagem cinematográfica deste, com uma formação vinda do consumo exagerado de itens da "sub"cultura. E o discurso de Smith nem sempre é relevante. Seus filmes são como blogs de relato pessoal transformados em cinema. E nisso reside seu interesse. Os longas são retrato direto de sua personalidade, mas às vezes sem uma trama forte/relevante propriamente dita, que segure um filme inteiro.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h10 PM

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Curtindo a vida

                                         Variety/MPTVImages.com

John Hughes (de óculos) e o elenco de "O Clube dos Cinco"

Apesar de ser filme manjado, daquele tipo que volta e meia passa na televisão, nunca tinha visto “Antes Só do que Mal Acompanhado” (1987), mesmo sendo fã de John Hughes. Daí que o DVD apareceu aqui na minha mesa (ele está sendo lançado agora no formato) e, por coincidência, a revista “Vanity Fair” de março publicou uma extensa reportagem contando o que, para mim, era um mistério.

Por que o diretor (morto no ano passado) praticamente sumiu nos anos 90 e 2000, após ter criado a trilogia clássica formada por “Gatinhas e Gatões” (1984), “O Clube dos Cinco” (1985) e “Curtindo a Vida Adoidado” (1986)?

Nesse breve período de tempo, Hughes captou um espírito de juventude eterno, uma angústia travestida de comédia. Era o Ingmar Bergman para adolescentes. A questão fica ainda mais relevante hoje, já que praticamente não há representação da juventude assim, apesar de as maiores bilheterias da atualidade serem filmes para esse público.

Hughes levou a sério a famosa frase de Ferris Bueller: a vida passa rápido demais. Se você não parar e olhar ao redor de vez em quando, você pode perdê-la.

O diretor se tornou adulto muito jovem. Em 1970, com a contracultura e o amor livre correndo solto, Hughes, então com 20 anos, se casou com Nancy, 19, com quem ficou até o fim da vida.

Ou seja, Hughes fez o caminho inverso daqueles homens que vivem uma eterna adolescência retratados por diretores como Judd Apatow (“Ligeiramente Grávidos”) e Todd Phillips (“Se Beber, Não Case”). Tudo o que Hughes tinha de teen parece ter transbordado para seus filmes.

Daí que “Antes Só..” nos fornece uma pista. Lançado logo após “Curtindo a Vida..”, o filme dá uma guinada na carreira de Hughes. É como se já anunciasse o rumo que tomaria na sua vida. A esposa, os filhos pequenos e a ideia de um lar acolhedor, refúgio do mundo, seriam seu novo norte, longe da badalação hollywoodiana. Não é por acaso que seus trabalhos derradeiros como roteirista e diretor sejam filmes infantis.

Hughes virou um homem de fazenda, escrevendo compulsivamente, mas apenas para si próprio e para a família. Gostava de plantar árvores, receber amigos e passar horas a fio conversando.

Seria fácil se tivesse levado adiante o título de “rei da comédia adolescente”. Preferiu ser fiel ao espírito jovem, dando espaço para uma nova geração tomar seu lugar.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h05 PM

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Oscar das salas de cinema

A equipe do Guia da Folha está avaliando todas as salas de cinema da cidade de São Paulo e conta com a participação dos leitores.

Pelo e-mail guia@grupofolha.com.br, envie críticas e elogios aos cinemas que você frequenta, apontando as principais falhas e acertos do local.

O resultado, listando as melhores e piores salas, será publicado na edição de 5 de março do Guia da Folha.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h16 PM

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Sobre "Educação" e dogmas


Carey Mulligan e Peter Sarsgaard em "Educação"

Por Fernanda Ezabella

“Educação”, filme que chega hoje aos cinemas brasileiros, conta a história de Jenny (Carey Mulligan), uma menina estudiosa no último ano do colégio. A época é 1960, numa Londres bem careta. Ela conhece David (Peter Sarsgaard), um homem mais velho e misterioso, que seduz não só Jenny, como seu pai (Alfred Molina). David mostra as maravilhas do mundo adulto para Jenny, que sonha com Paris, em falar francês e viajar o mundo. A direção é de Lone Scherfig, dinamarquesa de 50 anos. Ela foi a primeira mulher a dirigir com os conceitos radicais do movimento Dogma 95, no filme "Italiano para Principiantes" (2000), que lhe valeu um Urso de Prata em Berlim.

“Educação” é o primeiro roteiro que Nick Hornby escreve sem ser baseado em um de seus livros, e sim nas memórias da jornalista Lynn Barber.
O longa disputa três Oscars: filme, atriz (Mulligan) e roteiro adaptado (Nick Hornby).

Confira a seguir entrevista com a diretora, na qual ela fala sobre Londres dos anos 60, a dificuldade para achar as músicas certas, as influências do Dogma e a maravilha dos atores britânicos (ATENÇÃO: SPOILERS).

FOLHA  - O que te atraiu na história de Lynn Barber?

LONE SCHERFIG - Eu li primeiro o roteiro de Nick Hornby. Nós temos a mesma agente e eu pedi para ela para lê-lo. No começo, eu gostei do tom da história e muito do [personagem] David. Achei que o retrato dele era interessante e algo que eu gostaria de explorar. Sempre achei que os romances de Nick têm essa combinação de humor, são calorosos, e têm algo profundo que eu realmente gosto. Não foi a [personagem] Jenny que me pegou, isso veio depois.

FOLHA- Você leu as memórias de Barber também?
SCHERFIG - No trabalho original, Jenny se sente muito mais prejudicada por David do que no filme. A relação dos dois, na verdade, foi muito mais longa. O filme é um pouco mais otimista, leve, e, de uma certa maneira, foi uma boa experiência. Menos amargo do que quando você lê o livro original.
Também acontece que, quando Lynn Barber escreve sobre isso, ela usa mais sarcamo. Carey [Mulligan, atriz que faz Jenny] é mais doce. E claro, Carey é mais jovem, está vivendo isso, está no meio disso tudo. E no livro é mais um flashback do ponto de vista de uma mulher adulta.

FOLHA - E o final é igual?
SCHERFIG - O final é, mas eles ainda se falam . Ele liga em seu aniversário todos os anos. Ela casou com outra pessoa, e ele também, eu acho.

FOLHA - Você conversou com ela?
SCHERFIG - Sim, sim, ela veio conhecer a casa [onde filmamos parte do filme] e ouvi ela rindo muito quando viu o filme. Ela escreveu mais sobre essa história. Uma editora, acho que a Penguin, pediu para ela escrever mais capítulos de sua história e ela fez isso recentemente.

FOLHA - Mas o que acontece no final do livro?
SCHERFIG - Ele vai para Oxford [atrás de Jenny] e pede a mão dela. Ele acaba indo parar na prisão por fraude e depois tenta se divorciar de sua mulher.

FOLHA - E hoje em dia eles se ainda se falam, são amigos?
SCHERFIG - Amigos não é bem o termo. Ele apenas liga para ela uma vez por ano.

FOLHA - E você conheceu ele?
SCHERFIG - Não, mas teria sido interessante. Eu tentei encontrá-lo, mas não consegui.

FOLHA - As pessoas estão falando muito sobre Carey Mulligan, e eu fiquei curiosa para saber como foi o processo de seleção.
SCHERFIG - Ela é muito talentosa. Ela realmente se destacou no processo e entre todos os DVDs que eu recebi de um diretor de elenco. Ela foi quem eu mais gostei desde o começo. Ela é muito inteligente e doce ao mesmo tempo, uma atriz muito boa. E ela não tinha feito muita coisa, sua carreira explodiu completamente. Tem mais uns cinco filmes saindo do forno.

FOLHA - Você mantém contato com ela?
SCHERFIG - Sim, sim, na semana passada fomos ao Globo de Ouro. Ela tem recebido muitas indicações, embora não fique com os prêmios, só alguns.

FOLHA - E como foi trabalhar com Nick Hornby? Imagino se ele colocou as músicas como parte do roteiro.
SCHERFIG - Acho que uma ou duas das canções foram sugestões dele. Ele é muito bom com isso, sabe muito de música. Mas havia canções no roteiro que não funcionaram muito bem. Mas ele conhece o período e não tinha muita música inglesa naquela época, era tudo muito sentimental. A boa música vinha da América. Os Beatles ainda estavam em estúdio, assim como os Rolling Stones, e ninguém havia ouvido nada ainda. Foi difícil achar coisas que tinham a ver com a cena e que funcionavam com a atmosfera, com o texto e que fossem certas de que ela teria ouvido, ou David teria ouvido. A gente passou um tempão com isso, ouvindo músicas e mais músicas e músicas. É uma ótima parte do meu trabalho, adoro fazer isso, é maravilhoso.

FOLHA - E quando o filme estava sendo feito, ele participou das filmagens?
SCHERFIG - Não, ele veio para conhecer a casa uma vez, depois outro dia, e foi só isso. Sua mulher é uma das produtoras, então talvez eles tivessem conversas, você sabe, na hora do jantar, essas coisas.

FOLHA - Como foi o processo de pensar elementos da Londres dos anos 60?
SCHERFIG - Fiz muito mais pesquisa do que teria feito se estivesse na Dinamarca ou mesmo em outro país da Europa. Porque esse período na Inglaterra é muito específico, muito mais uma sociedade de classes, então eu precisei pesquisar muito mais. E também porque muitas pessoas no elenco eram muito jovens e não viveram nessa época. Tínhamos fotos espalhadas por todo o lugar e muita música. E todas as roupas são reais, da época mesmo. Isso ajuda muito os atores.

FOLHA - Eu fiquei imaginando se você, que foi criada na Europa, tão perto de Paris e Londres, tinha alguma imagem desses países nos anos 60 que queria levar para o filme.
SCHERFIG - É uma época estranha em Londres. É antes de Londres virar “Swinging London”. É muito provinciana, nem parece que você está numa cidade grande, é muito conservadora. Não se tornou “selvagem” até muito mais tarde. E muito aconteceu como uma reação a esse período específico, onde as coisas eram muito mais restritas. Mas eu passei mais tempo em Paris quando jovem, então foi mais fácil filmá-la.

FOLHA - Gosto muito do começo do filme, com as meninas fazendo os exercícios e tal na escola só para meninas. Isso existia na Dinamarca também?
SCHERFIG - Uma das razões pelas quais eu fiz isso [toda essa pesquisa histórica] é que nós nem temos uniforme de escola [na Dinamarca]. Nunca usei um uniforme de escola na minha vida. Para mim, isso tudo é uma coisa muito britânica. E acho que isso era uma boa forma de ajudar o público a voltar no tempo. Também servia para mostrar que Jenny era apenas mais uma no meio de várias. Você acredita que ela tem só 16 anos talvez porque a gente a vê naquela sequência do começo.

FOLHA - E como foi trabalhar com um elenco cheio de grandes nomes? É seu filme de maior orçamento?
SCHERFIG - Não, não é. Mas para mim, era um orçamento bem bom. Estou acostumada a ter orçamentos bem menores porque venho de um país de uma língua menor. Sobre os atores, é tão mais fácil dirigir atores realmente bons. É bom para mim sentir que não importa se é [Alfred] Molina, eu vou fazer o que eu sempre fiz. Que meu trabalho funciona mesmo com atores desse calibre. Os atores britânicos são muito disciplinados, muito muito humildes, trabalham duro, e isso faz seu trabalho muito melhor.

FOLHA - Os atores dinamarqueses não são tão diciplinados assim?
SCHERFIG - Humm... É que é mais experimental aqui. Especialmente porque eu venho do Dogma, que diz respeito sobre fazer as coisas de maneira mais vivas e verdadeiras, e não necessariamente corretas. Digo, não há perfeccionismo. Mas acho que toda a forma de trabalhar é meio igual.

FOLHA- Como a experiêcia no Dogma ajudou ou influenciou “Educação”?
SCHERFIG - Há um pouquinho disso aqui e ali. Um pouquinho de improvisação, mas bem de leve. Acho que essa sensibilidade e essa inocência, o fato de o filme não ser escorregadio, superproduzido, é uma honestidade com a qual eu fico feliz e acho que tem a ver com isso [Dogma].

FOLHA - Quais cenas foram improvisadas?
SCHERFIG - Aquela cena da banana, por exemplo. Quando eles vão para o outro quarto e sentam e ela pega a banana e diz: “room service?”. Isso foi totalmente improvisado, eu disse: “Vamos ver o que acontece se eu colocar a câmera aqui, e vocês correm e sentam nesse sofá”. E daí ela simplesmente fez isso. Esse foi meio que o meu momento Dogma. Não estava no roteiro, foi uma ideia extra que me veio. E acho que isso faz a sequência toda muito melhor, porque você esquece que ele [David] foi tão bobo [na cena anterior]. De alguma forma eles riem, e o público ri também. E você acredita que ela o ama de verdade, mesmo se ele tenta, você sabe, fazer sexo com uma banana, ou sei lá o que ele queria fazer com aquilo [risadas].

FOLHA - E o que aconteceu com o Dogma? Ainda existe?
SCHERFIG - Bem, se alguém quiser fazer [um filme Dogma], ainda existe. Mas no momento estamos todos fazendo filmes diferentes. A maioria de nós diz que se conseguíssemos o roteiro certo, voltaríamos para fazer de novo. Nós amávamos isso [o Dogma]. Mas no momento nenhum de nós está fazendo.

FOLHA - Mas você acha que nos dias de hoje isso seria possível, teria relevância? Afinal, são regras de 15 anos atrás.
SCHERFIG - É, você tem razão, tecnicamente aconteceu um grande desenvolvimento. Mas sim, você pode interpretar  de maneiras diferentes. Para algumas histórias é uma forma muito boa de trabalhar. Mas no momento nenhum de nós está interessado nisso.

FOLHA - E como você entrou no movimento?
SCHERFIG - Eu entrei na escola de cinema com os “irmãos” Dogma. Eu os conhecia e estava trabalhando na época no estúdio de Lar Von Trier. E eles me perguntaram se eu gostaria de fazer parte.

FOLHA - Irmãos?
SCHERFIG - Sim, os dois primeiros diretores Dogma.

FOLHA - Ah, Lars Von Trier e Thomas Vinterberg?
SCHERFIG - Sim. Há quatro deles. E eu sou a número cinco. Sou a primeira irmã Dogma [risadas].

FOLHA - E o que você lembra dessa época? Havia reuniões, vocês discutiam muito sobre cinema?
SCHERFIG - Eu não fiz parte do grupo original, não fiz as regras, os primeiros irmãos fizeram. Mas a gente ainda se vê, trabalhamos na mesma coisa, a gente se encontra ocasionalmente. Mas não é um grupo formal.

FOLHA - Podemos falar sobre seu novo projeto, “One Day”?
SCHERFIG - Sim, é uma história de amor, se passa em Londres, nos anos 80 e 90. É baseado num livro que acabou de sair, o roteiro foi feito antes de o livro ser publicado. É lindo, muito engraçado. Eu chorei quando li pela primeira vez.

FOLHA - Chorou de rir ou por que é triste?
SCHERFIG - Porque a história tem um segredo muito muito triste. Dois amigos que não sabem que se amam e permanecem amigos durante toda a vida.

FOLHA - E vai filmar em Londres de novo?
SCHERFIG - Sim, no verão. Mas é coincidência. É só porque um bom roteiro acontece lá, não é de propósito.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h04 PM

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Entrevista com o lobisomem


Benicio Del Toro em "O Lobisomem"

Por Fernanda Ezabella, enviada especial a Los Angeles

A produção do filme “O Lobisomem”, que estreou nesse final de semana no Brasil e mundo afora, organizou uma série de conversas entre jornalistas estrangeiros e o elenco, na semana passada. A Folha estava lá; leia a seguir trechos das entrevistas.

BENÍCIO DEL TORO, co-produtor e protagonista do filme

Sobre atuar e produzir:

“Acho que atuar pode ser mais divertido, sim. Produzir é muita conversa. Como ator, você conta uma história da maneira que você sabe, e eu tenho feito isso há muitos anos. Como produtor, fico preocupado com tudo, a história, os personagens.”

“Quando você faz filmes, você precisa se comprometer. Mas quando você faz um filme de estúdio, você precisa se comprometer ainda mais. Sinto que ele [Mark Romanek, o primeiro diretor, que desistiu do projeto pouco antes do começo das filmagens] apenas não queria se comprometer o tanto quanto precisava. Ele saiu fora do barco e ficou tudo meio turbulento por um tempo.”

“É difícil se comprometer, mas você vai crescendo e fica mais fácil se comprometer. Tem coisas que você precisa se comprometer, e outras você não pode. Por exemplo, nesse filme, eu não iria comprometer o fato de que a maquiagem precisava estar lá, que o monstro precisava ser o ator e a maquiagem. Também não iria comprometer alguns elementos da história original [do filme de 1941, da Universal], que precisavam estar lá, como a lua cheia, os ciganos, a bala de prata etc.”

Monstros na infância:

“Eu sempre gostei de filmes de monstros desde que era criança [...] Tinha primos mais velhos que gostavam desses filmes e eu era o mais novo, queria fazer parte do grupo. Na época não tinha DVD ou VHS. A única maneira de vê-los era no Super-8, via projetor, numa parede ou num lençol. Lembro do Frankenstein, do Drácula, do Homem Invisível, do Corcunda de Notre Dame [...] Quando eu era criança, uns quatro anos de idade, eu sempre brincava de ser o Lobisomen.”

“De alguma maneira, quando eu estava fazendo o papel de Lobisomem no filme, eu pensava sempre em Boris Karloff e no seu Frankenstein.”

“Lon Chaney Jr. sempre será o Lobisomem para mim. Eu não ficarei como o Lobisomen.”

Maquiagem peluda:

“Quando você trabalha com alguém como Rick Baker, ele transforma seu rosto numa tela em branco. Ele levava umas quatro horas para fazer tudo. E Rick e eu sentávamos lá, e ele é uma enciclopédia de todos esses filmes, ele sabe de tudo sobre atores, sobre os caras que faziam a maquiagem dos filmes mudos, ele sabe tudo. Então aprendi muito com ele sobre esses detalhes. E a gente fofocou muito sobre o que acontecia no set e ouvíamos música, Nick Cave, “Dig Dig Dig Lazarus” era o disco que tinha acabado de sair, ouvíamos um pouco de “Quadrophenia”, do The Who. Às vezes a gente via um filme também. Era sempre divertido porque a maquiagem ia acontecendo, a mágica ia rolando, e no final você se olha e....Uau!”

“Mas daí você trabalha por 14 horas, volta [para o camarim] e já está super cansado, todo mundo já foi pra casa, e você está de volta àquele trailer de maquiagem. E daí são duas horas para tirar tudo. É nessa hora que você quer torcer o pescocinho de Rick Barker. Era uma relação de amor e ódio.”

 

ANTHONY HOPKINS, ator

Frieza natural

“O que me pegou nesse roteiro foi uma frase, que achei o ponto central do personagem. Quando Lawrence, meu filho, volta depois de 20 anos e eu digo a ele, assim que ele chega: 'O corpo do seu irmão foi encontrado. Você tem a roupa certa para o funeral?' Ele diz isso de uma maneira super fria [...] Pais e filhos têm relações complicadas, se você olhar na literatura, nas tragédias gregas, Dostoievski... Meu pai era meio assim.”

“Tenho uma frieza natural. Quero dizer, eu sou bastante amigável e caloroso, mas eu não tenho tempo para pessoas que reclamam. Não tenho muitos amigos, mas tenho alguns. E não saio com pessoas negativas. Sabe, as pessoas falam demais. Eu vou lá e faço. Sempre fui assim, a vida toda, desde criança.”

“Tem gente que me acha intimidador, mas eu sou bastante amigável, gosto de trabalhar com gente que eu respeito. Sou muito mais tolerante hoje em dia.”

Pai e filho

“Meu pai, eu o amava, mas ele era difícil. Não confiava em mim quando eu era jovem porque eu não era muito bom na escola. Mas ele ficou feliz com meu sucesso. Acho que é uma coisa universal entre pais e filhos, sempre existe uma rivalidade imensa.”

Vida de compositor

“Componho músicas sinfônicas, eu conduzo orquestras sinfônicas. Tenho uma turnê na Austrália, acho que em agosto. Eu não tenho uma formação acadêmica. Eu toco piano, leio música e eu posso escrever música. Então me expresso de uma maneira bastante livre. Meus favoritos são os compositores franceses, como Debussy, Ravel, Satie, e assim por diante. Também gosto dos russos. Minha música é uma mistura de tudo, acho que as pessoas gostam.”

Vida de pintor

“Minha mulher me encorajou a pintar vários anos atrás. Também não tenho formação acadêmica, faço qualquer coisa. Eu vou ao estúdio e fico lá pintando, não ligo para os resultados. Faço paisagens e tudo da minha imaginação. Acho que nessa semana eu tenho uma exposição em Londres, e talvez uma aqui em Los Angeles no final do ano.”

“Eu pinto bem rápido. Não em meia hora, mas com grande energia porque eu sinto que dessa maneira eu posso me expressar. E gosto de cores bem profundas, assim como na música. E eu tenho morado na Califórnia, viajado para o México, o deserto de Nevada, Arizona, sou influenciado por essa cor hispânica. Gosto de pintar máscaras, rostos.”

“Isso tudo [pintar e compor] me faz gostar ainda mais de atuar. Porque atuar era a única coisa que eu podia fazer. Agora eu posso fazer outras coisas.”

“Fiz desenhos do meu personagem [em “Lobisomem”] e mandei para o primeiro diretor, Mark. E nunca mais os vi. Mas é assim que faço [...] Ou vou para livros de pintura, pego imagens e trabalho em cima delas. Tiro pequenas ideais, adoro pintores russos do século 19.”

Prêmios e Oscar

“Não acampanho esses prêmios, Oscar. Mas espero que Jeff Bridges ganhe. E como é mesmo seu nome? Ah, Sandra Bullock. Espero que ela ganhe também [...] Mas eu nunca vejo essas coisas, Globo de Ouro e tal. Gosto de ficar em casa.”

Melhor fase

“Esta é a melhor fase da minha vida. Fiz tudo o que eu sempre quis e mais. Porque quando você chega a uma certa idade, você para de levar as coisas a sério. Sabe, toda a glória, a fama, Oscar, isso tudo.... Nós vamos todos morrer um dia! As pessoas se acham tão importantes com isso, e eu fico feliz de estar vivo e ter sorte, e ter trabalho. Sabe, eu vou fazer Deus agora e isso foi uma supresa [no filme “Thor”]. E fiz um filme com Woody Allen [“You Will Meet a Tall Dark Stranger”], então é sempre uma surpresa. Não fico acordado à noite preocupado se os filmes vão acontecer ou não. Eu espero pela ligação, e se eles tiverem o dinheiro, tudo bem. Se não ligarem, tudo bem também. Eu até esqueço.”

JOE JOHNSTON, diretor de “O Lobisomem”

Remake?

“Queria fazer uma homenagem ao filme original, mas não queria que o público recebesse como um remake, não acho que seja.”

Maquiagem

Quando eu entrei no projeto, Rick Baker [responsável pela maquiagem, seis vezes ganhador do Oscar] já tinha feito algumas esculturas preliminares da maquiagem do Benício. E meu primeiro encontro com ele [Baker] foi sobre como fazer a maquiagem deixar o lobisomem um pouco mais perverso, assustador. Porque parecia um pouco... era quase como um brinquedo de pelúcia, como se você quisesse dar um grande abraço nele, meio como o Wookie. E eu queria ele que ele fosse mau, assustador.”

Tema do filme

“O filme é sobre a besta dentro de cada um [...] Cada um deve interpretar o filme do seu jeito. Gosto de filmes em que você precisa prestar atenção no que está acontecendo. Cada um deve ver um filme diferente.”

O uivo perfeito

“Vimos todos os filmes sobre lobisomem para ouvir o uivo. Porque estávamos procurando algo único, que nunca tinha sido feito antes. Mas no final percebemos que, na verdade, o público quer mesmo é ouvir algo que já conhece. O estúdio queria o uivo mais único jamais feito. Mas o público não quer isso. Ele quer o que ele reconhece, e que seja um uivo no tom perfeito.”

“Chamamos então dois roqueiros, David Lee Roth e Gene Simmons, que vieram uivar para a gente. Foi loucura. Eles faziam um uivo, e começavam a fazer piadinhas. Levou horas e horas para fazer [...] E a coisa mais incrível é que Gene Simmons não perdia o fôlego, ficava uivando sem parar. E nós ali, esperando ele parar.”

Próximo projeto

“Vou fazer ‘Capitão America’, será rodado em Londres. Será a origem dele, como ele virou Capitão América na Segunda Guerra Mundial. Ainda não temos o ator principal."

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h27 PM

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Diretor fala sobre "Preciosa"


Lee Daniels durante as filmagens de "Preciosa"

Por Fernanda Ezabella, enviada especial a Los Angeles

Lee Daniels, 50, é diretor de “Preciosa - Uma História de Esperança”, que chega hoje aos cinemas após ser indicado a seis Oscars, incluindo filme e direção. Ele é mais conhecido como produtor. Trabalhou em “A Última Ceia” (2001), vencedor do Oscar de atriz para Halle Berry, e “O Lenhador” (2004), com Kevin Bacon.

Sua estreia na direção aconteceu com o pouco comentado “Matadores de Aluguel” (2006), seguido de “Preciosa”, um conto de fadas do avesso, sobre uma adolescente cheia de problemas, analfabeta, obesa e mãe de dois filhos, resultado do estupro do pai. Entre cenas violentas, a personagem sonha com um mundo de glamour.

O filme é baseado no livro da autora americana Sapphire, “Push”, publicado nos anos 90.

Daniels é o segundo afro-americano a ser indicado ao Oscar de direção. E o primeiro a dirigir um filme indicado à estatueta de melhor filme.
Confira a seguir a entrevista com Lee Daniels. Ele fala como é ser gay na indústria do cinema, sobre Obama ser um grande cara, como é trabalhar com Lenny Kravitz e Mariah Carey, entre outros assuntos.

FOLHA - Li que até Madonna tentou comprar os diretos do livro de Sapphire para fazer um filme e não conseguiu. Como você fez para convencê-la?

LEE DANIELS - Sapphire viu um filme que eu fiz, “Matadores de Aluguel”, com Helen Mirren e Cuba Gooding Jr., e gostou. Mas eu a persegui por muitos anos. Acho que ela se cansou de me ver na cola dela e apenas desistiu. Eu liguei todos os dias, durante nove anos!

FOLHA -O que te chamou a atenção no livro?
DANIELS - Foi essa verdade brutal, como se alguém tivesse me dado um murro no estômago. Nunca tinha lido algo tão verdadeiro como isso.

FOLHA - O filme é bastante pesado, mas o livro consegue ser ainda mais duro. Como você decidiu o tom do filme?
DANIELS - Achei que o tom do filme tinha que ser... Veja bem, o público tinha que respirar. No livro, tantas coisas horríveis acontecem com ela, é pornográfico, eu não poderia filmar tudo. Por isso criei esse mundo de fantasia [quando ela sonha que é famosa], o que realmente ajuda o público. A gente precisa respirar depois de ver algumas das coisas que se passam no filme, é preciso tempo para digerir algumas cenas. Então acho que o humor, o riso, ajudam a digerir a devastação que estamos testemunhando.

FOLHA - A Sapphire participou do processo de adaptação e filmagens?
DANIELS - Não. Ela ajudou um pouco no roteiro, deu algumas sugestões. E ela é um extra no filme também, achei que isso me traria um pouco de boa sorte.

(atenção! spoilers)

FOLHA - Quem é ela no filme?
DANIELS - Bem antes do final, quando Precious deixa seu bebê com uma pessoa na creche antes de ir encarar a mãe. Sapphire é essa mulher da creche.

FOLHA - E como você encontrou Gabourey Sidibe [atriz estreante que faz Precious, indicada ao Oscar de atriz]?
DANIELS - Eu entrevistei umas 500 meninas. E Gaby apareceu e foi incrível, amor à primeira vista. Ela é tão esperta. As outras meninas também eram preciosas, mas...

FOLHA - Gabourey disse numa entrevista que o filme traz muitas mensagens, mas que a maior delas é “esperança”. Você concorda? Qual a principal mensagem para você?
DANIELS - Aprender a amar a si mesmo. Porque você vê, Mary [a mãe abusiva interpretada por Mo’Nique, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante] se amava no começo. Ela nunca teria feito mal a Precious. Mas Mary é uma vítima também.

FOLHA - E com uma história tão pesada assim, como era o clima no set de filmagens?
DANIELS - Ah, era maravilhoso, como uma festa. A gente dançava, ria. Mariah Carey cantava, Lenny Kravitz tocava guitarra. Era muito amor. [Carey interpreta uma funcionária do serviço social, e Kravitz, um enfermeiro]

FOLHA - E como foi convencer Mariah Carey a filmar sem maquiagem alguma? [numa entrevista à revista “Empire”, Gabourey disse que Carey reclamava todo os dias]
DANIELS - Não, não foi problema, ela me deu tudo o que eu queria. Confiou em mim.

FOLHA - E como aconteceu o convite para ela fazer o filme?
DANIELS - Helen Mirren ia fazer seu papel, mas ela conseguiu outro trabalho e me ligou. E Mariah Carey me ligou três horas depois e eu disse: “Não posso falar agora, estou trabalhando”. E ela: “Em quê?” E eu: “Push”. E ela: “Oh, eu conheço esse livro”. Aí eu liguei para Helen de volta e perguntei o que ela achava de Mariah. E Helen disse: “Eu acho que é uma grande ideia, porque se eu fizer, é esperado; mas se Mariah fizer, é inesperado. Vai fundo”.

FOLHA - E com Lenny Kravitz? Ele é meio que um alter ego seu no filme, já que você trabalhou com enfermeiros no passado? [Daniels criou sua própria agência de enfermagem aos 21 anos e depois a vendeu por US$ 2 milhões e foi ser produtor de cinema]
DANIELS - Não, nunca pensei nisso antes, mas é interessante. Talvez de uma forma inconsciente? Mas Lenny e eu somos grandes amigos. Foi apenas confiança. Ele nunca tinha lido o livro. Eu liguei, disse que tinha um trabalho para ele, e ele veio. Disse que seria uma honra.

FOLHA - Os filmes que você dirige ou produz têm sempre um tema pesado. Por quê?
DANIELS - É inconsciente, eu sou muito atraído a essas coisas a cada filme que passa. Não planejo fazer filmes obscuros, você sabe... Mas, de alguma maneira, isso acaba acontecendo. Eu não entendo, fico confuso, não tenho a resposta.

FOLHA - E sobre o que será seu próximo filme? Li que você vai rodar “Selma”, sobre as manifestações em 1965 pelos direitos civis dos negros. É verdade?
DANIELS - Pode ser “Selma”, talvez. Não me sinto confortável para falar disso, estamos muito no começo. Na verdade, estou desenvolvendo várias coisas: um musical sobre drag queens, vou dirigir “Miss Saigon”. “Selma” é um projeto muito importante, mas odeio ficar falando de coisas, de ficar zicando. É como falar de Oscar. Não gosto de zica. Me deixa muito nervoso, entende?

FOLHA - Mas é verdade que Robert De Niro estaria no elenco de “Selma”?
DANIELS - Robert De Niro é um grande amigo meu. Estamos negociando para fazer um filme juntos. Não sabemos ainda qual.

FOLHA - E o que mudou na sua percepção de diretor com esse segundo filme?
DANIELS - Eu mudei como homem, eu cresci. Acho que em cada filme você cresce [...] Lembro que eu estava na Espanha com meu namorado e nós fomos ao cinema, era o lançamento de “Matadores de Aluguel” [2005]. Meu namorado não queria ir, ele realmente queria deixar esse filme para trás, mas eu queria ver meu filme em outro país, sabe? Você acredita que eu e ele éramos os únicos dentro do cinema, na noite de estreia? Essa foi, sem dúvida, uma experiência horrível.

Mas eu amo todos os meus filmes. Amo “Preciosa” tanto quanto “Matadores” [...] Se eu faço as coisas diferentes hoje? Não sei, talvez, mas eu era outro cara então. Se fosse um diretor italiano fazendo “Matadores”, seria outro filme completamente diferente.

FOLHA - E como a comunidade negra nos EUA recebeu “Preciosa”?
DANIELS - Eles amaram. Mas não me pergunte sobre aquele único indivíduo que odiou, que disse tudo aquilo. É sobre isso que você vai perguntar agora?

FOLHA - Não, mas o que aconteceu? [entre muitas críticas positivas, o filme recebeu algumas negativas, afirmando que “Preciosa” retratava os negros de forma muito depreciativa]
DANIELS - Tem um cara que ficou chateado, que diz que a gente faz com que pessoas negras apareçam de forma não muito positiva. E os jornais publicaram isso, com esse único cara falando. Mas, você sabe, as pessoas sabem da verdade. E acho que essa é a razão dos afro-americanos terem abraçado este filme com amor. E, para minha surpresa, o universo abraçou o filme. Pessoas de todas as cores e credos abraçaram o filme.

FOLHA - Você costuma falar abertamente sobre as dificuldades que passou na infância, sobre seu pai abusivo, sobre seu uso de drogas [que o levou a ter um ataque do coração]. Você também não tem problemas em falar que é gay. Isso tudo, essa franqueza, é uma coisa rara na indústria do cinema, não?
DANIELS - Não acho que seja uma coisa rara. Não sei por que as pessoas acham isso uma grande coisa sobre mim. Todos os meus amigos são abertos [em ser gay], como Tom Ford, que fez “Single Man”, Andre Leon Talley, editor da “Vogue”. Todas essas pessoas estão fora do armário, felizes.

FOLHA - Mas eu estava falando da indústria do cinema, não do povo da moda.
DANIELS - Acho que a maioria deles é gay [na indústria do cinema]. Eles só não querem sair do armário. Mas a vida é muito curta para viver uma mentira. E Deus me perdoe se alguém descobrir algo sobre mim e escrever sobre isso. Não! Aqui está toda a minha merd***, não tenho nada para esconder, entende?

FOLHA - E o que você está achando da administração Obama?
DANIELS - Sinto que ele está mudando o mundo. Como ele disse antes, a mudança leva tempo. Acho que as pessoas estão esperando pacientemente. Pelo menos os democratas estão. Acho que ele fez coisas incríveis, cometeu alguns erros, mas ele reconheceu seus erros, o que o faz um homem único e maravilhoso.

FOLHA - Mas há uma certa decepção com ele, não se pode negar, não?
DANIELS - Sabe de uma coisa? Ele percebeu que... Ele não era presidente quando ele fez aquelas promessas de campanha. Informação não era dada a ele, porque ele não fazia parte do circo, da bolha. Então, foi difícil para ele fazer previsões.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h11 AM

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Mulheres na direção


Lina Wertmuller, Jane Campion, Sofia Coppola e Kathryn Bigelow: o restrito clube das quatro

Em tom de piada, um amigo costuma comparar a habilidade das mulheres na direção de um filme e na direção de um carro.

Ok, além de ser uma inverdade, trata-se de uma piada de mau gosto e machista. Mas voltei a pensar nela quando os concorrentes ao Oscar 2010 foram anunciados na semana passada. Com a indicação de Kathryn Bigelow ao prêmio de melhor direção, esta é apenas a quarta vez (o Oscar está na 82ª edição) em que uma mulher concorre na categoria _as outras foram Lina Wertmuller por “Pasqualino Sete Belezas” em 1977; Jane Campion por “O Piano” em 1994; e Sofia Coppola por “Encontros e Desencontros” em 2003.

Para mim, o fato ainda é um grande mistério. Hollywood é machista? O Oscar não é referência para nada? Cinema é um negócio de homens? Os filmes dirigidos por mulheres não têm apelo comercial? Ou elas não fazem filmes tão bons quanto os homens?

Nora Ephron (“Julie e Julia”) é um exemplo de que filmes dirigidos por elas são rentáveis. E uma longa lista de cineastas mulheres responde a última questão: Lucrecia Martel, Agnès Varda, Claire Denis, Catherine Breillat, Chantal Akerman, Leni Riefenstahl, Ana Carolina, Suzana Amaral etc.

Ganhe Kathryn Bigelow ou não (se sim, será a primeira mulher a receber o prêmio), os indicados deste ano nos dão uma boa oportunidade de pensar sobre a questão. Isso porque o filme de Kathryn, “Guerra ao Terror”, sobre um grupo que desarma bombas durante a Guerra do Iraque, tem um equivalente, “Avatar”, de James Cameron, que, convenhamos, é também sobre a Guerra do Iraque.

É possível partir para uma análise baseada no sexo e destacar elementos femininos em “Guerra ao Terror” e elementos masculinos em “Avatar”? Ampliando a questão: o que muda num filme dirigido por uma mulher e num filme dirigido por um homem?

Como ela mesma disse em entrevista a Fernanda Ezabella, na Folha: "Filmar não é uma questão de gêneros, não acredito nisso. É como ser jornalista, é uma coisa específica de gênero? Estou interessada em cinema como comentário social. Isso é o que me anima".

Fui ver “Guerra ao Terror” no fim de semana para ver se eu encontrava algum elemento feminino no filme. São diferenças sutis, talvez apenas sugestionamento. Se eu fosse desavisado ao cinema, não saberia dizer o sexo de quem dirigiu.

Não é como ser homem e fazer análise com uma psicóloga, ou ser mulher e fazer análise com um psicólogo. Cinema é um trabalho em (numeroso) grupo e, se considerarmos roteiro e direção de fotografia elementos centrais da linguagem de um filme, os dois longas têm apenas homens ocupando as funções.

AQUI VÃO SPOILERS

Se formos usar estereótipos mulher x homem, “Guerra ao Terror” seria uma visão madura, realista, sobre o conflito no Iraque e, por isso mesmo, “chata”, ao menos no ponto de vista do cinema de ação ininterrupta de Hollywood. As competentes cenas lentas, repletas de tensão, principalmente naquelas em que Jeremy Renner veste seu traje para desarmar bombas, seriam uma representação fílmica do ritmo mais cuidadoso e jeitoso de ser de uma mulher. O clichê diz que elas valorizam as preliminares antes do sexo mais do que o homem.

São várias as vezes em que a câmera de Kathryn Bigelow enquadra seus homens como se de surpresa, sem chance para respiro, inquisidora (seria como a mulher que resolve enquadrar o marido e discutir a relação?).

E, bem lá pro final, quando Jeremy Renner retorna para a vida familiar e se vê perdido em uma prateleira infinita com os mais variados tipos de cereais: será que um homem repara que há tantas opções, na vida real? Seria mais provável dizer que quem repara que um homem não repara é uma mulher.

Claro, tudo pode ser uma grande bobagem. Mas não consigo deixar de pensar nesses estereótipos quando vejo “Avatar” e penso num meninão (James Cameron) brincando de guerra com seus bonecos.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h21 PM

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Elia Suleiman: tolerar, resistir, evadir

Por Silvana Arantes
De Buenos Aires

O cineasta de origem palestina Elia Suleiman dirige e atua no filme “O que Resta do Tempo”, que estreia hoje nos cinemas brasileiros. A Folha e um grupo de jornalistas conversaram com Suleiman no Festival de Cannes, em maio passado.

O filme é um relato em primeira pessoa dos reflexos do conflito na vida de uma família palestina em território ocupado por Israel. Suleiman tece a trama a partir de 1948, ano da criação do Estado de Israel, até hoje.

Veja o trailer:

A seguir, a continuação da entrevista com o cineasta, publicada hoje na Ilustrada.

VIOLÊNCIA
É difícil. O problema é tentar manter certa elasticidade em face da intolerância. Não sou um padre. Também não sou um macaco, mas não estou longe da fé num certo sentido espiritual. Quer dizer que tentei trabalhar certas coisas em mim.
Não aprendi técnicas de meditação, mas inventei as minhas. Com o tempo, você desenvolve sua maneira de lidar com certos temas _escrever, amar, cozinhar. São maneiras que você aprende de afastar a agressividade dirigida a você.
Há duas maneiras de lidar com a agressividade _ou você a enfrenta com o peito ou você desvia para ela passar. Muitas vezes você aprende que, quando você desvia da agressão, ela se espatifa em outro lado.
Muitas vezes, a agressividade exige confrontação. Se você tenta ficar transparente, a agressividade perde sua autoconfiança. Isso nem sempre funciona. Não funcionou com os judeus, por exemplo. Não importa como eles reagissem, havia uma solução final, que foi levada adiante.

HUMOR NEGRO
Há um tipo de humor negro que alarga o seu tempo de vida, num certo sentido, porque o tempo não é algo que se guie pelo relógio. Quando você ri de você mesmo, você vive um momento que não pode ser medido. Isso vale para o humor dos guetos. Acho que o humor é sempre uma combinação do que você é com as circunstâncias em que você vive.

ATUAR
Atuar pode ser um prazer. É um outro tipo de “momentum” espiritual em que você se revela e pode ser muito interessante. O tipo de atuação que eu faço, que se esvazia de toda psicologia, para se fixar na tela sem ter nenhuma expressão não é a coisa mais fácil do mundo. Exige que você tire tudo de dentro de você para fora, de tal forma que você se transforme numa espécie de transparência. Isso requer muita solidão no set, o que não é fácil conseguir. Quando você chega a esse momento, é como o de uma sensação translúcida.

O SENTIDO DO FILME
O que eu quis dizer com tudo isso é que, passados 60 anos, ainda estamos lidando com uma ocupação histórica. Israel queria ocupar todas aquelas áreas há muito tempo, desde 1948. Se você lê os israelenses, percebe o plano e vê que a ocupação que fracassou em 1948 teve sucesso em 1967, quando eles tomaram parte do que eles querem chamar Israel. Em 1982, aconteceu a mesma coisa _eles ocuparam o Líbano e isso era um plano de 1948.

As montanhas do Golan eram um plano de 1948, não de 1967. Todas essas guerras em que eles reclamam ter sido atacados pelos árabes, estavam planejadas por Ben-Gurion.

O que estou querendo dizer, politicamente, é que em 60 anos depois, há um caixão em Ramallah, assim como havia um caixão em Nazaré, em 1948.

A CARREIRA
Quando tinha uns 15 anos, comecei a fugir da escola e menti para umas pessoas, dizendo que estudava cinema. De alguma forma, essa mentira se tornou verdade.

Nunca estudei cinema, mas sempre tive uma grande tendência para contar histórias. Até os meus 20 e poucos anos, só tinha visto uns filmes medíocres, a meio caminho entre o comercial e o independente.

Mas eu tinha a sensação de que poderia fazer cinema, pela reação das pessoas às histórias que eu inventava e contava de diversas maneiras diferentes. Essa reação me deu autoconfiança.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h03 AM

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A Itália para estrangeiros de "Nine"


Penélope Cruz em "Nine"

De todos os gêneros cinematográficos, o musical sempre foi o mais intrigante para mim. Nunca entendi direito essa coisa do sujeito que para tudo que está fazendo para dançar e falar cantando como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ignorância pura minha, óbvio.

Hoje, com televisão, MTV, internet, celular e tantas outras formas de entretenimento audiovisual, fica um tanto difícil entender por que o gênero foi um dos grandes favoritos do público lá pelos idos de 1930/ 40.

Mas “Cantando na Chuva”, que vi quando não era mais adolescente, desarmou meus preconceitos e me fez entender o poder dos musicais. Está tudo lá: a força das canções, as coreografias com Gene Kelly, as pernas de Cyd Charisse, a suspensão da realidade. Um mundo colorido e um tanto ingênuo, enfim. A experiência estética única mantém o filme vivo.

Claro que não dá nem para comparar a produção atual com a quantidade de musicais feitos na época de ouro do gênero. Mas considerá-lo morto é exagero. Assim como o faroeste, de tempos em tempos temos exemplares do gênero pelas telas. Grande parte pela força dos musicais da Broadway _sucessos de público nos EUA e nas franquias mundo afora, que, no esquema capitalista dos produtores de Hollywood, é um formato de lucro certo para adaptações. O sucesso do recente “Mamma Mia!” entra na mesma lógica das continuações, remakes e adaptações de HQs.

Talvez só isso explique a existência de “Nine”, filme que desafia a fé dos apaixonados por musicais.


Marion Cotillard tem a melhor atuação de "Nine"

“Nine”, adaptação de um musical que por sua vez é adaptação de “8 e Meio”, é um enigma. Não vi a montagem da Broadway de 1982 com Raul Julia no papel principal e nem a de 2003 com Antonio Banderas. Mas, com certeza, “Nine” não reproduz a experiência sensorial de ver atores e dançarinos em carne e osso no palco (em tempos de “Avatar”, talvez fazer o filme em 3D fosse uma alternativa).

Também não acrescenta nada ao filme de Fellini (e não vou nem entrar no mérito de comparar ao original, já que é covardia, e nem vou comentar o desfecho diferente). E, aqui, uma questão extremamente pessoal: não tem nenhuma música/ figurino/ coreografia excepcionais que garantissem uma apreciação apenas do ponto de vista estético. Ok, “Nine” tem Penélope Cruz, mas ela está muito mais deslumbrante/ sexy em “Vicky Cristina Barcelona”. Quando vi “Mamma Mia!”, há uns dois anos, presenciei uma das cenas mais marcantes para mim no cinema: durante a exibição, duas faxineiras da sala estavam no cantinho, escondidas, cantando e dançando ao som de “Dancing Queen”.

“Nine” não é um musical contemporâneo, como os excelentes “Dançando no Escuro” (Lars von Trier), “Sweeney Todd” (Tim Burton), “Todos Dizem Eu Te Amo” (Woody Allen) ou “Canções de Amor” (Christophe Honoré), que usam a nostalgia por um passado que não existe mais para discutir questões atuais. Filmes que usam esse recurso hoje extremamente não realista de personagens falando por meio da música numa época obcecada pelo real.
Apesar de parente próximo de “Moulin Rouge”, “Nine” está em outro patamar; o primeiro tinha ao menos uma “proposta”, o aspecto novidadeiro da montagem videoclípica.

Há a questão da nostalgia, mas por outro viés, o do fetiche pelo “star system” de Hollywood. O atrativo é ver Penélope Cruz, Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, mas da mesma maneira que folheamos os editoriais de moda da “Vogue” ou que clicamos os sites de fofocas.

Não há nada de condenável nisso, o leitor poderá dizer _e terá razão, já que isso ocorre desde que o cinema é cinema.

A própria questão do filme (um cineasta em crise criativa que não consegue escrever um roteiro) parece ser uma defesa de certa vertente de filmes sem uma espinha dorsal, da qual “Nine” pode muito bem fazer parte.

Mas o que me incomodou de fato foi ver a maneira que esse musical trata a Itália. Hoje, o próprio país, com Berlusconi à frente, não ajuda muito e passa a imagem de nação em ruínas. Mas o filme não tem viés político; se fosse uma crítica a Berlusconi, teria ainda algum mérito. A Itália de “Nine” é cheia de estereótipos; é como se fosse aquela hilariante sequência de “Bastardos Inglórios” em que Brad Pitt tenta falar “Buon giorno”. A Itália, aqui, é apenas um país exótico, “felliniano”, onde “cinema italiano” é um gênero cinematográfico, e não a produção local. O que “Nine” fala é o velho “american way” de olhar o estrangeiro.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h26 PM

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