Ilustrada no Cinema

 

 

Sherlock e o retrato de época


Sherlock (Nicholas Rowe) e Watson (Alan Cox)
 em "O Enigma da Pirâmide"

Cada geração tem sua referência de heróis. Eu, que nasci em 1977, quando penso em Super-Homem, penso em Christopher Reeve; a lembrança de Homem-Aranha vem atrelada àquela série tosca que passava na Manchete; e Hulk, por mais que eu goste do filme de Ang Lee, me remete à dupla Bill Bixby/Lou Ferrigno.

Não que os antigos sejam sempre melhores: Tobey Maguire encarnou à perfeição Peter Parker na trilogia de Sam Raimi, e quem quiser superá-lo terá que suar a camisa no “reboot” da série.

Esse é um dos fatores que garante os intermináveis remakes, novas versões etc. em Hollywood. Se um personagem deu certo no passado, por que não apresentá-lo às novas gerações, aproveitar os fãs antigos, saudosos do personagem, e faturar mais alguns milhões? Na atual toada, é provável que personagens como Batman, Homem-Aranha etc. continuem nas telas do cinema por anos a fio, como é típico com James Bond.

O mesmo acontece agora com Sherlock Holmes. Em termos de produção hollywoodiana, ele estava longe das telas desde “O Enigma da Pirâmide” (1985).

Mais do que comparar quais dos Sherlocks é mais eficaz (Nicholas Rowe ou Robert Downey Jr.), penso no retrato de época que os dois filmes trazem.

“Um bom filme é também um documentário”, disse Eric Rohmer. A frase, usada por Jean-Claude Carrière, roteirista de filmes como “A Bela da Tarde”, no livro “A Linguagem Secreta do Cinema”, é evocada num momento em que ele fala sobre o retrato histórico que, no futuro, ficará evidente. Escreve Carrière: “O filme entra na História por todas as portas. Refaz a História, ajuda a recontar o passado, torna-se a própria História. ‘Satyricon’, de Fellini, pode ser visto como uma visão de um planeta distante, mas, se olharmos com cuidado, também veremos um filme que é inequivocadamente sobre o ano de 1968”.

“O Enigma da Pirâmide” tem Steven Spielberg como produtor-executivo. Insere-se numa tradição iniciada com “Tubarão” (1975) e cristalizada com “Star Wars” (1977), ou seja, o blockbuster, filme para grandes audiências que mira principalmente o público jovem. Nos anos 80, essa fatia lucrativa de consumidores definiu a cara da produção norte-americano. “Indiana Jones”, “De Volta para o Futuro”, “Curtindo a Vida Adoidado” etc., a lista vai longe.

“O Enigma da Pirâmide” é menos um filme sobre Sherlock Holmes e mais sobre a juventude e os conflitos que a chegada da vida adulta e suas responsabilidades trazem. Algo que Spielberg fez muito a partir de “ET”. “O Enigma...” tem um quê de “Os Goonies”, já que mostra as peripécias de um grupo de adolescentes espertos. As sequências na pirâmide são quase uma cópia de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. E os vilões, os seguidores da seita, parecem ter saído de “Mad Max 3”. Não é a Londres vitoriana que vemos ali, mas sim a estética oitentista.


Watson (Jude Law) e Sherlock (Robert Downey Jr) em "Sherlock Holmes"

Já o novo Sherlock é muito mais um filme de Guy Ritchie e Robert Downey Jr. Da época presente está a montagem videoclípica, rápida, que o próprio Ritchie ajudou a consolidar em longas como “Snatch”.

Há um tom marcante atual que é a busca pela realidade, seja no 3D de “Avatar”, seja no tom realista do recente “Batman”. O novo Sherlock, na sua rigorosa reconstituição de época, é fruto desse momento.É um Sherlock físico, assim como o James Bond atual. Não basta ser inteligente, tem que ter corpão, ser eficiente, ter aproveitamentó máximo é a ideia.

Por isso não chega a ser um absurdo a escalação de Downey Jr. para o papel. Sua marca registrada, o cinismo, parece ser um elemento essencial para a sobrevivência nos dias de hoje. Há uma necessidade de se duvidar de tudo, de derrubar mitos. Quando Sherlock deduz coisas inacreditáveis baseado na observação, na lógica e na pesquisa, é como se ele consultasse um mestre Google embutido na sua cabeça.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h37 PM

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Criticando o crítico

Cinema não é apenas entretenimento. Não é apenas arte. Essa forma de expressão, que muitas vezes tenta recriar o real, acaba gerando reações mais do que reais. Todos têm uma opinião sobre determinado filme. É o futebol do mundo das artes. Sai o papo de boteco, entra o papo em cafés ou cinemarks da vida. Por isso, textos de jornalistas/críticos de cinema mexem tanto com os leitores cinéfilos.

Basta uma rápida olhada nos comentários deste blog, por exemplo. Não são poucos os leitores que reclamam de determinados posts; às vezes, um ou outro mais ousado parte para o ataque pessoal. “Como assim, o que esse mané está falando desse filme que EU amo tanto?” ou “Por que esse imbecil recebe um salário para ficar assistindo a filmes e escrever bobagens?”, são algumas das questões dos críticos dos críticos de cinema.

Não só para eles, mas para todos que gostam de pensar sobre cinema, recomendo o documentário “Crítico”, de Kleber Mendonça Filho. Teve passagem relâmpago aqui em São Paulo, mas deve estrear em breve em Porto Alegre, Salvador e Recife, “para uma pequena carreira nos cinemas”, segundo seu realizador.

Kleber coletou, entre 1998 e 2007, depoimentos de 70 críticos e cineastas sobre “o conflito que existe entre artista e o observador”. Do lado dos cineastas, tem gente como Gus Van Sant, Richard Linklater, Tom Tykwer, Walter Salles, Cláudio Assis e Carlos Reichenbach, entre outros. Do outro lado, críticos franceses, brasileiros e norte-americanos de importantes publicações.

Kleber, cineasta que também é crítico, ou crítico que também é cineasta, conhece os dois lados da moeda. As principais questões para quem pensa cinema como algo além de entretenimento estão lá. A “ditadura” das cotações/estrelinhas/ bonequinhos. A função da crítica (falar se um filme é bom ou ruim? analisar, complementar o pensamento do cineasta?). O poder do crítico (“auto-masturbação”?). O crítico dentro da engrenagem das grandes distribuidoras. A diluição da importância da crítica com a proliferação de blogs e sites. E por aí vai.

Fernanda Torres conta: “Tem uma frase do Oscar Wilde que me curou para a crítica: ‘Toda crítica é uma auto-biografia’”.

Hector Babenco polemiza: “Eu raramente leio [críticas], às vezes leio o início, o final (...) Fico muito nervoso, meu coração dispara (...) É raro achar jornalista inteligente”.

Samuel L. Jackson aparece no momento mais hilariante do filme. Um jornalista pergunta para ele como foi trabalhar na série “Matrix”.... (isso porque quem trabalhou em “Matrix” foi Laurence Fishburne).

Para mim, que trabalho com texto e filmes, “Crítico” serviu como uma sessão de auto-análise. Mas, em determinado momento, senti que o documentário estava excluindo um elemento importante na discussão. Nenhum representante do público “comum” está presente.

Questionei o Kleber, e ele me respondeu:

“Meus filmes são todos muito pessoais. Por conhecer bem as tensões entre o realizador e o crítico, sou os dois, queria fazer um registro exatamente disso. Incluir o público seria algo meramente burocrático (“Ok, temos que ouvir o público”). Outra coisa, procurar um cineasta e/ou um crítico é uma coisa, procurar ‘o público’ é uma outra bem diferente. A ideia de registrar uma senhora na porta de um cinema e creditá-la como ‘público’, ou ‘advogada’ não me agradava. Acho que o público está no filme apenas como o observador que ele sempre é, o que não impede que reaja positiva e negativamente em relação a qualquer filme, inclusive esse. Por último, quando a gente faz um filme, é o filme que vai pedindo as coisas, e esse pareceu estar confortável com os dois lados representados no filme”.

*Aliás, este meu post não se configura como uma crítica de "Crítico".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h51 PM

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Não quero ser Nicolas Cage

Antes de qualquer consideração sobre “Vício Frenético”, filme de Werner Herzog em cartaz em São Paulo.

Veja o cartaz:

Agora, dê uma olhada nessa cena de “Nosferatu” (1979), remake do mesmo Herzog para o clássico de F.W. Murnau de 1922:

Conclusão: Nicolas Cage = Klaus Kinski = vampiro?

Quem me deu a dica sobre a semelhança entre os dois foi a jornalista Fernanda Ezabella.

Não sei se foi algo intencional de Herzog. Já Cage disse, em entrevistas, que Kinski foi, sim, inspiração para ele compor o personagem do policial viciado em drogas.

Seja como for, gostei do filme e da atuação de Cage. Mas, para mim, “Vício Frenético” é uma comédia sobre a decadência de um homem. Não dá para ser levado a sério, como se fosse um típico policial hollywoodiano. Salta aos olhos a ironia de Herzog em várias cenas, a começar pela escalação de Cage.

Existe ator com imagem mais desgastada do que ele? Cage foi bem interessante no começo da carreira, em “Asas da Liberdade”, “Peggy Sue” ou “Arizona Nunca Mais”. Mas, após “Despedida em Las Vegas” (1995), virou daqueles irritantes atores onipresentes, perdendo o rumo da carreira, perdendo credibilidade com o público e, aparentemente, ganhando muito dinheiro.

Quando quis abraçar Hollywood, Cage virou apenas uma caricatura ambulante (para mim, isso explica sua escalação em outro bom filme, “Adaptação”).

Essa imagem é bem explorada por Herzog em “Vício Frenético”. Como o Mickey Rourke de “O Lutador”, parece que estamos vendo o próprio Cage, decadente e decrépito, nas telas, e não apenas um ator interpretando um personagem. É candidato a ator a ser resgatado por Tarantino, no futuro.

Portanto, a associação de Cage com o simbolismo de um vampiro não chega a ser esdrúxula. Em termos artísticos, ele está vivo, mas não muito.

Até determinada altura, “Vício Frenético” é um filme policial tradicional. Na sua obsessão em cumprir um objetivo, o personagem de Cage se insere na tradição de heróis herzogianos, como o próprio Kinski em “Aguirre, a Cólera dos Deuses” e “Fitzcarraldo”. Mas, lá pelas tantas, quando entram em cena os lagartos, a dica está dada.

Alemão, Herzog mora atualmente em Los Angeles. Será sempre um estrangeiro a olhar com certa distância para a tradição local. Quanto mais Cage vai se afundando em seu vício (como uma metáfora dos EUA, que vai perdendo sua dignidade), mais e mais aparecem situações absurdas, como se ele fosse um vilão de desenho animado. Se o espectador ainda estiver levando o filme a sério, a cena (aí vai spoiler) em que ele começa a dar uns tabefes na velhinha é a cartada final de Herzog. Dá para imaginar, fácil, ele rindo por trás das câmeras.

***

Começa na sexta-feira, dia 22, a 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Até o dia 30, a cidade histórica mineira traz uma programação gratuita em três espaços: o Cine-Praça (capacidade para 2.000 espectadores), o Complexo de Tendas (capacidade para 700 pessoas) e o Cine-Teatro (150).

Para quem não conhece, a mostra de Tiradentes, que neste ano homenageia o diretor cearense Karim Aïnouz, é uma das principais do país para quem quer pensar e debater cinema. No time de curadores, estão críticos tarimbados, como Cléber Eduardo, Eduardo Valente e Cássio Starling Carlos, que traçam um panorama da produção brasileira atual, com exibição de longas e uma importante e extensa programação de curtas. Para quem quer entender o que é o atual cinema brasileiro, Tiradentes é etapa essencial.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h44 PM

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Eric Rohmer: gostar ou não gostar

A informação mais reveladora, ao menos para mim, sobre Eric Rohmer, veio de um vídeo postado pelo crítico Pedro Butcher em sua página no Facebook. É a imagem do cineasta francês, morto na última segunda-feira, dançando numa pista de dança. Parece até pegadinha.

Pesquisando melhor no YouTube, logo achei um vídeo mais longo, que está no começo deste post. São os bastidores de “Conto de Verão”. No começo do vídeo, vemos Rohmer instruindo atores e dançando uma tradicional valsa.

O “choque” está lá perto dos três minutos. É uma cena de discoteca, e Rohmer se joga loucamente na pista ao som de “The Bomb (These Sounds Fall Into My Mind), do The Buckethead, hit “poperô” de 1995, que no Brasil ficou conhecido como a “melô da pizza, hambúrguer e guaraná”.

“Choque” porque Rohmer, na época, devia ter uns 76 anos. Não era só na mente que mantinha atitude extremamente jovem, criativa e produtiva.

“Choque” também porque o peso da história e de 50 anos nos fazem esquecer, às vezes, que a nouvelle vague foi um movimento de jovens querendo mexer o establishment.

Uma atitude que a cena de Rohmer dançando ilustra bem. Mas é dessas coisas inevitáveis _hoje, quando penso em Rolling Stones, por exemplo, me vêm à mente a instituição roqueira fossilizada, e não a banda revolucionária dos anos 60.

Lembrei disso porque entre os vários comentários que tenho ouvido (e lido em blogs) desde a tarde de segunda são reclamações sobre um suposto hermetismo dos filmes de Rohmer. Ou, em português claro, gente falando o quanto era chato e maçante ver os filme dele. Principalmente para aqueles que consideram cinema sinônimo de coisas extraordinárias acontecendo na tela.

Se você se interessa pelo cineasta, já deve estar cansado de saber que, em sua filmografia, a imagem costumava revelar (e, muitas vezes contradizer) aquilo que os personagens tentavam esconder na racionalização de longos diálogos.

Acontece que, grosso modo, os fãs de Rohmer têm uma relação passional com o seu cinema. Digo isso em tom pessoal. Quando “descobri”, bem tardiamente, Rohmer, por indicação de uma amiga, foi uma revelação conhecer aquelas histórias que versavam sobre desencontros amorosos de uma forma que eu nunca havia visto antes. Fazendo uma comparação esdrúxula, é como quando você ouve uma música de amor e pensa: “Mas, peraí, essa letra está contando a minha vida”.

Uma das primeiras coisas que lembrei quando recebi a notícia da morte foi uma citação feita pelo escritor francês Alain de Botton em “Ensaios de Amor” (1993). Deve ser porque li o livro na mesma época em que entrei em contato com Rohmer.

A lembrança vem bem a calhar e serve para esclarecer a questão (como é possível não gostar de Rohmer? Ou, como é possível gostar de Rohmer?).

Resumidamente, o livro conta todas as etapas de uma relação amorosa. Botton escreve em primeira pessoa e narra o encontro com a namorada Chloe. Desde o momento em que se conhecem, quando pegam o mesmo avião, passando pelo ápice do amor até o fim. Mas, num espírito Rohmer, Botton racionaliza tudo. Ele usa argumentos e fatos matemáticos, filosóficos, históricos e políticos para explicar o amor. É como se ele “desromantizasse” o amor.

A citação a Rohmer vem no capítulo 8, “Amor ou Liberalismo”, em que Botton narra a “segunda maior discussão” do seu namoro. Ela acontece quando, em frente a uma vitrine, Botton desdenha dos sapatos que a namorada adorou. “A questão sustenta interesse filosófico porque simboliza uma escolha tão radical na esfera pessoal quanto política: a escolha entre amor e liberalismo”, escreve Botton.

No tópico 12, ele continua: “A intolerância começa com dois elementos, um conceito do que é certo e errado, e a ideia de que não se pode deixar os outros viver sem a luz. Quando Chloe e eu começamos a discutir um dia sobre os filmes de Rohmer (ela os detestava, eu os adorava), esquecemos que havia uma chance de que os filmes de Rohmer pudessem ser tanto bons quanto ruins, dependendo de quem os visse. A discussão se reduziu a um exercício para forçar a outra pessoa a aceitar o seu ponto de vista, em lugar de nós percebermos a legitimidade da divergência. Da mesma forma, meu ódio pelos sapatos de Chloe não era limitado por uma sensação de que, embora eu pudesse não ter gostado deles, eles não eram inerentemente horríveis”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h43 PM

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Cinema de resistência


Cena de "Ninguém Sabe dos Gatos Persas"

Durante um bom tempo, cinema iraniano, para as plateias ocidentais, foi sinônimo de Abbas Kiarostami e filmes áridos de títulos como “O Jarro”. Para nós, chamava a atenção certa aura de exotismo vinda desse país fechado.

Um dos grandes méritos de “Persépolis” (2007), de Marjane Satrapi, foi mostrar, de forma direta e clara para não iniciados, a história recente do Irã. E, para muitos, foi um instante de revelação descobrir que parte da população local é “gente como a gente”, ou seja, pessoas abertas às influências culturais do Ocidente.

Mas “Persépolis” é uma produção França/EUA, então as coisas foram mais fáceis para Satrapi, em termos de distribuição. A coisa é mais complicada para cineastas iranianos querendo produzir dentro do próprio país. E, levando em conta dois exemplos recentes, “Procurando Elly” e “Ninguém Sabe dos Gatos Persas”, a necessidade de driblar a censura fez tais cineastas criarem filmes que pulsam energia.

Ou seja, não é apenas nas passeatas questionando os resultados das últimas eleições no país que a população demonstra força. Irã é o país para se ficar de olho. Há toda uma produção cultural feita por gente relativamente jovem, em busca de liberdade de expressão, renovando o ar não apenas no Irã.

Enquanto escrevo este post, “Procurando Elly”, vencedor do Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim, está em cartaz em três salas em São Paulo. Não perca. Vale aquela dica: corra, Lola, corra.


Cena de "Procurando Elly"

A história é simples, mas repleta de significados. Solução inteligente do diretor, Asghar Farhadi. Sob um governo repressor, metáforas são essenciais, para falar o que não pode ser dito.

Três famílias iranianas resolvem passar o final de semana na praia. Entre eles, está Ahmad, que está voltando da Alemanha. Ele está solteiro e busca uma nova mulher. Os amigos armam um blind date dele com Elly, uma das convidadas. Ela é professora da filha de uma das mulheres.

Mas, em determinado momento, as coisas começam a dar muito errado. Elly desaparece. E, em um clima de tensão constante, os amigos começam a entrar em conflito. Cada um deles começa a mostrar o pior de si. É como se fosse um filme de Lars Von Trier, mas em chave realista.

Será que tudo é uma crítica às crenças arcaicas, repressoras? Será um retrato de um Irã que quer se modernizar, mas ainda precisa prestar contas à tradição. Ou, ao contrário, será que “Procurando Elly”, no fundo, é uma defesa dos valores religiosos e familiares?

Já “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” deixa tudo claro. Como é uma produção banida do país, assim como seu diretor, Bahman Ghobadi, o filme vai direto ao ponto e não precisa de metáforas. Levou o prêmio na mostra Um Certo Olhar de Cannes, passou na Mostra de SP e, por enquanto, não há previsão de estreia no Brasil.

Em tom que mistura ficção e documentário, “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” conta a história de uma banda indie em busca de passaportes para poder viajar e tocar em Londres.

No caminho, o filme vai intercalando números musicais de bandas locais, do rap ao heavy metal, do blues ao pop eletrônico. Tudo mostrado de forma clandestina, o que dá ao filme um caráter saudavelmente subversivo e outsider.

Para quem perdeu, o negócio é seguir o exemplo iraniano e procurar caminhos alternativos.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h36 PM

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Os 12 passos do mito


Rui Ricardo Dias em cena de "Lula, o Filho do Brasil"

Todos os brasileiros sabem o final da história, mas isso não incomodou as quase 200 mil pessoas (os números ainda não estão fechados) que viram “Lula, o Filho do Brasil” no primeiro final de semana em cartaz.

Isso porque, entre outras razões, o que importa é saber como a história será contada, e não como ela termina. Questões ideológicas/políticas à parte, o que me vinha à mente durante a projeção de “Lula” eram filmes como “Star Wars”, “Matrix”, “Avatar”...

Ou seja, filmes com heróis (refiro-me aqui ao Lula fictício).

Porque as histórias contadas nesses filmes seguem estrutura similar. É o monomito, ou a Jornada do Herói, conceito que ficou famoso mundialmente quando George Lucas usou em “Star Wars” (1977) ideias descritas pelo mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987). Ele, por sua vez, partiu do “mito do herói” descrito por Carl G. Jung (1875-1961).

Escreve Joseph L. Henderson no didático "O Homem e Seus Símbolos", livro organizado e concebido por Jung:

"O mito do herói é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo. Encontramo-lo na mitologia clássica da Grécia e de Roma, na Idade Média, no Extremo Oriente e entre tribos primitivas contemporâneas. Aparece também em nossos sonhos. Tem um flagrante poder de sedução dramática e, apesar de menos aparente, uma importância psicológica profunda (...) Ouvimos repetidamente a mesma história do herói de nascimento humilde mas milagroso, provas de sua força sobre-humana precoce, sua ascensão rápida ao poder e à notoriedade, sua lutra triunfal contra as forças do mal, sua falibilidade ante a tentação do orgulho (hybris) e seu declínio, por motivo de traição ou por um ato de sacrifício "heróico", onde sempre morre".

Como se trata de algo presente no inconsciente coletivo, tal estrutura parece já ter vindo pronta para Hollywood. Depois de “Star Wars”, a estrutura virou fórmula de roteiro para certa vertente do cinema.

Em linhas gerais, com diferenças aqui e ali já que não segue a sequência temporal, “Lula” contém os 12 pontos centrais da Jornada do Herói (apesar de “Lula, o Filho do Brasil” acompanhar os passos reais do presidente, é óbvio que todo filme biográfico faz recortes específicos).

*Ainda assim, para não ter reclamações de leitores, aí vai o aviso: spoilers pela frente.

**Conforme lembrado por leitor do blog, os 12 passos da Jornada do Herói foram detalhados pelo roteirista norte-americano Christopher Vogler

1. Mundo comum
Lugar onde o herói mora antes da jornada começar. Luiz Inácio nasceu em 1945 no sertão nordestino.

2. O chamado para a aventura
A saga do herói começa quando ele recebe um chamado para a aventura. No caso de Lula, acontece quando a família recebe uma carta e decide ir a São Paulo, com ele ainda criança.

3. Recusa
O herói entra em dúvida e demora a aceitar o desafio que lhe foi imposto. O filme mostra que Lula relutou, no início, em participar das atividades do sindicato. Preferia, segundo o filme, ver novelas na TV e se dedicar à mulher.

4. Encontrando o mentor
O herói encontra uma pessoa sábia, que irá treiná-lo para enfrentar os desafios. São ao menos dois no filme: a mãe (dona Lindu, que dará coordenadas morais) e o irmão (Ziza, que irá introduzir noções políticas e sociais).

5. Cruzando o portal
O herói decide aceitar o chamado e partir para a aventura. É o momento em que Lula finalmente vai a uma reunião do sindicato.

6. Provações, aliados, inimigos
Fora de sua zona de conforto, o herói vai encontrar uma série de desafios pelo caminho. No filme, Lula terá que descobrir quem são seus verdadeiros aliados e quem são os inimigos. Um dos testes que ele enfrentará no filme (que difere da versão real) é quando vê a morte de um funcionário que fura a greve.

7. Aproximação
O herói vai se aproximando da sua grande provação, e enfrenta êxitos e dúvidas durante as provações a que é submetido. Entre outros momentos, um que pode ser destacado é quando Lula fica sabendo da morte do pai, ou quando entra em dúvida sobre se deve ou não continuar com a greve.

8. Provação traumática
É o momento crítico da jornada. Em “Lula, o Filho do Brasil”, é também o momento mais triste, quando o personagem-título perde o filho e a mulher, no parto. Outra provação também é quando Lula perde o dedo.

9. Recompensa
Após sobreviver ao grande trauma, o herói emerge da batalha mais forte, geralmente com um prêmio. Em “Lula”, é quando ele reúne as forças e decide mergulhar de vez no movimento sindical.

10. O caminho de volta
O herói volta temporariamente para o mundo comum. Deprimido, Lula tem todo o apoio da mãe para se recuperar da perda da mulher e do filho. Em seguida, quando a mãe começa a ter problemas de saúde, Lula tentará estar sempre ao seu lado.

11. Ressurreição
Outro teste crucial, em que o herói quase encontra a morte e deve usar o que aprendeu. É quando Lula, já líder sindical, é preso.

12. Regresso.
Estágio final, quando o herói retorna mudado, crescido, com um “elixir” para ajudar as pessoas. No final do filme, vemos imagens de arquivo de Lula já eleito presidente, desfilando em carro aberto em Brasília, durante a posse.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h30 PM

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