Ilustrada no Cinema

 

 

2009, o ano que não terminou

Falta pouco mais de um dia para o ano acabar. Mas, para o cinema, 2009 vai durar ainda alguns anos. É o “zeitgeist”, o espírito de época, que paira sobre anos recentes (para frente e para trás).

Basta ver qualquer lista de melhores filmes do ano. Grosso modo, estão lá no meio produções com alguma ligação forte com o real, o verdadeiro, como se uma crise de identidade do cinema estivesse anunciada.

Os fatores, sabemos, são vários. A proliferação de imagens caseiras pelo YouTube, o 11 de Setembro, a crise da indústria, downloads etc., causaram mudanças definitivas no modo de se ver e entender cinema. E 2009 é um dos anos em que toda essa carga de informações desembocou com força.

Listei aqui alguns filmes relevantes, não necessariamente os melhores, que estrearam no Brasil em 2009 (muitos são de 2008).

Imitando documentários

“Distrito 9”, com suas imagens que imitam noticiários da CNN, e “Atividade Paranormal”, com a câmera tremida e a estética de YouTube, deixam claro: para conquistar a atenção do público, é necessário se aproximar do real, como se faltasse credibilidade ao cinema.

“Entre os Muros da Escola” segue caminho paralelo. Ao criar uma representação da realidade que remete ao naturalismo de documentário, o diretor Laurent Cantet conseguiu imprimir vigor à discussão sobre o multiculturalismo.

“O Casamento de Rachel”
O diretor, Jonathan Demme, brilhou nos anos 90 com filmes como “O Silêncio dos Inocentes”. Parecia meio perdido nos últimos anos. Temos o treme-treme da câmera, muitas vezes sem necessidade, que simula registros caseiros em festas de casamento. Demme seguiu a moda para se reinventar.

“O Lutador”
Aqui prevalece a estética dos irmãos Dardenne e o tom realista. Mas, antes disso, temos Mickey Rourke que parece nem estar interpretando. Dá a impressão que o diretor falou: “Vai lá e conta sua vida pra câmera”.

Fantasia de real

“Avatar”
O filme de James Cameron nos lembra que o cinema é, antes de mais nada, uma arte dependente e fruto da tecnologia. As câmeras desenvolvidas especialmente para essa aventura são capítulo importante nessa história. No final das contas, a sensação da realidade proporcionada pelo 3D nos remete à “Chegada do Trem na Estação”, um dos primeiros experimentos dos irmãos Lumière, que, diz a lenda, fez a plateia sair correndo do cinema achando que um trem iria atropelá-los.

“Watchmen”
O filme dividiu opiniões, mas a essência da HQ de Alan Moore estava lá: o que seria do mundo se sujeitos sem superpoderes resolvessem vestir máscaras e fantasias para combater (ou perpetuar) o crime? É a mesma questão central que move o Batman realista de Christopher Nolan.


O selo “baseado em fatos reais”

Do telefilme tosco que passa na TV no sábado à noite às novas produções dos principais autores do cinema, entre biopics e casos estranhos, os tais “baseados em fatos reais” não são invenção da década. Mas não há como negar que o fetiche, sim. Como se o pensamento fosse: “Ah, é baseado em fatos reais? Então eu vou ver”. “A Troca”, “Milk” e “Che” são alguns dos excelentes filmes da safra recente.

Tudo que você está vendo é mentira

“Bastardos Inglórios”, “Abraços Partidos”, “Ervas Daninhas”, “Aquele Querido Mês de Agosto”, “Hotel Atlântico”, “Synedoque”, entre outros, são filmes que discutem o próprio cinema. Questionam a capacidade do cinema de reproduzir o real. Eles nos lembram o tempo todo que aquilo que estamos vendo na tela não é de verdade. Que tudo é cinema, que tudo é representação da realidade. São filmes que parecem nos dizer que tudo é um engodo. Mas um maravilhoso engodo.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h13 PM

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Fidelidade às lágrimas


Cena de "Sempre ao Seu Lado"

Ontem levei minha mãe para ver "Sempre ao Seu Lado", "o" filme de cachorro da temporada. Do mesmo jeito que nesta época temos a Xuxa na telona ou filme francês com o Mathieu Amalric, o gênero filme fofo com bichinhos tá aí para nos fazer debulhar em lágrimas.

Sessão das 4 da tarde no shopping, e aqui e ali algumas famílias orientais se acomodavam nas cadeiras. Essa fidelidade de descendentes de japoneses aos poucos longas do país que estreiam por aqui sempre me fascinou. "Sempre ao Seu Lado", apesar de ser uma produção norte-americana, conta uma história famosa no Japão, a do cão Hachiko e seu dono.

É nessas horas que o jornalista/crítico de cinema se revela um ser bipolar. Vou citar minha experiência, para ser menos genérico. O lado racional diz que o crítico deve analisar a obra com isenção, ver com olhos rigorosos, contextualizar o filme dentro da história do cinema, tentar entender a relevância dos temas propostos, a moral em jogo, os aspectos técnicos de direção, atuação etc. etc.

Mas ao mesmo tempo que eu via e tinha noção da fragilidade de "Sempre ao Seu Lado" e os mecanismos usados para conduzir a emoção do espectador, não pude deixar de me envolver com a história.

Antes de entrar na sala, já sabia o que esperar. Que se trata da história real de um cão que, mesmo após a morte do dono, vai todos os dias à estação de trem à sua espera. Que o apelo às lágrimas era o aspecto central. Que da música melosa aos inúmeros closes em Hachiko, "Sempre ao Seu Lado" nem parece cinema, mas sim uma visita à vitrine do pet-shop em que todos ficam com cara de bobo e se pegam falando com voz fininha.

Depois de uns 3 minutos de projeção, tudo isso já estava na tela. Ou seja, "Sempre ao Seu Lado" é um filme que promete algo e o entrega ao espectador. Visto dessa forma, é honesto.

E vejo relevância em "Sempre ao Seu Lado", ao menos como produto, porque é uma espécie de outro lado do filme de bichinho do final do ano passado, "Marley e Eu". Aliás, se formos analisar esse gênero, tenho sentido uma certa mudança no foco. Se antes tínhamos produções como "Lassie", em que os bichos eram os astros, com seus dotes físicos, lealdade e esperteza, há agora um enfoque claro no público consolidado que trata seus bichos de estimação como pessoas e que torram altas quantias de dinheiro na sua criação. Fenômeno dos dias atuais que o cinema não poderia deixar de retratar, portanto.

E não pude deixar de levar a sério ao menos duas questões levantadas pelo filme, que o tornam mais ousado que "Marley". Em determinado momento, o personagem de Richard Gere comenta com um amigo que Hachiko não vai buscar a bolinha que ele atira para brincar. O amigo, oriental, comenta algo do tipo: "Ele é japonês, e não americano. Por isso ele não tenta ficar te agradando". Há, nesse comentário, algo maior para se pensar.

"Sempre ao Seu Lado" é bem japonês, ao menos no fato de tratar a questão da morte sem rodeios. Há algo de ousado numa produção em que o personagem principal (que é Richard Gere, e não o cão) morre antes de o filme acabar. Claro que somos manipulados pelo diretor, mas não há como negar que surge um vácuo quando Richard Gere desaparece. Daí para sentirmos a mesma angústia que o cão sente é um passo. E é aí que "Sempre ao Seu Lado" se torna um filme digno. Não um grande filme, mas um filme Ok, do diretor Lasse Hallström, que fez o belo "Minha Vida de Cachorro" (1985).

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h59 PM

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Alain Resnais, 87, o jovem


André Dussollier e Sabine Azéma em cena de "Ervas Daninhas"

Se a programação de cinema não mudar, nesta sexta-feira teremos dois filmes de Alain Resnais em cartaz em São Paulo. “Medos Privados em Lugares Públicos” é daqueles fenômenos cultivados pelos programadores do HSBC Belas Artes: está em cartaz desde 13 de julho de 2007. “Ervas Daninhas”, o mais recente, estreia agora.

Aos 87 anos, Resnais segue o passo de outros veteranos, como Manoel de Oliveira, 101, e Woody Allen, 74, e parece rejuvenescer a cada filme.
Tudo bem que Resnais tem uma produção espaçada se comparada a esses diretores: cinco filmes nos anos 80 e quatro nos 90, por exemplo. Mas o fato é que ele praticamente renasceu para os brasileiros, com “Medos Privados”.

Não são poucos os que simplesmente odeiam esse belo filme. É até compreensível. A referência sobre Resnais sempre será “Hiroshima Mon Amour” (1959) e “O Ano Passado em Marienbad” (1961), filmes graves, modernos e desconcertantes.

“Medos Privados” e, agora, “Ervas Daninhas”, parecem ser a expressão de alguém que cansou da seriedade, da pompa. Mas, ao contrário de anunciar senilidade, demonstram um jeito coerente e mais flexível de lidar com os mesmos temas.

O colorido excessivo e artificial dos dois filmes são como a antítese da beleza formal do preto e branco de “Hiroshima” e “Marienbad”. Mas não estão lá a memória que se apaga, a incerteza sobre o real e o imaginário, a modernidade que agora se traveste de kitsh?

Neste final de ano, ver filmes de Alain Resnais é daquelas tarefas que também ajudam a entender a produção cinematográfica atual. “Ervas Daninhas” parte de situações banais que poderiam estar em qualquer comédia hollywoodiana, dessas que os casais adoram ver em shopping center. Mas trata-se de uma reflexão sobre a própria linguagem e as nossas expectativas depois de ficarmos com a retina amortecida com tantos filmes de Nora Ephron e Meg Ryan.

De um lado temos o blockbuster autoral “Avatar” buscando no passado de faroestes a fórmula para o futuro do cinema. Alain Resnais vem lá dos tempos de Godard e Truffaut, de quando os franceses anunciaram a revolução do cinema baseada na simplicidade e no despojamento. Resnais é o símbolo da sobrevivência e relevância de uma época áurea da modernidade _que parece às vezes ameaçada de ser mero verbete de enciclopédia. E, melhor, faz isso mostrando que o passado não é algo estanque, mas que aponta novas direções.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h39 PM

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Enquanto ainda há autores


Mariana Ximenes e Júlio Andrade em "Hotel Atlântico"

Neste final de semana, em que os cinemas vão ficar ainda mais movimentados, com a estreia de “Avatar” ao lado dos blockbusters “Lua Nova” e “2012”, sugerir filmes nacionais como “Hotel Atlântico” e “É Proibido Fumar” soa até como ingenuidade.

O que me vem à mente agora são duas matérias que a repórter Ana Paula Sousa fez para a Ilustrada. Em uma delas, publicada em 11/12, o diretor-presidente da RioFilme dizia: “Se queremos enfrentar o produto estrangeiro, temos de priorizar o que é competitivo. Hoje, 80% da produção é de filmes autorais ou documentários. Ficam uma semana em cartaz e ninguém vê”.

Em outra matéria, de 6/10, sobre produtores de Hollywood de olho no potencial do mercado brasileiro, o vice-presidente internacional da Paramount, Matt Brodlie, era sincero: “A Paramount faz ‘Transformers’, ‘Indiana Jones’. Não temos interesse em filmes de autor, mas em filmes locais que sejam comerciais. Cineastas que fazem filmes porque amam cinema é uma coisa, indústria é outra”.

Ainda que tais afirmações sejam revoltantes num primeiro instante, não há como negar que fazem sentido sob determinado aspecto. O problema, grave, é o que acontece a partir desses pensamentos, como se o vilão da história fossem o filme autoral.

Explico.

Filmes têm que ser vistos, senão há pouco sentido em produzi-los. Melhor ainda quando dialogam com um público maior e geram uma renda que sustente uma indústria.

É melhor ainda quando a equação reúne apelo popular e respeito à inteligência do espectador. Em Hollywood, temos Spielberg, por exemplo. Hitchcock, em seu tempo, era visto como um bom diretor de produções comerciais. Truffaut já dizia que um filme bom é aquele com o qual o sujeito comum, sem nenhum conhecimento prévio de cinema, consegue se emocionar e se divertir.

Em termos de números, 2009 foi um bom ano para o cinema nacional, o melhor desde 2003 (renda de R$ 129 milhões, até novembro, contra R$ 89 milhões em 2008). Os filmes mais vistos foram “Se Eu Fosse Você 2”, “A Mulher Invisível”, “Os Normais 2”, “Divã”, “O Menino da Porteira” e “Besouro”.

Se, por um lado, é animador ver que o cinema brasileiro não está morto em termos de bilheteria, por outro é deprimente imaginar que alguns dos títulos citados transformam o cinema numa grande sucursal da televisão.

A partir daí, surgem algumas questões. Filmes com esse perfil serão os visados a ganhar incentivos financeiros? Ao mirar o “povão”, produtores sugerem que pessoas das classes C e D só se interessam por narrativas mais “mastigadas”, vindas da estética novelesca da televisão? Os filmes brasileiros autorais terão um fim próximo?


Glória Pires e Paulo Miklos em "É Proibido Fumar"

Como não sei dar as respostas, fui logo ver “Hotel Atlântico” e “É Proibido Fumar” antes que eles saiam de cartaz. Se pelo resultado em si são filmes que merecem aplausos, nesse cenário onde nadam contra a corrente eles ganham ainda mais o meu respeito.

O primeiro é mais difícil de agradar. De cara, já rompe com uma convenção. Temos um personagem que é transparente, difícil de ganhar a empatia do público. Ele é como um nada, que sai de lugar nenhum para chegar a qualquer lugar. Gosto do retrato do Brasil profundo que “Hotel Atlântico” propicia. Parece que não há nada mais moderno que Suzana Amaral no cinema brasileiro atual.

Já o excelente “É Proibido Fumar” tem uma relação mais ambígua com essa mentalidade de cinema “mastigado” vindo da televisão. Glória Pires, a protagonista, ganha logo de cara a cumplicidade do espectador. Temos situações engraçadas, de fácil entendimento. Mas a diretora, Anna Muylaert, não entrega o jogo fácil. O drama que propicia a virada na trama, a chantagem, não é mostrado diretamente.

Ficamos sabendo de tudo pelas entrelinhas, pelas sugestões das imagens. Anna não precisa explicar detalhe por detalhe, ela se recusa a pegar na mão do espectador.

No contexto atual do cinema brasileiro, o que Suzana Amaral e Anna Muylaert fazem chega a ser tão ousado quanto o 3D de “Avatar”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h21 PM

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O primo rico e o primo pobre


Cena de "Avatar"

Tem assuntos dos quais não dá para escapar. E, a partir desta semana, só vai dar “Avatar”, o primeiro filme de James Cameron desde “Titanic” (1997).

Você já deve ter lido por aí que o diretor levou 12 anos para conseguir fazê-lo porque teve que esperar a tecnologia se desenvolver; que custou algo em torno de R$ 230 milhões, segundo o site Imdb (os números chegariam a R$ 400 mi contando gastos em publicidade); que o estúdio tenta empurrar a ideia de que a revolução causada pelo filme será semelhante à chegada do som e da cor ao cinema etc. etc.

Mas, e aí? O filme é tudo isso mesmo?

Sim e não.

Sim porque “Avatar” empolga. Não porque “Avatar” não muda radicalmente a forma de se contar histórias no cinema (posso mudar de ideia daqui a uns dez anos).

Fui assistir a “Avatar” ontem em sessão para a imprensa e, por incrível que pareça, ao final da projeção eu me lembrei de “Atividade Paranormal”, que vi no domingo.

Obviamente a saga de ficção científica de Cameron não tem nada a ver com o terror barato do estreante Oren Peli, em termos de trama.

Mas os dois filmes evidenciam como Hollywood está desesperada para sair do buraco, para levar de volta às salas de cinema aquelas pessoas que preferem o DVD, o download, a TV a cabo, a internet.

A grande estrela, nos dois casos, é o marketing, a propaganda (seja dos estúdios, seja do público), o velho boca a boca.
“Avatar”, que tem pré-estreias nesta quinta-feira, pretende ser a cereja do bolo do formato 3D, que, os números comprovam, é o que hoje faz um número expressivo de pessoas ir ao cinema.

Na prática, o longa não é uma experiência transcendental. Ele oferece aquilo que já vimos em várias produções 3D, mas apenas de forma mais ostensiva e caprichada (na sala IMax do Bourbon Shopping, as imagens e as legendas ficaram fora de foco em alguns momentos). A história de que “Avatar” te leva para dentro da tela é exagero. O velho e bom 2D, quando tem roteiro bem amarrado, atores eficazes, direção de arte impecável etc. também faz o espectador esquecer do seu mundo.

Por outro lado, o que faz “Avatar” ser um bom filme não é esse blablablá tecnológico, mas sim a velha e tradicional jornada do herói, já descrita por Joseph Campbell e levada às telas em sagas como “Star Wars”, “Matrix” e “Senhor dos Anéis”. Todos os elementos simbólicos estão ali: um herói em formação que encontrará em contato com novos valores, que irá percorrer um longo caminho ao ouvir o chamado da aventura etc.


Cena de "Atividade Paranormal"

“Atividade Paranormal” é como se fosse o outro extremo da equação. O orçamento é estimado em US$ 15 mil (quantia que não deve pagar nem o salário do estagiário de produção de “Avatar”). Já rendeu mais de US$ 107 milhões. Não é preciso ser nenhum especialista para ver que foi um bom negócio.

O marketing, nesse caso, foi mais discreto, mas se espalhou rapidamente. A campanha diz algo na linha “se você quer ver esse filme em sua cidade, visite o site tal”. E, de boca em boca, “Atividade Paranormal” pegou.

Já tínhamos visto esse fenômeno em 1999, com “A Bruxa de Blair”. Novamente, vemos na tela os supostos registros em vídeo caseiro de algo que realmente aconteceu (muitos desavisados por aí tendem a acreditar ser de fato real). E, ao contrário de “Avatar”, o fetiche é o mal-acabamento, as imagens toscas, mal-enquadradas, de câmeras semiprofissionais.

No final das contas anima saber que o cinemão comercial e seus diretores, produtores e marqueteiros encontram artifícios e meios inteligentes e dignos, como “Avatar” e “Atividade Paranormal”, para continuar atiçando a curiosidade do público e fazê-lo ir à sala de projeção mais próxima. A lamentar o espaço em circuito que tais filmes retiram das produções mais autorais. Mas isso é outra história.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h15 PM

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Os vampiros de Almodóvar


Diego e Harry, os criadores dos vampiros de "Abraços Partidos"

Levando em conta que “Lua Nova” é a segunda maior abertura da década no Brasil, atrás apenas de “Homem-Aranha 3”, vale retomar o assunto.

No post anterior eu falava sobre os castos vampiros de “Lua Nova” e os comparava a outros similares do gênero. Esqueci de falar que, no mesmo final de semana que assisti à segunda parte da saga Crepúsculo, “vi” o melhor filme sobre os sanguessugas dos últimos tempos (digo isso porque ainda não tive a chance de conferir a série “True Blood”, que fontes confiáveis dizem ser sensacional).

“Vi” entre aspas porque “Doe Sangue” não existe, ele é um filme dentro do filme “Abraços Partidos”, o mais recente de Pedro Almodóvar, que, assim como “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, é uma homenagem ao cinema.

Posso estar sugestionado e enganado, mas, para mim, soou como uma alfinetada de Almodóvar à saga Crepúsculo (aliás, uma das reclamações que mais tenho ouvido é sobre esse clima de “liberou geral” nas tradições vampirescas. Que história é essa de vampiro sair passeando em plena luz do dia?).

“Doe Sangue” não aparece em imagens dentro de “Abraços Partidos”. Ele é um roteiro em processo de criação feito por Diego (o filho da produtora) e Harry (o diretor cego); apenas ouvimos o diálogo entre os dois narrando a trama.

A história do filme imaginário é sobre um grupo de vampiros que trabalha num hospital onde pessoas vão doar sangue. Vou transcrever uns pedaços, baseado no que achei aqui:

DIEGO

Os vampiros seriam como um grupo étnico, completamente assimilados dentro da sociedade espanhola (...) Há vampiros que ocupam importantes cargos, mantendo segredo (como a Opus Dei). Mesmo vivendo nas sombras, eles conseguiram grande influência social e poder econômico.

HARRY

Eles controlam várias indústrias. Como a responsável pelos óculos escuros, por exemplo.(...)

HARRY

Protegidos por filtro solar, eles podem trabalhar durante o dia. A loção tem que ser tão densa quanto uma armadura.

DIEGO

(empolgado) A história poderia começar assim: uma mulher deslumbrante, totalmente pelada, passando o filtro solar no corpo antes de ir trabalhar no hospital.

HARRY

Que ótimo começo! Também precisamos de uma história de amor.

DIEGO

Uma história de amor híbrido, entre uma vampira e um cara normal.

HARRY

Como em “Cat People” , uma história de amor entre seres de diferentes espécies...

DIEGO

Ela trabalha em um desses laboratórios onde o sangue é doado e eles mesmo consomem. O cara vai fazer uma doação. Eles se gostam de imediato. Após a primeira picada de agulha em sua veia, ela fica completamente excitada. Então eles começam a namorar. Mas ela não quer transformá-lo num vampiro (...)

HARRY

Mas eles gostam de sexo, certo?

DIEGO

É claro. Este é um dos problemas, o casal se deseja desesperadamente. Mas, quando chega a hora do sexo, ela fica pudica.

HARRY

Por quê?

DIEGO

Porque ela tem medo de perder o controle ao ficar excitada e dar uma mordida na jugular dele. (...) Quando eles estão excitados, ela deixa ele fazer de tudo: pela frente, por trás, tudo que ele quiser, menos na boca

HARRY

E os peitos dela?

DIEGO

Também. Mas aí é um território de alto risco. Quando ele chupa os peitos dela, ela tem que proteger a boca com um travesseiro, que ela acaba retalhando com seus caninos.

*****

Bem, daí para frente eles descrevem como é o sexo oral, e como ela acaba usando uma focinheira nessas horas....

Travesseiros, focinheiras....Seria essa a solução para o drama de Bella e Edward?

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h42 PM

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Sonhando com vampiros


Cena de "Lua Nova"

Há alguns meses, duas leitoras se queixavam na seção de cartas do “Guia da Folha” sobre a publicidade do filme sueco “Deixa Ela Entrar”. Uma delas dizia que, numa sessão no Espaço Unibanco Pompeia, cerca de dez pessoas levantaram; um casal resmungou: “Que lixo”. Segundo ela, a propaganda vendia gato por lebre, algo na linha: “Se você gostou de ‘Crepúsculo’, vai gostar desse”.

Nada mais justo que as leitoras e o público que foi “enganado” tenham se revoltado. Ainda que abordem vampiros adolescentes, “Deixa Ela Entrar” e a saga Crepúsculo caminham em direções opostas.

Não são apenas nos números: “Lua Nova”, o segundo episódio da saga, estreou em 142 salas, em São Paulo. “Deixa Ela Entrar”, em dez. À parte as questões mercadológicas, essa diferença é simbólica.


Cena de "Deixa Ela Entrar"

Os vampiros de “Lua Nova” são conciliadores, seguem uma lógica confortadora para o público educado em narrativas de telenovelas. A vampira de "Deixa Ela Entrar” e as questões que giram em torno dela são desagradáveis, desafiadoras, deixam o espectador com uma sensação desagradável ao sair do cinema. Ou seja, quem quer apenas se refugiar dos problemas do mundo e sonhar um pouco dentro da sala escura, se dará melhor com “Lua Nova”.

Para desfrutar plenamente a saga Crepúsculo é necessário ser adolescente, ou ao menos ter uma mente adolescente. É tudo uma questão de geração. Os filmes (não li os livros de Stephenie Meyer) têm relação direta com a geração emo e o romantismo exacerbado, a sensibilidade e o gosto por rostos pálidos.

Significados não faltam em Crepúsculo. O drama que move a saga dá a dica. Garota se apaixona por um vampiro. Ela quer ser mordida por ele, para viver eternamente ao seu lado. Ele, apesar de amá-la, titubeia. Não quer tirar sua alma, ou algo do tipo.

Em “Lua Nova”, surgem aos montes questões com as quais os adolescentes conseguirão se identificar. O pé na bunda que a moça leva, entre frases na linha “O problema não é você, sou eu”. A ideia de um amor eterno, em que os dois lados nunca envelhecerão. A sugestão de um amor “superior”, tão intenso que dispensa os “meros” prazeres carnais do sexo.

Se, por um lado, são os vampiros mais frouxos da história do cinema, não há como negar que são os vampiros mais transgressores, justamente por deixarem o apelo sexual de lado. Tome como exemplo os vampiros do cinema dos anos 80, época dos “pais” dos emos, os góticos.


Cena de "Fome de Viver"

“Fome de Viver” servia como metáfora para a Aids, e Catherine Deneuve era a vampira que colecionava e descartava amantes ao longo dos séculos. Ela escolhia um parceiro e lhe prometia uma falsa vida eterna.


Cena de "Os Garotos Perdidos"

 Ou, então, “Os Garotos Perdidos” e seus vampiros adolescentes, que eram como estrelas do rock, amantes da desordem, da noite e do sexo. Não por acaso, o cantor Jim Morrison é referência no filme.

Não que Crepúsculo não tenha seus méritos. O público gosta de sonhar, e não foi essa série que inventou os príncipes encantados. Mas assistir a “Deixa Ela Entrar” é como encarar a outra face da moeda. É lembrar o quanto esse amor eterno pode ser cruel e pervertido. É imaginar que viver ao lado de uma pessoa pode ser uma prisão e um inferno. Coisas, enfim, que preferimos nem pensar e deixar de lado.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h40 PM

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