Carol Sachs/Divulgação Paulo José, em "Insolação", um dos brasileiros em Veneza-09
Por Leonardo Cruz
Dois filmes brasileiros foram selecionados para a 66a edição do Festival de Veneza, que acontece de 2 a 12 de setembro.
“Insolação”, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, serão exibidos dentro da seção Horizontes, principal mostra paralela competitiva do festival italiano.
“Insolação” entrelaça quatro histórias baseadas em contos russos do final do século 19 – em comum, todas tem o amor como tema. Daniela e Felipe são parceiros de longa data no teatro, e ele faz sua estreia na direção em cinema. Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Leandra Leal estão no elenco.
“Viajo Porque Preciso” também é fruto do trabalho de dois antigos parceiros. Entre outros trabalhos, Karim e Marcelo escreverem juntos os roteiros de “Madame Satã”, dirigido por pelo primeiro, e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, dirigido pelo segundo. O novo longa é uma narrativa ficcional que usa como base imagens que os cineastas captaram na virada do milênio para um documentário chamado “Sertão de Acrílico Azul Piscina”. Conta a história de uma pessoa que viaja e vive uma desilusão amorosa.
A lista completa de filmes de Veneza 2009 está aqui. Entre os destaques, os novos filmes de Werner Herzog, Jacques Rivette, Claire Denis, Fatih Akin e Michael Moore.
Quem ainda não é adepto do download de filmes que atire a primeira pedra!
Como aconteceu há alguns anos com a música e culmina hoje com a proclamada “morte do CD”, encontra-se em pleno curso a mudança de paradigma nas formas de consumo do cinema (ou melhor, do audiovisual, já que o tráfego de clipes e programas de TV pela internet é tanto quanto ou maior que o de cópias de “blockbusters”).
Os distribuidores e exibidores se queixam, claro, e ameaçam com o apocalipse. Afinal, se o ganha-pão deles circula livremente e sem custos pela rede, de onde vai sair o tão suado dinheirinho?
Na edição deste bimestre, a respeitável “Film Comment” abriu espaço para um divertido artigo do crítico argentino Quintín intitulado “Black Crow Blues”. No texto de duas páginas, Quintín descreve suas desventuras em um site de download que supera, em oferta e variedade de títulos, o que se poderia imaginar da reunião das maiores e mais completas cinematecas de todo o mundo.
Como nem tudo é só alegria, o tal Black Crow (sob o qual mal se disfarça o irresistível site Karagarga) impõe regras proporcionalmente rígidas ao paraíso que suas fileiras representam para seus associados. E Quintín descreve com graça as várias fases de seu relacionamento com essa tentação, desde os primeiros flertes, passando pela paixão fulminante e pelos riscos de abandono até entrar numa espécie de idade do juízo. Legal!
O que mais chama a atenção no artigo é uma nota curta, impressa em vermelho e agregada pelos editores da “FC”, onde se enxergam os dez dedos de cautela por trás da decisão de publicá-la. Nela se lê: “Este artigo diz respeito a um bastante conhecido site de compartilhamento de arquivos. Mesmo que ‘Film Comment’ não perdoe tal atividade, trata-se de uma parte proeminente da atual cultura de cinema e por isso fomos levados a tratá-la”.
Pois bem.
E a circulação legal de arquivos enquanto isso?
Seguindo o modelo da indústria fonográfica, os paquidermes da produção têm ampliado, ainda que muito timidamente, a oferta em VOD ou “video on demand”. A matriz da Warner disponibiliza (apenas para quem reside nos EUA), além do grosso de sua produção contemporânea, parte já relevante de seu catálogo histórico, ou seja, filmes dos anos 30 em diante, antes reservados aos alucinados de cinematecas.
Nesta semana, a Disney anunciou a intenção de disponibilizar online uma ampla série de seus produtos, incluindo filmes, programas de TV e games. “Àqueles dispostos a pagar”, esclarece o comunicado.
Na França, as Éditions Montparnasse mantêm serviço semelhante, com uma lista de títulos bastante desejável, infelizmente restrita aos habitantes da França, Suíça, Bélgica, Mônaco, Luxemburgo e Andorra.
Enquanto isso, no nosso cantinho de Terceiro Mundo tudo parece emperrado por limitações estruturais da rede (leia-se, universalização da banda larga, cabeamento em fibra ótica). Em 2007, a HBO havia anunciado que “até o final do ano” disponibilizaria seus conteúdos de séries. Desde então, não se ouviu mais falar no projeto.
Em abril deste ano, a direção do braço de distribuição digital da Warner andou dizendo que conteúdos da empresa estarão disponíveis “em breve” para usuários da América Latina.
Enquanto as grandes lançam esses balões de ensaio, seguimos timidamente alguns modelos já existentes. A Saraiva Digital, por exemplo, iniciou em maio um serviço que traz opções de aluguel (a partir de R$ 1,90, para títulos infantis, até R$ 4,90 para “lançamentos”) ou de venda (a preço semelhante aos de DVDs em ofertas).
A pirataria, por outro lado, não demonstra tamanho acanhamento, como comprova a autêntica segmentação de mercado operada pelos camelôs que atuam na região do Espaço Unibanco de Cinema.
Quando o negócio legal um dia sair da letargia vai acabar descobrindo aquilo que todo mundo que quer ver filmes já sabe: “tá tudo dominado!”.
*
Este artigo diz respeito a um bastante conhecido site de compartilhamento de arquivos. Mesmo que o Ilustrada no Cinema não perdoe tal atividade, trata-se de uma parte proeminente da atual cultura de cinema e por isso fomos levados a tratá-la.
Kimberly White/Reuters Werner Herzog, que diz ver apenas dois filmes por ano
Por Fernanda Ezabella (em Los Angeles)
O diretor alemão Werner Herzog, 66, tem dois longas inéditos na manga e um curta que rodou na Etiópia, além de uma ópera montada na Espanha e um livro em inglês, tudo realizado nos últimos 11 meses.
A seguir, leia trechos inéditos da entrevista que o cineasta deu à Folha, em sua casa em Los Angeles, cidade onde mora há cerca de dez anos. Aqui, ele fala sobre Hollywood, reality shows, financiamento de filmes e a busca pelo “êxtase da verdade”.
Como é viver em Los Angeles, onde se concentra a indústria do cinema? Ela existe, mas não me afeta. Não que eu vá dizer que é ridícula. É como deve ser. Eu amo alguns filmes de Hollywood, como os filmes de Fred Astaire, são alguns dos melhores que Hollywood já criou. Então, tem sua beleza. Mas só por coincidência eu vivo aqui. Não sou parte disso. Hollywood é uma definição cultural. Quando você vê “Transformers” ou “Transporters”, qual é mesmo o nome? Existe uma certa definição cultural ali. E a minha definição cultural é bavariana.
Mas também existem os filmes independentes em Hollywood. Cinema independente não existe. É um mito. Cinema independente apenas existe nos filmes caseiros, que você faz nas férias, na praia no Havaí, para mostrar para sua família. Todo o resto é dependente, de finanças, sistema de distribuição, mídia, de tudo, dos sindicatos, sindicatos de atores, diretores, roteiritistas.
E quanto aos programas de TV americanos? Li que o senhor gostava dos reality shows. Não, não vejo nada. Na época assisti ao [reality] da [ex-coelhinha da ‘Playboy’] Ann Nicole Smith. Claro que ela era um fenômeno interessante, porque você tem que pensar em novos ícones de “beleza”, e eu tenho que dizer isso entre aspas. É uma beleza disforme, como os bodybuilders. Quase grotesco. E por causa disso ela era um fenômeno interessante. O que te faz dizer então que Los Angeles é a cidade com mais substância dos Estados Unidos? Por exemplo, o Museum of Jurassic Technologies, que provavelmente você nunca conheceu. Foi um homem genial que o fundou, fica no Venice Boulevard e muito do conteúdo do museu é completamente fantástico. E a 30 minutes daqui, em Pasadena, tem um laboratório de aviões a jato, com um centro de controle de inúmeras missões e um arquivo da Nasa com milhões e milhões de coisas preservadas de explorações do nosso sistema solar, da Lua. Los Angeles é cheia de coisas assim. E você encontra aqui os melhores escritores, fotógrafos, músicos, as coisas realmente são feitas aqui. Mas você precisa olhar além da superfície. E eu vivo completamente além da superfície. Por isso as pessoas mal sabem que eu vivo aqui.
O senhor costuma ir com que frequência aos cinemas? Eu raramente vejo filmes. Nunca vou a nenhuma première de cinema, vejo talvez dois filmes por ano.
Por quê? Não sei. Não tenho muito tempo de ver filmes. Nos últimos 11 meses, eu fiz dois longas-metragens e um curta na Etiópia. Fiz uma ópera (Parsifal) em Valência, publiquei o livro “Conquest of the Useless” em inglês e trabalhei muito na sua tradução, e agora estou preparando outros projetos. Não sou um workaholic, eu trabalho muito focado e quieto e é isso. Eu nunca fui de ver muitos filmes. Nunca, nunca. Nem quando era mais jovem e decidiu fazer cinema? Não, eu não via muitos filmes.
O senhor gosta de dizer que o cinema verdade [vertente do documentário] não vai a fundo na verdade. Mas, ao mesmo tempo, diz que seus documentários não são documentários. Isso me levaria 48 horas para explicar. Mas, para encurtar, digo que estou atrás de algo diferente do que o cinema verdade, simplesmente porque o cinema verdade é muito baseado em fatos, e fatos não signifcam necessariamente a verdade.
Mas, quando você faz um documentário, você encena, repete as cenas várias vezes. Como acha que está chegando mais perto da verdade assim? Estou chegando perto da poesia, perto da imaginação, de algo que nos ilumina. E daí temos outra qualidade de verdade nisso, é um êxtase da verdade. E da onde vêm as ideias para tantos filmes? Elas sempre vêm até mim, como uma invasão, como ladrões na calada da noite, invadindo uma casa. Agora, enquanto estamos sentados aqui, sete, oito novos projetos estão forçando a porta para entrar. Não é que eu fico planejando uma carreira, eu nunca tive uma carreira. Você vê, outros [diretores] vão atrás de livros best-sellers, recém-lançados, para ver o que dá para transformar em um filme. Eu nunca estive nisso. Mas você pode ficar tranquila, eu tenho muitas histórias boas ainda para contar. Ficou mais fácil para financiar seus filmes hoje? Nao. É mais difícil hoje.
Por quê? Não vou falar da crise financeira, que claro que dificulta as coisas. Mas todos os distribuidores que existiam dos meus filmes, ou as distribuidoras dos meus filmes no Brasil e outros lugares, se extinguiram. E o público quase do mundo inteiro mudou sua atenção para filmes mais como “O Exterminador do Futuro” e menos para filmes como “Aguirre”. Então é uma grande mudança. E agora a atenção é mais para a internet. Mas eu nunca vou reclamar, porque sempre dou um jeito de fazer o meu próximo filme, e o próximo e o próximo.
*
LEIA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA Este post complementa a longa entrevista com Werner Herzog publicada na versão impressa da Ilustrada deste domingo. Nela, o cineasta alemão fala sobre as filmagens de “Fitzcarraldo” no Brasil e no Peru, tema do livro “Conquest of the Useless”, em que Herzog publica seus diários sobre o período em que passou na selva amazônica rodando o longa. Fala também de sua relação com Glauber e diz que Garrincha é um de seus grandes ídolos. Assinantes da Folha e do UOL podem ler a íntegra dessa entrevista aqui, a partir da manhã deste domingo.
Começam a tomar forma as esperadas mudanças editoriais da “Cahiers du Cinéma”. A revista de cinema mais famosa do mundo anunciou nesta semana, em um comunicado em seu site, que Stéphane Delorme será seu novo editor-chefe, responsável por “liderar a reformulação” da publicação mensal.
Este é o primeiro passo concreto de mudança da “Cahiers” depois que a revista foi comprada pelo grupo editorial britânico Phaidon Books, especializado em livros de arte. O anúncio desta semana deixa claro que o publisher da Phaidon, Richard Schlagman, vai acompanhar de perto o trabalho do novo editor.
O comunicado diz que, trabalhando com Schlagman, “Delorme focará na revitalização da ‘Cahiers’, desenvolvendo uma revista que se coloque no coração da cultura fílmica contemporânea, que fale aos cinéfilos de hoje e que consolide o papel central da ‘Cahiers’ na produção cinematográfica internacional”.
O resultado prático de todo esse bonito blablablá ainda é um mistério. Mas a verdade é que a “Cahiers” precisa mesmo de um “extreme makeover” já há um bom tempo. Publicação que redefiniu a crítica de cinema no mundo a partir de sua fundação em 1951, com nomes como André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, a “Cahiers” perdeu o fôlego e deixou de ser a revista mais influente para quem se interessa por cinema _para ficar num único exemplo, a norte-americana “Film Comment” faz hoje um trabalho bem mais interessante.
Ao menos em teoria, a escolha de Delorme é interessante. Aos 35 anos, ele é crítico da “Cahiers” desde 1998 e integra o conselho editorial da revista desde 2001 _e tem um dos melhores textos da revista nos últimos anos. Também faz parte do comitê de seleção da Quinzena dos Realizadores, a mostra mais ousada do Festival de Cannes. Delorme já apontou como subeditor outro nome em ascensão na crítica francesa, Jean-Philippe Tessé, 32.
A revista manterá seu visual atual até o fim deste ano e deverá apresentar um novo projeto gráfico e editorial no início de 2010. E Delorme promete “levar vida nova à ‘Cahiers’, abri-la ao exterior e transformá-la em um lugar de desejo, entusiasmo, criatividade e troca de ideias”. A ver se consegue.
*
O primeiro aniversário da pequena “Juliette”
Manter um revista de cinema no Brasil é quase impossível. Especialmente se tal revista não estampa em suas capas os Harry Potters ou Transformers da vida. Fazê-lo fora do eixo Rio-SP, sem o suporte de uma grande editora, é ainda mais complicado. Por isso, é admirável que a revista “Juliette” complete agora seu primeiro aniversário.
Publicação mensal editada em Curitiba por Josiane Orvatich e Rafael Urban, a “Juliette” chega a seu décimo número, sempre focada no cinema autoral e independente. A revista tem um visual delicado –cada edição ganha singelas ilustrações de um artista convidado– e oferece entrevistas, ensaios e críticas.
Nas duas edições que li (maio e junho/09), os textos eram em geral bem escritos, com destaque para o perfil da cineasta argentina Lucrecia Martel e a entrevista com o documentarista João Moreira Salles, ambos do número de junho. Se há uma ressalva a fazer, é a temperatura. O destaque de maio, por exemplo, foi para Marcos Jorge, de “Estômago”, filme de sucesso em 2008. Na edição de junho, há um ensaio sobre “Che - o Argentino”, muito depois de o filme ter saído de cartaz.
Relevado isso, a “Juliette” se revela uma leitura interessante, revista que ainda tem muito a amadurecer, mas que engatinha com admirável vigor. Para quem quiser se aventurar, a revista pode ser encontrada em São Paulo na livraria do Espaço Unibanco Augusta (r. Augusta, 1.475).
Tem muita gente boa por aí comemorando hoje os 40 anos da chegada do homem à Lua. Já está mais do que na hora de corrigir esse vergonhoso erro histórico. Ora, a Lua foi conquistada muito antes, em 1902, por um mágico francês chamado George Méliès. Tudo sério, documentado, registrado com precisão pela câmera imparcial do próprio Méliès. E a Lua que ele encontrou era muito mais interessante e divertida que a visitada 67 anos depois por Neil Armstrong e seus comparsas. Confira (e, se quiser ir direto ao ponto, veja logo a parte 2).
Divulgação Marguerite Duras: as palavras conduzem seu cinema
Por Cássio Starling Carlos
Um daqueles inexplicáveis fenômenos de consumo cultural fez o nome de Marguerite Duras (1914-1996), até então restrito a um círculo de iniciados, entrar, em meados dos anos 80, para a lista de best-sellers com “O Amante”. Na obra, a autora fazia, por meio da evocação de seu passado indochinês (constante maior de sua obra de escritora), uma atualização da tragédia histórica de um povo, de um lado, e da condição feminina, de outro.
A literatura da escritora francesa, que carregava desde sua emergência nos anos 50 a reputação de “difícil”, foi então consumida a jato, sem tempo suficiente para provocar nem digestão, nem reflexão. Como o restante da obra de Duras, dolorosa e exigente, os filmes que ela realizou também permaneceram na sombra, a despeito do fenômeno editorial de “O Amante”.
Numa rara oportunidade, parte relevante de sua obra cinematográfica está sendo exibida até a próxima quinta no Cinesesc. O ciclo “Marguerite Duras: Escrever Imagens” apresenta em duas sessões diárias, às 19h20 e às 21h30, nove títulos dirigidos pela escritora, além de sua mais conhecida participação no cinema, o roteiro do sempre impactante “Hiroshima, Meu Amor”, de Alain Resnais.
O subtítulo do ciclo faz jus ao modo especial com que Duras escolheu o cinema como campo de expressão. É a palavra que assombra esse cinema, em que as imagens existem à espera de uma encantação pelo verbo. O que, reitera-se, já é mais que suficiente para afastar qualquer espectador apressado que não se disponha a encontrar no cinema um mínimo além de distração.
Os filmes de Duras pertencem àquela região onde se encontram os experimentos inqualificáveis de, entre outros, Manoel de Oliveira, de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, ou seja, a tela como espaço de uma áudio-visão, em que o texto, dito ou ouvido, guarda peso equivalente, mas sempre autônomo, ao que se vê. Nesse sentido, seus filmes exigem do leitor disponibilidade não apenas para vê-los mas também para lê-los.
No caso particular de Duras, os fantasmas que assombram seus textos _a política como questão de dominação entre forças desiguais, o amor como forma insolúvel de política_ reaparecem como uma dimensão extraordinária da imagem. Extraordinária na medida em que quase nunca se resume a veículo de significação do que a cena ilustra, mas como um algo que vem de fora, que se sobrepõe sem se fundir ou se confundir com a imagem.
Não à toa ela foi a parceira escolhida por Resnais para “Hiroshima, Meu Amor”, no qual o esforço de desvelamento das atrocidades atômicas ao fim da Segunda Guerra se duplica na memória física de um sofrimento amoroso, duplicidade que o filme nos faz viver via sobreposição de significados na imagem e no texto. Tal dicotomia ecoa ao longo do filme e na lembrança que o espectador carrega para casa, reafirmada inúmeras vezes em duas linhas do diálogo: “você não viu nada em Hiroshima” e “eu vi tudo em Hiroshima”.
Como naquele caso célebre em que o cinema abriu as portas e se descobriu veículo para viagens metafísicas no tempo, os filmes de Duras também avançam de modo quase misterioso por uma exploração das camadas do vivido. A trama central adotada por Duras cineasta segue variações verbais nas quais o tempo das ações se desloca do eterno presente das imagens para outras etapas, atualizam um pretérito imperfeito sem nunca deixar o espectador perder a impressão de que tudo ali é no mínimo mais que perfeito.
Confira a programação do ciclo “Marguerite Duras: Escrever Imagens”. No fim do post, assista aos dez primeiros minutos de "Índia Song".
Sábado, 18/7 19h20 - “Destruir, Disse Ela” - 1969 O filme é uma resposta de Marguerite Duras às experiências vividas em Maio de 1968, personificada por um grupo de pessoas suscetíveis à ruína dos valores morais, a incorporação da loucura pela razão, a ética do desejo.
21h30 - “Hiroshima, Meu Amor” - 1959 Atriz francesa vai a Hiroshima gravar um filme sobre a paz e vive o amor de uma noite com um arquiteto japonês. Este encontro lhe evoca memórias adormecidas de seu primeiro grande amor, que fora interrompido violentamente.
Domingo, 19/7 19h20 - “Agatha ou as Leituras Ilimitadas” - 1981 Um homem e uma mulher, irmão e irmã, rememoram os momentos de seu amor incestuoso, antes de se separarem definitivamente. O incesto é também uma forma de amor que Marguerite afirma ter vivido. Ela reflete que “o incesto é a coincidência entre o amor e o laço de parentesco. Todo amor, na realidade, busca recuperar esse laço fundamental.”
21h30 - “O Homem Atlântico” - 1981 Diante de nossos olhos, a tela negra. Duras fala a alguém, indicando-lhe como num roteiro os gestos que deve cumprir. Uma das obras mais radicais de Marguerite em sua desconstrução do cinema.
As mãos negativas - 1979 Paris filmada quase sem luz, no alvorecer, em que o azul escuro banha as ruas e calçadas e é perfurado apenas pelo vermelho dos semáforos.
Segunda, 20/7 19h20 - “As Crianças” - 1984 Ernesto é um menino, filho de imigrantes, que mora num subúrbio pobre de Paris. Seu desenvolvimento incomum (aos 12 anos tem o aspecto de um homem de 40) a princípio não chama a atenção, mas o fato de ler sem nunca ter aprendido, o levará a não querer frequentar a escola.
21h30 - “Destruir, Disse Ela”
Terça, 21/7 19h20 - “Agatha ou as Leituras Ilimitadas”
21h30 - “Aurélia Steiner (Melbourne)” - 1979 “Aurélia Steiner (Vancouver)” - 1979 Aurélia Steiner é uma menina judia que nasce num campo de concentração, e que se tornará símbolo da marca deixada pelo Holocausto. Duras escreveu três textos intitulados Aurélia Steiner acompanhados por nomes de cidades: Melbourne, Vancouver e Paris
“Cesária” - 1978 Em Cesária, vemos as estátuas do jardim das Tuilleries, diante do palácio do Louvre, em Paris. A voz de Marguerite Duras entoa um recitativo em alusão à história do amor impossível do imperador romano e da rainha dos judeus.
Quinta, 23/7 19h20 - “Índia Song” - 1975 O enredo é uma história de amor imobilizada na culminância da paixão, nos anos 30, numa cidade superpopulosa às margens do Ganges. Em torno dela, uma outra história, a do horror –fome e lepra mescladas na umidade pestilenta da monção– imobilizada também num paroxismo cotidiano.
Divulgação Mark Duplass e Joshua Leonard, em "Humpday"
Por Sérgio Rizzo (em Nova York)
“Brüno”, a nova e escandalosa provocação de Sacha Baron Cohen, estreou nos EUA na sexta passada com uma média de espectadores por cópia equivalente a cerca de um terço da obtida no primeiro final de semana por “Borat” (2006) - US$ 11 mil contra US$ 31,6 mil - e ampliando a crise na Universal. Mesmo assim, ficou em primeiro lugar no ranking e jogou para escanteio na vitrine da mídia a produção independente “Humpday”, que também lida com o comportamento gay, mas em chave bem mais discreta e naturalista.
Escrito, produzido e dirigido pela atriz Lynn Shelton, que faz uma pequena participação no filme, “Humpday” daria uma divertida comédia dramática no palco de um teatro, quase sem a necessidade de mudanças estruturais. No que equivaleria a um primeiro ato, dois colegas de faculdade se reencontram depois de dez anos. Ben (Mark Duplass) se casou e leva uma vida estável; Andrew (Joshua Leonard) é um aventureiro de alma hippie e pretensões artísticas.
Uma festa organizada por um casal de lésbicas de relacionamento aberto os leva, no final da noite, a assumir um plano insólito: disputar um concurso amador de filmes pornográficos com algo que vá “além do pornô” -- um curta em que os dois, heterossexuais, transariam um com o outro “em nome da arte”. No segundo ato, entram em campo as conseqüências dessa ideia aparentemente tresloucada, com destaque para a sequência divertidíssima em que a mulher de Ben (Alycia Delmore) fica sabendo da história. O terceiro ato? Hora de consumar o ato propriamente dito.
Não há previsão de lançamento de “Humpday” no Brasil, como vem ocorrendo com a maior parte da produção independente dos EUA, cada vez mais restrita ao mercado interno. Atores brasileiros em busca de uma comédia adulta sobre comportamento sexual que faria sucesso, por exemplo, em algum dos teatros da praça Roosevelt (ou mesmo em salas de público mais conservador): escrevam para Lynn Shelton, o texto está pronto.
Por falar em atores, Joshua Leonard traz alguma lembrança ao internauta?
Ele trabalhou em “A Bruxa de Blair”, que está completando dez anos. Feito com um orçamento irrisório, o filme arrecadou US$ 249 milhões em todo o mundo e se tornou um dos principais casos bem-sucedidos de marketing no cinema (e na internet) dos anos 90. A revista “Entertainment Weekly” registrou a efeméride e foi descobrir por onde andam os sortudos atores e diretores do filme.
Leonard, 34, se prepara para dirigir seu primeiro longa, a comédia de humor negro “Everything’s Alright”, ambientada em Los Angeles e estrelada por 50 Cent.
Heather Donahue, 35, diz que “A Bruxa de Blair” lhe permitiu “ter outra vida”, na qual ela se dedica a cuidar de uma fazenda na Califórnia. Seu último papel foi no terror “The Morgue” (2008), dirigido pelo brasileiro Halder Gomes, lançado apenas em DVD.
Michael C. Williams, 35, diz que dez anos atrás sonhou “ser um astro de cinema”, mas, se isso não acontecer, argumenta que estará feliz “em atuar o máximo que puder”. Ele vive em Westchester County (Nova York), onde dá aulas de teatro para crianças e montou sua própria companhia. Recentemente, fez uma ponta no seriado de TV “Law & Order: SVU”.
Daniel Myrick, 45, diz que acorda todas as manhãs agradecendo o fato de que pode realizar filmes. O último longa que dirigiu, o suspense “The Objective”, está sendo exibido pela TV paga nos EUA.
Eduardo Sánchez, 40, dirigiu recentemente “Seventh Moon”, com Amy Smart, que será lançado em DVD nos EUA em outubro.
Fotos Divulgação Francis Coppola: de volta aos filmes "pequenos e íntimos"
Por Sérgio Rizzo (em Nova York)
O penúltimo longa-metragem de Francis Coppola, “Youth Without Youth” (2007), não foi lançado comercialmente no Brasil. O mais recente, “Tetro” (2009), não aparece no calendário de lançamentos do Filme B. Se dois longas consecutivos de Coppola permanecerem inéditos no Brasil, teremos uma situação que seria inimaginável nos anos 70, quando o diretor de “O Poderoso Chefão” (1972) e “Apocalypse Now” (1979) era um dos cineastas de maior prestígio em Hollywood, ou mesmo nos anos 80 e 90, quando todos os seus longas foram exibidos no Brasil, de “O Fundo do Coração” (1982), que finalmente está sendo lançado em DVD no Brasil, até “O Homem que Fazia Chover” (1997).
Consolo número 1: é difícil ver “Tetro” inclusive nos EUA. Em Nova York, cujo circuito para filmes adultos ainda mantém seu vigor, ele está em cartaz em apenas uma sala, no simpático Landmark’s Sunshine, em East Village. Estreou em 11 de junho e arrecadou até agora menos de US$ 200 mil (para um orçamento estimado em US$ 15 milhões). Quando assisti ao filme, na semana passada, a sessão tinha cerca de 50 espectadores, quase todos na faixa etária de quem conheceu Coppola, hoje com 70 anos, quando “Chefão” foi lançado.
Consolo número 2: o próprio cineasta garante preferir esse modo de fazer cinema, independente e de alcance mais restrito, do que a lógica das superproduções. É o que diz em entrevista a Danny Munso, publicada na edição de maio/junho da revista “Creative Screenwriting”. “Para mim, quanto menor o orçamento, mais você pode trabalhar suas ideias”, afirma. “Quanto maior o orçamento, mais você precisa satisfazer o potencial de 4 mil cópias que correrão o país. Esses últimos são roteiros muito menos pessoais; eles tendem a ser roteiros de gênero.”
Coppola escreveu peças de teatro na adolescência e acreditava que seus roteiros para cinema seriam uma extensão dessa atividade, “pequenos e íntimos”. Acabou se afastando desse território criativo mais pessoal por cerca de 35 anos; “Tetro” é seu primeiro roteiro original (ou seja, baseado em argumento de sua autoria) desde o hoje clássico “A Conversação” (1974). Coppola admite, no entanto, que a responsabilidade por esse desvio é sua. “Eu saí dos trilhos depois do que aconteceu com ‘Chefão’. O tipo de sucesso que obtive pareceu me distanciar da espécie de cineasta que eu queria ser.”
Em “Tetro”, Coppola diz ter se mantido fiel a seu método de roteirização: não voltar ao que escreveu, para reler ou editar o material, antes de terminar a primeira versão do roteiro. Inicialmente, reuniu duas páginas de notas; eram fragmentos de uma história sobre um jovem que procurava seu irmão mais velho. Depois de escrever as primeiras 15 páginas, fez uma parada para imaginar em que direção a trama prosseguiria. Mais tarde, na página 60, outra parada, desta vez para imaginar como encontraria um desfecho. E daí seguiu até o final, deixando para reler o que fez apenas depois de concluir o trabalho.
Outro de seus conselhos para roteiristas talvez pareça inusitado: casar e construir uma família. “Eu era muito jovem quando me casei, e não tinha carreira nenhuma”, explica. “Descobri que a responsabilidade de ser marido e pai tende a lhe dar um foco e a fazer com que você se sente para trabalhar de forma regular.” Como já ocorreu em outros de seus filmes, os valores familiares estão no centro do argumento de “Tetro”, que lembra um pouco, em outras circunstâncias, a relação entre os irmãos de “O Selvagem da Motocicleta” (1983).
Vincent Gallo e Alden Ehrenreich, como irmãos em "Tetro"
Um marinheiro (Alden Ehrenreich) aproveita a parada de seu navio em Buenos Aires para visitar o irmão mais velho (Vincent Gallo), que era seu ídolo e que não vê há anos. Ali, conhece a cunhada (Maribel Verdu) e descobre, por meio do diário secreto do irmão, fantasmas do passado que levam ao pai deles, um famoso maestro e compositor (Klaus Maria Brandauer). A boemia da capital argentina é recriada de forma romântica, em preto-e-branco; flash-backs e pesadelos são coloridos. “Tetro” é “pequeno” e despretensioso, mas com uma enorme dose de afeto, temperado por elementos da cultura italiana e característico de quem, aos 70, parece ter feito as pazes com o jovem cineasta que um dia foi.
Por falar em Coppola: a CNN exibe nesta quarta-feira, às 14h30, edição do programa “Revealed” dedicada a ele, com reprises no sábado, às 15h, e no domingo, às 14h30 e às 24h.
Divulgação Tarantino, que mudou "Bastardos Inglórios" após Cannes
Por Leonardo Cruz
Mike Fleming, blogueiro da “Variety”, publicou nesta quinta uma boa entrevista com Quentin Tarantino sobre a versão final de “Bastardos Inglórios”, o novo longa do diretor de “À Prova de Morte”, “Kill Bill” e “Pulp Fiction”. Como é uma entrevista da “Variety”, a discussão gira em torno mais da pressão do lançamento comercial e da expectativa de retorno financeiro por parte dos estúdios (Weinstein e Universal). E as respostas do cineasta são um interessante exemplo de como as coisas funcionam em Hollywood.
A seguir, os trechos mais interessantes da conversa, na tradução mambembe deste blogueiro. Para ler o original, em inglês, clique aqui. Para quem é fã de Tarantino, o fim de 2009 promete. "Bastardos Inglórios" deve estrear em 23 de outubro. E, se não for adiado pela milésima vez, "À Prova de Morte", de 2007, entrará em cartaz em 13 de novembro.
*
Sobre a suposta ordem para cortar o filme após a estreia no Festival de Cannes Ouvi esses rumores de que o estúdio teria me mandado cortar 40 minutos. É tudo mentira. O filme está um minuto mais longo em relação a Cannes. Tinha 2h28, sem créditos finais, e agora tem 2h29. Ou 2h32, com os créditos.
Fico ofendido com a ideia de que esses caras [os produtores] ficariam mandando em mim. Ao contrário, não tenho do que reclamar. Você não tem que fazer nada sob pressão. É o seu filme, é você quem tem que viver com ele e sabe que não pode fazer julgamentos precipitados porque se arrependerá depois.
Mas você fica mais inclinado a ouvir, porque não o estão forçando a nada. Harvey Weinstein [dono do estúdio] é um cara legal. Foi ótimo trabalhar com David Linde [da Universal]. Eles têm coisas válidas a dizer. Com algumas eu concordei. Com outras, não. Sempre tentei as sugestões deles, porque eles têm muito dinheiro investido. Eles não estavam na sala [de montagem] quando tentei, e em metade das vezes eles estavam errados. Mas, algumas vezes, me peguei dizendo: “Diabos, Harvey está certo. É melhor deste jeito.”
Sobre uma eventual “prequela” de “Bastardos Inglórios” Já escrevi metade [do roteiro]. Tenho que terminá-lo, reunir os Bastardos de novo e inserir todo um outro grupo de personagens. Durante as filmagens, Brad Pitt e Eli Roth ficavam falando: “Prequela, pequela”. Brad dizia: “Vamos convencê-lo a fazer uma prequela”. Os caras adoram a ideia. Eu tenho a história. Mas [no passado] eu ia fazer todas aquelas prequelas de “Kill Bill”, em animação. E acabei não fazendo nenhuma delas.
Sobre a pressão dos estúdios por um sucesso comercial É, os caras estão ansiosos, e eu sei de onde isso vem. Mas um filme é um filme. Eles leram o roteiro, sabiam no que estavam se enfiando. De tempos em tempos, nós conversávamos e eu dizia: “Ouço o que vocês dizem, mas não vou fazer o filme em nada diferente do que escrevi”. Pode parecer estranho quando digo que acrescentei um minuto, mas você pode acrescentar pequenas coisas e melhorar o ritmo. E nós estávamos muito atentos a manter um bom ritmo. Para acrescentar uma cena, eu reduzi pequenos trechos de algumas cenas. Conversava com os Weinstein e a Universal, e eles diziam: “Esta sequência está um pouco longa”. Eu respondia que o máximo que podia fazer era cortar uma linha aqui, outra ali. E eles concordavam. Aí você precisa achar essa linha. É cirurgia cosmética. Harvey queria que eu acrescentasse mais música, pediu para que eu voltasse à minha coleção de discos e escolhesse mais algumas músicas. Achei quatro. E uma delas é a música-tema do filme “Os Mercenários”, de Jack Cardiff, que eu sempre quis usar.
Sobre o star system Tem havido escolhas seletivas de evidências para argumentar seu o star system ainda é confiável ou não. Se você se refere àquele filme do jornal com o Russel Crowe [“Intrigas de Estado”], que eu não vi, talvez o star system não tenha funcionado para aquele filme. Brad teve sucesso com “Benjamin Button” e acho que ele foi uma grande razão [desse sucesso]. No passado, eu ouvia sugestões deste ou daquele ator e perguntava: “Por que você quer estas pessoas? Eles realmente levam gente ao cinema?” Olhava os filmes deles, e a resposta era não. Aprendi que a questão era menos sobre público e mais sobre marketing. Este cara é famoso, então podemos levá-lo no Leno, no Conan, no Letterman, conseguir uma capa de uma revista. Eu escolho o elenco que funciona melhor para o filme. Rosario Dawson era a garota mais famosa que usei em “À Prova de Morte”, e ela foi a todos os talk shows. Mas ela também era uma das melhores do filme. Ela é uma grande atriz, tem toneladas de carisma. Não vou contratar ninguém apenas para o pôster. E a integridade dos meus filmes fala por si.
Sobre o impacto de Brad Pitt no desempenho comercial de “Bastardos Inglórios” Sempre confiei no meu nome na maior parte do tempo. Minha esperança agora é que eu vou atrair os meus fãs e ele vai atrair os dele. No exterior, a admiração por Brad é intensa, quase louca, mas por mim também. Espero que, conosco juntos, haja um empate. Mas posso dizer sinceramente que, se Pitt não fosse um astro e eu o tivesse encontrado na seleção de elenco, teria feito lobby para que o papel fosse dele.
Divulgação Lubitsch, início de carreira na Alemanha e auge nos EUA
Por Cássio Starling Carlos
Num artigo publicado em 1968 nos “Cahiers du Cinéma”, uma década depois de trocar o ofício de crítico pelo de cineasta, François Truffaut encerrava seu comentário da obra do alemão Ernst Lubitsch (1892-1947) com uma fórmula que acabou servindo de título ao texto. “Lubitsch era um príncipe”, resumiu o nem um pouco menos nobre Truffaut, referindo-se “ao que não se aprende nem se compra, o charme e a malícia, o charme malicioso” que fizeram de Lubitsch “verdadeiramente um Príncipe”.
Oportunidade para entender o que faz de seus filmes objetos tão perenes, juvenis e principescos, apesar de alguns já terem mais de 90 anos, é o que oferece o ciclo “The Lubitsch Touch – O Cinema de Ernst Lubitsch”, que acontece a partir desta quarta, dia 8, até 19 de julho no CCBB paulistano. A mostra traz 14 títulos dirigidos por ele e um documentário que reconstitui a fase berlinense da obra e enfoca os primeiros passos da trajetória do diretor na capital alemã durante os anos 10 e 20 do século passado.
Como de hábito, parte dos títulos será exibida em DVD, o que não deve desmotivar uma primeira aproximação com raridades como “Não Quero Ser um Homem”, feito em 1918, no qual as estreitezas que impõem distinções entre os gêneros masculino e feminino são desafiadas por Lubitsch com a libertinagem possível na Berlim daquela época.
O formato digital também foi a opção encontrada para apresentar três clássicos da fase hollywoodiana do diretor: “Anjo” (1937), “A Oitava Esposa de Barba Azul” (1938) e “O Pecado de Cluny Brown” (1946), todos exemplos de comédia sofisticada que teve em Lubitsch um de seus mestres e influência reivindicada por outros grandes nomes da Hollywood clássica, como Billy Wilder.
Um trecho legendado de "A Oitava Esposa do Barba Azul"
Dessa fase madura, o ciclo oferece a chance raríssima de ver em tela e em película dois títulos cuja repercussão terminou suplantando o nome de seu diretor.
Um é “Ninotchka”, feito em 1939, que se tornou mais conhecido por causa do riso de Greta Garbo, mito do “star system” cuja imagem estava sempre colada a papéis dramáticos ou trágicos. Mas mesmo o raro riso de Garbo em cena não compete com o poder farsesco com que Lubitsch desmonta a sisudez da história, ao submeter uma inquebrantável agente russa (Garbo, claro) aos charmes de um playboy que representa as tentações do Ocidente.
O outro é “Ser ou Não Ser”, de 1942, refilmado em 1983 com Mel Brooks e Anne Bancroft. O original é uma ousada obra de propaganda anti-hitlerista filmada em plena Segunda Guerra Mundial e na qual Lubitsch, judeu e alemão, demole o nazismo com uma farsa sobre troca de papéis em que ridiculariza a ferocidade das tropas e faz dos alemães uns bobalhões trapaceados por uma trupe de maus atores.
Um trecho de "Ser ou Não Ser", legendado em português
Lubitsch, porém, não precisou chegar a Hollywood para experimentar a sensação de auge. O ciclo no CCBB tem como fatia principal um conjunto de oito títulos da fase alemã do diretor, iniciada em 1913, uma década antes do início de sua trajetória nos EUA.
Dessa fase, o título mais antigo é o sarcástico “Sapataria Pinkus”, de 1916, no qual um Lubitsch ator explora as nuances do humor judaico ao construir um tipo conquistador carregado de maus-modos.
A ironia também nutre suas gozações sobre valores arraigados e o lugar cristalizado de classes, aos quais se impõe a força corrosiva das paixões, temas recorrentes nessa primeira época de sua produção que se pode ver em filmes como “A Princesa das Ostras” (1919) e “As Filhas de Kohlhiesel” (1920).
A associação frequente com o humor não impediu Lubitsch de se aventurar em territórios menos sorridentes, como o drama histórico de “Ana Bolena” (1920) ou a tragédia, presente no ciclo no extraordinário “Os Olhos da Múmia” (1918), que também marca a estreia de Pola Negri no cinema como uma dançarina egípcia que protagoniza um amor amaldiçoado.
Da fase muda e alemã, o ciclo oferece ainda “Gatinha Selvagem”, de 1921, no qual Lubitsch, sob influência dos efeitos do uso dos cenários conseguido por Robert Wiene um ano antes em “O Gabinete do Doutor Caligari”, explora o poder das formas e realiza o que historiadores do cinema deram o nome de “expressionismo burlesco”.
Se ele já demonstrara ser capaz de ludibriar até mesmo códigos mais vigiados, o que o impediria de burlar mais este?
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta duas estreias da semana: a animação "A Era do Gelo 3", de Carlos Saldanha, e o drama "Paris", de Cédric Klapisch. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Na última quinta, poucos minutos após o anúncio da morte de Michael Jackson, começou a circular na internet, via Twitter, a informação de que o ator Jeff Goldblum também teria morrido, em um acidente num set de filmagens na Nova Zelândia. Um ou outro site estrangeiro chegou a cravar a morte, e, por uns cinco minutos, muitos jornalistas acreditamos que Goldblum tinha ido desta para melhor.
Mas quem já se transformou em mosca e enfrentou dinossauros não bate as botas assim tão facilmente. Goldblum sempre esteve bem vivinho e aceitou o convite do canal Comedy Central para comentar sua própria morte. Com vocês, a ressurreição de Jeff Goldblum (em inglês, sem legendas):
Divulgação "Sete Noites", novo filme de Kawase; sessões em SP e BH
Por Cássio Starling Carlos
Mesmo perdido na montanha de títulos exibidos na Mostra de SP do ano passado, “A Floresta dos Lamentos”, da cineasta japonesa Naomi Kawase, produziu sobre o espectador uma experiência de revelação. Ao fazer a crônica de um luto numa perspectiva panteísta, a cineasta japonesa convertia a câmera em instrumento de um animismo, capaz de enxergar vida até nas coisas inanimadas.
Para os que se entusiasmaram com a experiência, duas boas notícias: Kawase concluiu e lançou “Sete Noites” (“Nana Yo Machi”, no original), seu trabalho seguinte, e este novo filme da diretora integra uma retrospectiva dentro do Indie 2009, festival que acontece em Belo Horizonte de 3 a 10 de setembro e em São Paulo de 17 a 24 de setembro.
Na retrospectiva serão exibidos 12 títulos de Kawase, divididos entre sete documentários e cinco ficções. A lista completa:
DOCUMENTÁRIOS - “Ni tsutsumarete” (“Embracing”) - 1992 - “Katatsumori” - 1994 - “Ten, mitake” (“Seen the Heaven”) - 1995 - “Hiwa katabuki” - 1996 - “Kya Ka Ra Ba A” - 2001 - “Tsuioku no dansu” (“Letter from a Yellow Cherry Blossom”) - 2002 - “Tarachime” - 2006
Como os trabalhos anteriores de Kawase, a trama de “Sete Noites” resume-se a duas linhas. Conforme descrição postada pela diretora em seu site, “é a história de uma mulher japonesa de 30 anos que passa sete noites na Tailândia. Uma história sobre a descoberta de um novo eu”.
A magreza da sinopse, contudo, esconde outro grande trunfo de Kawase, que aproveita o obstáculo da língua entre os personagens para captar aquilo que torna seu cinema tão essencial: a fluidez do desejo, a força do vento, o ritmo de uma dança, o aspecto físico do misticismo.
Como as palavras, aqui reduzidas a sons antes dos significados, a natureza em “Sete Noites” recupera uma perspectiva original, na acepção literal do termo, de uma origem primeira, prévia a qualquer esforço de simbolização.
Quando Kawase pega a câmera, o cinema reencontra sua originalidade, aquela mesma que foi sentida pelo público que viu um trem entrar numa estação num café parisiense há mais de um século.
A seguir, uma entrevista com a cineasta, com legendas em espanhol.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.