Ilustrada no Cinema

 

 

Nazismo no cinema

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a estreia do filme austríaco “Os Falsários”, de Stefan Ruzowitzky. O filme, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, aborda o Projeto Bernhard, que se destinava à produção de dinheiro falso pelos nazistas com a ajuda de prisioneiros dos campos de concentração. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo:

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h19 PM

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Invenções bizarras para quem vai ao cinema

Por Cássio Starling Carlos

Perambulando pela rede tropecei em duas daquelas invenções inúteis-úteis que mantêm ocupadíssimos a porção virtual dos nossos neurônios.

A primeira foi postada no blog de um webdesigner de Seattle. Matthew Inman propõe uma classificação que pode ajudar naquele difícil momento, na fila de um multiplex, em que as únicas opções são filmes como “Exterminador do Futuro: Salvação” ou “Transformers: A Vingança dos Derrotados”.

Inman propõe ajudar com um diagrama bem simples, no qual projeta o poder de um filme de ação matar seu espectador também de tédio. Em sua tese, quanto mais helicópteros o trailer tiver, pior será o filme:

No blog, Inman apresenta vídeos com vários exemplos para comprovar que, no universo dos blockbusters, sua tese funciona. Entre os citados estão “X-Men Origens: Wolverine” (3 helicópteros), “Duro de Matar 3” (1 helcóptero explodindo), “Atirador” (8 helicópteros).  Por que não dar então algum crédito ao rapaz?

A outra invenção parece bobagem de internet, mas também pode ser utilíssima nos muito frequentes momentos de aperto que qualquer mortal está sujeito. Pelo RunPee, já dá pra sair de casa bem informado de qual cena do filme vale a pena aproveitar para dar aquela corridinha ao banheiro. E nem precisa incomodar os outros espectadores para perguntar “o que aconteceu” durante a fuga.

Bem organizado, o site tem buscas por tópicos como data de lançamento, ordem alfabética, tempo de duração e filmes “clássicos”, pelos quais se deve entender “produções de quando o leitor de 20 anos era criança”. E traz uma lista atualizadíssima de títulos, acompanhada, claro, pelo tempo que se deve contar a partir do início do filme (cuidado com as salas que passam 15 minutos de anúncios e trailers!).

O cérebro da geringonça deve ser masculino, já que projeta cerca de 3 minutos para a ação completa de retirada estratégica e retorno.

E, para os ultraconectados, o RunPee anuncia para breve a chegada do serviço por celular. Enquanto espera na fila da sessão de “Transformers”, você poderá checar o site pelo telefone e terá carta branca para se encharcar à vontade com seu refri favorito. Seu organismo já saberá a hora em que poderá gritar: “Não aguento mais!”.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 5h07 PM

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Os filmes de Cannes começam a chegar

                                                                            Fotos Divulgação

"Les Herbes Folles", de Resnais, comprado pela Imovision

Por Leonardo Cruz

Encerrado o Festival de Cannes, a pergunta óbvia é: esses filmes vão chegar ao Brasil?

Sim, vão, já respondem algumas das principais distribuidoras brasileiras, que começam a anunciar os títulos que compraram na Croisette. E o vencedor da Palma de Ouro já tem dono. A distribuidora Imovision será a responsável pelo lançamento no país de “A Fita Branca”, o longa que deu ao austríaco Michael Haneke o prêmio máximo do festival.

Além do grande vencedor, a Imovision ainda trouxe na mala um respeitável pacotão de filmes. Entre os da competição, são dela “Les Herbes Folles”, o filme novo do veterano Alain Resnais, homenageado com uma palma especial pelo conjunto de sua carreira, “The Time that Remains”, de Elia Suleiman, e “Visage”, de Tsai Ming-liang. Da mostra Um Certo Olhar, a distribuidora fechou com os elogiados longas romenos "Tales from the Golden Age" e “Politist, Adjectiv”, que faturou o prêmio da crítica. Também são da Imovision "Coco Chanel & Igor Stravinsky", de Jan Kounen, o filme de encerramento deste ano, e "Polytechnique", de Denis Villeneuve, exibido na Quinzena dos Realizadores.
 
Ainda entre os premiados, “Anticristo”, pelo qual Charlotte Gainsbourg foi escolhida melhor atriz, deve chegar aos cinemas brasileiros em agosto, lançado pela Califórnia. Além do terror de Lars von Trier, a mesma distribuidora lançará “À Procura de Eric”, de Ken Loach, prometido para dezembro.

Outros três longas que competiram pela Palma serão lançados pela Universal/Paramount: “Taking Woodstock”, de Ang Lee, que deve estrear em 18 de setembro; “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, que está previsto para 23 de outubro; e “Los Abrazos Rotos”, o novo de Pedro Almodóvar, que ainda não tem uma data definida.

A mesma major distribuirá o terror “Arraste-me para o Inferno”, de Sam Raimi, que foi exibido em sessão especial e deve ser lançado aqui em 14 de agosto. Já “Up – Altas Aventuras”, a animação da Pixar/Disney que abriu o festival, aportará por aqui em 4 de setembro. “The Imaginarium of Dr. Parnassus”, mais um que passou em Cannes fora de competição, foi comprado pela Sony, que também lançará o francês “Un Prophète”, de Jacques Audiard, vencedor do Grande Prêmio do Júri. A Imagem prevê para 30 de outubro a estreia de "I Love You Phillip Morris", de Glenn Ficarra e John Requa, que estava na Quinzena e tem Jim Carrey e Rodrigo Santoro no elenco.


"Mother", de Bong Joon-ho, comprado pela Paris Filmes

Segundo o boletim desta terça do portal Filme B, a PlayArte comprou “Bright Star”, de Jane Campion, enquanto a Paris Filmes trará "Iréne", de Alain Cavalier, exibido na Um Certo Olhar, e os dois coreanos de Cannes: “Bak-Jwi”, de Park Chan-wook, e “Mother”, de Bong Joon-ho. Ainda segundo o Filme B, a MovieMobz ficou com dois títulos da Quinzena, "Carcasses", de Denis Coté, e "Here", de Tzu-Nyen Ho, além do filipino "Manilla", de Adolfo Alix Jr. e Raia Martin.

Os dois longas brasileiros do festival serão lançados por aqui em julho. “No Meu Lugar”, de Eduardo Valente, chega no dia 14, enquanto “À Deriva”, de Heitor Dhalia, estreia no dia 31.

Essa ainda é uma lista preliminar, que ainda deve crescer bastante, já que nem todas as distribuidoras anunciaram seus títulos. De todo modo, dos 20 filmes da competição pela Palma, 12 já tem exibição comercial garantida no Brasil. É um bom começo.

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O novo Godard e clássicos franceses

Além dos títulos exibidos nas mostras oficiais de Cannes, a Imovision anunciou também alguns longas comprados no mercado do festival. Sem dúvida o mais interessante é "Socialisme", novo longa de Jean-Luc Godard, com Patti Smith no elenco, cujo lançamento na França está previsto só para 2010. Outro destaque é "About Elly", de Asghar Farhadi, prêmio de melhor direção no Festival de Berlim deste ano.

A distribuidora ainda fechou um pacote de clássicos franceses que serão lançados em DVD. São cinco longas: "Une Partie de Campagne" (Jean Renoir, 1936), "Viver a Vida" (Godard, 1962), "Amor Livre" (Jacques Doniol-Valcroze, 1959), "Manon - Anjo Perverso" (Henri-Georges Clouzot, 1949) e "Martin Roumagnc" (Georges Lacombe, 1946). E comprou o documentário "Les Deux de la Vague", de Antoine de Baecque e Emmanuel Laurent, que recupera a história da criação de dois filmes centrais da nouvelle vague, "Os Incompreendidos", de Truffaut, e "Acossado", de Godard. Por último, também será lançada uma caixa, chamada "Os Primeiros Curtas", com obras de Resnais, Godard, Rivette, Truffaut, Pialat, entre outros.

A seguir, o trailer de "Socialisme".

Escrito por Leonardo Cruz às 12h48 PM

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Cannes, post 9: enlouquecendo com Luc Moullet

                                                                           Fotos Divulgação

Luc Moullet, no seu "La Terre da la Folie", na Quinzena

Por Sofia Pleym (em Cannes)

O cineasta Luc Moullet veio a Cannes com "La Terre de la Folie" (em tradução livre, "A Terra da Loucura"), exibido na Quinzena dos Realizadores. O filme é um tratado sobre as relações entre a loucura (mais precisamente em sua forma violenta) e a região francesa dos Alpes do Sul, terra de origem do cineasta.

Mollet desenvolve sua teoria de que uma determinada área daquela região, que ele chega a delimitar graficamente como um pentágono, teria mais loucos assassinos ou suicidas do que outros territórios similares. Para isso, o diretor lança mão de numerosos e pitorescos exemplos, que levam o público às gargalhadas.

Os casos são descritos de forma simples e hilariante. Uma mulher que num belo dia sobe ao topo de uma colina local e coloca fogo em si mesma, um açougueiro que mata e corta em pedaços a própria filha, até o inacreditável evento em que um de seus ancestrais teria assassinado o prefeito do vilarejo, sua esposa e um de seus empregados por ter o último levado a mula do assassino para uma outra pastagem.

O que torna os episódios mais pitorescos é a ausência de motivo (relevante) e de culpa ou remorso dos criminosos, que em sua maioria eram presos muito calmos e com a sensação de dever cumprido. Moullet explora as possíveis fontes da "loucura assassina" na região, recorrendo ao vento, a distúrbios de tireoide pela má alimentação na região ou até mesmo às origens de sua população, formada por "párias" de vários tipos, em razão de haver ali cidades abertas sem as restrições de moradia observadas em outras regiões e terras muito baratas.

Ainda que haja uma ou outra cena ensaiada pelo diretor (como o diálogo final com sua mulher), não há no filme uma construção fictícia de enredo e personagens. Trata-se da reunião de depoimentos e informações sobre casos antigos, amarrados pela narração do diretor.

O que diferencia "La Terre de la Folie" de documentários similares é o fato de o diretor questionar sua própria sanidade, colocando sua família no centro das investigações, e também o didatismo com que apresenta aqueles fatos absurdos (lembrando às vezes a estrutura de "Ilha das Flores", de Jorge Furtado).

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"Ajami", dos estreantes Scandar Copti e Yaron Shani

A Quinzena se encerrou com "Ajami", filme codirigido pelos estreantes Scandar Copti, um palestino, e Yaron Shani, um israelense.

O título se refere a um bairro da cidade de Jaffa, localizada ao sul de Tel Aviv, onde coabitam, com pobreza e violência, judeus, muçulmanos e cristãos. Curiosamente,  Cannes já havia recebido neste ano, na seleção oficial (fora de competição), a obra israelense "Jaffa", filmada na cidade de mesmo nome e que discutia esses mesmos conflitos étnicos.

Com um elenco totalmente amador (do qual os diretores também fazem parte), que foi preparado pela produção durante dez meses, os diretores constroem as histórias de diversos personagens que, ao final, terão suas vidas entrelaçadas. Em comum todos estão de alguma forma ligados ao passado e a atos cometidos por terceiros. Seja pela família, por sua origem étnica ou por circunstâncias estranhas à sua vontade, eles parecem não ter total controle sobre a direção que suas vidas tomam.

"Ajami" pretende ser um microcosmos do universo de ódio, violência e intolerância que domina a região. O filme consegue, com boas atuações, trazer ao espectador um pouco da angústia de cada um daqueles personagens, vítimas e algozes do círculo vicioso em que vivem.

 

Escrito por Sofia Pleym às 11h59 AM

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Um retrato do movimento negro no Brasil

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o documentário "Ôrí", sobre a evolução do movimento negro no Brasil. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h38 PM

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Cannes, post 8: a invasão canadense

                                                                            Fotos Divulgação

"Carcasses", de Denis Coté, exibido na Quinzena

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Este é um ano de forte presença do Canadá na Quinzena dos Realizadores. E não se trata apenas da multidão canadense, em grande parte "quebequiana" (pelos gritos de "Vive le Quebec" antes do inicio dos filmes), presente nas sessões do cinema pátrio. Dos 24 filmes exibidos, 5 são canadenses: "Amreeka", "Here", "J'ai Tué Ma Mère", "Polytechnique" e "Carcasses".

"Carcasses" é o último trabalho de Denis Coté, velho conhecido de festivais internacionais e premiado duas vezes em Locarno. O projeto, de baixíssimo orçamento, é resultado do encontro, em 2006, do diretor com Jean-Paul Colmor, um eremita que trabalha há mais de 40 anos com carcaças de automóveis.

Colmor é um senhor excêntrico e apaixonado pelo seu pequeno universo, o ferro-velho. Ele passa os dias admirando e organizando seu "tesouro", fazendo um inventário constante daquele material quase sem valor econômico, mas que dá sentido à sua existência.

A primeira parte do filme é quase puramente documental: acompanhamos o dia-a-dia daquele ermitão, que vive num abrigo precário erguido no local, deixando claro que o que lhe dá conforto ali são realmente os seus objetos.

Mas Coté, como ele mesmo explicou, não queria fazer apenas um filme que retratasse um personagem real pitoresco. Para tanto, o diretor acrescentou ao longa ingredientes que lhe permitissem explorar outros temas.

A dose de ficção vem com a chegada ao local de jovens com síndrome de Down, e a segunda parte da obra se constrói dessa improvável convivência entre Colmor e os recém-chegados.

O resultado final é uma obra que trata tanto das sobras de um mundo consumista, quanto dos diferentes tipos de exclusão social existentes no cotidiano.

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"Polytechnique", sobre massacre em escola de Montréal em 89

"Polytechnique", de Denis Villeneuve, é um filme que trata essencialmente da natureza humana, ao reconstituir o massacre na escola politécnica de Montréal em 1989, quando Marc Lépine assassinou 14 meninas, feriu outras 10 e mais 4 homens, antes de se matar, dentro da universidade. Villeneuve, premiado na Semana da Crítica em 2008 com seu curta "Next Door", optou por um registro extremamente emotivo, distante do realismo.

Após extensa pesquisa sobre o crime e para proteger a memória dos participantes do massacre, o diretor criou personagens estilizados, representando "perfis" dos envolvidos do que os próprios indivíduos.

Villeneuve filma com muita liberdade e improvisação, obtendo planos tão fortes quanto belos, como a entrada do protagonista em cena com a câmera em perpendicular com o horizonte ou a filmagem dos corredores de ponta-cabeça.

A comparação com "Elefante" é inevitável, já que os dois fazem uma interpretação artística de um massacre. O filme de Gus van Sant é mais ousado por sua ruptura com a estrutura dramática clássica, enquanto Villeneuve carrega mais nas tintas da tragédia.

Escrito por Sofia Pleym às 9h22 PM

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Cannes e seus “júris de autor”

                                                         François Mori/Associated Press

O júri da mostra Um Certo Olhar, com Sorrentino ao centro

Por Sérgio Rizzo

As chances de premiação de filmes brasileiros em Cannes passam obrigatoriamente pelas mãos do cineasta italiano Paolo Sorrentino (que, com “Il Divo”, recebeu o Prêmio do Júri no festival do ano passado) e do ator e diretor francês Roschdy Zem (prêmio de interpretação em 2006, com o elenco de “Dias de Glória”).

Sorrentino é o presidente do júri da mostra Um Certo Olhar, da qual participa “À Deriva”, de Heitor Dhalia, com sessão na noite desta quinta-feira. Zem é o presidente do júri que atribui a Câmera de Ouro, o prêmio de diretor estreante, para o qual está habilitado “No Meu Lugar”, de Eduardo Valente, que será exibido em sessão especial, fora-de-concurso, nesta quarta-feira.

Presidentes de júri são determinantes para a premiação de todos os festivais, mas talvez o sejam mais ainda em Cannes, onde impera o espírito de “júri de autor”: as escolhas costumam refletir as predileções estéticas e políticas do presidente, figura que costuma se impor naturalmente aos demais colegas. Basta lembrar, entre diversos episódios ilustrativos desse comportamento, o entusiasmo de Sean Penn, no ano passado, ao explicar por que “Entre os Muros da Escola” recebeu a Palma de Ouro.

Além de Sorrentino, o filme de Dhalia precisará seduzir também a diretora de elenco indiana Uma da Cunha, a atriz francesa Julie Gayet, o historiador canadense Piers Handling (diretor do Festival de Toronto) e a jornalista sueca Marit Kapla (diretora do Festival de Gotemburgo).

No júri que apreciará o longa de estreia de Valente, Zem está em companhia de outros quatro franceses -- a diretora de fotografia Diane Baratier; Olivier Chiavassa, diretor do laboratório Éclair; a diretora e roteirista Sandrine Ray; o crítico Charles Tesson (ex-editor dos "Cahiers du Cinéma") -- e do crítico suíço Edouard Waintrop (diretor do Festival de Fribourg).

As maiores expectativas, claro, recairão sobre a atriz francesa Isabelle Huppert, que preside o júri da mostra competitiva de longas. Outras quatro atrizes a ajudam a tornar predominantemente feminino esse colegiado muito especial: a italiana Asia Argento, a taiuanesa Shu Qi, a indiana Sharmila Tagore e a norte-americana Robin Wright Penn (que, como ex-mulher de Sean, sugere uma espécie de realeza no principal júri de Cannes).

Três diretores – o turco Nuri Bilge Ceylan, o norte-americano James Gray e o sul-coreano Lee Chang-dong – e um escritor, o inglês Hanif Kureishi, completam o time presidido por Huppert.

Com Pedro Almodóvar, Lars von Trier, Michael Haneke, Quentin Tarantino, Alain Resnais, Ken Loach, Ang Lee, Marco Bellocchio e Tsai Ming-Liang na competição, essa turma ilustre tem um belo pepino a resolver até o próximo domingo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 1h04 PM

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Cannes, post 7: rindo com os romenos

                                                                            Fotos Divulgação

"Tales from the Golden Age", coordenado por Cristian Mungiu

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Cannes recebeu nesta quarta mais uma produção romena na mostra Un Certain Regard. "Tales from the Golden Age" é uma produção coletiva, composta de cinco curtas que tratam dos anos vividos no fim do regime de Ceaucescu, na década de 80, os tais "anos dourados" do título. O projeto foi capitaneado por Cristian Mungiu e já estava em andamento antes mesmo de o diretor ganhar a Palma de Ouro em 2007 por "4 meses, 3 semanas e 2 dias".

Os filmes relatam supostos episódios que teriam virado lendas da ditadura, mais precisamente as lendas "da visita oficial", "do fotógrafo do partido", "do motorista de frangos", "do policial ganancioso" e "dos vendedores de ar", dirigidos por Mungiu, Ioana Uricaru, Hanno Hofer, Razvan Marculescu e Constantin Popescu.

É curioso notar que durante o filme não há informações técnicas sobre cada episódio (nem mesmo o diretor), mas apenas créditos coletivos no final. Essa ausência não é por acaso, pois não se vê nesses contos romenos a falta de unidade característica de seus parentes de estrutura, como "Paris, Te Amo". Aqui temos mais do que uma mera colagem de unidades isoladas, e sim uma obra única e coesa.

Em cenas hilárias e num surpreendente efeito cumulativo, os episódios expõem ao espectador, sem alarde, o absurdo e os aspectos lunáticos do regime político vivido naquele país. "Tales" mantém o bom ritmo do cinema romeno recente: texto inteligente, domínio da técnica, bons atores e... senso de humor (ainda que muitas vezes nefasto).

Mungiu coordenou a realização de sete episódios no total. Os cinco curtas exibidos em Cannes e os outros dois inéditos serão lançados internacionalmente ainda neste ano, em dois DVDs, intitulados "Tales of Love" e "Tales of Authority".

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Leia mais sobre Cannes (cobertura de Silvana Arantes):
"Faço filmes para todo o planeta", diz Tarantino
Alain Resnais exibe mais um "corpo estranho"

Escrito por Sofia Pleym às 9h52 PM

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Cannes, post 6: uma boa surpresa na Quinzena

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"La Pivellina", de Tizza Covi e Rainer Frimmel

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Nesta terça, a Quinzena dos Realizadores presenteou seu público com uma daquelas pequenas e inesperadas pérolas que só Cannes, com sua imensidão de filmes, consegue esconder. Já havíamos falado aqui sobre o mistério das interpretações infantis, sem saber que a mostra paralela escondia "La Pivellina", de Tizza Covi e Rainer Frimmel.

Trata-se da história de Aia, uma menina de 2 anos que é abandonada num parque na periferia de Roma e encontrada por Patty, integrante de uma trupe de circo que mora em trailers próximos ao local. Na esperança de que sua mãe virá buscá-la, Patty passa a cuidar da criança, com a ajuda de Walter, alemão palhaço e arremessador de facas, e do adolescente Tairo, filho de um domador de leões.

Covi, italiana, e Frimmel, austríaco, são fotógrafos de formação, que trabalham juntos há mais de 15 anos e haviam realizado até hoje dois documentários ("That's All", 2001, e "Babooska", 2005), ambos premiados internacionalmente. "La Pivellina" é seu primeiro longa de ficção, mas traz raízes profundas no cinema documental. Todos os personagens são representados pelos próprios habitantes daquela comunidade, que os diretores haviam conhecido na realização do filme anterior.

Após a finalização do documentário, Covi e Frimmel quiseram retratar novamente aquela comunidade, mas explorando o potencial de uma história ficcional, usando um enredo dramático como fio condutor e ultrapassando as barreiras do formato documental. O roteiro era muito simples, mais próximo de um argumento, não houve ensaios com os atores, que recebiam indicações sobre as cenas a serem rodadas apenas duas horas antes da filmagem.

O filme foi todo rodado em super-16, câmera na mão, com luz natural e planos simples, sempre a serviço dos personagens, com inegável inspiração pelo neo-realismo italiano. A dupla de diretores consegue, com um belo time de atores/personagens, construir uma obra sensível, honesta, desprovida de artifícios, que revela a intimidade daquela pequena comunidade.

Nesse contexto, brilha a garota Aia, que protagoniza cenas de uma beleza e naturalidade raras. A câmera consegue registrar momentos valiosos do encontro do universo íntimo da “pivellina” (“garotinha”, no dialeto circense) com os demais membros da "família".

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"Whisper in the Wind", de Shahram Alidi

O massacre curdo chega aos cinemas

A Semana da Crítica, por sua vez, exibiu "Whisper in the Wind", filme iraniano rodado no Iraque, com apoio do fundo iraquiano de defesa do Curdistão. A obra de Shahram Alidi retoma o massacre ordenado por Saddam Hussein contra a minoria curda, à época da Guerra Irã-Iraque. O protagonista Mam Baldar passa seus dias a levar, de um vilarejo a outro, mensagens gravadas em seu rádio. Com o genocídio ordenado pelo líder iraquiano, o "carteiro" se vê confrontado com a aniquilação de vilarejos inteiros, cuja população é, na maioria das vezes, enterrada viva.

O tema é incomum no cinema, que pouco conhece da história desses países, até em função das restrições impostas pelos seus regimes quase sempre autoritários.

Mas, deixada de lado a relevância política da produção, "Whisper in the Wind" concentra o que há de pior em boa parte do cinema iraniano recente: roteiros simplórios, quase inexistentes, ritmo excessivamente lento e uma predileção por planos que ressaltam a grandiosidade da natureza em contraposição ao homem.

O filme de Alidi não é diferente e, além dos ingredientes usuais, traz uma dose caprichada de planos esteticamente perfeitos e impactantes (os exemplos são inúmeros: um rádio pendurado na árvore, o círculo de bancos em um casamento, um garoto escrevendo na lama acumulada sobre uma camionete, mulheres de preto recitando nomes de seus "enterrados").

Não se trata de um filme descartável, dada sua inquestionável importância política. Mas o domínio da estética sobre a narrativa afasta a obra do público, que fica incapaz de envolver-se com a tristeza e o desespero do protagonista.

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Von Trier vai ao inferno, por Silvana Arantes
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Escrito por Sofia Pleym às 6h52 PM

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Cannes, post 5: os donos do poder

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"Tsar", de Pavel Lounguine, na "Un Certain Regard"

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Um dos destaques desta segunda na mostra "Un Certain Regard" foi "Tsar", novo trabalho de Pavel Lounguine (“Taxi Blues”, 1990). Trata-se da reconstituição da vida do czar Ivan, o Grande, em 1565. Naquele ano, o mandatário russo enfrenta o avanço dos poloneses em seu território e martiriza o povo em nome de sua loucura mística e paranoica.

Muito pouco foi escrito historicamente sobre Ivan e um de seus melhores retratos, segundo o diretor, está em “Ivan, o Terrível” (1944), filme de Eisenstein, encomendado por Stalin. Em "Tsar", Lounguine optou por retratar um período em que o temperamental czar passa a ser aconselhado por seu amigo de infância, o religioso Filipp, que discorda dos métodos sanguinarios do líder.

A produção russa, de quase 15 milhões de euros, permitiu a criação de cenário e figurino muito elaborados. E o filme tem direção de fotografia de Tom Stern, colaborador de Clint Eastwood, que deu à obra a sobriedade e profundidade de telas de Rembrandt.

Ivan é interpretado por Piotr Mamonov (protagonista de "A Ilha", de 2006), que constrói um personagem de forte dimensão psicológica, oscilando entre grande sinceridade e absoluta crueldade. O resultado é um czar sem pompa, simples e atormentado. Oleg Yankovski, por sua vez, está excelente no papel de Filipp, dando ao longa um contraponto de sobriedade.

"Tsar" é um filme ambicioso que acaba por compor, com qualidade técnica e dramática, um retrato pitoresco da importante figura de Ivan, o Grande. Traz um ponto de vista definido e diferenciado sobre seu objeto histórico, mas sem dúvida estilizado, distante de qualquer preocupação meramente didática.

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"J'ai Tue Ma Mère", de Xavier Dolan, na Quinzena

A caricatura de um relacionamento

Ao ler a sinopse e comentários da organização da Quinzena dos Realizadores sobre "J'ai Tué Ma Mère" (eu matei minha mãe), tem-se a impressão de que se trata de um novo "Tarnation", filme de Jonathan Caouette exibido no festival em 2004. Ledo engano.

O filme de estreia do canadense Xavier Dolan trata de Hubert, 16, sua mãe e a tumultuada relação dos dois, que ultrapassa as dificuldades clássicas de adolescentes com seus pais e a típica oscilação amor e ódio vivida pelos filhos. Hubert se esforça para sentir pela mãe o amor que imagina que deveria sentir, mas sucumbe ao ódio a cada confronto com essa mulher com quem não tem nada em comum.

O próprio diretor, que tem apenas 20 anos, interpreta o protagonista, em um longa de conteúdo claramente autobiográfico e totalmente focado na percepção que Hubert tem dos fatos. Essa visão unilateral cria personagens extremamente caricatos e compõe um retrato inverossível de um relacionamento em que não há nenhum momento de reconciliação ou algum diálogo mais carinhoso.

Se “Tarnation” abordava a difícil relação mãe-filho com base na experiência do próprio diretor usando material filmado pelos dois ao longo de anos, "J'ai Tué Ma Mère" é um registro factual ainda precoce, feito por um diretor aparentemente sem maturidade para refletir o suficiente sobre suas experiências.

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Leia mais sobre Cannes (cobertura de Silvana Arantes):
Ang Lee revive inocência de Woodstock
Vida na prisão é tema de filme francês
Mondo Cannes (notas do festival)

Escrito por Sofia Pleym às 1h28 AM

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Cannes, post 4: retrato de uma geração

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"Eastern Plays": vidas sem rumo na Bulgária

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Mais um candidato à Caméra d'Or foi exibido neste domingo na Quinzena dos Realizadores. "Eastern Plays" é o primero longa do búlgaro Kamen Kalev, já conhecido de Cannes por seus curtas apresentados em anos anteriores na Semana da Crítica.

Após se formar em 2002 na prestigiosa escola francesa La Fémis, Kalev retornou à Bulgária e passou os últimos anos trabalhando com publicidade e desenvolvendo o roteiro de seu primeiro longa. A ambição do cineasta era criar uma obra que fosse o retrato de sua geração, a juventude criada em Sofia nos anos 90, e ele optou por realizá-la sem apoio estatal, para ter mais liberdade em mostrar a realidade de seu país tal como a vê.

O filme trata de dois irmãos que perderam contato e se reencontram com papéis opostos num ato racista: Georgi participa do ataque a uma família turca, na qualidade de novo integrante da gangue, e Christo presencia o espancamento e enfrenta os agressores.

O incidente estimula a retomada de contato dos irmãos e também a reflexão de ambos sobre os rumos que estão tomando na vida. Christo, um ex-viciado em tratamento com metadona, em vias de se tornar alcoólatra, visualiza a possibilidade de redenção no amor, ao se aproximar da garota turca atacada pela gangue do irmão. Georgi enxerga na faceta artística do irmão um exemplo possível a seguir, e passa a se afastar dos extremistas e estreitar seus laços com Christo.

"Eastern Plays" poderia ser um filme sensível sobre a relação entre dois irmãos e as dificuldades de traçar e encontrar um caminho na juventude, mas cai na armadilha do filme de tese. Para defender as idéias pré-concebidas do diretor, o roteiro apresenta diálogos "justificativos", que caem fora de hora e soam deslocados e artificiais demais.

Racionalizar o ódio demonstrado pelos "skinheads" contra os árabes, justificando-o meramente como um interesse da elite branca no desequilíbrio e instabilidade da sociedade búlgara, termina por reduzir o fenômeno muito mais complexo do ódio e da violência, que tem sua origem em questões humanas mais profundas. Da mesma forma, a associação simplista entre rock pesado e o ambiente de violência dos agressores resulta ingênua e simplificadora.

O filme búlgaro funciona nos momentos em que consegue evitar as armadilhas dos diálogos de tese, e se concentra no retrato de uma juventude sem direção, em busca de caminho e de soluções para as grandes questões do mundo atual. Kalev falha quando toma para si o papel de desmistificador e teórico sobre a situação búlgara no século 21.


O delicado "Le Père des Mes Enfants", de Mia Hansen-Love

Na mostra Un Certain Regard, hoje foi o dia da apresentação do filme da diretora mais jovem da competição paralela: Mia Hansen-Love, 28, trouxe a Cannes seu "Le Père de Mes Enfants".

Hansen-Love iniciou a carreira como atriz de Olivier Assayas ("Fim de Agosto, Início de Setembro", "Os Destinos Sentimentais"), tendo passado a colaboradora da “Cahiers de Cinema” e dirigido seu primero filme em 2007 ("Tudo É Perdoado").

Na nova obra, acompanhamos o trajeto de Grégoire Canvel, produtor francês reconhecido em seu meio, e aqueles que o circundam. Dentre eles, sua esposa e três filhas, além de sua equipe da produtora, uma antiga namorada com quem teve um filho fora do casamento, um roteirista que Grégoire pretende produzir e alguns diretores em quem depositou sua confiança e fez florescer sua arte.

Grégoire é um personagem vivo, charmoso, encantador, alegre, que chega a uma situação financeira insustentável com a produtora e seus projetos em andamento e dívidas acumuladas nos últimos anos. Passamos então à dificuldade de lidar com essa situação e a rápida descida do personagem ao inferno, apesar do apoio da família.

"Le Père de Mes Enfants" é um filme delicado, tocante, com diálogos bem escritos e atuações cuidadosas. Esteticamente, porém, é convencional demais: as tomadas são previsíveis, o roteiro é linear, a trilha sonora é apenas adequada. Falta ao filme de Hansen-Love adicionar a essa tocante historia uma reflexão artística ou pessoal, o algo mais que diferencia "mais um belo filme" de uma obra marcante.

Escrito por Sofia Pleym às 9h50 PM

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Cannes, post 3: sobre pais e filhos

                                                                            Fotos Divulgação

"Go Get Some Rosemary", dos irmãos Safdié

Por Sofia Pleym (em Cannes)

A relação entre pais e filhos foi o tema de dois filmes exibidos neste sábado na Quinzena dos Realizadores, ambos medianos, com enfoques e problemas distintos.

"Go Get Some Rosemary" é o primeiro trabalho conjunto dos irmãos Josh e Benny Safdié, que já haviam dirigido, respectivamente, em 2008, o curta "The Acquaintances of a Lonely John" (exibido na Quinzena) e o longa "The Pleasure of Being Robbed" (premiado internacionalmente).

Trata-se de um projeto autobiográfico, que surgiu da necessidade dos irmãos Safdie de rever as relações de infância com o pai ou, em suas próprias palavras, "abordar com realismo as memórias de um pai super-homem".

Filmado em Nova York, "Go Get Some Rosemary" retrata o convívio de Lenny, um pai divorciado, e seus dois filhos (Sage e Frey, de 8 e 10 anos) nas duas semanas em que esses ficam sob sua custódia.

Lenny é um personagem vivo, cheio de amor, mas egoísta e que não consegue fazer frente às responsabilidades da figura paterna. É alguém que diverte os garotos, esconde a tristeza, numa tentativa de eternizar aquelas semanas alegres na memória dos garotos em sua ausência.

O filme tem momentos tocantes e se beneficia muito da atuação de Ronnie Bronstein como o personagem central, numa primeira (e talvez única) atuação desse diretor de filmes alternativos e projecionista de cinemas em Nova York. Ele consegue impregnar a tela com sua vitalidade e energia, mas falta algo que envolva o espectador com a história.

Os diretores declararam ter havido muita discussão na preparação, na tentativa de encontrar um terreno comum entre as lembranças dos dois, um mais rancoroso e o outro mais condescendente. O resultado é um filme em que predomina um distanciamento, como se o que havia de mais íntimo na relação de ambos com o pai tivesse ficado por trás das câmeras.


"Yuki e Nina", de Nobuhiro Suwa e Hippolyte Girardot

"Yuki & Nina" é um trabalho conjunto de Nobuhiro Suwa ("Un Couple Parfait", 2004, "Paris, Te Amo", 2005) e Hippolyte Girardot, ator renomado, que inclui no currículo filmes de Godard, Desplechin e Gitaï, em seu primeiro trabalho como diretor. O filme surgiu como um desejo dos codiretores de falar de sua experiência de pais, as dificuldades da relação pai-filho.

Yuki é uma garota de 8 anos, filha de um francês e uma japonesa, que vive na França e recebe a notícia da separação de seus pais e de que terá de ir viver com a mãe no Japão. Nina, sua melhor amiga francesa, passa então a ajudá-la a evitar a mudança, tentando manter os pais juntos ou até fugindo para a floresta.

Filmar crianças sempre foi trabalho ingrato no cinema e quanto mais se ouve relatos de envolvidos em produções com personagens infantis, fica mais claro que não existe receita. Em "Yuki", o milagre infelizmente não aconteceu.

Arielle Mutel (Nina) se mostra mais à vontade diante da câmera, compondo uma criança forte, geniosa. A força da Nina de Arielle ofusca a interpretação de Noë Sampy como Yuki, um personagem mais irregular.

Tal desequilíbrio afeta o longa como um todo. E “Yuki e Nina” acaba por revelar-se apenas um filme de pequenas garotas encantadoras, com certa beleza e sensibilidade, mas distante da intimidade do universo infantil.

*

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Escrito por Sofia Pleym às 6h22 PM

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Cannes, post 2: três filmes unidos pela consciência

                                                                            Fotos Divulgação

"Politist, Adjectif", novo longa do romeno Corneliu Porumboiu

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Cada espectador no Festival de Cannes faz seu próprio recorte da programação, e essa “curadoria” por vezes resulta em combinações involuntárias de filmes interessantes. Nesta sexta, consciência foi a palavra que uniu três filmes apresentados na Croisette.

Dois belíssimos filmes vindos do Leste Europeu abordaram o tema no presente, como reflexão moral daquilo que fazemos e decisões que tomamos no dia-a-dia. E um francês fica mais próximo de uma reflexão sobre o passado, uma espécie de acerto de contas.

Exibido na Semana da Crítica, “Ordinary People”, do sérvio Vladimir Perisic, é resultado do projeto desenvolvido pelo cineasta em sua estadia na Résidence do Festival em Paris em 2005 e concorre à Câmera d’Or, o prêmio para estreantes em longas. As “pessoas comuns” do título são os soldados sérvios que acompanhamos numa missão no interior daquele país, dentre os quais Drazen, novo membro da tropa, ainda não habituado às práticas de guerra e que ainda se vê confrontado com questionamentos morais sobre o que é certo e errado num ambiente desprovido, por princípio, de toda sua humanidade.

Em ritmo lento, de rumo aparentemente incerto, o filme evolui para um sentimento de gravidade e desconforto, quando o diretor coloca em questão a “monstruosidade” daqueles que cometem atos brutais inerentes às guerras.

Já “Politist, Adjectiv”, exibido na Un Certain Regard, é o novo trabalho do romeno Corneliu Porumboiu, vencedor da Câmera d’Or em 2005 por “12:08 – A Leste de Bucareste”.

Agora, o diretor apresenta a história de Cristi, um policial que encontra dificuldades em aplicar em um caso concreto a lei da qual é, por definição, defensor. No desempenho de seu trabalho, registrado com a mesma lentidão da câmera sérvia, o protagonista encontra contratempos burocráticos e descaso dos colegas, mas seu verdadeiro problema será o confronto de seus valores morais com suas obrigações funcionais, em cena antológica desempenhada com maestria pelo trio de atores Dragos Bucur, Vlad Ivanov e Ion Stoica, e pelo DEX – dicionário da língua romena.


"L'Épine dans le Coeur": Michel Gondry olha para seu passado

Depois de recriar de forma amadora filmes marcantes da cultura pop americana dos anos 80, o francês Michel Gondry agora se volta a seu próprio passado em “L’Épine dans le Coeur” (o espinho no coração), apresentado em sessão especial. No documentário, o diretor registra personagens de sua família, especialmente sua tia Suzette e Jean-Yves, o filho dela.

Ao utilizar em “L’Épine” vídeos caseiros de seus familiares, o diretor reproduz em caráter pessoal a ideia de cinema “artesanal” já explorada em “Rebobine, Por Favor”. O novo longa é um filme simples, mas que escapa do formato documental tradicional graças à criatividade do diretor, que insere animações e maquetes na obra, e ao seu talento em definir o acompanhamento musical das cenas e em criar momentos de grande beleza e dramaticidade.

Além de Suzette, professora primária no interior da França durante anos, e sua difícil relação com Jean-Yves, temos a oportunidade de conhecer um pouco de Paul, filho de Gondry, e do próprio diretor em seu ambiente familiar e em imagens de arquivo, filmado quando criança pela câmera Super-8 da família.

Escrito por Sofia Pleym às 9h17 PM

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Ascensão e queda de Wilson Simonal

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei", que reconstitui o apogeu e a decadência de um dos principais cantores do país nos anos 60. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h06 PM

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Cannes, post 1: uma cuidadosa ficção chilena

                                                                                    Divulgação

Cena do chileno "Huacho", que disputa a Semana da Crítica

Por Sofia Pleym (em Cannes)

Após a abertura oficial do Festival de Cannes com a animação “Up”, no Grand Théâtre Lumière, e uma distribuição de balões coloridos na Croisette, esta quinta foi o dia do pontapé inicial das paralelas Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores.

Do começo da Semana, destaque para o chileno “Huacho”, primeiro filme em competição a ser apresentado, após a exibição hors-concours do francês “Rien de Personnel” e do curta brasileiro “Elo”, de Vera Egito.

Premiado em Berlim em 2007 com o curta “Lo que Trae la Lluvia”, o diretor Alejandro Fernández Almendras retrata em “Huacho” um dia de verão na vida de uma família de campesinos que divide uma modesta casa no sul do Chile. O roteiro leva o espectador a seguir cada um dos quatro membros da família (casal originário, sua filha e seu neto) ao seu turno, mostrando a separação das três gerações em sua forma de lidar com a modernidade.

Os avós continuam totalmente envolvidos com os trabalhos da terra, enquanto mãe e filho já estão mais submersos na vida urbana e moderna, norteada pelo consumismo e tendo o dinheiro como pilar essencial.

O filme se aproxima de produções documentais, ao recorrer a atores não profissionais e situações que buscam sempre a verossimilhança. Mas não há dúvidas de que estamos diante de uma ficção (enxuta, mas cuidadosa), na qual o ritmo e o enfoque daquela realidade são estabelecidos a partir de momentos corriqueiros, pequenos dramas, conflitos e alegrias criadas para aqueles personagens.

Engana-se aquele que imagina que o tom da obra seja idílico. “Huacho” é pautado por incursões cruéis do mercado e da lógica econômica na existência daquela família, homens e mulheres que têm ambição e que cedem muitas vezes ao individualismo e à mentira na batalha diária pela sobrevivência e pela felicidade. O título é um termo popular chileno que pode significar “órfão, abandonado, marginal”, todos eles substantivos que resumem de forma simbólica os quatro personagens do longa.

Coppola domina a Quinzena

A Quinzena começou pela manhã, sem a pompa do tapete vermelho e vestidos de gala, mas em grande estilo: com a première mundial de “Tetro”, novo trabalho de Francis Ford Coppola. Desde 1997, o cineasta passou a se dedicar à produção (de mais de 25 filmes) e se afastou da direção de longas, só retomada em 2007, com “Segunda Juventude” (“Youth Without Youth”), fracasso de bilheteria e crítica, exibido no Brasil apenas na última edição do Festival do Rio.

Com “Tetro”, Coppola volta a fazer o cinema mais pessoal prometido desde sua retomada em 2007, abrindo o baú de memórias de sua família, em especial a rivalidade entre seu pai, o compositor Carmine Coppola, e seu tio, o maestro Anton Coppola; tal conflito surge no filme por meio da relação dos irmãos Tetrotini.

Rodado em preto e branco, “Tetro” é dominado por uma carga épica, uma grande história que Coppola consegue contar como ninguém. O longa bebe nas mesmas fontes de “O Poderoso Chefão”, focado em temas como honra, justiça, lealdade, fraternidade, mas sem as altas doses de violência do clássico de 1972.

Ao filmar na Argentina, Coppola conseguiu incorporar ao enredo diversos ingredientes “locais”, que deram grande vitalidade ao filme. Diálogos intercalados em inglês e espanhol e um time de atores latinos de primeira (incluindo Carmen Maura e Maribel Verdú) trouxeram a “Tetro” charme e certa leveza. Os papéis principais, de Tetro e Bennie, foram dados a Vincent Gallo e ao novato Alden Ehrenreich, responsável pela performance mais fraca do elenco.

*

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Escrito por Sofia Pleym às 10h26 PM

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Ateu, Ewan McGregor vive um homem de Deus

                                                                                    Divulgação

O ator britânico, em cena de "Anjos e Demônios"

Por Lúcia Valentim Rodrigues (em Roma)

O diretor Ron Howard botou um lobo em pele de cordeiro em seu "Anjos e Demônios", que estreia nesta sexta com 509 cópias no Brasil.

Para viver o principal homem de fé do filme, o camerlengo Patrick McKenna, o cineasta escalou Ewan McGregor, um ateu convicto. Parece ter feito de propósito, porque também escolheu uma judia (embora não praticante) para a mocinha: a israelense Ayelet Zurer ("Munique").

Mas ele diz que não foi proposital. "Encontrei Ewan num restaurante e pensei nele para o filme. Ayelet ganhou o papel dela durante os testes em Los Angeles. Nada foi feito para atenuar ou agradar a Igreja Católica", afirmou em entrevista coletiva. "Nem para irritá-la."

Já McGregor, 38, em evento do lançamento do longa em Roma em que causou frenesi entre fãs adolescentes, afirmou que não acha o filme "anti coisa nenhuma". "A igreja criticou, mas nem viu o filme ainda. Não acho tão polêmico. Acho que é mais uma ressaca dos livros de Dan Brown. E também dos problemas anteriores com ‘O Código Da Vinci’, que era mais questionador das crenças cristãs."

"Essa contradição entre igreja e a ciência sempre existiu. Este camerlengo é um extremista. Acha que, para a igreja sobreviver, as pessoas têm de acreditar apenas em suas verdades. Tentei entender de onde essa devoção vem para criar o personagem. Não quer dizer que todos os camerlengos sejam assim."

Engraçado notar como ele, pessoalmente, talvez ficasse mais próximo da fé do que da ciência, já que diz gostar mais "do mistério da vida do que entender como ela funciona". "Prefiro ver como as coisas são maravilhosas e milagrosas do que explicá-las."

Em "Anjos e Demônios", o camerlengo questiona o simbologista Robert Langdon (Tom Hanks) sobre sua fé numa cena emblemática dos dois. McGregor diz que ela só foi possível por causa da batina. "É interessante como qualquer tipo de vestimenta muda uma pessoa. Busquei um sentimento de quase arrogante autoconfiança que as pessoas de fé têm. Teria sido muito difícil se eu estivesse usando jeans e camiseta."

Antes da aparição relâmpago, de apenas dois dias, em Roma, o ator estava filmando em Berlim "The Ghost" (o fantasma), thriller político dirigido por Roman Polanski e adaptado do romance de Robert Harris sobre um primeiro-ministro inglês (vivido por Pierce Brosnan). McGregor é o ghost-writer contratado para escrever suas memórias depois que o primeiro autor escolhido morreu em circunstâncias nebulosas.

O ator tem ainda para estrear neste ano "I Love You Phillip Morris", que compete na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e está previsto para julho no Brasil; "Amelia", da indiana Mira Nair, e "The Men Who Stare at Goats", com George Clooney e Kevin Spacey.

A jornalista LÚCIA VALENTIM RODRIGUES viajou a Roma a convite da Sony Pictures

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 6h09 PM

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Carlos Saldanha coloca o Rio em animação

 
Por Cristina Fibe

O brasileiro Carlos Saldanha, 40, responsável pela trilogia “A Era do Gelo”, dirigirá animação sobre uma “arara nerd”, seja lá o que isso for, que larga sua gaiola em Minnesota a caminho do Rio de Janeiro.

Segundo a revista britânica “Empire”, o filme será intitulado “Rio”, cidade natal de Saldanha. Enquanto não surgem mais detalhes do projeto, veja o trailer de “A Era do Gelo 3”, cuja estreia no Brasil está prometida para 1º de julho.


Escrito por Cristina Fibe às 5h19 PM

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O método Jarmusch

Por Bruno Yutaka Saito

Jim Jarmusch é um cara esquisito. Sorte nossa. Sobre seu novo filme, “The Limits of Control”, em cartaz nos EUA, ele disse ao jornal “New York Times”: “Sempre quis fazer um filme de ação sem ação, ou um filme com suspense, mas sem drama”.

Não que Jarmusch seja um desses cineastas que cultivam a imagem de “louquinho” ou que usam o inusual como um fim em si _algo que afeta a maior parte da produção indie norte-americana. Desde seu primeiro filme, “Permanent Vacation” (1980), Jarmusch mostra uma maneira de estar no mundo mais próxima dos europeus, com longos silêncios e especial interesse para os momentos mortos, os momentos entre as ações.

Segundo relatos que pipocam pela internet, como a longuíssima entrevista com o diretor publicada pela revista “Film Comment”, “The Limits of Control” (ainda sem data para estrear no Brasil) é uma espécie de “filme existencialista de crime”, um quebra-cabeça inspirado pelas produções do francês Jacques Rivette.

O personagem principal, conhecido apenas como “o homem solitário” (Isaach De Bankolé, em seu quarto trabalho com o diretor), vaga pela Espanha enquanto cruza com uma série de personagens (feitos por atores como John Hurt, Bill Murray, Tilda Swinton e Gael García Bernal) e tenta cumprir um trabalho não necessariamente dentro da lei.

Neste filme, Jarmush seguiu ainda mais à risca seu peculiar método de trabalho. Ele tinha apenas ideias vagas anotadas num caderninho, um “mapa mínimo” com 25 páginas de “história” _como os personagens centrais e as locações. Os diálogos, por exemplo, eram escritos na noite anterior à filmagem.

É como se Jarmusch estivesse tentando “pescar” a história, enquanto ia filmando. Ele trabalha aqui pela primeira vez com o diretor de fotografia Christopher Doyle (conhecido pela parceria com o chinês Wong Kar-wai e por vários trabalhos no Oriente), que deu suporte ao “método” Jarmusch. “Há certos aspectos do modo de se filmar na Ásia em que você está sempre procurando pelo essencial. Você nunca está certo sobre o que é o filme até que nós encontramos”, disse Doyle ao “NYT”.

E por que filmar na Espanha? “Estar num lugar onde você não entende certas coisas é realmente inspirador para a sua imaginação”, disse ao mesmo jornal. À “Film Comment”, ele diz que a estranha arquitetura das Torres Blancas, em Madrid, o fascinou. Além disso, a viúva de Joe Strummer (ex-líder do Clash e amigo de Jarmush), Lucinda, mostrou ao diretor a foto de uma peculiar casa no sul da Espanha. Strummer teria dito: “Temos que mostrar para o Jim essa casa, ele vai querer filmá-la”.

Enquanto o filme não chega no Brasil, o negócio é checar o trailer:

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h46 PM

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Um Oliveira dura mais que dois Eisenstein

 
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Por Sérgio Rizzo

O português Manoel de Oliveira completou 100 anos em 11 de dezembro, e continua em atividade. A melhor fase de sua carreira talvez corresponda às últimas duas ou três décadas. Foi realizada, portanto, dos seus 70 anos em diante. Uma das razões para a sua longevidade, afirma um diretor de festival brasileiro, é o hábito diário de nadar. Durante viagens para divulgar seus filmes e participar de eventos, Oliveira exigiria que os hotéis onde se hospeda tenham piscina para não interromper a rotina nem mesmo por um só dia.

Alguns dos maiores talentos do cinema, no entanto, não viveram nem mesmo meio século e tiveram carreiras relativamente breves. A edição de maio/junho da revista norte-americana “Film Comment” publica, como resultado de enquete, relação com os 40 cineastas mais importantes que morreram aos 50 anos de idade ou menos. E convida os leitores, até 12 de junho, a encaminhar suas próprias listas, aqui.

Os cinco nomes que encabeçam esse memorial já bastam para dar um enorme aperto no coração: se não tivessem nos deixado tão cedo, o que mais teriam feito F. W. Murnau (morto aos 42 anos), Jean Vigo (aos 29), Sergei Eisenstein (aos 50), Rainer Werner Fassbinder (aos 36) e Maya Deren (aos 44)?

Glauber Rocha (1939-1981), o único brasileiro da lista, aparece em nono lugar. Com ele, vem forçosamente a lembrança de outros cineastas que perdemos muito precocemente, como Luiz Sérgio Person (1936-1976), Leon Hirszman (1937-1987), Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), Chico Botelho (1948-1991) e Wilson Barros (1948-1992).

Confira abaixo a lista da “Film Comment”; entre parênteses, a idade de cada diretor ao morrer.

1. F.W. Murnau (42)
2. Jean Vigo (29)
3. Sergei Eisenstein (50)
4. R.W. Fassbinder (36)
5. Maya Deren (44)
6. Jean Eustache (42)
7. Ritwik Ghatak (50)
8. Humphrey Jennings (43)
9. Glauber Rocha (42)
10. Hollis Frampton (48)
11. Barbara Loden (48)
12. Larisa Sheptiko (41)
13. Andrzej Munk (40)
14. Paul Sharits (50)
15. Thomas H. Ince (42)
16. Yilmaz Güney (47)
17. Seth Holt (48)
18. Fabián Bielinsky (47)
19. Ron Rice (29)
20. Michael Reeves (26)
21. Marlon Riggs (37)
22. Theo van Gogh (47)
23. Shuji Teryama (47)
24. Warren Sonbert (47)
25. Cristian Nemescu (27)
26. Barbara Rubin (35)
27. Cyril Collard (36)
28. Forough Farrokhzad (32)
29. Fei Mu (45)
30. Marjorie Keller (43)
31. Juan Pablo Rebella (32)
32. Vasili Shukshin (45)
33. Kent MacKenzie (50)
34. James Blue (49)
35. Antonio Pietrangeli (49)
36. Werner Hochbaum (47)
37. Artie Mitchell (45)
38. D’Urville Martin (45)
39. Michel Bena (41)
40. Kenneth Hawks (31)

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h37 PM

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Era uma vez no novo leste

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Um dos cartazes de "O Bom, o Mau, o Bizarro", que sai em DVD


Por Cássio Starling Carlos

A data aqui passou despercebida. Mas na imprensa de um país cinéfilo por natureza como a França alguém se lembrou da desaparição do imenso Sergio Leone, cujos 20 anos se completaram no último dia 30. O jornal francês “Libération” produziu em sua versão online uma deliciosa homenagem ao cineasta italiano, reunindo pôsteres de filmes, trailers, vídeos de entrevistas, sites, citações em outros filmes, gifs e até referências leoneanas num clipe da banda Arcade Fire. O pacote foi batizado de “Il était une fois sur le web” (Era uma vez na rede), referência aos “Era uma Vez...” que recheiam a inesquecível filmografia de Leone.

No nosso nem sempre atento circuito alternativo nem mesmo uma mísera exibição em DVD de títulos de Leone (cuja obra completa, salvo engano, encontra-se disponível em boas locadoras) foi programada.

E a homenagem involuntária acabou acontecendo graças a um daqueles acasos que determinam a exibição ou não de alguns filmes no Brasil. Depois de passar no Festival do Rio do ano passado com o título fiel de “O Bom, o Mau, o Bizarro”, o coreano “The Good, the Bad, the Weird” saiu direto em DVD (California Filmes, por enquanto apenas para locação) disfarçado sob o título genérico “Os Invencíveis”.

A paródia evidente é ao “The Good, the Bad and the Ugly”, de Leone (“traduzido” no Brasil por “Três Homens em Conflito”). Como naquele, três caras durões se enfrentam numa caça ao tesouro, enquanto atravessam o Oeste selvagem e se deparam com um Exército em pleno ataque.

Só que no filme do coreano Kim Ji-moon a ação é transferida para uma China intemporal, onde coreanos, manchus, chineses e japoneses disputam para saber quem é mais esperto, ganancioso ou dá mais tiros e elimina mais concorrentes.

O esqueleto da história parece uma refilmagem do longuíssimo longa de Leone, mas o modo como Kim encena evoca mais o cinema de ação ao modo “Mad Max”, com muita correria, pancadaria e tipos extravagantes. Na fonte, o filme também mistura referências dos filmes de lutas que asseguraram o sucesso da indústria de entretenimento de Hong Kong desde os anos 50. E recupera um gênero por nós desconhecido, o “kimchi western”, que alimentou, com produções de baixo orçamento, o cinema coreano ao longo dos anos 70.

Kim Ji-moon não é um novato. Seu “A Tale of Two Sisters” foi exibido num ciclo na Cinemateca em 2006. Seu segundo longa, “The Foul King”, de 2000, é tratado como obra-prima por críticos franceses. Não menos prestígio tem “A Bittersweet Life”, seu longa anterior.

Como no inqualificável “Hospedeiro”, devastador blockbuster coreano de 2006, a mistura de gêneros, ações e situações de “Os Invencíveis” em momento algum reduz o filme a um catálogo cinéfilo. E causa muito boa impressão o modo como Kim Ji-moon recicla dezenas de ideias de cinema, brinca com cenários e figurinos, como se a trupe do filme tivesse invadido um museu que contivesse toda a história do cinema, não para reverenciá-la, mas para sacudi-la, tirar o pó e nos fazer vibrar como quando éramos crianças e fomos ao cinema pela primeira vez.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 5h01 PM

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Spock, o novo "Star Trek" e Obama

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Spock versão 2.0, um dos trunfos do novo "Star Trek"

Por Leonardo Cruz

Vida longa e próspera a Leonard Nimoy. O vulcano mais famoso da TV e do cinema deu uma saborosa entrevista ao “New York Times” no final de semana para comentar sua participação no novo “Star Trek”, sem dúvida o melhor filme-pipoca em cartaz (e em muito tempo). E o ator americano de 78 anos mostrou que tem senso de humor. Alguns dos melhores trechos:

Sobre o peso de ser Spock
A única vez que isso me incomodou foi quando, muito depois de acabarmos de fazer a série original, “Star Trek” se tornou extremamente popular, nas reprises dos anos 70. Por volta de 71, 72, essa coisa toda explodiu como um fenômeno. Havia uma enorme fome por “Star Trek”, mas nenhum era produzido havia 11 anos. Naquela época, quando eu estava atuando em outros projetos, as perguntas eram só sobre “Star Trek”. Era um problema.

E escrevi um livro chamado “Eu Não Sou Spock”, o que foi um erro. Estava ressaltar o processo do ator ao criar um personagem. Dizia que eu cresci em Boston, e Spock, não. Que meus pais eram imigrantes russos; e os de Spock, não. Sou um ator que faço esse personagem. Mas eu dizia no livro que, se eu pudesse escolher qualquer personagem para retratar na TV, escolheria Spock. Mas pouca gente chegou a essa página do livro. A maioria não passou do título.

Por que aceitou interpretar Spock novamente
Quando fizeram o primeiro filme da série “Generations”, havia uma cena em que todo o elenco original aparecia, incluindo Spock. Mas o diálogo de Spock não era um diálogo de Spock. Não tinha nada a ver com o personagem. Então eu disse ao produtor: “Não há um Spock de verdade nesse filme. Você pode distribuir minhas falas entre os outros na cena e não fará nenhuma diferença”. Não apareci naquele filme.

Não fui mais chamado para fazer Spock desde então, até J.J. Abrams me contatar para este filme. Tive um encontro ótimo com J.J. e os roteiristas. Eles falaram de forma inteligente e muito apaixonada sobre o que “Star Trek” foi para eles. E isso me fez lembrar do melhor de “Star Trek” e Spock da série original. Eles escreveram um roteiro empolgante. É óbvio que este é um grande filme, mas também um filme muito tocante e pessoal. Há um grande coração no centro de tudo.


Dr. Spock e seu gesto clássico: copiado por Obama

Sobre seu contato com o presidente dos EUA (Obama já fez comparações com Spock)
Encontrei com ele duas vezes. A primeira foi há alguns anos, assim que ele anunciou sua candidatura. Ele estava em Los Angeles, falando em uma palestra à qual fui convidado. Quando chegou e me viu, ele imediatamente ergueu a mão e fez o gesto vulcano. E disse: Me disseram que você estava aqui”. Tivemos uma ótima conversa curta e eu disse: “Seria lógico que você se tornasse presidente”.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h39 PM

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"Hitchcock/Truffaut", um audiolivro gratuito

"Hitchcock Truffaut", um audiolivro gratuito

Por Leonardo Cruz

Ao voltar das férias e colocar em dia a leitura de sites e blogs de cinema, trombei com esta preciosidade no Cinemascópio, do Kleber Mendonça Filho: uma alma caridosa colocou na internet uma generosa parte das 50 horas de entrevistas que François Truffaut fez com Alfred Hitchcock nos anos 60, material que se transformou no obrigatório livro "Hitchcock/Truffaut", lançado originalmente em 1967.

São 25 arquivos de áudio, em que Truffaut questiona Hitchcock com a ajuda de uma intérprete, a sua amiga e colaboradora Hellen Scott. Como cada arquivo tem entre 25 e 27 minutos, são cerca de 11 horas de conversa. Ou seja, material para baixar e ouvir com carinho, aos poucos, bom para se recuperar de ressaca, fora de namorada, derrota do time do coração ou de uma sessão de "X-Men Origens".

A seguir, os 25 links, para cada segmento. Já o livro "Hitchcock/Truffaut" está à venda nas principais livrarias brasileiras, numa bem cuidada edição da Companhia das Letras, com prefácio do professor e crítico Ismail Xavier, por cerca de R$ 80.

Parte 1: infância, teatro e o primeiro cinema
Parte 2: o star system, "Suspeita" e "The Lodger"
Parte 3: "Juno and the Paycock" e sobreviver em Hollywood
Parte 4: fracassos iniciais e a importância de Michael Balcon
Parte 5: "Os 39 Degraus"
Parte 6: "O Agente Secreto"
Parte 7: "Young and Innocent" e "A Dama Oculta"
Parte 8: O cinema britânico
Parte 9: "Rebecca, a Mulher Inesquecível"
Parte 10: "Correspondente Estrangeiro"
Parte 11: "Um Casal do Barulho"
Parte 12: "Sabotador" e "A Sombra de uma Dúvida"
Parte 13: "Um Barco e Nove Destinos" e "Quando Fala o Coração"
Parte 14: "Interlúdio" e "Agonia de Amor"
Parte 15: "Festim Diabólico"
Parte 16: "Sob o Signo de Capricórnio"
Parte 17: "Pacto Sinistro"
Parte 18: "A Tortura do Silêncio"
Parte 19: técnicas de cinema
Parte 20: "Janela Indiscreta"
Parte 21: "Um Corpo Que Cai"
Parte 22: "Intriga Internacional"
Parte 23: "Psicose"
Parte 24: "Os Pássaros"
Parte 25: "Marnie, Confissões de uma Ladra" e "Cortina Rasgada"

*

Ismail analisa o "Cabra"

Por último, uma sugestão para quem estiver em São Paulo neste final de semana. No sábado, o professor da USP e crítico de cinema Ismail Xavier debaterá "Cabra Marcado para Morrer" (1984), o primeiro grande documentário de Eduardo Coutinho. O evento integra a programação do cineclube do Colégio Equipe; a sessão do filme acontecerá às 16h, e o debate, na sequência, às 18h. O longa será exibido em cópia VHS, o que certamente não é um atrativo, mas ouvir Ismail analisar a obra de Coutinho mais do que compensa esse problema. O Colégio Equipe fica na rua Bento Freitas, 223, em Pinheiros, e os organizadores pedem aos espectadores uma colabotração de R$ 4.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h13 PM

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“Demônio” vs. “Cegueira” na festa da ABC

Por Sérgio Rizzo

Nos EUA, as premiações anuais dos sindicatos são muito valorizadas pelos profissionais da indústria cinematográfica e funcionam como indicadores do Oscar. Por aqui, a Associação Brasileira de Cinematografia (ABC) oferece prêmios para longas-metragens em quatro categorias (direção de arte, direção de fotografia, montagem e som), além de distinguir também trabalhos de cinematografia em outras oito categorias (curta-metragem, documentário, comercial, musical, telenovela, minissérie de TV, novas mídias e filme estudantil).

Fundada em 2000, a ABC reúne cerca de 300 profissionais de diversas áreas e começou a distribuir prêmios em 2003. Sua festa anual ocupará a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, nesta semana, de quarta a sexta-feira. Nos dois primeiros dias, haverá painéis, das 9h às 19h, sobre temas variados como restauração, computação gráfica na TV e pós-produção digital. Na sexta-feira, a atriz Carolina Ferraz apresentará, a partir de 19h30, a cerimônia de entrega dos prêmios, que inclui homenagem ao fotógrafo José Guerra, o “Guerrinha”, sócio-fundador da ABC, que morreu em 28 de outubro.

Conheça abaixo os longas-metragens indicados e confira depois se as suas preferências coincidem com as dos profissionais da ABC. “Encarnação do Demônio” e “Ensaio sobre a Cegueira” são os únicos indicados nas quatro categorias. “Linha de Passe” e “Os Desafinados” receberam três indicações; “Meu Nome não é Johnny” e “Estômago”, duas; “A Casa da Mãe Joana”, “O Banheiro do Papa” e “Nome Próprio”, uma.

                                                                            Fotos Divulgação

Direção de Arte
Cássio Amarante, por “Encarnação do Demônio”
Claudio Amaral Peixoto, por “Meu Nome não é Johnny”
Clovis Bueno, por “Os Desafinados”
Marcos Flaksman, por “A Casa da Mãe Joana”
Tulé Peake, por “Ensaio sobre a Cegueira”
(Vencedor em 2008: Claudio Amaral Peixoto, por “Noel, o Poeta da Vila”)

Direção de Fotografia
Cesar Charlone, com duas indicações, por “Ensaio sobre a Cegueira” e “O Banheiro do Papa”
José Roberto Eliezer, por “Encarnação do Demônio”
Mauro Pinheiro Jr., por “Linha de Passe”
Pedro Farkas, por “Os Desafinados”
(Vencedor em 2008: José Roberto Eliezer, por “O Cheiro do Ralo”)

Montagem
Daniel Rezende, por “Ensaio Sobre a Cegueira”
Gustavo Giani e Lívia Serpa, por “Linha de Passe”
Luca Alverdi, por “Estômago”
Marcelo Moraes, por “Meu Nome não é Johnny”
Paulo Sacramento, por “Encarnação do Demônio”
Vânia Debs, por “Nome Próprio”
(Vencedores em 2008: Eduardo Escorel e Lívia Serpa, por “Santiago”)

Som
Guilherme Ayrosa, Alessandro Laroca, Armando Torres Jr. e Lou Solakofski, por “Ensaio sobre a Cegueira”
Leandro Lima e Frank Gaeta, por “Linha de Passe”
Louis Robin, Ricardo Reis, Miriam Biderman e Armando Torres Jr., por “Encarnação do Demônio”
Marcio Camara, Tom Paul e Eduardo Pop, por “Os Desafinados”
Maricetta Lombardo e Jean-Christophe Casalini, por “Estômago”
(Vencedores em 2008: Leandro Lima, Alessandro Laroca e Armando Torres Jr., por “Tropa de Elite”)

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h59 PM

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Recados para quem faz cinema

Recados para quem faz cinema

Por Leonardo Cruz

O que você gostaria de dizer para quem faz os filmes?

Sob a desculpa de que a Hollywood foi escrita em cima de “memos” (essas mensagens curtas), os dois principais críticos do “New York Times”, Manohla Dargis e A.O. Scott, redigiram uma divertida série de sugestões para diretores, produtores, exibidores e até público de cinema.

Se alguns conselhos forem aproveitados (o que me parece improvável), veremos mais e melhores filmes. Trechos de algumas das mensagens:

Para: a internet
CC: Hollywood
De: A. O. Scott
As pessoas gostam de filmes. Nas salas de cinema. Na TV. Em DVD. Tanto faz. Não nos importamos em pagar por eles, mas gostaríamos de vê-los sem muita dificuldade, inconveniência ou confusão. Seria legal poder ver alguns deles em nossos iPods ou computadores. Talvez seja o melhor jeito de filmes não-comerciais chegarem a nós. Vocês podem inventar um modelo de negócio que torne isso possível?

Ao que parece, o A. O. Scott ainda não conhece o Auteurs.

Para: todos os estúdios de animação, exceto a Pixar e às vezes a DreamWorks
CC: Pixar, DreamWorks
De: A. O. Scott
Vocês podem fazer coisas incríveis com animação atualmente, e muitas vezes é divertido assistir aos resultados dessa feitiçaria visual. Mas só isso não basta, e as fórmulas estão ficando cansativas. Chega de “sacadas”, desgastadas alusões à cultura pop, dublagens de celebridades, piadinhas internas e falso moralismo. Tentem contar uma história simples, com convicção.

Comentário perfeito para “Monstros vs. Alienígenas”.

Para: cineastas, especialmente com menos de 40
De: Manohla Dargis
O tripé é seu amigo. Apesar de ser um clichê do cinema contemporâneo, ficção e não-ficção, a câmera na mão que clama agressivamente por atenção tende a tornar imagens vazias ainda mais vazias. Se você quiser que notemos sua fotografia, tenha certeza que tem algo a dizer, como o cineasta francês Olivier Assayas.

Para: a plateia
De: Manohla Dargis
Não há como negar o prazer de ver filmes em casa, mas DVDs e downloads não se comparam à experiência da tela grande.

Para: Steven Spielberg, Martin Scorsese
De: A.O.Scott
Voltem a pensar pequeno! Seu amigo Francis Ford Coppola fez seus últimos filmes com orçamentos apertados na Romênia e na Argentina. Brian De Palma filmou “Redacted” em vídeo, com elenco desconhecido. É triste pensar que seus dias de filmes pessoais, pequenos, ficaram para trás. Bem, talvez não tenham ficado.

Para: Academia de Artes e Ciências Cinematográficas
De: A. O. Scott
O Oscar não está funcionando. Por um lado, vocês estão perdendo contato com o público; e, por outro, a tradição de arte popular. Arrisquem, mudem a fórmula, aumentem o corpo de membros. Façam algo.

Para: Academia
De: A. O. Scott
Esqueçam a mensagem anterior. Matem o Oscar!

E você? Qual seria seu recado?

*

Para ler e pensar
A Film Comment deste mês apresenta em seu site a íntegra de duas conversas com gente de cinema: o diretor chinês Jia Zhang-ke e o veterano crítico francês Michel Ciment, da revista Positif.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h49 PM

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Fobias

 
 

Fobias

Nesta semana, o crítico Sérgio Rizzo fala sobre a estreia de “Filmefobia”, de Kiko Goifman, vencedor dos prêmios de melhor filme e ator (Jean-Claude Bernardet) no Festival de Brasília de 2008. Longa que embaralha conceitos tradicionais, “Filmefobia” apresenta pessoas que são expostas aos seus medos. Para ouvir o podcast, clique no microfone:

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h05 PM

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100 trilhas para celebrar 1 século de música no cinema

Por Cássio Starling Carlos

Muitas vezes tratada como criação bastarda, a música de cinema sofre por ser identificada como uma produção híbrida, que carrega e se faz notar pelo tanto de tradição musical em que se inspira e com que dialoga, mas que no cinema, acusam seus críticos, desempenha a tarefa subalterna de acompanhar imagens.

Sobre esse equívoco já se escreveu muito e bem, inclusive no Brasil, onde o monumental “A Música do Cinema”, de João Máximo, é ferramenta indispensável para nós críticos, que nos vangloriamos de ver muito, mas escutamos pouco.

O maior dos nossos equívocos, por exemplo, é associar música e advento do som e acreditar que o centenário da música de cinema só será celebrado em 2027, quando alguém vai aparecer com a ideia de comemorar os cem anos da estreia de “O Cantor de Jazz”, o filme que emudeceu toda a história do cinema antes dele.

Para que não tenhamos que esperar até lá, o sempre atento “Hollywood Reporter” lembrou nesta semana que os adictos em comemorações comeram mosca e que o centenário das trilhas deveria ter sido celebrado no ano passado. Pelo menos esta é a versão de Howard Shore, o compositor a quem David Cronenberg mantém-se fiel há três décadas e que também já associou seus talentos a nomões como Scorsese, David Fincher e Peter Jackson.

Segundo Shore, a primeira trilha original foi composta pelo compositor francês Camille Saint-Saens para o filme “O Assassinato do Duque de Guise”, dirigido por Charles Le Bargy em 1908.

Outros, como o craque Roy M. Pendergast, tomam o ano seguinte como referência. Em seu estudo “Film Music: A Neglected Art”, Pendergast aponta 1909 como base, quando a companhia Thomas Edison Moving Picture lançou a primeira das “sugestões específicas para música” que traziam orientações para os pianistas e orquestras que tocavam em cinemas durante as exibições de seus filmes.

Enquanto não se decide a polêmica, o “Hollywood Reporter” aproveitou e publicou nesta semana o que anuncia como “a primeira enquete sobre música de cinema já feita, uma pesquisa em todos os ramos da indústria para definir as cem maiores trilhas originais de todos os tempos”.

Como toda enquete restrita ao ambiente norte-americano, esta também concentra-se em demasia na produção local, reservando para as últimas posições espaço para autores distantes, mas inevitáveis, como Georges Delerue e Sergei Prokofiev, para não parecer ignorante.

Veja abaixo a lista completa. E quem quiser conhecer mais sobre este universo sonoro pode se embrenhar no trabalho entusiasmado da turma do Scoretrack, um site em português só sobre música e cinema.

1. “O Poderoso Chefão” (1972) - Nino Rota

2. “Tubarão” (1975) - John Williams

3.”Guerra nas Estrelas” (1977) - John Williams

4. “Três Homens em Conflito” (1966) - Ennio Morricone

5. “Psicose” (1960) - Bernard Herrmann

6. “E.T. - O Extreterrestre” (1982) - John Williams

7. “Lawrence da Arábia” (1962) - Maurice Jarre

8. “...E o Vento Levou” (1939) - Max Steiner

9. “Caçadores da Arca Perdida” (1982) - John Williams

10. “Chinatown” (1974) - Jerry Goldsmith

11. “Casablanca” (1942) - Max Steiner

12. “A Missão” (1986) - Ennio Morricone

13. “Doutor Jivago” (1965) - Maurice Jarre

14. “Bonequinha de Luxo” (1961) - Henry Mancini

15. “Sete Homens e Um Destino” (1960) - Elmer Bernstein

16. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) - John Williams

17. “Fugindo do Inferno” (1963) - Elmer Bernstein

18. “Carruagens de Fogo” (1981) - Vangelis

19. “Um Corpo que Cai” (1958) -Bernard Herrmann

20. “A Lista de Schindler” (1993) - John Williams

21. "O Mágico de Oz" (1939) - Herbert Stothart

22. "O Sol É para Todos’ (1962) -Elmer Bernstein

23. “Cidadão Kane” (1941) - Bernard Herrmann

24. “Beleza Americana” (1999) -Thomas Newman

25. “007 Contra Goldfinger” (1964) - John Barry

26. “A Pantera Cor-de-Rosa” (1963) - Henry Mancini

27. “Ben-Hur” (1959) - Miklos Rozsa

28. “Alien - O Oitavo Passageiro” (1979) - Jerry Goldsmith

29. “Dança com Lobos” (1990) -Jerry Goldsmith

30. “Intriga Internacional” (1959) - Bernard Herrmann

31. “Laura” (1944) - David Raksin

32. “Batman” (1989) - Danny Elfman

33. "Spartacus" (1960) - Alex North

34. "Um Sonho de Liberdade" (1994) - Thomas Newman

35. "Blade Runner - O Caçador de Andróides" (1982) - Vangelis

36. "A Ponte do Rio Kwai" (1957) - Malcolm Arnold

37. "Entre Dois Amores" (1985) - John Barry

38. "Superman" (1978) - John Williams

39. "De Volta para o Futuro" (1985) - Alan Silvestri

40. "Crepúsculo dos Deuses" (1950) - Franz Waxman

41. "O Império Contra-Ataca" (1980) - John Williams

42. "Taxi Driver" (1976) - Bernard Herrmann

43. "Um Homem Fora de Série" (1984) - Randy Newman

44. "Sindicato de Ladrões" (1954) - Leonard Bernstein

45. "Era Uma Vez no Oeste" (1968) - Ennio Morricone

46. "Planeta dos Macacos" (1968) - Jerry Goldsmith

47. "Gladiador" (2000) - Hans Zimmer

48. "Coração Valente" (1995) -James Horner

49. "Edward Mãos de Tesoura" (1990) - Danny Elfman

50. "O Senhor dos Anéis" (2001) - Howard Shore

51. "Butch Cassidy" (1969) - Burt Bacharach

52. "As Aventuras de Robin Hood" (1938) - Erich Wolfgang Korngold

53. "Shaft" (1971) - Isaac Hayes

54. "King Kong" (1933) - Max Steiner

55. "Jornada nas Estrelas - O Filme" (1979) - Jerry Goldsmith

56. "Patton - Rebelde ou Herói?" (1970) - Jerry Goldsmith

57. "A Profecia" (1976) - Jerry Goldsmith

58. "Era Uma Vez na América" (1984) - Ennio Morricone

59. "Titanic" - James Homer

60. "O Paciente Inglês" (1996) -Gabriel Yared

61. "Matar ou Morrer" (1952) -Dimitri Tiomkin

62. "A Conquista do Oeste" (1962) - Alfred Newman

63. "Forrest Gump - O Contador de Histórias" (1994) - Alan Silvestri

64. "O Rei Leão" (1994) - Hans Zimmer

65. "O Terceiro Homem" (1949) - Anton Karas

66. "Exodus" (1960) - Ernest Gold

67. "Perdidos na Noite" (1969) -John Barry

68. "Toy Story" (1995) - Randy Newman

69. "Rebeldia Indomável" (1967) - Lalo Schifrin

70. "Veludo Azul" (1986) - Angelo Badalamenti

71. "Os Dez Mandamentos" (1956) - Elmer Bernstein

72. "O Fantasma Apaixonado" (1947) - Bernard Herrmann

73. "Juventude Transviada" (1955) - Leonard Rosenman

74. "Corpos Ardentes" (1981) -John Barry

75. "Love Story - Uma História de Amor" (1970) - Francis Lai

76. "8 1/2" (1963) - Nino Rota

77. "Os Fantasmas se Divertem" (1988) - Danny Elfman

78. "A Marca da Maldade" (1958) - Henry Mancini

79. "O Silêncio dos Inocentes" (1991) - Howard Shore

80. "Capitão Blood" (1935) -Erich Wolfgang Korngold

81. "O Dia em que a Terra Parou" (1951) - Bernard Herrmann

82. "Brasil - O Filme" (1985) -Michael Kamen

83. "O Tigre e o Dragão" (2000) -Tan Dun

84. "O Bebê de Rosemary" (1968) - Krzysztof Komeda

85. "Em Cada Coração Um Pecado" (1942) - Erich Wolfgang Korngold

86. "Uma Rua Chamada Pecado" (1951) - Alex North

87. "Amarcord" (1973) - Nino Rota

88. "Matrix" (1999) - Don Davis

89." O Mensageiro do Diabo" (1955) - Walter Schumann

90. "O Conformista" (1970) -Georges Delerue

91. "O Gavião do Mar" (1940) -Erich Wolfgang Korngold

92. "Pacto de Sangue" (1944) -Miklos Rozsa

93. "Luzes da Cidade" (1931) -Charles Chaplin

94. "Vidas Amargas" (1955) -Leonard Rosenman

95. "Atire no Pianista" (1960) -Georges Delerue

96. "A Conversação" (1974) -David Shire

97. "A Mulher da Areia" (1964) -Toru Takemitsu

98. "Alexander Nevsky" (1938) -Sergei Prokofiev

99. "Rain Man" (1988) - Hans Zimmer

100. "Halloween" (1978) - John Carpenter

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h18 PM

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