No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta "Três Macacos", de Nuri Bilge Ceylan, uma boa oportunidade para conhecer um pouco mais do cinema turco, que raramente chega ao Brasil. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Em tempos de crise, esperança. Essa foi a mensagem passada pela Academia nesta madrugada ao conceder o Oscar de melhor filme a “Quem Quer Ser um Milionário?”, uma fábula alto astral (e banal) sobre um jovem favelado que supera todas as adversidades do cotidiano, fica rico em um programa de TV e conquista a mulher de sua vida.
Em tempos de falências e demissões (especialmente nos EUA), Hollywood reafirma que é preciso sonhar, acreditar no impossível. Como bem apontou Sérgio Dávila na Ilustrada deste domingo, é o espírito da era Obama.
Esse espírito de sonho de “Milionário” foi espelhado pela própria cerimônia de premiação. Longe do formato de stand-up comedy dos últimos anos, a festa teve cara de megaprodução da Broadway, com Hugh Jackman à frente de números musicais grandiloquentes. A começar pelo primeiro, uma versão “rebobine, por favor” dos principais indicados da noite.
E foi também o Oscar do respeito à diversidade. Representada pelo elenco indiano de “Milionário”, que tomou o palco ao final da cerimônia. Pelo prêmio de atriz coadjuvante à espanhola Penélope Cruz. E, principalmente, pelas duas estatuetas para “Milk”, que abriraram espaço para o roteirista gay Dustin Lance Black e o ator hétero defenderem direitos iguais a todos nos EUA.
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Os vencedores da noite
“Quem Quer Ser um Milionário?”: com oito estatuetas, o feito do filme de Danny Boyle é enorme. Em 81 anos de Oscar, apenas oito produções tiveram mais êxito que “Milionário”: “Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” (11 Oscars), “Titanic” (11), “O Paciente Inglês” (9), “O Último Imperador” (9), “Amor , Sublime Amor” (10), “Bun-Hur” (11), “Gigi” (9) e “E o Vento Levou” (10). Além disso, o vencedor deste ano igualou a marca de estatuetas do outro longa rodado na Índia que já triunfara no Oscar: “Gandhi”.
Sean Penn e Kate Winslet: surprise, surprise. Nas duas principais categorias de interpretação, venceram os melhores, com as melhores interpretações. Ao menos aqui, as estatuetas ficaram em boas mãos.
“Departures”: ganha um doce quem encontrar alguém que tenha previsto que este filme japonês venceria em filme estrangeiro. De longe, a maior surpresa da noite. Até Liam Neeson tomou um susto ao anunciar o vencedor, cujo diretor Yojiro Takita não conseguiu dizer muito mais do que “Sank you, sank you, sank you”. O lado bom desse resultado é que deve animar alguma distribuidora brasileira a comprar o filme. Melhor que o discurso de Takita foi o de seu compatriota Kunio Kato, vencedor em curta de animação. Reveja.
Hugh Jackman: cantou, dançou, fez piadas com a plateia, agarrou Anne Hathaway e Beyoncé. Tudo o que um show da Broadway espera de seu protagonista.
Os perdedores da noite
“O Curioso Caso de Benjamin Button”: 13 indicações e apenas três Oscars, todos em categorias técnicas. Foi pouco para um filme bem melhor que “Milionário”.
Mickey Rourke: Hollywood mostrou que não gosta tanto assim dos “comebacks”. Ou que não gosta tanto de Rourke, politicamente incorreto demais para o Oscar 2009.
“Valsa com Bashir”: depois de levar o Globo de Ouro de filme estrangeiro e prêmios dos sindicatos dos diretores e dos roteiristas, Ari Folman deve ter passado o dia ensaiando o discurso da vitória diante do espelho.
O cinema: se o Oscar representa uma peça importante da história do cinema, então esta ficou um pouco mais pobre nesta noite. A vitória avassaladora de “Milionário”, um filme no máximo mediano, só não é mais lamentável, nesta década, do que os 11 Oscars dados a “Senhor dos Anéis” em 2004. E as ausências de “Wall-E” e “Gran Torino” da disputa de melhor filme só reforçaram esse sentimento de frustração.
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Os palpites infalíveis do blog
A bola de cristal do Ilustrada no Cinema até que trabalhou direitinho neste ano. De 21 chutes, ops, previsões apresentadas pelo blog na última sexta, 18 acertos. Só Sean Penn, “Departures” e o prêmio de mixagem de som para “Milionário” traíram nossa bola paraguaia, que ganhou uma dose extra de ração pelos bons serviços prestados.
Falta pouco, bem pouco, para o anúncio da lista mais esperada do ano do mundo do cinema. Para quem não aguenta mais ouvir falar nem de Oscar nem de previsões, um bom passatempo é mirar o passado e ver se não se encontra por lá alguma idéia de paraíso perdido. É o que mantém incessante a mania das listas. Todo mundo tem as suas, que podem ser desde as tradicionais, como as que selecionam os títulos essenciais para uma cinemateca ideal, até as mais inesperadas, como as dos dez melhores espirros, gargalhadas ou tropeços da história do cinema.
Outros se aferram a suas especialidades e, corporativamente, propõem seleções de melhores em suas áreas. A mais recente foi divulgada no último final de semana pelo ADG, o sindicato de diretores de arte norte-americano, e traz a seleção dos cem mais magníficos trabalhos de direção de arte da história do cinema. A seleção, feita em comemoração do aniversário de 70 anos da entidade, não classifica os títulos por ordem de importância, mas em ordem cronológica.
Acima e abaixo, você pode conferir uma pequena seleção dos títulos. A lista completa dos cem está disponível aqui.
Fotos Divulgação "Janela Indiscreta", pelo qual Hitchcock não levou o Oscar de 55
Por Sérgio Rizzo
O que Alfred Hitchcock, Orson Welles, Stanley Kubrick e Howard Hawks têm em comum, além de frequentar listas de maiores cineastas de todos os tempos? Nenhum deles recebeu o Oscar de direção. Martin Scorsese fazia companhia a essa turma ilustre até 2007, quando o prêmio por “Os Infiltrados” o transferiu para outro clube, que reúne monstros como John Ford, Elia Kazan, David Lean e Billy Wilder, mas também Robert Redford (Oscar na estreia como diretor por “Gente Como a Gente”), Kevin Costner (igualmente consagrado na estreia como diretor por “Dança com Lobos”) e Barry Levinson (premiado por “Rain Man”).
Dos cinco indicados ao prêmio neste ano, três terão na segunda-feira o consolo de continuar pertencendo ao Clube dos Sem-Oscar. Gus van Sant (segunda indicação) e Stephen Daldry (terceira indicação) parecem ter sua vaga assegurada. A outra fica para David Fincher ou Danny Boyle, ambos favoritos ao prêmio e também indicados pela primeira vez. O quinto candidato, Ron Howard, já recebeu o Oscar de direção por “Uma Mente Brilhante”.
Confira abaixo como os profissionais da Academia de Hollywood esnobaram esses quatro diretores extraordinários. Eram todos “de casa”; Hitchcock, apesar de inglês, fez a parte mais significativa da carreira nos EUA. Não vale, portanto, compará-los a “gringos” que também não ganharam o Oscar de direção, como o italiano Federico Fellini e o sueco Ingmar Bergman, cujas indicações nessa categoria (quatro para Fellini e três para Bergman) já foram um reconhecimento ao seu talento (sem falar nos Oscar de filme estrangeiro conquistados por eles).
Alfred Hitchcock (1899-1980) Disputou cinco vezes o Oscar de melhor direção: em 1941, por “Rebecca, a Mulher Inesquecível” (perdeu para John Ford por “Vinhas da Ira”, mas “Rebecca” recebeu o Oscar de melhor filme); em 1945, por “Um Barco e Nove Destinos” (perdeu para Leo McCarey por “O Bom Pastor”); em 1946, por “Quando Fala o Coração” (perdeu para Billy Wilder por “Farrapo Humano”); em 1955, por “Janela Indiscreta” (perdeu para Elia Kazan por “Sindicato de Ladrões”); em 1961, por “Psicose” (perdeu outra vez para Wilder por “Se Meu Apartamento Falasse”).
Em 1959, quando poderia concorrer por “Um Corpo que Cai”, entre os indicados estavam Mark Robson (“A Morada da Sexta Felicidade”), Stanley Kramer (“Acorrentados”) e Robert Wise (“Quero Viver”). Em 1960, quando poderia ser indicado por “Intriga Internacional”, a lista trazia Jack Clayton (“Almas em Leilão”) e Fred Zinnemann (“Uma Cruz à Beira do Abismo”). Em 1964, quando era elegível por “Os Pássaros”, a Academia preferiu indicar Otto Preminger (“O Cardeal”) e Martin Ritt (“O Indomado”). Em 1968, Hitchcock recebeu da Academia o prêmio Irving G. Thalberg.
"2001", com o qual Stanley Kubrick perdeu o Oscar de 1969
Stanley Kubrick (1928-1999) Disputou quatro vezes o Oscar de melhor direção: em 1965, por “Dr. Fantástico” (perdeu para George Cukor por “Minha Bela Dama”); em 1969, por “2001” (perdeu para Carol Reed por “Oliver!”); em 1972, por “Laranja Mecânica” (perdeu para William Friedkin por “Operação França”); em 1976, por “Barry Lyndon” (perdeu para Milos Forman por “Um Estranho no Ninho”).
Em 1981, quando era elegível por “O Iluminado”, a Academia premiou Redford e indicou Richard Rush (“O Substituto”). Em 1988, quando poderia concorrer por “Nascido para Matar”, entre os indicados estavam Adrian Lyne (“Atração Fatal”) e Norman Jewison (“Feitiço da Lua”). Em 2000, quando poderia receber uma indicação póstuma por “De Olhos Bem Fechados”, a Academia preferiu Lasse Halstrom (“Regras da Vida”). Em 1969, Kubrick recebeu o Oscar de efeitos especiais por “2001”.
"Cidadão Kane", que não levou a estatueta de direção em 1942
Orson Welles (1915-1985) Disputou uma vez o Oscar de direção: em 1942, por “Cidadão Kane”, que lhe valeu o prêmio de roteiro original, dividido com Herman J. Mankiewicz (além de uma terceira indicação, para melhor ator). Nesse ano, o prêmio foi de John Ford (“Como Era Verde o Meu Vale”).
Em 1943, quando poderia ser indicado por “Soberba”, entre os candidatos estavam John Farrow (“Nossos Mortos Serão Vingados”) e Mervyn LeRoy (“Na Noite do Passado”). Em 1959, quando era elegível por “A Marca da Maldade” (e Hitchcock por "Um Corpo que Cai"), a Academia preferiu indicar Mark Robson (“A Morada da Sexta Felicidade”), Stanley Kramer (“Acorrentados”) e Robert Wise (“Quero Viver”). Em 1971, Welles recebeu um prêmio honorário da Academia.
"Sargento York", que não deu o Oscar a Howard Hawks em 42
Howard Hawks (1896-1977) Disputou uma vez o Oscar de direção: em 1942, por “Sargento York”. Perdeu, como Welles na mesma ocasião, para John Ford.
Em 1949, quando poderia ser indicado por “Rio Vermelho”, entre os candidatos estavam Zinnemann (“Perdidos na Tormenta”), Jean Negulesco (“Belinda”) e Anatole Litvak (“Na Cova das Serpentes”). Em 1953, quando era elegível por “Rio da Aventura”, a Academia preferiu indicar John Huston (“Moulin Rouge”) e Joseph L. Mankiewicz (“Cinco Dedos”). Em 1960, quando poderia ser candidato por “Onde Começa o Inferno”, ele e Hitchcock (“Intriga Internacional”) foram excluídos da lista de cinco indicados para a inclusão de Jack Clayton (“Almas em Leilão”) e Fred Zinnemann (“Uma Cruz à Beira do Abismo”). Em 1963, quando seria elegível por “Hatari!”, viu serem indicados Frank Perry (“David e Lisa”) e Robert Mulligan (“O Sol É Para Todos”). Em 1975, Hawks recebeu um prêmio honorário da Academia.
Como todo ano, o blog aciona sua bola de cristal e arrisca previsões para as principais categorias do Oscar. Tudo muito subjetivo e sujeito a discordâncias e espinafrações. E, como a bola é paraguaia, deve estar tudo errado. Antes dos palpites, uma rápida explicação sobre a votação da Academia. São cerca de 5.800 votantes, profissionais de Hollywood, divididos em 16 áreas de atuação. Nesta fase final, com os indicados já definidos, todos os eleitores escolheram seus favoritos em 19 das 24 categorias _os prêmios de filme estrangeiro, documentários e curtas têm regras diferentes. A votação foi encerrada na última terça, e a PriceWaterhouseCoopers faz nestes dias a contagem das cédulas. A cerimônia, como sabemos, acontece neste domingo, às 22h. Para assistir, a única opção é o canal pago TNT, já que a Globo preferiu exibir o baticundum anual da Sapucaí.
Fotos Divulgação "Quem Quer Ser um Milionário?" deve levar 7 estatuetas
MELHOR FILME Quem vencerá: "Quem Quer Ser um Milionário?" Como já escrevi num post na semana passada, a estatueta de melhor filme já tem dono. O longa de Danny Boyle acumula o maior número de prêmios da temporada pré-Oscar e faturou os troféus dos sindicatos mais importantes de Hollywood: atores, diretores, produtores e roteiristas. Nunca um filme com tal desempenho deixou de ser escolhido melhor filme no Oscar. Uma vitória de qualquer outro longa seria uma surpresa bem maior que a vitória de "Crash" sobre "Brokeback Mountain" em 2006. Quem deveria vencer: desses concorrentes, "Milk" é o melhor filme. E mesmo "O Curioso Caso de Benjamin Button" é mais interessante que "Milionário". Mas é preciso ressaltar que o Oscar do ano passado tinha concorrentes bem mais fortes, como "Onde os Fracos Não Têm Vez" (o vencedor) e "Sangue Negro".
MELHOR DIREÇÃO Quem vencerá: Danny Boyle ("Quem Quer Ser um Milionário?") O cineasta britânico já venceu o prêmio do sindicato dos diretores (DGA). Desde 1948, é praticamente certo que quem fatura o DGA também leva o Oscar de direção _apenas seis vezes isso não ocorreu. O amplo favoritismo do longa na categoria melhor filme só amplia as chances de Boyle. Quem deveria vencer: o trabalho de Gus van Sant, por "Milk", merecia a estatueta.
MELHOR ATOR Quem vencerá: Mickey Rourke ("O Lutador") É o tal "comeback" que Hollywood tanto adora. Um ator que estava longe do estrelato, afundou a carreira (e o rosto) em lutas de boxe e voltou ao cinema com um personagem comovente, que é praticamente um decalque de si mesmo. Os discursos emocionados de Rourke ao receber o Globo de Ouro e o Bafta também devem ter ajudado a arrebanhar mais alguns votos da Academia. Pesa contra ele o fato de Sean Penn ter levado o prêmio principal do sindicato dos atores (SAG). Quem deveria ganhar: Enquanto Mickey Rourke interpreta a si mesmo, Sean Penn faz um personagem de verdade em "Milk". E está muito bem.
Kate Winslet, a ouvinte, deve superar Meryl Streep
MELHOR ATRIZ Quem vencerá: Kate Winslet ("O Leitor") A atriz está em sua sexta indicação e nunca levou o prêmio para casa. Está muito bem em seus dois filmes da temporada ("Foi Apenas um Sonho" e "O Leitor"). Já ganhou o Bafta, dois Globo de Ouro e o SAG (neste último na categoria de atriz coadjuvante). E a moça ainda está na capa da última edição da "Time", uma ótima vitrine para influenciar os acadêmicos que deixaram para votar na última semana. Tudo isso deve ser o bastante para bater Meryl Streep. Quem deveria vencer: A própria Kate Winslet. Se ela estivesse fora da disputa, o prêmio caberia nas mãos de Anne Hathaway ("O Casamento de Rachel").
MELHOR ATOR COADJUVANTE Quem vencerá: Heath Ledger ("Batman - O Cavaleiro das Trevas") É a grande barbada deste Oscar. Além de Ledger ter criado um ótimo Coringa, há ainda toda a carga emocional do prêmio póstumo. Quem deveria vencer: o próprio, apesar de os outros quatro concorrentes (Josh Brolin, Philip Seymour Hoffman, Robert Downey Jr. e Michael Shannon) também estarem bem em seus papéis.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE Quem vencerá: Penélope Cruz ("Vicky Cristina Barcelona") O fato de Kate Winslet concorrer como atriz principal por "O Leitor", e não como coadjuvante, dá uma embaçada na bola de cristal do blog. Mas, entre muita fumaça, dá para ver o nome de Penélope Cruz em destaque, por causa da vitória no Bafta e em alguns prêmios de críticos americanos. É, sem dúvida, uma disputa embolada, em que Viola Davis também tem boas chances. Quem deveria vencer: como a dançarina de "O Lutador", Marisa Tomei está mais cativante que Mickey Rourke.
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL Quem vencerá: Dustin Lance Black ("Milk - A Voz da Igualdade") "Milk" já levou esse mesmo prêmio do sindicato dos roteiristas (WGA), mas é bom não descartar Mike Leigh, por "Simplesmente Feliz". Quem deveria vencer: Seria ótimo ver Andrew Stanton com a estatueta pelo ótimo "Wall-E".
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO Quem vencerá: Simon Beaufoy ("Quem Quer Ser um Milionário?") Também ganhou no sindicato dos roteiristas, e o favoritismo de "Milionário" na categoria melhor filme deve ter ajudado a angariar muitos votos. Quem deveria vencer: Difícil. Eric Roth ("Benjamin Button") e David Hare ("O Leitor") talvez fossem alternativas mais interessantes.
"Valsa com Bashir", grande favorito a filme estrangeiro
MELHOR FILME ESTRANGEIRO Quem vencerá: "Valsa com Bashir" Esta categoria reúne dois filmes muito melhores que todos os cinco concorrentes da categoria principal. "Bashir" é um deles, essa surpreendente mistura de documentário e animação. E Ari Folman já ganhou o DGA, o WGA e o Globo de Ouro nessa categoria. Quem deveria vencer: O prêmio fica muito bem nas mãos de Folman. E ficaria igualmente bem nas mãos de Laurent Cantet, por "Entre os Muros da Escola". Mas Cantet já faturou Cannes no ano passado. E quem tem a Palma de Ouro não precisa do Oscar.
MELHOR ANIMAÇÃO Quem vencerá: "Wall-E" As seis indicações no Oscar deste ano demonstram o apreço que a Academia tem pelo filme de Andrew Stanton, cheio de referências à história do cinema. Mas "Kung Fu Panda" ganhou o Annie, o prêmio dos animadores, que costuma ser um bom termômetro. Quem deveria vencer: "Wall-E"
OUTRAS CATEGORIAS "Quem Quer Ser um Milionário?" também deve ganhar em fotografia, montagem, trilha original e canção, saindo como o grande vencedor da noite, com sete estatuetas. "O Curioso Caso de Benjamin Button", que teve 13 indicações, deve ficar com três troféus (direção de arte, maquiagem e efeitos visuais), mesmo número de "Batman", favorito aos dois prêmios de som (edição e mixagem), além da estatueta garantida para Heath Ledger. Figurino deve ficar com "A Duquesa", e o melhor documentário é quase certo para "Man on Wire". A bola de cristal paraguaia pifou na hora das previsões dos prêmios de curta-metragem. Essas três categorias são um enorme mistério.
Complemento ao post anterior, o podcast desta semana apresenta um comentário do crítico Sérgio Rizzo sobre o bom trabalho do diretor Gus van Sant em "Milk - A Voz da Igualdade". Para ouvir, basta clicar no microfone.
Divulgação Josh Brolin (Dan White) e Sean Penn (Harvey Milk), em "Milk"
Por Silvana Arantes
Em "Milk - A Voz da Igualdade", longa de Gus van Sant que estreia nesta sexta no Brasil, o ator Josh Brolin ficou com o papel do vilão. Ele é Dan White, o político conservador que desenvolve uma relação de atração e repulsa por Milk _e leva a repulsa às últimas consequências.
No ano passado, Brolin encarnou George W. Bush, em "W.", de Oliver Stone. A interpretação que fez do vastamente abominado ex-presidente norte-americano foi tão cativante que acabou rendendo a Stone _um notório crítico da era Bush_ várias "acusações" de ter feito um filme simpático ao seu biografado.
Com White, Brolin também procurou fugir da caricatura do homem-perverso-capaz-de-tudo. Ele pesquisou todo o material disponível a respeito de seu personagem. "Falei com muitas pessoas. Tive a sorte de ouvir a fita da confissão de Dan White, o que a maioria não pôde fazer. Eu me senti mal por ele. É um personagem muito triste. Não era divertido interpretá-lo", disse o ator à Folha, em Los Angeles, em novembro passado.
Um dia, no set, Brolin foi avisado da presença de uma pessoa que não tinha certeza se gostaria de encontrar. "Sean chegou pra mim e disse que o filho de Dan estava no set. Perguntou se eu queria encontrá-lo. Eu estava vestido como o personagem. Fiquei em dúvida. Mas ele é um garoto muito doce. Não lhe fiz muitas perguntas. Não perguntaria algo como: ‘Você se lembra do seu pai?’, ‘O seu pai fez isso ou aquilo?’, ‘O seu pai dava a impressão de que queria matar alguém?’. Eu não perguntaria nada disso."
Brolin encerrou o encontro com uma certeza: "Isso me afetou e afetou a ele. Eu me senti mal pelo garoto. Ele não pediu para isso acontecer". Ou melhor, duas certezas: "Ele estava grato ao fato de que o filme estivesse sendo feito. Obviamente, qualquer pessoa, não importa o que seus pais tenham feito, reage protetoramente em relação a eles. Embora ele estivesse um pouco sensível, ele sentiu que havia duas pessoas _Sean e eu_ que não estavam interessadas em representar o pai dele como uma espécie de monstro".
No filme, Van Sant descreve a relação de White e Milk com uma ambiguidade que insinua um provável desejo sexual reprimido do primeiro. "Sim, essa ideia cruzou minha cabeça. Traz um outro elemento para a história. Não sei se é procedente ou não. Eu não necessariamente o interpretei assim, mas pensei sobre isso", diz Brolin.
"A única vez em que o interpretei pensando nisso foi numa cena em que mudamos muito o diálogo", conta. Na base da improvisação, a cena foi refeita seis vezes. "Cada vez muito diferente, até ficar bem real. Ficou absurda e assustadora entre nós dois. Quando Sean viu o primeiro corte, ele me mandou uma mensagem pelo celular, dizendo que era a cena mais estranha que tinha visto". Agora, você pode ver o filme e tentar adivinhar qual é a cena.
P.S. - Josh Brolin está indicado ao Oscar pelo papel de Dan White e foi escalado para o filme que Woody Allen pretende rodar no ano que vem.
Leia mais na versão impressa da Ilustrada desta sexta: Entrevista com o diretor Gus van Sant, por Silvana Arantes Entrevista com o ator James Franco, por Silvana Arantes Crítica de "Milk", por Inácio Araujo
Divulgação Cantet (à dir.), nas filmagens de "Entre os Muros da Escola"
Por Eduardo Simões e Leonardo Cruz
Grande vencedor do Festival de Cannes do ano passado, o diretor francês Laurent Cantet virá ao Brasil em março para promover o lançamento de "Entre os Muros da Escola", filme que recebeu a Palma de Ouro do júri presidido por Sean Penn. Autor de outros ótimos longas, como "Em Direção ao Sul" (2006), Cantet deve participar de duas sessões de "Entre os Muros da Escola" no cine Reserva Cultural, em São Paulo.
A primeira, no dia 10/3, será uma pré-estreia para convidados. A segunda exibição, no dia 11 e aberta ao público, provavelmente será seguida por um debate com a plateia. Os detalhes dessa segunda sessão ainda estão sendo definidos. A vinda de Cantet faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil, e o diretor também irá à Argentina para divulgar seu filme.
Com estreia no Brasil marcada para 13 de março, "Entre os Muros da Escola" é baseado no livro "Entre les Murs" (entre os muros), em que o escritor francês François Bégaudeau, 38, narra sua experiência como professor numa escola da periferia de Paris. Bégaudeau, que é coautor do roteiro do filme, também faz o papel principal. O livro será lançado no país pela Martins Fontes.
A seguir, o trailer do excelente "Entre os Muros da Escola".
Escrito por Eduardo Simões e Leonardo Cruz às 4h10 PM
Michael Kappeler/France Presse Sotigui Kouyaté, com seu Urso de Prata por "London River"
Por Sérgio Rizzo
O prêmio de melhor ator concedido pelo júri do Festival de Berlim a Sotigui Kouyaté, 72, por “London River”, de Rachid Bouchareb (“Dias de Glória”), assinalou um momento incomum na história dos festivais, ao celebrar uma figura singular cuja trajetória se contrapõe fortemente aos valores que orientam a indústria cinematográfica. Mais do que um ator, Sotigui (como os amigos, parceiros de trabalho e admiradores, muitos deles no Brasil, o chamam) é um “griot” – e só isso bastaria para tornar sua premiação algo pra lá de ímpar.
“Sotigui nasceu em Bamako, no Mali, é de origem guiné e foi criado no Burkina Faso. Essa região pertence ao antigo Império Mandinga, onde a tradição dos ‘griots’ ainda é viva”, explica a atriz e pesquisadora teatral Juliana Jardim, que trabalhou com Sotigui no Brasil e também na África. “O ‘griot’, segundo o próprio Sotigui, é o ‘senhor da palavra’, sendo também a memória do continente africano. Eram os ‘griots’ que transmitiam a genealogia do continente ao povo. Ainda hoje eles são os conselheiros dos reis e políticos, são os mediadores junto ao povo, entre as famílias, entre os casais, responsabilizando-se por atuar diretamente no equilíbrio da sociedade. O ‘griot’ é também artista. A arte da palavra, nessa tradição, é um dom que passa de pai para filho, e o ‘griot’ também dança e canta.”
Ex-diretor artístico do Ballets de la Haute Volta e da Compagnie Théâtrale de la Volta, Sotigui dirigiu também um conjunto instrumental e assinou diversas encenações teatrais, na França e na África. Criou em Bamako, com Jean-Louis Sagot-Duvauroux e Habib Dembélé (que já se apresentou como ator em São Paulo no espetáculo “Sizwe Banzi Est Mort”), a companhia Mandéka Théâtre, para a qual dirigiu montagens de “Antígona” e “Édipo”.
Durante 24 anos, integrou o Centro Internacional de Pesquisa e Criação Teatral, dirigido em Paris pelo inglês Peter Brook – com quem trabalhou também na minissérie de TV “O Mahabharata” (1989), exibida nos cinemas em versão condensada. Como ator, fez mais de 50 filmes, entre eles “O Céu que Nos Protege” (1990), de Bernardo Bertolucci, “Coisas Belas e Sujas” (2002), de Stephen Frears, e “Genesis” (2004), de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (os diretores de “Microcosmos”).
Uma das “embaixadoras” do trabalho de Sotigui no Brasil, Juliana Jardim participou inicialmente dos estágios para atores realizados por ele no Rio de Janeiro em 2002 e 2003. Depois, coordenou a realização de mais três estágios e de quatro conferências em São Paulo, em 2003, 2004 e 2006. A convite do “griot”, esteve por duas vezes no Mali e no Burkina Faso, em 2003 e em 2007/08. Na última viagem, participou do primeiro estágio coordenado por Sotigui para atores africanos, em Uagadugu (Burkina Faso).
“Foi a aproximação mais direta com a tradição do ‘griot’”, lembra ela. “Convivíamos cotidianamente com essas figuras que entram e saem das casas, prestam homenagens a Sotigui no caminho entre a porta da casa e o carro, dentro das salas, em cerimônias de casamentos, batismos e funerais, em performances e shows musicais, durante as refeições, aconselham-se mutuamente, alternam-se nos papéis de ‘griots’ (ou ‘griottes’) e ‘respondedores’ (sujeito que tem, entre outras, a função de manter o ritmo e a vivacidade da fala do ‘griot’ e, ao mesmo tempo, é o responsável por assegurar a comunicação do ‘griot’ com o público que o escuta) um do outro. Sua performance (que é seu estar no mundo) é parte do cotidiano no qual nada é separado de nada.”
Fotos Divulgação A equipe do peruano "La Teta Asustada", com o Urso de Ouro
Por Silvana Arantes (em Berlim)
“Estou chorando há 45 minutos ali atrás.” Com essa frase, Dieter Kosslick, diretor do Festival de Berlim, retornou ao palco do palácio do festival na noite de sábado, para a entrega do último prêmio da 59a. edição da disputa _o Urso de Ouro para o peruano “La Teta Asustada”, de Claudia Llosa.
Se Kosslick derramou lágrimas longe das câmeras, a emoção de muita gente ficou escancarada no palco e na plateia, numa cerimônia de premiação que teve tom incomumente caloroso para os padrões do festival alemão.
A voltagem emocional subiu logo no começo, quando o júri de melhor primeiro filme, formado pelo diretor iraniano Rafi Pitts, a produtora alemã In-Ah-Lee e a roteirista norte-americana Diablo Cody, anunciou a decisão de premiar Adrián Biniez, pelo filme “Gigante” (Uruguai), dizendo que “este lindo, lindo filme prova que o cinema está vivo”. O vencedor ganha 50 mil euros.
Biniez subiu ao palco trêmulo e conseguiu dizer pouco mais que “Isso é incrível! Muito obrigado!”, em espanhol. Pois o prêmio seguinte, o Alfred Bauer, dado a filmes que expandem as fronteiras do cinema, também foi para Biniez “um jovem [34] cheio de paixão para falar da condição humana”, justificou o jurado sueco Henning Menkell. Biniez voltou ao palco com os olhos marejados e, ao microfone, gritou: “Aaaaaaah!”. Conseguindo falar menos ainda, tentou o inglês: “It’s amazing!”. E Menkell, ao seu lado, encorajava-o a persistir no espanhol: “Es fantastico!”.
Só que o Prêmio Alfred Bauer foi dado também ao polonês “Sweet Rush”, de Andrzej Wajda. Wajda subiu ao palco carregando seus 82 anos, um largo sorriso e uma vitalidade de quem, dois dias antes, havia dito esperar que, quando a morte abra a porta de sua casa, encontre-o trabalhando e diga: “Já que está ocupado, volto mais tarde”.
A figura de Wajda parece ter comovido o público, que intensificou os aplausos. Corta para a produtora dele: em lágrimas.
O Festival de Berlim concede a cada ano um Urso de Prata para uma “contribuição extraordinária” numa das categorias técnicas do cinema. Nesta edição, foi para o desenho de som, e os vencedores foram Gábor Erdély e Tamás Székely, do romeno “Katalin Varga”. Apenas o primeiro estava em Berlim. Antes de agradecer, ele varreu com os olhos a plateia, de cima abaixo (sim, com lágrimas). Estava claro que ele queria registrar aquela imagem na memória. Mas ele deixou ainda mais patente: “Obrigado. Estou aqui!”, disse.
Aí veio o prêmio de melhor ator, para o africano Sotigui Kouyate, que é um homem enorme e idoso, que anda com auxílio de uma bengala, mas não perde a nobreza do porte e precisou de uma cadeira no palco para fazer seu agradecimento sentado. Foi um longo discurso, em que ele exaltou a convivência pacífica e a união dos povos e das culturas. “É a variedade das árvores que faz a beleza da floresta. É a variedade das cores que faz um bom buquê de flores”, disse, entre muitas outras coisas.
À medida que Kouyate ia despejando sua fala mansa e seu discurso humanista, as lágrimas iam também caindo _dos olhos de Diablo Cody, por exemplo.
Mais gente lacrimejou no palco _as alemãs Birgit Minichmayr (melhor atriz) e Maren Ade (diretora de “Everyone Else”, Prêmio Especial do Júri_, a equipe inteira de “Gigante”, que voltou mais uma vez, para receber o Prêmio Especial do Júri (ex aequo)_ até que veio o Urso de Ouro para “La Teta Asustada”, que desatou a choradeira da equipe e inundou os olhos da diretora e da atriz Magaly Solier. E, assim, Berlim terminou em lágrimas.
Os três prêmios para Adrián Biniez, pelo uruguaio "Gigante"
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A decisão do júri presidido por Tilda Swinton foi de uma rigorosa coerência. Os filmes premiados compartilham um modo de produção intimista e de custo reduzido, além de um olhar humanista para temas políticos _o terrorismo e/ou a guerra em “La Teta Asustada”, “London River”, “The Messenger”_; para as inquietações individuais mais profundas, como a busca e a impossibilidade do amor _“Everyone Else”, “Sweet Rush”, “Gigante”_; e para o choque entre as pressões sociais e uma moral pessoal _“About Elly”.
Os alemães certamente sentirão falta de um reconhecimento a“Storm”, que é um bom thriller político, mas não se trata de uma obra-prima injustiçada. E não se deve esquecer que, num júri, é preciso fazer escolhas. Portanto, há quem fique de fora. Havia mais filmes de qualidade entre os concorrentes, mas que serão capazes de encontrar seu público sem a chancela de um festival, como “Chéri”, de Stephen Frears, “Forever Enthralled”, de Chen Kaige, e “My One and Only”, de Richard Loncraine.
Foram devidamente esquecidos “Happy Tears” e “Mammoth”, que não fazem falta a ninguém. Os demais não recompensados eram apenas medianos _“Little Soldier”, “Ricky”, “In the Electric Mist” e “Rage”, este último, odiado pela crítica aqui.
(A cobertura completa do encerramento do Festival de Berlim estará na versão impressa da Ilustrada desta segunda-feira.)
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 3h52 PM
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o renascimento de Mickey Rourke em "O Lutador" e o desempenho de Tom Cruise em "Operação Valquíria". Para ouvir, basta clicar no microfone.
Divulgação Rita Hayworth em "Gilda" (1946); para professora de Oxford, não há mais heroínas em Hollywood como antigamente
Por Cássio Starling Carlos
Para leitores compulsivos de newsletters (como eu), a sucessão de mensagens pode nos fazer despencar do alto do entusiasmo às profundidades da decepção. Nos últimos dias, depois de ficar animado com o anúncio da “descoberta” de que ovos não são assim tão culpados pelo aumento do colesterol, caí da cadeira ao ler o resultado de um “estudo” que acusa o cinema pela infelicidade das mulheres.
Como assim?
A “descoberta” foi feita pela doutora Diane Purkiss, professora em Oxford, que concluiu que as heroínas hollywoodianas têm sido cada vez mais retratadas como neuróticas, idiotas e obcecadas com homens, com o peso e com casamento. Nas últimas cinco décadas, segundo Purkiss, os personagens femininos da indústria cinematográfica vêm obedecendo à regra do “quanto mais idiota melhor”.
“É triste uma época em que nos resta ter de olhar para Bridget Jones com afeição”, diz Purkiss. “Nos anos dourados de Hollywood, Katharine Hepburn, Audrey Hepburn e Bette Davis interpretavam personagens sólidos e podiam ser ao mesmo tempo engraçadas e divertidas. Agora, o único modo de uma mulher ter um personagem complexo no cinema é sendo depressiva, atormentada ou auto-sacrificada.”
Será que as indicadas ao Oscar de melhor atriz Anne Hathaway, Angelina Jolie, Melissa Leo, Meryl Streep, Kate Winslet concordam com ela ou será que dona Purkiss não está atormentada pela nostalgia?
Divulgação Leon Lai como o cantor Mei Lanfang, no filme de Chen Kaige
Por Silvana Arantes (em Berlim)
O diretor chinês Chen Kaige trouxe para a disputa pelo Urso de Ouro do 59º Festival de Berlim um filme que ele considera "gêmeo" de "Adeus, Minha Concubina" (1993), com o qual venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
"Forever Enthralled" ("Encantador para Sempre") reconstitui "três ou quatro momentos cruciais", como diz o cineasta, na vida do cantor Mei Lanfang. O filme tem 2h20 de duração, o que dá uma ideia de quão ricos foram os episódios da vida do biografado. Primeiro artista chinês a se apresentar fora de seu país _em 1930, em Nova York_, Lanfang era o expoente entre os cantores da Ópera de Pequim.
Ele sempre interpretava papéis femininos, já que na China imperial as mulheres eram impedidas de atuar e até mesmo de ver os espetáculos. Em 1937, quando o Japão invadiu a China, Lanfang afastou-se dos palcos, numa atitude de protesto. Finda a guerra com o Japão, ele voltou a atuar, nos 11 anos seguintes em que viveu. Tinha 67 anos quando morreu, em 1961.
Embora o filme tenha muitos e belos trechos de Lanfang (interpretado pelo cantor pop chinês Leon Lai) em cena, Kaige confessou em Berlim que não é "especialmente fã da Ópera de Pequim". O que o motivou a fazer o filme é a trajetória do personagem, da qual ele extrai indagações sobre o papel do artista e também sobre a sexualidade.
Em relação ao primeiro aspecto, disse: "Acho que o motivo por que nós, chineses, admiramos tanto Lanfang e o consideramos um nobre é porque ele nunca exibiu seu poder. Sempre teve uma atitude humilde e respeitosa com todas as pessoas".
Kaige chegou a conhecer Lanfang, mas guarda dele apenas uma memória infantil. O pai de Kaige também era cineasta e fez filmes com o intérprete. "Lembro-me de vê-lo dançando num jardim. Mas é claro que ele não poderia saber que aquele menino que o observava um dia faria um filme sobre ele, e nem eu sabia", contou.
Pelo fato de interpretar soberbamente papéis femininos, Lanfang "deveria se perguntar", supõe Kaige, se afinal "ele era um homem ou uma mulher". Nessa dúvida, o cineasta enxerga "uma questão muito moderna", já que "muita gente na nossa sociedade deve se fazer essa pergunta".
(A cobertura diária completa do Festival de Berlim está na versão impressa da Ilustrada.)
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 4h25 PM
Divulgação Cena de "O Impostor", um dos filmes da mostra do CCBB-SP
Por Sérgio Rizzo
O Centro Cultural Banco do Brasil abre nesta quarta-feira em São Paulo a mostra Cinema Independente Alemão: Uma Outra Política do Olhar, que exibirá 18 longas-metragens até o próximo dia 1º. Nada de Volker Schloendorff, Alexander Kluge, Wim Wenders, Werner Herzog, Hans Jürgen Syberberg ou Rainer Werner Fassbinder, alguns dos principais responsáveis pela renovação do cenário alemão nos anos 60 e 70. Os cineastas que a retrospectiva apresenta ao público brasileiro são Christian Petzold, Christoph Hochhäusler, Hans-Christian Schmid e Maria Speth, entre outros.
De Hochhäusler, 36, editor da revista “Revolver”, serão exibidos “Caminho do Bosque” (2003) e “O Impostor” (2005). O cineasta e crítico participará também de um debate, no próximo dia 25, e a partir do dia seguinte dará o curso “Narrativas Dialéticas – Reflexões Sobre um Cinema de Ativação”. Abaixo, a entrevista que concedeu na semana passada à Folha, por e-mail, de Berlim.
Como você analisa o cinema alemão hoje? Como eu também sou cineasta, não posso ser um observador neutro. Mas concordo com os muitos críticos internacionais para quem o cinema alemão está mais interessante hoje do que esteve por um longo tempo. Os últimos dez anos trouxeram uma grande variedade de obras originais e audaciosas, e também alguns sucessos comerciais. Infelizmente, houve poucos bons filmes que fizeram sucesso fora do circuito dos festivais. Embora o fenômeno seja comum em diversos países, é especialmente gritante na Alemanha. Uma das razões é a violenta influência norte-americana, que leva muita gente da indústria a pensar que a chave para o mercado é a imitação de Hollywood. Esse complexo de inferioridade orienta muitos “grandes” filmes comerciais, enquanto diretores mais ousados e pessoais precisam trabalhar em uma escala muito pequena, e muitas vezes tão pequena que impede a distribuição nacional e internacional.
Quais as tendências e cineastas que, na sua avaliação, devemos conhecer? Para mim, os diretores alemães mais influentes e interessantes em atividade são Christian Petzold, Angela Schanelec, Romuald Karmakar e Dominik Graf. Petzold e Schanelec integram um grupo de amigos, o Berliner Schule (“Escola de Berlim”), que se tornou recentemente centro da atenção cinéfila (sou parte desse movimento não-declarado). Karmakar e Graf são figuras mais solitárias.
O que pensa da seleção de filmes que será exibida em São Paulo? É uma seleção muito boa, pois realmente dá uma idéia do estado das coisas no cinema alemão atual, com suas preocupações temáticas e formais.
Como você avalia hoje a geração de mestres alemães dos anos 70 e 80, como Volker Schloendorff, Werner Herzog e Wim Wenders? E como as novas gerações de cineastas alemães os veem? Como inspiração ou como “pais” a enfrentar? Essa geração de cineastas – Alexander Kluge, Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders, Hans Jürgen Syberberg, Werner Herzog etc. – foi muito impopular nos anos 80 e 90, mas, para jovens diretores em atividade hoje (como eu), eles certamente se constituem em pontos de referência. Eu não os chamaria de pais, porque são muito distantes, mas de diversos modos estamos tentando prosseguir com aquilo que eles começaram: um cinema de perspectiva pessoal e de transformação formal.
Qual a importância da obra de Rainer Werner Fassbinder no atual cenário alemão? Fassbinder é certamente o mais famoso diretor alemão do Pós-Guerra. Sua obra pode não ser popular, mas seus filmes ainda são vistos e discutidos. Penso que isso conta a seu favor; ele não se tornou um “clássico seguro”. Nos últimos anos, a figura de Fassbinder, sua enorme produtividade e seus métodos controvertidos se tornaram uma espécie de mito religioso que eu considero improdutivo (um filme biográfico está a caminho...), mas, de novo, sua vida foi extraordinária.
Qual o programa do curso que dará em São Paulo? Tentarei apresentar a minha perspectiva sobre o futuro da linguagem cinematográfica – qual direção o cinema pode tomar – e defenderei um cinema menos redundante, mais ambivalente e abstrato. Será uma visão muito pessoal, e não uma abordagem acadêmica.
Quais são as suas expectativas? Conhece São Paulo? E o cinema brasileiro? Não tenho expectativas, exceto que espero encontrar mentes abertas. Nunca estive em São Paulo e conheço muito pouco do cinema brasileiro (que vergonha!).
Divulgação Dev Patel como Jamal Malik, o protagonista de "Milionário"
Por Leonardo Cruz
A quase duas semanas da cerimônia da Academia, a disputa pelo Oscar de melhor filme já acabou. “Quem Quer Ser um Milionário?” vai levar para casa a estatueta da principal categoria do prêmio da indústria do cinema. Duvida? Pois, neste final de semana, o filme do britânico Danny Boyle faturou mais dois prêmios importantes da temporada pré-Oscar: o do sindicato dos roteiristas e o Bafta.
Desde sábado, esse conto de fadas moderno, totalmente rodado na Índia, acumula os troféus dos quatro mais importantes sindicatos de classe de Hollywood: diretores, produtores, atores e roteiristas já escolheram “Milionário” o filme do ano. E boa parte desses quatro sindicatos também vota no Oscar. Somados, eles representam quase metade dos 5.800 eleitores da Academia. A vitória no Bafta é outro bom termômetro, já que o prêmio britânico também tem muitos votantes em comum com o Oscar.
“Quem Quer Ser um Milionário?” conquistou ainda a maioria dos prêmios de jornalistas e críticos dos EUA, incluindo o Globo de Ouro e o National Board of Review. Essas entidades não têm eleitores na Academia, mas suas escolhas anuais dão enorme visibilidade aos vencedores e servem de ferramenta importante no lobby por este ou aquele longa.
Alguns sindicatos grandes, como montadores, fotógrafos e editores de som, ainda não entregaram seus troféus. Mas isso não parece o suficiente para ameaçar um filme que, no total, já reúne mais de 40 prêmios. Nunca um longa com tantas vitórias importantes na temporada deixou de ser o grande ganhador do Oscar. Um prêmio de melhor filme para “O Curioso Caso de Benjamin Button”, “Milk”, “Frost/Nixon” ou “O Leitor” seria a maior surpresa das últimas décadas.
E quem está curioso para ver o filme de Danny Boyle ainda terá de esperar um bocado. “Quem Quer Ser um Milionário?” estreia nos cinemas brasileiros só em 6 de março, quase duas semanas depois da cerimônia do Oscar. A seguir, o trailer do longa.
Divulgação O diretor Claude Chabrol, durante as filmagens de "Bellamy"
Por Silvana Arantes (em Berlim)
Com seu terceiro longa, "Les Cousins", o diretor francês Claude Chabrol venceu o Festival de Berlim, em 1959. "Sou infinitamente grato à Berlinale [como o festival é chamado em alemão]", disse ele, que está de volta neste ano (fora de competição) com seu mais recente longa, "Bellamy". Chabrol escreveu o filme para o ator Gérard Depardieu, com quem nunca havia trabalhado antes. Depardieu interpreta o personagem-título, um detetive.
Com o reconhecimento que teve do Festival de Berlim no início de sua carreira, Chabrol diz ter se tornado "um ditador insuportável no set", impondo intransigentemente aos produtores sua visão sobre os filmes. Difícil acreditar. Com simpatia natural e um riso fácil, o cineasta parece incapaz de indelicadezas. Mas ouvi-lo num tom invariavelmente autocrítico faz lembrar uma frase de Bellamy no filme: "Encontrei uma forma de dignidade desprezando a mim mesmo".
Diante de jornalistas que se reuniram em torno dele em Berlim, Chabrol pisou diversas vezes no próprio orgulho. "Nunca pensei em termos de carreira. Sou muito mais ambicioso e vaidoso que isso. Sempre me preocupei com a [sedimentação de uma] obra", disse.
Disse que, em nome da obra, chegou a fazer "filmes vergonhosos", porque era necessário não parar. Sua média de produção é de três filmes a cada dois anos. "Nunca pediria a alguém que visse todos os meus filmes, porque essa pessoa iria querer me matar, mas sou dos que acham que a acumulação dos exemplos faz compreender melhor o que tentamos fazer."
Com filmes que quase sempre "foram bem", Chabrol considera uma sorte "nunca ter tido um triunfo fantástico". Primeiro, porque não é de seu perfil. "Se eu fosse um escritor americano, jamais escreveria o grande romance americano." Segundo, porque o peso do sucesso extraordinário "obviamente faz você ir tremendo de medo para o filme seguinte".
De sua parte, Chabrol, 78, só tem procurado "não fazer um filme muito caro porque, se fracassar, será o último". Acha que "a pessoa mais infeliz da França atualmente se chama Dany Boon, que fez ‘Bienvenue Chez les Ch’tis’", o título francês que quebrou os recordes de público e renda do país. "Ele não deve nem dormir a cada noite", imagina Chabrol.
PS. "Bellamy" tem todos os ingredientes de um filme de Chabrol. Mais Gérard Depardieu. Em suma, quem gosta de Chabrol vai adorar esse filme. Abaixo, o trailer do novo longa.
(A cobertura diária completa do Festival de Berlim está na versão impressa da Ilustrada.)
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 10h07 AM
Michael Kappeler/France Presse David Kross e Kate Winslet no Festival de Berlim
Por Silvana Arantes (em Berlim)
"O Leitor" foi exibido nesta sexta, fora de competição, no Festival de Berlim. O filme do britânico Stephen Daldry, que também estreia hoje no Brasil, tem trama acerca do nazismo, adaptada do livro do alemão Bernhard Schlink. E tem também cinco indicações ao Oscar. Essas duas características entraram em choque (ao menos na perspectiva dos organizadores do festival) durante a entrevista coletiva que diretor e elenco concederam, após a sessão do título para a imprensa.
Uma repórter de rádio foi a primeira a perguntar a Kate Winslet que tal foi a experiência de protagonizar cenas de sexo com um rapaz bem mais novo (o ator David Kross, simpático e sorridente ao lado de Winslet à mesa) e como se sente em relação à sua indicação ao Oscar pelo papel de Hanna, ex-oficial nazista. Winslet respondeu a primeira pergunta dizendo não haver diferença em contracenar com Kross ou com qualquer outro ator, já que sempre se trata de uma relação profissional entre profissionais. Sobre o Oscar, soltou um resumidíssimo "incrivelmente feliz".
Papo vai, papo vem, outro repórter voltou à pergunta sobre o Oscar. "Você já disse que se sente incrivelmente feliz, mas você esperava por isso?", insistiu. O mediador da entrevista vetou a pergunta. "Desculpe, mas este é o Festival de Berlim", disse, sinalizando que perguntas sobre o Oscar estavam fora de lugar. "Então, não tenho mais perguntas para Kate", retrucou o jornalista.
A paciência do mediador desapareceu de novo minutos adiante, quando um jornalista perguntou para a atriz como ela se sente fazendo cenas de nudez, depois de observar que Winslet é provavelmente a mulher que ele viu mais vezes nua na tela do cinema. "Isso é uma pergunta [própria] de Hollywood!", reclamou o mediador. Mas, desta vez, deixou que Winslet respondesse: "Não é que eu fique especialmente satisfeita de fazer cenas de nudez, mas considero isso parte do meu trabalho", ela disse, depois de contar que havia lido "O Leitor" seis anos atrás e se sentido completamente "transportada por aquela história", daí sua vontade de vivê-la no cinema.
Como numa "virada de roteiro", a conversa ganhou outro rumo quando uma repórter decidiu fazer uma pergunta autocrítica. Basicamente, a jornalista quis saber de Winslet como a atriz se sente tendo que responder perguntas estúpidas e fúteis a respeito de trabalhos a que se dedica com tanta profundidade.
A resposta da atriz pareceu sincera e honesta. Winslet evitou apontar o dedo para a cultura das celebridades, porque seria como negar o mundo do qual faz parte, mas disse que ela e o marido [Sam Mendes] não têm revistas em casa. "É o nosso jeito de nos manter lúcidos", disse. Afirmou que ela gosta demais de atuar para abrir mão disso e disse que, particularmente, não lê nada que é escrito a seu respeito. "Eu não poderia ir tão abertamente para cada personagem minha, se ficasse lendo o que dizem de mim. Esse é o jeito que eu me conduzo nessa indústria."
(A cobertura diária completa do Festival de Berlim está na versão impressa da Ilustrada.)
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 3h06 PM
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta "O Leitor", de Stephen Daldry, e "Dúvida", de John Patrick Shanley, dois concorrentes ao Oscar 2009 (com cinco indicações cada um) que estreiam nesta sexta-feira no país. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Tim Brakemeier/Efe Tilda Swinton: olhar aberto para presidir o júri de Berlim
Por Silvana Arantes (em Berlim)
A atriz Tilda Swinton, 48, chegou elegante e eloquente para o encontro com a imprensa na manhã desta quinta, primeiro dia do 59º Festival de Berlim. Contou que esse foi o primeiro festival do qual participou com um filme, lembrou seus trabalhos com Derek Jarman exibidos aqui e disse que seu "lugar natural" na programação de Berlim era a seção paralela Fórum. (No ano passado, a competição principal teve "Julia", de Erick Zonca, no qual Tilda faz o papel-título.)
Na hora de responder qual sua expectativa para essa disputa, ela disse: "Minha expectativa é não ter nenhuma expectativa. Acho que esse é um bom começo para quem ama filmes". Se, por um lado, Tilda defendeu com propriedade o olhar aberto para as obras que irá julgar; por outro, ela deixou escapar ao menos dois títulos que já despertaram sua curiosidade. Ao comentar que há na competição cineastas de quem nunca ouviu falar, citou o concorrente vindo do Irã ("About Elly") e o do Peru ("La Teta Asustada").
Ambos são sobre mulheres. No filme iraniano de Asghar Farhadi, Elly é convidada por uma amiga para participar de um almoço de boas-vindas a um sujeito que, após um fracassado relacionamento com uma estrangeira, está de volta para uma rápida visita ao seu país. A intenção de fazer o papel de cupido entre os dois fica clara para os demais convivas que passam a jogar a favor do futuro pretenso casal, até que Elly desaparece misteriosamente _e todo mundo muda de opinião a seu respeito, à medida que começam as suposições sobre seu "verdadeiro" caráter.
"La Teta Asustada" (trailer abaixo), novo longa de Claudia Llosa, do bom "Madeinusa", retira seu nome da síndrome que define no Peru uma enfermidade própria das mulheres que foram estupradas na guerra e geraram filhos depois disso. A personagem central, embora não tenha dito diretamente a experiência da guerra, sofre as consequências da síndrome, cuja expressão mais concreta está no fato de que ela introduziu na própria vagina uma batata, com a ideia de tornar-se asquerosa.
Obviamente isso não indica favoritismo para filmes que nem sequer foram exibidos, mas não deixa de ser interessante lembrar que, no ano passado, o presidente do júri, Constantin Costa-Gavras (que este ano exibe fora de competição seu novo longa, "Eden à l’Ouest") citou na entrevista do júri na abertura do festival a importância que a produção brasileira teve na época do cinema novo e defendeu a persistência da importância do thriller político. No fim, deu "Tropa de Elite".
(A cobertura diária completa do Festival de Berlim está na versão impressa da Ilustrada.)
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 4h53 PM
David Lynch, quem diria, virou ator do cinema nacional. Quer dizer, mais ou menos. Lynch aparece no meio do curta-metragem “The Soul Detective”, de Davi de Oliveira Pinheiro, realizado pela produtora gaúcha V2.
Em seus nove minutos, “Detective” é uma ficção sobre um homem que investiga um assassinato. De método heterodoxo, ele tenta ler a mente do morto para saber o que aconteceu. É aí que entra o diretor de “Império dos Sonhos” e “A Estrada Perdida”, com fragmentos de um depoimento em que relata como costura (ou não) as ideias em seus filmes. E o curta gaúcho mimetiza, em tom de pastiche, o universo bizarro dos longas de Lynch. Dê uma olhada:
“The Soul Detective” (o detetive da alma) faz parte de um projeto bacana que a V2 define como “ensaios visuais”. São curtas lançados na internet, um por mês, que exploram a presença em Porto Alegre de nomes importantes da cultura brasileira e estrangeira.
Além de Lynch, o compositor Philip Glass e o cineasta Wim Wenders já foram tema desses “ensaios visuais”, patrocinados pelo programa Fronteiras do Pensamento, que desde 2006 realiza debates e conferências na capital gaúcha.
O curta com Glass se encaixa mais nesse espírito ensaístico do que “Detective”. Em “What Are You Looking For?”, Camila Gonzatto usa obras de Glass e um tesmunho dele sobre a música como pano de fundo para imagens do compositor ao piano e cenas de Porto Alegre. Esses registros se concentram na fiação elétrica urbana, que, de poste em poste, formam um desenho que lembra a pauta de uma partitura. Confira:
A participação de Wim Wenders no projeto está em “De Volta ao Quarto 666”. Em 1982, no Festival de Cannes, o cineasta alemão recebeu colegas em seu hotel para falar sobre o futuro do cinema. O resultado foi o documentário “Quarto 666”, em que Godard, Fassbinder, Antonioni, Herzog e outros refletem sobre o assunto. No curta realizado no ano passado por Gustavo Spolidoro (“Ainda Orangotangos”), Wenders fala, em seu quarto de hotel em Porto Alegre, sobre o que aconteceu com o cinema nesses 26 anos. Assista:
Divulgação Sean Penn como Harvey Milk, no filme de Gus van Sant
Por Cássio Starling Carlos
“Acho que ‘Elefante’ e ‘Last Days’ e ‘Gerry’ também são baseados em algo como não-informação. Por exemplo, não havia informação de fato sobre os garotos que mataram seus colegas em Columbine. E não havia informações sobre os últimos três dias de Kurt Cobain. E não havia informações sobre os dois rapazes que se perderam no deserto e um matou o outro. Desde que existe um grande mistério em todas elas, elas se tornam filmes quando passamos a imaginar o que pode ter acontecido, visualmente.”
A fonte de estímulo declarada por Gus van Sant num bate-papo reproduzido pelo diário inglês “The Guardian” só faz aumentar a expectativa de como ele lidou com um material factual já codificado em “Milk”.
O diretor vem trabalhando consistentemente nessas bordas da reconstituição desde pelo menos a proposta conceitual da refilmagem plano a plano de “Psicose”, tão ousada quanto mal-compreendida. “Eu estava zangado com a mania de refilmagens de Hollywood, porque parecia que bastava se apropriar de um roteiro e deixar de lado todo o resto da criação. Por exemplo, se pegassem ‘Casablanca’, eles teriam pegado o roteiro e de fato teriam alterado o roteiro. Então, pensei: ‘Por que não filmar exatamente do mesmo modo, já que se trata de um grande filme?’. Esse foi meu posicionamento anti-refilmagem”, explica.
Em “Milk”, a estratégia poderia ser confundida com a regularmente adotada por Oliver Stone em seus filmes de reconstituição histórica, algo como “eu vou lhes contar a história que nunca foi contada”. É o que menos se espera de Van Sant.
O material factual da trajetória trágica do líder gay de San Francisco nos anos 70 pode ser saboreado no documentário “The Times of Harvey Milk”. Vencedor do Oscar na categoria em 1984, o longa dirigido por Rob Epstein esmiúça com enorme emoção o caminho político percorrido por Milk, recuperado em registros jornalísticos, arquivos da época e depoimentos de seus contemporâneos na arena política. E serviu de base para o roteirista Dustin Lance Black e os atores alcançarem a pretendida fidelidade.
Quem quiser conhecer o Harvey Milk de fato recomenda-se assistir ao título de Epstein. Por outro lado, espera-se que Gus van Sant continue a nos oferecer “visões” quando interpela fatos. Com a máquina hollywoodiana da verossimilhança a seu favor, aguardamos ansiosamente para saber como GVS delineou um material mais real que sua ficção.
"Milk" entra em cartaz nos cinemas brasileiros no próximo dia 20. A seguir, o trailer do filme.
Divulgação "Contos de Canterbury", parte da "trilogia da vida" de Pasolini
Por Sérgio Rizzo
“Cinema como heresia” é o título de um livro sobre o italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975) escrito por Naomi Greene, professora da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e infelizmente ainda inédito no Brasil (aqui, informações sobre ele na Amazon). É também uma ótima maneira de definir a obra do escritor, cineasta e ativista político que foi uma das grandes figuras do cenário cultural dos anos 60 e 70. O relançamento de “Os Contos de Canterbury” (1972) no Cinesesc, em São Paulo, possibilita às novas gerações uma rara oportunidade de tomar contato com sua obra na tela grande (e cópia em bom estado).
Longa-metragem intermediário de sua “trilogia da vida” sobre contos medievais, aberta por “Decameron” (1971) e encerrada por “As Mil e Uma Noites” (1973), “Canterbury” é livremente inspirado em “Os Contos da Cantuária”, do inglês Geoffrey Chaucer (entre 1340 e 1345-1400). O próprio Pasolini, com pinta de quem se divertiu muito, faz o papel do escritor – recurso de inserção do narrador que havia usado também em outros filmes, como “Pocilga” e “Medeia, a Feiticeira do Amor”, ambos de 1969.
Entre as histórias narradas por Pasolini em “Canterbury”, a que mais gerou reações negativas à época do lançamento, lembra Naomi Greene, foi aquela em que se faz uma visita ao inferno. “Os epítetos variaram de ‘mau gosto’ e ‘narcisismo intelectual’ até ‘pessimismo agudo’, ‘crueldade profana’ e ‘instinto homossexual ingovernável’. Forçado a reconhecer a ressaca perturbadora do filme, Pasolini afirmou que o segundo longa deveria ser visto como um ‘hiato’ na trilogia, que, ele admitia, refletia um momento de profunda infelicidade de sua parte. (...) E, para sugerir que ele sozinho não era responsável pela melancolia do filme, observou que o próprio Chaucer era mais sombrio do que Bocaccio (de quem havia adaptado ‘Decameron’).”
“Como Pasolini não pode aceitar a realidade ‘popular’ sob o neocapitalismo, que transformou povos em massas e revelou que o subproletariado não desejava mais do que ascender ao ‘status’ da pequena burguesia, busca na literatura popular do passado, na Idade Média e no Terceiro Mundo, valores não contaminados pela civilização”, afirma o crítico Luiz Nazario, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, sobre as características da obra de Pasolini no período da trilogia, em “Orfeu na Sociedade Industrial”, volume dedicado a ele pela saudosa coleção Encanto Radical, da Brasiliense. “Pasolini lembra que (os filmes da trilogia) são filmes políticos na medida em que mostram a realidade autêntica, contraposta à irrealidade que o cinema consumístico e a televisão sujeitaram o público. Nascem em reação a um cinema facilmente político, que vulgariza e simplifica os problemas, servindo sobretudo para apaziguar a má consciência da burguesia.”
Nazario é autor também de “Todos os Corpos de Pasolini” (Ed. Perspectiva) e tradutor de “Pier Paolo Pasolini: As Últimas Palavras do Herege – Entrevistas com Jean Duflot” (Brasiliense), do qual segue um trecho profético:
(Jean Duflot) Há muito tempo que você se sente, segundo seus próprios termos, destinado ao linchamento.
(Pasolini) Há vinte anos a imprensa italiana, em primeiro lugar a imprensa escrita, contribuiu para fazer de minha pessoa um contratipo moral, um réprobo. Não há dúvida de que nesta condenação da opinião pública entra a homossexualidade que me censuraram a vida inteira, como se se tratasse de uma marca de ignomínia particularmente emblemática, no caso que represento: o selo mesmo de uma abominação humana que me marcaria e condenaria tudo o que sou – minha sensibilidade, minha imaginação, meu trabalho, a totalidade de minhas emoções, de meus sentimentos e de meus atos – a ser apenas uma camuflagem deste pecado fundamental, de um pecado e de uma danação.
Pasolini foi brutalmente assassinado em uma praia de Ostia, em 2 de novembro de 1975, sete meses depois de a corte constitucional italiana abrir um dossiê sobre “Os Contos de Canterbury”. Em 9 de novembro, a comissão de censura proibiu a exibição de seu último longa, “Saló ou os Cento e Vinte Dias de Sodoma”, só liberado em 18 de junho de 1977.
Fotos Divulgação Cena de "No Meu Lugar", um dos destaques de Tiradentes
Por Silvana Arantes (em Tiradentes)
“No Meu Lugar”, o primeiro longa de Eduardo Valente, exibido pela primeira vez numa concorrida sessão da 12ª Mostra de Tiradentes, na noite da última sexta, alinhava as histórias de três núcleos de personagens, em acontecimentos que se dão ora simultaneamente, ora em tempos díspares.
No debate sobre o filme, na manhã de sábado, Valente (que além de cineasta é crítico de cinema) disse que aderiu à estrutura do “multiplot” apesar de seu desprezo pela obra do mexicano Alejandro González Iñárritu (“Babel”, “21 Gramas”, “Amores Brutos”), que fez desse recurso uma marca registrada. “Iñárritu criou certo trauma do “multiplot” entre as pessoas que não gostam dele, como eu, que só vejo ali a estrutura e o cineasta trabalhando”, afirmou Valente.
Outra “modinha”, esta de alcance nacional, que Valente também desafiou foi a do “filme de favela”. Um dos personagens centrais de “No Meu Lugar”, o entregador de supermercados Beto (Raphael Sil), é morador de uma favela onde ocorrem tiroteios e revistas policiais, fatos a que o filme se refere sem alarde. Citando o eventual esgotamento do interesse do público pelos “filmes de favela”, Valente disse: “Não vou me negar a entrar na favela por uma questão que está externa a mim”.
Muita gente deixou a sessão de “No Meu Lugar” com uma asfixiante sensação da inevitabilidade da tragédia no contexto da oficiosa guerra civil carioca, que influencia o destino de quase todos os personagens do filme.
A esses espectadores, Valente lembrou que, “se há um grande momento simbólico” neste seu primeiro longa, ele está no correr dos créditos _ou seja, na hora em que se relacionam os nomes de todas as pessoas que, vivendo no Rio de Janeiro, realizaram aquela obra_, ao som de “Caracanta na Central”, de Pereba e Jair, que afirmam: “Vamos ficar/ Vamos resolver/Vamos curtir”.
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Debates acima da média Ao apresentar a sessão de “No Meu Lugar”, Valente disse: “É um prazer especialmente grande estar passando [o filme] em Tiradentes. Esse festival significa muito para mim e significa muito para o cinema brasileiro, quer ele saiba ou não. Em breve, irá saber”.
Era uma reafirmação do trabalho que ele mesmo e o também crítico Cleber Eduardo vêm fazendo como curadores da Mostra de Tiradentes, à qual deram um perfil de descoberta e valorização de novos cineastas e um acento marcadamente acadêmico às discussões sobre os filmes exibidos.
Nesse sentido, Tiradentes de fato conquistou sua autopropalada singularidade. Os debates sobre os filmes e também sobre temas propostos pela curadoria _o deste ano foi o personagem e seu lugar no cinema_ têm densidade muito acima da média dos demais festivais brasileiros.
Para ficar num exemplo, o pesquisador e professor Cesar Guimarães, indo na contramão da voga da dissolução das fronteiras entre ficção e documentário, chacoalhou convicções e neurônios ao defender que a distinção entre os dois gêneros não apenas é pertinente como necessária para que o cinema reflita sobre si mesmo.
De resto, as sessões ao ar livre (na praça da cidade) e na tenda armada ao lado da rodoviária não diferem das de outros festivais (à exceção talvez da projeção em telão, que não tem qualidade igualável à das salas regulares): reúnem tanto um público interessado em filmes quanto um público interessado apenas em badalação, além de um certo número de desavisados que vão às sessões sem informações prévias sobre o que irão ver, encontram algo muito em desacordo com suas expectativas e abandonam a sala antes do fim da projeção.
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"A Fuga da Mulher Gorila", principal vencedor do festival
Os méritos da mulher gorila Foi o crítico e professor Ismail Xavier, membro do júri da mostra Aurora, quem leu a justificativa para a escolha de “A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila”, de Felipe Bragança, como vencedor da disputa (entre sete longas de estreantes).
“A Fuga da Mulher Gorila” acompanha duas jovens irmãs que viajam por pequenas cidades numa kombi, apresentando o show da mulher gorila _“ao vivo”, como ressaltam em sua propaganda movida a megafone.
Em sua explanação, o professor e crítico exaltou no filme:
- A apresentação vigorosa e coerente entre estilo e modo de produção ao narrar o percurso dos personagens em fuga; - A transfiguração pop; - A ambivalência entre o gesto ferino e a delicadeza; - O cumprimento da promessa explosiva contida no título, em que o poético não se confunde com a inocência.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.
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