Ilustrada no Cinema
 

Preview: "Star Trek"

 

Por Marco Aurélio Canônico

Tudo que as cenas de "Watchmen" exibidas ontem à noite tiveram de decepcionante, as do novo "Star Trek" (que estréia aqui em 1/5), dirigido por J.J. Abrams (o homem por trás de "Lost", "Alias", "Cloverfield" etc.), tiveram de empolgante (o que foi facilmente mensurável pela quantidade de aplausos que cada um recebeu ao fim da exibição). E quem escreve isso é um sujeito que está muito longe de ser um "trekker" (ou "trekkie", como são conhecidos os fãs de "Jornada nas Estrelas").

Abrams, apesar de ser tão pouco rodado como diretor de cinema quanto Zack Snyder, é um sujeito mais inteligente, divertido, sagaz - ele já ganhou o público ontem na simples apresentação que fez (na tela) antes de exibir cada cena. Esbanjava confiança (Snyder gaguejava), bom humor e uma atitude quase arrogante do tipo "veja bem, isso é uma indústria do entretenimento". De cara, já disse que não era fã da série quando novo (um contraste absoluto com a postura "vou adaptar um livro sagrado para mim" adotada por Snyder), que foi o roteiro que o atraiu ao filme (e, é claro, a grana forte envolvida, coisa que ele não disse).

O que ele decidiu fazer com "Star Trek" - uma marca que começou como série de TV na década de 60 e gerou desenho animado, dez filmes e quatro outras séries - foi uma espécie de "prequel": seu filme mostra a juventude da tropa da Enterprise (Spock, ChekovUhuraKirkScott, Sulu e dr. McCoy, na ordem da foto acima) antes de assumir a nave. Foram mostradas quatro sequências ontem: um jovem e arrogante Kirk (antes William Shatner, agora Chris Pine) envolvido numa briga de bar que acaba resultando em seu alistamento na Frota Estelar; o mesmo Kirk sendo "infiltrado" na Enterprise por seu amigo Bones McCoy (Karl Urban no papel que foi de DeForest Kelley) e convencendo o capitão Pike (Bruce Greenwood) de que estão rumando para uma armadilha; uma cena em que Kirk, expulso da Enterprise pelo novo Spock (Zachary Quinto), encontra o velho Spock (Leonard Nimoy) e o jovem Scott (o britânico Simon Pegg substituindo James Doohan); e uma cena de ação pura, com Kirk, Sulu (sai George Takei, entra John Cho) e um aspone de camisa vermelha descendo em Vulcano para distruir uma sonda gigante dos romulanos.

As cenas têm muita ação, humor, efeitos especiais absolutamente estonteantes e referências mil para os fãs, sem alienar o público comum. O resultado (novamente, poucos minutos de um filme bem mais longo) é bastante animador - parece infinitamente superior às "prequels" de George Lucas, por exemplo - e coloca "Star Trek" como forte candidato a líder de bilheteria no ano.

Escrito por Marco Aurélio Canônico às 2h00 PM

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Preview: "Watchmen"

                                                                                     Divulgação

O elenco de "Watchmen", que estreia no Brasil em 6 de março

Por Marco Aurélio Canônico

Estive ontem na disputada prévia de duas das maiores apostas de blockbuster deste ano, "Watchmen" e "Star Trek" - cada um teve cerca de meia hora de cenas exibidas (as mesmas já mostradas na Europa e nos EUA há alguns meses) para uma platéia que misturava imprensa, exibidores e funcionários da Paramount, que vai lançar os filmes por aqui. Começando por "Watchmen", a mais aguardada das duas produções:

WATCHMEN

Pelo que se viu ontem, há uma boa e uma má notícia sobre a adaptação da lendária HQ de Alan Moore e David Gibbons: a má é que o filme vai ser ruim ou, no mínimo, inferior ao que poderia ser, dado o material de origem. Zack Snyder não é diretor de cinema, é diretor de comercial (apesar de ter aparecido na tela para comentar as cenas usando uma camiseta com a imagem clássica de "Yojimbo", fazendo Kurosawa se revirar no túmulo). Fez só dois filmes antes desse e errou feio em pelo menos um deles (justamente uma adaptação de HQ, "300"). A única justificativa para ele ter assumido um projeto que começou a ser tocado por gente infinitamente mais talentosa (Terry Gilliam e, depois, Paul Greengrass) é o fato de que os produtores queriam um marionete, não um diretor (Gilliam abandonou o barco porque decidiu que não dava para adaptar a HQ em menos de quatro horas).

Tudo que Zack Snyder tem de pior salta aos olhos nas cenas mostradas ontem: seu "estilo" é brega, sua tara por cenas de ação em câmera lenta (quem viu "300" deve lembrar) é uma lástima, sua direção de atores é nula - basta comparar Gerard Butler e Rodrigo Santoro em "300" e em outros filmes. Para piorar, ele conta com um fraco elenco de desconhecidos (na época de Greengrass, o filme tinha Denzel Washington como dr. Manhattan, Hillary Swank como Espectral, Joaquin Phoenix como Ozymandias e Matt Damon como o Coruja; hoje tem Billy Crudup, Carla Gugino, Matthew Goode e Patrick Wilson nos mesmos papéis).

E a conversa de que ele é "grande fã" da HQ e ia ser 100% fiel a ela? Bom, assim que ele assumiu que mudou o fim da história, os fãs já se deram conta de que esse papo tinha que ser relativizado. E, assistindo às cenas ontem, essa sensação só se aprofundou (o início do filme, com a cena da morte do Comediante, é bem diferente da HQ, por exemplo). É verdade que há uma preocupação com a fidelidade visual aos quadrinhos - Dave Gibbons não está envolvido por acaso -, mas isso não quer dizer muita coisa: se eu vestir o atual time do Flamengo com os uniformes de 1981 e colocá-lo num Maracanã repaginado como à época, os pernas-de-pau não vão jogar como Zico, Junior e cia. Ou seja, não basta copiar de forma idêntica os cenários para recriar na tela o "espírito", a qualidade da obra original. 

Posto isso, a boa notícia: essa opinião negativa certamente não vai ser unânime - como não foram unânimes as avaliações sobre "300". Vai ter gente que vai gostar deste "Watchmen", e suspeito que não vão ser poucos. Como "300", o filme tem toda a pinta de que vai ser sucesso de bilheteria, independentemente do que se pense sobre a qualidade dele (ninguém despreza o poder dos milhões de dólares investidos em marketing, é claro). É de se imaginar que a maior parte da audiência, certamente formada por gente que não leu a HQ, vai reagir melhor ao filme do que os fãs incondicionais do trabalho de Moore e Gibbons. E, é claro, vale lembrar que ontem foi exibida apenas meia hora de uma obra que vai ter duas horas e meia.

E houve bons momentos na tela, ontem: a parte dos créditos iniciais, que resume o surgimento dos super-heróis e as implicações políticas disso - ao som de "The Time They Are A-Changin'", de Bob Dylan -, ficou boa (é uma repetição da mesma idéia que Snyder usou em seu remake de "Dawn of the Dead", "Madrugada dos Mortos" - lá, ao som de "The Man Comes Around", do Johnny Cash). O dr. Manhattan, um dos personagens centrais (e o único com superpoderes), também parece ter sido bem resolvido tanto visualmente (ele é um ser azul, criado com efeitos especiais) quanto na dublagem de Billy Crudup.

Escrito por Marco Aurélio Canônico às 1h36 PM

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Herzog, de novo, filma a vida no extremo

                                                                                     Divulgação
O fundo do mar na Antártida, cena do novo doc de Herzog

Por Fernanda Ezabella

O que poderia ser mais um documentário sobre os mistérios da Antártida ganha um novo sentido ao ter na direção o alemão Werner Herzog. Afinal, não são apenas os pinguins e a natureza que o interessam. Ele está lá atrás dos seres estranhos (e humanos) que topam se deslocar até o polo sul e ali trabalhar em suas paixões. São biólogos, vulcanólogos e glaciologistas que moram isolados na Estação McMurdo, a maior instalação científica dos EUA no continente.

"Encounters at the End of the World" tem narração do próprio Herzog, cujo sotaque forte em inglês e voz pausada dão mais graça às suas poesias e ironias. Como ao comentar a entrevista com um jovem e empolgado linguista, que não para de falar, preocupado com a morte dos idiomas, em pleno polo sul. Enquanto ele fala, mais cinco línguas acabaram de morrer pelo mundo, ironiza o diretor. Há também histórias de uma aventureira que cruzou as Américas dentro de um tubo de esgoto e agora vive ali, trabalhando e fazendo performances no clube da estação. Ou o banqueiro que decidiu virar motorista de ônibus, e um encanador que se diz descendente dos reis astecas.

Herzog também fala e filma os pinguins. Mas como ele mesmo observa, não está lá para perguntas comuns. Quer saber do especialista se existe homossexualismo entre esses animais, ou loucura e depressão. Para ilustrar, mostra o exemplo de um pinguim que toma rumo diferente de seu grupo. O animal segue andando sozinho, no branco sem fim, sem olhar para trás, provavelmente para encontrar a morte, como comenta de forma poética o diretor.

O cineasta, que mora há tempos em Los Angeles, passou sete semanas na Antártida com seu cinegrafista, patrocinados pela National Science Foundation, responsável pela estação. As imagens que eles captam são incríveis, como as do vulcão ativo no monte Erebus e as do fundo do mar. E são tão interessantes quanto as histórias das pessoas que ali vivem.

"Encounters at the End of the World" não deixa de lembrar seu documentário "O Homem Urso", sobre o ativista que resolve ir morar com os ursos no Alasca, embora este novo trabalho não tenha fim trágico. É mais uma vez a vida no extremo, como em seus filmes de ficção, seja na Amazônia ("Fitzcarraldo", "Aguirre - A Cólera dos Deuses") ou na floresta do Laos ("O Sobrevivente").

O longa já foi exibido pelo canal Discovery nos EUA, mas não tem previsão de estreia no Brasil, nem na TV nem nos cinemas. Está disponível em DVD, que pode ser importado pela Amazon, por U$ 19. Para quem gosta de viver perigosamente, "Encounters" também pode ser encontrado em sites de download como o Mininova.

O próximo filme do diretor, uma ficção em fase final de montagem, é "Bad Lieutenant", refilmagem de "Vício Frenético", de 1992, de Abel Ferrara. Na nova versão, Nicolas Cage fará o protagonista, interpretado por Harvey Keitel no original. O novo longa tem estreia prevista no Brasil para agosto deste ano.

*

Falando em Herzog, o vídeo a seguir, de 1980, registra a famosa aposta que ele fez com Errol Morris e perdeu. Resultado: teve que comer o próprio sapato. Herzog cozinha, tempera e fala sobre cinema. Está dividido em duas partes, de dez minutos cada uma, com legendas em espanhol.

Escrito por Fernanda Ezabella às 12h35 PM

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As últimas listas do ano velho e as primeiras do novo

 
                                                                            Fotos Divulgação
"Le Voyage du Ballon Rouge", favorito entre críticos americanos
 
Por Cássio Starling Carlos

Passagem de ano é um prato cheio para quem gosta de listas (e que cinéfilo não gosta ou não tem sua seleção particular?). Para não dar a impressão de que todo ano é a mesma coisa, alguns veículos inventam disfarces. O "New York Times" caracterizou as de seus três críticos como se fossem indicações para o Oscar (o que reduziu os títulos dos habituais dez para cinco):

 A. O. Scott
"Wall-E" (Andrew Stanton)
"Milk" (Gus van Sant)
"Cadillac Records" (Darnell Martin)
"O Casamento de Rachel" (Jonathan Demme)
"Happy-Go-Lucky" (Mike Leigh)

Manohla Dargis
"Batman - O Cavaleiro das Trevas" (Christopher Nolan)
"Le Voyage du Ballon Rouge" (Hou Hsiao-hsien)
"Paranoid Park" (Gus van Sant)
"Luz Silenciosa" (Carlos Reygadas)
"Synecdoche, New York" (Charlie Kaufman)

Stephen Holden
"Wall-E" (Andrew Stanton)
"Entre Paredes" (Laurent Cantet)
"Do Outro Lado" (Fatih Akin)
"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" (Cristian Mungiu)
"Happy-Go-Lucky" (Mike Leigh)

O muito mais democrático IndieWIRE reuniu votos dos que o site considera os 105 críticos de cinema mais importantes dos EUA e chegou ao seguinte:

  1. "Le Voyage du Ballon Rouge" (Hou Hsiao-hsien)
  2. "Um Conto de Natal" (Arnaud Desplechin)
  3. "WALL-E" (Andrew Stanton)
  4. "Wendy and Lucy" (Kelly Reichardt)
  5. "Happy-Go-Lucky" (Mike Leigh)
  6. "Paranoid Park" (Gus van Sant)
  7. "Em Busca da Vida" (Jia Zhang-ke)
  8. "Luz Silenciosa" (Carlos Reygadas)
  9. "Synecdoche, New York" (Charlie Kaufman)
  10. "Valsa com Bashir" (Ari Folman)

Duas publicações europeias de peso acabam de divulgar suas seleções. A dos "Cahiers du Cinéma" ficou assim:

  1. "Guerra sem Cortes" (Brian De Palma)
  2. "Juventude em Marcha" (Pedro Costa)
  3. "Cloverfield" (Mat Reeves)
  4. "Onde os Fracos Não Têm Vez" (Joel & Ethan Coen)
  5. "Two Lovers" (James Gray)
  6. "Valsa com Bashir" (Ari Folman)
  7. "Dernier Maquis" (Rabah Ameus-Zaïmeche)
  8. "Hunger" (Steeve McQueen)
  9. "A Short Film About the Indio Nacional" (Raya Martin)
  10. "De la Guerre" (Bertrand Bonello)

 A mesma publicação traz ainda a escolha de seus leitores:

  1. "O Silêncio de Lorna" (Luc e Jean-Pierre Dardenne)
  2. "Onde os Fracos Não Têm Vez" (Joel & Ethan Coen)
  3. "Valsa com Bashir" (Ari Folman)
  4. "Um Conto de Natal" (Arnaud Desplechin)
  5. "Sangue Negro" (Paul Thomas Anderson)
  6. "Two Lovers" (James Gray)
  7. "Vicky Christina Barcelona" (Woody Allen)
  8. "Hunger" (Steeve McQueen)
  9. "A Vida Moderna" (Raymond Depardon)
  10. "Entre Paredes" (Laurent Cantet)


"Two Lovers", um dos preferidos entre os cinéfilos franceses

Ainda da França a mais pop "Les Inrockuptibles" também fez a sua:

  1. "Two Lovers" (James Gray)
  2. "My Magic" (Eric Khoo)
  3. "Woman on the Beach" (Hong Sang-soo)
  4. "Um Conto de Natal" (Arnaud Desplechin)
  5. "Viagem a Darjeeling" (Wes Anderson)
  6. "Onde os Fracos Não Têm Vez" (Joel & Ethan Coen)
  7. "Speed Racer" (Andy e Larry Wachovski)
  8. "A Bela Junie" (Christophe Honoré)
  9. "Horas de Verão" (Olivier Assayas)
  10. "Cristóvão Colombo - O Enigma" (Manoel de Oliveira)

Do outro lado da Mancha, a matriz de todas as listas, a honrosa "Sight & Sound" traz na edição de janeiro o balanço de uma consulta feita junto a 50 críticos mundo afora (não, nenhum brasileiro integra a consulta):

  1. "Hunger" (Steve McQueen)
  2. "Sangue Negro" (Paul Thomas Anderson)
  3. "WALL-E" (Andrew Stanton)
  4. "Gomorra" (Matteo Garrone)
  5. "Um Conto de Natal" (Arnaud Desplechin)
  6. "Entre Paredes" (Laurent Cantet)
  7. "Of Time and the City" (Terence Davies)
  8. "Happy-Go-Lucky" (Mike Leigh)
  9. "A Mulher sem Cabeça" (Lucrecia Martel)
  10. "Deixe Ela Entrar" (Tomas Alfredson)

Escrito por Cássio Starling Carlos às 9h09 AM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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