Ilustrada no Cinema

 

 

Três presentes que pedi a Noel

Por Cássio Starling Carlos

Como o Leo, eu sou daqueles que ainda acredita em Papai Noel. Só que neste ano que chega ao fim o bom velhinho deixou para cumprir só em 2009 (se for possível, ele avisa) meus três pedidos, que ficaram meio carinhos com a montanha-russa do dólar.

 

 

The Ingmar Bergman Archives

O brinquedinho que a Taschen preparou reúne em quase 600 páginas um material para qualquer fetichista passar mais de 365 dias em estado de graça. Além de textos de Erland Josephson (ator alter-ego do mestre), ensaios e entrevistas de Bergman até agora disponíveis apenas em sueco, ensaios de especialistas, a publicação traz mais de mil imagens de filmes, bastidores, pôsteres, diários de trabalho e roteiros com anotações. Ainda faz parte da caixa um DVD com cenas de Bergman trabalhando e um vídeo-diário de seu derradeiro título, "Sarabanda". O ápice do fetiche vem na forma de um trecho do celulóide original de "Fanny e Alexandre" que, segundo os editores, rodou no projetor pessoal de Bergman (em outros tempos, fiéis do cristianismo chamavam de relíquias os milhares de supostos pedacinhos da cruz que ajudaram a encher os cofres do Vaticano).

Só que para pôr as mãos em tal presentinho, o pagão de hoje precisa desembolsar singelos US$ 126 na oferta da Amazon. Para os mais desesperados e menos preocupados com o amanhã, o site da Cultura promete entregar no mesmo dia por extorsivos R$ 676.

 

 

 

Chungking Express - The Criterion Collection

Sem nem uma edição em DVD no Brasil, esta deliciosa crônica de amores impossíveis que abriu os olhos do Ocidente para a filmografia de Wong Kar-wai saiu há pouco numa edição incomparável da Criterion. Todo o frescor (que muitos consideram frescuras) do diretor chinês vem oferecido numa cópia restaurada e com extras de dar água na boca: comentários do pesquisador Tony Rains (especialista nos cinemas do Oriente) e uma brochura com um ensaio da sempre perspicaz Amy Taubin. Para importação direta (com direito à sobretaxa) sai por US$ 35,99 na Amazon ou com os custos de importação embutidos por R$ 153,91 na CDPoint.

 

 

 Le Cinéma de Georges Delerue

Quem nunca assistiu a "O Desprezo" do Godard e saiu andando nas nuvens com a melancolia daquela trilha sonora que atire a primeira pedra! Mas nem só de clássicos da nouvelle vague sobrevive o renome deste grande compositor após sua morte em 1992. Ele também emprestou sua habilidade a Hollywood quando esta buscava esse algo a mais indefinível que chamamos "delicadeza". Nas palavras de quem entende do assunto, "tratando-se de cinema, Delerue é mesmo o primeiro entre os franceses de sua geração", crava João Máximo, autoridade brasileira no assunto em seu livro "A Música do Cinema".  Para conhecer o trabalho do compositor de ponta a ponta, desde partituras célebres até desconhecidíssimas colaborações para curtas-metragens, telefilmes e temas de programas de rádio, meus ouvidos ficariam bem felizes em ter acesso a esta caixa com seis CDs que traz no total 117 faixas extraídas dos mais de 300 trabalhos para os quais Delerue emprestou seu nome. Custa "apenas" 49,98 euros na filial francesa da Amazon.

Se o senhor Noel não ajudar, em 2009 o jeito vai ser quebrar o cofrinho.

 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 5h28 PM

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Melhores de 2008

 

No podcast de hoje, o crítico Sérgio Rizzo faz um balanço sobre os filmes que estrearam no Brasil em 2008. Entre os longas nacionais, destaca "Linha de Passe", "Serras da Desordem" e "Terra Vermelha", além do sucesso "Meu Nome Não É Johnny". Para ouvir o podcast, clique no microfone.

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h32 PM

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Três presentes (atrasados) de Natal

Por Leonardo Cruz

O velho Noel se enrolou com as entregas de final de ano e passou atrasado aqui pelo blog. Em compensação, em vez de apenas um, deixou três pacotes para os cinéfilos de plantão nestes últimos dias de 2008. Às entregas, então:

1. Bons filmes, de graça, on-line
O presente mais legal do bom velhinho chama-se The Auteurs. O nome é bem pseudo-intelectual, mistura bizarra de inglês com francês, mas isso é o de menos. The Auteurs é um site americano que oferece filmes pela internet, alguns de graça, outros pagos, em boa resolução e legalmente, mediante um cadastro simples e gratuito.

Com foco no cinema de arte/independente, a página firmou parcerias com a produtora Celluloid Dreams e a distribuidora Criterion (sim, a Criterion!). A Costa Films responde pelo braço latino-americano da empreitada.

O resultado dessas associações é um catálogo com 1.039 filmes, que variam de clássicos como “Acossado” (1960), de Jean-Luc Godard, a novíssimos como “24 City”, de Jia Zhang-ke. Os longas que podem ser vistos on-line ainda são apenas uma pequena parcela disso, pois o site opera em versão de testes.

                                                           Fotos Divulgação

"Paradise Now", um dos filmes gratuitos no site The Auteurs

Nesta semana, são 22 filmes disponíveis. Quatro gratuitos: “Bom Dia, Noite” (2003), de Marco Belocchio; “Nowhere” (1997), de Gregg Araki; “Paradise Now” (2005), de Hany Abu-Assad; e “Le Parfum de la Dame en Noir” (2005), de Bruno Podalydès. Para ver um dos outros 18, é necessário desembolsar 5 dólares, via cartão de crédito  ⎯ mais barato que muito DVD e ingresso de cinema. Entre as opções para os pagantes estão “Minha Vida Sexual” (1996), de Arnaud Desplechin; “A Agenda” (2001), de Laurent Cantet; e “Vers Mathilde” (2005), de Claire Denis.

The Auteurs funciona como uma sala de cinema portátil, cuja programação varia de tempos em tempos. Na semana passada, por exemplo, estava disponível, de graça, “Eu Matei Jesse James” (1949), primeiro filme de Samuel Fuller.

Além do acervo virtual, o site mantém uma página de notícias sobre cinema (com atualização ainda errática) e um fórum para debates e trocas de idéias. E cada usuário pode moldar seu perfil, definindo filmes, diretores e gêneros favoritos.

Nesta fase beta, The Auteurs tem duas limitações principais. 1) Os filmes não podem ser gravados no computador, só vistos on-line. Ou seja, se você quiser assistir ao longa em sua TV, a única opção será conectar o micro ao aparelho. 2) É totalmente em inglês, os filmes não-americanos só têm legendas em inglês.

Entraves à parte, é um ótimo projeto, que preserva direitos autorais sem extorquir ninguém e voltado para um público que vai muito além dos blockbusters.

2. Bons textos, de graça, on-line
Outro ótimo projeto que desembarcou recentemente na internet é o Dicionários de Cinema, blog coordenado por Luiz Soares Júnior, redator das revistas eletrônicas Cinética e Paisà. Com a ajuda de colaboradores, Júnior coloca na rede, desde meados de novembro, artigos de importantes críticos franceses, como Jacques Lourcelles, Serge Daney e Jean Douchet, vertidos para o português.

A primeira tradução, postada em 12/11, foi de uma resenha de Douchet para “Hiroshima, Meu Amor”, de Alain Resnais, escrita em junho de 1959, época do lançamento do filme. O trecho final do texto de Douchet:

“‘Hiroshima, Meu Amor’ é um filme dez anos à frente. Ele desencoraja toda crítica. Qual será sua influência sobre o cinema? É o fim do classicismo cinematográfico? Ou, ao contrário, pela própria perfeição de seu aspecto inovador, ele condena antecipadamente toda veleidade em perseguir este caminho? Tantas questões que só o tempo poderá responder.”

As íntegras desta e de outras análises estão lá no Dicionários de Cinema, garantia de horas de leitura de alto nível.

3. Um ótimo filme natalino, nos cinemas


Mathieu Amalric, como o problemático Henri, em "Um Conto de Natal"

O terceiro presente de Noel foi o desembarque nesta semana, nas salas de cinema paulistanas, do belíssimo “Um Conto de Natal”, de Arnaud Desplechin, filme que passa a integrar, automaticamente, aquela lista de melhores filmes de Natal, que fiz aqui no blog, há dois anos.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre o filme antes de assisti-lo, recomendo esta crítica de Sérgio Rizzo, publicada na Ilustrada nesta semana.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h02 PM

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Depois do mal, o que mais falta acabar?

                                                                       Fotos Divulgação

O vampiro de "Crepúsculo": beleza gelada, inodora e sem riscos

Por Cássio Starling Carlos

O medo da natureza e de suas forças fora do controle é umas das fontes de nossa imaginação a respeito dos vampiros, cujas manifestações já andavam pelo mundo desde as origens humanas, mas só ganham nome, sobrenome e endereço no início do século 18. A partir daí, sua presença no imaginário popular se tornou cada vez mais comum e se consolidou definitivamente com a figura romântica e dolorosa do “Drácula” de Bram Stoker.

Depois que este ganhou as telas, nos anos 20, mal disfarçado como o desesperado apaixonado “Nosferatu” do alemão Murnau, o cinema virou seu castelo assombrado predileto. Nele, Bela Lugosi e Cristopher Lee (só para citar meus favoritos) encarnaram o monstro que mais adoramos temer e gelaram o sangue de muitas gerações.

E não adianta rezar o terço, carregar crucifixos, colares de alho, expô-los à luz solar nem cravar estacas em seus corações. Um dia eles sempre voltam.

Desta vez, voltaram como uma família em “Crepúsculo”, com sua historinha de amor impossível entre um vampiro eternamente teen e uma estranha, mas interessante, garota da escola. O sucesso da série de livros de Stephenie Meyer explica-se, em parte, pelo recurso ao truque infalível de folhetim que assegurou o sucesso global de “Harry Potter”, com a progressão geracional e o universo fantasma recheado de símbolos da vida como ela é.

O problema é sua versão para o cinema, exangue, para dizer o mínimo.

A idéia de “vampiros vegetarianos” trazida pela autora da série de livros é sintomática. Depois do advento do sexo seguro, do café descafeinado e da realidade virtual, o vampirismo que poupa humanos é mais uma evidência da realidade sem riscos que estamos inutilmente tentando inventar.

Um vampiro sem sangue humano, contudo, perde justamente sua essência, o mal, ou seja, aquilo que faz dele o monstro que adoramos temer. Um vampiro que não morde e não contamina é como sexo virtual: inodoro e sem riscos mas também ineficaz.

Valores modernos, reflexos de uma nova castidade, andam dizendo. Tempos estranhos, prefiro pensar, em que até o mais indomesticável dos monstros, sexual em todos os sentidos, reaparece como beleza gelada, foco de amores platônicos e que recusa o sexo porque é ali que mora o perigo.


"Aos Treze", de Catherine Hardwicke: retrato bruto da adolescência

Mais estranho ainda que a encarregada de converter todo esse idealismo numa imagem adequada tenha sido a diretora Catherine Hardwicke. Em seu filme de estréia, o interessantíssimo “Aos Treze”, Hardwicke quebrava tabus incorporando ao mainstream muito da estética e da moral de ruptura do “Kids”, de Larry Clark.

Sua protagonista era “a” adolescente: perturbada, incômoda, sexual, sem limites. Um pouco de lição de bons costumes no final de “Aos Treze” nem chegava a atrapalhar o retrato bem bruto que a diretora desenhava.

A habilidade da diretora de lidar com o universo adolescente se confirmou em “Os Reis de Dogtown”, sobre a cultura surf e skate na Califórnia no início dos anos 70.

Nada disso reaparece em “Crepúsculo”, em que o auto-controle dos vampiros diante dos humanos se reproduz no modo desinteressado como a diretora executa a encomenda.

Boa notícia é a saída de Hardwicke do projeto de “Lua Nova”, segunda parte da série. Com a entrada de Chris Weitz em seu lugar, fica claro que o diretor de “Bússola de Ouro” vai saber manter os riscos bem afastados dos fãs da série. Ao que tudo indica, nada de sangue nem de sexo, esse pouco de natureza que insiste em nos perseguir.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 2h21 PM

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Um alô de Bertolucci

                                                                                     Divulgação

O cineasta Bernardo Bertolucci, tema de retrospectiva no CCBB

Por Sérgio Rizzo

A difícil recuperação de uma cirurgia (a segunda, para corrigir um problema que a primeira agravou, de acordo com amigos do cineasta) na coluna impediu que o italiano Bernardo Bertolucci, 68, viesse ao Brasil para acompanhar a retrospectiva "Estratégia do Sonho - O Primeiro Cinema de Bertolucci", que teve início no Rio de Janeiro em 2 de dezembro e chegou a São Paulo na última quarta-feira, dia 17, no Centro Cultural Banco do Brasil, onde se estenderá até 4 de janeiro. A versão impressa da Folha publicou reportagem sobre o evento, aqui e aqui.

Bertolucci não veio, mas enviou ao cineasta Joel Pizzini, curador da retrospectiva, um depoimento em vídeo, com pouco mais de quatro minutos, que o CCBB exibe antes de todas as sessões. Abaixo, a transcrição.

(Voz feminina sobre a imagem de Bertolucci: "três, dois...")

Ação.

(lendo)
Se entregue, Corisco.
O sertão vai virar mar
E o mar vai virar sertão

(olhando para a câmera)
Então. São as últimas palavras, que devo ter pronunciado mal em português, da música que acompanha com muita, muita, muita comoção, comoção extremada, o final de "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Ela ficou gravada em mim como um som, um som da minha relação com o Brasil. Uma relação que sempre foi muito forte. Ela começou quando Gianni Amico - que será lembrado por muito tempo no Brasil pela ajuda que deu ao cinema e aos cineastas brasileiros - criou um festival de cinema latino-americano independente em Sestri Levante e foi lá que conheci Glauber Rocha.

Eu já tinha visto, no Centro Experimental de Roma, quando eu tinha 20, 21 anos, Gustavo Dahl, Paulo César Saraceni, dois grandes amigos, embora um pouco, como eu diria?, desconfiados. Quando eu disse a eles, aos 21 anos, que no dia seguinte começaria meu primeiro filme, "A Morte", eles acharam que fosse brincadeira. Eu não tinha estudado cinema, tinha sido assistente de Pasolini. No dia seguinte, eles foram ao set para ver se eu estava mesmo rodando meu primeiro filme.

Então, os brasileiros, como amigos e como inspiração, como sentinelas, em toda a década de 60, que foi explosiva no mundo todo, inclusive no Brasil, tiveram uma grande força. Era o Cinema Novo. Eu gostaria que os muitos jovens que estudam cinema hoje soubessem do que estou falando. Aconteceu num momento de muita agitação política, e chegavam levas de brasileiros muito criativos à Europa, na Itália, na Inglaterra.

Sei que Caetano Veloso estava em Londres, Chico Buarque de Holanda estava em Roma, e também vinham sempre Gustavo Dahl, Saraceni, Cacá Diegues, entre muitos outros amigos. Tive, inclusive, a alegria de conhecer Vinicius de Moraes na casa de Gianni Amico. Ele estava com um violão e assim, sozinho, ele se virando ali, me conquistou com suas letras e suas músicas.

Por isso "A Estratégia do Sonho" me parece o nome mais exato para uma mostra de filmes meus. Estou muito triste por não poder estar aí com vocês, e por não ter ido ao Rio nem a São Paulo. Estou triste, mas acho que vou em algum outro momento.

Repito, "A Estratégia do Sonho" é o que deve ter todo espectador que entra no cinema e se senta. Ele está em meio a um público que não conhece, então vem o escuro, começa o filme e todos começam a sonhar o mesmo sonho, o filme. E sonhamos de olhos abertos. A única diferença entre o sonho noturno e o cinema é que o primeiro acontece de olhos fechados e o cinema, de olhos abertos, enquanto se está lá. Boa sessão a todos.

(olha para alguém fora do quadro, à sua direita, e gesticula no sentido de dizer "acabei")

*

O podcast desta semana é sobre a estréia do premiado "Gomorra", de Matteo Garrone, confirmando que o final de semana nos cinemas paulistanos é italiano. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h14 PM

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O melhor retrato da crise americana

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Michelle Williams, em "Wendy and Lucy", filme de Kelly Reichardt

Por Leonardo Cruz (em Nova York)

Wendy é uma jovem que atravessa os EUA em um carro surrado, acompanhada por sua cadela Lucy. Seu destino é o Alasca, a procura de um trabalho temporário na pesca de salmão. Ela não tem casa nem telefone nem seguro-saúde nem emprego. Só lhe restam algumas dezenas de dólares quando seu Honda pifa numa cidadezinha do Oregon, noroeste dos EUA. Logo em seguida, sua cachorra some.

Exibido no último Festival de Cannes e recém-lançado em Nova York, "Wendy and Lucy" é a melhor tradução que o cinema conseguiu fazer até agora da tormenta econômica que atinge os EUA. O filme de Kelly Reichardt foi obviamente rodado antes do ápice da crise, mas os sinais dela já eram visíveis na sociedade americana no ano passado, quando a diretora começou a escrever o filme com Jonathan Raymond.

"Todo mundo meio que sabia que seria ruim e que estava chegando", disse a cineasta à revista "Film Comment" deste mês. Ela contou ainda que a idéia para seu filme surgiu das conversas com Raymond sobre o descaso e a total falta de apoio às vítimas do Katrina.

Kelly converteu essa idéia na jornada de Wendy, uma mulher em queda livre num país sem rede de proteção social. Em sua busca por Lucy (e por sua dignidade), ela encontra jovens desempregados, um vigia, um mecânico, um sem-teto; personagens que, segundo a diretora, "estão em diferentes posições na sociedade, mas estão todos se segurando nas pontas dos dedos".

O longa mostra tudo isso de forma extremamente simples, minimalista, da trilha sonora que quase se resume a uma melodia assoviada por Wendy à câmera que acompanha com discrição os movimentos da protagonista, ao passo que explora bem a paisagem do interior americano. No centro de tudo isso está a atriz Michelle Williams, que interpreta de forma comedida e segura uma Wendy ao mesmo tempo frágil e perseverante.

"Wendy and Lucy" é uma obra comovente pela forma como reflete bem uma época desesperançada. Que algum festival ou distribuidora tenha o bom senso de levá-la aos cinemas brasileiros.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h48 AM

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O cinema é uma grande aventura

 
Cena de "Canção da Primavera", filmado
no quintal da casa de Igino Bonfioli em Belo Horizonte

Por Cássio Starling Carlos

Quem se aventura a realizar cinema no Brasil sempre reclama das limitações orçamentárias e de execução. Em festivais, o bordão mais ouvido é "foi feito com a maior garra" ou "do jeito que deu pra fazer", com o qual diretores de longas e de curtas buscam defender seus trabalhos. Resta o consolo de que nada mudou muito desde as origens.

O pouquíssimo que se conhece dos primeiros cineastas sobrevive graças ao esforço de descrição de pesquisadores. Os primórdios da produção em São Paulo, por exemplo, foram resgatados por Maria Rita Galvão no essencial "Crônica do Cinema Paulistano", publicado em 1975 e hoje esgotado.

Com um modelo semelhante, baseado em relatos orais, o pesquisador, crítico e cineasta Paulo Augusto Gomes acaba de lançar o volume "Pioneiros do Cinema em Minas Gerais", pela editora belo-horizontina Crisálida.

O título reúne perfis de 13 personagens que, de forma amadora ou semi-profissional, inevitavelmente tendo que lidar com precariedades econômicas e materiais, esboçaram representações documentais e dramatizadas por meio do cinema tanto na jovem Belo Horizonte do início do século passado como em cidades do interior de Minas Gerais.

Muitos deles já estavam mortos quando Gomes começou a registrar os depoimentos, há mais de 30 anos. A solução foi resgatar a memória conversando com descendentes, como Paulo Alvarenga Junqueira, neto de Aristides Junqueira, um típico aventureiro do cinema dos primeiros tempos que se dedicou a fazer registros cinematográficos pelo menos desde 1909.


Equipe orienta atores em cenário construído nos fundos da casa de Igino Bonfioli

Outro exemplo é a saborosa entrevista com as irmãs Silvia e Leonor, filhas de Igino Bonfioli, que, além de ter documentado a rápida transformação urbana nos primórdios da capital mineira, filmou as dramatizações "Canção da Primavera" (1923), "Entre as Montanhas de Minas" (1926) e "Tormenta" (1930), das quais entregou a direção de atores a colaboradores.


Almeida Fleming filmando em set improvisado

Uma das preciosidades do livro é a transcrição de uma entrevista, gravada em 1977, com Francisco de Almeida Fleming, um ícone do cinema artesanal que fez cinema com a cara e a coragem em Pouso Alegre, no sul de Minas, nos anos 20.

Valioso também é o depoimento de Humberto Mauro registrado pelo autor da pesquisa em 1978. Em meio a memórias e muitos casos, o cineasta de Cataguases que se tornou uma espécie de patrono do cinema brasileiro, dá um conselho sempre útil aos novos aventureiros: "Procurem fazer um cinema sempre novo (...), sempre para a frente, nunca para trás".

Escrito por Cássio Starling Carlos às 6h13 PM

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A volta do touro indomável

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Dirty Harry? Não exatamente. É Walt Kowalski, protagonista
de "Gran Torino", o 29º longa-metragem de Clint Eastwood

Por Leonardo Cruz (em Nova York)

"A Troca" ainda nem entrou em cartaz no Brasil, e Clint Eastwood já lança nos EUA um novo longa: "Gran Torino" estreou aqui neste último final de semana e confirma a ótima fase do diretor. Desde "Sobre Meninos e Lobos", Clint só fez filmaços.

"Gran Torino" não é diferente e, atrativo a mais, tem Clint como protagonista. Ele interpreta Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coréia (1950-53) e ex-funcionário da fábrica da Ford em Detroit. Recém-viúvo, passa seus dias na entrada de sua casa, bebendo cerveja, mascando fumo e praguejando contra a invasão de imigrantes em sua vizinhança, um típico subúrbio americano.

Kowalski é um homem escroto, rancoroso e agressivo, e sua velhice solitária simboliza a falência do "american way of life", do qual só o que resta é o carrão que ele mantém na garagem: um Gran Torino 1972, em perfeitas condições, motivo de cobiça no bairro e em sua própria família.

No roteiro de Nick Schenk, o ex-metalúrgico passará por um processo de redenção, iniciado pela convivência como seus novos vizinhos chineses. O cotidiano de Kowalski é invadido pelos adolescentes da família do lado, Sue e Thao, que tentam escapar do assédio de uma gangue local. Ao se afeiçoar pelos dois e fazer de Thao seu aprendiz, o velho racista aos poucos perceberá que nem todo asiático merece o desprezo que ele cultiva.

A vertente cômica de "Gran Torino" também se baseia nessa relação inter-racial. O caricatural Kowalski criado por Clint rosna quando contrariado e dispara sobre Thao e seus parentes um arsenal de piadas politicamente incorretas. Mas o humor é apenas momentâneo, e o filme toma um rumo soturno (e surpreendente) quando Kowalski entra no caminho da tal gangue, em defesa de seu protegido.

Em seu 29º longa-metragem como diretor, Clint Eastwood mostra um país decadente, moral e economicamente. E o faz da forma mais crua e direta possível, rosnando como o racista Kowalski.

A seguir, o trailer de "Gran Torino", que deve estrear no Brasil em 6 de fevereiro. O também ótimo "A Troca" entra em cartaz um pouco antes, em 9 de janeiro.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h11 AM

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Quase 70 nacionais em 12 meses. Quantos você viu?

Carlos Vereza em "Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito"

Por Sérgio Rizzo

Um balanço da produção nacional recente pode ser conferido a partir de hoje, dia 12, com a nona edição da Retrospectiva do Cinema Brasileiro do Cinesesc. Serão exibidos 68 longas-metragens lançados em São Paulo entre 15 de novembro de 2007 e 15 de novembro deste ano.

Bem razoável, a média de 5,6 filmes por mês (mais de um por semana, portanto) esconde o fato de que muitos deles se tornaram "fantasmas", lançados com poucas cópias (às vezes, apenas uma) e com público inexpressivo. Alguns não alcançaram mil espectadores e apenas um, "Meu Nome Não É Johnny", ultrapassou a marca de 1 milhão (em flagrante desproporção, teve sozinho 2,075 milhões de espectadores).

"Houve uma reconfirmação de diversidade, com variedade estética e temática consideráveis", analisa o crítico Christian Petermann, colaborador do Guia da Folha, que editou o catálogo da retrospectiva. Seu diagnóstico da safra inclui os seguintes aspectos:

"O boom do documentário se consolida, em especial com a acessibilidade digital. Há pouca perspectiva crítica, mas o leque de temas e personagens é vistoso. Curiosidade: dois docs sobre o mesmo assunto, 'Brigada Pára-Quedista' e 'PQD'."

"Com o digital, pela primeira vez houve o lançamento de obras direto nas quatro mídias (cinema, DVD, internet e TV): ficção ('3 EFES') e doc ('A Dança da Vida')."

"Uma promissora geração de cineastas jovens arriscando tramas e formas: Gustavo Spolidoro ('Ainda Orangotangos'), Bruno Safadi ('Meu Nome É Dindi'), Edu Felistoque/Nereu Cedreira ('Musicagen') e até Marcos Jorge ('Estômago')."

"Num ano de absoluto fracasso nas bilheterias, a única surpresa foi o sucesso mediano de 'Bezerra de Menezes', cerca de 450 mil espectadores."

"Presença interessante de híbridos entre doc e ficção: 'Serras da Desordem', 'Mulheres Sexo Verdades Mentiras', 'Castelar e Nelson Dantas'..."

"O fracasso qualitativo vergonhoso de alguns produtos da Globo Filmes: 'A Guerra dos Rocha', 'Sexo com Amor?', 'Casa da Mãe Joana'."

E o que o internauta pensa da safra? Aliás, quantos títulos entre os 68 você conseguiu ou quis ver? A relação completa, organizada por dia de exibição, está aqui.

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h22 PM

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O mundo mágico de Gondry

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta a estréia de "Rebobine, por Favor", quarto longa-metragem do francês Michel Gondry, diretor de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e conhecido pelos videoclipes que fez para artistas como Björk e White Stripes. No filme, Jack Black e Mos Def fazem a dupla que resolve gravar sucessos de Hollywood de forma caseira, após um acidente que apaga as fitas VHS de uma videolocadora. Para ouvir o podcast, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h05 PM

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Uma noite para não perder

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Othon Bastos, como Corisco, em "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Por Leonardo Cruz

Reserve a data e o horário na agenda: segunda-feira, dia 15, às 19h. É o melhor programa cinéfilo do início da próxima semana: exibição de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", seguida por uma conversa entre quatro críticos de cinema da Folha, na sala 1 do Espaço Unibanco Augusta, em São Paulo.

A sessão do clássico de Glauber Rocha e o debate entre Cássio Starling Carlos, Inácio Araujo, José Geraldo Couto e Sérgio Rizzo fazem parte da celebração dos 50 anos da Ilustrada e são o resultado de uma enquete sobre os melhores filmes das últimas cinco décadas iniciada na Folha Online em setembro.

Naquele mês, os leitores da Folha foram convidados a escolher um favorito por período: de 1958 a 1969; de 1970 a 1979; de 1980 a 1989; de 1990 a 1999; de 2000 a 2008. Para cada década, o internauta-eleitor pôde escolher um entre os dez filmes de uma lista elaborada por um crítico do jornal.

Após mais de três meses de votação, os vencedores foram:

  • "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), com 3.917 votos
  • "O Poderoso Chefão" (1972), com 12.752 votos
  • "Blade Runner" (1981), com 6.115 votos
  • "Pulp Fiction" (1994), com 3.957 votos
  • "O Senhor dos Anéis" (2001/02/03), com 6.091 votos

No total, somando os cinco períodos, foram mais de 80 mil votos, e os cinco ganhadores lideraram com folga desde os primeiros dias da votação. O resultado completo da enquete pode ser visto aqui.

Mais do que especular por que "O Senhor dos Anéis" teve mais votos do que "Cidade de Deus", ou por que "Touro Indomável" não superou "Blade Runner", o debate da próxima segunda será um espaço de discussão sobre as mudanças na produção cinematográfica nesses 50 anos e quais os caminhos para o cinema nas décadas que virão.

Como disse, a sessão na segunda começa às 19h. A entrada é franca, e os ingressos serão distribuídos na bilheteria do cinema a partir das 18h. É bom chegar cedo. O Espaço Unibanco fica na rua Augusta, 1.475.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h59 PM

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Desventuras da autoficção

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 Jeanine Meerapfel em "Na Terra dos Meus Pais"

Por Cássio Starling Carlos

No embalo da exposição da intimidade, o conceito de "autoficção" ganhou espaço, simulando renovações em livros (a estratégia confessional de Catherine Millet a Bruna Surfistinha). Não demorou a avançar rumo ao cinema, gerando híbridos de documentário e ficção que tendem a implodir a estreiteza das fronteiras (como nas proposições de Jonathan Caouette em "Tarnation" e de Kiko Goifman em "33").

Bem antes, contudo, de a "autoficção" ser eleita conceito da hora, a concepção já movia trabalhos de criadores em busca de uma voz adequada a uma vivência, como se pode comprovar na retrospectiva dedicada à cineasta Jeanine Meerapfel, em cartaz no CCSP de hoje até domingo. O ciclo reúne nove títulos realizados entre 1980 e 2007 pela diretora argentina filha de pais alemães emigrados durante o Terceiro Reich.

Desta raiz, Meerapfel vem produzindo, desde o início dos anos 80, uma sucessão de ficções e de documentários nos quais as fronteiras nunca ficam muito nítidas. O tema mais recorrente de seus trabalhos é o exílio, como experiência ou metáfora. Da experiência dos pais, judeus alemães, a diretora projeta um tanto em suas ficções, nas quais tenta elaborar o trauma da ditadura argentina, suas perseguições e estratégias de eliminacionismo. Em vez de se limitar a comparar a ditadura argentina dos anos 70 ao nazismo, a ficção de Meerapfel tende mais a buscar na experiência dos pais um extrato humano, expandindo-a para além da retórica ao horror anti-semita e aos campos de extermínio.

Mesmo num título de estrutura fragilíssima, como "Amigomio" (1995), que retrata as dificuldades de um homem que tenta fugir da ditadura acompanhado do pequeno filho, o sentimentalismo do melodrama não apaga a interessante reflexão proposta pela diretora. Nela ecoa, em imagens familiares e nos personagens dos avós alemães, um passado que não se reduz ao acerto de contas personalista e que estende sua validade numa direção humanista.

A estratégia demonstra extraordinário vigor em "Na Terra dos Meus Pais". O documentário, realizado em 1981, mostra a própria diretora em visita à Alemanha. Na então Berlim Ocidental (antes da queda do muro), Meerapfel entrevista judeus de variadas faixas etárias a respeito da experiência de viver no país onde, no passado, o ser judeu foi um estigma de proporções fatais.

Mas não é o trauma histórico ou a denúncia vazia que a diretora persegue. É a condição de pária social, que ela aponta ter se mantido na figura do outro, naquele momento encarnado pelo imigrante turco, sobretudo. Sua câmera e sua interrogação passeiam pelas ruínas da história alemã, aponta os remanescentes do judaísmo na arquitetura e no urbanismo, mas evita a exposição frontal das marcas do Holocausto. O recurso impede que a abordagem de Meerapfel se torne também presa de um passado monumental. E que a experiência pessoal não se dilua na faca de dois gumes da vitimização.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h55 PM

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Cassavetes no teatro, Lynch na joalheria

                                                   Fotos Divulgação

"Opening Night", a peça, que estreou em NY

Por Sérgio Rizzo

Um dos grandes filmes sobre teatro foi afinal parar, mais de três décadas depois de seu lançamento, no palco. "Opening Night" (1977), escrito e dirigido por John Cassavetes (1929-1989), deu origem a um espetáculo de mesmo nome, que participou na semana passada do Next Wave Festival da Brooklyn Academy of Music, em Nova York.

Encenada pela companhia Toneelgroep Amsterdam e apresentada no festival em holandês com legendas em inglês, a adaptação foi dirigida pelo belga Ivo van Hove. Na avaliação de Ben Brantley, que escreveu sobre a montagem no "The New York Times", houve um encontro entre almas gêmeas: os métodos de Cassavetes no trabalho com os atores - pedindo que buscassem dentro deles a matéria-prima para criar os personagens, alguns psicóticos - se adequaram aos de Van Hove, conhecido nos EUA pela "desconstrução" de textos clássicos (como "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams) e que já havia montado na Alemanha outra peça baseada em longa de Cassavetes, "Faces" (1968).

Único filme do cineasta em que trabalham juntos dois de seus atores favoritos, Gena Rowlands (também sua mulher) e Ben Gazzara, "Opening Night" acompanha os bastidores de uma produção teatral turbulenta. O problema central é que a estrela (Rowlands, lembrando às vezes, inclusive na gesticulação, sua personagem em outro clássico do marido, "Uma Mulher sob Influência", de 1974) tem dificuldades para se adaptar ao papel, de uma mulher mais velha que acusa a chegada da idade. Suas crises levam quase à loucura o diretor da peça (Gazzara) e o ator com quem contracena, também seu ex-namorado (Cassavetes), entre outros envolvidos na produção.


"Opening Night", o filme original de John Cassavetes, lançado em 1977

Para piorar, uma jovem fã da atriz morre atropelada ao aguardá-la na saída para pedir um autógrafo em uma noite de chuva - situação que o espanhol Pedro Almodóvar recria, com outros objetivos, em "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999). A partir do incidente, ela entra em parafuso e passa a ser atormentada pela presença da morta, mais uma projeção de seus temores do que um "fantasma" no estilo convencional, embora a conclusão fique por conta do espectador.

Brantley observa que a montagem holandesa se distancia do naturalismo buscado pelos filmes de Cassavetes, com o uso de telas e exibição de imagens, que criam certa artificialidade. Mas, no fim das contas, consegue manter a afeição que sentimos pelos personagens. Curiosidade: Van Hove diz que não viu "Opening Night". Preferiu se basear apenas no roteiro.

A chegada de "Opening Night" ao palco parece algo natural, em razão do argumento e das características do trabalho de Cassavetes, que se tornou a principal referência do cinema independente norte-americano - a quem Martin Scorsese, por exemplo, chama de "mentor". Mas o que dizer de encontrar a obra de David Lynch, 62, em uma joalheria?

                                         Alex Almeida - 7.ago.2008/Folha Imagem

David Lynch, durante sua recente passagem pelo Brasil

O diretor de "Veludo Azul" (1986), "Coração Selvagem" (1990) e "Cidade dos Sonhos" (2001) assina a instalação "Diamonds, Gold and Dreams" (diamantes, ouro e sonhos), patrocinada pela Fundação Cartier, na galeria Cartier Dôme, no Jardim Botânico de Miami Beach. Seu trabalho consiste na projeção de um "diamante flutuante", acompanhada por música, que dura sete minutos e ocorre de hora em hora. De acordo com o material de divulgação da Cartier, a "instalação inspiradora" de Lynch "insere os visitantes em uma atmosfera única criada por luz, som e textura", em complemento às jóias exibidas. "A visão criativa do cineasta se mescla perfeitamente com as coleções Cartier", diz o texto.

Para que a recíproca seja verdadeira, aguarde-se uma jóia Cartier em forma de orelha decepada.

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h25 PM

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Louis Garrel, o ator-fetiche do cinema francês

                                                                                     Divulgação

Garrel, como o fotógrafo François, em "A Fronteira da Alvorada"

Por Lucas Neves

Com apenas 25 anos e 14 longas no currículo, Louis Garrel é hoje o ator-fetiche do cinema francês. O filho do cineasta Philippe Garrel chegou às telas em 1989 pelas mãos do pai, em "Les Baisers de Secours". Ganhou prestígio com "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, em 2003. E passou a ser comparado ao Antoine Doinel de Jean-Pierre Léaud por seus papéis em "Em Paris" (2006) e "Canções de Amor" (2007), dois dos cinco longas de Christophe Honoré em que atuou. A seguir, a íntegra da entrevista que Louis concedeu à Folha por telefone, devido ao lançamento de "A Fronteira da Alvorada" neste final de semana.

Em entrevista à revista "Cahiers du Cinéma", você disse sentir que ainda lhe falta traquejo para construir seus personagens ("fisicamente, ainda preciso me libertar"). Onde é mais difícil fazer isso: no teatro, com sua companhia D’Ores e Déjà, ou no cinema?
Quando fiz esse comentário, estava opondo os atores americanos aos europeus. Mesmo no cinema comercial, posso me interessar por produções americanas unicamente por conta dos atores. Ainda que o filme não seja tão interessante, o trabalho dos atores em determinadas produções é autoral, de composição. No cinema europeu, raramente tenho essa impressão. Na França, não temos escolas de atuação para o cinema. Quando aprendemos a atuar, é para interpretar a tradição, o repertório teatral. Talvez isso esteja ligado ao fato de [o diretor] Robert Bresson ter representado um grande momento para o cinema francês trabalhando essencialmente com amadores. Por isso, muitos diretores pensam que os atores não são indispensáveis para se fazer um bom filme.

Com tantas participações em filmes nos últimos anos, sobra tempo para se dedicar à companhia teatral?
O que é bom é que ela é composta de pessoas muito próximas a mim, amigos que vejo o tempo todo. Houve um trabalho do qual não pude participar porque estava envolvido em outros projetos, mas voltaremos a trabalhar juntos. Queremos seguir a trilha de Ariane Mnouchkine [diretora do grupo Théâtre du Soleil]. Ela cria um tema com sua trupe, que improvisa em cima disso. São criações coletivas, que não partem de textos que já existem.

O que há de comum entre você e o fotógrafo François de "A Fronteira da Alvorada"? Você também se esquiva de um estilo de vida burguês?
François é um hipersensível, como eu. Para apreciar este filme, pelo que percebi, é preciso ter essa sensibilidade de ouro. Quanto ao casamento burguês, claro, é algo de que sempre temos medo aos 20 anos: o dia em que seremos engolidos pela máquina social. Li um livro bonito do sueco Stig Dagerman sobre isso, "Notre Besoin de Consolation Est Impossible à Rassasier" [nossa necessidade de consolação é insaciável].

Como filmar com seu pai [Philippe Garrel, diretor de "A Fronteira..." e "Amantes Constantes"] é diferente de fazê-lo com outros diretores?
Acho meu pai um gênio. Ele acessa o cinema a um só tempo como pintor e poeta. É muito emocionante, belo e inspirador ver um poeta pintor que faz filmes. Já Christophe Honoré [com quem rodou cinco filmes até agora, dentre os quais "Em Paris" e "Canções de Amor"] é impulsionado pela literatura.

Você tem interpretado bon vivants que esquecem os males do coração embarcando em novas paixões. Soa como um Antoine Doinel [personagem de filmes de Truffaut como "Beijos Proibidos" e "Amor em Fuga"] dos anos 2000, não? Enquanto admirador confesso de Jean-Pierre Léaud [intérprete de Doinel], como vê essa comparação?
Sou mais que um admirador de Jean-Pierre Léaud, sou um aficionado. Deveria fazer um período de desintoxicação em Léaud, porque sou dependente. A questão é que, se puder dar às pessoas a gana de viver a vida como uma aventura como Doinel me deu, ficarei feliz.

Dentre seus dez filmes mais recentes, só três não foram dirigidos por Honoré ou seu pai, Philippe. Quais são seus critérios para aceitar um papel? O que pensa sobre o cinema francês atual?
Não tenho um método específico [para escolher papéis]. Não tenho uma idéia concreta sobre o cinema francês, mas é fato que tudo é condicionado pelo que vivemos no país. Como todos na França estão um pouco entediados, acho que o cinema reflete isso. Neste momento, ele é encarado como entretenimento, o mote da hora é divertir as pessoas. Mas não é por ser comercial que um filme vai ser ruim. Não há regras. É preciso que se sinta uma coisa real que o diretor queira contar, para além de a história ser boa ou ruim.

Você atuou em dois filmes que se passam durante o Maio de 68 ["Os Sonhadores" e "Amantes Constantes"]. Recentemente, disse que, em se tratando de imigração, o governo francês "está em estado de psicose coletiva. Qual é a sua relação com a política e quais são suas impressões sobre a França de Nicolas Sarkozy?
Acho muito perverso da parte de Nicolas Sarkozy se valer do problema da imigração para chegar ao poder. Não é algo que se possa resolver com dez frases. É eterno esse desejo de ver alhures, de se deslocar. Mas ele encara isso como um problema, para o qual haveria basicamente uma solução: pôr para fora quem vem comer o pão dos outros. Que hoje na França se vá perseguir pessoas nas escolas (nossas crianças e seus pais) é muito perverso e dá ao país uma tensão.


E como o cinema deve tratar essas tensões sociais?
Pode haver cinema militante, mas não acho que seja uma tarefa do cinema falar disso. Prefiro ouvir sociólogos, antropólogos e historiadores sobre essa questão, para que nos restituam a complexidade dessa história de migrações, movimentos de populações de um país a outro. Não cabe ao cinema resolver essas questões. Quando fazemos esse tipo de filme, fica meio chato. Não podemos querer que se faça exclusivamente cinema social.

Mas Abdellatif Kechiche (diretor de "O Segredo do Grão", tunisiano radicado na França) não é um exemplo de que se pode falar de questões sociais sem ser enfadonho?
É verdade, ele fez algo magnífico. "L’Esquive" [longa anterior de Kechiche] nos informou que gírias de certos grupos sociais franceses têm tantas sutilezas quanto a língua oficial. Podem ser sensuais, falar de amizade, ser complexas. Isso foi uma descoberta genial. Um filme deve sempre empreender uma busca; se se fizer uma descoberta como essa que Kechiche fez, já terá sido algo enorme.

"Ma Mère", de Christophe Honoré, e "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, transformaram você em sex-symbol do novo cinema francês. Esse rótulo o incomoda?
Tenho uma relação particular com o cinema: gosto de ser erotizado por um filme. Não tenho amarras artísticas. Fico feliz em vir participar dessa erotização. É estimulante ser excitado por um filme, pelos objetos de desejo de atrizes e atores.

Você disse à "Cahiers" que gostaria de ir trabalhar nos EUA. Mas em Hollywood, fala-se muito de si próprio, de sua intimidade, coisa que você não gosta de fazer em entrevistas...

Se fosse para trabalhar com James Gray [de "Os Donos da Noite"], não ligaria em falar quanto calço.

Com que outros diretores americanos gostaria de trabalhar?

Wes Anderson e Judd Apatow e sua trupe.

Você estreou na direção neste ano com o curta-metragem "Mes Copains" [meus camaradas]. Tem vontade de dirigir mais?

Sim, quero fazer mais curtas com minha companhia teatral.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Crítica de "Fronteira da Alvorada", por Inácio Araujo
Comentário sobre a carreira de Garrel, por Bruno Yutaka Saito

*

Escrito por Lucas Neves às 9h21 AM

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O que vem por aí no cinema

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta as principais estréias no circuito paulistano e antecipa o que vem por aí nos próximos meses. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h41 PM

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Na cabeça de Charlie Kaufman

                                                                            Fotos Divulgação

Nicolas Cage como o Kaufman em crise criativa, em "Adaptação"

Por Leonardo Cruz

Os roteiros de Charlie Kaufman provocam um curto-circuito no conceito de autor no cinema, normalmente mais ligado à figura do diretor. Suas obras apresentam elementos temáticos e visuais que as unem, tornando Kaufman uma espécie rara em seu meio, o roteirista-autor. Essa é a tese central de Cecilia Sayad no livro "O Jogo da Reinvenção - Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema", ensaio curtinho e muito bem escrito, recém-lançado pela editora Alameda.
 
Em 62 páginas, Cecilia faz um necessário preâmbulo sobre o conceito de autor no cinema e depois identifica esses pontos comuns dos roteiros de Kaufman, presentes nos longas dirigidos por Spike Jonze ("Quero Ser John Malkovich", 99; "Adaptação", 02), Michel Gondry ("A Natureza Humana", 01; "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", 04) e George Clooney ("Confissões de uma Mente Perigosa", 02).
 
Na temática, são três os motes principais, as "obsessões" de Kaufman: o corpo como prisão ou fardo, o fascínio pela natureza (a essência perdida) e o desejo de ser aceito socialmente. Na estrutura, os filmes também se assemelham, com narrativas não-lineares, que quase sempre recorrem a flashbacks e amarram várias tramas e personagens.


A viagem interior de Malkovich em "Quero Ser John Malkovich"

E há também o que a autora define como o "diferencial" do roteirista: "A elaboração visual dos filmes também evoca o universo de Kaufman". As tramas do escritor pedem a ilustração de metáforas e alegorias de maneira literal, o que resulta em longas de caráter "algumas vezes fabulesco, outras absurdo (quando não fantástico)". Cecilia enumera bons exemplos de como essa opção pelo fantástico se espalha pela obra do roteirista, como na passagem abaixo:
 
"O desdobramento de Nicolas Cage como Charlie e Donald em 'Adaptação' encontra eco no de Jim Carey em 'Brilho Eterno' nos momentos em que ele fisicamente revisita o seu passado [...]. Esta duplicação da imagem de um só ator em um mesmo plano tem origem em 'Malkovich', quando o personagem que dá nome ao filme decide ingressar no portal que leva ao seu próprio corpo e mergulha num universo habitado por clones de si mesmo."
 
"O Jogo da Reinvenção" não é a primeira incursão de Cecilia Sayad pela cabeça de Charlie Kaufman. Em 2006, a professora do departamento de cinema da Universidade de Kent publicou na Inglaterra um ensaio sobre "Adaptação" na coletânea "From Camera Lens to Critical Lens" (Cambridge Scholars Press). Antes de Kent, ela deu aulas na universidade de Chicago e na NYU, onde realizou seu doutorado sobre a autoria nos cinemas de Jean-Luc Godard, Woody Allen e Eduardo Coutinho. Antes de se mudar para Nova York, trabalhou na Ilustrada, nos longínquos anos 90.

Falta a este novo livro uma análise da relação entre o Kaufman-roteirista e o Kaufman-diretor, faceta que se revelou neste ano com "Synecdoche, New York". Explica-se: até agora, o filme só estreou comercialmente nos EUA, no mês passado, depois que o ensaio já estava concluído. Para os fãs de Kaufman, a boa notícia é que "Synecdoche" está comprado no Brasil pela distribuidora Imagem. A má é que ainda não tem previsão de estréia. A seguir, o trailer do longa.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h22 PM

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Para onde vai o cinema?

Para onde vai o cinema?


Por Cássio Starling Carlos

“Invenção sem futuro.” A condenação, sofrida ainda no berço, por um de seus pais, Antoine Lumière, repercute como um mantra ao longo de toda a história do cinema. De tempos em tempos alguém reabre a questão, e tanta inquietude não há de fazer mal. Agora é a vez de o parisiense Centre Pompidou em parceria com o semanário Les Inrockuptibles alimentar o debate a partir da pergunta “Où va le cinéma?”. Para responder a esta e a outras interessantes proposições acerca do futuro ou, melhor, das mutações pelas quais passa o audiovisual será realizado um seminário nesta semana na capital francesa.

A programação de debates oferece um conjunto de boas e pertinentes questões: “Da sala ao museu: qual visibilidade para o cinema?”; “Novos suportes, novas ferramentas: quais conseqüências?”; “Filiação, transmissão, quais genealogias?”; “O autor, o cineasta, o coletivo: quem faz a obra?”; “Onde vai a crítica?”, “Crise ou renovação dos modelos narrativos?”; “Real ou ficção: Um retorno da questão?”; “A bolsa ou a vida: qual financiamento e para que filmes?”; “Criação, produção, difusão: que relações?”; “Qual história: O cinema de artista inventa seu próprio passado”; “O cinema como geografia: quais novos mundos”.

Como se vê pelos títulos, as questões são recorrentes e não expressam unicamente um ponto de vista europeu (ou francês). Em seminários recentes realizados por aqui (como os que acompanharam a exposição “Cinema Sim”, no Itaú Cultural, e os da Mostra CineBH, em Belo Horizonte, ambos no mês passado) os problemas de exibição, de prioridades da produção e do estado da crítica também alimentaram bons e necessários debates.

Em vez de mais do mesmo, o que o projeto Pompidou/LesInrocks traz de interessante são as respostas de alguns dos convidados e de ilustres entrevistados que não participarão efetivamente do programa no Beaubourg, mas gravaram vídeos com suas opiniões. Em nenhum caso se trata de reinventar a roda, mas o que eles falam testemunha um bocado o que há por trás dos filmes de cada um desses entrevistados, suas idéias de cinema.

O americano M. Night Shyamalan, por exemplo, defende uma existência do cinema em ciclos. Mostra-se entediado com a era dos remakes e acredita na vinda de um cinema menos familiar e previsível, da imaginação liberada, de novas narrativas e narradores, que fuja das seqüências que dominam as telas de cinema e as séries de TV.

Menos idealista, o coreano Bong Joon-Ho (diretor de “O Hospedeiro”) se inquieta porque vê o cinema se distanciar cada vez mais das pessoas. Para ele, a TV e a internet passaram a ocupar lugar proeminente porque correspondem ao modo mais usual de circulação das imagens hoje, no qual, em vez de filmes, temos arquivos, que baixamos e assistimos quando e como se quer.

O grande George Romero prefere ver nas facilidades econômicas dos novos suportes a possibilidade de uma reserva criativa desempenhada por jovens e independentes criadores. Mas não enxerga que o predomínio saia do controle dos poderosos, que manterão firme a oferta de blockbusters.

Os sinais mais de laconismo mais gritante são os emitidos pelo argentino Lisandro Alonso e pelo chinês Yu Lik-wai. O primeiro, diretor de “Los Muertos” e do recente “Liverpool” acha que o cinema anda um pouco morto e que é necessário um retorno aos Irmãos Lumière. O segundo, fotógrafo de Jia Zhang-ke e realizador de “Plastic City” (filmado parcialmente em São Paulo), responde com um sincero “eu não sei!”.

Quem se sai melhor é o português Miguel Gomes, diretor de “Aquele Querido Mês de Agosto”, ao fornecer, num francês tímido, a menos pronta das respostas: “O cinema vai aonde cada realizador quiser levá-lo”.

A seguir, o depoimento de George Romero (em inglês, com legendas em francês). Os outros dez depoimentos estão disponíveis no site do Pompidou.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 1h16 PM

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Bertolucci no Rio, Hirszman em SP

Bertolucci no Rio, Hirszman em SP

                                                                                     Divulgação

"A Morte", longa de estréia de Bertolucci, integra a mostra

Por Leonardo Cruz

A semana começa boa para cinéfilos no Rio e em SP.

No CCBB carioca, a mostra "A Estratégia do Sonho: o Primeiro Cinema de Bertolucci" apresenta 11 filmes do diretor italiano e ainda um documentário sobre sua obra. Como o próprio nome do ciclo deixa claro, o foco está no início da carreira do cineasta: estão entre os selecionados "A Morte", filme de estréia de 1962, e "Partner", de 1968, inspirado em romance de Dostoiévski. O festival começa nesta terça (3) e fica em cartaz no CCBB do Rio até 21/12; um pouco antes disso, no dia 17, a mostra vem para SP, no braço local do Centro Cultural Banco do Brasil, onde também fica em cartaz por três semanas.

Ainda nesta terça, no Cine Bombril, haverá a primeira exibição em São Paulo da cópia restaurada de "S.Bernardo", de Leon Hirszman. A adaptação da obra de Graciliano Ramos, recém-apresentada no Festival de Brasília, será exibida às 20h, seguida por debate luxuoso, com o ator e protagonista do filme, Othon Bastos, o diretor de fotografia do longa, Lauro Escorel, e o ensaísta e professor da USP Ismail Xavier. O crítico Sérgio Rizzo, habitué deste espaço, mediará a conversa. E é de graça!

Escrito por Leonardo Cruz às 5h00 PM

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Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

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