Divulgação Garrel, como o fotógrafo François, em "A Fronteira da Alvorada"
Por Lucas Neves
Com apenas 25 anos e 14 longas no currículo, Louis Garrel é hoje o ator-fetiche do cinema francês. O filho do cineasta Philippe Garrel chegou às telas em 1989 pelas mãos do pai, em "Les Baisers de Secours". Ganhou prestígio com "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, em 2003. E passou a ser comparado ao Antoine Doinel de Jean-Pierre Léaud por seus papéis em "Em Paris" (2006) e "Canções de Amor" (2007), dois dos cinco longas de Christophe Honoré em que atuou. A seguir, a íntegra da entrevista que Louis concedeu à Folha por telefone, devido ao lançamento de "A Fronteira da Alvorada" neste final de semana.
Em entrevista à revista "Cahiers du Cinéma", você disse sentir que ainda lhe falta traquejo para construir seus personagens ("fisicamente, ainda preciso me libertar"). Onde é mais difícil fazer isso: no teatro, com sua companhia D’Ores e Déjà, ou no cinema? Quando fiz esse comentário, estava opondo os atores americanos aos europeus. Mesmo no cinema comercial, posso me interessar por produções americanas unicamente por conta dos atores. Ainda que o filme não seja tão interessante, o trabalho dos atores em determinadas produções é autoral, de composição. No cinema europeu, raramente tenho essa impressão. Na França, não temos escolas de atuação para o cinema. Quando aprendemos a atuar, é para interpretar a tradição, o repertório teatral. Talvez isso esteja ligado ao fato de [o diretor] Robert Bresson ter representado um grande momento para o cinema francês trabalhando essencialmente com amadores. Por isso, muitos diretores pensam que os atores não são indispensáveis para se fazer um bom filme.
Com tantas participações em filmes nos últimos anos, sobra tempo para se dedicar à companhia teatral? O que é bom é que ela é composta de pessoas muito próximas a mim, amigos que vejo o tempo todo. Houve um trabalho do qual não pude participar porque estava envolvido em outros projetos, mas voltaremos a trabalhar juntos. Queremos seguir a trilha de Ariane Mnouchkine [diretora do grupo Théâtre du Soleil]. Ela cria um tema com sua trupe, que improvisa em cima disso. São criações coletivas, que não partem de textos que já existem.
O que há de comum entre você e o fotógrafo François de "A Fronteira da Alvorada"? Você também se esquiva de um estilo de vida burguês? François é um hipersensível, como eu. Para apreciar este filme, pelo que percebi, é preciso ter essa sensibilidade de ouro. Quanto ao casamento burguês, claro, é algo de que sempre temos medo aos 20 anos: o dia em que seremos engolidos pela máquina social. Li um livro bonito do sueco Stig Dagerman sobre isso, "Notre Besoin de Consolation Est Impossible à Rassasier" [nossa necessidade de consolação é insaciável].
Como filmar com seu pai [Philippe Garrel, diretor de "A Fronteira..." e "Amantes Constantes"] é diferente de fazê-lo com outros diretores? Acho meu pai um gênio. Ele acessa o cinema a um só tempo como pintor e poeta. É muito emocionante, belo e inspirador ver um poeta pintor que faz filmes. Já Christophe Honoré [com quem rodou cinco filmes até agora, dentre os quais "Em Paris" e "Canções de Amor"] é impulsionado pela literatura.
Você tem interpretado bon vivants que esquecem os males do coração embarcando em novas paixões. Soa como um Antoine Doinel [personagem de filmes de Truffaut como "Beijos Proibidos" e "Amor em Fuga"] dos anos 2000, não? Enquanto admirador confesso de Jean-Pierre Léaud [intérprete de Doinel], como vê essa comparação? Sou mais que um admirador de Jean-Pierre Léaud, sou um aficionado. Deveria fazer um período de desintoxicação em Léaud, porque sou dependente. A questão é que, se puder dar às pessoas a gana de viver a vida como uma aventura como Doinel me deu, ficarei feliz.
Dentre seus dez filmes mais recentes, só três não foram dirigidos por Honoré ou seu pai, Philippe. Quais são seus critérios para aceitar um papel? O que pensa sobre o cinema francês atual? Não tenho um método específico [para escolher papéis]. Não tenho uma idéia concreta sobre o cinema francês, mas é fato que tudo é condicionado pelo que vivemos no país. Como todos na França estão um pouco entediados, acho que o cinema reflete isso. Neste momento, ele é encarado como entretenimento, o mote da hora é divertir as pessoas. Mas não é por ser comercial que um filme vai ser ruim. Não há regras. É preciso que se sinta uma coisa real que o diretor queira contar, para além de a história ser boa ou ruim.
Você atuou em dois filmes que se passam durante o Maio de 68 ["Os Sonhadores" e "Amantes Constantes"]. Recentemente, disse que, em se tratando de imigração, o governo francês "está em estado de psicose coletiva. Qual é a sua relação com a política e quais são suas impressões sobre a França de Nicolas Sarkozy? Acho muito perverso da parte de Nicolas Sarkozy se valer do problema da imigração para chegar ao poder. Não é algo que se possa resolver com dez frases. É eterno esse desejo de ver alhures, de se deslocar. Mas ele encara isso como um problema, para o qual haveria basicamente uma solução: pôr para fora quem vem comer o pão dos outros. Que hoje na França se vá perseguir pessoas nas escolas (nossas crianças e seus pais) é muito perverso e dá ao país uma tensão.
E como o cinema deve tratar essas tensões sociais? Pode haver cinema militante, mas não acho que seja uma tarefa do cinema falar disso. Prefiro ouvir sociólogos, antropólogos e historiadores sobre essa questão, para que nos restituam a complexidade dessa história de migrações, movimentos de populações de um país a outro. Não cabe ao cinema resolver essas questões. Quando fazemos esse tipo de filme, fica meio chato. Não podemos querer que se faça exclusivamente cinema social.
Mas Abdellatif Kechiche (diretor de "O Segredo do Grão", tunisiano radicado na França) não é um exemplo de que se pode falar de questões sociais sem ser enfadonho? É verdade, ele fez algo magnífico. "L’Esquive" [longa anterior de Kechiche] nos informou que gírias de certos grupos sociais franceses têm tantas sutilezas quanto a língua oficial. Podem ser sensuais, falar de amizade, ser complexas. Isso foi uma descoberta genial. Um filme deve sempre empreender uma busca; se se fizer uma descoberta como essa que Kechiche fez, já terá sido algo enorme.
"Ma Mère", de Christophe Honoré, e "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, transformaram você em sex-symbol do novo cinema francês. Esse rótulo o incomoda? Tenho uma relação particular com o cinema: gosto de ser erotizado por um filme. Não tenho amarras artísticas. Fico feliz em vir participar dessa erotização. É estimulante ser excitado por um filme, pelos objetos de desejo de atrizes e atores.
Você disse à "Cahiers" que gostaria de ir trabalhar nos EUA. Mas em Hollywood, fala-se muito de si próprio, de sua intimidade, coisa que você não gosta de fazer em entrevistas... Se fosse para trabalhar com James Gray [de "Os Donos da Noite"], não ligaria em falar quanto calço. Com que outros diretores americanos gostaria de trabalhar? Wes Anderson e Judd Apatow e sua trupe. Você estreou na direção neste ano com o curta-metragem "Mes Copains" [meus camaradas]. Tem vontade de dirigir mais? Sim, quero fazer mais curtas com minha companhia teatral.
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta as principais estréias no circuito paulistano e antecipa o que vem por aí nos próximos meses. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Fotos Divulgação Nicolas Cage como o Kaufman em crise criativa, em "Adaptação"
Por Leonardo Cruz
Os roteiros de Charlie Kaufman provocam um curto-circuito no conceito de autor no cinema, normalmente mais ligado à figura do diretor. Suas obras apresentam elementos temáticos e visuais que as unem, tornando Kaufman uma espécie rara em seu meio, o roteirista-autor. Essa é a tese central de Cecilia Sayad no livro "O Jogo da Reinvenção - Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema", ensaio curtinho e muito bem escrito, recém-lançado pela editora Alameda.
Em 62 páginas, Cecilia faz um necessário preâmbulo sobre o conceito de autor no cinema e depois identifica esses pontos comuns dos roteiros de Kaufman, presentes nos longas dirigidos por Spike Jonze ("Quero Ser John Malkovich", 99; "Adaptação", 02), Michel Gondry ("A Natureza Humana", 01; "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", 04) e George Clooney ("Confissões de uma Mente Perigosa", 02).
Na temática, são três os motes principais, as "obsessões" de Kaufman: o corpo como prisão ou fardo, o fascínio pela natureza (a essência perdida) e o desejo de ser aceito socialmente. Na estrutura, os filmes também se assemelham, com narrativas não-lineares, que quase sempre recorrem a flashbacks e amarram várias tramas e personagens.
A viagem interior de Malkovich em "Quero Ser John Malkovich"
E há também o que a autora define como o "diferencial" do roteirista: "A elaboração visual dos filmes também evoca o universo de Kaufman". As tramas do escritor pedem a ilustração de metáforas e alegorias de maneira literal, o que resulta em longas de caráter "algumas vezes fabulesco, outras absurdo (quando não fantástico)". Cecilia enumera bons exemplos de como essa opção pelo fantástico se espalha pela obra do roteirista, como na passagem abaixo:
"O desdobramento de Nicolas Cage como Charlie e Donald em 'Adaptação' encontra eco no de Jim Carey em 'Brilho Eterno' nos momentos em que ele fisicamente revisita o seu passado [...]. Esta duplicação da imagem de um só ator em um mesmo plano tem origem em 'Malkovich', quando o personagem que dá nome ao filme decide ingressar no portal que leva ao seu próprio corpo e mergulha num universo habitado por clones de si mesmo."
"O Jogo da Reinvenção" não é a primeira incursão de Cecilia Sayad pela cabeça de Charlie Kaufman. Em 2006, a professora do departamento de cinema da Universidade de Kent publicou na Inglaterra um ensaio sobre "Adaptação" na coletânea "From Camera Lens to Critical Lens" (Cambridge Scholars Press). Antes de Kent, ela deu aulas na universidade de Chicago e na NYU, onde realizou seu doutorado sobre a autoria nos cinemas de Jean-Luc Godard, Woody Allen e Eduardo Coutinho. Antes de se mudar para Nova York, trabalhou na Ilustrada, nos longínquos anos 90.
Falta a este novo livro uma análise da relação entre o Kaufman-roteirista e o Kaufman-diretor, faceta que se revelou neste ano com "Synecdoche, New York". Explica-se: até agora, o filme só estreou comercialmente nos EUA, no mês passado, depois que o ensaio já estava concluído. Para os fãs de Kaufman, a boa notícia é que "Synecdoche" está comprado no Brasil pela distribuidora Imagem. A má é que ainda não tem previsão de estréia. A seguir, o trailer do longa.
“Invenção sem futuro.” A condenação, sofrida ainda no berço, por um de seus pais, Antoine Lumière, repercute como um mantra ao longo de toda a história do cinema. De tempos em tempos alguém reabre a questão, e tanta inquietude não há de fazer mal. Agora é a vez de o parisiense Centre Pompidou em parceria com o semanário Les Inrockuptibles alimentar o debate a partir da pergunta “Où va le cinéma?”. Para responder a esta e a outras interessantes proposições acerca do futuro ou, melhor, das mutações pelas quais passa o audiovisual será realizado um seminário nesta semana na capital francesa.
A programação de debates oferece um conjunto de boas e pertinentes questões: “Da sala ao museu: qual visibilidade para o cinema?”; “Novos suportes, novas ferramentas: quais conseqüências?”; “Filiação, transmissão, quais genealogias?”; “O autor, o cineasta, o coletivo: quem faz a obra?”; “Onde vai a crítica?”, “Crise ou renovação dos modelos narrativos?”; “Real ou ficção: Um retorno da questão?”; “A bolsa ou a vida: qual financiamento e para que filmes?”; “Criação, produção, difusão: que relações?”; “Qual história: O cinema de artista inventa seu próprio passado”; “O cinema como geografia: quais novos mundos”.
Como se vê pelos títulos, as questões são recorrentes e não expressam unicamente um ponto de vista europeu (ou francês). Em seminários recentes realizados por aqui (como os que acompanharam a exposição “Cinema Sim”, no Itaú Cultural, e os da Mostra CineBH, em Belo Horizonte, ambos no mês passado) os problemas de exibição, de prioridades da produção e do estado da crítica também alimentaram bons e necessários debates.
Em vez de mais do mesmo, o que o projeto Pompidou/LesInrocks traz de interessante são as respostas de alguns dos convidados e de ilustres entrevistados que não participarão efetivamente do programa no Beaubourg, mas gravaram vídeos com suas opiniões. Em nenhum caso se trata de reinventar a roda, mas o que eles falam testemunha um bocado o que há por trás dos filmes de cada um desses entrevistados, suas idéias de cinema.
O americano M. Night Shyamalan, por exemplo, defende uma existência do cinema em ciclos. Mostra-se entediado com a era dos remakes e acredita na vinda de um cinema menos familiar e previsível, da imaginação liberada, de novas narrativas e narradores, que fuja das seqüências que dominam as telas de cinema e as séries de TV.
Menos idealista, o coreano Bong Joon-Ho (diretor de “O Hospedeiro”) se inquieta porque vê o cinema se distanciar cada vez mais das pessoas. Para ele, a TV e a internet passaram a ocupar lugar proeminente porque correspondem ao modo mais usual de circulação das imagens hoje, no qual, em vez de filmes, temos arquivos, que baixamos e assistimos quando e como se quer.
O grande George Romero prefere ver nas facilidades econômicas dos novos suportes a possibilidade de uma reserva criativa desempenhada por jovens e independentes criadores. Mas não enxerga que o predomínio saia do controle dos poderosos, que manterão firme a oferta de blockbusters.
Os sinais mais de laconismo mais gritante são os emitidos pelo argentino Lisandro Alonso e pelo chinês Yu Lik-wai. O primeiro, diretor de “Los Muertos” e do recente “Liverpool” acha que o cinema anda um pouco morto e que é necessário um retorno aos Irmãos Lumière. O segundo, fotógrafo de Jia Zhang-ke e realizador de “Plastic City” (filmado parcialmente em São Paulo), responde com um sincero “eu não sei!”.
Quem se sai melhor é o português Miguel Gomes, diretor de “Aquele Querido Mês de Agosto”, ao fornecer, num francês tímido, a menos pronta das respostas: “O cinema vai aonde cada realizador quiser levá-lo”.
A seguir, o depoimento de George Romero (em inglês, com legendas em francês). Os outros dez depoimentos estão disponíveis no site do Pompidou.
Divulgação "A Morte", longa de estréia de Bertolucci, integra a mostra
Por Leonardo Cruz
A semana começa boa para cinéfilos no Rio e em SP.
No CCBB carioca, a mostra "A Estratégia do Sonho: o Primeiro Cinema de Bertolucci" apresenta 11 filmes do diretor italiano e ainda um documentário sobre sua obra. Como o próprio nome do ciclo deixa claro, o foco está no início da carreira do cineasta: estão entre os selecionados "A Morte", filme de estréia de 1962, e "Partner", de 1968, inspirado em romance de Dostoiévski. O festival começa nesta terça (3) e fica em cartaz no CCBB do Rio até 21/12; um pouco antes disso, no dia 17, a mostra vem para SP, no braço local do Centro Cultural Banco do Brasil, onde também fica em cartaz por três semanas.
Ainda nesta terça, no Cine Bombril, haverá a primeira exibição em São Paulo da cópia restaurada de "S.Bernardo", de Leon Hirszman. A adaptação da obra de Graciliano Ramos, recém-apresentada no Festival de Brasília, será exibida às 20h, seguida por debate luxuoso, com o ator e protagonista do filme, Othon Bastos, o diretor de fotografia do longa, Lauro Escorel, e o ensaísta e professor da USP Ismail Xavier. O crítico Sérgio Rizzo, habitué deste espaço, mediará a conversa. E é de graça!
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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