Ilustrada no Cinema

 

 

Gondry ensina: primeiro “ação!”, depois “rec”

Gondry ensina: primeiro “ação!”, depois “rec”

 
Michel Gondry (centro) orienta Mos Def e Jack Black
caracterizados como os personagens de "Conduzindo Miss Daisy"

Por Sérgio Rizzo

Um dos mais badalados realizadores de vídeos musicais e peças publicitárias de sua geração, o francês Michel Gondry, 45, já assinou quatro longas de ficção, mas apenas o segundo, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004), escrito por ele, Pierre Bismuth e Charlie Kaufman (roteirista de “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”), foi lançado aqui nos cinemas. O primeiro, “A Natureza Quase Humana” (2001), também escrito por Kaufman, saiu direto em DVD.

A estatística vai melhorar um pouco a partir de 12 de dezembro, quando a Europa planeja lançar, com número reduzido de cópias, o mais recente deles, “Rebobine, por Favor” (2008). Mas, já na próxima terça-feira, dia 2, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo abrirá ao público “Rebobine, por Favor - A Exposição”, que permanecerá em cartaz até 11 de janeiro.

Hoje (sexta-feira) pela manhã, a imprensa visitou o espaço e conversou com Gondry, que participará amanhã de um bate-papo co-promovido pela Cinnamon Label — responsável pela vinda dele e da exposição ao Brasil — e pela Folha, logo depois da exibição do filme. Na próxima segunda-feira, ele fará sessão de autógrafos de seu livro “You’ll Like This Film Because You’re in It: The Be Kind Rewind Protocol” (Você gostará deste filme porque está nele: o protocolo “Rebobine, por Favor”) no restaurante Paris 6 (rua Haddock Lobo, 1.240), das 11h às 13h.

Gondry contou que havia recebido um convite da galeria Deitch, de Nova York, para montar uma exposição em torno do que desejasse. Optou então por retomar a idéia-chave de “Rebobine, por Favor” — em que dois amigos (Jack Black e Mos Def) realizam versões caseiras de filmes como “Os Caça-Fantasmas” (1984) e “Robocop” (1987) — para montar cenários em que os visitantes fossem capazes de realizar curtas-metragens, de acordo com certas regras e depois de um rápido workshop.


A dupla refazendo cena de "Os Caça-Fantasmas"

Não se tratava, explicou Gondry, de “ensinar” a ninguém a produção audiovisual. O objetivo era possibilitar que desconhecidos vivessem juntos uma experiência lúdica. “Hoje, tudo conspira para que as pessoas fiquem em casa. Gosto do conceito de levá-las para fora”, disse. “A idéia também não é pôr esses filmes caseiros no YouTube. Fora de contexto, eles perdem o sentido original.”

Os interessados em participar da experiência em São Paulo devem se inscrever pelo site da exposição. Gondry sugeriu que a organização do evento seja capaz, como ocorreu em Nova York, de incluir em cada grupo visitantes que estejam passando naquele momento pelo espaço, para aumentar a “mistura”.

Os parâmetros incluem uma hora para realização de toda a filmagem e edição feita na própria câmera. Cada tomada será definitiva e a eventual trilha sonora precisará ser executada no momento da captação. Gondry lembra que o operador de câmera deve primeiro gritar “ação!” e só depois apertar a tecla “rec”. Se fizer o inverso, observa o cineasta, o grito será ouvido no filme...

O cardápio de cenários à disposição de cada equipe reúne um bar ou mercearia, um Fusca para tomadas externas e outro para internas, o interior de uma cabine de trem, uma cozinha ou sala, um quarto, uma locação de floresta e outra de “periferia” (como ela é descrita no cartaz indicativo, com lixo e destroços), um muro com pichações e dois aparelhos com miniaturas (um de carros e o outro de um trem) para simular movimentação.

O espaço inclui uma réplica da videolocadora de “Rebobine, por Favor”, quatro figurinos (incluindo a armadura de “Robocop” e o vestido de “Conduzindo Miss Daisy”, ambos usados por Black) e uma sala de exibição para que os grupos assistam a seus filmes, além de um brechó com roupas e adereços.

Para assinantes da Folha ou do UOL, um pouco mais sobre Gondry: entrevistas de Adriana Ferreira Silva e de Marco Aurélio Canônico com o cineasta; artigo de Marcelo Rezende, autor de “Ciência do Sonho - A Imaginação sem Fim do Diretor Michel Gondry”, resenhado por mim; críticas de Inácio Araujo, Bruno Yutaka Saito e Sérgio Davila sobre “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”; e reportagem de Saito sobre a retrospectiva dedicada a Gondry pelo Resfest 2003.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h14 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

52 mil fragmentos de Hitchcock

52 mil fragmentos de Hitchcock

                                                                           Fotos Reprodução


A cena-chave de "O Homem que Sabia Demais", na
versão original de 1934 e na refilmagem de 1956 

Por Leonardo Cruz

Talvez você já conheça o "1000 Frames de Hitchcock". Eu nunca tinha visto. Trombei nele hoje, num link no site da "Cahiers du Cinéma". É fascinante, prato cheio para quem estuda cinema. Apaixonado pelos filmes de Alfred Hitchcock, o inglês Dave Pattern criou um site com mil frames de cada um dos 52 filmes do cineasta britânico, de "O Jardim dos Prazeres" (1925) a "Trama Macabra" (1976).

Se fossem exibidos na velocidade normal de um filme, a 24 quadros por segundo, Pattern teria criado clips de pouco mais de 41 segundos de cada longa. Mas é evidente que a idéia não é essa, seria impossível resumir qualquer obra cinematográfica assim. Mas, vistas uma a uma, as mil imagens para cada filme selecionadas por Pattern permitem analisar com cuidado o estilo do cineasta, seus enquadramentos, a direção de arte. E acompanhar a evolução visual de sua obra.

Outro exercício interessante é comparar os fragmentos das produções inglesas do diretor e suas refilmagens hollywoodianas, como as duas imagens que ilustram este post, das duas versões de "O Homem que Sabia Demais".

Cada filme também tem seu padrão de cor analisado de duas formas: frame a frame (como neste de "Os Pássaros") ou o pacote completo de fotogramas, sobrepostos na vertical, como neste caso de "Um Corpo que Cai", que se revela um filme em que o vermelho se sobressai.

Depois de compilar os 52 longas de Hitchcock, Dave Pattern criou ainda, em seu blog pessoal, interessantes seleções de imagens por temas, como beijos, facas, pernas femininas e jornais. É nesse site que Pattern deixa mais clara ainda sua fixação por Hitchcock, reunindo todo tipo de notícia ligada ao diretor. Um exemplo? Você sabia que a fabricante de brinquedos Mattel lançou nos EUA uma Barbie inspirada no personagem de Tippi Hedren em "Os Pássaros"? Olha só:


Escrito por Leonardo Cruz às 10h11 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Verdades e mentiras com Kiko Goifman

Verdades e mentiras com Kiko Goifman

                                                             Cris Bierrenbach/Divulgação

Medo de lesmas, uma das fobias exploradas por Kiko Goifman

Por Sérgio Rizzo, de Brasília

Na mesma medida em que tende a ser pouco tolerante com manifestações de conformismo e de academicismo, a atmosfera de festivais costuma encarar com franco interesse trabalhos de pesquisa. Seu caráter investigativo, sem a habitual camisa-de-força de gêneros e formatos, os transforma em projetos mais arriscados e em estimulantes objetos de discussão, que fogem a tentativas simplistas de aprisioná-los.

É improvável, portanto, que existisse lugar mais apropriado para o lançamento de um longa como “FilmeFobia”, cuja experimentação põe em crise as categorias e formas que pautam tradicionalmente a apreciação da produção audiovisual, do que a mostra competitiva do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que o exibiu na noite de ontem (quinta), no Cine Brasília, e o debateu nesta sexta, no Hotel Nacional.

A trajetória do mineiro Kiko Goifman (“33”) vai se configurando de modo coerente em torno de princípios de risco, como a auto-exposição, a conseqüente exploração da própria imagem e a idéia de que o processo de realização, além de contemplar a possibilidade de incorporar dados imprevisíveis na fase de planejamento e incontroláveis no set de filmagem, deve ser transparente para o espectador (ou ao menos lidar no discurso com essa busca de transparência, alimentando dúvidas sobre verdades e mentiras).

“FilmeFobia” é um jogo de diferentes camadas que se apresenta, em seu hibridismo, mais ou menos (assim mesmo, com esse grau de incerteza) como um making-of (registro documental, portanto) de um documentário (idem, obviamente) em que o cineasta Jean-Claude (personagem interpretado pelo professor, ensaísta e cineasta Jean-Claude Bernardet) expõe pessoas fóbicas aos animais, objetos e situações relacionados a suas fobias – medo de ratos, de sangue ou de ser enterrado vivo, por exemplo.

Esse filme-dentro-do-filme, entretanto, é uma ficção construída pelos realizadores (Goifman assina o roteiro com Hilton Lacerda, roteirista de “Baile Perfumado” e co-diretor de “Cartola”). Logo, estamos diante de um filme de ficção que finge ser um documentário? A situação é um pouco mais fronteiriça, pois os métodos de encenação (enriquecidos pela contribuição de Aloysio Raulino na fotografia, de Lívio Tragtenberg no desenho de som e de Cris Bierrenbach na direção de arte) envolveram códigos muito próximos do documentário, como o uso de fóbicos em diversos papéis e de uma “agenda secreta” que escondia deles algumas coordenadas das seqüências que protagonizariam.

Há dimensões do jogo que só estão ao alcance de quem tenha informações prévias sobre os envolvidos e consiga assim divisar o grau de embaralhamento entre ficção e documentário (categorias que, no debate, Bernardet sugeriu que deixassem de ser usadas por não corresponderem mais ao atual cenário da produção audiovisual). Por outro lado, diversos elementos – como a divertida participação de José Mojica Marins no papel de José Mojica Marins, prestando consultoria especializadíssima ao personagem Jean-Claude – permitem que até mesmo um completo desavisado observe a natureza cambiante e incapturável do filme.

(O jornalista Sérgio Rizzo viaja a convite da organização do festival.)

Escrito por Sérgio Rizzo às 8h48 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Uma conversa com Catherine Deneuve

Uma conversa com Catherine Deneuve

                                                                            Fotos Divulgação

Catherine Deneuve, como Junon, em "Um Conto de Natal"

Por Leonardo Cruz

Ela: Isso vai ser sério?
Ele: É para a "Film Comment". É uma espécie de "Cahiers du Cinéma" americana.
Ela: Eu não leio a "Cahiers". Compro, mas não leio. Essas revistas são para pessoas que realmente refletem sobre cinema, que pensam cinema. Não são feitas para pessoas como eu. Na verdade, eu não leio muito sobre filmes.
Ele: Eu leio a "Cahiers" desde que tinha 16 anos.
Ela: Para mim, há duas coisas: ação e reflexão. E eu acho que sou mais da ação. Eu leio devagar, então prefiro gastar esse tempo assistindo a um filme.
 
Esse diálogo insólito, que caberia muito bem em um filme dos anos 70 de Woody Allen, é o início da entrevista de capa da revista americana "Film Comment", edição novembro/dezembro. Ela é Catherine Deneuve, 65, mais de cem filmes na carreira. Ele é Arnaud Desplechin, 48, oito longas no currículo. A conversa entre a grande atriz do cinema francês e um dos mais talentosos diretores em atividade percorre páginas e páginas, e a "Film Comment" fez a gentileza de colocar tudo na internet. A íntegra, em inglês, está disponível no site da revista. Mas este blog adianta o serviço e conta a seguir alguns trechos da conversa.

1. A iniciação
Deneuve não ia muito ao cinema na infância, não era um programa regular da família, apesar de seus pais serem atores e de suas irmãs, Françoise e Sylvie, terem atuado em filmes antes dela. Um dos filmes que mais a impressionou na adolescência foi "Ivan, o Terrível" (Eisenstein, 1944). Viu o longa aos 15 anos, levada pelo namoradinho comunista, no cine Arlequin, então administrado pelo Partido Comunista Francês. Era sua iniciação cinéfila.

2. Atores ou diretores?
"Estranhamente, atores nunca me atraíram muito, com a exceção de Marilyn Monroe. Era sempre o filme em primeiro lugar. Como adolescente, não era tiete", conta a atriz, que diz que só "percebeu que o cinema poderia ser outra coisa" quando conheceu Jacques Demy, que a queria para "Os Guarda-Chuvas do Amor" (1964).

3. "Os Guarda-Chuvas do Amor" (1964)
Além de estrelar o filme, Deneuve esteve próxima de Demy durante todo o processo. Acompanhou as gravações das músicas, trabalhou na trilha sonora e viu o diretor adiar as filmagens quando ela engravidou. O longa foi rodado dois meses após o parto. "Algo mudou verdadeiramente quando trabalhei com Jacques. Algo profundo aconteceu na relação que você pode ter com um filme."

4. "Repulsa ao Sexo" (1965)
Ela, o diretor Roman Polanki e o roteirista Gérard Brach eram os únicos da equipe que falavam francês. Era um filme inglês de baixo orçamento, os produtores estavam mais acostumados a realizar pornôs. "Me senti muito, muito próxima do Roman. É o filme que sinto que ajudei a fazer."


Séverine, a "estranha heroína" de "A Bela da Tarde"

5. "A Bela da Tarde" (1967)
O filme de Buñuel abriu todas as portas para a atriz, mas ela prefere seu personagem em "Tristana" (1970). "'A Bela da Tarde' é um filme que ficou maior com o tempo. Foi bem quando lançado, mas só mais tarde se tornou um filme mítico, quase cult. E aquele personagem se tornou uma espécie de símbolo, uma estranha heroína. E, porque a interpretei, pessoas fizeram deduções a meu respeito."

6. Técnica de interpretação
Ao longo da entrevista, Deneuve conta que sua capacidade de interpretar um papel depende muito mais da confiança no diretor do que em sua experiência e que é incapaz de trabalhar sem um cineasta que a conduza. "Se percebo que o diretor e eu não temos o mesmo gosto, me escondo em minha concha." Ela diz ainda que é capaz de se concentrar muito rapidamente nas filmagens, mas que fica esgotada. "Fico num estado! É como um transe."

7. Hitchcock e Truffaut
A atriz faria um filme com Hitchcock, uma história de espionagem, ao estilo de "Cortina Rasgada", que ainda estava na sinopse. "Almocei com ele em Paris, e ele morreu alguns meses depois." Deneuve observa que Hitchcock e Truffaut tinham um jeito astuto de saber que algumas coisas precisam ser filmadas de um certo jeito. "François aprendeu isso com Hitchcock, de observá-lo e de fazer aquele livro com ele."

8. Filmes favoritos
De Godard, "O Demônio das Onze Horas" (1965). "Quando ouço o que se escreve sobre seus filmes recentes, acho que são absolutamente maravilhosos. Mas quando os assisto, não consigo me envolver com eles." De Scorsese, "Touro Indomável" (1980). "É muito por causa de De Niro. Assistir a um ator se transformar para um filme, de vê-lo ser filmado assim por seu diretor..."

O diálogo entre Catherine Deneuve e Arnaud Desplechin não se limita às páginas da "Film Comment". A atriz já foi dirigida pelo cineasta duas vezes, em dois grandes filmes. Primeiro, em "Reis e Rainha" (2004). Depois, no recente "Um Conto de Natal", que deve estrear no Brasil, voilà, em 25 de dezembro. A seguir, o trailer do conto natalino.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h01 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Capitalismo selvagem

Capitalismo selvagem

                                                                                     Divulgação

Othon Bastos, em "S. Bernardo", filme de Leon Hirszman
que abriu ontem à noite o 41º Festival de Brasília

Por Sérgio Rizzo, de Brasília

Da “santíssima trindade” da prosa moderna na literatura brasileira, Graciliano Ramos (1892-1953) teve proporcionalmente mais sorte no cinema do que Machado de Assis (1839-1908) e João Guimarães Rosa (1908-1967), com ao menos três longas notáveis baseados em sua obra: “Vidas Secas” (1964) e “Memórias do Cárcere” (1984), ambos de Nelson Pereira dos Santos, que será homenageado na próxima sexta-feira pelo 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e “S. Bernardo” (1973), de Leon Hirszman (1937-1987), cuja versão restaurada abriu ontem à noite o evento, no Teatro Nacional Claudio Santoro.

Escrito entre 1932 e 1934, em Maceió (AL), o segundo romance de Graciliano – que, em sua 87ª edição, recém-publicada pela Record, recupera as últimas correções do escritor, feitas para a 3ª. edição, em projeto supervisionado pelo professor Wander Melo Miranda, da UFMG – oferece várias portas de entrada para a apreciação do leitor, proporcionadas pelo impactante relato em primeira pessoa do fazendeiro Paulo Honório, 50 anos. Uma das mais atuais conduz à exposição dos mecanismos brutais de transformação do homem em mercadoria pelo capitalismo de feição rural, baseado na propriedade e exploração da terra.

Analisado por essa perspectiva, “S. Bernardo” tem grandes semelhanças com um romance norte-americano do mesmo período, “Oil!” (1927), de Upton Sinclair, cujo protagonista – um magnata do petróleo, casca grossa, habilidoso ao tecer a qualquer custo as teias que facilitam seu caminho, a lei e os outros que se danem – é alma gêmea de Paulo Honório. Por tabela, e de acordo com a mesma leitura, o filme de Hirszman guarda algum parentesco com “Sangue Negro” (2007), que Paul Thomas Anderson extraiu do romance de Sinclair, com Daniel Day-Lewis no papel principal.

Embora a auto-descrição física de Paulo Honório como um “monstro” não corresponda aos traços de Othon Bastos, o ator encontrou um registro admirável para recriar o solitário e angustiado personagem de Graciliano. “O que eu quero é o que está dentro de você”, teria dito Hirszman ao convidá-lo (“convocá-lo” talvez fosse mais apropriado) para o papel, de acordo com relato emocionado de Othon hoje pela manhã, no debate em torno de “S. Bernardo” e de seu lançamento em DVD, junto com o documentário “Maioria Absoluta” (1964), na segunda caixa com a obra restaurada do cineasta (a primeira, também lançada pela Videofilmes, inclui “Eles Não Usam Black-Tie”).

De acordo com Othon, a distância histórica permitiu que a platéia de ontem à noite risse de algumas frases impagáveis de Paulo Honório – o que não ocorria, segundo ele, em 1973, quando a ditadura levava muitos espectadores a se concentrar na busca de eventuais sentidos duplos do que os personagens diziam. O diretor de fotografia Lauro Escorel, com apenas 21 anos quando o filme foi rodado, contou no encontro como as dificuldades de realização (escassez de negativo e dificuldade de movimentação de equipamentos nas locações, por exemplo) estavam associadas ao tratamento estético pautado por Hirszman – com base em planos-seqüência e enquadramentos estáticos, boa parte em planos abertos, atores a certa distância – e ao método de trabalho, com ensaios exaustivos antes da filmagem (muitas vezes única) de cada cena.

O cineasta Vladimir Carvalho lembrou-se com afeto do amigo, “marxista quase fanático” e “engenheiro como (Sergei) Eisenstein”, que fazia anotações nos roteiros “como se fossem fórmulas”. Carvalho disse que se incomoda, hoje, ao observar que “a linguagem no cinema brasileiro se tornou um fetiche” para as novas gerações, e não “um instrumento aliado a um conteúdo”, como ocorria, na sua análise, com a “simplicidade” de Hirszman. “Ele deixou uma lacuna que vou te contar”, lamentou.

Mediado pela jornalista Maria do Rosário Caetano, o debate teve ainda a participação do ator Nildo Parente (que interpreta Padilha, o coitado de quem Paulo Honório compra a fazenda depois de um plano ardiloso, mais longo no romance do que no filme), do cineasta Adalberto Muller e, como representantes da equipe que trabalha na restauração da obra completa do cineasta, João Pedro e Maria Hirszman, seus filhos, e o professor Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura de São Paulo.

Em 2 de dezembro, a Folha e o Espaço Unibanco promoverão em São Paulo uma exibição de “S. Bernardo”, seguida de debate. Será uma nova oportunidade de apreciar em tela grande seu impressionante rigor estético, que a tela pequena tende a empobrecer. Quem estiver disposto a ler ou reler o romance de Graciliano antes de assistir ao filme perceberá como Hirszman foi ao mesmo tempo fiel ao verbo e inventivo na busca de soluções próprias para caracterizar personagens, seus dramas e o meio. Voltaremos a isso.

PS - Antigamente, as pessoas iam ao cinema para se desligar do mundo exterior à sala. Hoje, têm a compulsão de se manter ligado a ele, como demonstraram as telas luminosas de telefones que pipocaram na platéia durante toda a exibição de “S. Bernardo” na abertura do Festival de Brasília. Para compreender um pouco melhor a atual dispersão do espectador de cinema, recomenda-se a leitura de reportagem do “New York Times” que descreve pesquisa do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts sobre a busca por um modo de contar histórias para quem não quer (ou não sabe mais) dedicar atenção a elas.

Se não quer, por que vai ao cinema encher a paciência dos outros?

(O jornalista Sérgio Rizzo viaja a convite da organização do festival.)

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h02 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

O cinema deita no divã

O cinema deita no divã

                                                                                          Divulgação

O filósofo Slavoj Zizek: o cinema sob a ótica da perversão

Por Cássio Starling Carlos

Quando psicanalistas e especialistas de outras áreas olham para o cinema, o resultado nem sempre é relevante (para os filmes). O que acontece com certa freqüência é os filmes virarem exemplos de caso ou, pior, personagens e situações serem tomados como pessoas.
A abordagem que o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek propõe de filmes em seus estudos balança entre as duas perspectivas, com alcance que pode interessar muito ou pouco àqueles que procuram meios de ampliar as significações de imagens e relatos.

Essa duplicidade persegue o documentário “The Pervert’s Guide to Cinema”, dirigido pela britânica Sophie Fiennes, feito em 2006, que dá a Zizek espaço para abordar, emular, desmontar e remontar cenas, personagens e situações do cinema clássico e contemporâneo ao longo de duas horas e meia.

Para quem estiver em São Paulo, uma oportunidade única e rara de ver o filme acontece nesta sexta, às 19h30, quando será exibido no ciclo “O Invisível e o Invisível”, em cartaz no Itaú Cultural.

Para a maioria dos espectadores, o efeito escapista oferecido pelo cinema funciona como outro modo de ver, sentir, desejar e viver situações. Não é à toa que muita gente compara filmes e sonhos ou descreve seus próprios sonhos como se fosse um filme com exibição única e exclusiva. Ou que Hollywood tenha recebido o apelido “indústria dos sonhos”.

Mas a associação do cinema com o inconsciente é de outra ordem, aponta Zizek em um dos tantos paradoxos que ele tece no documentário. “O cinema é a arte pervertida por excelência. Não te dá aquilo que deseja. Te diz como desejar.” Desse modo, Zizek adota o cinema como pedra de toque de sua tese, que se inspira nas teorias de Jacques Lacan, que enxerga na ficção a base de nossa realidade. Aqui ele usa as pílulas azul e vermelha de “Matrix” para avançar no campo teórico argumentando que, “se tirarmos da nossa realidade as ficções simbólicas que a regulam, perdemos a realidade em si mesma”.

Se tudo pode parecer obscuro demais para um simples amador de cinema, vale dizer que ao longo do documentário Zizek se dedica também a tecer saborosíssimas análises de cenas, misturando o arsenal psicanalítico ao mais explícito prazer de cinéfilo.

Diante de “Veludo Azul”, “Vertigo” e “Psicose”, as intuições propostas por Zizek escapam dos nossos lugares-comuns de críticos e espectadores, oferecendo significados insuspeitos sobre a voz, o ponto de vista, o corte e a estrutura narrativa do cinema. Em certos momentos, pode parecer uma aula séria, mas, como o professor tem aura de cientista maluco, a gente fica à vontade e dá boas risadas.

A seguir, trechos de "The Pervert's Guide to Cinema".


Escrito por Leonardo Cruz às 12h30 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Obama também terá seu "Entreatos"

Obama também terá seu "Entreatos"


Obra de Shepard Fairey que foi símbolo da campanha de Obama

Por Leonardo Cruz

Barack Obama ainda nem tomou posse da Casa Branca, e um filme a seu respeito já está saindo do forno. As diretoras Amy Rice e Alicia Sands preparam um documentário sobre a campanha que levou o candidato democrata à Presidência dos EUA.

O longa ainda não tem nome, mas já atraiu a atenção de emissoras de TV de dentro e de fora dos EUA, segundo reportagem recente do "New York Times". Produzido pela Class 5 Films, que pertence ao ator Edward Norton, o filme já foi comprado pela HBO e está sendo negociado com a britânica BBC.

O projeto parece muito interessante. Rice e Sands começaram a filmar Obama em 2006, acompanhando uma viagem do então senador à África e sua vida política em Washington. E estavam presentes nas comitivas que acompanhavam Obama desde o início de sua campanha, no ano passado, quando ele ainda pleiteava a vaga do Partido Democrata na corrida pela Casa Branca.

Documentários de campanhas políticas são uma tradição nos EUA. Clinton teve o seu na campanha de 1992 ("The War Room", de Chris Hegedus e D.A. Pennebaker, este último do clássico "Don't Look Back") e Bush filho também em 2000 ("Journey's With George", de Alexandra Pelosi). Todos feitos à sombra do clássico "Primárias", de Robert Drew, que estabeleceu os princípios do "cinema direto" ao mostrar as campanhas dos rivais democratas John Kennedy e Hubert Humphrey na primária presidencial de Wisconsin em 1960.

No Brasil, o exemplo mais bem acabado de documentário sobre campanha política é, claro, "Entreatos", de João Moreira Salles, que mostrou a rotina do então candidato Lula durante o segundo turno da eleição presidencial de 2002. Em entrevista à Folha neste ano, o próprio Drew definiu a obra de Salles como o melhor filme já feito ao estilo de "Primárias".

Ainda é difícil saber se o doc sobre Obama terá mesma qualidade (e clareza de idéias) de um "Primárias" ou um "Entreatos". Até agora, apenas alguns caciques democratas viram algo do filme, um trecho de 20 minutos. E as filmagens ainda não acabaram ―Rice e Sands pretendem registrar o dia da posse, em 20 de janeiro. Mas o personagem é tão forte e tão importante historicamente quanto Kennedy ou Lula. Há matéria-prima de sobra para um ótimo longa.

Apesar de o filme ainda não estar pronto, a HBO americana já prevê a exibição nos EUA para o fim do primeiro semestre ou início do segundo. No Brasil, ainda não há previsão.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h06 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

O "Oito e Meio" de Woody Allen

O "Oito e Meio" de Woody Allen

                                                                                    Divulgação

Allen (18 longas nos últimos 17 anos), com Penélope Cruz
e Javier Bardem no set de "Vicky Cristina Barcelona"

Por Sérgio Rizzo

Para alguém que completa 73 anos no próximo dia 1º de dezembro, Woody Allen anda serelepe. Desde “Neblina e Sombras” (1992), não se passa ano sem que ao menos um longa-metragem dirigido por ele seja lançado nos cinemas (e em 1992 foram dois, para suprir a lacuna do ano anterior). A conta é expressiva, mesmo para um cineasta norte-americano: 18 longas nos últimos 17 anos. (Até 1990, a média foi ligeiramente inferior, embora também assombrosa: ele dirigiu 19 longas – sem contar o episódio final de “Contos de Nova York” – em um período de 22 anos.)

Para tornar a rotina mais desgastante, os quatro últimos longas que realizou foram feitos bem longe de casa, os três primeiros na Inglaterra (“Match Point”, “Scoop”, “O Sonho de Cassandra”) e o mais recente (“Vicky Cristina Barcelona”) na Espanha. A Folha de hoje traz reportagem de Silvana Arantes sobre “Vicky”, que estréia no Brasil, crítica de Inácio Araujo e também uma resenha assinada por mim da coletânea de entrevistas “Conversas com Woody Allen”, de Eric Lax, lançada pela Cosac Naify. Para ouvir um breve comentário sobre filme e livro, clique no microfone abaixo.

*

As novidades sobre Allen no Brasil não param por aí: a 2001 Vídeo já comercializa com exclusividade a caixa “Seleção Diretores – Woody Allen – Vol. 2”, da Fox, que traz “Memórias” (1980), “Broadway Danny Rose” (1984) e “A Era do Rádio” (1987). No início de dezembro, sai “Bananas” (1971), seu segundo filme como diretor, também pela Fox. E a Lume anuncia para breve o lançamento de uma preciosidade, “O Que Há, Tigresa?” (1966), travessura feita por Allen com base na dublagem de um filme “B” de espionagem japonês.

Pouco conhecido inclusive pelos fãs do cineasta, “Memórias” não era disponível nem mesmo em VHS no Brasil. É o equivalente, na obra de Allen, ao que “Oito e Meio” (1963) representou para Federico Fellini, a começar pela confusão entre autor e personagem. Sandy Bates, o personagem interpretado por Allen, tornou-se popular graças a comédias, mas decide realizar um drama – mais ou menos como o próprio Allen fez, em seguida ao êxito de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), com “Interiores” (1978).

Durante uma retrospectiva em sua homenagem promovida em uma pequena cidade, Bates lida com sua crise, que envolve mulheres do passado e do presente, à semelhança do que ocorre durante o tratamento de saúde de Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) em “Oito e Meio”.

A seguir, trechos de “Conversas com Woody Allen” em que o assunto é “Memórias”:

“‘Memórias’ foi feito antes de matarem o John Lennon, porque eu sentia que havia uma sensação ambivalente entre o público e a celebridade. O público adora os famosos, e por um lado é muito mais tolerante com os famosos do que eles merecem ou ganham. Por outro lado, o público adora quando a celebridade é difamada, e se diverte dizendo: ‘Ah, você precisa ler o que fulano disse sobre esse filme. Crucificou o diretor’. O público tem um sentimento ambivalente, e era essa mesma ambivalência que aquele cara maluco sentia pelo John Lennon, ou que aquela pessoa louca sentia pela Jodie Foster. Eles mitificam a celebridade e são também perigosos.”
(No capítulo “A Idéia”, pág. 83)

“A coisa mais importante para mim no ‘Memórias’ foi aquele fim de semana para a Judith Crist [em 1973]. (...) Pensei assim: Isto seria uma idéia muito engraçada. Um sujeito vai fazer um fim de semana de cinema e todo mundo lá pede autógrafo para ele, pede para ele ajudar com isto, e se poderia ler aquilo, e se poderia fazer isto, e eu completamente fora do meu ambiente, perdendo o pé. Estou lá, fazendo o melhor que eu posso como um favor para a Judith Crist, de quem gosto muito, e pensei que daria um filme engraçado. Isso realmente foi a grande inspiração para o filme.”
(No capítulo “Filmagens, Sets, Locações”, págs. 301-303).

Nota do blog, e não do livro: Judith Crist, crítica de cinema norte-americana, faz uma ponta em "Memórias".

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h13 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Cronenberg segundo ele mesmo

Cronenberg segundo ele mesmo

                                                                             Associated Press


Por Cássio Starling Carlos

Escrever em blog jornalístico dá a sensação de que é preciso explorar sempre um assunto novo. Mas tem hora que dá mais vontade de seguir velhos gostos pessoais e compartilhar informações que podem parecer antigüidades. Portanto, quem só se contenta com novidades, por favor, abstenha-se!

A esta altura, todo mundo já leu que a montagem em versão ópera de “A Mosca” foi considerada um fiasco. Mas o diretor David Cronenberg parece não estar muito preocupado com a fria acolhida que sua estréia teatral teve dos dois lados do Atlântico. Experimentação é o conceito que guia a obra do diretor canadense, como se pode constatar numa longa e diversificada entrevista em forma de balanço veiculada na semana passada pela TV Arte.

Cronenberg explica seu interesse na montagem nos seguintes termos: “O que me estimulou foi a idéia de fazer teatro, o que eu nunca havia feito antes, algo que me desse medo. E trabalhar em conjunto com pessoas com quem já tive várias experiências no cinema, mas numa outra forma de colaboração. O trabalho de direção não é tão diferente do que faço no cinema, concentrado sobre os atores, mas no teatro o que muda tudo é o espaço”.

O diretor também dá uma dica sobre seu retorno à ficção de “A Mosca”, que na ópera volta a ser ambientada nos anos 50, como no filme original de Kurt Neumann: “Temores dos anos 50, como a Guerra Fria e o terror nuclear, não existem mais, mas o medo, sob a forma de terrorismo entre outras, permanece aí”.

Mais interessante é assisti-lo discorrer sobre temas como mutações. Mesmo que seus filmes recentes, aparentemente, não exponham tão explicitamente as transformações físicas, elas continuam lá, sob a forma de disfarces. Na entrevista à Arte, Cronenberg deixa clara sua interpretação biológica da natureza humana, sua capacidade plástica de se moldar e de transformar tudo em benefício e em malefício.

O diretor também desmente quem interpreta sua filmografia numa chave evolutiva e usa a metáfora do cristal para descrever as variações que se encontram entre seus filmes. E prefere se manter fiel a um cinema adulto.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h47 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Roteirista também é autor

Roteirista também é autor

                                                                                     Divulgação

"Dona Flor", um dos roteiros de Leopoldo Serran,
que é homenageado com ciclo na Cinemateca

Por Sérgio Rizzo

A consolidação da idéia de que o diretor é o autor de um filme, sobretudo a partir da “política dos autores” defendida pelos críticos da revista “Cahiers du Cinéma” nos anos 50, contribuiu para “esconder” do público leigo a importância de outros profissionais envolvidos no processo de criação de um filme, como roteiristas, diretores de fotografia e montadores.

No Brasil, muita gente ainda hoje atribui certas deficiências da produção ao número reduzido de roteiristas profissionalizados; a formação e a qualificação de escritores do audiovisual são bandeiras da associação Autores de Cinema, que reúne 26 integrantes, entre eles o presidente Di Moretti (“Latitude Zero”, “Cabra Cega”), as vice-presidentes Elena Soárez (da série “Filhos do Carnaval”) e Carolina Kotscho (“Dois Filhos de Francisco”), e o tesoureiro Bráulio Mantovani (“Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “Última Parada 174”) – membros da primeira diretoria, constituída em 2006.

Em agosto, a já reduzida categoria perdeu Leopoldo Serran (1942-2008), que será homenageado com uma retrospectiva que começa nesta quarta-feira, dia 11, e prossegue até domingo, dia 16, na Cinemateca Brasileira. Serran é co-autor (com Bruno Barreto e Eduardo Coutinho) do roteiro de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976). Baseado em romance de Jorge Amado e dirigido por Barreto, o filme ainda se mantém como a maior bilheteria nacional (com 10,7 milhões de espectadores) e a terceira no ranking do mercado brasileiro, atrás de “Titanic” (16,3 milhões) e “Tubarão” (13 milhões).

Além de “Dona Flor”, a retrospectiva dedicada a Serran exibirá oito longas, incluindo outros êxitos de público – como “Tudo Bem” (1978), co-escrito pelo diretor Arnaldo Jabor, e “Bye Bye Brasil” (1979), co-escrito pelo diretor Carlos Diegues – e títulos menos conhecidos, como “Desesperato” (1968), co-escrito pelo diretor Sérgio Bernardes Filho, e “Revólver de Brinquedo” (1977), dirigido por Antonio Calmon. O filme mais recente da seleção é “Faca de Dois Gumes” (1989), dirigido por Murilo Salles.

*

Para os internautas do Rio: começa na próxima quinta-feira, dia 13, o 2º Encontro de Cinema Negro - Brasil, África e América Latina, que se estende até 24 de novembro, com sessões populares (ingresso a R$ 2) no cine Odeon Petrobras, Centro Cultural Justiça Federal, Centro Afro Carioca de Cinema, Espaço Tom Jobim e em tenda nos Arcos da Lapa. Além da exibição de 57 filmes, haverá oficinas e seminários gratuitos.

Escrito por Sérgio Rizzo às 3h47 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Um ótimo filme, num bom cinema, de graça

Um ótimo filme, num bom cinema, de graça

                                                                                    Divulgação

Waly Salomão em "Pan-Cinema Permanente", de Carlos Nader

Por Leonardo Cruz

Quer ver um ótimo filme, em primeira mão, num bom cinema e de graça?

Se você estiver em São Paulo de hoje até a próxima quinta-feira, será fácil. A partir desta sexta, basta ir ao Cine Bombril, no Conjunto Nacional, às 18h10, para assistir ao excelente "Pan-Cinema Permanente", documentário de Carlos Nader sobre o poeta e compositor Waly Salomão. O filme entra em cartaz pra valer em SP e no Rio no próximo dia 14. Até lá, terá essas pré-estréias diárias gratuitas.

Vencedor do É Tudo Verdade, o principal festival de documentários do país, o longa de Carlos Nader mostra a trajetória de um homem que se definia como um fronteiriço, alguém no limite entre a realidade e a ficção, que bradava para a câmera: “A vida é sonho”.

O diretor filmou Waly durante quase 15 anos, no Brasil e em viagens à Europa e à Síria de seu pai. E confessa ao longo da fita que nunca conseguiu uma imagem do poeta distraído, desprevenido, espontâneo. Waly era pura performance, um personagem de si mesmo, que chega a fingir dormir para a câmera de Carlos Nader.

Essas imagens, muitas vezes cômicas, ora líricas, são pontuadas por depoimentos de amigos como o compositor Caetano Veloso e o poeta Antonio Cícero. Tais falas nos ajudam a entender a opção pela teatralidade de Waly, confirmando que estamos diante de um documentário sobre uma ficção, sobre um homem em permanente representação, que se mostra muito e continua sendo um enigma.

Essa fusão inteligente entre imagens e depoimentos faz de “Pan-Cinema Permanente” um filme envolvente do início ao fim, mesmo para quem nunca leu nenhum poema de Waly nem sabe que muitas das letras cantadas por Caetano, Gil e Gal foram de sua lavra.

Além das pré-estréias gratuitas, haverá também no Cine Bombril uma sessão especial, seguida de debate, nesta próxima segunda, dia 10, às 20h30. O diretor Carlos Nader conversará com a platéia, acompanhado pelo poeta Antonio Cícero. Os ingressos serão distribuídos uma hora antes do início da sessão.

A seguir, o trailer de "Pan-Cinema Permanente".

Escrito por Leonardo Cruz às 4h09 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Um herói em transformação

Um herói em transformação

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o 22º filme da franquia 007: "Quantum of Solace", em que Daniel Craig interpreta um James Bond que se aproxima cada vez mais de outro herói do cinema de ação, Jason Bourne. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 10h52 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

A noite americana que Hollywood antecipou

A noite americana que Hollywood antecipou

Por Sérgio Rizzo

Enquanto este post era escrito, vivia-se em dezenas de países, inclusive no Brasil, o que o jornal francês “Le Monde” chamou hoje de “a noite americana” (trocadilho com um truque de cinema, fazer uma filmagem diurna parecer noturna graças ao uso de lentes, que batiza o filme lançado por François Truffaut em 1973): as horas de expectativa que antecedem o anúncio extra-oficial, a partir de projeções sobre a apuração dos votos, de que o senador democrata Barack Obama sucederá a George W. Bush como ocupante da Casa Branca.

O primeiro presidente norte-americano negro é uma extraordinária novidade para a política internacional e para os esforços contra o racismo em inúmeros quadrantes, mas é assunto velho para Hollywood. Muito antes que Obama sonhasse derrotar a senadora e ex-primeira dama Hillary Clinton nas primárias democratas e sair candidato à Presidência, ao menos quatro atores sentiram o gostinho de antecipar esse momento.

Em “O Presidente Negro” (1972), dirigido por Joseph Sargent e escrito por Rod Serling (criador do seriado “Além da Imaginação”) com base em romance de Irving Wallace, James Earl Jones (a voz de Darth Vader em “Star Wars”) interpreta o senador Douglass Dilman, que se transforma no primeiro presidente negro dos EUA depois da morte do titular em um acidente e da recusa do vice, com problemas de saúde, em assumir o cargo.

Em “Impacto Profundo” (1998), o filme-catástrofe de Mimi Leder, Morgan Freeman faz o presidente Tom Beck, às voltas com a ameaça de destruição do planeta por um cometa.

Terry Crews (o agente 91 da recente versão para cinema de “Agente 86”) faz o presidente Camacho de “Idiocracy” (2006), de Mike Judge, em que o protagonista (Luke Wilson) é recrutado para um projeto pioneiro de hibernação e desperta nos EUA de... 2505.

 
Quem mais tempo se dedicou ao papel, entretanto, foi Dennis Haysbert, que viveu o presidente David Palmer por um período superior ao de um mandato, de 2001 a 2006, em 79 episódios do seriado “24 Horas”. (Que o futuro presidente dos EUA não sofra tanto quanto Palmer – e, se por acaso sofrer, que tenha nos quadros da inteligência um super-agente como Jack Bauer.)

O internauta se lembra de mais algum ator negro no papel de presidente dos EUA?

E ainda por falar em Obama: na edição de outubro da revista “Piauí”, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo assina o artigo “Visionário Espiroqueta”, sobre o romance “O Presidente Negro”, que Monteiro Lobato publicou em 1926. Diferentemente dos filmes relacionados acima, no entanto, a situação imaginada por Lobato tinha pouco a ver com o que representa o principal personagem desta noite especialmente americana.

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h59 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Vida e morte da modernidade no cinema

Vida e morte da modernidade no cinema

                                                                                    Divulgação

“Cidadão Kane”, de Welles, moderno que se tornou clássico

Por Cássio Starling Carlos

Clássico ou moderno? No cinema, como nas tendências da moda, parece vigorar uma eterna balança, na qual a opção por um dos termos acaba por eliminar (injustamente?) o outro.

Que escolha fazer, contudo, quando uma mirada retrospectiva nos revela o tanto que ficaram no passado as práticas e definições de moderno quando aplicadas ao cinema? É a sensação de rumos demais que nos dá a leitura de “Moderno? - Por que o Cinema se Tornou a Mais Singular das Artes”, um livrinho curto no número de páginas e extenso em idéias que acaba de sair aqui pela Papirus (única editora brasileira a manter viva com regularidade e coerência uma bibliografia de estudos sobre cinema).

Publicado na França no ano passado, o ensaio assinado por Jacques Aumont _autor do incontornável “O Olho Interminável”_ retraça em pouco mais de cem páginas esta obsessão predominante entre artistas e pensadores da arte ao longo do século passado.

A tradição de ruptura, que já se encontrava a pleno vapor nas artes mais veteranas, vinha promovendo uma revolucionária expansão das formas e dos sentidos da representação quando o cinematógrafo emergiu como mais um entre tantos signos da “modernidade” (palavra que comporta tantos significados que é mais seguro mantê-la entre aspas).

Para o bem ou para o mal, o cinema, linguagem que brota do uso expressivo do cinematógrafo, em breve entrou na mira. De um lado, daqueles que o viam como triunfo do maquinismo, sinal de desumanização, com sua produção (logo, pasteurização) do imaginário, queixa comum feita por escritores. De outro, das vanguardas (em seu modernismo afirmativo), que logo detectaram na máquina potenciais de liberação de novos imaginários. Só neste parágrafo, constam duas acepções de “moderno”, associadas ao cinema desde bem cedo, que Aumont faz questão de retraçar para deixar explícito o número de espinhos que comporta a questão: “Quando e como o cinema se torna moderno?”.

                                                                                     Divulgação

“Stromboli”, de Rossellini, clássico que nasceu moderno

Outro eixo valioso do ensaio é a discussão da emergência da “modernidade” cinematográfica enquanto ruptura com o código predominante no cinema industrial. Welles ou Rossellini? A “modernidade” de “Cidadão Kane”, do primeiro, consistiria na expressão das contradições de seu tempo, para isso tomando posição contrária ao modelo em vigor. No segundo, trata-se de um anticlassicismo no sentido de dar a ver além dos modos oferecidos na gramática da representação tradicional.

Herdeiros de ambas linhagens, os pontas-de-lança dos cinemas novos que explodiram em todo o mundo nos anos 60 vão fazer avançar as linhas de ruptura, consolidando acima de tudo a concepção de diretor como criador (autor ou artista, portanto).

Feito o balanço de um modo condensado, mas nunca superficial, Aumont nos conduz ao ponto onde estamos, depois de todas as relativizações da pós-modernidade.

A classificação agora em vigor é a de “contemporâneo”, na qual o cinema não é mais reino exclusivo de salas, e a expressão narrativa é apenas uma entre tantas práticas oferecidas pela galáxia audiovisual. Nela, independentemente de rótulos, toda produção de imagens que nos oferece, em outra intensidade, uma experiência do mundo continua a ser “moderna”.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h20 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.