No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta "Rock´n´Rolla", filme do diretor Guy Ritchie que encerra sua trilogia de humor negro sobre pequenos mafiosos britânicos. Para ouvir, basta clicar no microfone.
O longa alemão “O Estranho em Mim”, de Emily Atef, é o grande vencedor da 32ª Mostra de São Paulo, que terminou oficialmente ontem (quinta-feira), com show da portuguesa Maria de Medeiros.
Confira a seguir todos os vencedores desta edição do festival:
PRÊMIOS DO JÚRI INTERNACIONAL:
- filme: “O Estranho em Mim” (The Stranger in Me), de Emily Atef
- atriz: Susanne Wolff (“O Estranho em Mim”)
PRÊMIO DA CRÍTICA:
“Aquele Querido Mês de Agosto”, de Miguel Gomes
PRÊMIOS DO JÚRI OFICIAL DE DOCUMENTÁRIOS:
- menção especial: “Conhecendo Andrei Tarkovsky”, de Dimitry Trakovsky;
- prêmio especial do júri: “KFZ-1348”, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso;
- documentário: “Crianças da Pira” (Children of the Pyre), de Rajesh S. Jala;
PRÊMIOS DO PÚBLICO:
- longa estrangeiro de ficção: “Jodhaa Akbar”, de Ashutosh Gowariker;
- documentário estrangeiro: “Youssou Ndour: I Bring What I Love”, de Elizabeth Chai Vasarhelyi;
- documentário de longa-metragem brasileiro: “Loki - Arnaldo Batista”, de Paulo Henrique Fontenelle;
- longa brasileiro de ficção: “Apenas o Fim”, de Matheus De Souza;
PRÊMIOS DO JÚRI OFICIAL DE MEDIAS E CURTAS METRAGENS:
- menção honrosa: “Vidas no Lixo”, de Alexandre Stockler;
- curta-metragem internacional: “Death Valley Superstar”, de Michael Yaroshevsky;
- curta-metragem brasileiro: “Monkey Joy”, de Amir Admoni;
- média-metragem brasileiro: “Bode Rei, Cabra Rainha”, de Helena Tassara
PRÊMIO DA JUVENTUDE (apontado por estudantes secundaristas):
“Verônica”, de Maurício Farias
PRÊMIO TELEIMAGE DE FINALIZAÇÃO:
- longa-metragem: “Apenas o Fim”, de Matheus de Souza;
- curta-metragem: “Monkey Joy”, de Amir Admoni;
- média-metragem brasileiro: “Bode Rei, Cabra Rainha”, de Helena Tassara
Divulgação "Nucingen Haus", de Raoul Ruiz, em cartaz na 32ª Mostra
Por Leonardo Cruz
Melhor revista de cinema do país, a Cinética colocou no ar nesta quarta um protesto contra projeções capengas em salas de exibição brasileiras. Assinado pelo editor Eduardo Valente, o artigo "Por que não escreveremos sobre Raoul Ruiz" tem como mote uma sessão de "Nucingen Haus", novo longa do diretor franco-chileno, na Mostra de SP, na noite da última segunda, no Unibanco Arteplex 3.
Valente conta que a sessão ficou sem som por cinco minutos, que o formato de exibição estava errado (legendas cortadas no meio) e que a qualidade da cópia digital era das piores: "Algo que lembrava muito uma gravação em VHS que fizéssemos da CNT Gazeta nos anos 80/90". O crítico usa esse caso como exemplo, mas também cita outros em que a obra exibida estava longe das condições adequeadas: "Um Amor de Perdição" nesta Mostra, "Um Conto de Natal" no último Festival do Rio e mais algumas sessões em anos anteriores.
O editor da Cinética não nega nem relativiza a importância de eventos como a Mostra e o Festival do Rio, que "trazem uma quantidade enorme de filmes do mundo inteiro que ficariam inéditos para nossos olhos". O que Valente coloca em questão, acertadamente, é: se a cópia que chega ao Brasil é sofrível, qual a razão para exibi-la?
Pessoalmente, me arrependi de ter visto "Um Conto de Natal" no Festival do Rio, em uma projeção em DVCam que arrebentou o belo filme de Arnaud Depleschin. O que justifica passar um filme assim? Fazer volume? Nenhum desses festivais precisa disso. Por respeito ao público (e aos realizadores), o mais correto seria pedir desculpas e cancelar a sessão. Pois, como bem escreve Eduardo Valente, o momento mais importante de um festival de cinema é a projeção dos filmes ao espectador. O resto é fru-fru, é complemento, é extra.
A Mostra de SP divulgou há pouco a programação dos três primeiros dias de sua repescagem. O evento termina oficialmente nesta quinta, mas uma parte da seleção do festival será reprisada até o próximo dia 6 na Cinemateca, no Cinesesc e no Cine Bombril. Entre os destaques deste final de semana estão "Aquele Querido Mês de Agosto", "Tulpan", "Gomorra" e uma maratona Bergman na Cinemateca. A seguir, a programação. Os filmes marcados em amarelo são indicados pelo blog.
31/10/2008 - SEXTA
CINEMATECA - SALA PETROBRAS Sessão 1 - 14:00 CRISE (KRIS), de Ingmar Bergman (93'). SUÉCIA Sessão 2 - 15:50 PRISÃO (FÄNGELSE), de Ingmar Bergman (80'). SUÉCIA Sessão 3 - 17:30 SEDE DE PAIXÕES (TÖRST), de Ingmar Bergman (84'). SUÉCIA Sessão 4 - 19:10 MÚSICA NA NOITE (MUSIK I MÖRKER), de Ingmar Bergman (87'). SUÉCIA Sessão 5 - 21:00 A HORA DO LOBO (VARGTIMMEN), de Ingmar Bergman (89'). SUÉCIA
CINE BOMBRIL 1 Sessão 6 - 14:00 AS LÁGRIMAS DE MINHA MÃE - BERLIM-BUENOS AIRES (DIE TRÄNEN MEINER MUTTER), de Alejandro Cardenas Amelio (93'). ALEMANHA Sessão 7 - 15:50 BODE REI, CABRA RAINHA + CURTAS (107') Sessão 8 - 18:00 AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes (150'). PORTUGAL Sessão 9 - 20:50 MALDEAMORES, de Carlitos Ruiz Ruiz, Mariem Perez Riera (83'). PORTO RICO Sessão 10 - 22:30 IL DIVO, de Paolo Sorrentino (118'). ITÁLIA, FRANÇA
CINESESC Sessão 11 - 14:00 TRATO É TRATO (A DEAL IS A DEAL), de Jonathan Gershfield (96'). REINO UNIDO Sessão 12 - 16:00 ABSURDISTAN (ABSURDISTAN), de Veit Helmer (88'). ALEMANHA Sessão 13 - 18:10 CHE (CHE), de Steven Soderbergh (262'). EUA, ESPANHA, FRANÇA
01/11/2008 - Sábado
CINEMATECA - SALA BNDES Sessão 14 - 14:00 FUERA DE CARTA, de Nacho Velilla (111'). ESPANHA Sessão 15 - 16:10 KFZ-1348, de Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso (81'). BRASIL Sessão 16 - 17:50 OF ALL THE THINGS (OF ALL THE THINGS), de Jody Lambert (83'). EUA Sessão 17 - 19:30 SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA, de Pedro Cezar (80'). BRASIL Sessão 18 - 21:10 MACHAN, de Uberto Pasolini (109'). SRI LANKA, ITÁLIA, ALEMANHA
CINEMATECA - SALA PETROBRAS Sessão 19 - 14:00 CONHECENDO ANDREI TARKOVSKY (MEETING ANDREI TARKOVSKY), de Dmitry Trakovsky (90'). EUA, SUÉCIA, RÚSSIA, ITÁLIA Sessão 20 - 15:50 NO LIMIAR DA VIDA (NÄRA LIVET), de Ingmar Bergman (85'). SUÉCIA Sessão 21 - 17:30 QUANDO AS MULHERES ESPERAM (KVINNORS VÄNTAN), de Ingmar Bergman (108'). SUÉCIA Sessão 22 - 19:40 FANNY E ALEXANDER (FANNY OCH ALEXANDER), de Ingmar Bergman (188'). SUÉCIA, FRANÇA, ALEMANHA
CINE BOMBRIL 1 Sessão 23 - 14:00 ESTRANHOS (STRANGERS), de Erez Tadmor, Guy Nattiv (85'). ISRAEL Sessão 24 - 15:40 FORMIDÁVEL (FORMIDABLE), de Dominique Standaert (90'). BÉLGICA Sessão 25 - 17:30 MAIS SAPATOS (MORE SHOES), de Lee Kazimir (72'). EUA Sessão 26 - 19:00 GOMORRA (GOMORRAH), de Matteo Garrone (135'). ITÁLIA Sessão 27 - 21:30 LOKI - ARNALDO BAPTISTA, de Paulo Henrique Fontenelle (120'). BRASIL Sessão 28 - 23:50 TITÃS, A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA, de Branco Mello, Oscar Rodrigues Alves (100'). BRASIL
CINESESC Sessão 29 - 14:00 MAIS TARDE VOCÊ ENTENDERÁ (PLUS TARD TU COMPRENDRAS), de Amos Gitai (89'). FRANÇA Sessão 30 - 15:50 LA BOHEME (LA BOHEME), de Robert Dornhelm (110'). ÁUSTRIA Sessão 31 - 18:00 FUMANDO ESPERO, de Adriana Dutra (104'). BRASIL. Sessão 32 - 20:00 EL REGALO DE LA PACHAMAMA, de Toshifumi Matsushita (104'). BOLÍVIA, JAPÃO Sessão 33 - 22:00 JODHAA AKBAR, de Ashutosh Gowariker (205'). ÍNDIA
02/11/2008 - Domingo
CINEMATECA - SALA BNDES Sessão 34 - 14:00 RECURSO INTANGÍVEL NÚMERO 82 (INTANGIBLE ASSET NUMBER 82), de Emma Franz (95'). AUSTRÁLIA Sessão 35 - 15:50 HARRISON MONTGOMERY, de Daniel Dávila (96'). EUA Sessão 36 - 17:50 CRIANÇAS DA PIRA (CHILDREN OF THE PYRE), de Rajesh S. Jala (74'). ÍNDIA Sessão 37 - 19:20 TULPAN, de Sergey Dvortsevoy (100'). ALEMANHA, SUÍÇA, CAZAQUISTÃO, RÚSSIA, POLÔNIA Sessão 38 - 21:20 O ESTRANHO EM MIM (DAS FREMDE IN MIR), de Emily Atef (99'). ALEMANHA
CINEMATECA - SALA PETROBRAS Sessão 39 - 14:00 THE BLUETOOTH VIRGIN, de Russell Brown (80'). EUA Sessão 40 - 15:40 PROGRAMA DE CURTAS 7 (79') Sessão 41 - 17:40 PROGRAMA DE CURTAS 8 (93') Sessão 42 - 19:50 MANDA O DIABO PARA O INFERNO (PRAY THE DEVIL BACK TO HELL), de Gini Reticker (72'). EUA Sessão 43 - 21:20 FORMIDÁVEL (FORMIDABLE), de Dominique Standaert (90'). BÉLGICA
CINE BOMBRIL 1 Sessão 44 - 14:00 O AMIGO (DER FREUND), de Micha Lewinsky (87'). SUÍÇA Sessão 45 - 15:50 SIDNEY POITIER: UM ESTRANHO EM HOLLYWOOD (SIDNEY POITIER : UN OUTSIDER À HOLLYWOOD), de Catherine Arnaud (67'). FRANÇA Sessão 46 - 17:20 O'HORTEN, de Bent Hamer (90'). NORUEGA, ALEMANHA, FRANÇA Sessão 47 - 19:10 SNEAKERS - ENTRANDO DE SOLA NA CULTURA URBANA + CURTAS (106') Sessão 48 - 21:20 MEU WINNIPEG, de Guy Maddin (80'). CANADÁ. Curta: PORNÔ VERDE, de Jody Shapiro, Isabella Rossellini (8')
CINESESC Sessão 49 - 14:00 THREE MONKEYS (ÜÇ MAYMUN), de Nuri Bilge Ceylan (109'). TURQUIA Sessão 50 - 16:10 SOB CONTROLE (SURVEILLANCE), de Jennifer Lynch (98'). EUA, ALEMANHA Sessão 51 - 18:10 VERÔNICA, de Maurício Farias (87'). BRASIL Sessão 52 - 20:00 PROGRAMA SURPRESA - CRY ME A RIVER, COMERCIAIS DE BERGMAN E MAKING OF DE PALERMO SHOOTING (75') Sessão 53 - 21:30 CINZAS DO PASSADO REDUX (DONGXIE XIDU), de Wong Kar Wai (93'). HONG KONG, CHINA
Divulgação Mathieu Amalric e Catherine Deneuve em "Um Conto de Natal"
Por Pedro Butcher
Mais uma família disfuncional, mais um acerto de contas entre parentes. “Um Conto de Natal” é a esforçada tentativa do diretor francês Arnaud Desplechin de recuperar a dignidade perdida dos dramas familiares. A questão está na ambição e no tamanho desse esforço.
Desplechin não quer simplesmente contar uma história; quer contar “a” história definitiva das famílias disfuncionais. No roteiro e na direção, busca o nível dramatúrgico de um Tchecov e a maestria de encenação de um Bergman. É uma ambição notável, mas que termina se impondo de tal forma que azeda o potencial do filme e o tranforma em uma espécie de exibicionismo infértil.
No cinema de Desplechin –como é tão comum entre alguns grandes nomes do “cinema de autor” francês–, ambição se confunde com pretensão, e autoralidade, com auto-indulgência. “Um Conto de Natal” é assim: uma obra com o selo “classe A” e um elenco “dream team” do cinema francês, com direito a um prêmio especial do júri no Festival de Cannes para a atuação de Catherine Deneuve como a matriarca da família. O filme “pede” aplausos, enfim, mas é longo e verborrágico em sua busca uma espécie de epifania no transbordamento de palavras e de emoções.
São poucos, porém, os momentos em que consegue chegar lá. A profusão de personagens e o desfile de questões familiares mal resolvidas entre mãe e filhos, pai e filhas, irmãos e irmãs, com as variações embutidas, não trazem as novidades prometidas, com exceção de um ou outro diálogo de fato “tchekovianos” e de um ou outro momento em que alguns atores estão, de fato, atuando a favor do filme.
“Um Conto de Natal” termina reproduzindo de uma forma mais intelectualizada as armadilhas que o gênero traz em si –e aí vale a comparação com um filme bastante semelhante no tema, também realizado por um francês, exibido na primeira semana da Mostra: “Horas de Verão”, de Olivier Assayas.
Feito sob encomenda para um projeto do Museu D'Orsay, o filme de Assayas pode ser visto como o mais perfeito antídoto para os excessos de Desplechin. Não menos francês, mas certamente bem menos ambicioso, “Horas de Verão” fala do conforto e dos conflitos familiares sem se contaminar pelo ressentimento que costuma dominar tais dramas no fim da projeção, quando o abismo entre as gerações costuma se mostrar o mais amargo dos remédios.
Avaliação: regular
Na Mostra: "Um Conto de Natal" têm sessões hoje (29), às 15h50, no Espaço Unibanco Pompéia 1; e amanhã (30), às 14h30, no Reserva Cultural 1.
Divulgação "Stunned Man", do alemão Julian Rosefeldt, em cartaz no "Cinema, Sim", no Itaú Cultural
por Cássio Starling Carlos
Depois de permanecer ininterruptamente quase 15 dias trancado em salas escuras na tentativa vã de ver o máximo de filmes durante a Mostra, o público paulistano vai poder descansar e se entregar a outro tipo de devaneio por imagens.
A abertura, amanhã, no Itaú Cultural (av. Paulista, 149), da exposição “Cinema, Sim”, promete levar o espectador, ainda uma vez, a se relacionar com uma produção que se identifica, claro, com o cinema, mas lançada em outros espaço e tempo.
Após a virada do primeiro século de existência do cinema, consolidou-se um processo de liberação de barreiras rumo a outros modos de uso da imagem em movimento. O audiovisual ocupa hoje museus e espaços de exposição, antes mais associados aos suportes tradicionais das artes plásticas.
O que se poderá ver até 21 de dezembro no Itaú Cultural são trabalhos de artistas que se apropriaram do cinema forçando-o a se tornar algo além da rígida relação de imagens móveis e espectadores imóveis.
Na parte que será aberta ao público nesta quarta, estão trabalhos de 11 artistas vindos do Brasil, Alemanha, Coréia do Sul, Espanha, EUA, Japão, Inglaterra e Suíça. As produções vão desde vídeos e animações digitais até projeções que envolvem ilusionismos e dispositivos que evidenciam os mecanismos que tornam a magia possível.
Conectado a esta etapa da exposição, o seminário “Ainda Cinema”, programado para os dias 30, 31 e 1º, vai abordar temas como os novos modos de exibição de audiovisual, o lugar do espectador nestas formas deslocadas de projeção e que tipo de narrativas emergem com a mudança do dispositivo. Além da participação de artistas que têm trabalhos expostos, “Ainda Cinema” reúne como principal atração a presença de teóricos e pesquisadores cujos trabalhos vêm há tempos mapeando as interseções dos campos do cinema, vídeo e artes plásticas. No time dos sonhos escalado para o evento estão os franceses Dominique Païni e Raymond Bellour, os brasileiros Arlindo Machado, André Parente e Kátia Maciel, o argentino Jorge La Ferla e a norte-americana Liz Kotz.
Divulgação "Là-Bas", vídeo de Chantal Ackerman que estará na mostra "O Visível e o Invisível"
A abolição de fronteiras volta à cena a partir do dia 18, com a abertura da mostra “O Visível e o Invisível”. Com curadoria de Berta Sichel, diretora do departamento de audiovisual do Museu Reina Sofia, de Madri, o ciclo vai apresentar, ao longo de cinco dias, 17 produções que desafiam nossas ainda estreitas classificações.
Entre as indispensáveis, indico desde já “Là-Bas”, vídeo da veteraníssima diretora belga Chantal Ackerman feito em Israel e cuja indagação central é o significado de lugar e de exílio, e “The Pervert’s Guide to Cinema”, no qual o cultuado Slavoj Zizek dispara sua metralhadora mental em alvos como filmes de Hitchcock, Lynch e Kubrick. A eles retornaremos neste espaço daqui a quatro semanas.
Divulgação Cena de "Nuvem 9", exibido em Cannes na seção Um Certo Olhar
por Paulo Santos Lima
Centrado na paixão hormonal e extraconjugal na terceira idade, “Nuvem 9” lança uma questão interessante, sobretudo após o ator Pedro Cardoso publicar seu discutível manifesto contra a nudez no cinema e na TV. O filme do alemão Andreas Dresen seria apenas um “drama sensível” se não houvesse a nudez frontal e sexo do trio central, composto por atores entre 65 e 79 anos.
Na história, Inge (Ursula Werner), mulher com mais de 60 e casada há 30 anos com Werner (Horst Rehberg), mais de 70, apaixona-se por Karl (Horst Westphal), 76. O casamento, mesmo amornado, ainda conta com o sexo, como o filme mostra na bela cena do marido e da mulher transando em comunhão física e orgástica.
Apesar de o filme já começar mostrando Inge cedendo pela primeira vez a Karl, num registro quase gráfico dos dois amantes nus fazendo sexo, não estamos numa história sobre crise conjugal. Na dialética entre as duas transas, está claro que a questão que move a paixão de Inge é biológica, de corpo, e um plano notável, dela se olhando no espelho, nua em pêlo, confirma o centro dramático do longa.
Mas Dresen falha em quase tudo que não seja sexo e nudez. Além de adotar uma gramática de câmera bastante batida, optando por alguns planos longos filmados com câmera na mão e uma tal fotografia branca de “cinema de arte”, algumas idéias como mostrar Inge num esquisito coral da terceira idade (dizendo-nos sobre ela também ter o lado “velhinha”) soam estúpidas.
Por outro lado, o filme olha seus personagens a uma certa distância interessante (e segura) e tampouco cria uma dinâmica fechada de motivações entre eles. As coisas estão simplesmente na tela, acontecendo. E tudo o que se desenrola a partir da revelação que Inge faz ao marido é bastante respeitável _e o ator Horst Rehberg atua soberbamente, confirmando este “Nuvem 9” mais como um bom filme de atores.
Avaliação: bom
Na Mostra:“Nuvem 9” têm sessões hoje (28), às 19h30, no Cine Olido; amanhã (29), às 20h10, no Unibanco Arteplex 1; e quinta (30), às 19h, no Cine Olido.
Divulgação Cena de "Desierto Adentro", o segundo longa de Rodrigo Plá
por Sérgio Rizzo
O cinema mexicano foi celebrado na cerimônia do Oscar de 2007, quando filmes dirigidos por Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón receberam, no conjunto, 16 indicações (e levaram quatro prêmios). Eram cineastas mexicanos em momento de sucesso internacional, claro, mas não era bem a produção do país que “Babel”, “O Labirinto do Fauno” e “Filhos da Esperança” representavam.
Um dos que se mantêm no país (embora tenha nascido no Uruguai) e continua a produzir em sintonia com o cenário sociopolítico mexicano é Rodrigo Plá. Seu primeiro longa-metragem, “Zona do Crime” (2007), se ambienta em condomínio de elite na Cidade do México, cujos moradores procuram se isolar da miséria do entorno, mas não conseguem fazer o conto de fadas (traduzido pelas imagens que abrem o filme, como se andássemos de carro por um subúrbio próspero e risonho de cidade dos EUA) se sobrepor à desigualdade social do país.
“Desierto Adentro”, seu segundo longa, foi exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes deste ano e integra a Perspectiva Internacional da Mostra. Mudam drasticamente o tempo e o espaço –de uma megalópole atual para o interior mexicano nas décadas de 20, 30 e 40–, bem como os recursos usados para contar a história (co-escrita por Plá e por sua mulher, Laura Santullo, também co-roteirista de “Zona do Crime”) da obsessão de um camponês, Elías (Mario Zaragoza, um policial em “Zona do Crime”), que acredita ter uma dívida a pagar com Deus.
Seu périplo começa em 1926, com uma blasfêmia proferida por ele quando o governo mexicano proíbe qualquer espécie de manifestação religiosa, persegue padres (chega a executar alguns deles) e estabelece duras sanções a quem desrespeite suas ordens. Com a morte de um filho, associada por ele ao desprezo com que se referiu ao divino, arrasta a família em uma aventura pelo deserto, onde quer construir uma igreja para ter a oportunidade de pedir perdão a Deus. A narrativa é reconstituída por Aureliano (Guillermo Dorantes na infância e Diego Cataño na juventude), o filho mais jovem, que Elías quis abençoar ainda no ventre da mãe e que, na sua avaliação, ajudou a desencadear a ira divina contra ele e sua família.
Plá recorre a efeitos de animação (não gratuitos: Aureliano tem o talento de desenhar e pintar) para fazer avançar as quatro partes (“A Culpa”, “A Punição”, “O Sinal” e “O Perdão que Não Chega”) dessa jornada em que o aspecto visual ressalta a aridez, tanto do espaço quanto da alma atormentada de Elías. “Ai daquele que dentro de si cria desertos”, na frase de Nietzsche que o filme usa para sublinhar o que suas quase duas horas se encarregam dolorosamente de demonstrar.
Avaliação: bom
Na Mostra:“Desierto Adentro” têm sessões hoje (27), às 14h30, na Cinemateca (sala Petrobras); e amanhã (28), às 15h, no Cine Olido.
Divulgação Os três reis magos em "O Canto dos Pássaros", de Albert Serra
por Paulo Santos Lima
Se em “Honra de Cavalaria” (2006), Albert Serra já buscava o essencial dos personagens de Don Quixote e Sancho Panza, atendo-se aos “tempos mortos” da dupla, que vagava incerta por todo o filme, agora, em “O Canto dos Pássaros”, o diretor catalão vai ao “making of” do Natal cristão, reencontrando os três reis magos, o menino Jesus e seus pais, Maria e José.
Se no longa anterior, então, ia-se às prévias do imaginário ocidental (bem representado pela obra de Cervantes que serviu de base ao cineasta, “Don Quixote”), agora se chega a algo mais profundo: a fundação de uma cultura, a ocidental cristã. Mas, pela fotografia estilizadíssima em preto-e-branco e o rigor milimétrico com o qual são filmados os espaços, fica claro que a busca de Serra é pelo que há de essencialmente “sagrado” na imagem e na superfície das coisas filmadas pela câmera.
Há, por exemplo, uma cena belíssima, na qual temos uma tomada subaquática, filmada de baixo para cima, mostrando um dos viajantes nadando no mar, com pequeno barco flutuando ao lado. É um plano que, pelas geometrias e efeitos óticos que vão surgindo aos poucos, justifica a sua longuíssima duração, marca registrada deste cineasta. É assim, afinal, que se consegue capturar uma transcendência das formas dos objetos, dos contrastes luminosos trazidos pela natureza dos céus, da noite e do sol.
Essas infindáveis tomadas (encantadoras para a maioria, mas assustadoras para mais de dezena de pessoas que decidiram sair antes do término da primeira exibição do filme na 32ª Mostra Internacional de Cinema) justificam o que o longa está mesmo a contar, à parte a tal alusão à nossa cultura: um filme de viagem, sobre três homens aventurando-se por um mundo belo e desconhecido, com seus anjos, Messias, areais gigantescos e névoas soturnas _ou seria outra coisa a visita dos Três Reis Magos?
Não há por que, então, não esticar os enquadramentos nos quais eles discutem sobre qual caminho seguir, sobre a beleza de pedras negras encontradas a esmo, ou sobre vencerem a exaustão.
O uso desses planos longos com fotografia preto-e-branca “bonita” faz todo o sentido, portanto. Como, por exemplo, na impressionante seqüência que mostra os três vagando perdidos pelo deserto, sumindo e ressurgindo pelos vales arenosos, até que, finalmente, encontram um sol orientador que encaminhará a direção de onde está o Messias.
Mas também é uma opção cheia de questões e que, após a trinca presentear Jesus no colo de Maria (outra bela imagem, naquilo que há de concreto, físico e carnal na cena, apesar da alusão religiosa e da estilização), torna-se um fardo, quando vemos mais alguns largos instantes dos três parados à sombra da mata.
Afinal, se antes havia um tempo necessário às cenas justamente para se transmitir tanto a saga dos personagens pela longa viagem quanto a longa espera de José, Maria e Jesus _duração que também nos permite descobrir lindos objetos e imagens apresentados pelo enquadramento_, depois o estilo parece se tornar uma mera “afetação”.
Longe de ser uma condenação a Serra, mas apenas uma análise mais atenta para que não se esteja celebrando mais um cineasta que usa em proveito alguns recursos "artísticos" (o plano-sequência, por exemplo) para fazer bonito nos festivais internacionais.
Avaliação: bom
Na Mostra:“O Canto dos Pássaros” tem última sessão hoje (domingo, dia 26), às 21h30, no HSBC Belas Artes 2
Divulgação Cena de "O Primeiro que Chegar", de Jacques Doillon
Por Inácio Araujo
O que faz essa bela garota com um tipo como esse? A pergunta vem quase obrigatoriamente ao espectador. E, ao que parece, também a Jacques Doillon, autor de “O Primeiro a Chegar”.
Camille parece saída de uma manifestação de 1968, com seu porte agressivo, olhar penetrante, inquietação e curiosidade que parecem percorrer corpo e mente. Costa é baixinho, atarracado, feio, agitado. Uma marginalzinho que parece mais saído dessas manifestações suburbanas parisienses de um ou dois anos atrás. É como se Camille encarnasse a esperança e a revolta de um momento mágico, transportada no entanto para um território outro, sem esperança, corrosivo: o mundo de Costa.
O fato é que entre ambos aconteceu algo em Paris, talvez uma rápida relação amorosa com a garota se abrindo ao primeiro que viesse (“qualquer um” seria um título mais apropriado em português). Depois, ele volta a sua cidade. A garota vai atrás. Para tirar satisfação, talvez. De certa forma apaixonada por ele? Parece que nem Doillon saberia, a princípio, dizer o que havia entre os dois.
Se existe encanto no filme (além daquele das paisagens, belissimamente fotografadas), ele vem dessa sensação de vago que o filme transmite: Costa vai atrás da filha (e da mulher, Gwen, a quem não dá dinheiro há muito tempo). Por quê? Por quê não foi antes? O que ele pretende com sua mulher? E o que pretende Camille com ele?
É a ausência de resposta que, de certa forma, caminha com o espectador e instiga sua curiosidade. Como se os personagens se desviassem, nem que seja um pouco, da lógica, daquilo que, esperamos, seja o comportamento esperável das pessoas.
Desde o enigma que se propõe na primeira cena até que o filme se transforme num “quase policial”, esse tipo de sensação se acentua, desenha-se como um projeto de Doillon.
Existe nele algo de selvagem, que vem dos personagens e que conforma sua condição social, que confere um tom de estranho irracionalismo aos atos dos personagens (na França, isso é inesperado). Existe um outro lado, que talvez se possa chamar de europeu _algo que vem de uma velha cultura, que vê a si própria como gasta: tudo tende a um impasse em que é como se as premissas lançadas no início anulassem toda possibilidade de solução da intriga.
Isso pode deixar o espectador em suspensão, mesmo após o filme terminar, como se algo lhe tivesse sido sonegado. Esse é o lado interessante da coisa. Existe uma outra hipótese (ou questão) que o filme sugere: não seria este um bom retrato da Europa (ou da França), continente (país) enroscado em suas próprias contradições?
Avaliação: bom
Na Mostra: "O Primeiro a Chegar" têm sessões hoje (25), às 16h, no Cine Bombril 2; e quarta (29), às 13h30, no Espaço Unibanco Augusta 3
Divulgação A versão para TV de "Berlin Alexanderplatz", a única que Fassbinder conseguiu realizar
Por Sérgio Rizzo
A alemã Juliane Lorenz trabalhou como co-montadora de “Berlin Alexanderplatz” (1980), cuja versão restaurada será exibida na Mostra a partir deste sábado, e dirigiu dois documentários sobre a obra-prima de Rainer Werner Fassbinder: “Comentários sobre a Restauração”, incluído entre os extras da caixa lançada em DVD no Brasil pela Versátil, e “Berlin Alexanderplatz de Fassbinder – Um Megafilme e sua História”, que faz parte da caixa lançada pela Criterion Collection nos EUA (com sete discos, um a mais do que a edição brasileira, o que possibilitou incluir entre os extras a versão para cinema de 1931, dirigida por Phil Jutzi e co-escrita pelo autor do romance, Alfred Döblin).
De acordo com o planejamento original, Fassbinder realizaria dois “megafilmes” a partir da obra de Döblin (1878-1957), publicada como folhetim em 1928 e em forma de livro no ano seguinte. Abaixo, trecho de “A Anarquia da Fantasia”, organizado por Michael Töteberg e publicado no Brasil em 1988 pela Jorge Zahar (com tradução de Sonia Baldessarini e Clóvis Marques), em que o cineasta conta detalhes do projeto a Hella Schlumberger em entrevista de 1977.
“Atualmente o senhor trabalha no projeto de ‘Berlin Alexanderplatz’. Em que fase se encontra? É um projeto complicado: um seriado de TV de 13 horas e meia e um filme de cinema, com outro elenco e outro formato. Estou tentando fazer as duas adaptações do romance fundamentalmente diferentes, pela forma da narrativa.
Este projeto lhe era tão caro que o fez desistir provisoriamente de ir para os Estados Unidos. Em muitos de meus filmes há citações do romance de Döblin. Não se trata propriamente do personagem de Franz Biberkopf, mas de toda a constelação que faz com que tantos homens desperdicem suas vidas, por uma certa incapacidade adquirida com a educação. O essencial no romance é que esses homens se destroem por não terem ousado reconhecer certas necessidades e desejos, por aceitarem as mutilações sofridas por suas almas e não serem mais capazes de viver esta vida supostamente normal.
Existem nos roteiros do seriado ou do filme passagens que se afastem completamente do romance, ou o senhor seguiu muito de perto o livro? No fim das contas é claro que os dois se afastam do romance. O seriado de TV procura estimular o espectador a ler, muito embora sua visão seja solicitada. O trabalho do filme é completamente diferente: para começar ele conta, de forma bastante condensada, uma estória que só posteriormente surte seu efeito, botando para trabalhar a consciência e a imaginação do espectador. Pode-se dizer que segui muito de perto o romance. E pode-se dizer também que existem modificações decisivas.
Por quê? A favor das mulheres, diga-se de passagem. Na narrativa de Döblin, as mulheres têm uma identidade bem menos marcada que os homens. Tanto quanto possível, na estrutura dessa narrativa, eu procurei descrever as mulheres como indivíduos, tal como os homens. Em relação a Döblin, já é uma modificação decisiva. Nele, como na tradição romanesca do século 18, as mulheres são antes objetos que se levam em consideração, pelo homem, quando se tem vontade, segundo o estado de espírito do momento, ou quando se tem necessidade. Em minha opinião, Döblin ateve-se a esta tradição narrativa. É a modificação mais decisiva e mais importante que introduzi. Acrescente-se a isto que, em Döblin, muitas coisas acontecem em monólogos interiores. Por este motivo, eu queria, eu precisava encontrar imagens, seqüências de imagens que permitissem ao espectador seguir o mesmo monólogo interior que Döblin expusera literariamente, e isso mais ou menos no mesmo nível literário que ele.
O elenco já foi escolhido para as duas versões? Sim. Os papéis principais já estão mais ou menos decididos. Para a televisão, Klaus Löwitsch fará Franz Biberkopf, Eva Mattes será Mieze e eu farei o papel de Reinhold, com Andrea Ferréol no de Eva e Franz Buchrieser, um escritor e ator austríaco, como Meck. São os grandes papéis. Para o cinema, Gérard Depardieu será Franz Biberkopf, Klaus Löwitsch, Reinhold, Isabelle Adjani, Mieze, Jeanne Moreau, Eva, Charles Aznavour, Meck. Aí está.”
No fim das contas, aí nunca esteve “Berlin Alexanderplatz”. A versão para cinema jamais foi realizada. No “megafilme” para TV, Günter Lamprecht fez Biberkopf; Hanna Schygulla, Eva; Barbara Sukowa, Mieze; e Gottfried John, Reinhold.
Os comerciais que Ingmar Bergman fez para a marca de sabonete Bris em 1951 serão exibidos pela Mostra. As nove peças de propaganda não estavam na programação inicial da Retrospectiva Bergman, mas sua apresentação já era cogitada pela organização do festival desde o início das negociações com o Instituto Sueco, responsável pelo obra do cineasta.
A inclusão dos filmetes foi anunciada hoje, dentro de um pacote de "surpresas" da Mostra, que inclui ainda o making of de "Palermo Shooting", de Wim Wenders. Na próxima terça, às 22h, no Cine Bombril, haverá uma sessão especial com os comerciais, que somam 11 minutos, o filme dos bastidores de Wenders e o curta "Cry Me a River", do sempre interessante Jia Zhang-ke.
As propagandas do diretor sueco são muito divertidas e um bocado inovadores para sua época. Quem não puder chegar ao Cine Bombril na terça pode assistir à maioria delas no YouTube. A seguir, a segunda da série, em que o cineasta montou um teatrinho para mostrar como o sabonete Bris era implacável contra a dupla maléfica Suor e Bactéria. Mesmo sem saber sueco, não é muito complicado deduzir a mensagem do comercial. Dê uma olhada.
*
A Mostra também anunciou hoje um debate extra no próximo domingo. Hugh Hudson, diretor de "Carruagens de Fogo" (1981), discutirá seu filme "Revolução Revisitada" com o diretor teatral Gerald Thomas. O filme é uma nova montagem a partir do longa original do diretor, realizado em 1985, e será exibido às 20h, no Unibanco Arteplex 1. O bate-papo será logo após a projeção. Hudson faz parte do júri da Mostra deste ano e seu projeto mais recente no cinema é "África dos Meus Sonhos", de 2000.
Divulgação Selton Mello e Alessandra Negrini no longa de Bressane
Por Pedro Butcher
Mais de 20 anos depois de "Brás Cubas", Julio Bressane revisita Machado de Assis em "A Erva do Rato", filme levemente inspirado nos contos "A Causa Secreta" e "Um Esqueleto".
Não se trata, evidentemente, de uma adaptação convencional. O filme traz apenas dois personagens sem nome, quase todo o tempo confinados em uma casa. Um homem e uma mulher (Selton Mello e Alessandra Negrini) se conhecem no cemitério e passam a viver juntos. Ele fotografa a mulher obssessivamente, até que um rato começa a roer as fotos. A partir daí, capturá-lo passa a ser sua nova obsessão. O rato é pego, torturado e morto (esta é a principal relação com "A Causa Secreta"), mas a mulher, que já vinha dando sinais de que estava doente, também morre. A obsessão do homem, porém, permanece, e agora só lhe resta fotografar um esqueleto.
Bressane permeia esta reflexão sobre a natureza humana e a natureza da imagem por comentários muito específicos, como a homenagem a Guará, figura imprescindível do cinema marginal, que morreu em 2006, ou ainda uma seqüência muito estranha, mas bem divertida, em que o homem monta um estranho aparato para que uma "sombra" fique observando a cena que ele montou para fotografar e mulher. Quando o aparato está pronto, o homem diz: "Agora temos um espectador!".
Seria este um comentário sobre a atual obsessão do cinema brasileiro em torno dos resultados de público? Seria "A Erva do Rato" a expressão de uma aflição legítima de Bressane em torno da quantidade de imagens mortas e filmes disformes produzidos hoje? Para falar disso, diz Bressane, só com a ironia de um Machado de Assis.
O que "A Erva do Rato" traz que não havia nos dois filmes anteriores do cineasta -"Cleópatra" e a obra-prima "Filme de Amor"- é este tom autocentrado, ainda que de forma alguma ressentido. Mas que impede que "A Erva do Rato" tenha a mesma grandeza.
Avaliação: bom
Na Mostra: "A Erva do Rato" tem sessão hoje (24), às 16h20, no Espaço Unibanco Pompéia 10.
Divulgação Cena do documentário realizado
por Stephanie Black
Por José Geraldo Couto
A conexão de Bob Marley (1945-81) com a África, em especial com a Etiópia,
sempre foi profunda. O documentário "Africa Unite", de Stephanie Black, explora
essa conexão a partir do megashow realizado em 2005 na capital da Etiópia, Addis
Abeba, para celebrar os 60 anos de nascimento do músico.
Astro máximo do reggae, Marley foi também um grande divulgador da religião
rastafári, que surgiu na Jamaica e tem no imperador etíope Hailé Selassié
(1892-1975) uma espécie de messias. Tafari Makonnen era o nome de Selassié antes
da sua coroação, e "Ras" quer dizer "príncipe", "líder" ou "cabeça" em amárico,
uma das línguas faladas na Etiópia.
Pois bem. No tributo de 2005, cerca de 300 mil pessoas assistiram ao show da
família Marley (a viúva Rita e uma penca de filhos e filhas). Alguém comentou
que deve ter sido o maior encontro de maconheiros da história. Ao mesmo tempo,
40 mil estudantes de todas as partes da África se reuniram para debater os
problemas do continente. O evento, apoiado pelo Unicef, teve a presença do ator
Danny Glover e da cantora Angélique Kidjo, embaixadores da entidade.
Além de registrar o encontro e ouvir os depoimentos dos Marley e de ativistas
jamaicanos e africanos, "Africa Unite" traz farto material de arquivo,
mostrando, entre outras coisas, a viagem iniciática de Bob Marley à Etiópia em
sua juventude e momentos significativos da atuação pan-africanista de
Selassié.
O resultado é um filme ao mesmo tempo vibrante e informativo, que
evidentemente deixa de lado questões incômodas, como a violenta repressão movida
por Selassié contra seus opositores, mas dá a ver a força de uma das últimas
utopias do mundo, aquela que, ao som do reggae, busca conciliar a luta e o
prazer.
Avaliação: bom
Na Mostra: "Africa Unite" têm
sessões hoje (23), às 16h, no Espaço Unibanco Augusta 5; e amanhã (24), às
16h20, no Reserva Cultural 1.
Em toda sessão da Mostra de SP, a platéia é convidada a votar. Recebe uma cédula para avaliar o filme assistido. A regra vale tanto para novíssimos longas, como "O Silêncio de Lorna", dos irmãos Dardenne, quanto para clássicos em reprise, como "O Poderoso Chefão", de Coppola.
Implantada já há muitos anos, é uma iniciativa ótima, pois estimula a participação do público e permite à organização medir a popularidade dos mais de 450 filmes que apresenta. É dessa votação que sai a lista de longas em competição que serão avaliados pelo júri oficial do festival. Ou seja, os principais premiados da Mostra passam, obrigatoriamente, pelo crivo popular.
A cédula de votação permite que o espectador atribua uma nota à obra em cartaz. São cinco opções, como mostra a reprodução acima: se o filme é excelente, a nota é 5; se é muito bom, nota 4; bom, nota 3; regular, 2. Por essa lógica, se o longa for ruim, péssimo, bola preta, uma bomba, sua nota será 1, certo?
Mais ou menos. Olhe de novo para a cédula. Na votação da Mostra, a nota 1 significa "não gostei". Ou seja, os filmes podem ser excelentes, muito bons, bons e até regulares. Mas nunca ruins. Enquanto as quatro outras notas representam avaliações objetivas, o critério para reprovar é subjetivo. É você, caro espectador, quem "não gosta", "não aprecia". Por esse raciocínio, o problema é sempre seu, nunca do filme. Pois, na Mostra, nenhum filme é ruim. E, claro, nenhum merece nota zero.
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Em tempo: a Mostra anunciará no próximo sábado os filmes mais bem votados pelo público e que concorrerão ao troféu Bandeira Paulista. Os cineastas Nicolas Klotz, Jorge Bodansky, Hugh Hudson e Samira Makhmalbaf e o diretor da TV alemã ZDF Meinolf Zurhorst formam o júri que determinará os vencedores.
Divulgação Pauline Ethienne e Jonas Bloquet, no filme de Joachim Lafosse
Por Inácio Araujo
Um pouco como não se faz filme no Brasil sem falar em drogas e favela, existe uma espécie de gênero no cinema francofone, que é o filme homossexual, de que “Lições Particulares”, de Joachim Lafosse, é uma ilustração exemplar.
Jonas é um projeto de tenista adolescente. É difícil ter dúvidas a esse respeito, já que Lafosse o focaliza por vários minutos no bate-rebate. Mas, sabemos em seguida, nem tudo vai como devia na vida do jovem esportista. Na escola, está para ser reprovado; no tênis, enterra-se nos momentos decisivos.
Existe ainda o front amoroso. Lá, ele se envolve com uma simpática amiga, Delphine, mas nem por isso fica totalmente feliz. No ato sexual, ele julga que vai rápido demais, que é incapaz de satisfazer à garota.
O pai de Jonas é separado da mãe e mora em outra cidade. A mãe é bastante ocupada. Jonas fica entregue a um grupo de amigos da mãe, que logo se revelam seus tutores. Pierre em particular dedica-se quase todo o tempo à tarefa de dar-lhe aulas capazes de fazê-lo passar no exame. Mas todos os três _dois homens e uma mulher_ estão empenhados na educação afetiva do menino. Quando ele se queixa da ejaculação precoce, é recebido com paciente benvolência pelos mais velhos: é a falta de experiência etc. As conversas giram em grande medida em torno de idéias libertinas, mediadas por Albert Camus.
Se o ensinamento intelectual corre por conta de Pierre, uma espécie de tutor do garoto, todos se encarregam dos ensinamentos sexuais. A chave de tudo vem quando Nathalie, a mulher do grupo, que faz carícias no corpo do garoto, é substituída por Pierre. Jonas não se dá conta (nesse momento, ele está com os olhos vendados).
Esse é o ensinamento essencial que o filme pretende transmitir: de olhos vendados, é indiferente que o objeto sexual seja uma mulher ou um homem. É uma variante meio marota do ensinamento de Freud, segundo o qual ser homo ou heterossexual é basicamente uma escolha, pois estamos aptos a ser ambas as coisas.
De todo modo, Freud nunca disse que isso seja algo que se faz de olhos vendados ou quando estamos em estado de total dependência, como o menino em relação a seu mestre, fato em torno do qual o filme de Lafosse pelo menos instaura uma ambigüidade que, pessoalmente, me parece descabida.
Avaliação: regular
Na Mostra: "Lições Particulares" têm sessões hoje (22), às 21h50, no Unibanco Arteplex 2; no domingo (26), às 22h10, no Reserva Cultural 1; e dia 29, às 17h30, no Unibanco Arteplex 2.
Divulgação No "Chefão", a máfia surge como organização social e familiar
Por Cássio Starling Carlos
Nas quase quatro décadas que separam as duas potentes representações da máfia exibidas na 32ª edição da Mostra, o cinema, sobretudo o americano, consolidou esse tipo de criminoso a ponto de convertê-lo em protagonista de um novo gênero. Entre “O Poderoso Chefão”, de Coppola, e “Gomorra”, de Matteo Garrone, inserem-se tantos outros mitos legados por nomes como Sergio Leone, Martin Scorsese, Brian De Palma, Michael Cimino e David Chase, só para citar os maiores.
Quase nada, no entanto, aproxima o épico familiar de Coppola e a crônica da falência social mostrada por Garrone, salvo uma impressão de duplicidade, de continuidade tênue entre dois mundos, de duas faces de uma mesma moeda que transitam da visão de um filme ao outro.
Durante a memorável sessão em película de “O Poderoso Chefão”, no Cinesesc, tornou-se muito mais evidente que em qualquer visão das cópias em DVD (inclusive a restaurada) o quanto o diretor de fotografia, Gordon Willis, é responsável pela construção de sentidos subjacentes ao filme. A iluminação mínima em interiores, a onipresença de tecidos escuros nos figurinos masculinos captados sob pouca luz e contra fundos obscuros acentua o contraste com os rosados dos vestidos e das faces femininas que pontuam o filme.
As contraposições luminosas reiteram, em particular, os dois espaços onipresentes ao longo do filme de Coppola, o dentro e o fora, o da obscuridade e o da claridade, cuja importância se confirma em cenas que abrem e fecham o filme.
Em nenhum momento eles são mostrados como opostos, sempre como complementares, ou antes, como duas faces da mesma coisa: a família é uma organização social que serve de base para os negócios, organização que exige a fidelidade dos laços. Nunca se ouve a palavra “máfia”. Por isso, mesmo que certos negócios se resolvam na base de sangue e assassinatos, nada impede que vejamos ali o retrato de uma empresa, na figura de um presidente, diretores, conselheiros e assessores.
Divulgação Em "Gomorra", a máfia ataca à luz do dia, sem máscaras sociais
Já em “Gomorra” não existe nada sob disfarce. Tudo é visto às claras, sob o sol, como manda o figurino do filme de denúncia. Parece que estamos longe da idéia de dois mundos na qual o lado do crime se articula e reproduz a face oficial e bem aceita da ordem social.
Com suas séries disparatadas de personagens, com cada uma das cinco histórias seguindo um rumo próprio, interligadas apenas pelo princípio da contravenção, “Gomorra” parece nos dar algo como “a verdadeira cara da máfia”, longe dos retratos heróicos ou mitificados produzidos pelo cinema americano. A escolha se torna evidente na figura dos dois jovens que emulam o personagem de Al Pacino no “Scarface” de Brian De Palma, dando a ver em plenitude a precariedade de sua realidade frente ao mito.
Só não parece adequado apenas contrapor as duas épocas nos dois modos de filmar, um fabulador, outro realista. O que muda na estética e na estrutura da representação dos filmes de Coppola e de Garrone reflete outro tipo de câmbio: na ordem dos negócios. À face reconhecida e glorificada de Don Corleone equivalia à do capital nos anos 70, com seus grandes executivos no comando de empresas de renome. Na ordem econômica do século 21, tal personalismo foi abolido em nome de um poder difuso, em rede, quase invisível, mas sentido de modo onipresente na tal figura do “mercado”.
Coppola explorou os talentos de Gordon Willis para sugerir a continuidade entre o limpo e o escuso. Garrone descarta as sutilezas para tornar evidente a cosagüinidade entre crime e liberalismo econômico, afinidade que começa nos métodos e termina nos resultados.
Como os negócios, o crime muda para continuar o mesmo.
Divulgação Miguel Gomes, à esq., em "Aquele Querido Mês de Agosto"
Por Leonardo Cruz
Miguel Gomes, 36, diretor do ótimo "Aquele Querido Mês de Agosto", contou por e-mail como foi o processo de criação de seu longa, um melodrama documental, que usa imagens reais de festas e procissões no interior de Portugal para contar uma ficção sobre a descoberta do amor e do sexo por dois adolescentes.
Elogiada desde a estréia na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes, a obra de Gomes foi um dos destaques do Festival do Rio e está na programação da Mostra de SP. O longa tem como pano-de-fundo o repertório musical dos bailes de agosto, mês de férias na Europa, e coloca em cena moradores da região da Beira e técnicos de cinema como protagonistas da narrativa ficcional, que envolve um pai, uma filha e um primo, todos músicos de uma banda de "pimba". A seguir, a íntegra da conversa com o cineasta.
Quando surgiu o projeto de “Aquele Querido Mês de Agosto”? O que o motivou a contar uma história ficcional na região da Beira, no interior de Portugal? A minha família tem uma casa nessa região. Passo férias aí desde criança. Aqui há uns anos, estava a assistir a um bailarico numa aldeia quando a máquina de fumos sobre o palco se descontrolou (como habitualmente). O guitarrista, um rapaz novo e com ar de provocador, parou de tocar por uns instantes e colocou na cabeça um capacete de mota. Continuou a tocar assim. A vocalista reagiu com aparente raiva, parecia indignada. E ele parecia tirar ainda mais gozo da fúria dela. Pensei que talvez fossem namorados ou, enfim, que o gozo dele e a fúria dela estavam relacionados com a relação dos dois, e não com o capacete. Mais importante que isso, pensei que a partir de uma situação de concerto, não narrativa, se poderia extrair momentos de uma ficção tendo como personagens os membros de uma banda de baile. Um melodrama construído com o repertório musical e os ambientes dos bailes de aldeia no interior de Portugal.
Você teve de adaptar o filme à falta de recursos financeiros. O que mudou do projeto original para a versão “mais econômica”? Qual era o orçamento inicial do filme e para quanto teve de reduzi-lo? O orçamento do filme sempre foi o mesmo, entre 700 e 800 mil euros. É o custo normal de uma longa-metragem em Portugal. O que aconteceu foi que, a uns dois meses da rodagem prevista, os produtores vieram me dizer que o dinheiro não chegava para o roteiro que eu tinha escrito. Esse roteiro era basicamente a segunda metade do filme actual, numa versão mais desenvolvida, com mais cenas e personagens. Como não havia dinheiro passei a um plano B.
A idéia de misturar ficção e documentário já existia desde o início do projeto ou foi fruto dessa dificuldade orçamentária? E em que momento você decidiu incluir a própria equipe em cenas do filme? O plano B foi partir para a região com uma pequena equipa - eu mais cinco pessoas - e uma câmara de 16 mm. Filmar os bailes e tudo aquilo que me parecesse importante, deixando o argumento para mais tarde. Se filmasse aqui verdadeiras procissões e bailes, já não teria que os recriar com o dinheiro do filme. Mas nessa altura não sabia ainda de que forma iria ligar tudo. Fui descobrindo-o ainda nesta primeira rodagem (verão 2006), na montagem desse material e reescrita do roteiro que tiveram lugar ao mesmo tempo, antes da rodagem final no verão do ano seguinte. Quanto às cenas de equipa, estão no filme por duas razões: 1) durante essa primeira rodagem havia dias em que não se passava nada e eu decidia filmar as próprias pessoas da equipa; 2) porque, se eu pedia às pessoas da terra para entrarem num filme e fazerem personagens, era justo que nós, os forasteiros, também fizessemos o mesmo. Uma mera questão de justiça social.
Seu filme foi muito elogiado pela crítica francesa em Cannes e também foi bem-recebido aqui no Brasil em sua exibição no Festival do Rio. Em Portugal, com apenas duas cópias, o filme tem uma boa média de público. As dificuldades financeiras e conseqüentes adaptações do projeto (e a reflexão sobre as limitações econômicas) fizeram bem a “Aquele Querido Mês de Agosto”? Pelos vistos. Na verdade, o filme saiu em Portugal com seis cópias. Mas o facto das pessoas gostarem ou não - críticos ou não críticos, portugueses, franceses ou brasileiros - ultrapassa-me completamente. Faço os filmes que eu gostaria de ver como espectador. As cumplicidades das pessoas com os filmes que vêem são da sua exclusiva responsabilidade. Ainda bem que há bastantes que estabeleceram uma cumplicidade com este.
Ou todos os problemas financeiros nunca existiram e o projeto do filme sempre foi esse mesmo? Ai, existiram, existiram...
A cena da queda dos dominós, além de divertida, serve de alerta ao espectador quanto à “veracidade”, o caráter documental, das imagens exibidas. Existe uma imagem “verdadeira” no cinema? É possível a distinção clara entre documentário e ficção? Isso são questões muito complicadas e eu não tenho inteligência para elas. Bom, mas neste caso já existia uma vontade de ficção nas pessoas daquela região e naquele mês específico - é o tempo das festas onde tudo é possível, existem canções absurdas e rebenta fogo de artifício, a realidade em si já é uma reencenação, um espectáculo. E pelo contrário, o documental numa ficção existe na presença das pessoas e das matérias concretas que ela congrega. Tudo o mais, remeto para o discurso do meu director de som na última cena do filme.
Divulgação A estreante Sónia Bandeira, que vive a cantora Tânia
Como foi a escolha do elenco? São todos amadores da região ou há atores profissionais? Todos amadores, uns vindos da região, outros do cinema - mas não como actores, como técnicos! Mais uma vez uma questão de ética: no filme há um cruzamento entre aquela terra e as suas populações e o cinema que a invadia com outras pessoas (nós) e o equipamento (que também foi parar todo à tela). O personagem do pai era mesmo o meu director de produção; o baixista da banda é o meu assistente de realização; até a mãe do Helder, que fala francês, era a minha maquilhadora da longa anterior.
Em seu filme, a música de baile portuguesa, popular, faz a ligação entre o ficcional e o documental. Como foi a pesquisa musical e a seleção das canções? Foi longa. Escrevi o argumento com a Mariana Ricardo, que trabalha em música. Ouvimos centenas de discos, milhares de canções que vocês chamariam brega, e nós, pimba. O nome pimba veio de uma canção popularizada há uns anos que tinha o seguinte refrão: "Se elas querem um abraço ou um beijinho, nós pimba, nós pimba".
A trama ficcional, um melodrama, surgiu a partir dessa pesquisa dos bailes e das festas da Beira, ou o argumento já existia e as músicas, também melodramáticas, foram selecionadas para se adaptar a ele? A segunda, mas eu queria que as coisas se complementassem. A ficção do pai, da filha e do primo podia virar canção, e as canções que ouvimos podiam ter sido a trama principal.
Há músicas de brasileiros no filme (Roberto Carlos, Nelson Ned). E é possível estabelecer um paralelo entre a música de baile portuguesa e a música caipira brasileira, do interior do país. Em que medida a música brasileira é uma influência nesse universo musical abordado em seu filme? Na verdade, muitas destas canções portuguesas são versões de canções brasileiras. Os grupos portugueses roubaram-nas e nós roubamo-las a eles.
Seu filme parece também uma busca por uma identidade nacional portuguesa, por identificar elementos culturais comuns à sociedade. Essa busca, esse questionamento é inerente ao cinema (ou à arte)? Você enxerga essa mesma busca em outros cineastas de seu país? Quais? Quando se filma pessoas reais em sítios reais a fazerem coisas mais ou menos reais, a realidade fica presa no filme. O Portugal deste filme não é o Portugal todo, é uma pequena parte. Realizadores como Pedro Costa, João César Monteiro ou Manoel de Oliveira têm também o Portugal deles onde muitas vezes me reconheço como português e amante de cinema.
Você foi crítico de cinema entre 1996 e 2001. Escrever críticas ajudou (ou atrapalhou) a criar seus filmes? Ajudou a arrumar a cabeça, a perceber melhor o que me interessava no cinema. Depois, esqueci tudo.
Seu filme foi escolhido para representar Portugal na disputa por uma vaga no Oscar. O que pensa da premiação da Academia? Prepara algum tipo de campanha para promover o longa nos EUA? Are you joking?
O que conhece do cinema brasileiro? Algum diretor do passado o influenciou? Quais cineastas brasileiros acompanha agora? O cinema novo, claro. Algo muito datado, mas às vezes com uma energia que não encontro agora. O único filme brasileiro que me pareceu bom nos últimos anos chamava-se "Cronicamente Inviável", de um tipo louco, o Sérgio Bianchi. Mas vi muito pouco.
Conhece o Brasil? Tem planos para filmar alguma história no país? Estou à espera que me convidem para ir aí. Sem planos.
Quais seus próximos projetos em cinema? E quais as dificuldades que você já prevê para realizá-los em Portugal? O próximo estou a escrevê-lo agora. Não conto nada porque depois vai mudar tudo e estou para aqui a dizer disparates. O título é bonito embora pouco original: Aurora.
Uma última pergunta, que me ocorreu após ler suas respostas: o processo de montagem foi dividido em duas partes? Houve uma primeira montagem, da parte documental? E depois uma montagem final? Foi isso mesmo, Leonardo. Filmamos em 2006 e montamos esse material enquanto rescreviamos o roteiro. Foi nessa fase que decidimos que a primeira parte do filme seria uma busca por actores. Alguns destes actores já estavam escolhidos em castings anteriores, mas aparecem no filme como se os tivéssemos encontrado no local enquanto filmamos a primeira parte; outros foram realmente encontrados aí, quando os filmamos, não sabíamos que voltariam para a segunda rodagem, fazendo personagens. Deixamos na primeira montagem cenas descritas em cartões que só filmaríamos na segunda rodagem (o confronto entre o realizador e o director de produção, por exemplo). Na reescrita também inventamos todo esse sistema de rimas entre as duas partes. A segunda rodagem foi feita no verão de 2007, seguida de uma montagem geral com nova intervenção nessa montagem anterior.
Na Mostra: "Aquele Querido Mês de Agosto" tem sessões hoje (22), às 21h20, no Unibanco Arteplex 4; amanhã (23), às 17h, no Cine Olido; quinta (24), às 16h30, na Cinemateca (sala Petrobras); dia 29, às 17h50, no Unibanco Arteplex 4.
Divulgação Devon Bostick interpreta Simon em "Adoração", de Egoyan
Por Pedro Butcher
Há tempos Atom Egoyan trabalha com a fórmula da narrativa “em camadas”, fragmentada – hoje tão banal. Seus roteiros, em geral elaboradíssimos, convidam o espectador a acompanhar vários personagens e histórias aparentemente sem relação, para, no fim, ligar os pontos que conectam os fragmentos.
Nos primeiros filmes de Egoyan – principalmente “The Adjuster” e “Exótica” – essa fórmula tinha um sabor de novidade e um tom misterioso, que encobria certa pretensão pós-moderna. No entanto, depois de ter realizado o ótimo “O Doce Amanhã” (Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1997), Egoyan passou a carregar seus filmes de um sentimento de auto-importância e de um tom moralista, refletindo uma certa vontade excessiva de dar conta das mazelas do mundo.
“Adoração” é o projeto deste cineasta canadense que vai mais longe nesse sentido – mais ainda que “Ararat”, em que ele apelou à metalinguagem (o “filme dentro do filme”) e aos traumas psicológicos e familiares (temas de sua predileção) para falar do genocídio armênio pelo exército turco, em 1915.
Terrorismo, internet e a hoje onipresente questão da intolerância religiosa são os elementos da “nova ordem mundial” que “Adoração” discutirá, de forma direta ou indireta. Egoyan ainda dá um jeitinho de incluir a questão da identidade nas sociedades atuais e da própria representação.
No centro de tudo está Simon (Devon Bostick) jovem canadense de origem libanesa que mora com seu tio conservador desde que perdeu os pais. Simon escreve para a aula de francês uma redação mentirosa, em que seu pai seria um terrorista. Mesmo sabendo que a história é uma ficção, sua professora (Arsinée Khanjian) estimula que ele leve a mentira adiante apenas para “testar” os limites da tolerância dos estudantes e da escola.
Não importa que a atitude da professora seja absurda – os personagens de Egoyan estão a serviço de algumas teses pré-concebidas, algumas delas questionando a suposta transparência da comunicação pela internet. No fim, saímos da sala de projeção com a sensação de ter assistido a uma longa aula, sem o direito de questionar o professor.
Avaliação: ruim
Na Mostra: "Adoração" têm sessões hoje (20), às 17h40, no Cinesesc; amanhã (21), às 22h10, no Espaço Unibanco Pompéia 1; e quinta (23), às 15h50, no Cine Bombril 1.
Divulgação Uma das muitas carnificinas de "Gomorra", de Matteo Garrone
Por Sérgio Rizzo
“Outros países têm a máfia. Na Bulgária, a máfia tem o país”, afirmou o parlamentar búlgaro Atanas Atanasov, ex-chefe de contra-inteligência do país, na edição da última quinta-feira do “New York Times”. “Gomorra” faz a região sul da Itália ficar muito parecida com a Bulgária descrita por Atanasov: como se o Estado só existisse ali para coletar impostos e recolher cadáveres, quem manda são os chefões do crime organizado que se mantêm no poder graças ao medo provocado na população por suas milícias, entre outros expedientes.
Vencedor do Grande Prêmio (espécie de vice-campeonato) no Festival de Cannes deste ano, “Gomorra” é baseado em “romance de não-ficção” do jornalista napolitano Roberto Saviano, 29. Além de informações sobre os episódios verídicos recriados no livro, seu site traz diversos artigos publicados ao longo desta semana pela imprensa internacional sobre a sua inclusão entre os jurados de morte da Camorra (que planejaria assassiná-lo até o final do ano, segundo um informante anônimo) e sua decisão de abandonar a Itália. Desde 2006, ele tem escolta policial.
O site de Saviano informa que o livro foi publicado em 33 países -entre eles o Brasil, onde teria sido editado pela “Editora Betrand”, supostamente a Bertrand Brasil, do grupo editorial Record, mas ele ainda não saiu por aqui- e deu origem também a uma peça teatral. Os direitos de distribuição do filme no Brasil foram comprados pela Paris, que ainda não informou a data prevista para o lançamento.
Na adaptação do diretor e roteirista romano Matteo Garrone, 40, “Gomorra” se aproxima, com tintas bem contemporâneas, da forte tradição política do cinema italiano dos anos 60 e 70, homenageada pela 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com a publicação de um livro de entrevistas e a exibição de clássicos como “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (1969), de Elio Petri, e “O Caso Mattei” (1972), de Francesco Rosi.
Logo na seqüência de abertura, uma carnificina deixa claro que não haverá nenhuma estilização da violência ou romantização de personagens; prevalece um registro semidocumental que sublinha a brutalidade com que agem as milícias e a banalização da vida em ambiente social de perspectivas muito restritas. Na primeira parte do filme, são apresentados diversos núcleos dramáticos, quase todos entrelaçados pelos apartamentos e corredores claustrofóbicos de um conjunto habitacional.
Há um “doutor”, com pinta de respeitável, que faz os pagamentos da Camorra e ouve reclamações; um menino que observa com fascínio a integração dos mais velhos às milícias; dois jovens que resolvem agir por conta própria, cientes de que, na máfia ou contra ela, não viverão por muito tempo; um fabricantes de roupas, endividado com os chefões, e seu costureiro-chefe; um empresário que localiza terrenos para depósito ilegal de substâncias químicas e seu dedicado assistente; um grupo que procura desestabilizar o estado de coisas para tentar assumir o controle do crime na região.
Em torno deles, aparecem colombianos que traficam drogas, chineses que tentam entrar a qualquer custo no mercado de alta costura e grandes corporações envolvidas em negócios escusos. A economia globalizada tem máfias, ou as máfias têm a economia globalizada?
Avaliação: ótimo
Na Mostra: "Gomorra" têm sessões hoje (19), às 20h50, no Reserva Cultural 1; dia 25, às 16h, no Espaço Unibanco Pompéia 1; e dia 26, às 15h40, no Espaço Unibanco Pompéia 1.
A Academia que concede os Oscars divulgou o número de inscrições para concorrer às cinco vagas de melhor filme estrangeiro em 22 de fevereiro do ano que vem. Foram 67 produções. Os indicados saem em 22 de janeiro.
Na Mostra deste ano, podem ser visto 17 deles, incluindo "Última Parada - 174", de Bruno Barreto, pelo Brasil.
Divulgação Cena do documentário "A Vida Moderna", de Raymond Depardon
Por José Geraldo Couto
Aos 66 anos, Raymond Depardon ocupa um lugar à parte no cinema francês. De suas origens no fotojornalismo (foi um dos fundadores da agência Gamma), transpôs ao cinema um olhar objetivo e perscrutador sobre a realidade. Experimentou várias formas de documentário, em particular o “cinema direto” de inspiração americana, em filmes como “Reporters” (1981), “Faits Divers” (1983) e “1974, une Partie de Campagne”, este último sobre a campanha presidencial de Valéry Giscard d’Estaing, só liberado pela censura em 2002. Mesmo quando empreendeu a ficção, como em “La Captive du Désert” (1990), estrelado por Sandrine Bonnaire, foi com um despojamento estético análogo à aridez de seu tema (uma arqueóloga francesa mantida como refém durante dois anos e meio no Chade).
Em “A Vida Moderna”, Depardon registra o dia-a-dia e as idéias de um punhado de camponeses das montanhas Cévennes, no sul da França. É, na verdade, o terceiro filme de uma espécie de série intitulada “Perfis Camponeses”. O primeiro, “L’approche”, foi rodado em 2001, e o segundo, “Le quotidien”, em 2005.
“A Vida Moderna” revisita vários desses personagens, e o diretor comenta, nas entrevistas e na narração em “off”, as mudanças verificadas no período. Trata-se da documentação de um modo de vida em extinção. O título é irônico, pois não há nada de moderno na vida dessas famílias que criam cabras e carneiros e aram a terra com instrumentos arcaicos. Os velhos estão morrendo (pelo menos dois deles morreram depois das filmagens), as novas gerações vão para as cidades engajar-se em outros ofícios, quase ninguém mais fala o dialeto da região.
Depardon capta com paciência e sensibilidade esses resquícios de um outro tempo, de um outro mundo. Estabeleceu com ele laços de confiança e deixa-os falar diante da câmera em longos planos fixos, um pouco à maneira do brasileiro Eduardo Coutinho.
Assim como Coutinho, Depardon não interrompe as falas nem evita os silêncios, pois sabe que as hesitações, repetições e falhas da fala expressam às vezes mais até do que as palavras. Não é tão radical em seu “dispositivo” quanto o brasileiro _“poetiza” a cena, por exemplo, ao colocar Gabriel Fauré na trilha musical_, mas realiza um trabalho de inestimável valor histórico e antropológico.
O filme começa com um travelling em frente, assumindo o ponto de vista do carro que avança pelas estradinhas mal pavimentadas rumo às moradas dos entrevistados, e termina com o movimento oposto, como se víssemos pelo retrovisor o desaparecimento gradual da memória do mundo.
Avaliação: bom
Na Mostra: "A Vida Moderna" têm sessões hoje (18), às 16h, no Unibanco Arteplex 1; dia 24, às 20h40, na Cinemateca (sala BNDES); e dia 27, às 13h30, no Unibanco Arteplex 2.
José Padilha, diretor de "Tropa de Elite" (2007) e "Ônibus 174" (2002), divulgou hoje à noite um comunicado para dizer que seu novo filme, "Garapa", não ficará pronto a tempo de ser exibido na 32ª Mostra de Cinema de SP. O documentário, que acompanha famílias cearenses desnutridas, teria sessões nos dias 28, 29 e 30/10.
Veja a explicação do diretor, na íntegra:
"Infelizmente, devido a um problema técnico na LABO CINE, o Garapa não ficará pronto para a exibição no dia 28 do corrente, na 32ª. Mostra Internacional de Cinema.
A LABO tem uma janela molhada capaz de ampliar de super 16 para 35mm, e a janela quebrou na sexta-feira passada.
Os técnicos do laboratório tentaram consertá-la, mas não conseguiram até o presente momento. Talvez tenham que enviar o equipamento para o Japão.
Neste caso, o equipamento ficaria pronto apenas no final do ano!
Algumas alternativas me foram oferecidas, como reenquadrar todo o filme para a janela 16 ou ampliá-lo em uma janela seca.
Nenhuma das duas alternativas é aceitável, evidentemente.
No primeiro caso, porque não faz sentido mesmo. No segundo, porque a qualidade da ampliação seria muito pior.
Peço, por favor, que a Mostra comunique oficialmente a imprensa sobre o cancelamento da exibição do filme.
De minha parte, e da parte do filme, lamento muito não poder participar da Mostra."
Divulgação Yasujiro Ozu, cujos dois últimos longas passarão na Mostra
Por Sérgio Rizzo
Na avalanche de filmes da Mostra, é possível que um de seus momentos mais sublimes, na “cota cinemateca” do mega-evento, passe quase despercebido. A discrição combinaria, de qualquer forma, com a natureza serena da preciosidade: os dois últimos longas do japonês Yasujiro Ozu (1903-1963), “Fim de Verão” (1962) e “A Rotina Tem Seu Encanto” (1962), selecionados pelo alemão Wim Wenders entre os 15 títulos da Carta Branca que a organização do festival lhe concedeu.
Os filmes ocupam o início das tardes das próximas terça, quarta e quinta no Cinesesc. No primeiro dia, passam em seqüência: “Fim de Verão”, às 13h30; “A Rotina Tem Seu Encanto”, às 15h30. Escritos por Ozu e por seu colaborador habitual, Kogo Noda, ambos haviam sido exibidos na 27ª Mostra, em 2003, quando foi lançado o livro “O Anticinema de Yasujiro Ozu”, do cineasta e escritor Kiju Yoshida, homenageado com retrospectiva na mesma edição do festival.
“Uma coisa é certa: não podemos penetrar o universo cinematográfico de Ozu se não acreditamos na existência de um espelho mágico e em nossa capacidade de ver o que não pode ser visto. Isso porque não somos nós, espectadores, que vemos o filme de Ozu, mas é o filme de Ozu que nos observa”, afirma Yoshida no livro.
Como a mãe de Ozu tinha ótima saúde (morreu aos 86 anos, um ano antes do que o filho), ele imaginava que teria também uma vida longa. Seus dois últimos filmes não foram realizados por alguém que se considerava próximo da morte, mas abordam o tema, a exemplo de alguns de outros longas realizados por ele a partir do início dos anos 50.
Em “Fim de Verão”, admirável pela mudança de tons ao longo da história, que começa mais alegre e termina de forma dolorosa, o comportamento irreverente de um viúvo preocupa suas três filhas –uma solteira, outra casada e a terceira viúva– e impede que a pequena fábrica de saquê da família adote medidas necessárias para evitar a falência.
O protagonista de “A Rotina Tem Seu Encanto” também é um viúvo, ex-militar que trabalha como inspetor de uma fábrica em Tóquio, empenhado em possibilitar que a filha se case e toque a própria vida. “O universo cinematográfico nele contido –do qual só se pode dizer tautologicamente ser típico dele– é delineado exatamente como se o diretor estivesse alinhavando reminiscências e experimentando repetições na medida certa, e assim essa obra torna-se, muito adequadamente, sua última produção”, diz Yoshida.
Wenders – que homenageia Ozu em “Tokyo-Ga” (1985) –comentará “Fim de Verão”, “A Rotina Tem Seu Encanto” e os demais 13 filmes de sua Carta Branca na próxima terça-feira, dia 21, em seguida à exibição de seu mais recente longa, “The Palermo Shooting”, às 21h10 no Cinesesc.
A seguir, como curiosidade, o trailer japonês de "A Rotina Tem Seu Encanto".
Divulgação Frances McDormand, em "Queime Depois de Ler", dos Coen
Por Pedro Butcher
Tecnicamente, “Queime Depois de Ler” é uma comédia. Todos os sinais estão lá: no teor dos diálogos, na caracterização e no tom da interpretação dos atores, no ritmo e no encadeamento da ação. E, de fato, o filme guarda vários momentos engraçados.
No entanto, prevalece neste novo filme dos irmãos Coen –o primeiro depois da consagração do violento “Onde os Francos Não Têm Vez”– uma estranha sensação de melancolia. Os Coen já fizeram outras comédias de erros como esta, em que mal-entendidos detonados pela estupidez humana provocam efeitos tragicômicos. Mas se suas comédias nunca foram “puras”, também nunca apresentaram um sentimento tão triste.
Com exceção do professor de educação física interpretado por Brad Pitt –que parece ter sido criado para defender a tese de que a felicidade mora na burrice–, todos os personagens são infelizes e passam por momentos especialmente deprimentes.
Na primeira cena, por exemplo, vemos o agente da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) ser cruelmente dispensado do trabalho por seus “problemas com o álcool”. Ele nega, mas chega em casa e se afoga no uísque. Paralelamente, acompanhamos a depressão da administradora de uma academia de ginástica (Frances McDormand) preocupada com a idade que chega e obcecada em conseguir dinheiro para fazer operações plásticas. Por fim, há o casal de amantes formado por Harry Pfarrer (George Clooney), um homem ansioso e fracassado, e a mulher de Osbourne Cox (Tilda Swinton), uma executiva insuportável.
Todos esses personagens se envolvem em uma trama improvável, com direito a chantagem, ambição e traições. Como é comum nos filmes dos Coen, um personagem (intepretado por J.K. Simmons) acompanha tudo à distância, meio estupefato, enquanto a trama se torna cada vez mais absurda.
O sentimento de desilusão em “Queime Depois de Ler” confirma os irmãos Coen como cineastas radicalmente anti-Frank Capra. Não há diretores mais descrentes nas promessas do sonho americano. Talvez “Queime Depois de Ler” faça mais sentido se lido como uma despedida dos traumas e valores da era Bush, com o estranho sentimento de que seus efeitos serão de longa duração e de que a tristeza dos cidadãos americanos ainda vai perdurar por algum tempo.
Avaliação: bom Na Mostra: "Queime Depois de Ler" têm sessões hoje (17), às 17h50, no Unibanco Arteplex 1; amanhã (18), às 21h50, no Espaço Unibanco Pompéia 1; domingo (19), às 21h10, no Espaço Unibanco Augusta 3; segunda (20), às 14h, no HSBC Belas Artes 2; e sexta (24), às 22h, no Cinesesc.
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo conta quais são os filmes em cartaz na Mostra de SP que já têm previsão de estrear no circuito comercial brasileiro nos próximos meses, como "Leonera", de Pablo Trapero, e "O Silêncio de Lorna", dos irmãos Dardenne. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Divulgação "Ecstasy of the Angels", de Koji Wakamatsu, que estará no Indie
Por Cássio Starling Carlos
Aviso aos maratonistas: o tempo para retomar o fôlego será de apenas uma semana.
A esta altura todo mundo sabe que a Mostra Internacional de Cinema de SP, que começa nesta sexta, confirma-se, com números cada vez mais ciclópicos, como o maior evento cinematográfico da cidade. A correria para encaixar tudo o que se quer ver vai até o dia 30, e depois sempre tem aqueles dias a mais de repescagem.
A boa notícia é que, depois de estrear mansinho no ano passado, o Indie retorna a São Paulo no intervalo entre o fim da mostra e o início do Mix Brasil, que sempre traz alguns títulos interessantes. A abertura, neste ano, será no dia 6 (para convidados), e a programação se estenderá até 12 de novembro, sempre no Cinesesc (r. Augusta, 2.075), com ingressos a R$ 6. A versão belo-horizontina do Indie, aberta na quinta passada, encerra-se hoje, depois de levar 134 títulos ao entusiasmado público da capital mineira.
Em São Paulo, segundo Francesca Azzi, que integra o trio de curadores do evento, o recorte manterá os títulos completamente inéditos das seções “Mostra Mundial”, “Premiers Films”, “Música do Underground” e “Nippon Connection”. Mas a cereja do bolo é a seleção de seis títulos do mestre do “pinku eiga”, Koji Wakamatsu.
Um dos mais sólidos gêneros do cinema japonês a partir dos anos 60, os “filmes rosa” foram, além de extremamente populares, território de experimentação estética e simbólica para diretores que ainda permanecem fora do cânone. Na opinião do diretor Nagisa Oshima, cujo ousado “Império dos Sentidos” bebeu direto na fonte dos “pinku”, “os filmes de Koji Wakamatsu oferecem aos seus espectadores uma experiência que não tem equivalente sob a luz do sol. É a voz do desejo, dos propósitos delituosos e, portanto, da miséria matizada, que ecoa na noite. Conseqüentemente, a relação entre os filmes de Wakamatsu e o espectador é altamente subjetiva, privada e, portanto, concreta”.
O pessoal do Indie preferiu manter segredo dos seis títulos que integram a mostra Wakamatsu, mas pelo menos três já estão confirmados: “The Embryo Hunts in Secret” (de 1966) é descrito como “um primor de claustrofobia e assédio sexual”; “Ecstasy of the Angels” (de 1972) mistura radicalismo político e violência sexual a um uso expressivo de distintas bitolas que conduz o filme para além dos limites do experimental; por fim, “United Red Army” (2007) (trailer), seu trabalho mais recente, mantém evidente a vocação política do cinema de Wakamatsu ao reconstituir a evolução de uma fração do movimento estudantil dos anos 60 até se transformar em um grupo terrorista alinhado com as Brigadas Vermelhas italianas e os alemães Baader-Meinhof.
Divulgação "Tudo Perdoado", estréia na direção de Mia Hansen-Love
Em pleno acordo com o espírito do Indie, é preciso garimpar para descobrir bons trabalhos que ainda se encontram fora do circuito óbvio da consagração cinéfila. Neste sentido, a mostra realizada pela Zeta Filmes preserva a idéia de risco, tanto para o melhor como para o pior. Do que foi exibido em BH e vale, desde já, a atenção curiosa está “Quando Eu Era uma Criança Lá Fora”, terceiro trabalho de John Torres que mistura documentário e auto-ficção. Trata-se de um exemplar do emergente cinema filipino que pode satisfazer quem tem interesse por descobertas.
Outro título que já chega com certa repercussão é “Tudo Perdoado”, estréia na direção da francesa Mia Hansen-Love (ex-crítica dos “Cahiers du Cinéma”). Definido pelo colega Eduardo Valente como “pequeno filme grande”, o que é sempre mais estimulante que os “grandes filmes pequenos” que costumam entulhar os caminhos da cinefilia curiosa.
Divulgação A nova versão de "Cinzas do Passado", de Wong Kar-wai
Por Leonardo Cruz
Já está fazendo planos e contas do que vai ver na Mostra de SP? Perdido entre as mais de 400 produções em cartaz na cidade a partir de sexta-feira? Quer uma mãozinha? A seguir, uma lista de 50 destaques entre os filmes novos da 32ª edição do festival. Basta clicar em cada título para saber quando estes longas serão exibidos.
Vale a pena ver de novo Além desses 50 novos filmes, há também as reprises e retrospectivas, das quais se destacam: Ingmar Bergman: os 12 longas em cartaz são uma oportunidade única de conhecer a fase inicial da carreira do diretor sueco “O Poderoso Chefão”: o clássico de 1972 de Francis Ford Coppola é apresentado em versão restaurada em duas sessões no Cinesesc “Berlin Alexanderplatz”: também em versão nova, recuperada, a minissérie que Fassbinder fez originalmente para a TV alemã passa em maratona de seis dias Pablo Trapero: pela chance de rever no cinema “Mundo Grua” , o filme que revelou este ótimo cineasta argentino
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Os filmes que você não vai ver agora Quatro grandes filmes da temporada que haviam sido confirmados pela Mostra ficaram de fora da programação “Entre les Murs”, de Laurent Cantet (Palma de Ouro em Cannes-08) “Quatro Noites com Anna”, de Jerzy Skolimowski “Tokyo!”, de Bong Joon-ho, Leos Carax e Michel Gondry “Eldorado”, de Bouli Lanners
Divulgação Cena de "Amapô", de Kiko Goifman, que está no festival
Por Sérgio Rizzo
Os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos ―documento com um preâmbulo e 30 artigos, adotado em resolução da Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em 10 de dezembro de 1948― pautam a programação da 3º Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que prossegue até o próximo domingo, dia 12, em São Paulo, com exibições no Cinesesc e na Cinemateca Brasileira.
O evento talvez seja o único festival brasileiro que pode ser chamado de nacional, pois percorrerá outras 11 capitais até 6 de novembro. Em Curitiba (na Cinemateca), teve início na última terça-feira, dia 7. Nesta sexta-feira, dia 10, chega a Salvador (na sala Walter da Silveira). Brasília (no CCBB), Fortaleza (no cine Benjamin Abrahão) e Rio de Janeiro (também no CCBB) entram no circuito na próxima segunda-feira, dia 13.
A mostra começa na terça-feira, dia 14, em Teresina (na sala Torquato Neto do Clube dos Diários); no dia 20, em Recife (na Fundação Joaquim Nabuco); no dia 21, em Porto Alegre (no cine Santander Cultural); no dia 22, em Belém (no cine Líbero Luxardo); no dia 27, em Belo Horizonte (no cine Humberto Mauro); e, no dia 31, em Goiânia (no cine Goiânia Ouro).
Interessados em aproveitar a programação para ampliar o alcance da discussão sobre o tema, principalmente no ensino formal e informal, podem conhecer na mostra o projeto Marco Universal - Direitos Humanos: A Exceção e a Regra, que lançou um kit educacional com DVD (trazendo nove documentários de curta-metragem), CD-ROM (com a revista eletrônica “Reinventando os Imaginários”) e livreto (com a íntegra da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Informações sobre como obtê-lo: (21) 2265-6027, thiago@xbrasil.net.
Documentaristas veteranos participam da coletânea de curtas, como Eduardo Escorel (seu “J” fala de um líder comunitário perseguido pela milícia que denunciou), Sandra Kogut (em “Cavalão”, ela registra as mudanças de comportamento em comunidade de Niterói depois de transformações na política de policiamento local) e Tetê Moraes (que, em “Fruto da Terra”, localiza em uma faculdade de medicina de Cuba o filho de sua personagem nos longas “Terra Para Rose” e “O Sonho de Rose - 10 Anos Depois”).
Divulgação "Vidas no Lixo", de Alexandre Stockler, que está em DVD e na mostra
Na seqüência em que o DVD apresenta os nove documentários, o primeiro talvez seja o mais impactante: “Vidas no Lixo”, de Alexandre Stockler, que acompanha a rotina de duas adolescentes e um rapaz que vivem do lixo (se alimentam dele, inclusive) em São Paulo. Assassinatos são a matéria-prima de “Jonas, Só Mais Um”, de Jeferson De, sobre a morte de um rapaz negro (“cor padrão”, na gíria da polícia) por um segurança de agência bancária, também negro, e “Amapô”, de Kiko Goifman, sobre o preconceito contra transexuais.
“Escola Eldorado”, de Victor Lopes, lembra o massacre de sem-terra (oficialmente, 19) em Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996, e chega à escola onde estudam hoje filhos e netos dos garimpeiros que se deslocaram para a região. “O Pequeno e o Grande”, de Fábio Gavião, João Jardim e Markão Oliveira, mostra como uma brincadeira de criança com materiais de construção e miniaturas variadas, em uma favela do Rio, gerou o projeto Morrinho, que já participou de exposições de arte no exterior. E quatro episódios (três deles em animação) realizados por alunos da Spectaculu - Escola de Arte e Tecnologia, do Rio de Janeiro, compõem o curta “Flor na Lama”.
O terrorismo, ou a “guerra ao terror”, a partir de 2001, deu novo impulso a diretores e roteiristas que andavam em busca de um grande tema após o fim da Guerra Fria (e das grandes guerras). Mesmo quando não tratados de forma explícita, questões recorrentes e definidoras de um “zeitgeist”, como “paranóia” ou “medo”, garantem um espectro bem amplo para se contar qualquer história em qualquer gênero.
Alguns filmes em cartaz na cidade, numa temporada que anda morna há algumas semanas, são exemplares nesse sentido.
“Fay Grim” (2006) decretou a volta de Hal Hartley, um dos cineastas mais (super?)estimados dos anos 1990. Se o espectador tentar assistir ao filme com os olhos de “cinema independente” da época, sairá da sala decepcionado. Afinal, é como se Hartley tivesse abandonado seu lado europeu e resolvesse abraçar as tramas rocambolescas ao estilo trilogia Bourne.
O termo “paranóia” explica essa opção. É como se Hartley tivesse passado uma borracha no passado dos personagens de “As Confissões de Henry Fool” (97) e os reescrevesse sob uma nova lógica, confusa e absurda. Nada mais será como antes e todos serão diferentes é o clima pós-11 de Setembro que “Fay Grim” capta bem.
Se, em “As Confissões...” Henry era apenas um homem misterioso e escritor medíocre, aqui descobrimos que ele na verdade sempre foi um terrorista, e agora também amigo de um clone de Osama Bin Laden. Melhor ver “Fay Grim” como um grande delírio, uma lamentável realidade alternativa.
Numa linha mais óbvia e explícita vem “Controle Absoluto”, eficaz dentro da fórmula do blockbuster. Não dá para explicar muito a trama sem estragar a surpresa que aparece lá pela metade do filme. O que se percebe é como a guerra ao terror alimenta a imaginação dentro da tradição de ficções que projetam um futuro sombrio e distópico.
E não deixa de ser risível, mas divertida, a referência direta e clara que “Controle Absoluto” faz ao supercomputador HAL 9000 de “2001 - Uma Odisséia no Espaço”.
Mas, se na vida real os candidatos à Presidência norte-americana pareciam monotemáticos ao falar em segurança nacional num primeiro momento, agora, em tempos de crise, Bolsa etc., é de se perguntar se o cinema também não está preso a um passado recentíssimo.
A venda de permanentes e pacotes de ingressos para a 32ª Mostra de SP foi antecipada em um dia e começará neste próximo sábado, às 10h, na central do festival, no Conjunto Nacional. Os preços continuam os mesmos informados neste post da semana passada.
No aprendizado diário do que se deve (ou não) fazer para tentar produzir crítica (de cinema ou de outras formas de expressão), acabei descobrindo que uma das mais tortuosas é definir qual distância tomar dos objetos. O excesso de devoção, de irritação ou mesmo de indiferença decorre, em boa parte, dessa proximidade que mantemos em relação ao trabalho alheio. Outra forma de distância que venho tentando aprender a tomar é do excesso de filmes. Como pensar quando se assiste a um amontoado de imagens?
Foi com isso em mente e temeroso dos efeitos nefastos da indigestão fílmica que aceitei um convite, feito pelos organizadores da Mostra de Cinema Japonês, que se realiza nesta semana em Belo Horizonte, para participar de uma mesa-redonda. Já conhecia os títulos mais clássicos programados e não nutria nenhum entusiasmo particular pela retrospectiva de Masahiro Kobayashi, o que me estimulou a aceitar o convite, pois seria uma oportunidade de praticar um dieta saudável de cinema em vez de me empanturrar no Festival do Rio e antes da inevitável comilança que virá com a Mostra de SP na próxima semana, concentrando-me em estudar e refletir em vez de sobrecarregar a memória com mais imagens.
Mantive distância do burburinho cinéfilo e só apareci no evento no dia e hora em que ocorreria o debate (aliás, muito agradável, na companhia do professor Sanzio Canfora e de uma platéia estimulante). Após o cumprimento da tarefa pude trocar de lado e acompanhar na platéia a “master class” oferecida pelo pesquisador João Luiz Vieira.
João interrompeu a própria fala mais de uma vez para pedir desculpas por não saber bem o que significaria uma “master class”. “Será uma aula escolar?”, perguntou sem obter respostas. “Estou parecendo professor?”, questionou incomodado. De um modo amineirado, contudo, João conduziu sua “master class” a um ponto em que a platéia pôde distinguir, com evidência, a mera aula de uma “aula de mestre”.
Rememorou sua atração pelo cinema japonês, desde as férias na infância passadas junto aos avós em São Paulo até o tempo presente, com um interesse particular pelas representações da identidade expressas de modo desafiador na filmografia em curso dos cineastas nipônicos independentes.
E se deteve, com entusiasmo contido, em “Sonata de Tóquio”, que acabara de assistir e sobre o qual falava para uma platéia ainda imune aos efeitos perturbadores da obra de Kiyoshi Kurosawa. As oportunidades nos aguardavam no dia seguinte, quando o filme teve duas sessões programadas.
Com este sobrenome cheio de perigos (algo equivalente a um cineasta americano ter o nome “Robert Kubrick”), “o outro Kurosawa” permanece, inexplicavelmente, um enigma para os freqüentadores da Mostra de Cinema de SP. Já teve seus filmes (da fase fantástica) exibidos no Festival do Rio, conta com admiradores no circuito de cinéfilos-baixadores-de-filmes e só agora chegará ao público de SP.
Aparentemente, “Sonata de Tóquio” marca um afastamento do cinema de gênero no qual KK vinha consolidando uma perspectiva reconhecivelmente autoral. Nem, por outro lado, a conversão ao realismo temático implica um afastamento da obsessão com o apocalipse mental que seus filmes antecedentes exploravam.
Talvez “Sonata de Tóquio” seja menos “filme de mensagem” que os outros, o que dá ainda mais liberdade a KK para colocar uma estética de matriz realista a serviço das assombrações.
Durante a Mostra de SP terei a oportunidade de voltar, em texto, à obra. Por enquanto, sem tomar nenhum distanciamento crítico (posto que ainda me encontro assombrado pela visão, ontem, do filme), declaro com o habitual descontrole cinéfilo: “ATENÇÃO, OBRA-PRIMA!”.
O trailer:
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Depois de uma experiência bem-sucedida de quase 20 anos em Goiás, chega a São Paulo um recorte itinerante do FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental). De amanhã a sexta, uma seleção de oito trabalhos exibidos na última edição do FICA marcam a inauguração do Cineclube da Sala Crisantempo (r. Fidalga, 521, Vila Madalena, tel. 11-3819-2287).
Divulgação Cena de "Distraída para a Morte", de Jeferson De
Por Sérgio Rizzo
“Don’t let the white men speak for you” (não deixe os brancos falarem por você), diz a canção que abre o curta “Distraída para a Morte” (2001), de Jeferson De, criador do Dogma Feijoada (ou Cinema Feijoada) —produção audiovisual sobre a cultura negra feita por negros. Esse e outro curta do cineasta realizado a partir do mesmo princípio, “Carolina” (2003), estão na programação da mostra CinePerifa, organizada pela Central Única de Favelas de São Paulo (CUFA).
Aberta na última quinta-feira, ela prossegue até amanhã, dia 4, no Itaú Cultural, como atividade inaugural da 3ª edição do Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, organizado em parceria com o Grupo Cultural AfroReggae e que se estende até o próximo dia 23. Além de filmes, o evento promove shows musicais, apresentações teatrais e debates sobre “ações culturais empreendidas em zonas de conflitos sociais, étnicos, religiosos”.
Na mostra, representantes dos “quartos de despejo” da sociedade falam de si mesmos e da realidade sociopolítica vista da sua perspectiva. A imagem é emprestada do livro “O Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, favelada paulistana que rompeu o círculo de isolamento social a que estava condenada ao publicar seus diários, nos anos 60. Zezé Motta a interpreta em “Carolina”.
A programação de sábado inclui os curtas brasileiros “Quilombolas” (2007), de Nelsinho Moralle, sobre a transmissão de valores e de elementos culturais em comunidades remanescentes de quilombos no Estado de São Paulo, e “Povo Marcado” (2008), de Werinton Kermes e Luciana Lopez, sobre o programa de rádio homônimo, produzido por detentas de Votorantim (SP), com a participação de Paulo Betti e da dupla musical Caju e Castanha (que estrela o curta feito por Walter Salles e Daniela Thomas para “Cada um com o Seu Cinema”), entre outros entrevistados por elas dentro da cadeia.
De Cuba, será exibido o curta “Krudas” (2006), de Sandra Boero-Imwinkelried, Gwenn Lloyd Jones, Yusimi Rodriguez e Melor Mouamma, sobre o grupo de hip-hop do título, formado por duas mulheres, e sobre os Tropazancos, grupo de artistas de rua. Ao final, às 20h30, os escritores Sérgio Vaz e Alessandro Buzo debatem a produção cultural da periferia.
A Mostra de SP divulgou nesta manhã os preços de ingressos e pacotes para sua 32ª edição, que começa no próximo dia 17. Em relação ao ano passado, houve aumento em quase todos os valores, apenas a permanente especial custará os mesmos R$ 90 de 2007.
O reajuste praticamente se equipara à inflação do período; a permanente integral, por exemplo, subiu 8,3%, contra uma inflação de pouco mais de 7% nos últimos meses. Em termos absolutos, no entanto, os valores dos ingressos individuais seguem os praticados pelo mercado exibidor paulistano. Ou seja, bem salgadinho, ainda mais para um evento patrocinado pela Petrobras, co-patrocinado pela Adidas e com mais de uma dezena de instituições apoiadoras.
Enfim, aos preços:
Integral (passe livre para todas as sessões) - R$ 390 Integral com desconto de 15% para assinantes da Folha - R$ 331 Especial (que vale de segunda a sexta para sessões começadas até as 17h55) - R$ 90 Especial com desconto Folha - R$ 76,50 Pacote de 20 ingressos - R$ 165 Pacote de 40 ingressos - R$ 285 Ingressos individuais - de seg. a qui.: R$ 14; sex., sáb. e dom.: R$ 18.
Como nos últimos anos, a Central da Mostra funcionará no Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073) e será aberta na próxima segunda-feira, ao meio-dia. A venda de permanentes e pacotes, no entanto, começará no dia 12 dia 11, sábado, das 10h às 21h. Interessados em comprar os pacotes de 20 e 40 ingressos devem chegar cedo, pois esses são os que se esgotam mais rapidamente.
Para quem não tiver tanta pressa, haverá vendas de entradas individuais, com até quatro dias de antecedência às sessões, pelo site ingresso.com.
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Entre os filmes confirmados nos últimos dias está "Valsa com Bashir", uma dos destaques do Festival de Cannes deste ano. Trata-se de um documentário em animação, em que o diretor Ari Folman usou o desenho para dar forma às suas memórias da invasão israelense no sul do Líbano em 1982. O longa já está com distribuição comercial garantida no Brasil, mas é, sem dúvida, uma das boas opções do festival paulistano. Dê uma olhada no trailer.
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o longa italiano “Caos Calmo”, dirigido por Antonio Grimaldi e protagonizado pelo também cineasta Nanni Moretti. Trata-se de um drama sobre a perda em um núcleo familiar, que tem semelhanças com "O Quarto do Filho", do próprio Moretti. Para ouvir, basta clicar no microfone.
Divulgação Caçada no galinheiro: a primeira cena do filme de Miguel Gomes
Por Leonardo Cruz
"Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes, fez sua estréia mundial na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes. Era o início de um pequeno frisson entre críticos. A revista "Cahiers du Cinéma" definiu o longa como "um milagre"; para o "Monde", foi uma "grande lufada de ar fresco" que cruzou o festival; o "Libération", que deu à obra destaque em sua capa, definiu-o como "o mais estranho filme de uma Quinzena radical".
Efeito semelhante surgiu a partir da última sexta, no Festival do Rio, quando o longa teve sua primeira de cinco exibições. Na revista eletrônica "Contracampo", Ruy Gardnier escreveu que é um desses "filmes que abrem caminhos" para o cinema. Sérgio Alpendre, da "Paisà", manteve o tom elogioso em seu blog: "foi uma grata surpresa encontrar algo contemporâneo que não remeta a nada que se tenha feito nos últimos dez, 20 anos". Kleber Mendonça Filho, do "Jornal do Commercio" e do "Cinemascópio", cravou quatro estrelas.
Mas a melhor definição veio de Eduardo Valente, na "Cinética": "Nossa reação natural é mesmo a de maravilhamento". Essa é a palavra-chave para definir "Aquele Querido Mês de Agosto", longa que deslumbra o espectador ao longo de suas duas horas e meia.
E, afinal, sobre o que versa o filme? Uma ficção sobre a relação entre um pai, uma filha e um primo, músicos de uma banda que percorre as festas do mês de agosto no interior de Portugal. Um documentário sobre os moradores e os costumes de cidadezinhas da região serrana da Beira. E, acima de tudo, uma lírica e ao mesmo tempo bem-humorada fusão das duas coisas, em que realidade e encenação não se distinguem claramente.
O filme foi anunciado ontem como o candidato português a uma vaga no Oscar. Improvável que essa pequena produção tenha chances contra os tantos outros especialistas em lobby na Academia que circulam por aí. Se a escolha se resumisse à qualidade dos filmes, o longa de Miguel Gomes estaria entre os favoritíssimos.
A boa notícia do dia é que no Brasil o filme não ficará restrito ao Festival do Rio. Estará na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa no próximo dia 16; acaba de entrar na lista de filmes confirmados. É imperdível. A torcer que algum distribuidor se anime e compre o filme para o circuito comercial brasileiro, para quem possa ir além da reduzida platéia dos festivais.
A seguir, dois trailers de "Aquele Querido Mês de Agosto". Não fazem justiça à grandeza do longa, mas já dão uma idéia do que se trata.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.
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