Ilustrada no Cinema

 

 

O "cinema de ator" de Paul Newman

O "cinema de ator" de Paul Newman

                                                                                     Divulgação

Paul Newman orienta Joanne Woodward em "Rachel, Rachel"

Por Cássio Starling Carlos

Lamentações pelo adeus daqueles olhos azuis que aqueciam o escuro de qualquer cinema não faltaram no último fim-de-semana, após o anúncio da morte de Paul Newman. Pouca gente, no entanto, deu muita importância para os trabalhos de Newman como diretor.

Eu gostaria um dia de revê-los na esperança de reencontrar a excelente impressão que me causaram. Lembro-me particularmente da versão de Newman para “À Margem da Vida”, clássico teatral de Tennessee Williams, vista remotamente na TV a cabo ou num VHS. Foi o último realizado por Newman, numa série curta e espaçada de seis títulos feitos num período de duas décadas (de 1968 a 1987).

Em “À Margem da Vida” logo ficava evidente que seu desejo de filmar provinha sobretudo de uma abordagem de ator, sem que com isso ele autorizasse em seus filmes aqueles insuportáveis momentos em que a interpretação “rouba a cena”.

                                                                                   Divulgação

John Malkovich e Karen Allen em "À Margem da Vida"

Foi com Newman e, quase simultaneamente, com Cassavetes que começamos a entender o que leva um ator a querer passar para trás das câmeras. Nos filmes dirigidos por eles, há uma relação do intérprete com a encenação na qual somos mantidos distantes das concepções mais freqüentes associadas ao termo “representação”.

Em um modo menor que seu colega, Newman se atém ao trabalho do ator, preocupando-se muito menos com elementos da ordem da imagem (movimentos de câmera, fotografia). Nesse sentido, não seria exagerado formular esse tipo de proposta como “cinema de ator”, na medida em que nele o ator reconquista a liberdade para ser algo que nunca consegue ou não lhe é permitido nas produções-padrão. Em vez de persona, imagem e mito, como costuma funcionar na máquina hollywoodiana, o ator nesse tipo de cinema se relaciona com o personagem, está em cena num modo que tende a extinguir seus arsenais de tiques.

Não à toa, o termo “realismo” é o que mais se evoca para descrever os filmes dirigidos por Newman e por Cassavettes. Gena Rowlands é mestra nisso nos filmes de Cassavettes. Para Newman, Joanne Woodward, também sua mulher, serviu como a força catártica central em seus principais dramas. É dela essa função como a professora de vida estreita em “Rachel, Rachel” (1968) ou como as mães em marcado desacerto com as filhas em “O Preço da Solidão” (1972) ou em “À Margem da Vida” (1987).

Há, além disso, uma temática comum aos filmes de Newman, um foco nos laços, em particular nos familiares. Mesmo em “Uma Lição para Não Esquecer”, direção que o ator assumiu com o filme já em processo, a figura bíblica interpretada por Henry Fonda e os desajustes que emergem com o retorno do filho pródigo permitem reconhecer a direção de encomenda como um “filme de” Newman. Nessa chave é inevitável não lembrar da dolorosa expiação que o ator realizou em “Meu Pai, Eterno Amigo” (1984), em que se coloca em cena numa nítida tentativa de expor a perda de um filho morto por uma overdose acidental em 1978.

Em todos eles, a dramaticidade é absorvida por um ritual próprio de ator, calcado em gestos cuja significação dispensa a ênfase. A cada um, Newman demonstrou, sem alarde, que é preciso ser um grande diretor para convencer um ator a não atuar.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 2h38 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Dreyer, Von Trier e o dinamarquês oculto: Leth

Dreyer, Von Trier e o dinamarquês oculto: Leth

 
O cineasta Carl T. Dreyer 

Por Sérgio Rizzo

A Cinemateca Brasileira abre na próxima terça-feira, dia 30, a retrospectiva “Carl Theodor Dreyer e Lars von Trier: Os Cineastas da Vida Interior”. Até 5 de outubro, serão exibidos 12 longas-metragens, quatro do primeiro e oito do segundo — desproporção que, supõe-se, corresponda mais à disponibilidade de cópias do que à importância atribuída pelos curadores a cada um.

Os quatro de Dreyer (1889-1968) estão disponíveis em DVD no Brasil: “A Paixão de Joana d’Arc” (1928), “Dias de Ira” (1943), “A Palavra” (1955) e “Gertrud” (1964). Assistir a eles em tela grande é sempre algo muito especial.

Dos oito de Von Trier, 52, apenas quatro foram lançados em DVD por aqui: "Europa" (1991), “Dançando no Escuro” (2000), “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005). Os ainda inéditos em DVD (mas todos exibidos em festivais, alguns já lançados nos cinemas e/ou VHS) são “O Elemento do Crime” (1984), "Epidemic" (1987), "Os Idiotas" (1998) e "The Five Obstructions" (2003).


O diretor Lars von Trier

Graças ao último (e menos conhecido, e talvez mais precioso) título dessa lista, há um terceiro cineasta dinamarquês lembrado pela retrospectiva, integrante de uma geração intermediária e que também representa, como Dreyer, um mestre para Von Trier e sua turma: Jorgen Leth, 71.

Um dos principais documentaristas em atividade e também escritor de ficção, não-ficção e poesia, Leth veio ao Brasil em abril deste ano para participar da 8ª Conferência Internacional do Documentário, paralela à realização do 13º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários — que já havia lhe prestado homenagem, com uma retrospectiva, na 8ª edição, em 2003.


O dinamarquês Jorgen Leth

Em “The Five Obstructions”, exercício sobre o processo de criação no cinema em forma de longa-metragem, Von Trier propõe, em 2 de abril de 2001, um jogo engenhoso a Leth: refazer, por cinco vezes consecutivas, seu curta “The Perfect Human” (1967). A cada tentativa, Von Trier estabelece “obstruções” — regras a que Leth precisa obedecer.

Na primeira, elas incluem a obrigatoriedade de um corte a no máximo cada 12 frames (quadros), meio segundo, e locações em Cuba. Veremos não só os curtas que resultam dessas imposições, mas também as conversas entre os dois e os bastidores de realização, até o derradeiro encontro, antes de ambos assistirem juntos ao quinto curta, em 1º de maio de 2003.

O que talvez pareça, assim descrito, algo meramente escolar (e que lembra os princípios reguladores do Dogma 95), vai se transformando ao longo de dois anos em jornada imprevisível que envolve as personalidades de ambos os diretores e o que pensam um do outro, além dos meandros às vezes insondáveis da criação no cinema. O ápice, na quinta refilmagem, é a mistura das vozes de ambos. No sentido mais provocante da expressão, um filme de fato realizado a quatro mãos.

“The Five Obstructions” será exibido no dia 4, sábado, às 21h, na sala BNDES da Cinemateca, e no dia 5, domingo, às 16h, na sala Petrobras. Ingressos: R$ 8 e R$ 4 (meia). Como o longa de Leth e Von Trier não mostra “The Perfect Human” na íntegra, somente trechos fora de ordem, a sugestão é assistir antes ao curta de 1967:

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h38 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Na trilha da comédia família

Na trilha da comédia família

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo fala sobre o filme francês “Baby Love”, que estréia hoje. Esta comédia dramática conta a história de um pediatra que resolve adotar uma criança, mas enfrenta a burocracia do Estado pelo fato de ser homossexual. Para ouvir o podcast, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h11 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

"Alice" de Tim Burton começa a tomar forma

"Alice" de Tim Burton começa a tomar forma

Por Marco Aurélio Canônico, em Los Angeles

Numa apresentação cheia de pompa e celebridades (John Travolta, Robin Williams, Nicolas Cage, Johnny Depp), feita ontem no Kodak Theatre (o do Oscar), em Hollywood, Dick Cook, presidente da Disney, anunciou 28 filmes que o estúdio (e seus afiliados como a Touchstone, a Pixar e a Miramax) pretende lançar até 2011.

Entre eles, um dos que mais chamaram a atenção da platéia de jornalistas e funcionários do estúdio foi justamente um dos mais incipientes, "Alice in Wonderland", a adaptação do clássico de Lewis Carroll que vai marcar a volta de Tim Burton à Disney (onde fez "O Estranho Mundo de Jack").

O grande anúncio em relação ao projeto, ainda em sua fase de pré-produção (deve estrear em 2010), foi a confirmação de que Johnny Depp fará o papel do Chapeleiro Maluco. "E cada vez que ele usa um chapéu engraçado, os resultados são interessantes", disse Cook, em tom de piada, referindo-se ao personagem do ator na bem-sucedida trilogia "Piratas do Caribe". Burton já havia anunciado sua Alice em julho passado _ela será a australiana Mia Wasikowska, de 18 anos.

Cook descreveu o filme como sendo "uma mistura de técnicas" e mostrou quatro artes conceituais absolutamente estonteantes em que apareciam personagens como os gêmeos Tweedle-Dum e Tweedle-Dee ao lado de Alice e o Gato Risonho _as cenas tinham um visual meio sombrio, meio engraçado, totalmente bizarro. Aparentemente, Burton vai misturar atores reais com animação _o filme será lançado em 3D.

O jornalista Marco Aurélio Canônico viaja a convite da Disney.

Escrito por Marco Aurélio Canônico às 5h31 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Filmes que dão o que pensar

Filmes que dão o que pensar

                                                                                     Divulgação

"Gattaca", um dos filmes analisados no livro "Ciência em Foco"

Por Cássio Starling Carlos

Quando as luzes da sala se apagam e a do projetor se acende, tudo o que os filmes projetam na tela do cinema passa a conquistar nossa crença. Demônios, monstros, gente morta e até final feliz: em tudo passamos a acreditar. Por outro lado, ficamos curiosos de saber como os cientistas, esses destruidores profissionais de mitos e quimeras, reagem aos filmes.

De vez em quando aparece um livro no qual os cientistas se propõem a demolir as inverdades que o cinema inventa. Deveriam é se poupar desse tipo de trabalho, já que todo mundo sabe que quando entramos no cinema a primeira coisa em que deixamos de acreditar é em verdades.

De inspiração bem diferente é o volume “Ciência em Foco - O Olhar pelo Cinema” (197 págs, R$ 32), publicado pela editora Garamond. O livro reúne 14 textos de pesquisadores de diversas áreas que, de modos particulares, se debruçaram sobre filmes mais ou menos contemporâneos.

O volume, organizado pelo filósofo Gabriel Cid de Garcia e o matemático Carlos A. Q. Coimbra, reúne atividades apresentadas no projeto Ciência em Foco, que aconteceu entre 2004 e 2006 no Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro. A intenção deles não é desvendar mitos que o cinema veicula nem elevar os filmes a um patamar de conhecimento que eles não pretendem oferecer.

Como explicam os organizadores na apresentação, “não se trata de proporcionar meramente explicações distanciadas acerca de um conteúdo científico, tampouco de um discurso centrado somente no filme em si, mas, a partir deste, de pensar as questões por ele suscitadas”.

Dito de outro modo, trata-se de identificar em certos filmes conteúdos simbólicos que se comunicam com algumas teses mais estimulantes da ciência moderna. E, desta forma, tornar o conteúdo complexo e por vezes esotérico da ciência mais acessível a leitores não especializados.

Fora um ou outro escorregão exageradamente técnico, a maioria dos ensaios aponta conexões que estão aí para qualquer um ver, como a admirável análise que Paula Sibilia faz das interpretações do código genético, desmontando seus discursos de verdade a partir do filme “Gattaca” (1997).

Outro resultado bem-sucedido no qual se equilibram o comentário exterior e o conteúdo interior de uma obra cinematográfica é a realizada por Ilana Feldman, que examina a crença nas imagens e a conversão do fator cognitivo como a metáfora mais interessante de “O Show de Truman” (1998).

Já Luiz Alberto Oliveira adota “Corra, Lola, Corra” (1998) como álibi para suas valiosas digressões a respeito dos paralelismos entre ciência e arte em suas interpretações da natureza, nas quais se torna evidente que, em vez de concorrer, ambas criam reflexos especulares uma da outra.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 2h28 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Truffaut ou Glauber? Coppola ou Kubrick?

Truffaut ou Glauber? Coppola ou Kubrick?

                                                                                     Divulgação

"Deus e o Diabo", de Glauber Rocha, o mais votado até agora

Por Leonardo Cruz

Já votou nos filmes mais importantes dos últimos 50 anos?

A eleição começou ontem na Folha Online, e alguns longas despontam como favoritos na enquete que definirá um ciclo de cinema dentro das comemorações dos 50 anos da Ilustrada.

Para quem não viu o jornal de domingo, cinco críticos da Folha pré-selecionaram 50 filmes para a votação. Inácio Araujo escolheu dez obras do final dos anos 50 e dos 60; Sérgio Rizzo ficou com os 70; José Geraldo Couto, com os 80; Pedro Butcher, com os 90; e Cássio Starling Carlos, com os 00.

Os mais votados pelo público em cada período serão exibidos nesse ciclo, que acontecerá em dezembro, quando o caderno cultural da Folha completa seu cinqüentenário. Se a enquete fosse encerrada agora, os filmes apresentados seriam: "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha; "O Poderoso Chefão" (1972), de Francis Ford Coppola; "Blade Runner" (1981), de Ridley Scott; "Pulp Fiction" (1994), de Quentin Tarantino; e "O Senhor dos Anéis" (2001), de Peter Jackson, o único que mantém liderança apertada, de cerca de cem votos, para o segundo colocado, "Cidade de Deus" (2002), de Fernando Meirelles.

Meus votos não acompanhariam os atuais líderes nos anos 60, 80 e 00. Trocaria "Deus e o Diabo" por "Os Incompreendidos", de François Truffaut, um dos marcos iniciais da nouvelle vague _sem dúvida o movimento cinematográfico mais importante do período.

Da década de 80, abriria mão de "Blade Runner" por ao menos três outros longas: "Touro Indomável", de Scorsese; "Paris, Texas", de Wim Wenders; e "Não Matarás", de Krzysztof Kieslowski.

Entre os filmes mais recentes, "Elefante", de Gus van Sant, seria o meu escolhido, mas todos os outros listados são mais significativos do que a obra de Peter Jackson.

E você? Já escolheu seus favoritos? Vote aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h19 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Cinema comparado, pelo professor Paul Auster

Cinema comparado, pelo professor Paul Auster

                                                                                        Divulgação
 
"A Grande Ilusão", de Renoir, um dos filmes citados no livro de Auster

Por Sérgio Rizzo

Nenhum leitor do norte-americano Paul Auster estranharia o fato de que há um bocado de cinema em seu mais recente romance, “Homem no Escuro” (Companhia das Letras, 168 págs., R$ 38, tradução de Rubens Figueiredo). Tem sido assim na obra do escritor, em termos de ambientação e referências, ao menos desde a “Trilogia de Nova York”, cujas novelas foram publicadas pela primeira vez, separadamente, em 1985 e 1986. Em alguns títulos, o cinema se impõe como protagonista. O misterioso Hector Mann de “O Livro das Ilusões” (2002), por exemplo, é um ator e diretor fictício que tem vida e obra investigadas pelo narrador, o professor universitário David Zimmer.

Além de vender os direitos de adaptação de alguns romances (como “A Música do Acaso”, de 1990, filmado em 1993 por Philip Haas e lançado no Brasil como “Jogando com a Sorte”), Auster teve experiências como diretor e roteirista em “Cortina de Fumaça” e “Sem Fôlego”, ambos de 1995 e em parceria com Wayne Wang, “O Mistério de Lulu” (1998) e “Kimera - Estranha Sedução” (2007), projeto desenvolvido a partir de um filme perdido de Mann a que Zimmer assiste, antes da destruição da única cópia, em “O Livro das Ilusões”.

A capa da edição brasileira de “Homem no Escuro”, assinada por João Baptista da Costa Aguiar, traz a foto em preto-e-branco de um projetor de 16 mm, só para reforçar a idéia. Diversos paralelos podem ser traçados, em especial porque se trata mais uma vez de um romance sobre a própria arte da narrativa, com reverberações cinematográficas, e também porque envolve o impacto das imagens de violência no mundo contemporâneo. A inserção mais explícita, no entanto, se dá quando o narrador, um aposentado crítico de literatura que foi morar com a filha depois da morte da mulher e de sofrer um acidente de carro, conta que assiste a três ou quatro filmes por dia com a neta, estudante de cinema em Nova York que planeja se tornar montadora e que, por sua vez, também está em profunda depressão após a morte do namorado – só no final saberemos como e por quê.

Com os filmes, que a neta aluga por um dos sistemas populares nos EUA de entrega pelo correio, os dois se esquecem dos pesadelos que viveram recentemente. A certa altura, Auster faz com que eles brinquem de “cinema comparado”, ou seja, relacionar filmes e autores a partir de um eixo de análise que estabelece conexões às vezes insuspeitas. Depois de uma sessão com três clássicos –“A Grande Ilusão” (1937), do francês Jean Renoir, “Ladrões de Bicicleta” (1948), do italiano Vittorio De Sica, e “O Mundo de Apu” (1959), do indiano Satyajit Ray–, o avô conta que a neta “fez alguns comentários argutos e incisivos, esboçando uma teoria da criação cinematográfica que me impressionou pela originalidade e perspicácia”.

A moça fala de “objetos inanimados como forma de expressar emoções humanas”. “Essa é a linguagem do cinema”, diz. “Só bons diretores entendem como fazer isso, mas Renoir, De Sica e Ray são três dos melhores, não são?” Em seguida, passa a exemplificar o raciocínio com o sentido dos baldes com água, de uma gaveta aberta com violência e dos lençóis penhorados logo no início de “Ladrões de Bicicleta”; dos pratos lavados depois de um jantar no final de “A Grande Ilusão”; e das cortinas e de um grampo de cabelo em “O Mundo de Apu”. Mais tarde, o avô se lembra sozinho de um “exemplo a acrescentar à lista”: o relógio no final de “Era uma Vez em Tóquio” (1953), do japonês Yasujiro Ozu.

Para quem gosta de cinema, essas passagens do romance são inebriantes. E, para quem também gosta de Auster, recomenda-se correr para a livraria mais próxima.

*

Para os internautas do Rio: na próxima quarta-feira, dia 24, às 19h, o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e a Editora da UFMG promovem o lançamento do livro “Um Concerto em Tom de Conversa”, organizado por Aniello Angelo Avella, professor da Università degli Studi di Roma Tor Vergata (Itália), sobre o cineasta Manoel de Oliveira e a escritora Agustina Bessa-Luis. Será exibido o documentário “Conversando no Porto. Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luis. Dezembro 2005” (2006), do italiano Daniele Segre, programado pela Mostra Internacional de São Paulo em 2006. Em seguida, debate com a participação de Avella e de Teresa Cristina Cerdeira, professora da UFRJ.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h48 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

As provocações de Haneke

As provocações de Haneke

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta “Violência Gratuita”, de Michael Haneke, versão americana para o mesmo filme que o diretor austríaco já fizera em 1997. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h06 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

O 3D irá além da imaginação?

O 3D irá além da imaginação?

                                                                                    Divulgação

Por Cássio Starling Carlos

Enquanto de um lado cresce o número de salas equipadas com projeção 3D, de outro, a cada estréia de um novo título aumenta a dúvida sobre a capacidade de a indústria manter, de fato, o interesse do público na geringonça. Até agora, apenas a criatividade de Robert Zemeckis assegurou para “A Lenda de Beowulf” (foto acima) uma certa eminência no uso de recursos da tecnologia para fins evidentemente expressivos.

Depois vieram “Hannah Montana” (a cujo encontro eu faltei), “Viagem ao Centro da Terra” e “U2 3D”, cujas experiências para o espectador ainda tendem a se resumir à bobagem da movimentação de gestos e objetos em direção aos nossos olhos. No caso do filme-show do U2, achei até agradável assistir a um concerto sentado em uma sala bem climatizada enquanto o público (coitado) se amassava bem diante dos meus olhos sem que eu sentisse nenhum desconforto. Mas é de lascar ter que olhar para um microfone bem na nossa cara a cada vez que The Edge aparece, só para assegurar o efeito de perspectiva.

O jeito, então, vai ser esperar a estréia, em 10 de outubro, de “Os Mosconautas no Mundo da Lua” (foto abaixo) para saber se pelo menos os criadores de animação conseguem tirar melhor proveito da tecnologia. Ou, o que é mais provável, se surpreender com “Avatar”, de James Cameron, e com “Monsters vs. Aliens”, da DreamWorks, duas aguardadíssimas produções em 3D programadas para estrear em 2009.

                                                                                    Divulgação

A tecnologia vem sendo alardeado pelos patrões da indústria como uma espécie de reinvenção do cinema. Jeffrey Katzenberg, presidente da DreamWorks Animation, proclamou, no último fim-de-semana, durante uma tele-conferência (transmitida, obviamente, em 3D) que os filmes em 2D vão acabar. “Em breve, todo mundo terá seus próprios óculos 3D, que serão utilizados nas salas de cinema, em casa, para ver TV, para jogar videogames e para acessar todo o conteúdo da internet”, anunciou aos participantes da International Broadcasting Convention, megafeira de conteúdo para empresas de comunicação que termina hoje em Amsterdã.

O entusiasmo é acompanhado bem de perto por Michael Lewis, presidente da Real D, empresa que vende projetores digitais com tecnologia 3D para cinemas norte-americanos. “Nos próximos dois anos ofereceremos nossos ‘...E o Vento Levou’ e ‘Cidadão Kane’”, declarou descaradamente o empresário à revista “Time”.

A quem está sendo convidado a pagar a conta (na forma de ingressos que custam BEM mais que o valor já alto que desembolsamos normalmente) recomenda-se cautela. Pois, se a indústria, associada a bons criadores, não desenvolver soluções visuais menos entediantes, a tecnologia corre o risco de seguir o mesmo destino de sua antecessora, que ganhou os cinemas nos anos 50.

Os desconfortáveis óculos de outrora levaram a culpa, mas a razão mais coerente para o fracasso dos filmes em 3D em sua encarnação anterior foi de fato o cansaço das platéias com a previsibilidade dos mesmos truques visuais.

Na época, o 3D apareceu como uma solução mágica para inverter os efeitos negativos (para os estúdios de cinema) do consumo crescente de aparelhos de TV e de oferta de entretenimento gratuito diretamente na casa dos espectadores. A chamada “era dourada” durou cerca de três anos, de 1952 a 1955.

Mas agora que nem é preciso mais ir ao cinema para admirar efeitos estereoscópicos bem diante do nariz, quanto tempo a febre se manterá alta?

*

Para quem não duvida das premonições de Jeffrey Katzenberg, a atualidade das criações 3D em múltiplas plataformas visuais pode ser acompanhada com o mesmo nível de entusiasmo no blog Swell 3D.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h03 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Os filmes do Festival do Rio 2008

Os filmes do Festival do Rio 2008

Por Leonardo Cruz

A organização do Festival do Rio divulgou nesta manhã de segunda a lista completa de filmes de sua décima edição, que começa no próximo dia 25. São cerca de 350 obras, de 60 países, divididas em 12 seções. A seguir, a relação de filmes apresentada hoje:

PANORAMA
- Bam gua nat (Night and Day), de Hong Sang-soo (Coréia do Sul)
- Birdwatchers, de Marco Bechis (Brasil-Itália)
- Caos Calmo, de Antonio Luigi Grimaldi (Itália)
- Heya fawda (Chaos), de Youssef Chahine, Khaled Youssef (França)
- Gomorrah, de Matteo Garrone (Itália)
- Il Divo, de Paolo Sorrentino (Itália)
- Katyn, de Andrzej Wajda (Polônia)
- La Frontière de L'Aube, de Philippe Garrel (França)
- Paris, de Cédric Klapisch (França)
- Rachel Getting Married, de Jonathan Demme (EUA)
- Standard Operating Procedure, de Errol Morris (EUA)
- Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman (EUA)
- Four Nights with Anna, de Jerzy Skolimowski (Polônia)
- Un secret, de Claude Miller (França)
- Alexandra, de Alexander Sokurov (Rússia)
- Les Amours d'Astrée et de Céladon, de Eric Rohmer (França)
- Plus tard, tu comprendras..., de Amos Gitaï (França)
- Julia, de Erick Zonca (França)
- Om Shanti Om, de Farah Khan (Índia)
- Transsiberian, de Brad Anderson (Espanha)
- Love Comes Lately, de Jan Schütte (Alemanha)
- Wu Yong (Useless), de Jia Zhang-Ke (China)
- Miryang (Secret Sunshine), de Lee Chang-Dong (Coréia do Sul)
- Delta, de Kornél Mundruczó (Hungria)
- Wolke 9, de Andreas Dresen (Alemanha)
- Sanguepazzo, de Marco Tullio Giordana (Itália)
- O'Horten, de Bent Hamer (Noruega)
- I.O.U.S.A., de Patrick Creadon (EUA)
- Elegy, de Isabel Coixet (EUA)
- RocknRolla, de Guy Ritchie (Reino Unido)
- Nights in Rodanthe, de George C. Wolfe (EUA)
- Choke, de Clark Gregg (EUA)
- Julgamento, de Leonel Vieira (Portugal)
- Un Giorno Perfetto, de Ferzan Ozpetek (Itália)
- Disgrace, de Steve Jacobs (Austrália)
- The Visitor, de Tom McCarthy (EUA)

********

EXPECTATIVA
- Aquele querido mês de agosto, de Miguel Gomes
- Ballast, de Lance Hammer
- Boogie, de Radu Muntean
- Buddha Collapsed Out of Shame, de Hana Makhmalbaf
- En La Ciudad de Sylvia, de José Luis Guerin
- Frozen River, de Courtney Hunt
- Foul Gesture, de Itshak 'Tzahi' Grad
- I am Because we are, de Nathan Rissman
- Involuntary, Ruben Ostlund
- Mermaid,
de Anna Melikyan
- The Wackness, de Jonathan Levine
- A Simple Heart, ed Marion Laine
- Soi Cowboy, de Thomas Clay
- Son of a Lion, de Benjamin Gilmour
- Taken, de Pierre Morel
- The Caller, de Richard Ledes
- The guitar, de Amy Redford
- Walt & El Grupo, de TheodoreThomas
- Wonderful Town, de Aditya Assarat

******

FOCO UK
- And when did you last see your father?, de Anand Tucker
- With Gilbert & George, de Julian Cole
- Derek, de Isaac Julien
- In Bruges, de Martin McDonagh
- Man on Wire, de James Marsh
- Hunger, de Steve McQueen
- A very British Gangster, de Donal MacIntyre
- Good, de Vicente Amorim
- Battle for Haditha, de Nick Broomfield
- Of Time and the City, de Terence Davies
- Easy Virtue, de Stephan Elliott
- The Duchess, de Saul Dibb
- Brick Lane, de Sarah Gavron
- The boy in the striped pyjamas, de Mark Herman
- Skin, de Anthony Fabian

********

MIDNIGHT MOVIES

- Black House  (Geomeun jib), de Shin Terra (Coréia do Sul)
- Filth and Wisdom, de Madonna  (Reino Unido)
- A Complete History of My Sexual Failures, de Chris Waitt (Reino Unido)
- Surveillance, de Jennifer Lynch (EUA-Alemanha)
- The Good, The Bad, The Weird, de Kim Jee-Woon (Coréia do Sul)
- Bigger, Stronger, Faster*, de Christopher Bell (EUA)
-  Pineapple Express, de David Gordon Green  (EUA)
- Canção de Baal, de Helena Ignez  (Brasil)
 
******

MUNDO GAY
- Dream Boy, de James Bolton (EUA)
- The Amazing Truth About Queen Raquela, de Olaf de Fleur Johannesson (Islândia)
- The Living End: Remixed and Remastered, de Gregg Araki (EUA)
- Tanaz Eshaghian (Be Like Others), de Tanaz Eshaghian (Canadá)
- Quemar las naves, de Francisco Franco-Alba (México)
- Dream Boy, de James Bolton (EUA)
- Improvvisamente, l'inverno scorso (Suddenly, Last Winter), de Gustav Hofer, Luca Ragazzi (Itália)
- Clandestinos, de Antonio Hens (Espanha)
- For The Bible Tells Me So, de Daniel Karslake (EUA)
- Bi the Way, de Brittany Blockman, Josephine Decker (EUA)
- Rainhas, de Fernanda Tornaghi, Ricardo Bruno (Brasil)
- Le nouveau monde (The New World), de Etienne Dhaene (França)
- Chris & Don. A Love Story, de Tina Mascara, Guido Santi (EUA)

*****

PREMIÈRE LATINA
- Año uña, de Jonás Cuarón
- Desierto Adentro, de Rodrigo Plá
- El Nido Vacio, de Daniel Burman
- Heridas, de Roberto Flores
- La buena vida, de Andrés Wood
- La leonera, de Pablo Trapero  
- La mujer sin Cabeza, de Lucrecia Martel
- La Rabia, de Albertina Carri
- La Sangre Brota, de Pablo Fendrik
- Liverpool, de Lisandro Alonso
- Los Bastardos, de Amat Escalante
- Sleep Dealer, de Alex Rivera

******

MOSTRA GERAÇÃO
- Covardes, de José Corbacho e Juan Cruz (Espanha)
- Somos Todos Diferentes, de Aamir Khan (Índia)
- Borboletas, de Kjell-Ake Andersson (Suécia)
- A Substituta, de Ole Bornedal (Dinamarca) 
- O Pequeno Traidor, de Lynn Roth (Israel)
- O Prêmio, de Gholam-Reza Ramezani (Irã)
- 5 centímetros por segundo, de Makoto Shinkai (Japão)
 
*******

FRONTEIRAS
- The Art Star and The Sudanese Twins, de Pietra Brettkelly (Nova Zelândia)
- Laji'oun mada el hayat (Refugees for life), de Hady Zaccak (Emirados Árabes Unidos)
- Seaview, de Nicky Gogan, Paul Rowley (Irlanda)
- Life After The Fall, de Kasim Abid (Reino Unido)
- Mazare Mariya (Maria's Grotto), de Buthina Canaan Khoury (Palestina)
- Sozdar, zij die haar belofte nakomt (Sozdar, she who lives her promise), de Annegriet Wietsma (Holanda)
- Double Exposure, de Ruanne Abou-Rahme (Reino Unido/Palestina)
- Flying on One Engine, de Joshua Z. Weinstein (EUA)
- Prestes Maia - Freiheit in Beton (Prestes Maia - Freedom in Concrete), de Jonas Ginter, Levin Peter, Ira Wilke (Alemanha)
- Ishumars, les Rockers Oubliés du Désert, de François Bergeron (França)
- Après la guerre, c'est toujours la guerre…, de Samir Abdallah (Líbano)
- A candle for the Shabandar Cafe, de Emad Ali (Iraque)
- A stranger in his own country, de Hassanain al Hani (Iraque)
- Leaving, de Bahram Al Zuhairi (Iraque)
- Dr Nabil, de Ahmed Jabbar (Iraque)
- Documentary Film Course march 2006, de Ahmed Kamal (Iraque)
- Esse homem vai morrer - um faroeste caboclo, de Emilio Gallo (Brasil)

*******
DOX
- Victoire Terminus, de Renaud Barret, Florent de la Tullaye (França)
- Darling! The Pieter-Dirk Uys Story, de Julian Shaw (Austrália)
- Trouble The Water, de Tia Lessin, Carl Deal (EUA)
- Durakovo: Village des fous (Durakovo: Village of Fools), de Nino Kirtadze (França)
- Secrecy, de Peter Galison, Robb Moss (EUA)
- C'est dur d'être aimé par des cons (It's Hard Being Loved By Jerks), de Daniel Leconte (França)
- They killed Sister Dorothy, de Daniel Junge (EUA)
- Orgasmic Birth, de Debra Pascali-Bonaro (EUA)
- Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson, de Alex Gibney (EUA)
- La Mère (The Mother), de Antoine Cattin, Pavel Kostomarov (Suíça)
- Faubourg Tremé: The Untold Story of Black New Orleans, de Dawn Logsdon, Lolis Eric Elie (EUA)
- Une Affaire de Negres, de Osvalde Lewat-Hallade (França)
- Lucio, de Aitor Arregi, Jose Mari Goenaga (Espanha)

*****

TRIBUTO AO CENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA
-  Sukiyaki Western Django, Takashi Miike (Japão)
- Sad Vacation (Saddo Bakeshon), Shinji Aoyama (Japão)
- The Rebirth (Ai no Yokan), Masahiro Kobayashi (Japão)
- Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa (Japão)
- Ponyo on the Cliff by the Sea (Gake no ue no Poniyo), Hayao Miyazaki (Japão)
- Achilles and the Tortoise (Akires to Kame), Takeshi Kitano (Japão)

****

MOSTRA MIDNIGHT ESPECIAL - ÍCONES DA MÚSICA:
-
CSNY: Deja Vu, de Bernard Shakey
- Café de los maestros, de Miguel Kohan

- Patti Smith: Dream of Life, de Steven Sebring
- Anita O'Day: The life of a Jazz Singer, de Robbie Cavolina, Ian McCrudden
- Africa Unite, de Stephanie Black

- Celia The Queen, de Joe Cardona, Mario de Varona
- Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts, de Scott Hicks
- Joe Strummer: The Future Is Unwritten, de Julien Temple
- Wild Combination: A Portrait of Arthur Russell, de Matt Wolf

Desculpem pelo formato deste post, mais tosco do que o normal. É que a ferramenta de edição do blog não funciona direito com Firefox, o navegador que uso neste momento. E eu não sou exatamente um gênio da linguagem html.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h05 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Pablo Trapero fará workshop na Mostra de SP

Pablo Trapero fará workshop na Mostra de SP

                                                                                    Divulgação

O diretor argentino, durante as filmagens de “Leonera”

Por Leonardo Cruz

Um dos principais cineastas argentinos da atualidade, Pablo Trapero será um dos convidados da 32ª Mostra Internacional de São Paulo e ministrará uma oficina na Faap. O diretor virá ao país acompanhado por sua mulher, a atriz Martina Gusmán, protagonista de “Leonera”, seu novo filme.

O longa fez sua estréia internacional no último Festival de Cannes, quando Martina bem que poderia ter dividido o prêmio de melhor atriz com a brasileira Sandra Corveloni (“Linha de Passe”). Ela é o alicerce de um filme vigoroso, que usa a trajetória de uma presidiária para fazer uma reflexão sobre a atual sociedade argentina. “Leonera” é uma dos mais de 200 filmes já confirmados no programa da 32ª Mostra, que acontecerá de 16 a 30 de outubro.

O workshop do qual participará Trapero já uma tradição do festival. Em anos anteriores, Amos Gitaï e Abbas Kiarostami já realizaram projetos com estudantes de cinema. As datas de abertura das inscrições e de realização da oficina ainda não estão definidas, mas o evento deve seguir os mesmos moldes do ano passado: parte das vagas reservadas ao público; parte a alunos da Faap; e haverá seleção mediante apresentação de currículo.

*

Além da oficina de Trapero, várias outras atrações já estão confirmadas para a Mostra deste ano, como contei na reportagem que fiz para a versão impressa da Ilustrada desta segunda. Em resumo, os principais destaques são:

1. Retrospectiva Bergman
O cineasta sueco, que faria 90 anos em 2008, será homenageado com um ciclo de filmes raros, indisponíveis em DVD no Brasil, uma exposição fotográfica e com o relançamento de “Lanterna Mágica”, livro de memórias escrito em 1987.

Até agora, estão confirmados dez filmes. São eles:
“Crise” (1946)
“Chove em Nosso Amor” (1946)
“Prisão” (1949)
“Rumo à Alegria” (1950)
“No Limiar da Vida” (1958)
“A Hora do Lobo” (1968)
“Vergonha” (1968)
“A Paixão de Ana” (1969)
“Fanny e Alexander” (1982)
“Na Presença de um Palhaço” (1997)

2. Retrospectiva Kihachi Okamoto
Quinze longas deste diretor japonês de filmes de guerra, sagas de samurai e comédias, incluindo “Dai-bosatsu Toge” (a espada da destruição), de 1966, história de um samurai errante que mata sem remorso.

3. Berlin Alexanderplatz remasterizado
A cópia restaurada da obra-prima que Rainer Werner Fassbinder fez para a TV alemã, em 14 episódios, em 1980. Serão mais de 15 horas de projeção, divididas em três capítulos por noite.

4. Destaques estrangeiros (apenas alguns deles; muitos ainda devem entrar)
“Queime Depois de Ler”, de Joel e Ethan Coen
“Teza”, de Haile Gerima
“Entre les Murs” (entre paredes), de Laurent Cantet
“O Silêncio de Lorna”, de Luc e Jean-Pierre Dardenne
“La Frontière de l’Aube” (a fronteira da madrugada), Philippe Garrel
“Un Conte de Noël”, (um conto de Natal), de Arnaud Desplechin
“24 City”, de Jia Zhang-ke
“Serbis”, de Brillante Mendoza
“Adoration” (adoração), de Atom Egoyan
“Il Divo” (o ilustre), de Paolo Sorrentino
“Palermo Shooting” (filmagem em Palermo), de Wim Wenders
“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy
“Tokyo!”, de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho
“Tôkyô Sonata” (sonata de Tóquio), de Kiyoshi Kurosawa
“La Vie Moderne” (a vida moderna), de Raymond Depardon
“Afterschool” (depois da escola), de Antonio Campos
“O’Horten”, de Bent Hamer
“Liverpool”, de Lisandro Alonso
“El Cant dels Ocells” (o canto dos pássaros), de Albert Serra
“Four Nights with Anna” (quatro noites com Anna), de Jerzy Skolimowski
“Élève Libre” (aluno livre), de Joachim Lafosse
“Green Porno” (pornô verde), de Isabella Rossellini
“Plus Tard Tu Comprendras” (mais tarde você entenderá), de Amos Gitaï
“Izolator”, de Chistopher Doyle
“Katyn”, de Andrzej Wajda
“Le Premier Venu” (o primeiro a vir), de Jacques Doillon
“Mogari no Mori” (floresta dos lamentos), de Naomi Kawase
“L’Heure d’Été” (horário de verão), de Olivier Assayas

*

Os preços dos ingressos ainda não estão definidos nem a data do início das vendas dos pacotes e das permanentes.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h38 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Na contramão de “Trovão Tropical”

Na contramão de “Trovão Tropical”

                                                                                     Divulgação

Peter Sellers, como Chance, em "Muito Além do Jardim" (1979)

Por Sérgio Rizzo

Os personagens de Peter Sellers em “Muito Além do Jardim” (1979) e de Sean Penn em “Uma Lição de Amor” (2001) estão entre os inúmeros alvos de piadas de “Trovão Tropical”, que gerou campanhas de boicote nos EUA e no Brasil pelas referências a deficientes mentais. Um pouco mais abaixo neste mesmo blog, você pode se informar a respeito da polêmica, em post de Leonardo Cruz, e ler os 121 comentários de internautas registrados até o momento em que este texto era escrito.

Um bom contraponto ao humor politicamente incorreto de “Trovão Tropical” é a coletânea “Sexualidade, Cinema e Deficiência” (LMP Editora, 240 págs., R$ 44), organizada pelos psicólogos Francisco Assumpção Jr. e Thiago de Almeida. “Muito Além do Jardim”, “Uma Lição de Amor” e outros dez longas estrangeiros de ficção, além do documentário brasileiro “Do Luto à Luta” (2005), são analisados por profissionais das áreas médica e educacional.

O “objetivo primordial” do livro, afirma Assumpção Jr. na apresentação, é “fazer com que, após sua leitura, haja uma reflexão e se busque pensar, de maneira ética, uma questão fundamental neste momento presente e que pode ser resumida numa questão muito simples: como é falar de inclusão esquecendo-se de pensar no direito ao uso do próprio corpo, fundamental para qualquer raciocínio ético e autônomo?”.

O próprio Assumpção Jr. escreve sobre “Muito Além do Jardim”: “A questão da sexualidade em alguém com características tão especiais e marcantes como Chance (personagem de Sellers) precisa ser vista a partir da idéia de que ela é uma conduta complexa que envolve praticamente toda a vida psíquica do indivíduo, englobando assim seus aspectos afetivos e cognitivos. Dessa maneira, constitui-se em um ponto frágil, diante do qual quaisquer alterações produzem condutas diversas das habituais, caracterizando um ser no mundo específico, o que pode ser muito bem observado quando acompanhamos a conduta de Chance diante de uma mulher que, em todo decorrer da película, vai se apaixonando por ele e tentando seduzi-lo gradativamente.”

Almeida e o educador Marcos Ribeiro de Melo assinam o artigo sobre “Uma Lição de Amor”. De acordo com eles, o filme “sintetiza a seguinte pergunta: um deficiente mental pode se responsabilizar por si e pelos outros?”. Sam (personagem de Penn) é apenas mencionado rapidamente em texto que remete a referências bibliográficas sobre sexualidade, responsabilidade e educação sexual – “apenas uma amostra do que podemos encontrar como propostas pedagógicas para a atenção à sexualidade do deficiente mental, que compreendem a sexualidade e suas manifestações desprovidas de uma ótica conservadora, possibilitando intervir não sobre os deficientes, enquanto passivos de sua condição, mas junto a esses, reconhecendo-os como atores de sua própria história de vida”.

Entre os demais filmes analisados pelo livro, estão “Pequena Miss Sunshine” (2006), visto da perspectiva da “erotização da infância”; “Asas do Desejo” (1987), ou “a neurose maniqueísta nos relacionamentos”; “O Oitavo Dia” (1996), analisado em relação a “estereotipias, mitos e realidades” sobre a Síndrome de Down; e “Babel” (2006), no qual a surdez se presta ao estudo da “construção de sentidos na babel globalizada”.

*

Os fãs de Pedro Almodóvar –que, em “Carne Trêmula” (1997), também criou matéria-prima apropriada para o livro “Sexualidade, Cinema e Deficiência”, com base no personagem de Javier Bardem– têm um bom programa neste final de semana em São Paulo: ver ou rever o show “Nas Trilhas de Almodóvar”.

Canções de diversos filmes do cineasta são interpretadas por Eloísa Leão, José Cardoso, Dimitria Queiroz (vocais), Andréa Salinas (violino), Aloísio Oliver (acordeon) e Daniel Garroux (violão). Sábado, dia 13, às 21h30, e domingo, às 21h, no Teatro do Ator (Praça Franklin Roosevelt, 172, tel. 3257-2264). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h06 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Um musical muito atrás de seu tempo

Um musical muito atrás de seu tempo

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta o equivocado "Mamma Mia", em que Meryl Streep e Pierce Brosnan tentam cantar e dançar ao som de Abba. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h08 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Os braços direitos de Hitchcock

Os braços direitos de Hitchcock

                                                                                    Divulgação

Grafite, aquarela e guache sobre papel de Robert Doyle,
em esboço para conceber "Os Pássaros" (1963)

Por Leonardo Cruz

Perambulando por uma livraria de São Paulo nesta semana, trombei com uma pequena preciosidade na seção de cinema: "Casting a Shadow - Creating the Alfred Hitchcock Film". Como o nome indica, trata-se de uma obra sobre a produção dos filmes daquele cineasta inglês gorducho, que fez um ou outro filme bacaninha.

O livro foi lançado no final do ano passado, como catálogo para a exposição homônima organizada por um museu da Universidade Northwestern, de Chicago, e é um bom material para quem quer entender o método de criação de Hitchcock.

Tanto o livro quanto a exposição deixam claro que longas como "Psicose", "Um Corpo que Cai", "Janela Indiscreta" e "Os Pássaros" foram, antes de tudo, um enorme trabalho de equipe, longe da imagem de criador solitário e gênio centralizador explorada pelos estúdios em campanhas de marketing, sob o selo "um filme de Alfred Hitchcock".

A exposição e o livro ressaltam o papel fundamental dos colaboradores de Hitchcock na elaboração dos longas dele. Um exemplo é Robert Boyle, designer e diretor de arte que trabalhou com o cineasta em cinco filmes. É dele o sketch acima, encomendado por Hitchcock após a leitura do livro que serviu de base para "Os Pássaros". Segundo os autores de "Casting a Shadow", esse esboço foi o alicerce para a concepção visual do filme de 1963.

São trabalhos como esse que compõem exposição e catálogo, num total de 150 documentos, entre storyboards, páginas de roteiros, diagramas de posicionamento de câmera, desenhos de figurinos e muitas fotos. Os curadores Will Schmenner e Corinne Granof reuniram material do arquivo da biblioteca da Academia, em Los Angeles, e do British Film Institute, em Londres.

                                                                                     Divulgação

Grafite sobre papel, em esboço de Dorothea Holt,
para "A Sombra de uma Dúvida" (1943) 

"Casting a Shadow", o livro, está disponível em ao menos três livrarias brasileiras, a Fnac, a Cultura e a Martins Fontes, a cerca de R$ 70. Salgado, sem dúvida, mas um bom investimento para estudiosos da obra de Hitchcock. Neste link, é possível ver mais alguns dos documentos da exposição, que também foi apresentada no primeiro semestre no museu da Academia. Infelizmente, ninguém planeja ainda trazer a mostra para o Brasil. Nada muito surpreendente, dada a míngua de exposições sobre cinema realizadas nestas praias.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h59 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

75 filmes para ver no futuro

75 filmes para ver no futuro

                                                                                     Divulgação

"Blade Runner", de Ridley Scott, um dos 75 filmes da lista do BFI

Por Cássio Starling Carlos

Fazer listas de melhores filmes é uma mania que começou entre profissionais, críticos e historiadores, e hoje se encontra espalhada entre os bilhões de blogueiros que nem precisam ser convidados para expor seu gosto mundo virtual afora.

Muito antes de o cinema alcançar seu centenário, as listas de “melhores de todos os tempos” já provocavam paixões e fúrias. A pioneira foi a revista “Sight and Sound”, que publicou em 1952 uma primeira seleção feita a partir da consulta que reúne não só críticos e pesquisadores mas também profissionais envolvidos na produção de filmes.

Uma variação desse tipo flutuante de cânone vem sendo feita há algumas semanas pelo British Film Institute, que publica a “Sight & Sound”. Para comemorar os 75 anos de sua fundação, o BFI convidou alguns de seus ilustres associados a indicar 75 títulos para compor a programação de filmes a serem exibidos na comemoração da efeméride, que acontecem ao logo deste mês.

Em vez da manjada “qual seu filme favorito?”, a lista do BFI é composta de tentativas de resposta à questão “Que filme você gostaria de compartilhar com futuras gerações?”.

Para quem adora espiar a vida alheia, a lista traz um bocado de exemplos do gosto pessoal, ao qual se adiciona, obviamente, uma dose de idiossincrasia nacionalista, com a presença predominante de filmes britânicos.

Entre as escolhas, as dos diretores são as mais reveladoras de idéias que alimentam os filmes que eles próprios fazem e fizeram. Por exemplo: Julien Temple (“O Atalante”, do francês Jean Vigo), Paul Greengrass (“A Batalha de Argel”, do italiano Gillo Pontecorvo), Mike Figgis (“Bonnie e Clyde, de Arthur Penn), Ken Loach (“Trens Estreitamente Vigiados”, do tcheco Jiri Menzel), Ken Russell (“Metropolis”, de Fritz Lang), Stephen Frears (“O Terceiro Homem”, de Carol Reed).

Já atores e compositores dão prova de mais ecletismo: Miranda Richardson (“Os Inocentes”, de Jack Clayton), Roger Moore (“Lawrence da Arábia”, de David Lean), Nitin Sawhney (“A Canção da Estrada”, do indiano Satyajit Ray), Simon Pegg (“Arizona Nunca Mais”, dos irmãos Coen) e Michael Nyman (“Luz Silenciosa”, do mexicano Carlos Reygadas).

Duas atrizes celebradas fizeram o favor de não deixar passar em branco o nome de um dos maiores. Cate Blanchett e Juliette Binoche escolheram, respectivamente, “Stalker” e “O Sacrifício”, ambos do russo Andrei Tarkovsky.

Mas é do lado menos “celebridades” que a lista ganha um interesse mais perene. As mesmas personalidades foram convidadas a responder à questão: “O que você considera estimulante em relação ao futuro da imagem em movimento?”.

Predomina, na opinião da maioria, a sedução pelos poderes da tecnologia. Para Ken Russell, adepto de um cinema da imageria, “o fundo verde significa que o céu é o limite!”. Michael Nyman e Paul Greengrass também expressam entusiasmo com relação à tecnologia, mas preferem enxergar seu valor na difusão do acesso, permitindo que cada um tenha direito à criação.

Quem prefere dar o tom negativo é Terence Davies, que foge do elogio da tecnologia para lamentar o fim da era dos grandes diretores. E Ken Loach aproveita para dar um banho de água fria em quem só enxerga benefícios na tecnologia ao alertar que, com ela, ampliamos também nossas possibilidades de sermos manipulados. Mas quem se importa com isso, não é mesmo?

Grande parte desses depoimentos está disponível em vídeo, nest link da página especial criada pelo BFI para celebrar seus 75 anos.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h10 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

O que é o cinema, mesmo?

O que é o cinema, mesmo?

                                                                                    Divulgação

Agnès Varda, à esq., na autobiografia "Les Plages d'Agnès"

Por Leonardo Cruz

"O cinema não deveria entrar no museu nem integrar instalações. O museu, como o teatro, é a sociedade burguesa. O cinema é uma arte popular, ele exige a sala escura, na qual podemos nos esconder num canto, onde estamos protegidos pela escuridão, onde não há entreato, nem coquetel, nem casacos de pele nem olhares _salvo aqueles que circulam entre a tela e os espectadores.

E, quando o filme termina, e as luzes ainda não estão acesas, nós nos levantamos e vamos embora."

A frase acima é de Eugenio Renzi, crítico de cinema italiano. Trata-se da parte final de seu texto sobre o novo longa de Agnès Varda, uma autobiografia chamada "Les Plages d'Agnès" (As Praias de Agnès), exibida nesta semana no Festival de Veneza. Renzi elogia a obra da cineasta francesa, mas ataca seu final, quando Varda entra no museu e mostra seus trabalhos mais recentes em uma exposição. Daí a reflexão de Renzi, que divide com Jean-Michel Frodon um ótimo quase-diário sobre a edição deste ano de Veneza no site da Cahiers du Cinéma, em versão trilingüe (francês, italiano e inglês).

Escrito por Leonardo Cruz às 4h17 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

O reencontro de Walter Salles e Daniela Thomas

O reencontro de Walter Salles e Daniela Thomas

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo analisa "Linha de Passe", o novo longa de Walter Salles e Daniela Thomas, e observa o amadurecimento profissional da dupla de cineastas, que já trabalhara junta nos longas "Terra Estrangeira" (1996) e "O Primeiro Dia" (1998). Para ouvir, basta clicar no microfone.

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 1h42 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Eisenstein vive, e a Rússia também

Eisenstein vive, e a Rússia também

                                                                                Divulgação
 
O cineasta russo, durante a montagem de "Outubro"

Por Sérgio Rizzo

A crise na Geórgia lembrou a quem por acaso já havia esquecido (ou andava seduzido unicamente pela idéia de dragão chinês em virtude do esforço de propaganda dos Jogos Olímpicos) que a desintegração da URSS não tirou a Federação Russa (que costuma ser chamada apenas de Rússia, em referência à principal de suas 21 repúblicas) do tabuleiro de poder do mundo contemporâneo.

Seria uma boa oportunidade para que instituições culturais e seus curadores contribuíssem para o esforço de entender o que representa hoje o país com uma seleção de filmes russos realizados durante os últimos anos. Quase nada vindo de lá chega ao circuito comercial brasileiro ou em DVD, a exemplo do que ocorre com qualquer país que tenha produção cinematográfica significativa, mas não se chame EUA.

O Database Mundo do Filme B informa que, em 2004, foram produzidos 86 longas-metragens na Rússia, produção mais expressiva em quantidade do que a brasileira. Em 2005, a produção nacional ocupou 27,7% do mercado doméstico (índice que, no Brasil, oscila hoje em torno de 6%). Se você consegue ler no idioma local, uma visita ao web site da Agência Federal de Cultura e Cinematografia alvez ajude a entender o perfil da produção.

Por aqui, alguma instituição poderia organizar algo na linha da exposição “Depois de Eisenstein”, que será aberta neste sábado, dia 6, no espaço cultural Lunds Konsthall, em Lund, na região Sul da Suécia, bem próxima à Dinamarca. Se o seu sueco anda enferrujado, recorra ao ambiente em inglês do site para conhecer um pouco mais do lugar e da exposição.

Modestamente, os curadores não se propuseram a fazer uma panorâmica da arte russa no período pós-URSS. Preferiram se concentrar na figura canônica de Sergei Eisenstein (1898-1948), na obra de “duas figuras-chave na cultura pós-soviética” – o fotógrafo Boris Mikhailov, 70, que nasceu em Kharkov (Ucrânia) e vive em Berlim, e a cineasta Kira Muratova, 74, que nasceu na Moldávia, mas sempre trabalhou em Odessa (também na Ucrânia) – e na carreira da artista multimídia Olga Chernysheva, 46, que vive em Moscou. Em comum, todos se mantêm fiéis à tradição de comentário social da arte russa, mas com intensa subjetividade.

Abaixo, uma amostra do trabalho de Muratova: um trecho do longa “Motivos de Tchecov” (2002).

Já seria bom demais se ao menos a obra de Eisenstein fosse editada em DVD no Brasil com a qualidade dedicada a ela, por exemplo, pela distribuidora Kino, que lançou nos EUA edições especiais de “O Encouraçado Potemkin” (1925) e “Que Viva México” (1931/79), além do curta “Romance Sentimental” (1930) no DVD duplo “Avant-Garde: Experimental Cinema of the 1920s e 30s”. A Criterion Collection, por sua vez, lançou a caixa “Eisenstein: The Sound Years”, com edições especiais de “Alexandre Nevsky” (1938) e as duas partes de “Ivan, o Terrível” (1945).

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h06 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

"Trovão Tropical" é boicotado no Brasil

"Trovão Tropical" é boicotado no Brasil

                                                                                      Divulgação

Por Leonardo Cruz

A campanha começou nos EUA e chegou ao Brasil. Um grupo de mais de 50 instituições distribuiu nos últimos dias um manifesto de boicote a "Trovão Tropical" (foto), a comédia de Ben Stiller que satiriza Hollywood e seus filmes de guerra.

Em questão estão o uso do termo "retardado" e a forma como o filme faz piadas incorretíssimas com deficientes mentais. O personagem de Stiller interpreta um ator em decadência, que fez, entre outros fiascos, "Simple Jack", longa que tem um deficiente como protagonista e ironiza obras reais como "Forrest Gump" e "Rain Man".

As piadas com "Simple Jack" motivaram passeatas diante de cinemas nos EUA e forçaram a Dreamworks a tirar do ar o site viral de promoção do falso filme e a sumir com as fotos de divulgação de Ben Stiller caracterizado como o personagem. Por aqui, o abaixo-assinado que circula por e-mail conclama: "NÃO JOGUE FORA O SEU DINHEIRO com coisas desse tipo. Baixa arrecadação é a única linguagem que a indústria do cinema conhece para reconhecer que errou". O documento é referendado por entidades diretamente ligadas aos deficientes intelectuais, como as ONGs Conquista Down e Grupo Educação e Autismo, e por outras sem relação, como a Liga Brasileira de Lésbicas, a Associação de Remanescentes de Quilombo, a Sociedade Beneficente Muçulmana e a Associação de Índios Tupi e Guarani Awa Ropedjo.

A campanha não deu muito resultado nos EUA _o filme lidera o ranking de bilheterias desde que entrou em cartaz, há três semanas. No Brasil, "Trovão Tropical" não teve um desempenho muito forte em seu final de semana de estréia _foi o nono mais visto e atraiu quase 35 mil pessoas aos cinemas.

*

E também cortado
Em seu site Cinemascópio, o crítico Kleber Mendonça Filho relata que "Trovão Tropical" está passando com cortes em cinemas do Recife. Em salas como o Kinoplex Plaza Casa Forte e UCI Boa Viagem, não estão sendo exibidos os falsos trailers do começo do filme. E um leitor do Cinemascópio alerta que o mesmo acontece num cinema da rede Cinemark aqui em São Paulo. A cópia que vi, no Espaço Unibanco Pompéia, manteve intactos os quatro aperitivos do longa.

Alguém aí também perdeu um pedaço de "Trovão Tropical"? Na dúvida? Veja um dos trailers cortados, com Robert Downey Jr. e Tobey Maguire em "Satan's Alley".

Escrito por Leonardo Cruz às 4h58 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Brilho eterno de uma mente com lembranças

Brilho eterno de uma mente com lembranças

                                                                                 France Presse

 Alain Robbe-Grillet, roteirista de "O Ano Passado em Marienbad"

Por Cássio Starling Carlos

Um dos mais importantes eventos cinematográficos do ano começa em São Paulo nesta quarta e prossegue até o dia 21 no CCBB: a retrospectiva integral da obra do diretor francês Alain Resnais, composta por sete curtas e dezessete longas, realizados pelo diretor desde 1948.

Autor de alguns dos filmes mais inovadores do cinema moderno, Resnais não se identifica com a imagem simplista de artista onipotente. Ao longo de sua obra, praticou hibridismos múltiplos (com a literatura, os quadrinhos, a música, o cognitivismo e o teatro, por exemplo), o que conduziu seu trabalho a resultados que preservam, até hoje, seu potencial de inquietação sem os riscos de envelhecimento precoce que tornaram pouco interessantes mais de uma trajetória de companheiros de sua geração e seguintes.

Em um pacote de 25 programas retransmitidos no mês passado pela rádio France Culture, o escritor Alain Robbe-Grillet (foto acima), que morreu em fevereiro, evocou seu trabalho ao lado de Resnais na realização do mítico “O Ano Passado em Marienbad” (1961):

“Minha experiência cinematográfica começou assim que me identificaram como uma das cabeças do ‘Nouveau Roman’, uma escola de olhar objetivo de certo modo equivalente ao que se encontra em certos filmes. Após a publicação de ‘La Jalousie’, por volta de 1959 ou 1960, comecei a receber propostas para realizar um filme. Uma delas veio de um dos produtores por trás de ‘Hiroshima, Meu Amor’, de Resnais, que já era uma experiência do diretor a partir de material prévio feito por um escritor, no caso um roteiro a cargo de Marguerite Duras.

Quando um produtor me sondou para saber se eu escreveria para um novo longa de Resnais, eu, que já admirava seu trabalho desde os primeiros curtas, perguntei se havia sido dele a idéia de trabalhar comigo. O produtor disse que não, absolutamente, que Resnais nem mesmo havia lido meus livros, mas que ele havia gostado muito da experiência de fazer um filme com base em material literário e que gostaria de repetir a experiência, desta vez com algo feito por Simone de Beauvoir ou por Françoise Sagan. ‘Mas nós não queremos nem ouvir falar dessas duas’, segredou-me o produtor. Nessa mesma noite, eu redigi três histórias, entre as quais estava a de ‘Marienbad’, que naquele momento se intitulava apenas ‘O Ano Passado’ (‘em Marienbad’ foi acrescentado posteriormente, por razões, digamos, musicais).

Logo em seguida, veio à tona um problema, quando eu disse a Resnais que eu não poderia escrever o roteiro ‘literário’. Duras sabia escrever um roteiro, que ele havia transformado em imagens. Eu disse a ele: ‘Se penso em um filme, eu o penso como filme, em imagens, em barulhos e em palavras. Penso, por exemplo, numa imagem, num longo travelling [como os esplêndidos já feitos por Resnais até aquele momento] acompanhado por frases numa espécie de litania’. Resnais disse que por ele tudo bem, e fiquei surpreendido com sua posição, que não era a de um autor onipotente. Ele se colocava de modo claro a serviço de autores que ele havia escolhido.

A partir daí, eu escrevi bem rapidamente, ele acompanhou de perto minha produção e demonstrou estar satisfeito com o resultado. Logo eu também compreendi, quando começamos a abordar a escolha de uma atriz para o papel, que ele não buscava uma atriz para ‘Marienbad’, que ele procurava um filme para Delphyne Seirig. Já eu imaginava a personagem da mulher de um modo mais ostensivamente carnal.

Outra diferença entre nós foi em relação aos cenários. Eu não participei das filmagens e pensava em um lugar mais estranho que aquele castelo.

O que acho curioso em relação ao resultado do filme é que há nele a sobreposição de dois criadores de imagens, eu e Resnais. Eu escrevi aqueles travellings para Resnais certamente porque já amava o modo como ele executava tais movimentos em seus primeiros curtas-metragens. Mas há uma tensão subjacente em ‘Marienbad’, porque Resnais acreditava fazer um filme sobre a memória, enquanto eu escrevi um filme sobre a persuasão.”

*

A seguir, um trecho de "O Ano Passado em Marienbad".

Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h15 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Autor de "Instinto Selvagem" vira roteirista de Cristo

Autor de "Instinto Selvagem" vira roteirista de Cristo

                                                                                  Divulgação

A famosa cena de Sharon Stone, escrita por
Joe Eszterhas na fase pré-conversão

Por Sérgio Rizzo

Para o público, a cruzada de pernas de Sharon Stone sem calcinhas e o uso alternativo de furadores de gelo foram alguns dos elementos que fizeram de “Instinto Selvagem” (1992), o quatro longa-metragem em inglês dirigido pelo holandês Paul Verhoeven (“Robocop”, “A Espiã”), um sucesso de bilheteria – mais de US$ 350 milhões em todo o mundo.

Mas, nos bastidores de Hollywood, o filme já era comentado muito antes das filmagens por causa de seu roteirista, Joe Eszterhas, que teria recebido pelo trabalho uma quantia então recorde para a função – a bolada alcançaria a cifra de US$ 3 milhões. Nada mal: pelo seu primeiro roteiro filmado, que deu origem a “Flashdance” (1983), o cachê teria sido de US$ 250 mil. Eszterhas ainda conseguiu manter o padrão salarial de “Instinto Selvagem” em “Invasão de Privacidade” (1993), também com Sharon Stone, baseado em romance de Ira Levin e dirigido por Philip Noyce, mas não emplacou nenhum outro êxito. Nos anos 2000, sumiu do mapa.

O que ocorreu com ele na subida, na descida e na retomada ocupa “Crossbearer: A Memory of Faith” (St. Martin’s Press), que chega às livrarias norte-americanas nesta terça, dia 2. De acordo com a revista “Publishers Weekly”, o livro assinala a transformação de um roteirista em memorialista. “Foi parte de um acordo com Deus”, afirma Eszterhas em entrevista a Dick Donahue. “Eu era alcoólatra e fumava quatro maços de cigarro por dia. Depois de uma cirurgia na garganta (por causa de um câncer), me disseram que eu precisava parar de beber e de fumar imediatamente se quisesse ter uma chance de sobreviver. Cerca de um mês nesse regime, e eu já estava ficando maluco.”

Eszterhas conta que foi sendo tomado pelo desespero até que, em um dia de muito calor, quando mosquitos e abelhas decidiram atacar o aparelho que lhe permitia respirar, ele se sentou na calçada, durante uma caminhada, e começou a chorar. “Ali, eu me ouvi – dentro da minha cabeça, claro, porque não tinha condições de falar – rezando e dizendo: ‘Por favor, Deus, me ajude’. Não rezava desde que era criança; Deus tinha sido irrelevante em toda a minha vida. Depois de ficar sentado por cinco ou dez minutos, me levantei e me senti melhor, mais forte do que havia me sentido desde a cirurgia.”

Lidar com a abstinência, garante ele, se tornou mais fácil desde então. “Pela primeira vez, eu pensei que de fato conseguiria me livrar do álcool e do cigarro, e agradeço a Deus por isso. Durante os meses seguintes, uma vez que não tinha mantido nenhuma espécie de relacionamento com Deus em tantos anos, eu estava relutante em pedir a ajuda de Deus para viver. Mas, finalmente, disse que se Deus me ajudasse a viver eu contaria ao mundo o que aconteceu comigo, e como aconteceu.”

O que Hollywood pensa da conversão? “Poucas pessoas viram o livro, mas todas elas sabem que tenho uma fé profunda e que isso representa um grande aspecto da minha vida. E, sim, penso que certamente existem muitos que olham para mim e pensam: ‘Bem, ele agora perdeu todos os miolos, não apenas alguns’. Sinto essa reação, mas devem existir muitos outros – cuja espiritualidade é mais ‘new age’ – que respeitam minha fé.”

Eszterhas conta que esteve com seu antigo agente, Guy McElwaine, cerca de quatro horas antes que ele morresse. Sentou-se ao seu lado, rezou, deu-lhe um beijo e notou que as pessoas no quarto ficaram muito tocadas. Algumas lhe disseram depois: “Você então renasceu, hein?”. Ele acredita que não. “Passei por uma espécie de conversão íntima que me levou para mais perto de Deus, mas que também me levou de volta para uma grande dimensão de minha infância católica”, explica.

Nada de trabalhos como “Instinto Selvagem” daqui para a frente, acredita ele. “Estou seguro de que vou usar essas experiências em meu trabalho, porque eu gostaria de expressar de outras maneiras o que está nesse livro – talvez como ficção, talvez em outros gêneros. Se estou certo de uma coisa, é de que os meus escritos, seja lá qual for a sua forma, jamais serão tão sombrios quanto algumas coisas que escrevi no passado. Não é que eu queira fazer proselitismo e ser um missionário, converter as pessoas, mas penso que vi um lado mais iluminado da vida, da realidade cotidiana e das pessoas do que eu havia visto antes, e gostaria que ele viesse a aparecer em meus escritos.”

Isso também é Hollywood.

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h53 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.