Fernando Solanas, 72, nasceu em Olivos, Grande Buenos Aires, justamente onde está localizada a Quinta Presidencial, residência oficial dos presidentes argentinos. A proximidade do centro de poder é mais um dado político na carreira do veterano cineasta argentino, vencedor de prêmios em festivais de cinema de prestígio como Cannes (“Sur” ganhou o Prêmio de Direção na edição de 1988) e Veneza (“Tangos - O Exílio de Gardel” levou o Grande Prêmio do Júri na edição de 1985).
Ex-candidato à Presidência do país, Solanas fica mais interessante quando fala de questões predominantemente cinematográficas e abandona o discurso político mais óbvio. O diretor ministra uma aula magna neste sábado, dia 12, às 15h, no auditório do Memorial da América Latina, dentro do 3º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo.
A seguir, a entrevista com o “cinemilitante”, que fala desde seu início com o documentário “A Hora dos Fornos” (1968), do seu sucesso internacional e da sua revolta com o Estado argentino pós-Menem.
O COMEÇO
Eu tive muitas etapas distintas. Eu havia me preparado para um grande cinema de ficção. Minha formação foi na música, na pintura e no teatro, na Escola Nacional de Teatro. Ao mesmo tempo, era muito forte em mim uma vocação histórico-social e política. Não é casual que meu primeiro filme tenha sido um documentário [“A Hora dos Fornos”] histórico e político.
Minha primeira etapa foi com o cinema militante, durante a ditadura, de 1966 a 1973, nessa etapa fiz “A Hora...”, um documentário de quatro horas. Depois, meu primeiro longa de ficção, “Os Filhos de Fierro” [1972]. Também fiz dois outros documentários, um no exílio na França, “O Olhar dos Outros” [lançado só em 1980], e outro documentário, uma grande entrevista com Perón em seu exílio [1971].
O ESTILO
Toda essa minha formação artística foi decisiva para o cinema. Meus filmes têm uma marcada estrutura musical. Um denominador comum deles é o especial cuidado com a imagem. Meus longas nascem sobretudo de idéias visuais.
Componho meus filmes como um quebra-cabeça. Vou recolhendo imagens, faço uma forte investigação visual. Veja, o mais difícil não é ter um roteiro. Com o mesmo roteiro, mil diretores farão mil títulos distintos. O conflito de um diretor de cinema é eleger visualmente as imagens, quais são mais cinematográficas. Quando faço um filme de ficção, nunca fiz menos de 5.000, 6.000 fotografias, e quase uma centena de horas de vídeo.
Cena de "Tangos - O Exílio de Gardel"
A FASE DAS “TANGUERÍAS”
No regresso à Argentina, em 83, 84, há dois filmes de ficção com uma forte estrutura musical. São sínteses entre a música, o teatro e o cinema. Eu chamei-os de “tanguerías”, porque tem uma forte base de tango mesclado ao drama e à comédia. Esses dois longas, com música de Astor Piazzolla, são os dois mais complexos trabalhos que fiz, “Tangos - O Exílio de Gardel”, em 1985, e “Sur”, em 1988. Em parte “Tangos...” é autobiográfico, mas em parte não, porque as anedotas recolhi de amigos, conhecidos.
O começo de um filme é como o prólogo de uma ópera, então tem de conter um importante impacto visual e emocional, mesmo que comece muito tranqüilo. Sendo um filme que contava a história de um exílio em Paris, os cenários sempre muito visitados pelos exilados. E as mais bonitas paisagens de Paris se dão quando caminhamos pelas margens do Sena. Então, um canto a Paris com bailarinos dançando o tango nas pontes do Sena foi uma idéia de força.
ANOS DE CRISE
Depois desses dois longas, vieram outras duas ficções, “A Viagem” [1992] e “A Nuvem” [1998], que eu chamo de “grotéticas” _ misturam o grotesco e o patético. São dois filmes feitos nos anos 90, os anos negros, a década “grotética” do saque da Argentina, uma década trágica. São filmes que expressam essa amargura.
Cena de “Memória do Saqueio”
O DOCUMENTÁRIO, DE NOVO
Com a crise de 2001, nasce a necessidade e a idéia de fazer documentários sobre a Argentina. A geração dos meus filhos não entende o que passou. Como pode Argentina, fábrica de alimentos, ter 30 mil mortos em razão da fome?
Aí vieram “Memória do Saqueio” [2004], “Dignidad de Los Nadies” [2005], “Argentina Latente” [2007] e agora “La Próxima Estación”. “La Próxima Estación” nasce da catástrofe do sistema de transporte na Argentina hoje. Como conseqüência da privatização dos transportes. “La Próxima...” tem como tema central a ferrovia, mas seu pano de fundo a crise dos serviços públicos. O que é público e o que é privado? Há uma grande confusão.
No ano passado, em estradas, rodovias e ruas, morreram 8.160 argentinos, 12 vezes mais que durante a Guerra das Malvinas. O filme chama isso de ‘a guerra do automóvel‘. Estreará em setembro. Talvez passe em algum festival na Europa, mandei-o para Veneza e para San Sebastian.
O CAPÍTULO FINAL
Chama-se “La Tierra Sublevada”. É um filme que fala sobre os recursos e bens da terra. Na Argentina e em outros lugares, principalmente na América Latina, hoje, a terra é muito maltratada. Os índices de contaminação são enormes. As empresas privadas de petróleo, as grandes corporações mineradoras e as companhias agroquímicas são as responsáveis. Se tudo der certo, o filme será lançado no ano que vem. E depois voltarei à ficção, tenho três ou quatro histórias já pensadas.
O quê: Aula magna com Fernando Solanas Quando: sábado, 12/7, às 15h Onde: Memorial da América Latina - auditório Simon Bolívar (av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, portão 12, tel. 0/ xx/11/3823-4600) Quanto: entrada franca
Ele teve uma infância difícil. A família, disfuncional, o botou para trabalhar desde cedo em subempregos. Nunca deram atenção para o talento artístico que ele demonstrava. Mas ele batalhou.
Certo dia uma pessoa muito influente percebeu seu potencial e lhe deu uma chance _que ele agarrou com unhas e dentes. Em pouco tempo, pôde largar o trabalho que odiava e se dedicar à sua arte. Mas as coisas não foram fáceis. Logo o sucesso lhe subiu à cabeça e, incapaz de lidar com a fama, começou a usar drogas. Mansões, carrões e mulheres não bastavam, e logo a decadência veio. Quando ele olhou para trás, viu que ainda havia tempo para uma nova guinada na vida.
Troque o “ele” por “ela”, o “drogas” por “frustrações amorosas” e um ou outro detalhe e a trama descrita acima serve para resumir as biopics de nomes como Ray Charles, Johnny Cash, Bob Dylan, Jim Morrison, Ian Curtis, Edith Piaf etc., ainda que tais personalidades habitem universos distintos. Todos os artistas são iguais? Ou todos os retratos são falhos?
Entre as fórmulas que a indústria do cinema encontrou para enfrentar a falta de idéias originais, a das biopics é, ao lado dos remakes e das adaptações de HQs, uma das que mais proliferam pelas telas. Afinal, trata-se de reconhecimento artístico (atores que incorporam tiques de seus retratados sempre comovem no Oscar) e financeiro quase certos.
À parte a chatice que a maioria desses filmes são para quem não é fã do retratado em questão, as biopics se deparam com o absurdo que é resumir uma vida em torno de duas horas. “Cidadão Kane” (1941) já atentava para a dificuldade de explicar fielmente o que é, enfim, uma pessoa.
Dois lançamentos recentes em DVD levantam esses paradoxos por vias diferentes: “A Vida É Dura” (Walk Hard), que chega direto ao formato no Brasil, e “Não Estou Lá” (I’m Not There), que fez boa carreira nos cinemas.
Dirigido por Jake Kasdan e com Judd Apatow no roteiro, a comédia “A Vida É Dura” é a biopic de Dewey Cox, um astro do rock imaginário. A ironia já começa pela escolha do protagonista. John C. Reilly é um ótimo ator e tem cara de tudo, menos de galã libidinoso do rock.
A trama? É a mesma do começo deste post, mas com referências mais explícitas à vida de Johnny Cash, Bob Dylan, e Brian Wilson. Entre as ótimas ironias está o fato de que Reilly, 43 anos, interpreta o personagem principal desde que este tem uns 13 anos na trama. Não há registro realista que possa reproduzir a “verdade” propriamente dita, parece dizer o filme.
Já “Não Estou Lá” é a engenhosa maneira que Todd Haynes encontrou para retratar Bob Dylan sem citar o nome Bob Dylan. Haynes não conta linearmente a trajetória do artista, mas busca representações diversas em torno do mito, e não do homem. É mais honesto e real à sua maneira, já que admite e incorpora a impossibilidade do retrato fiel.
Ainda que o DVD (disponível apenas para locação) seja pobre, sem extras, trata-se de boa oportunidade para revê-lo em cores e áudio decentes, já que a maioria das salas de cinema o exibiam naquela já conhecida projeção digital tosca aqui em SP.
“Sua infância estava povoada de nomes, seu próprio corpo era como um salão vazio cheio de ecos de sonoros nomes derrotados. Não era um ser, uma pessoa. Era uma comunidade.”
A frase de William Faulkner usada como epígrafe em “M” aplica-se, sem emendas, a “Diga a Mario que Não Volte”. Ambos são impactantes trabalhos de memória efetuados por meio do vocabulário do documentário em primeira pessoa e terão exibições únicas, terça e quarta, no 3º Festival de Cinema Latino-Americano, que acontece até domingo, em São Paulo.
“Diga a Mario que Não Volte” é o título mais recente da filmografia do veterano diretor uruguaio Mario Handler, atuante desde o fim dos anos 50. Handler foi uma das vítimas da ditadura militar que se instalou no Uruguai por meio de um golpe de estado em 1973 e permaneceu no poder até 1985. Com o início das perseguições políticas, o diretor exilou-se na Venezuela e retornou ao Uruguai para realizar, em 2003, o incisivo documentário “Aparte”, que enfoca a degradação social do país.
Cena de “Diga a Mario que Não Volte”
O trabalho que será exibido nesta quarta, às 20h20, na Cinemateca, é uma captação da memória a partir do vazio. Em “Diga a Mario que Não Volte”, Handler ouve antigos companheiros de geração, todos vítimas de perseguição do regime militar, sob o qual sofreram torturas e estiveram presos. O diretor agrega entrevistas com policiais e militares envolvidos na repressão aos depoimentos dos amigos.
Do conjunto, Handler obtém uma visão do passado que não se resume a um acerto de contas. “O filme”, como define o diretor em uma de suas aparições em cena, “é uma tentativa de reconciliação ou de coexistência. E é também uma busca de verdade ou de verdades. E talvez uma reconstrução da alma de uma sociedade ou de minha alma”.
Este esforço para elaborar, por imagens e depoimentos, um passado do qual o protagonista esteve ausente se reproduz de maneira ainda mais assombrosa no filme argentino do diretor estreante Nicolás Prividera.
Sob um simbólico “M”, o título do documentário (com exibição única terça, às 17h50, na Cinemateca) reúne as pontas de um passado no qual as palavras memória, morte, Montoneros, mãe e Marta se cruzam para produzir uma história e resgatá-la do esquecimento.
Prividera tinha apenas seis anos quando a mãe, Marta Sierra, foi seqüestrada logo após o golpe militar e se tornou uma das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas durante a ditadura militar argentina (1976-1983). O filme consiste, primeiro, em localizar quaisquer traços que se seguiram à detenção, para o que o diretor entre em contato com as várias instituições que cuidam da memória das vítimas, mas pouco encontra de relevante.
Seu passo adiante será reencontrar amigos, colegas e parentes da mãe na tentativa de descobrir quais laços políticos, considerados subversivos, levaram à detenção dela.
No trajeto impressionante de pistas falsas e esquecimentos, Prividera constata como a palavra “desaparecida” esconde, ao mesmo tempo, um processo de apagamento da pessoa que ultrapassa em muito os efeitos da mera morte.
Com uma foto nas mãos, na qual Marta Sierra aparece com seus grandes olhos expressivos, o cineasta mergulha num quebra-cabeças com a assumida intenção de traçar um percurso biográfico que lhe traga de volta uma origem da qual ele mesmo esteve excluído. No percurso, além de Marta, é a alma de uma sociedade que ele acaba por reconstruir.
"O Escafandro e a Borboleta": em SP, só em digital capenga
Por Leonardo Cruz
Em cartaz nos cinemas paulistanos desde a última sexta, "O Escafandro e a Borboleta" é, à primeira vista, um programa imperdível. Afinal, o filme francês de Julian Schnabel acumula boas críticas e prêmios ao redor do mundo, incluindo a palma de melhor direção em Cannes no ano passado.
Mas a forma como a obra está sendo exibida no circuito paulistano a transforma em um programa "perdível". "O Escafandro e a Borboleta" pode ser visto apenas em cópias digitais em todas as suas sete salas. Ou seja, nesses cinemas a boa e velha película analógica foi trocada por uma projeção eletrônica de qualidade inferior, que altera som e imagem originais.
O filme de Schnabel não é o único nessa situação _além dele, sete longas são exibidos em SP exclusivamente nesse sistema digital porcaria: "1958 - O Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil", "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto", "A Banda", "Dot.com", "Lady Jane", "A Última Amante" e "Personal Che". Esse número representa 19% dos filmes em cartaz, marca inédita para o circuito paulistano. Isso sem contar obras como "Do Outro Lado", que passam em película em alguns cinemas e em digital em outros.
Nada contra a migração do analógico para o digital, que fique bem claro. A questão é que o digital que se espalha por aqui é muito inferior ao que vem sendo adotado lá fora. Atualmente, apenas seis salas brasileiras seguem o padrão internacional de projeção, o DCI, de qualidade da imagem superior à da película. Em contrapartida, mais de cem salas nacionais instalaram esse digital inferior, desenvolvido e comercializado pela Rain Network.
A questão é econômica: o sistema da Rain é mais barato que o digital DCI e que a película. Resulta em menos custos para o distribuidor e para o exibidor. Só quem perde é o espectador, que continua pagando os mesmos muitos reais para ver uma projeção pouca coisa superior à de um DVD. Para essas sessões, um descontinho no valor do ingresso cairia muito bem.
Esse cenário incomoda ainda mais porque a tecnologia Rain cresce com mais força nas salas dos "filmes de arte". Nesta semana, Espaço Unibanco (Augusta e Pompéia), Cine Bombril, HSBC Belas Artes, Cine UOL Lumière, Frei Caneca Unibanco Arteplex e Reserva Cultural exibem longas no formato capenga. Mantido o ritmo atual de expansão do sistema e o baixo nível do software de exibição da Rain, o futuro não é dos melhores para os cinéfilos paulistanos: grandes filmes "off-Hollywood", como "O Escafandro e a Borboleta", ficarão cada vez mais restritos a essas projeções sofríveis.
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Para quem quiser entender um pouco mais essa passagem da película para o digital, vale conferir o especial sobre o assunto escrito por Pedro Butcher para o portal Filme B.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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