Ilustrada no Cinema
 

Ritual de amor e morte

Ritual de amor e morte

Por Cássio Starling Carlos

Muito mal recebido pela crítica em seu lançamento nos cinemas, “Mishima, uma Vida em Quatro Tempos”, dirigido pelo norte-americano Paul Schrader em 1985 acaba de ganhar uma edição rica, conforme a tradição do selo Criterion. A revisão permite reavaliar a proposta de Schrader em comparação com a avalanche de filmes biográficos em tempos recentes.

Ao contrário do que vem sendo feito, com exceção do brilhante “Não Estou Lá”, de Todd Haynes, o “Mishima” de Schrader é uma reinterpretação que foge dos cânones de relato que mimetiza a trajetória do personagem. Apaixonado pela cultura japonesa, Schrader foca na instância biográfica, mas procura, sobretudo, recriar o universo literário, estético e ideológico das obras de seu personagem.

Para isso, o diretor encena trechos de livros de Mishima, inserindo-os de modo a estabelecer um circuito entre vida e obra que não se resume à reprodução.

De outro modo, mas sob um impacto mais lancinante é que se experimenta um lançamento simultâneo da Criterion. “Patriotism”, o único filme dirigido pelo escritor japonês, também acaba de ser lançado pela coleção.

O curta, escrito, dirigido, produzido e protagonizado por Mishima, foi realizado em 1966, a partir do conto “Yûkoku”, escrito por ele em 1961. O filme era considerado perdido, destruído pela viúva do artista em seguida ao suicídio dele em 1970. Mas em 2005 o negativo foi reencontrado na antiga casa de Mishima, restaurado e agora começa a circular em DVD.

Acompanhado de um trecho do “Tristão e Isolda”, de Wagner, “Patriotism” (também intitulado “Rito de Amor e Morte”) encena o reencontro de um tenente e sua amada, minutos antes do suicídio de ambos, sob o efeito do fracasso de uma ação militar. Mishima filma no espaço de um teatro nô, eliminando qualquer superfluidade para se concentrar na magnitude física do ato da morte ritual. Primeiro, registra o reencontro sob a forma de olhares no qual ele mesmo esconde o seu sob um quepe. Em seguida, filma uma cena de sexo pontuada por closes dos corpos e dos olhos dos protagonistas. Com outro primeiro plano agressivo, conclui o ritual com o harakiri.

O cenário branco reproduz a imagem do papel sobre o qual o casal registra suas motivações. Do mesmo modo que a tinta negra sobre o papel, o sangue que escorre das vísceras desenha-se como símbolo, arrastado pelas vestes de Reiko.

A sobreposição de gestos ritualizados, ação reduzida ao essencial e ausência de falas cria ainda mais impacto nessa experiência de um escritor que suspende, provisoriamente, a crença na escrita para reencontrá-la sob a forma da imagem.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h31 PM

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Máquina de posts

 

Por Bruno Yutaka Saito

Em princípio, “Nome Próprio” parece ser uma obra alienígena infiltrada na filmografia de Murilo Salles. Se longas como “Seja o que Deus Quiser” (2003) faziam sátira social a um país caótico, agora Salles volta seu olhar para o mundo dos blogs.

Mas, se lembrarmos que o cinema “social” muitas vezes descamba em filmes-teses, de personagens que se movem e falam artificialmente como marionetes para demonstrar idéias prontas do diretor/ roteirista, “Nome Próprio” não está assim tão longe do que Salles já fez.

Veja o trailer: 

Você já deve ter lido na Ilustrada desta terça-feira que “Nome Próprio” estréia no próximo dia 18 e é baseado em livros de Clarah Averbuck. Com tintas autobiográficas, acompanhamos Camila, garota de 20 e poucos anos que sai de Brasília para tentar a sorte em São Paulo. Para ela, a ordem surge do caos, e é num espírito “Bukowski + Fante + álcool + sexo” que ela vai de bar em bar ensaiando passos, registrados em blog, para escrever seu primeiro livro.

O que “Nome Próprio” destaca é o fascínio por essa mídia. Blog, convém lembrar, é, antes de gênero literário, um meio. E, Salles, antes de mais nada, é um bom artesão. Mas ele não se deixa deslumbrar apenas pela forma.

O que está em jogo é uma questão quase invisível, já que recente demais. O mundo de Clarah/Camila é da virada dos anos 90 para os 2000, quando os blogs (e a internet como um todo) mudaram as formas de relações humanas e representações.

Parece pouco? Em uma das cenas-chave do filme, Camila enfim conhece o rapaz com quem mantinha contato (e paixão) virtual há tempos. “Não quero te conhecer de verdade, você vai estragar a imagem que eu já criei na minha cabeça”, é mais ou menos o que ela diz.

A saga da protagonista, então, coincide com cada tópico já amplamente debatido em teses mundo afora. Temos os covardes internautas terroristas, que usam o anonimato da rede para desferir ataques virtuais; intimidades que são expostas sem consentimento; o blog como rápido meio independente de registro/publicação/repercussão; a criação de celebridades, tal qual num reality show.

Talvez o espectador se irrite. Bate aquela sensação do “nada acontece aqui”, como na longa seqüência em que Camila faz faxina, mas isto só nos relembra que o cinema também registra os fatos ordinários da vida, e não apenas os extraordinários (assim como os diários, virtuais ou não).

Seqüências como essa criam o equilíbrio necessário para que recursos criticados, como a narração em “off” e a representação gráfica (pensamentos e posts de Camila pululam literalmente pela tela) sejam usados à exaustão. Sim, Salles parece saber que, no cinema, as imagens devem falar por si só. Mas ele está interessado em novas formas de representação, então os defeitos (como alguns diálogos sofríveis e a falta de leveza e humor) são perdoados.

É também difícil dissociar “Nome Próprio” de “Cão sem Dono”, o filme de Beto Brant baseado em livro de Daniel Galera, colega de geração de Clarah. Ambos habitam um mundo fechado em quatro paredes, seja em quartos vazios ou em bares, de gente que leu e estudou demais, e sabe bem como registrar a intensa vida vivida nos dias de hoje.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h34 PM

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Uma noite na ópera, com Cronenberg e Kiarostami

Uma noite na ópera, com Cronenberg e Kiarostami

 
Plácido Domingo, Cronenberg e Howard Shore, no cenário da ópera "A Mosca"

Por Leonardo Cruz

Dois dos principais diretores da atualidade deixaram o cinema de lado por um tempo para se dedicar à música erudita: David Cronenberg e Abbas Kiarostami estréiam suas primeiras óperas nos próximos dias na França.

O cineasta canadense já havia levado o universo operístico ao cinema em 1993, em "M. Butterfly", versão de uma peça teatral de David Henry Hwang que tinha a obra lírica de Puccini como pano de fundo. Agora, Cronenberg faz o caminho inverso e apresenta em Paris, no Théâtre du Châtelet, a versão operística para "A Mosca", seu longa de 1986 que já era uma refilmagem de "A Mosca da Cabeça Branca" (1958).

O projeto de transformar em ópera a história do homem que se funde com um inseto é de Howard Shore, um dos principais compositores para cinema da atualidade, criador de trilhas sonoras de filmes de Martin Scorsese e Tim Burton, autor das músicas de 12 longas de Cronenberg. Em um videocast no site do Théatre du Châtelet, Shore explica que a idéia para a versão lírica de "A Mosca" surgiu já em 1986. "Quando compus a trilha original do longa de David, percebi que se tratava de uma ótima trama para uma ópera, com personagens fortes e ação dramática intensa", diz Shore, que passou três anos preparando o espetáculo.

A direção musical da ópera está a cargo do tenor Plácido Domingo, e o libreto foi escrito por David Henry Hwang, o mesmo de "M. Butterfly". A temporada parisiense da ópera "A Mosca" começa nesta quarta; depois, o espetáculo segue para Los Angeles em setembro.

No videocast a seguir, é Cronenberg quem relata sua experiência com a montagem proposta pelo compositor. Autor de obras que tratam das relações do homem com a tecnologia ("Videodrome", "Existenz"), o cineasta recusou a sugestão de Shore de usar qualquer recurso de vídeo na encenação para "ter uma experiência de palco total".

Enquanto Cronenberg abriu mão de filmagens na encenação de sua ópera, Abbas Kiarostami optou pelo contrário e foi à costa mediterrânea francesa captar imagens do mar que servirão como pano de fundo em sua montagem de "Così Fan Tutte", ópera cômica de Mozart sobre a infidelidade feminina.

Em entrevista ao diário francês "Le Monde", Kiarostami explicou o uso do cinema em sua primeira ópera: "Desde o início, quis fazer o que sei fazer, ou seja, filmar a natureza. Para mim, `Così Fan Tutte´ só poderia se passar a beira-mar, pois os personagens, para se submeter a tal prova de amor, deveriam estar em um estado total de `férias´. O mar libera das amarras sociais, a natureza convida a se aproximar da verdade interior dos seres".

Premiado por filmes como "O Gosto de Cereja" (Palma de Ouro em Cannes em 1997) e "O Vento nos Levará" (Prêmio Especial do Júri em Veneza em 1999), o diretor iraniano disse ao "Monde" ver certa proximidade entre os dois universos. "Não creio que o trabalho de cenografia e de direção no cinema seja fundamentalmente diferente deste da ópera. Comecei como estudante de belas-artes, antes de virar designer e depois passar para o cinema e a fotografia. Na ópera, reúno a soma dessas experiências. O verdadeiro desafio é transformar um universo sonoro em um universo de signos visuais. E isso se aproxima de tudo aquilo que sempre tentei fazer. O perigo reside então no fato de que meu universo visual precisa estar à altura da obra-prima de Mozart."

O espetáculo, que estréia nesta sexta no Festival de Arte Lírica de Aix-en-Provence, tem direção musical de Christophe Rousset  e marca o 60º aniversário desse tradicional evento de música erudita do sul da França. No ano que vem, a mesma montagem seguirá para a English National Opera, de Londres. Já o cineasta iraniano só deve voltar às telas no ano que vem, em um longa-metragem a ser rodado na Itália, estrelado por Juliette Binoche.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h38 PM

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PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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