Com um nome tão pomposo quanto LaVie-LeMonde (A Vida-O Mundo) por trás do negócio, não deixou de causar comoção a notícia da venda da revista francesa “Cahiers du Cinéma”, anunciada em abril pela empresa que controla a publicação. Com a situação empresarial ainda indefinida, espera-se que algum mecenas cinéfilo assuma os riscos inerentes da operação, considerando-se que se trata de uma marca que entrou para o patrimônio da cultura cinematográfica há mais de meio século.
O medo reverberou também do outro lado do Canal da Mancha, onde a veterana “Sight & Sound”, mantida pelo sólido British Film Institute, explicitou seus temores pela crescente extinção de críticas de cinema em veículos impressos no editorial de sua edição de junho.
Na contramão da paranóia, a francesa “Positif”, um ano mais nova e eterna concorrente dos “Cahiers”, demonstra firmeza editorial trazendo mês a mês uma boa cobertura de atualidades complementada por uma seleção intemporal de temas e autores sob a forma de dossiês sempre estimulantes e de artigos deliciosamente anacrônicos na seção “Voix Off”. Na edição de junho, a revista fez uma excelente entrevista com George A. Romero, capa da edição que destaca a estréia de “Diary of the Dead”. O novo filme de Romero acaba de estrear na França, enquanto no Brasil se aguarda seu lançamento direto em DVD, previsto pela Imagem Filmes para os próximos meses.
Em junho, a “Positif” publicou ainda um box de agradecimento às Éditions Jean-Michel Place, responsável pela publicação entre 1996 e 2004 e cuja falência acaba de ser anunciada. Há quatro anos sob o guarda-chuva das Éditions Scope, a revista dirigida pelo veterano Michel Ciment vem mantendo sua linha editorial mais tradicional e pouco novidadeira, muitos anos vista como conservadora demais, mas pelo que tudo indica uma opção que a deixa ao abrigo das intempéries do mercado.
Do lado de cá do mundo, onde a vitalidade de publicações impressas se resume, salvo engano, à “Set” e à “Revista de Cinema”, o fluxo da reflexão relevante vem operando a pleno vapor na internet, nas já consolidadas Contracampo, Cinética, Cinequanon e Filmes Polvo.
Nem mesmo a desaparição da versão em papel da “Paisà” teve tempo de ser lamentada, já que seus editores mantiveram o padrão na versão online, agora com periodicidade semanal.
E para quem já se entregou à voracidade dos bits, mas ainda não recusa a degustação de um menu de idéias oferecido no quase antiquado papel, é sempre prazeroso ler a “Teorema”. Com periodicidade semestral, a revista, editada pelo Núcleo de Estudos de Cinema de Porto Alegre, chega agora ao seu número 12. Em São Paulo, é fácil encontrar seus exemplares na Fnac.
Relativamente despreocupada com atualidades, mesmo que sua pauta se concentre em títulos exibidos em meses mais recentes, a “Teorema” é uma revista fora do tempo, no sentido positivo da expressão.
Pois seu tempo é o da digestão, no qual já nos livramos da ansiedade do consumo e podemos acompanhar uma argumentação nunca apressada. Ler seus textos, que se estendem ao longo das páginas, em vez de ter que rolar uma barra de cima para baixo, dá o mesmo prazer que ver um filmaço em cinemascope.
Nove vezes indicado ao Oscar e duas vezes vencedor do prêmio (por “E.T.” e “Indiana Jones e a Última Cruzada”), Ben Burtt é considerado um dos gênios escondidos de Hollywood. Em “Wall-E” ele é responsável pelo “sound design” e pela voz do próprio protagonista, o “último robô na Terra”. “No cinema, o som é um agente invisível. As pessoas prestam muita atenção na imagem, mas ninguém está ciente dos truques sonoros. Cada som, cada passo dado por um personagem e cada explosão na verdade foram sons que alguém criou e decidiu colocar lá. Trabalhar com som é um pouco como ser mágico”, define Burtt. Leia a seguir a entrevista.
Folha -Nos filmes de animação, em geral, os atores gravam os diálogos e só depois os animadores trabalham por cima das vozes. Como foi o processo de Wall-E, que quase não tem diálogos?
Ben Burtt - Foi parecido, apesar de bem mais flexível. Na verdade, fizemos vários testes com os sons. Entregava para o Andrew (Stanton, diretor do filme) pequenas edições sonoras para cada personagem e esses sons eram animados para sabermos se estava dando certo. O resultado era como testes gravados com atores, só que com personagens animados. Em cada um desses “filminhos” o personagem vinha, mostrava suas funções e se apresentava. Na estrutura dramática de “Wall-E”, quase sem diálogos, não fazia sentido usar o processo tradicional: contratar atores e colocá-los em frente ao microfone para gravar as falas. A idéia é que as “falas” dos robôs fossem expressas pelos sons que eles produzem, e que esses sons tivessem origem nas funções para as quais eles foram programados. São personagens que não se expressam em palavras, mas, mesmo assim, você é capaz de entender o que se passa na cabeça deles.
Folha - Por que você mesmo fez a voz de Wall-E?
Burtt - Foi uma conseqüência natural do processo de trabalho. Durante meses, preparando o filme, fiquei trancado experimentando sons com minha própria voz, como um cientista maluco trancado em seu laboratório. Não havia câmeras registrando e isso não estará no making of, graças a Deus. Fui apresentando os resultados e eles foram aprovados. Sempre começava gravando minha própria voz e depois ia trabalhando sobre ela, com um programa que permite desconstruir cada som em vários componentes. É mais ou menos como uma imagem digital, que pode ser manipulada pelos pixels. Esse programa também torna possível esticar ou compactar cada som para obter mais possibilidades de “performance”. É como tocar um instrumento musical. O importante, aqui, era encontrar sons que definissem os personagens e alcançar um equilíbrio entre o eletrônico e o humano.
Folha- Por ter poucos diálogos, “Wall-E” tem mais som?
Burtt - Sim, o filme tem mais arquivos sonoros do que qualquer outro em que trabalhei. Foram 2.500. Cada personagem tem um grupo de sons e muito movimento. As pessoas pensam que na era digital a gente pode fazer qualquer coisa, da mesma forma que tem acontecido com as imagens. Mas com o som as coisas não funcionam exatamente da mesma maneira. É uma dimensão criativa diferente. É claro que a tecnologia digital facilitou as coisas e, hoje em dia, você pode praticamente preparar o som de um filme inteiro no seu computador pessoal. Mas, antes disso, o processo continua sendo muito “realista”, quer dizer, a gente sai no mundo e coleta sons que serão transformados para servir a esse mundo fantasioso. A questão é convencer as pessoas de que esses objetos fantásticos são reais. Incorporar sons naturais em um filme de fantasia ajuda a criar a ilusão.
Folha- Você pode dar alguns exemplos de fontes dos sons de Wall-E?
Burtt - Sim. Wall-E se movimenta em várias velocidades diferentes. Quando ele anda devagar é um som que descobri em um filme de John Wayne que estava passando na televisão (“Geleiras do Inferno”, de William Wellman, 1953). Em determinado momento, um personagem liga um gerador. Deu um clique: gostei daquele som. Mas onde encontrar um gerador como esse? Achei um igualzinho, de 1949, no E-bay. Levei para o estúdio e comecei a experimentar, funcionou. Quando Wall-E anda rápido, lembrei-me de sons de aviões biplanos que gravei há muitos anos para “Caçadores da Arca Perdida”. Consegui achar, também no E-bay, uma ignição de um avião desses, que foi utilizada para produzir o som de Wall-E andando devagar.
*O jornalista Pedro Butcher viajou a convite da Disney
O trailer a seguir dá uma boa idéia de como são os sons do filme:
“Wall-E” é a nova animação da Disney-Pixar, que estréia nesta sexta-feira no Brasil. A matéria você pode ler na capa da Ilustrada desta quinta. A íntegra da entrevista com o diretor do filme, Andrew Stanton, um dos principais criadores da Pixar e ganhador do Oscar de melhor animação em 2003, por “Procurando Nemo”, você pode ler a seguir.
ORIGENS
“A idéia de ‘Wall-E’ surgiu em um almoço em 1994, quando ainda preparávamos ‘Toy Story’. O filme estava perto de ficar pronto e pensamos que, talvez, tivéssemos a chance de fazer um outro. Começamos a dizer as idéias que passavam pela nossa cabeça e, dali, saíram ‘Vida de Inseto’, ‘Monstros S/A’, ‘Procurando Nemo’ e ‘Wall-E’. Não tínhamos personagem ou história, só a vontade de fazer uma ficção-científica sobre o último robô na Terra, uma máquina abandonada depois que toda a humanidade deixou o planeta, mas que continua exercendo a função para que foi programada. Sei que esse é o cenário mais solitário que poderíamos ter imaginado, mas acreditamos profundamente nele.”
ROBÔS
“Sou fanático por ficção-científica e observei que, em geral, há dois tipos de robôs: o homem de lata, que em geral é um ser humano com pele de metal, ou o R2-D2, uma máquina cujo design é baseado em sua função, mas que ganha uma personalidade. Estava interessado nessa segunda idéia. Minha primeira fonte de inspiração foi o curta-metragem de John Lasseter (“Lady and the Lamp”, de 1979) em que uma luminária ganha vida. Não era para ser um personagem, mas seu próprio design já lhe imprimia um caráter. Vi esse curta dezenas de vezes, por seu poder único de dar vida a uma máquina. Assim como Lasseter nunca desenhou a luminária, eu não poderia desenhar Wall-E. Teria que encontrar seu design, que já existia em algum lugar. A base do robô já sabíamos: um quadrado funcional para compactar o lixo. Mas e o rosto? Descobri em um jogo de beisebol. Alguém me emprestou um binóculo. Lembrei que costumava brincar com o binóculo do meu pai. Perdi todo o resto do jogo, mas ganhei um personagem.”
Andrew Stanton, diretor de "Wall-E"
SILÊNCIO
“Por que gostamos tanto de animais de estimação e de bebês? Porque existe um grande charme em seres que não conseguem se comunicar plenamente. Parte do carisma de Wall-E vem de sua incapacidade de se comunicar —e foi esse aspecto que me fez ter confiança nesse filme. Sempre tive a sensação de que, por mais estranho que tudo pudesse parecer, estávamos lidando com um material poderoso. Por isso, além do design dos personagens e dos cenários, o som é especialmente importante para contar essa história, tão silenciosa. Mas Wall-E não é um filme mudo que tem som, é um filme atual que, por suas necessidades narrativas, usa um som não-convencional. De qualquer maneira, não posso negar que sou fã número 1 de Buster Keaton e que ele sempre representa uma forte influência no meu trabalho. Wall-E é um pouco Buster Keaton, um pouco Chaplin.”
HUMANIDADE
“Não sou dessas pessoas que escolhe um tema e sai escrevendo sobre ele. Gosto de disparar idéias e, em alguma parte do caminho, me dou conta de qual será o tema do filme. A certa altura percebi que o que estava em jogo na história desses dois robôs programados era o desejo —e eu vou ser bastante pretensioso aqui— de descobrir o sentido da existência. E eles acabam descobrindo que o amor pode ser um ato racional que pode derrotar a programação. Isso é algo com que todos nós podemos nos identificar. Com o tempo, nossa tendência tem sido nos acomodarmos em nossos hábitos, em nossas rotinas, e acabamos caindo em vazio nessa tentativa de evitar a parte ‘bagunçada’ da vida. E boa parte dessa ‘bagunça’ está em nossos relacionamentos, na necessidade de aprendermos a lidar com o outro.”
BOLHAS DE GELATINA
“Quando estávamos escrevendo o roteiro, tivemos a ajuda de um consultor da Nasa. Ele nos contou que no espaço o homem perde densidade óssea e, com o tempo, pode se tornar ‘uma grande bolha’. Quando disse isso, pensei: perfeito! Não quero ser ofensivo, mas estamos nos aproximando disso com nossas salas de estar repletas de controle remoto. Nas primeiras versões, levei a idéia às últimas conseqüências e desenhei os humanos como grandes bolhas de gelatinosas. Mas ficou grotesco demais e desisti.”
VOZES
“Os dois protagonistas quase não falam, mas suas vozes são importantíssimas para lhes dar personalidade. A voz de Wall-E foi feita pelo próprio responsável pelo som do filme, Ben Burt, que é um gênio. A voz de Eve ficou sendo a de Elissa Knight, que trabalha com a gente na Pixar. Como estamos em San Francisco e reescrevemos o roteiro todos os dias, nem sempre temos acesso a atores tão rapidamente. Então nós mesmos fazemos as vozes provisórias. Funcionou tão bem que falei: ‘Não vou procurar por uma atriz, vamos ficar com ela mesmo’. Essa é a filosofia Pixar.”
ECOLOGIA E POLÍTICA
“Sinto desapontá-lo, mas não tenho uma agenda política nem mensagens ecológicas. Reciclo o meu lixo mas, mesmo assim, às vezes me confundo. É claro que não me importo que o filme apóie certas idéias, mas tudo que o que foi pensado nasceu em função da narrativa. Queria falar do último robô na Terra e precisava imaginar uma razão para os homens terem abandonado o planeta. O lixo me pareceu um motivo razoável. Não estava tentando ser ‘anti’ nada, só estava tentando encontrar as melhores soluções para a história que precisava contar. Se você é um contador de histórias e tem uma agenda cheia de tópicos, vai se confundir. Mas se você conhecer o seu tema e desenvolvê-lo bem, e se por acaso ele levar a assuntos paralelos, tudo bem. Desde que você esteja falando do assunto pelo motivo certo, pode funcionar.”
HELLO DOLLY
“Quando resolvi usar a canção de ‘Hello Dolly’ no filme disse para minha mulher: ‘Essa foi a idéia mais esquisita que já tive e tenho certeza de que vão me perguntar sobre isso para o resto da minha vida’. Mas tudo bem, estou disposto a pagar esse preço. Minha vontade era começar o filme com uma música antiga ressoando no espaço. Gosto da idéia de passado e futuro justapostos, e começar assim seria uma forma pouco familiar. Mas existem tantas canções antigas... Comecei pelos standards, e muitos dos standards vêm de musicais. Quando cheguei em ‘Put on Your Sunday Clothes’, de ‘Hello Dolly’, e ouvi as palavras ‘out there’ (lá fora), pensei: ‘é isso’: o som de ‘out there’ e a imagem das estrelas. Só depois fui me dar conta de que a canção é sobre dois jovens nerds que querem ir para a cidade grande, ver o mundo e beijar uma garota. Esse é meu personagem! Depois, cheguei à segunda canção (“It Only Takes a Moment”) e ao momento em que os dois dão as mãos no filme —que é o gesto capaz de expressar a frase ‘eu te amo’ sem ter que dizê-la. É assim que Wall-E se declara a Eve. Por sorte, tive essa idéia bem no começo e fui logo atrás dos direitos das canções e das imagens do musical, que é da Fox. Não queria seguir adiante se fosse impossível usar trechos do filme.”
*O jornalista Pedro Butcher viajou a convite da Disney
O Brasil está na moda. Dê uma rápida olhada em três filmes estrangeiros em cartaz na cidade (“O Incrível Hulk”, “Cinturão Vermelho” e “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”) e você logo chegará a essa conclusão.
Um dos temas que mais estimulam debates acalorados neste blog é uma espécie de rixa entre o cinema brasileiro e Hollywood. Com a avalanche de Indianas Jones e Homens de Ferro da vida, pouco espaço sobra nas salas do país para as produções nacionais, como já bem comentou o crítico da Folha Sérgio Rizzo.
Engraçado notar que, apesar de os filmes brasileiros serem minoria em cartaz na cidade, o país aparece infiltrado em produções norte-americanas. E, na maioria das vezes, em uma imagem não muito positiva, mas que de fato existe e não é necessariamente caricatural.
Em “Cinturão”, ouvimos personagens falando português em alto e bom som. Alice Braga e Rodrigo Santoro incorporam um lado pouco louvável do Brasil. Em linhas gerais, podemos dizer que os dois fazem parte do time dos “bad guys” no longa de David Mamet. É um Brasil corrupto, ambicioso e que deixa as noções morais de lado em nome do sucesso e dinheiro a qualquer custo.
Na linha marginal também está “Antes que o Diabo...”, de Sidney Lumet. Apesar de ninguém falar português no longa, o país é central em duas cenas, uma delas logo no começo do filme, entre os personagens de Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei.
O primeiro está envolvido até o pescoço em crimes e, prestes a ver a sua vida desmoronar, cogita fugir para o Brasil para começar vida nova. Afinal, como ele mesmo lembra, o Rio é um paraíso, e o mercado imobiliário está em alta por ali. Hoffman ainda comenta que os brasileiros falam português, e não espanhol, e ri do filme “Feitiço do Rio” (1984), “clássico” trash com Demi Moore e Michael Caine que extrapola nos clichês e estereótipos sobre o Brasil.
Se lembrarmos de criminosos como Ronald Biggs ou vários outros menos famosos que encontram um porto seguro da lei por aqui, o filme está corretíssimo em seu retrato. Sim, o Brasil é um paraíso.
Na mesma linha de raciocínio, mas em uma representação bem equivocada, está o blockbuster “O Incrível Hulk”.
É no Rio que o cientista Bruce Banner encontra um refúgio para se esconder do governo norte-americano.
Como disse o diretor Louis Leterrier ao repórter da Folha Marco Aurélio Canônico, a Rocinha é “exatamente o tipo de lugar em que alguém que estivesse fugindo da lei se esconderia”. Ou seja, o Brasil é apenas mais um cenário exótico, que serve como abertura do filme, como em todos os longas da série James Bond.
Ok, ouvimos o português claro do lutador de jiu-jítsu Rickson Gracie (aliás, jiu-jítsu, central em “Cinturão Vermelho”, está na moda, não?). Os problemas são aqueles atores falando uma língua meio indecifrável que dizem ser português, e o ator careca que enfrenta Banner no começo. A dublagem é de rolar de rir, lembrando aquelas sátiras toscas que o “Hermes e Renato”, da MTV, fazia.
Quem vai bastante ao cinema sabe bem a frustração que é ter muitas expectativas sobre um filme e, após a sessão, ficar decepcionado. Mais interessante ainda é sair do cinema xingando e, dias depois, começar a pensar que, no fim das contas, o filme não era tão ruim assim.
Ando pensando em “Onde Andará Dulce Veiga?” desde sábado, quando vi a pré-estréia . Mas ainda não consegui gostar do longa de Guilherme de Almeida Prado, que estréia nesta sexta.
E também não sei se vou me render ao marketing do longa, que diz se tratar de “um filme para se ver muitas vezes”. Mesmo que cheire a propaganda barata para angariar mais espectadores, há certo sentido no slogan, que o próprio diretor explica bem em texto no site da produtora.
Para aqueles que consideram “filme brasileiro” um gênero à parte, “Dulce Veiga” é apenas mais um abacaxi. Mas há muitas camadas para se descascar.
Imagino que, assim como eu, muitas pessoas irão assistir ao filme mais por causa de Caio Fernando Abreu, autor do livro que inspirou o longa, do que por Guilherme de Almeida (digo isso sem desprezar o cineasta de bons filmes como “Perfume de Gardênia” e “A Dama do Cine Shangai”).
É que basta uma rápida pesquisa na internet para confirmar que Caio é objeto de culto, redescoberto por toda uma nova geração: exageradas orelhas de reedições de seus livros o saúdam como precursor dos blogueiros e volta e meia aparece na cidade alguma nova peça de teatro baseada em texto seu.
Em sua obra vemos a solidão como um mal crônico, e a cidade grande como cenário para uma longa noite de vícios, excessos, sexo e busca pelo amor (geralmente gay). Ao mesmo tempo no papel do abandonado e daquele que abandona, Caio buscava refúgio e redenção na claridade do dia que chegava e na beleza da música e do cinema.
Quem for atrás desse universo poderá ficar um tanto frustrado. Se, no livro, Caio incorpora o romance policial, no filme Guilherme exagera nas citações cinéfilas (que vão desde a “Acossado” a “Guarda-Chuvas do Amor”) e na caricatura.
A trama, com tintas autobiográficas, se passa nos anos 80 e diz respeito a Caio, escritor frustrado tornado repórter de um jornal de quinta categoria. Durante a apuração de sua primeira matéria, sobre uma banda de rock chamada Vaginas Dentatas, descobre que a vocalista é filha de Dulce Veiga, atriz e cantora de sucesso que desapareceu misteriosamente nos anos 60. A partir de então, ele empreenderá uma busca por Dulce.
O que mais incomoda no filme é aquela estranha sensação de “será que o diretor está fazendo uma sátira, ou tudo é simplesmente ruim mesmo?”. Por isso, a sugestão “para se ver muitas vezes” não soa tão descabida. (E, se você for fã de Caio, o escritor, preste atenção na cena em que Caio, o personagem, entrevista Carolina Dieckmann, com a música “Amor Nojento”, cantada por Laura Finochiaro, ao fundo. A letra tem trecho do conto “Pela Noite”, do livro “Triângulo das Águas”)
Desde moleque, sempre fui fissurado em cartazes de cinema. Mais do que peça promocional ou objeto de decoração, bons pôsteres são também uma forma de releitura de um filme, uma obra de arte criada para interpretar e complementar outra obra de arte.
Em minhas andanças parisienses nestes últimos meses, conheci duas galerias especializadas nos “affiches de cinéma”, a Cine Images e a Intemporel. Seus donos são caçadores de raridades pelo mundo, que atendem a colecionadores dispostos a pagar pequenas fortunas por tais cartazes. Um exemplo? O cartaz acima, criado por Bernard Lancy e avaliado em 75 mil euros pela Cine Images. Ou seja, pelo câmbio atual, seria preciso desembolsar R$ 187 mil para levar para casa esse pôster original francês de “M, o Vampiro de Dusseldorf ” (1931), filme clássico da fase alemã de Fritz Lang. É um caso extremo, o mais caro da loja, mas há algumas dezenas de peças avaliadas acima dos 10 mil euros.
Deixada de lado a questão financeira, o mais interessante: as duas galerias têm seus catálogos on-line, garantia de horas de diversão para quem se interessa por este tipo de arte gráfica. O da Intemporel é o melhor, pois no link “archives” há mais de 50 mil peças digitalizadas, de vários cantos do mundo (e pouquíssima coisa do Brasil). É possível pesquisar por nome do filme, diretor, ano, país da produção e, mais legal, nome do autor e/ou nacionalidade do cartaz.
Meus favoritos são os da Polônia e os de Cuba, países que até hoje mantêm uma cultura visual que recorre às ilustrações para fugir do uso de fotos dos filmes. São artistas como os poloneses Starowievski, Zebrowski e Wojciechowska e os cubanos Reboiro, Bachs e Portocarrero, autores de obras belas, surpreendentes e muito diferentes entre si. A seguir, uma seleção de alguns dos meus preferidos.
“De Olhos Bem Fechados” (1999, Stanley Kubrick), de Leszek Zebrowski, e “Neblina e Sombras” (1992, Woody Allen), de Ela Wojciechowska
“O Discreto Charme da Burguesia” (1972, Luis Buñuel), de Franciszek Starowievski, e “Deserto Vermelho” (1970, Michelangelo Antonioni), de Witold Janowski
“Soy Cuba” (1964, Mikhail Kalatozov), de Portocarrero, e “Duas Garotas Românticas” (1967, de Jacques Demy), de Reboiro
“Terra em Transe” (1967, de Glauber Rocha), de Reboiro, e “Playtime” (1967, de Jacques Tati), de Bachs
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Este é meu último post desta temporada francesa. Aos que acompanharam minhas cascatas desde março, obrigado pela leitura.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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