Todo mundo reclama de críticos. Estes desmancha-prazeres vêem os filmes antes de todo mundo e no dia da estréia cravam uma avaliação que quase sempre contraria o gosto do público. Pensando bem, não têm mesmo muitos motivos para serem admirados.
Como um dia o feitiço acaba por virar contra o feiticeiro, tive anteontem uma experiência de espectador comum, aquele que vê seu gosto contrariado pela opinião da crítica.
Do início ao fim de uma prosaica sessão de terça-feira num shopping vi “Fim dos Tempos” como se estivesse diante de uma aparição mágica de cinema, uma daquelas experiências que mesmo quem vê muitos filmes alcança só de vez em quando.
Entretanto, o filme de M. Night Shyamalan estreou acompanhado de poucos, curtos e negativos comentários na imprensa brasileira. Nos EUA, o bombardeio foi implacável, como se pode averiguar no escore bem baixo do Metacritic. Uma das poucas exceções veio do veterano Roger Ebert, mas seu método banal de analisar a trama e os desempenhos e emitir um juízo impressionista não chega a ser convincente. Sob a avalanche de cotações negativas, não foi por pura teimosia que encarei o filme.
Tinha que vê-lo para produzir a cotação que o Guia da Folha traz em seu quadro semanal e também queria vê-lo porque sou um espectador que se impressiona enormemente com o que Shyamalan faz no cinema. E me entusiasma o crescente risco que o diretor resolveu assumir em seus trabalhos mais recentes, distanciando-se do conforto da fórmula eficaz dos filmes que o tornaram mundialmente famoso. Ele poderia ter ficado fiel a seus truques de roteiro, as famosas “reviravoltas” místico-espirituais de “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”. Porém, desde “Sinais”, Shyamalan deslocou o fator fantástico para ressignificar conteúdos além da diversão. E com “Fim dos Tempos” ele se afasta da mera metáfora, do comentário político, que conduzia os simbolismos de “A Vila”, para abordar de frente o que se disfarça sob o verniz da civilização.
“Fim dos Tempos” não é um filme sobre a ameaça ambiental, como muitos apontaram. Sob tal frágil camada, simplório gancho contemporâneo da trama, o que Shyamalan expõe é a fratura arcaica e sempre atual entre o coletivo e o individual. Para sobreviver, os personagens de “Fim dos Tempos” são obrigados a se reduzir a unidades mínimas, numa evidente regressão do chamado processo civilizatório. E o diretor insiste nisso, sujeitando seu público, por exemplo, a uma cena brutal em que dois garotos são mortos (o único crime de fato num filme, cujas mortes são todas por suicídio).
Como alguns já observaram, a paralisia que antecede os suicídios em “Fim dos Tempos” retoma os movimentos automatizados dos zumbis devoradores de carne humana, celebrados na série de mortos-vivos de George Romero, parábola imortal sobre o fim do indivíduo na sociedade de massas, sua redução à figura de autômato. Como Romero, Shyamalan adota o gênero como forma de introduzir insidiosamente valores nem sempre bem cotados, levar o público a consumir ingenuamente algo que se oferece como entretenimento, mas que no fundo é um belo doce envenenado.
Longe das redenções, dos apaziguamentos predominantes na forma clássica do drama hollywoodiano, “Fim dos Tempos” assume a ousadia de ser pessimista, maravilhosamente negativo até mesmo em seu falso final feliz.
Kusturica e seu ídolo, durante as filmagens de “Maradona”
Por Leonardo Cruz (em Paris)
Você deve conhecer Emir Kusturica. Afinal, o cineasta já fez grandes filmes e acumulou prêmios em festivais internacionais. Em três décadas de carreira, dirigiu dez longas, incluindo os ótimos “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios” (1984) e “Underground” (1995), e ganhou duas Palmas de Ouro em Cannes e um Leão em Veneza. E acaba de lançar um documentário sobre Maradona (e sobre si mesmo).
Mas há um outro Kusturica, que talvez você não conheça. Fui apresentado a ele por um artigo no “Courrier International”, semanário que reúne reportagens de jornais e revistas do mundo. Chama-se “Emir Kusturica, o Mistificador” e é assinado pelo escritor e crítico de cinema croata Jurica Pavicic. No campo artístico, o autor diz que Kusturica construiu sua fama no Ocidente com filmes que estereotipam os Balcãs, com suas fanfarras ciganas e casamentos intermináveis. No político, apresenta o cineasta como um fervoroso nacionalista sérvio que usou os conflitos da região nos anos 90 para fazer fortuna.
No trecho mais incisivo, Pavicic escreve: “Ele [Kusturica] esconde o fato que se tornou um grande proprietário de imóveis, que enriqueceu como um grosseiro aproveitador de guerra, que não se distingue em nada dos oligarcas que brotaram nos Balcãs como champignons depois da chuva. Hoje, ele possui terras, vilarejos inteiros, um parque imobiliário na costa montenegrina, pistas que esqui nas montanhas... Ministros e personalidades freqüentam seu vilarejo de Drvengrad, enquanto a Justiça montenegrina persegue a seu pedido jornalistas que ousem questioná-lo”.
Quanto à perseguição a jornalistas, a acusação de Pavicic faz sentido. Em abril último, a revista semanal “Monitor” e o jornalista Andrej Nikolaidis foram de fato condenados a pagar 12 mil euros a Kusturica. O motivo: os “danos emocionais” que causaram ao cineasta por criticar em um artigo sua posição pró-Milosevic na guerra de Kosovo.
O texto do “Courrier International” surge no momento em que a carreira do diretor sérvio mais patina. Seus últimos dois longas de ficção, “A Vida É um Milagre” e “Prometa-me”, estão muito longe de suas melhores obras, e o novo “Maradona by Kusturica” é um equivocado exercício de narcisismo.
Em cartaz em Paris e ainda sem data de estréia no Brasil, o documentário sobre o jogador argentino começa com Kusturica no palco, tocando guitarra, em show em Buenos Aires da No Smoking Orchestra, banda que anima seus filmes. E o vocalista o apresenta à platéia como “o Diego Armando Maradona do cinema”. Esse início mostra como Kusturica se acha tão importante quanto Maradona, um fã incondicional do craque e, por tabela, de si mesmo.
O longa segue nesse registro, com Kusturica relacionando passagens da vida de Maradona a cenas de seus filmes e fazendo pequenos tratados de boteco sobre o tango e sobre a esquerda latino-americana. Sim, o diretor encontra tempo para analisar a política continental, mas é incapaz de contar ao espectador o básico sobre seu personagem: em que clubes jogou, quantos títulos ganhou, quantos gols fez. Os melhores momentos do documentário surgem quando Maradona está em contato com seus fãs, no estádio do Boca Juniors e nas ruas de Buenos Aires e de Nápoles. Nessas horas, Kusturica se contém e deixa que as imagens, apenas elas, dimensionem a paixão que o craque ainda desperta.
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O melhor filme da semana
A melhor sessão de cinema que vi nos últimos dias em Paris foi “Holanda 4 x 1 França”. Boa idéia do circuito Gaumont, que decidiu transmitir ao vivo os jogos da seleção nacional na Eurocopa em seu cinema de Montparnasse. Coisa fina: imagem digital de primeira (não aquela coisa chuvosa a que estamos acostumados no Brasil), som ambiente do estádio sem narradores ou comentaristas (acredite, os Galvões franceses são muito piores que os nossos), tela gigante numa sala para 250 pessoas (quase lotada). Dado o placar, os franceses não curtiram muito o espetáculo. Eu achei excelente.
A iniciativa da rede Gaumont não é inédita. No Rio de Janeiro, o cine Odeon BR passou todos os jogos da seleção na Copa da Alemanha. E, na semana que vem, um cinema de Petrópolis exibirá a final da Libertadores entre Fluminense e LDU. Bem que o Arteplex recém-aberto na Pompéia poderia começar a transmitir os jogos do glorioso Palestra, não?!
Quem já freqüentava cinemas nos anos 70 talvez se lembre do prestígio, no circuito alternativo, do suíço Alain Tanner, que dirigiu “A Salamandra” (1971), “Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000” (1976) e “Na Cidade Branca” (1983), entre outros. A nostalgia e a curiosidade em relação aos rumos da carreira de Tanner obrigam a lamentar a ausência de seus filmes mais recentes —“Fleurs de Sang” (2002), co-dirigido com a atriz Myriam Mézières, e “Paul s’en Va” (2004)— na programação da mostra Pastores, Amantes e Sonhos, que será realizada de terça (dia 17) a domingo (dia 22) no Centro Cultural São Paulo.
Organizada pela Swiss Films, a seleção de 13 longas-metragens e 12 curtas produzidos entre 2000 e 2005 já foi apresentada em outros nove países latino-americanos, durante os últimos dois anos, graças à colaboração entre a Cinemateca Uruguaya, que cuida da itinerância pelo continente, e as representações diplomáticas da Suíça.
É uma rara oportunidade de conferir a produção suíça contemporânea, distante das salas comerciais no Brasil e, de vez em quando, presente em festivais. De acordo com o catálogo de vendas da Swiss Films em 2008, 22 longas-metragens de ficção foram produzidos no país na última temporada, além de 35 curtas (20 de ficção, dez de animação e cinco experimentais), 64 documentários (37 longas e 27 médias e curtas), seis telefilmes e quatro co-produções. O banco de dados da agência na internet afirma trazer informações sobre 2.436 títulos.
Em relação ao mercado exibidor, os números da Suíça são proporcionalmente muito superiores aos brasileiros, de acordo com dados do Filme B e da Swiss Films: há cerca de 550 salas no país, ou uma para cada 13,5 mil habitantes (contra um total de 2.100 e uma para cada 90 mil habitantes, no Brasil) e foi vendido 1,82 ingresso per capita em 2007 (contra 0,5 no Brasil).
Boas opções na programação da mostra:
- “Todo um Inverno sem Fogo” (2004), estréia do polonês Greg Zglinski no longa de ficção, sobre um casal que vive nas montanhas e sobrevive (ou procura sobreviver, com muito esforço) à perda da filha única, de cinco anos
- “Nem Polícia, Nem Negros, Nem Brancos” (2001), da franco-suíça Ursula Meier (de quem a mostra exibirá também o longa de ficção “Costas Sólidas”, 2002), documentário sobre um projeto inovador proposto por um policial de Genebra, Alain Devegney, que se aproximou de comunidades de imigrantes (africanos, em especial) com o objetivo de ajudá-los a viver no país
- “Martha Argerich, Conversa Noturna” (2002), do franco-suíço Georges Gachot (que dirigiu “Maria Bethânia - Música É Perfume”, 2005), documentário sobre a rotina da pianista argentina Martha Argerich, com trechos de apresentações e entrevistas feitas em diversas circunstâncias
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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