Ilustrada no Cinema
 

A vez dos suíços

A vez dos suíços

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a Mostra de Cinema Suíço, que acontece entre 17 e 22 de junho no Centro Cultural São Paulo. O ciclo faz um panorama da produção contemporânea suíça, com 13 longas e 12 curtas produzidos entre 2000 e 2005. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h21 PM

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Feitiços de Argento

Feitiços de Argento

Por Cássio Starling Carlos

Quando nós, fãs, já nem esperávamos mais, o mestre do terror à italiana retorna em grande estilo com o filme que encerra a cultuada trilogia materna, que de boazinha não tem nada. Com a Mater Suspiriorum, que atacava uma escola de dança em “Suspiria” (trailer aqui), realizado em 1977, teve início a Saga das Três Mães, protagonizada por diabólicas feiticeiras que entram em cena para infernizar a vida das virginais vítimas que Argento tanto gosta de submeter com seus sadismos visuais.

Na segunda parte foi a vez de a Mater Tenebrarum vir à tona em “Mansão do Inferno” (trailer aqui), realizado por Argento após um intervalo relativamente curto de três anos. Ali, o diretor italiano confirmava que pouco lhe interessavam as nuances narrativas ou a direção de atores mais rigorosa, pois seu cinema assumia de vez a crença no grafismo puro. A obsessão por formas e cores, materializadas desde seus primeiros “giallo” clássicos, no modo como o diretor encenava assassinatos, alcançou a partir de “Suspiria” a dimensão de pura imageria, desinteressada de significados que não fosse o espetáculo da morte.

Depois de um tempo, Argento se deslocou para o universo da grande arte (nos medianos “Terror na Ópera” e “O Fantasma da Ópera” e no extraordinário “Síndrome de Stendhal”) . Nesses trabalhos o diretor parecia se estabilizar como grande encenador, manuseando materiais nobres da cultura italiana, mas correndo os riscos de se converter em paródia de si mesmo ou de meramente praticar filmes-conforto à beira da aposentadoria.

Entretanto, ao fim de uma década não muito memorável, na qual realizou “Sleepless” e “Il Cartaio”, dois trabalhos de pouco impacto, e praticou no território da TV (com “Ti Piace Hitchcock” e os dois episódios feitos para a ótima série “Masters of Horror”), o cineasta espanou a poeira e mirou o material inacabado da trilogia para reencontrar sua veia mais delirante.

Logo após estrear nos EUA com ótimos comentários, a terceira parte da trilogia chega quase simultaneamente ao Brasil direto em DVD (o que ameniza muito os pesadelos visuais concebidos por Argento) com o título “O Retorno da Maldição - A Mãe das Lágrimas” (trailer aqui). Agora é a Mater Lachrymarum que ressurge das trevas para pôr um fim aos dias calmos de uma restauradora de arte vivida por Asia Argento, vítima favorita das malvadezas do pai.

A terceira (e mais poderosa) feiticeira vem com a ambiciosa tarefa de destruir Roma pela segunda vez na história. Nada demais para o cinema hiperbólico de Argento, que retoma todos os excessos (visuais, melodramáticos, sanguíneos) no encerramento da trilogia.

E dá ainda uma vez prova de seu gênio gráfico ao transformar Roma em cenário de ataques de suas loucas enfeitiçadas, uma Roma arquitetônica em que os labirintos das ruínas e as sinuosidades dos interiores funcionam como nunca para a proliferação do mal. Não satisfeito com o que consegue, Argento produz sua apoteose num encontro com a Roma subterrânea das catacumbas, claustrofóbica e arcaica (foto: Terza).

Nesta passagem da superfície às profundezas, o diretor torna explícita sua paixão por Alice, heroína que em suas mãos deixa o país das maravilhas para mergulhar no abismo dos tormentos.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h26 PM

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Sexta-feira 13

Sexta-feira 13

Por Sérgio Rizzo

Parece piada feita, mas as duas estréias da semana (simbolicamente, na sexta-feira 13) que apontam para a invasão do mercado brasileiro por superproduções norte-americanas são “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos”.

O primeiro procura retomar em novas bases, com Edward Norton no papel principal e direção de Louis Leterrier, a franquia que não obteve os resultados esperados pelos produtores com o longa de 2003, dirigido por Ang Lee. O segundo, que chega ao Brasil sem que a distribuidora tenha promovido sessões prévias para a imprensa até hoje (uma exibição de última hora foi marcada para a quarta-feira, apenas dois dias antes do lançamento), é a tentativa de o diretor e roteirista M. Night Shyamalan se recuperar da bilheteria modesta de “A Dama na Água” (2006).

Nos EUA e Canadá, ambos pertencem a um perfil de longa-metragem que costuma ser lançado em cerca de 4.000 salas. Alguns em um pouco mais, como “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (4.260), e outros em um tanto menos, como “Zohan – Um Agente Bom de Corte” (3.462), que ficou em segundo lugar no ranking no último final de semana e tem estréia prevista no Brasil para 15 de agosto.

Como o mercado norte-americano soma cerca de 42 mil salas (39 mil nos EUA e o restante no Canadá), de acordo com dados do Filme B, nenhum lançamento consegue ocupar sozinho mais de 10 %. No último final de semana, os oito filmes que ocupavam mais de mil salas cada um estavam em cartaz em 25.930 salas (62%). Para os demais, sobraram 38%, ou cerca de 16 mil salas.

No Brasil, “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos” são filmes lançados com aproximadamente 500 cópias. Como o mercado nacional tem cerca de 2.100 salas, cada uma dessas superproduções costuma ocupar entre 20% e 25% do total. Dois que estréiem na mesma semana já asseguram, sozinhos, metade do circuito.

No final de semana de 1º de junho, apenas cinco filmes ocupavam 83% do mercado nacional (1.744 salas). Quando este post foi escrito, os dados do último final de semana não estavam disponíveis e as distribuidoras ainda não haviam definido com os exibidores o número final de salas para “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos”, mas é provável que os “cinco mais” em cartaz superem no próximo final de semana a marca dos 90% --o que aconteceu, por exemplo, em julho de 2007, com o engarrafamento de quatro superproduções (“Harry Potter 5”, “Ratatouille”, “Quarteto Fantástico 2” e “Shrek Terceiro”).

Ocupação desmedida e perniciosa, no médio e longo prazos, para o próprio mercado, inclusive porque só contribui para a formação de público sazonal. Quando as superproduções desaparecem do circuito, boa parcela de seus espectadores as acompanha.

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h57 PM

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Retroceder nunca, render-se jamais

Retroceder nunca, render-se jamais

 
J.C.V.D. vive J.C.V.D. em “J.C.V.D.”

Por Leonardo Cruz (em Paris)

O Terminator virou Governator. Sly ressuscitou Rocky e Rambotox. Mas... e o Van Damme? Ícone do cine-porrada dos 80/90, o grande dragão branco tomou na cabeça. Longe do apogeu de “Kickboxer” (1989), “Garantia de Morte” (90) e “Soldado Universal” (92), Jean-Claude Van Damme está desempregado, perdeu na Justiça a guarda da filha, cheirou seus milhões e não tem mais um centavo no banco. De volta a Bruxelas, o carateca belga se enfia em um assalto a uma agência do correio.

Com grandes doses de realidade e algumas pitadas de ficção, esse é o plot de “J.C.V.D.”, sem dúvida o melhor filme da carreira do moço. Ok, eu sei, isso não é muito difícil. Mas Van Damme caiu na real, percebeu que seu tempo passou e aceitou estrelar e co-produzir essa comédia em que esculhamba a si mesmo, um projeto do jovem diretor Mabrouk El Mechri.

A primeira cena dá o tom da comédia. Como numa daquelas intermináveis partidas de “Double Dragon” , Van Damme arrebenta uns 50 inimigos em seu caminho para resgatar a jovem donzela, até que o surge o vilão final, o cenário cai, e o diretor grita: “Corta!”. E o nosso herói esbaforido reclama com o cineasta chinês: “Assim não dá. Eu tenho 47 anos. Não consigo mais fazer tudo em um único plano-seqüência”.

Salvo alguns flertes com a pieguice e um final meio sem pé nem cabeça, “J.C.V.D.” funciona bem como auto-paródia, tem boas piadas e um monólogo sensacional, em que Van Damme enfrenta a câmera e fala da vida de forma tão sincera que se torna irônica.

Em entrevista ao “Libération” por conta do lançamento do filme na França, o ator contou que a cena, de nove minutos, foi feita em uma tomada só, sem texto prévio, no improviso. “Mabrouk me pediu para abrir meu coração. Ele queria um plano-seqüência para que a palavra viesse melhor e para que não o acusassem de ter manipulado qualquer coisa de mim, de ter cortado minhas supostas bobagens.”

A entrevista no “Libé” é boa e dá uma idéia clara de quem é esse Van Damme que deve chegar aos cinemas brasileiros no segundo semestre. A seguir uma compilação dos trechos mais divertidos. E, no pé do post, o trailer do longa.

O convite para fazer “J.C.V.D.” - “Tinha perdido a confiança no cinema. Imagine um campeão. Tyson. Ele sobe no ringue. É nocauteado. Volta a treinar e novo nocaute. E mais um nocaute. Nessa hora, ele pensa: ‘Perdi tudo’. Naquele momento, quando a [produtora francesa] Gaumont me mostrou ‘Virgil’, o primeiro filme de Mabrouk, pedi desculpas e fui saindo. Por que vocês me procuraram? Eu estou acabado. Dêem Daniel Auteuil ou Gerard Depardieu a esse garoto, não Van Damme. Esse garoto merece mais que isso.”

Os diretores chineses que levou a Hollywood - “John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam. Não se pode dizer que eles tenham me agradecido, né? Esse trabalho que Mabrouk fez por mim, chamo isso de uma flor: finalmente, um roteiro escrito, de atuação. Era isso o que eu esperava da parte deles, dos mestres de Hong Kong. E eles sistematicamente deram tudo a outros.”

O contato com os fãs hoje - “O que mais me dói é quando as pessoas me perguntam na rua: ‘Quando você vai fazer um filme?’. Mas eu faço filmes! É que eles não saem mais nas salas. São lançados diretamente em DVD.”

O pó - “Você pára de contar os gramas quando realmente começa com a cocaína. Posso dizer que, em termos de dose, era tamanho Van Damme. Van Damage... meu velho sobrenome. Ou ainda Jean-Claude Vingt Grammes... [risos].”

Escrito por Leonardo Cruz às 12h29 PM

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PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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