Ilustrada no Cinema

 

 

Uma noite na ópera, com Cronenberg e Kiarostami

Uma noite na ópera, com Cronenberg e Kiarostami

 
Plácido Domingo, Cronenberg e Howard Shore, no cenário da ópera "A Mosca"

Por Leonardo Cruz

Dois dos principais diretores da atualidade deixaram o cinema de lado por um tempo para se dedicar à música erudita: David Cronenberg e Abbas Kiarostami estréiam suas primeiras óperas nos próximos dias na França.

O cineasta canadense já havia levado o universo operístico ao cinema em 1993, em "M. Butterfly", versão de uma peça teatral de David Henry Hwang que tinha a obra lírica de Puccini como pano de fundo. Agora, Cronenberg faz o caminho inverso e apresenta em Paris, no Théâtre du Châtelet, a versão operística para "A Mosca", seu longa de 1986 que já era uma refilmagem de "A Mosca da Cabeça Branca" (1958).

O projeto de transformar em ópera a história do homem que se funde com um inseto é de Howard Shore, um dos principais compositores para cinema da atualidade, criador de trilhas sonoras de filmes de Martin Scorsese e Tim Burton, autor das músicas de 12 longas de Cronenberg. Em um videocast no site do Théatre du Châtelet, Shore explica que a idéia para a versão lírica de "A Mosca" surgiu já em 1986. "Quando compus a trilha original do longa de David, percebi que se tratava de uma ótima trama para uma ópera, com personagens fortes e ação dramática intensa", diz Shore, que passou três anos preparando o espetáculo.

A direção musical da ópera está a cargo do tenor Plácido Domingo, e o libreto foi escrito por David Henry Hwang, o mesmo de "M. Butterfly". A temporada parisiense da ópera "A Mosca" começa nesta quarta; depois, o espetáculo segue para Los Angeles em setembro.

No videocast a seguir, é Cronenberg quem relata sua experiência com a montagem proposta pelo compositor. Autor de obras que tratam das relações do homem com a tecnologia ("Videodrome", "Existenz"), o cineasta recusou a sugestão de Shore de usar qualquer recurso de vídeo na encenação para "ter uma experiência de palco total".

Enquanto Cronenberg abriu mão de filmagens na encenação de sua ópera, Abbas Kiarostami optou pelo contrário e foi à costa mediterrânea francesa captar imagens do mar que servirão como pano de fundo em sua montagem de "Così Fan Tutte", ópera cômica de Mozart sobre a infidelidade feminina.

Em entrevista ao diário francês "Le Monde", Kiarostami explicou o uso do cinema em sua primeira ópera: "Desde o início, quis fazer o que sei fazer, ou seja, filmar a natureza. Para mim, `Così Fan Tutte´ só poderia se passar a beira-mar, pois os personagens, para se submeter a tal prova de amor, deveriam estar em um estado total de `férias´. O mar libera das amarras sociais, a natureza convida a se aproximar da verdade interior dos seres".

Premiado por filmes como "O Gosto de Cereja" (Palma de Ouro em Cannes em 1997) e "O Vento nos Levará" (Prêmio Especial do Júri em Veneza em 1999), o diretor iraniano disse ao "Monde" ver certa proximidade entre os dois universos. "Não creio que o trabalho de cenografia e de direção no cinema seja fundamentalmente diferente deste da ópera. Comecei como estudante de belas-artes, antes de virar designer e depois passar para o cinema e a fotografia. Na ópera, reúno a soma dessas experiências. O verdadeiro desafio é transformar um universo sonoro em um universo de signos visuais. E isso se aproxima de tudo aquilo que sempre tentei fazer. O perigo reside então no fato de que meu universo visual precisa estar à altura da obra-prima de Mozart."

O espetáculo, que estréia nesta sexta no Festival de Arte Lírica de Aix-en-Provence, tem direção musical de Christophe Rousset  e marca o 60º aniversário desse tradicional evento de música erudita do sul da França. No ano que vem, a mesma montagem seguirá para a English National Opera, de Londres. Já o cineasta iraniano só deve voltar às telas no ano que vem, em um longa-metragem a ser rodado na Itália, estrelado por Juliette Binoche.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h38 PM

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Mortos-vivos nunca morrem

Mortos-vivos nunca morrem

Por Cássio Starling Carlos

Com um nome tão pomposo quanto LaVie-LeMonde (A Vida-O Mundo) por trás do negócio, não deixou de causar comoção a notícia da venda da revista francesa “Cahiers du Cinéma”, anunciada em abril pela empresa que controla a publicação. Com a situação empresarial ainda indefinida, espera-se que algum mecenas cinéfilo assuma os riscos inerentes da operação, considerando-se que se trata de uma marca que entrou para o patrimônio da cultura cinematográfica há mais de meio século.

O medo reverberou também do outro lado do Canal da Mancha, onde a veterana “Sight & Sound”, mantida pelo sólido British Film Institute, explicitou seus temores pela crescente extinção de críticas de cinema em veículos impressos no editorial de sua edição de junho.

Na contramão da paranóia, a francesa “Positif”, um ano mais nova e eterna concorrente dos “Cahiers”, demonstra firmeza editorial trazendo mês a mês uma boa cobertura de atualidades complementada por uma seleção intemporal de temas e autores sob a forma de dossiês sempre estimulantes e de artigos deliciosamente anacrônicos na seção “Voix Off”. Na edição de junho, a revista fez uma excelente entrevista com George A. Romero, capa da edição que destaca a estréia de “Diary of the Dead”. O novo filme de Romero acaba de estrear na França, enquanto no Brasil se aguarda seu lançamento direto em DVD, previsto pela Imagem Filmes para os próximos meses.

Em junho, a “Positif” publicou ainda um box de agradecimento às Éditions Jean-Michel Place, responsável pela publicação entre 1996 e 2004 e cuja falência acaba de ser anunciada. Há quatro anos sob o guarda-chuva das Éditions Scope, a revista dirigida pelo veterano Michel Ciment vem mantendo sua linha editorial mais tradicional e pouco novidadeira, muitos anos vista como conservadora demais, mas pelo que tudo indica uma opção que a deixa ao abrigo das intempéries do mercado.

Do lado de cá do mundo, onde a vitalidade de publicações impressas se resume, salvo engano, à “Set” e à “Revista de Cinema”, o fluxo da reflexão relevante vem operando a pleno vapor na internet, nas já consolidadas Contracampo, Cinética, Cinequanon e Filmes Polvo.

Nem mesmo a desaparição da versão em papel da “Paisà” teve tempo de ser lamentada, já que seus editores mantiveram o padrão na versão online, agora com periodicidade semanal.

E para quem já se entregou à voracidade dos bits, mas ainda não recusa a degustação de um menu de idéias oferecido no quase antiquado papel, é sempre prazeroso ler a “Teorema”. Com periodicidade semestral, a revista, editada pelo Núcleo de Estudos de Cinema de Porto Alegre, chega agora ao seu número 12. Em São Paulo, é fácil encontrar seus exemplares na Fnac.

Relativamente despreocupada com atualidades, mesmo que sua pauta se concentre em títulos exibidos em meses mais recentes, a “Teorema” é uma revista fora do tempo, no sentido positivo da expressão.

Pois seu tempo é o da digestão, no qual já nos livramos da ansiedade do consumo e podemos acompanhar uma argumentação nunca apressada. Ler seus textos, que se estendem ao longo das páginas, em vez de ter que rolar uma barra de cima para baixo, dá o mesmo prazer que ver um filmaço em cinemascope.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h22 AM

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O homem do som

O homem do som

Por Pedro Butcher, em Los Angeles*

Nove vezes indicado ao Oscar e duas vezes vencedor do prêmio (por “E.T.” e “Indiana Jones e a Última Cruzada”), Ben Burtt é considerado um dos gênios escondidos de Hollywood. Em “Wall-E” ele é responsável pelo “sound design” e pela voz do próprio protagonista, o “último robô na Terra”. “No cinema, o som é um agente invisível. As pessoas prestam muita atenção na imagem, mas ninguém está ciente dos truques sonoros. Cada som, cada passo dado por um personagem e cada explosão na verdade foram sons que alguém criou e decidiu colocar lá. Trabalhar com som é um pouco como ser mágico”, define Burtt. Leia a seguir a entrevista.

Folha - Nos filmes de animação, em geral, os atores gravam os diálogos e só depois os animadores trabalham por cima das vozes. Como foi o processo de Wall-E, que quase não tem diálogos?

Ben Burtt - Foi parecido, apesar de bem mais flexível. Na verdade, fizemos vários testes com os sons. Entregava para o Andrew (Stanton, diretor do filme) pequenas edições sonoras para cada personagem e esses sons eram animados para sabermos se estava dando certo. O resultado era como testes gravados com atores, só que com personagens animados. Em cada um desses “filminhos” o personagem vinha, mostrava suas funções e se apresentava. Na estrutura dramática de “Wall-E”, quase sem diálogos, não fazia sentido usar o processo tradicional: contratar atores e colocá-los em frente ao microfone para gravar as falas. A idéia é que as “falas” dos robôs fossem expressas pelos sons que eles produzem, e que esses sons tivessem origem nas funções para as quais eles foram programados. São personagens que não se expressam em palavras, mas, mesmo assim, você é capaz de entender o que se passa na cabeça deles.

Folha - Por que você mesmo fez a voz de Wall-E?

Burtt - Foi uma conseqüência natural do processo de trabalho. Durante meses, preparando o filme, fiquei trancado experimentando sons com minha própria voz, como um cientista maluco trancado em seu laboratório. Não havia câmeras registrando e isso não estará no making of, graças a Deus. Fui apresentando os resultados e eles foram aprovados. Sempre começava gravando minha própria voz e depois ia trabalhando sobre ela, com um programa que permite desconstruir cada som em vários componentes. É mais ou menos como uma imagem digital, que pode ser manipulada pelos pixels. Esse programa também torna possível esticar ou compactar cada som para obter mais possibilidades de “performance”. É como tocar um instrumento musical. O importante, aqui, era encontrar sons que definissem os personagens e alcançar um equilíbrio entre o eletrônico e o humano.

Folha - Por ter poucos diálogos, “Wall-E” tem mais som?

Burtt - Sim, o filme tem mais arquivos sonoros do que qualquer outro em que trabalhei. Foram 2.500. Cada personagem tem um grupo de sons e muito movimento. As pessoas pensam que na era digital a gente pode fazer qualquer coisa, da mesma forma que tem acontecido com as imagens. Mas com o som as coisas não funcionam exatamente da mesma maneira. É uma dimensão criativa diferente. É claro que a tecnologia digital facilitou as coisas e, hoje em dia, você pode praticamente preparar o som de um filme inteiro no seu computador pessoal. Mas, antes disso, o processo continua sendo muito “realista”, quer dizer, a gente sai no mundo e coleta sons que serão transformados para servir a esse mundo fantasioso. A questão é convencer as pessoas de que esses objetos fantásticos são reais. Incorporar sons naturais em um filme de fantasia ajuda a criar a ilusão.

Folha - Você pode dar alguns exemplos de fontes dos sons de Wall-E?

Burtt - Sim. Wall-E se movimenta em várias velocidades diferentes. Quando ele anda devagar é um som que descobri em um filme de John Wayne que estava passando na televisão (“Geleiras do Inferno”, de William Wellman, 1953). Em determinado momento, um personagem liga um gerador. Deu um clique: gostei daquele som. Mas onde encontrar um gerador como esse? Achei um igualzinho, de 1949, no E-bay. Levei para o estúdio e comecei a experimentar, funcionou. Quando Wall-E anda rápido, lembrei-me de sons de aviões biplanos que gravei há muitos anos para “Caçadores da Arca Perdida”. Consegui achar, também no E-bay, uma ignição de um avião desses, que foi utilizada para produzir o som de Wall-E andando devagar.

*O jornalista Pedro Butcher viajou a convite da Disney

O trailer a seguir dá uma boa idéia de como são os sons do filme:

Escrito por Pedro Butcher às 7h15 PM

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Nós somos os robôs

Nós somos os robôs

 

Por Pedro Butcher, em Los Angeles*

“Wall-E” é a nova animação da Disney-Pixar, que estréia nesta sexta-feira no Brasil. A matéria você pode ler na capa da Ilustrada desta quinta. A íntegra da entrevista com o diretor do filme, Andrew Stanton, um dos principais criadores da Pixar e ganhador do Oscar de melhor animação em 2003, por “Procurando Nemo”, você pode ler a seguir.

ORIGENS

“A idéia de ‘Wall-E’ surgiu em um almoço em 1994, quando ainda preparávamos ‘Toy Story’. O filme estava perto de ficar pronto e pensamos que, talvez, tivéssemos a chance de fazer um outro. Começamos a dizer as idéias que passavam pela nossa cabeça e, dali, saíram ‘Vida de Inseto’, ‘Monstros S/A’, ‘Procurando Nemo’ e ‘Wall-E’. Não tínhamos personagem ou história, só a vontade de fazer uma ficção-científica sobre o último robô na Terra, uma máquina abandonada depois que toda a humanidade deixou o planeta, mas que continua exercendo a função para que foi programada. Sei que esse é o cenário mais solitário que poderíamos ter imaginado, mas acreditamos profundamente nele.”

ROBÔS

“Sou fanático por ficção-científica e observei que, em geral, há dois tipos de robôs: o homem de lata, que em geral é um ser humano com pele de metal, ou o R2-D2, uma máquina cujo design é baseado em sua função, mas que ganha uma personalidade. Estava interessado nessa segunda idéia. Minha primeira fonte de inspiração foi o curta-metragem de John Lasseter (“Lady and the Lamp”, de 1979) em que uma luminária ganha vida. Não era para ser um personagem, mas seu próprio design já lhe imprimia um caráter. Vi esse curta dezenas de vezes, por seu poder único de dar vida a uma máquina. Assim como Lasseter nunca desenhou a luminária, eu não poderia desenhar Wall-E. Teria que encontrar seu design, que já existia em algum lugar. A base do robô já sabíamos: um quadrado funcional para compactar o lixo. Mas e o rosto? Descobri em um jogo de beisebol. Alguém me emprestou um binóculo. Lembrei que costumava brincar com o binóculo do meu pai. Perdi todo o resto do jogo, mas ganhei um personagem.”


Andrew Stanton, diretor de "Wall-E"

SILÊNCIO

“Por que gostamos tanto de animais de estimação e de bebês? Porque existe um grande charme em seres que não conseguem se comunicar plenamente. Parte do carisma de Wall-E vem de sua incapacidade de se comunicar —e foi esse aspecto que me fez ter confiança nesse filme. Sempre tive a sensação de que, por mais estranho que tudo pudesse parecer, estávamos lidando com um material poderoso. Por isso, além do design dos personagens e dos cenários, o som é especialmente importante para contar essa história, tão silenciosa. Mas Wall-E não é um filme mudo que tem som, é um filme atual que, por suas necessidades narrativas, usa um som não-convencional. De qualquer maneira, não posso negar que sou fã número 1 de Buster Keaton e que ele sempre representa uma forte influência no meu trabalho. Wall-E é um pouco Buster Keaton, um pouco Chaplin.”

HUMANIDADE

“Não sou dessas pessoas que escolhe um tema e sai escrevendo sobre ele. Gosto de disparar idéias e, em alguma parte do caminho, me dou conta de qual será o tema do filme. A certa altura percebi que o que estava em jogo na história desses dois robôs programados era o desejo —e eu vou ser bastante pretensioso aqui— de descobrir o sentido da existência. E eles acabam descobrindo que o amor pode ser um ato racional que pode derrotar a programação. Isso é algo com que todos nós podemos nos identificar. Com o tempo, nossa tendência tem sido nos acomodarmos em nossos hábitos, em nossas rotinas, e acabamos caindo em vazio nessa tentativa de evitar a parte ‘bagunçada’ da vida. E boa parte dessa ‘bagunça’ está em nossos relacionamentos, na necessidade de aprendermos a lidar com o outro.”

BOLHAS DE GELATINA

“Quando estávamos escrevendo o roteiro, tivemos a ajuda de um consultor da Nasa. Ele nos contou que no espaço o homem perde densidade óssea e, com o tempo, pode se tornar ‘uma grande bolha’. Quando disse isso, pensei: perfeito! Não quero ser ofensivo, mas estamos nos aproximando disso com nossas salas de estar repletas de controle remoto. Nas primeiras versões, levei a idéia às últimas conseqüências e desenhei os humanos como grandes bolhas de gelatinosas. Mas ficou grotesco demais e desisti.”

VOZES

“Os dois protagonistas quase não falam, mas suas vozes são importantíssimas para lhes dar personalidade. A voz de Wall-E foi feita pelo próprio responsável pelo som do filme, Ben Burt, que é um gênio. A voz de Eve ficou sendo a de Elissa Knight, que trabalha com a gente na Pixar. Como estamos em San Francisco e reescrevemos o roteiro todos os dias, nem sempre temos acesso a atores tão rapidamente. Então nós mesmos fazemos as vozes provisórias. Funcionou tão bem que falei: ‘Não vou procurar por uma atriz, vamos ficar com ela mesmo’. Essa é a filosofia Pixar.”

ECOLOGIA E POLÍTICA

“Sinto desapontá-lo, mas não tenho uma agenda política nem mensagens ecológicas. Reciclo o meu lixo mas, mesmo assim, às vezes me confundo. É claro que não me importo que o filme apóie certas idéias, mas tudo que o que foi pensado nasceu em função da narrativa. Queria falar do último robô na Terra e precisava imaginar uma razão para os homens terem abandonado o planeta. O lixo me pareceu um motivo razoável. Não estava tentando ser ‘anti’ nada, só estava tentando encontrar as melhores soluções para a história que precisava contar. Se você é um contador de histórias e tem uma agenda cheia de tópicos, vai se confundir. Mas se você conhecer o seu tema e desenvolvê-lo bem, e se por acaso ele levar a assuntos paralelos, tudo bem. Desde que você esteja falando do assunto pelo motivo certo, pode funcionar.” 

HELLO DOLLY

“Quando resolvi usar a canção de ‘Hello Dolly’ no filme disse para minha mulher: ‘Essa foi a idéia mais esquisita que já tive e tenho certeza de que vão me perguntar sobre isso para o resto da minha vida’. Mas tudo bem, estou disposto a pagar esse preço. Minha vontade era começar o filme com uma música antiga ressoando no espaço. Gosto da idéia de passado e futuro justapostos, e começar assim seria uma forma pouco familiar. Mas existem tantas canções antigas... Comecei pelos standards, e muitos dos standards vêm de musicais. Quando cheguei em ‘Put on Your Sunday Clothes’, de ‘Hello Dolly’, e ouvi as palavras ‘out there’ (lá fora),  pensei: ‘é isso’: o som de ‘out there’ e a imagem das estrelas. Só depois fui me dar conta de que a canção é sobre dois jovens nerds que querem ir para a cidade grande, ver o mundo e beijar uma garota. Esse é meu personagem! Depois, cheguei à segunda canção (“It Only Takes a Moment”) e ao momento em que os dois dão as mãos no filme —que é o gesto capaz de expressar a frase ‘eu te amo’ sem ter que dizê-la. É assim que Wall-E se declara a Eve. Por sorte, tive essa idéia bem no começo e fui logo atrás dos direitos das canções e das imagens do musical, que é da Fox. Não queria seguir adiante se fosse impossível usar trechos do filme.”

*O jornalista Pedro Butcher viajou a convite da Disney

Escrito por Pedro Butcher às 6h19 PM

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Estranhos brasileiros no paraíso

Estranhos brasileiros no paraíso

Por Bruno Yutaka Saito

O Brasil está na moda. Dê uma rápida olhada em três filmes estrangeiros em cartaz na cidade (“O Incrível Hulk”, “Cinturão Vermelho” e “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”) e você logo chegará a essa conclusão.

Um dos temas que mais estimulam debates acalorados neste blog é uma espécie de rixa entre o cinema brasileiro e Hollywood. Com a avalanche de Indianas Jones e Homens de Ferro da vida, pouco espaço sobra nas salas do país para as produções nacionais, como já bem comentou o crítico da Folha Sérgio Rizzo.

Engraçado notar que, apesar de os filmes brasileiros serem minoria em cartaz na cidade, o país aparece infiltrado em produções norte-americanas. E, na maioria das vezes, em uma imagem não muito positiva, mas que de fato existe e não é necessariamente caricatural.

Em “Cinturão”, ouvimos personagens falando português em alto e bom som. Alice Braga e Rodrigo Santoro incorporam um lado pouco louvável do Brasil. Em linhas gerais, podemos dizer que os dois fazem parte do time dos “bad guys” no longa de David Mamet. É um Brasil corrupto, ambicioso e que deixa as noções morais de lado em nome do sucesso e dinheiro a qualquer custo.

Na linha marginal também está “Antes que o Diabo...”, de Sidney Lumet. Apesar de ninguém falar português no longa, o país é central em duas cenas, uma delas logo no começo do filme, entre os personagens de Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei.

O primeiro está envolvido até o pescoço em crimes e, prestes a ver a sua vida desmoronar, cogita fugir para o Brasil para começar vida nova. Afinal, como ele mesmo lembra, o Rio é um paraíso, e o mercado imobiliário está em alta por ali. Hoffman ainda comenta que os brasileiros falam português, e não espanhol, e ri do filme “Feitiço do Rio” (1984), “clássico” trash com Demi Moore e Michael Caine que extrapola nos clichês e estereótipos sobre o Brasil.

Se lembrarmos de criminosos como Ronald Biggs ou vários outros menos famosos que encontram um porto seguro da lei por aqui, o filme está corretíssimo em seu retrato. Sim, o Brasil é um paraíso.

Na mesma linha de raciocínio, mas em uma representação bem equivocada, está o blockbuster “O Incrível Hulk”.

É no Rio que o cientista Bruce Banner encontra um refúgio para se esconder do governo norte-americano.

Como disse o diretor Louis Leterrier ao repórter da Folha Marco Aurélio Canônico, a Rocinha é “exatamente o tipo de lugar em que alguém que estivesse fugindo da lei se esconderia”. Ou seja, o Brasil é apenas mais um cenário exótico, que serve como abertura do filme, como em todos os longas da série James Bond.

Ok, ouvimos o português claro do lutador de jiu-jítsu Rickson Gracie (aliás, jiu-jítsu, central em “Cinturão Vermelho”, está na moda, não?). Os problemas são aqueles atores falando uma língua meio indecifrável que dizem ser português, e o ator careca que enfrenta Banner no começo. A dublagem é de rolar de rir, lembrando aquelas sátiras toscas que o “Hermes e Renato”, da MTV, fazia.

Sim, é de ficar verde (e amarelo?) de raiva.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h20 PM

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Em busca de Caio F.

Em busca de Caio F.

Por Bruno Yutaka Saito

Quem vai bastante ao cinema sabe bem a frustração que é ter muitas expectativas sobre um filme e, após a sessão, ficar decepcionado. Mais interessante ainda é sair do cinema xingando e, dias depois, começar a pensar que, no fim das contas, o filme não era tão ruim assim.

Ando pensando em “Onde Andará Dulce Veiga?” desde sábado, quando vi a pré-estréia . Mas ainda não consegui gostar do longa de Guilherme de Almeida Prado, que estréia nesta sexta.

E também não sei se vou me render ao marketing do longa, que diz se tratar de “um filme para se ver muitas vezes”. Mesmo que cheire a propaganda barata para angariar mais espectadores, há certo sentido no slogan, que o próprio diretor explica bem em texto no site da produtora.

Para aqueles que consideram “filme brasileiro” um gênero à parte, “Dulce Veiga” é apenas mais um abacaxi. Mas há muitas camadas para se descascar.

Imagino que, assim como eu, muitas pessoas irão assistir ao filme mais por causa de Caio Fernando Abreu, autor do livro que inspirou o longa, do que por Guilherme de Almeida (digo isso sem desprezar o cineasta de bons filmes como “Perfume de Gardênia” e “A Dama do Cine Shangai”).

É que basta uma rápida pesquisa na internet para confirmar que Caio é objeto de culto, redescoberto por toda uma nova geração: exageradas orelhas de reedições de seus livros o saúdam como precursor dos blogueiros e volta e meia aparece na cidade alguma nova peça de teatro baseada em texto seu.

Em sua obra vemos a solidão como um mal crônico, e a cidade grande como cenário para uma longa noite de vícios, excessos, sexo e busca pelo amor (geralmente gay). Ao mesmo tempo no papel do abandonado e daquele que abandona, Caio buscava refúgio e redenção na claridade do dia que chegava e na beleza da música e do cinema.

Quem for atrás desse universo poderá ficar um tanto frustrado. Se, no livro, Caio incorpora o romance policial, no filme Guilherme exagera nas citações cinéfilas (que vão desde a “Acossado” a “Guarda-Chuvas do Amor”) e na caricatura.

A trama, com tintas autobiográficas, se passa nos anos 80 e diz respeito a Caio, escritor frustrado tornado repórter de um jornal de quinta categoria. Durante a apuração de sua primeira matéria, sobre uma banda de rock chamada Vaginas Dentatas, descobre que a vocalista é filha de Dulce Veiga, atriz e cantora de sucesso que desapareceu misteriosamente nos anos 60. A partir de então, ele empreenderá uma busca por Dulce.

O que mais incomoda no filme é aquela estranha sensação de “será que o diretor está fazendo uma sátira, ou tudo é simplesmente ruim mesmo?”. Por isso, a sugestão “para se ver muitas vezes” não soa tão descabida. (E, se você for fã de Caio, o escritor, preste atenção na cena em que Caio, o personagem, entrevista Carolina Dieckmann, com a música “Amor Nojento”, cantada por Laura Finochiaro, ao fundo. A letra tem trecho do conto “Pela Noite”, do livro “Triângulo das Águas”)

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h27 PM

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O cinema visto por seus cartazes

O cinema visto por seus cartazes

 

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Desde moleque, sempre fui fissurado em cartazes de cinema. Mais do que peça promocional ou objeto de decoração, bons pôsteres são também uma forma de releitura de um filme, uma obra de arte criada para interpretar e complementar outra obra de arte.

Em minhas andanças parisienses nestes últimos meses, conheci duas galerias especializadas nos “affiches de cinéma”, a Cine Images e a Intemporel. Seus donos são caçadores de raridades pelo mundo, que atendem a colecionadores dispostos a pagar pequenas fortunas por tais cartazes. Um exemplo? O cartaz acima, criado por Bernard Lancy e avaliado em 75 mil euros pela Cine Images. Ou seja, pelo câmbio atual, seria preciso desembolsar R$ 187 mil para levar para casa esse pôster original francês de “M, o Vampiro de Dusseldorf ” (1931), filme clássico da fase alemã de Fritz Lang. É um caso extremo, o mais caro da loja, mas há algumas dezenas de peças avaliadas acima dos 10 mil euros.

Deixada de lado a questão financeira, o mais interessante: as duas galerias têm seus catálogos on-line, garantia de horas de diversão para quem se interessa por este tipo de arte gráfica. O da Intemporel é o melhor, pois no link “archives” há mais de 50 mil peças digitalizadas, de vários cantos do mundo (e pouquíssima coisa do Brasil). É possível pesquisar por nome do filme, diretor, ano, país da produção e, mais legal, nome do autor e/ou nacionalidade do cartaz.

Meus favoritos são os da Polônia e os de Cuba, países que até hoje mantêm uma cultura visual que recorre às ilustrações para fugir do uso de fotos dos filmes. São artistas como os poloneses Starowievski, Zebrowski e Wojciechowska e os cubanos Reboiro, Bachs e Portocarrero, autores de obras belas, surpreendentes e muito diferentes entre si. A seguir, uma seleção de alguns dos meus preferidos.


“De Olhos Bem Fechados” (1999, Stanley Kubrick), de Leszek Zebrowski,
 e “Neblina e Sombras” (1992, Woody Allen), de Ela Wojciechowska


“O Discreto Charme da Burguesia” (1972, Luis Buñuel), de Franciszek Starowievski,
 e “Deserto Vermelho” (1970, Michelangelo Antonioni), de Witold Janowski


“Soy Cuba” (1964, Mikhail Kalatozov), de Portocarrero,
 e “Duas Garotas Românticas” (1967, de Jacques Demy), de Reboiro


“Terra em Transe” (1967, de Glauber Rocha), de Reboiro,
 e “Playtime” (1967, de Jacques Tati), de Bachs

***

Este é meu último post desta temporada francesa. Aos que acompanharam minhas cascatas desde março, obrigado pela leitura.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h14 PM

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Quando o crítico vai ao cinema

Quando o crítico vai ao cinema

 

Por Cássio Starling Carlos

Todo mundo reclama de críticos. Estes desmancha-prazeres vêem os filmes antes de todo mundo e no dia da estréia cravam uma avaliação que quase sempre contraria o gosto do público. Pensando bem, não têm mesmo muitos motivos para serem admirados.

Como um dia o feitiço acaba por virar contra o feiticeiro, tive anteontem uma experiência de espectador comum, aquele que vê seu gosto contrariado pela opinião da crítica.

Do início ao fim de uma prosaica sessão de terça-feira num shopping vi “Fim dos Tempos” como se estivesse diante de uma aparição mágica de cinema, uma daquelas experiências que mesmo quem vê muitos filmes alcança só de vez em quando.

Entretanto, o filme de M. Night Shyamalan estreou acompanhado de poucos, curtos e negativos comentários na imprensa brasileira. Nos EUA, o bombardeio foi implacável, como se pode averiguar no escore bem baixo do Metacritic. Uma das poucas exceções veio do veterano Roger Ebert, mas seu método banal de analisar a trama e os desempenhos e emitir um juízo impressionista não chega a ser convincente. Sob a avalanche de cotações negativas, não foi por pura teimosia que encarei o filme.

Tinha que vê-lo para produzir a cotação que o Guia da Folha traz em seu quadro semanal e também queria vê-lo porque sou um espectador que se impressiona enormemente com o que Shyamalan faz no cinema. E me entusiasma o crescente risco que o diretor resolveu assumir em seus trabalhos mais recentes, distanciando-se do conforto da fórmula eficaz dos filmes que o tornaram mundialmente famoso. Ele poderia ter ficado fiel a seus truques de roteiro, as famosas “reviravoltas” místico-espirituais de “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”. Porém, desde “Sinais”, Shyamalan deslocou o fator fantástico para ressignificar conteúdos além da diversão. E com “Fim dos Tempos” ele se afasta da mera metáfora, do comentário político, que conduzia os simbolismos de “A Vila”, para abordar de frente o que se disfarça sob o verniz da civilização.

“Fim dos Tempos” não é um filme sobre a ameaça ambiental, como muitos apontaram. Sob tal frágil camada, simplório gancho contemporâneo da trama, o que Shyamalan expõe é a fratura arcaica e sempre atual entre o coletivo e o individual. Para sobreviver, os personagens de “Fim dos Tempos” são obrigados a se reduzir a unidades mínimas, numa evidente regressão do chamado processo civilizatório. E o diretor insiste nisso, sujeitando seu público, por exemplo, a uma cena brutal em que dois garotos são mortos (o único crime de fato num filme, cujas mortes são todas por suicídio).

Como alguns já observaram, a paralisia que antecede os suicídios em “Fim dos Tempos” retoma os movimentos automatizados dos zumbis devoradores de carne humana, celebrados na série de mortos-vivos de George Romero, parábola imortal sobre o fim do indivíduo na sociedade de massas, sua redução à figura de autômato. Como Romero, Shyamalan adota o gênero como forma de introduzir insidiosamente valores nem sempre bem cotados, levar o público a consumir ingenuamente algo que se oferece como entretenimento, mas que no fundo é um belo doce envenenado.

Longe das redenções, dos apaziguamentos predominantes na forma clássica do drama hollywoodiano, “Fim dos Tempos” assume a ousadia de ser pessimista, maravilhosamente negativo até mesmo em seu falso final feliz.

Será isto ruim?

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h18 PM

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Um outro Emir Kusturica

Um outro Emir Kusturica

 
Kusturica e seu ídolo, durante as filmagens de “Maradona”

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Você deve conhecer Emir Kusturica. Afinal, o cineasta já fez grandes filmes e acumulou prêmios em festivais internacionais. Em três décadas de carreira, dirigiu dez longas, incluindo os ótimos “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios” (1984) e “Underground” (1995), e ganhou duas Palmas de Ouro em Cannes e um Leão em Veneza. E acaba de lançar um documentário sobre Maradona (e sobre si mesmo).

Mas há um outro Kusturica, que talvez você não conheça. Fui apresentado a ele por um artigo no “Courrier International”, semanário que reúne reportagens de jornais e revistas do mundo. Chama-se “Emir Kusturica, o Mistificador” e é assinado pelo escritor e crítico de cinema croata Jurica Pavicic. No campo artístico, o autor diz que Kusturica construiu sua fama no Ocidente com filmes que estereotipam os Balcãs, com suas fanfarras ciganas e casamentos intermináveis. No político, apresenta o cineasta como um fervoroso nacionalista sérvio que usou os conflitos da região nos anos 90 para fazer fortuna.

No trecho mais incisivo, Pavicic escreve: “Ele [Kusturica] esconde o fato que se tornou um grande proprietário de imóveis, que enriqueceu como um grosseiro aproveitador de guerra, que não se distingue em nada dos oligarcas que brotaram nos Balcãs como champignons depois da chuva. Hoje, ele possui terras, vilarejos inteiros, um parque imobiliário na costa montenegrina, pistas que esqui nas montanhas...  Ministros e personalidades freqüentam seu vilarejo de Drvengrad, enquanto a Justiça montenegrina persegue a seu pedido jornalistas que ousem questioná-lo”.

Quanto à perseguição a jornalistas, a acusação de Pavicic faz sentido. Em abril último, a revista semanal “Monitor” e o jornalista Andrej Nikolaidis foram de fato condenados a pagar 12 mil euros a Kusturica. O motivo: os “danos emocionais” que causaram ao cineasta por criticar em um artigo sua posição pró-Milosevic na guerra de Kosovo.

O texto do “Courrier International” surge no momento em que a carreira do diretor sérvio mais patina. Seus últimos dois longas de ficção, “A Vida É um Milagre” e “Prometa-me”, estão muito longe de suas melhores obras, e o novo “Maradona by Kusturica”  é um equivocado exercício de narcisismo.

Em cartaz em Paris e ainda sem data de estréia no Brasil, o documentário sobre o jogador argentino começa com Kusturica no palco, tocando guitarra, em show em Buenos Aires da No Smoking Orchestra, banda que anima seus filmes. E o vocalista o apresenta à platéia como “o Diego Armando Maradona do cinema”. Esse início mostra como Kusturica se acha tão importante quanto Maradona, um fã incondicional do craque e, por tabela, de si mesmo.

O longa segue nesse registro, com Kusturica relacionando passagens da vida de Maradona a cenas de seus filmes e fazendo pequenos tratados de boteco sobre o tango e sobre a esquerda latino-americana. Sim, o diretor encontra tempo para analisar a política continental, mas é incapaz de contar ao espectador o básico sobre seu personagem: em que clubes jogou, quantos títulos ganhou, quantos gols fez. Os melhores momentos do documentário surgem quando Maradona está em contato com seus fãs, no estádio do Boca Juniors e nas ruas de Buenos Aires e de Nápoles. Nessas horas, Kusturica se contém e deixa que as imagens, apenas elas, dimensionem a paixão que o craque ainda desperta.

***

O melhor filme da semana

A melhor sessão de cinema que vi nos últimos dias em Paris foi “Holanda 4 x 1 França”. Boa idéia do circuito Gaumont, que decidiu transmitir ao vivo os jogos da seleção nacional na Eurocopa em seu cinema de Montparnasse. Coisa fina: imagem digital de primeira (não aquela coisa chuvosa a que estamos acostumados no Brasil), som ambiente do estádio sem narradores ou comentaristas (acredite, os Galvões franceses são muito piores que os nossos), tela gigante numa sala para 250 pessoas (quase lotada). Dado o placar, os franceses não curtiram muito o espetáculo. Eu achei excelente.

A iniciativa da rede Gaumont não é inédita. No Rio de Janeiro, o cine Odeon BR passou todos os jogos da seleção na Copa da Alemanha. E, na semana que vem, um cinema de Petrópolis exibirá a final da Libertadores entre Fluminense e LDU. Bem que o Arteplex recém-aberto na Pompéia poderia começar a transmitir os jogos do glorioso Palestra, não?!

Escrito por Leonardo Cruz às 12h24 PM

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Os suíços estão chegando

Os suíços estão chegando


Cena de “Todo um Inverno sem Fogo”

Por Sérgio Rizzo

Quem já freqüentava cinemas nos anos 70 talvez se lembre do prestígio, no circuito alternativo, do suíço Alain Tanner, que dirigiu “A Salamandra” (1971), “Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000” (1976) e “Na Cidade Branca” (1983), entre outros. A nostalgia e a curiosidade em relação aos rumos da carreira de Tanner obrigam a lamentar a ausência de seus filmes mais recentes —“Fleurs de Sang” (2002), co-dirigido com a atriz Myriam Mézières, e “Paul s’en Va” (2004)— na programação da mostra Pastores, Amantes e Sonhos, que será realizada de terça (dia 17) a domingo (dia 22) no Centro Cultural São Paulo.

Organizada pela Swiss Films, a seleção de 13 longas-metragens e 12 curtas produzidos entre 2000 e 2005 já foi apresentada em outros nove países latino-americanos, durante os últimos dois anos, graças à colaboração entre a Cinemateca Uruguaya, que cuida da itinerância pelo continente, e as representações diplomáticas da Suíça.

É uma rara oportunidade de conferir a produção suíça contemporânea, distante das salas comerciais no Brasil e, de vez em quando, presente em festivais. De acordo com o catálogo de vendas da Swiss Films em 2008, 22 longas-metragens de ficção foram produzidos no país na última temporada, além de 35 curtas (20 de ficção, dez de animação e cinco experimentais), 64 documentários (37 longas e 27 médias e curtas), seis telefilmes e quatro co-produções. O banco de dados da agência na internet afirma trazer informações sobre 2.436 títulos.

Em relação ao mercado exibidor, os números da Suíça são proporcionalmente muito superiores aos brasileiros, de acordo com dados do Filme B e da Swiss Films: há cerca de 550 salas no país, ou uma para cada 13,5 mil habitantes (contra um total de 2.100 e uma para cada 90 mil habitantes, no Brasil) e foi vendido 1,82 ingresso per capita em 2007 (contra 0,5 no Brasil).

Boas opções na programação da mostra:

- “Todo um Inverno sem Fogo” (2004), estréia do polonês Greg Zglinski no longa de ficção, sobre um casal que vive nas montanhas e sobrevive (ou procura sobreviver, com muito esforço) à perda da filha única, de cinco anos

- “Nem Polícia, Nem Negros, Nem Brancos” (2001), da franco-suíça Ursula Meier (de quem a mostra exibirá também o longa de ficção “Costas Sólidas”, 2002), documentário sobre um projeto inovador proposto por um policial de Genebra, Alain Devegney, que se aproximou de comunidades de imigrantes (africanos, em especial) com o objetivo de ajudá-los a viver no país

- “Martha Argerich, Conversa Noturna” (2002), do franco-suíço Georges Gachot (que dirigiu “Maria Bethânia - Música É Perfume”, 2005), documentário sobre a rotina da pianista argentina Martha Argerich, com trechos de apresentações e entrevistas feitas em diversas circunstâncias

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h43 PM

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A vez dos suíços

A vez dos suíços

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a Mostra de Cinema Suíço, que acontece entre 17 e 22 de junho no Centro Cultural São Paulo. O ciclo faz um panorama da produção contemporânea suíça, com 13 longas e 12 curtas produzidos entre 2000 e 2005. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 6h21 PM

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Feitiços de Argento

Feitiços de Argento

Por Cássio Starling Carlos

Quando nós, fãs, já nem esperávamos mais, o mestre do terror à italiana retorna em grande estilo com o filme que encerra a cultuada trilogia materna, que de boazinha não tem nada. Com a Mater Suspiriorum, que atacava uma escola de dança em “Suspiria” (trailer aqui), realizado em 1977, teve início a Saga das Três Mães, protagonizada por diabólicas feiticeiras que entram em cena para infernizar a vida das virginais vítimas que Argento tanto gosta de submeter com seus sadismos visuais.

Na segunda parte foi a vez de a Mater Tenebrarum vir à tona em “Mansão do Inferno” (trailer aqui), realizado por Argento após um intervalo relativamente curto de três anos. Ali, o diretor italiano confirmava que pouco lhe interessavam as nuances narrativas ou a direção de atores mais rigorosa, pois seu cinema assumia de vez a crença no grafismo puro. A obsessão por formas e cores, materializadas desde seus primeiros “giallo” clássicos, no modo como o diretor encenava assassinatos, alcançou a partir de “Suspiria” a dimensão de pura imageria, desinteressada de significados que não fosse o espetáculo da morte.

Depois de um tempo, Argento se deslocou para o universo da grande arte (nos medianos “Terror na Ópera” e “O Fantasma da Ópera” e no extraordinário “Síndrome de Stendhal”) . Nesses trabalhos o diretor parecia se estabilizar como grande encenador, manuseando materiais nobres da cultura italiana, mas correndo os riscos de se converter em paródia de si mesmo ou de meramente praticar filmes-conforto à beira da aposentadoria.

Entretanto, ao fim de uma década não muito memorável, na qual realizou “Sleepless” e “Il Cartaio”, dois trabalhos de pouco impacto, e praticou no território da TV (com “Ti Piace Hitchcock” e os dois episódios feitos para a ótima série “Masters of Horror”), o cineasta espanou a poeira e mirou o material inacabado da trilogia para reencontrar sua veia mais delirante.

Logo após estrear nos EUA com ótimos comentários, a terceira parte da trilogia chega quase simultaneamente ao Brasil direto em DVD (o que ameniza muito os pesadelos visuais concebidos por Argento) com o título “O Retorno da Maldição - A Mãe das Lágrimas” (trailer aqui). Agora é a Mater Lachrymarum que ressurge das trevas para pôr um fim aos dias calmos de uma restauradora de arte vivida por Asia Argento, vítima favorita das malvadezas do pai.

A terceira (e mais poderosa) feiticeira vem com a ambiciosa tarefa de destruir Roma pela segunda vez na história. Nada demais para o cinema hiperbólico de Argento, que retoma todos os excessos (visuais, melodramáticos, sanguíneos) no encerramento da trilogia.

E dá ainda uma vez prova de seu gênio gráfico ao transformar Roma em cenário de ataques de suas loucas enfeitiçadas, uma Roma arquitetônica em que os labirintos das ruínas e as sinuosidades dos interiores funcionam como nunca para a proliferação do mal. Não satisfeito com o que consegue, Argento produz sua apoteose num encontro com a Roma subterrânea das catacumbas, claustrofóbica e arcaica (foto: Terza).

Nesta passagem da superfície às profundezas, o diretor torna explícita sua paixão por Alice, heroína que em suas mãos deixa o país das maravilhas para mergulhar no abismo dos tormentos.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h26 PM

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Sexta-feira 13

Sexta-feira 13

Por Sérgio Rizzo

Parece piada feita, mas as duas estréias da semana (simbolicamente, na sexta-feira 13) que apontam para a invasão do mercado brasileiro por superproduções norte-americanas são “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos”.

O primeiro procura retomar em novas bases, com Edward Norton no papel principal e direção de Louis Leterrier, a franquia que não obteve os resultados esperados pelos produtores com o longa de 2003, dirigido por Ang Lee. O segundo, que chega ao Brasil sem que a distribuidora tenha promovido sessões prévias para a imprensa até hoje (uma exibição de última hora foi marcada para a quarta-feira, apenas dois dias antes do lançamento), é a tentativa de o diretor e roteirista M. Night Shyamalan se recuperar da bilheteria modesta de “A Dama na Água” (2006).

Nos EUA e Canadá, ambos pertencem a um perfil de longa-metragem que costuma ser lançado em cerca de 4.000 salas. Alguns em um pouco mais, como “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (4.260), e outros em um tanto menos, como “Zohan – Um Agente Bom de Corte” (3.462), que ficou em segundo lugar no ranking no último final de semana e tem estréia prevista no Brasil para 15 de agosto.

Como o mercado norte-americano soma cerca de 42 mil salas (39 mil nos EUA e o restante no Canadá), de acordo com dados do Filme B, nenhum lançamento consegue ocupar sozinho mais de 10 %. No último final de semana, os oito filmes que ocupavam mais de mil salas cada um estavam em cartaz em 25.930 salas (62%). Para os demais, sobraram 38%, ou cerca de 16 mil salas.

No Brasil, “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos” são filmes lançados com aproximadamente 500 cópias. Como o mercado nacional tem cerca de 2.100 salas, cada uma dessas superproduções costuma ocupar entre 20% e 25% do total. Dois que estréiem na mesma semana já asseguram, sozinhos, metade do circuito.

No final de semana de 1º de junho, apenas cinco filmes ocupavam 83% do mercado nacional (1.744 salas). Quando este post foi escrito, os dados do último final de semana não estavam disponíveis e as distribuidoras ainda não haviam definido com os exibidores o número final de salas para “O Incrível Hulk” e “Fim dos Tempos”, mas é provável que os “cinco mais” em cartaz superem no próximo final de semana a marca dos 90% --o que aconteceu, por exemplo, em julho de 2007, com o engarrafamento de quatro superproduções (“Harry Potter 5”, “Ratatouille”, “Quarteto Fantástico 2” e “Shrek Terceiro”).

Ocupação desmedida e perniciosa, no médio e longo prazos, para o próprio mercado, inclusive porque só contribui para a formação de público sazonal. Quando as superproduções desaparecem do circuito, boa parcela de seus espectadores as acompanha.

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h57 PM

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Retroceder nunca, render-se jamais

Retroceder nunca, render-se jamais

 
J.C.V.D. vive J.C.V.D. em “J.C.V.D.”

Por Leonardo Cruz (em Paris)

O Terminator virou Governator. Sly ressuscitou Rocky e Rambotox. Mas... e o Van Damme? Ícone do cine-porrada dos 80/90, o grande dragão branco tomou na cabeça. Longe do apogeu de “Kickboxer” (1989), “Garantia de Morte” (90) e “Soldado Universal” (92), Jean-Claude Van Damme está desempregado, perdeu na Justiça a guarda da filha, cheirou seus milhões e não tem mais um centavo no banco. De volta a Bruxelas, o carateca belga se enfia em um assalto a uma agência do correio.

Com grandes doses de realidade e algumas pitadas de ficção, esse é o plot de “J.C.V.D.”, sem dúvida o melhor filme da carreira do moço. Ok, eu sei, isso não é muito difícil. Mas Van Damme caiu na real, percebeu que seu tempo passou e aceitou estrelar e co-produzir essa comédia em que esculhamba a si mesmo, um projeto do jovem diretor Mabrouk El Mechri.

A primeira cena dá o tom da comédia. Como numa daquelas intermináveis partidas de “Double Dragon” , Van Damme arrebenta uns 50 inimigos em seu caminho para resgatar a jovem donzela, até que o surge o vilão final, o cenário cai, e o diretor grita: “Corta!”. E o nosso herói esbaforido reclama com o cineasta chinês: “Assim não dá. Eu tenho 47 anos. Não consigo mais fazer tudo em um único plano-seqüência”.

Salvo alguns flertes com a pieguice e um final meio sem pé nem cabeça, “J.C.V.D.” funciona bem como auto-paródia, tem boas piadas e um monólogo sensacional, em que Van Damme enfrenta a câmera e fala da vida de forma tão sincera que se torna irônica.

Em entrevista ao “Libération” por conta do lançamento do filme na França, o ator contou que a cena, de nove minutos, foi feita em uma tomada só, sem texto prévio, no improviso. “Mabrouk me pediu para abrir meu coração. Ele queria um plano-seqüência para que a palavra viesse melhor e para que não o acusassem de ter manipulado qualquer coisa de mim, de ter cortado minhas supostas bobagens.”

A entrevista no “Libé” é boa e dá uma idéia clara de quem é esse Van Damme que deve chegar aos cinemas brasileiros no segundo semestre. A seguir uma compilação dos trechos mais divertidos. E, no pé do post, o trailer do longa.

O convite para fazer “J.C.V.D.” - “Tinha perdido a confiança no cinema. Imagine um campeão. Tyson. Ele sobe no ringue. É nocauteado. Volta a treinar e novo nocaute. E mais um nocaute. Nessa hora, ele pensa: ‘Perdi tudo’. Naquele momento, quando a [produtora francesa] Gaumont me mostrou ‘Virgil’, o primeiro filme de Mabrouk, pedi desculpas e fui saindo. Por que vocês me procuraram? Eu estou acabado. Dêem Daniel Auteuil ou Gerard Depardieu a esse garoto, não Van Damme. Esse garoto merece mais que isso.”

Os diretores chineses que levou a Hollywood - “John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam. Não se pode dizer que eles tenham me agradecido, né? Esse trabalho que Mabrouk fez por mim, chamo isso de uma flor: finalmente, um roteiro escrito, de atuação. Era isso o que eu esperava da parte deles, dos mestres de Hong Kong. E eles sistematicamente deram tudo a outros.”

O contato com os fãs hoje - “O que mais me dói é quando as pessoas me perguntam na rua: ‘Quando você vai fazer um filme?’. Mas eu faço filmes! É que eles não saem mais nas salas. São lançados diretamente em DVD.”

O pó - “Você pára de contar os gramas quando realmente começa com a cocaína. Posso dizer que, em termos de dose, era tamanho Van Damme. Van Damage... meu velho sobrenome. Ou ainda Jean-Claude Vingt Grammes... [risos].”

Escrito por Leonardo Cruz às 12h29 PM

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Irmãos e o Diabo

Irmãos e o Diabo

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”, de Sidney Lumet, que estréia hoje nos cinemas brasileiros. Assim como o mais recente longa de Woody Allen em cartaz no Brasil, “O Sonho de Cassandra”, “Antes que o Diabo...” também aborda dois irmãos que se envolvem em uma atividade criminosa. Para ouvir o podcast, clique no microfone:

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h21 PM

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O diabo disse não

O diabo disse não

 
Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke em cena de
 "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto"


Por Cássio Starling Carlos

A desaparição recente de Sydney Pollack e a estréia nesta semana do último filme dirigido por seu xará, de sobrenome Lumet, traz à tona um termo, artesão, que nós críticos usamos a torto e a direito como modo discreto de xingar ou de desconsiderar um artista.

Muitos podem considerar injusta a aproximação dos dois Sidneys. Enquanto Pollack é responsável por coisas difíceis de esquecer (de tão ruins) como “Entre Dois Amores” e sua estética “National Geographic” ou o remake plenamente dispensável de “Sabrina”, Lumet tem em seu currículo os furiosos e sempre atuais “Um Dia de Cão” e “Rede de Intrigas”.

Por outro lado, é difícil levar a sério a injustificável refilmagem que Lumet fez de “Gloria”, de John Cassavetes, ou a aberração “O Mágico Inesquecível”. Já Pollack conquistou um lugar de respeito por seu duríssimo “A Noite dos Desesperados” e no mais discreto e não menos importante “Três Dias do Condor” (confesso também guardar uma memória distante, mas emocionada do fundo político-amargo de “Nosso Amor de Ontem”).

Quero dizer com isso que o artesão não passa de um cumpridor de ordens, obrigado a dirigir desde abacaxis até filmes importantes, ao contrário do “autor”, que submeteria tudo e todos a suas escolhas pessoais e a seu controle genial? Não!

Ao criar esse tipo de hierarquia, depois copiada sem distinção na pressa com que muitas vezes escrevemos, a crítica de cinema imita um procedimento da história da arte, cujos efeitos mais atrapalham que ajudam. Um catálogo de obras-primas das artes plásticas pode trazer os mesmos manjados nomes e títulos de obras, mas basta uma visita a um museu com acervo diversificado para descobrirmos grandeza de todos os matizes “escondidas” em obras de artistas considerados “médios” (equivalentes aos que no cinema chamamos artesãos).

Voltemos ao caso Lumet. “Artesão acima da média” é o máximo que a crítica de extração “autorística” conceberia associar ao diretor americano. E, com sua larga experiência nas condições de trabalho e de criação no seio da indústria, o próprio Lumet é o primeiro a esvaziar o conceito de “autor” dos significados em que costumamos empregá-lo (a este respeito são valiosas as reflexões do diretor em seu “Fazendo Filmes”, lançado há uns dez anos pela editora Rocco em sua útil, mas irregular coleção Artemídia).

Mas eis que nos deparamos com seu último trabalho, de título sumamente irônico para quem o realizou aos 83 anos. “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” é, primeiro, um filme que nos arranca do conforto da cadeira. Ao modo habitual do thriller, Lumet conta uma história de suspense, cercada de alguns sinais bíblicos que lhe fornecem, digamos, um tanto de interesse simbólico. Na sua moral, não difere muito do que já estava dito em “Um Lugar ao Sol”, o clássico que George Stevens dirigiu em 1951, adaptando o romance “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser.

Só que na sua estrutura, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” é aquele tipo de filme que leva o crítico a se perguntar por que diabos quem o criou não pode ser considerado um gênio, mesmo que ocasional?

Lumet faz como se o filme existisse em dois planos, o da história e o da maneira em que ela nos é contada. A primeira ele nos oferece em todos os seus meandros, com início, meio e fim. Já na segunda, tudo se revira ao avesso, pois parece que existia um filme pronto e depois um filme reinventado na sala de montagem, um filme mostrado aos produtores e outro que ele fez escondido para nos mostrar.

Nesta astúcia ecoa a definição de estilo que Lumet dá em seu livro: “Fazer filme sempre gira em torno de contar uma história. Alguns filmes contam uma história e nos deixam com uma impressão. Alguns contam uma história e nos deixam com uma impressão e nos dão uma idéia. Outros contam uma história, nos deixam com uma impressão, nos dão uma idéia e revelam alguma coisa sobre nós mesmos e os outros”.

Com seus efeitos que antecedem as causas, com seus jogos de dentro e fora (espaciais, temporais, psicológicos) sem sair do âmbito da ficção, sem posar de metalingüístico nem tentar parecer inteligente, como os Charles Kaufman e Christopher Nolan da vida, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” faz o que fez até hoje todo cinema que não parte da nossa memória: usa o espectador ao mesmo tempo como cúmplice e como refém.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h35 PM

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De salto alto

De salto alto

Por Sérgio Rizzo

Carrie Bradshaw e suas amigas superaram de longe as expectativas da Warner e da Alliance, que distribuem “Sex and the City - O Filme” nos EUA e Canadá, respectivamente. O longa-metragem baseado na série de TV da HBO assumiu o primeiro lugar no ranking de bilheteria em seu primeiro final de semana, com expressivos US$ 56,848 milhões em 3.285 cinemas (média de US$ 17,3 mil por sala), contra US$ 44,754 milhões de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” em 4.264 cinemas (média de US$ 10,5 mil por sala), em sua segunda semana, de acordo com dados da Nielsen EDI divulgados pelo jornal “The New York Times”.

Em Nova York, planeta de Carrie, o filme teve desempenho impressionante: US$ 6,027 milhões em 165 salas, média assombrosa de US$ 36,5 mil.

Esperava-se que “Indiana Jones” mantivesse o primeiro lugar e que “Sex and the City” arrecadasse cerca de US$ 30 milhões, com média de aproximadamente US$ 9 mil por sala. Fez quase o dobro.

A comparação com as médias dos demais títulos de ponta em cartaz nos EUA e Canadá apontam para o contraste entre salas abarrotadas para Carrie e cia., e às moscas para os outros: “Homem de Ferro”, em quarto no ranking, fez US$ 3,7 mil por sala (ainda está em cartaz em 3.650 cinemas, na quinta semana); “As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian”, US$ 3,3 mil (em 3.801 salas, na terceira semana); “Speed Racer”, US$ 1,1 mil (agonizando em 2.070 salas, na quarta semana).

Além de “Sex and the City” e “Indiana Jones”, o único a atrair público mais significativo foi outra estréia, “The Strangers”, com um total de US$ 20,997 milhões em 2.466 salas (média de US$ 8,5 mil). Com Liv Tyler e Scott Speedman, o filme tem estréia prevista no Brasil para 10 de outubro.

Apesar desses números e de aberturas positivas também em outros países, o desempenho de “Sex and the City” será achatado no Brasil por causa da estratégia conservadora de lançamento. A Playarte, que distribui o filme no país, vai lançá-lo na próxima sexta-feira, dia 6, com 130 cópias (e talvez um número um pouco maior de salas), de acordo com o Filme B.

É um esforço de porte médio, semelhante ao de filmes como “O Melhor Amigo da Noiva” (142 cópias), “Ponto de Vista” (138 cópias), “Awake - A Vida por um Fio” (105 cópias) e “Imagens do Além” (101 cópias). E bem aquém de superproduções como “Homem de Ferro” (que estreou no Brasil com 500 cópias em 569 salas), “Speed Racer” (545 cópias em 562 salas), “Indiana Jones” (545 cópias e mesmo número de salas) e “Príncipe Caspian” (471 cópias em 508 salas).

Se a média de “Sex and the City” por sala for de 1.200 pessoas no final de semana de estréia, marca que seria considerada excelente pelo mercado, a vital arrancada de abertura será de aproximadamente 160 mil pessoas (e cerca de R$ 1,7 milhão), equivalente à de “O Melhor Amigo da Noiva”. Pouco, perto do estouro norte-americano e europeu.

Como não é distribuído no Brasil por uma “major”, “Sex and the City” enfrenta com armas menos poderosas o congestionamento de superproduções em cartaz e também prestes a estrear.

No último final de semana, 1.744 salas (cerca de 83% do total de cinemas no país) eram ocupadas por apenas cinco filmes: “Homem de Ferro”, “Speed Racer”, “Indiana Jones”, “Príncipe Caspian” e “O Melhor Amigo da Noiva”.

No próximo dia 13, a situação deve piorar, com o lançamento de “Fim dos Tempos” e “O Incrível Hulk”.

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h04 PM

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Lafosse, um novo talento do cinema europeu

Lafosse, um novo talento do cinema europeu

 
Jonas (Jonas Bloquet) e Pierre (Jonathan Zaccaï),
 em “Élève Libre”, de Joachim Lafosse

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Tela preta, créditos de abertura em branco, no centro do quadro. Ao fundo, um baque surdo seguido por um gemido, barulho constante, crescente e aflitivo. Um espancamento? Uma relação sexual? Não. A primeira cena nos mostra um adolescente treinando tênis, o baque da raquete na bola e o gemido típico dos praticantes do esporte. “Élève Libre” (aluno livre), de Joachim Lafosse, começa assim, com essa falsa sugestão, um lembrete de que as aparências enganam, um alerta para os próximos 104 minutos de filme.

Cineasta belga de 33 anos, Lafosse já fizera o ótimo “Propriedade Privada” (2006), exibido no circuito comercial brasileiro no ano passado. Naquele filme, o diretor fazia um retrato sutil do cotidiano de uma família em crise no interior da Bélgica e tinha Isabelle Huppert como protagonista. Agora, em seu quarto longa-metragem, Lafosse enfoca Jonas, garoto de 16 anos, filho de pais separados ausentes, fracasso na escola e no tênis, inseguro com Delphine, sua primeira namorada.

Sem rumo, o garoto se envolve com três amigos de sua mãe, mais velhos, experientes e atraentes, o casal Didier e Nathalie e o solteirão Pierre. Este último assume o papel de tutor de Jonas em sua preparação para um exame nacional, última chance de chegar à universidade. De forma discreta, o filme acompanha o aprofundamento dessa relação, que passa lentamente da transmissão (de conhecimento, de sabedoria) a transgressão (moral e física).

Presente à sessão de “Élève Libre” ontem à noite no Cinéma des Cineastes, o diretor disse que queria que sua câmera fosse uma serpente, circundando os personagens, como a cobra que captura Mogli no clássico desenho animado. Conseguiu o que queria. Para contar essa história de sedução, Lafosse utiliza uma câmera sempre solta, que envolve os personagens, em cenas que começam e terminam em um único plano, em uma opção estética elegante e adequada à narrativa. Essa boa relação entre forma e conteúdo confirma o diretor como um talento do cinema europeu.

A seguir, o trailer de “Élève Libre”, que ainda não tem previsão de exibição no Brasil. Com sorte, seguirá o mesmo caminho de “Propriedade Privada”, que chegou ao país pela Mostra de SP de 2006, passou pelo Festival do Rio em 2007 e depois entrou em cartaz.

A sessão do filme de Joachim Lafosse fez parte da reprise em Paris da Quinzena dos Realizadores de Cannes-2008. Nestas duas semanas posteriores ao festival, a maior parte dos filmes que circularam na Croisette aporta em salas parisienses. Na primeira semana, as obras da Quinzena passam no Cinéma des Cineastes, enquanto o Reflet Médicis exibe toda a mostra Un Certain Regard. Na segunda semana, a Cinemateca Francesa apresenta os selecionados da Semana da Crítica. Só ficam de fora dessa repescagem os longas da competição oficial.

***

Na cabeça de Luc Dardenne

Uma pequena preciosidade chegou às livrarias francesas nas últimas semanas: uma nova edição de “Au Dos de Nos Images” (por trás de nossas imagens), diário do cineasta belga Luc Dardenne entre 1991 e 2005, com notas sobre o processo de criação de seus filmes e reflexões sobre o fazer cinematográfico.

O livro começa em um momento de crise, na época da finalização de “Je Pense à Vous”, o segundo longa de ficção escrito, produzido e dirigido por Luc e seu irmão Jean-Pierre. Crise porque os irmãos cineastas estão infelizes com o resultado do filme, e o irmão mais novo desabafa em seu diário, em 29 de dezembro de 1991: “O que fazer? Continuar a querer filmar? A fazer filmes? Para quê? O filme ruim que acabamos de rodar deveria nos curar para sempre de tal ilusão, de tal pretensão”.

Felizmente, os cineastas transformaram a decepção de “Je Pense à Vous” em motivação para repensar seu cinema. Em 25 de junho de 1992, Luc redige o que seria a base conceitual de filmes como “A Promessa” (1996), “Rosetta” (1999) e “O Filho” (2002). “Uma coisa é certa: orçamento baixo e simplicidade total (roteiro, cenário, figurino, iluminação, equipe, atores). Ter nossa equipe, encontrar atores que realmente queiram trabalhar conosco, que não nos bloqueiem com seu profissionalismo [...]. Contra a afetação, o maneirismo que prevalece: pensar pobre, simples, nu. Estar nu, se despir de todos os discursos, de todos os comentários que dizem o que o cinema é, o que não é e o que deveria ser.”

Além das anotações do irmão caçula, “Au Dos de Nos Images” traz ainda os roteiros integrais de “O Filho”, “A Criança” (2005) e, o brinde desta segunda edição, “O Silêncio de Lorna”, novíssima obra da dupla, recém-premiada no Festival de Cannes. Lançado pela editora Points, este livro de bolso custa 10 euros e pode ser encomendado nos sites franceses da Fnac e da Amazon. Para os cinéfilos francófonos, é uma leitura imperdível.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h02 PM

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