No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”, de Sidney Lumet, que estréia hoje nos cinemas brasileiros. Assim como o mais recente longa de Woody Allen em cartaz no Brasil, “O Sonho de Cassandra”, “Antes que o Diabo...” também aborda dois irmãos que se envolvem em uma atividade criminosa. Para ouvir o podcast, clique no microfone:
Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke em cena de "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto"
Por Cássio Starling Carlos
A desaparição recente de Sydney Pollack e a estréia nesta semana do último filme dirigido por seu xará, de sobrenome Lumet, traz à tona um termo, artesão, que nós críticos usamos a torto e a direito como modo discreto de xingar ou de desconsiderar um artista.
Muitos podem considerar injusta a aproximação dos dois Sidneys. Enquanto Pollack é responsável por coisas difíceis de esquecer (de tão ruins) como “Entre Dois Amores” e sua estética “National Geographic” ou o remake plenamente dispensável de “Sabrina”, Lumet tem em seu currículo os furiosos e sempre atuais “Um Dia de Cão” e “Rede de Intrigas”.
Por outro lado, é difícil levar a sério a injustificável refilmagem que Lumet fez de “Gloria”, de John Cassavetes, ou a aberração “O Mágico Inesquecível”. Já Pollack conquistou um lugar de respeito por seu duríssimo “A Noite dos Desesperados” e no mais discreto e não menos importante “Três Dias do Condor” (confesso também guardar uma memória distante, mas emocionada do fundo político-amargo de “Nosso Amor de Ontem”).
Quero dizer com isso que o artesão não passa de um cumpridor de ordens, obrigado a dirigir desde abacaxis até filmes importantes, ao contrário do “autor”, que submeteria tudo e todos a suas escolhas pessoais e a seu controle genial? Não!
Ao criar esse tipo de hierarquia, depois copiada sem distinção na pressa com que muitas vezes escrevemos, a crítica de cinema imita um procedimento da história da arte, cujos efeitos mais atrapalham que ajudam. Um catálogo de obras-primas das artes plásticas pode trazer os mesmos manjados nomes e títulos de obras, mas basta uma visita a um museu com acervo diversificado para descobrirmos grandeza de todos os matizes “escondidas” em obras de artistas considerados “médios” (equivalentes aos que no cinema chamamos artesãos).
Voltemos ao caso Lumet. “Artesão acima da média” é o máximo que a crítica de extração “autorística” conceberia associar ao diretor americano. E, com sua larga experiência nas condições de trabalho e de criação no seio da indústria, o próprio Lumet é o primeiro a esvaziar o conceito de “autor” dos significados em que costumamos empregá-lo (a este respeito são valiosas as reflexões do diretor em seu “Fazendo Filmes”, lançado há uns dez anos pela editora Rocco em sua útil, mas irregular coleção Artemídia).
Mas eis que nos deparamos com seu último trabalho, de título sumamente irônico para quem o realizou aos 83 anos. “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” é, primeiro, um filme que nos arranca do conforto da cadeira. Ao modo habitual do thriller, Lumet conta uma história de suspense, cercada de alguns sinais bíblicos que lhe fornecem, digamos, um tanto de interesse simbólico. Na sua moral, não difere muito do que já estava dito em “Um Lugar ao Sol”, o clássico que George Stevens dirigiu em 1951, adaptando o romance “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser.
Só que na sua estrutura, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” é aquele tipo de filme que leva o crítico a se perguntar por que diabos quem o criou não pode ser considerado um gênio, mesmo que ocasional?
Lumet faz como se o filme existisse em dois planos, o da história e o da maneira em que ela nos é contada. A primeira ele nos oferece em todos os seus meandros, com início, meio e fim. Já na segunda, tudo se revira ao avesso, pois parece que existia um filme pronto e depois um filme reinventado na sala de montagem, um filme mostrado aos produtores e outro que ele fez escondido para nos mostrar.
Nesta astúcia ecoa a definição de estilo que Lumet dá em seu livro: “Fazer filme sempre gira em torno de contar uma história. Alguns filmes contam uma história e nos deixam com uma impressão. Alguns contam uma história e nos deixam com uma impressão e nos dão uma idéia. Outros contam uma história, nos deixam com uma impressão, nos dão uma idéia e revelam alguma coisa sobre nós mesmos e os outros”.
Com seus efeitos que antecedem as causas, com seus jogos de dentro e fora (espaciais, temporais, psicológicos) sem sair do âmbito da ficção, sem posar de metalingüístico nem tentar parecer inteligente, como os Charles Kaufman e Christopher Nolan da vida, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” faz o que fez até hoje todo cinema que não parte da nossa memória: usa o espectador ao mesmo tempo como cúmplice e como refém.
Carrie Bradshaw e suas amigas superaram de longe as expectativas da Warner e da Alliance, que distribuem “Sex and the City - O Filme” nos EUA e Canadá, respectivamente. O longa-metragem baseado na série de TV da HBO assumiu o primeiro lugar no ranking de bilheteria em seu primeiro final de semana, com expressivos US$ 56,848 milhões em 3.285 cinemas (média de US$ 17,3 mil por sala), contra US$ 44,754 milhões de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” em 4.264 cinemas (média de US$ 10,5 mil por sala), em sua segunda semana, de acordo com dados da Nielsen EDI divulgados pelo jornal “The New York Times”.
Em Nova York, planeta de Carrie, o filme teve desempenho impressionante: US$ 6,027 milhões em 165 salas, média assombrosa de US$ 36,5 mil.
Esperava-se que “Indiana Jones” mantivesse o primeiro lugar e que “Sex and the City” arrecadasse cerca de US$ 30 milhões, com média de aproximadamente US$ 9 mil por sala. Fez quase o dobro.
A comparação com as médias dos demais títulos de ponta em cartaz nos EUA e Canadá apontam para o contraste entre salas abarrotadas para Carrie e cia., e às moscas para os outros: “Homem de Ferro”, em quarto no ranking, fez US$ 3,7 mil por sala (ainda está em cartaz em 3.650 cinemas, na quinta semana); “As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian”, US$ 3,3 mil (em 3.801 salas, na terceira semana); “Speed Racer”, US$ 1,1 mil (agonizando em 2.070 salas, na quarta semana).
Além de “Sex and the City” e “Indiana Jones”, o único a atrair público mais significativo foi outra estréia, “The Strangers”, com um total de US$ 20,997 milhões em 2.466 salas (média de US$ 8,5 mil). Com Liv Tyler e Scott Speedman, o filme tem estréia prevista no Brasil para 10 de outubro.
Apesar desses números e de aberturas positivas também em outros países, o desempenho de “Sex and the City” será achatado no Brasil por causa da estratégia conservadora de lançamento. A Playarte, que distribui o filme no país, vai lançá-lo na próxima sexta-feira, dia 6, com 130 cópias (e talvez um número um pouco maior de salas), de acordo com o Filme B.
É um esforço de porte médio, semelhante ao de filmes como “O Melhor Amigo da Noiva” (142 cópias), “Ponto de Vista” (138 cópias), “Awake - A Vida por um Fio” (105 cópias) e “Imagens do Além” (101 cópias). E bem aquém de superproduções como “Homem de Ferro” (que estreou no Brasil com 500 cópias em 569 salas), “Speed Racer” (545 cópias em 562 salas), “Indiana Jones” (545 cópias e mesmo número de salas) e “Príncipe Caspian” (471 cópias em 508 salas).
Se a média de “Sex and the City” por sala for de 1.200 pessoas no final de semana de estréia, marca que seria considerada excelente pelo mercado, a vital arrancada de abertura será de aproximadamente 160 mil pessoas (e cerca de R$ 1,7 milhão), equivalente à de “O Melhor Amigo da Noiva”. Pouco, perto do estouro norte-americano e europeu.
Como não é distribuído no Brasil por uma “major”, “Sex and the City” enfrenta com armas menos poderosas o congestionamento de superproduções em cartaz e também prestes a estrear.
No último final de semana, 1.744 salas (cerca de 83% do total de cinemas no país) eram ocupadas por apenas cinco filmes: “Homem de Ferro”, “Speed Racer”, “Indiana Jones”, “Príncipe Caspian” e “O Melhor Amigo da Noiva”.
No próximo dia 13, a situação deve piorar, com o lançamento de “Fim dos Tempos” e “O Incrível Hulk”.
Jonas (Jonas Bloquet) e Pierre (Jonathan Zaccaï), em “Élève Libre”, de Joachim Lafosse
Por Leonardo Cruz (em Paris)
Tela preta, créditos de abertura em branco, no centro do quadro. Ao fundo, um baque surdo seguido por um gemido, barulho constante, crescente e aflitivo. Um espancamento? Uma relação sexual? Não. A primeira cena nos mostra um adolescente treinando tênis, o baque da raquete na bola e o gemido típico dos praticantes do esporte. “Élève Libre” (aluno livre), de Joachim Lafosse, começa assim, com essa falsa sugestão, um lembrete de que as aparências enganam, um alerta para os próximos 104 minutos de filme.
Cineasta belga de 33 anos, Lafosse já fizera o ótimo “Propriedade Privada” (2006), exibido no circuito comercial brasileiro no ano passado. Naquele filme, o diretor fazia um retrato sutil do cotidiano de uma família em crise no interior da Bélgica e tinha Isabelle Huppert como protagonista. Agora, em seu quarto longa-metragem, Lafosse enfoca Jonas, garoto de 16 anos, filho de pais separados ausentes, fracasso na escola e no tênis, inseguro com Delphine, sua primeira namorada.
Sem rumo, o garoto se envolve com três amigos de sua mãe, mais velhos, experientes e atraentes, o casal Didier e Nathalie e o solteirão Pierre. Este último assume o papel de tutor de Jonas em sua preparação para um exame nacional, última chance de chegar à universidade. De forma discreta, o filme acompanha o aprofundamento dessa relação, que passa lentamente da transmissão (de conhecimento, de sabedoria) a transgressão (moral e física).
Presente à sessão de “Élève Libre” ontem à noite no Cinéma des Cineastes, o diretor disse que queria que sua câmera fosse uma serpente, circundando os personagens, como a cobra que captura Mogli no clássico desenho animado. Conseguiu o que queria. Para contar essa história de sedução, Lafosse utiliza uma câmera sempre solta, que envolve os personagens, em cenas que começam e terminam em um único plano, em uma opção estética elegante e adequada à narrativa. Essa boa relação entre forma e conteúdo confirma o diretor como um talento do cinema europeu.
A seguir, o trailer de “Élève Libre”, que ainda não tem previsão de exibição no Brasil. Com sorte, seguirá o mesmo caminho de “Propriedade Privada”, que chegou ao país pela Mostra de SP de 2006, passou pelo Festival do Rio em 2007 e depois entrou em cartaz.
A sessão do filme de Joachim Lafosse fez parte da reprise em Paris da Quinzena dos Realizadores de Cannes-2008. Nestas duas semanas posteriores ao festival, a maior parte dos filmes que circularam na Croisette aporta em salas parisienses. Na primeira semana, as obras da Quinzena passam no Cinéma des Cineastes, enquanto o Reflet Médicis exibe toda a mostra Un Certain Regard. Na segunda semana, a Cinemateca Francesa apresenta os selecionados da Semana da Crítica. Só ficam de fora dessa repescagem os longas da competição oficial.
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Na cabeça de Luc Dardenne
Uma pequena preciosidade chegou às livrarias francesas nas últimas semanas: uma nova edição de “Au Dos de Nos Images” (por trás de nossas imagens), diário do cineasta belga Luc Dardenne entre 1991 e 2005, com notas sobre o processo de criação de seus filmes e reflexões sobre o fazer cinematográfico.
O livro começa em um momento de crise, na época da finalização de “Je Pense à Vous”, o segundo longa de ficção escrito, produzido e dirigido por Luc e seu irmão Jean-Pierre. Crise porque os irmãos cineastas estão infelizes com o resultado do filme, e o irmão mais novo desabafa em seu diário, em 29 de dezembro de 1991: “O que fazer? Continuar a querer filmar? A fazer filmes? Para quê? O filme ruim que acabamos de rodar deveria nos curar para sempre de tal ilusão, de tal pretensão”.
Felizmente, os cineastas transformaram a decepção de “Je Pense à Vous” em motivação para repensar seu cinema. Em 25 de junho de 1992, Luc redige o que seria a base conceitual de filmes como “A Promessa” (1996), “Rosetta” (1999) e “O Filho” (2002). “Uma coisa é certa: orçamento baixo e simplicidade total (roteiro, cenário, figurino, iluminação, equipe, atores). Ter nossa equipe, encontrar atores que realmente queiram trabalhar conosco, que não nos bloqueiem com seu profissionalismo [...]. Contra a afetação, o maneirismo que prevalece: pensar pobre, simples, nu. Estar nu, se despir de todos os discursos, de todos os comentários que dizem o que o cinema é, o que não é e o que deveria ser.”
Além das anotações do irmão caçula, “Au Dos de Nos Images” traz ainda os roteiros integrais de “O Filho”, “A Criança” (2005) e, o brinde desta segunda edição, “O Silêncio de Lorna”, novíssima obra da dupla, recém-premiada no Festival de Cannes. Lançado pela editora Points, este livro de bolso custa 10 euros e pode ser encomendado nos sites franceses da Fnac e da Amazon. Para os cinéfilos francófonos, é uma leitura imperdível.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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