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Sobre tetas e telas

Por Cássio Starling Carlos
Na semana passada, depois que postei um texto elogiando o livro de ensaios em torno de “Serras da Desordem”, um leitor reagiu com um comentário agressivo, acusando-me de “demagogia jurássica de intelectual brasileiro que se presume acima das pipocas mortais” e completou generalizando que “o cinema brasileiro não se paga e vive de teta estatal”.
O ataque me fez lembrar na hora da personagem de Dona Martírio, que acha que “cinema é coisa de vagabundo”. Martírio é a mãe do aspirante a cineasta Zé Rocha, protagonista de “Samba-Canção”, “filme invisível” que tem duas sessões programadas, hoje e domingo, no ciclo “O Assunto É Cinema Volume 2”, em cartaz na Cinemateca.
O longa de estréia de Rafael Conde, realizado em 2002 e nunca exibido comercialmente em São Paulo, joga esses temas num só balaio e sacode com força.
Em vez de choramingar as condições de ser cineasta no Brasil, Conde adota a paródia como forma mais eficaz de riso e crítica. Seu filme conta a história de Zé Rocha, cineasta aspirante de talento duvidoso que tenta com Edna Marla, sua produtora, obter apoio financeiro junto a vários empresários. Como o dinheiro é sempre pouco, a produtora sugere os inevitáveis ajustes, cortando as asas de Zé Rocha, que quer filmar em 35 mm, cor e cinemascope. Para reduzir custos ela sugere que o filme seja feito em preto-e-branco, depois 16 mm, que a certa altura cai para super-8 até bater, no fim, no chão do vídeo. A cada sugestão de Edna é o próprio “Samba-Canção” que se ajusta à bitola, provocando um curto-circuito entre os dois níveis da ficção.
Mas não é este tipo de “intelectualismo” que interessa. O que chama a atenção é o fato de “Samba-Canção” ser um filme de estrutura simples, popular, quase uma comédia maluca, porém nunca pôde testar convenientemente seu potencial de mercado porque não chegou ao circuito comercial.
Como se pode deduzir que o público não quer ver filme brasileiro se os filmes não chegam a ser exibidos? E se, quando chegam, ficam restritos ao circuitinho “de arte”?
Feito com um orçamento irrisório (para os padrões de um longa) de R$ 400 mil, “Samba-Canção” foi produzido sem recurso às “tetas do governo”. Com exceção das duas semanas que ficou em cartaz em Belo Horizonte em 2002, só é conhecido por freqüentadores do circuito alternativo, culturalmente interessante mas comercialmente restrito. Agora, o diretor considera disponibilizá-lo em DVD e também oferecer uma versão para download.
Sem grandes ambições comerciais, mas sempre fiel à necessidade de garantir que a obra circule entre um público mais amplo o cineasta já reuniu no DVD “Seis Curtas” parte de sua filmografia iniciada há duas décadas.
E espera uma melhor sorte para “Fronteira”, baseado no romance homônimo de Cornélio Penna, segundo longa recém-concluído e feito com recursos dos programas Filme em Minas e B.O. do MinC, ambos governamentais.
Nele, o realizador mineiro volta a exercitar um dos pontos fortes de sua obra, na habilidade de transmutar o universo literário em fílmico testada com sucesso na trilogia de curtas baseados em contos de Luiz Vilela (“Françoise”, “Rua da Amargura” e “A Chuva nos Telhados Antigos”). Pelo menos se sabe que “Fronteira” será visível, pois sua distribuição está garantida pela Usina Digital, a mesma que tirou “Serras da Desordem” do limbo alternativo, para satisfação de uns e raiva de outros.
Escrito por Cássio Starling Carlos às 6h25 PM
Agüenta o Bush!

Por Bruno Yutaka Saito
Muita gente achou que fosse piada de 1º de abril. Mas Oliver Stone está, sim, fazendo “W”, filme sobre o “pior presidente norte-americano da história”, George W. Bush.
Até que Josh Brolin (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) ficou parecido com o presidente que é a cara do Newman (aquele cartum que é o símbolo da “Mad”), a julgar pela matéria que a revista “Entertainment Weekly” publicou recentemente. Mas atores parecidos com as personalidades retratadas não são suficientes para que um filme seja bom.
Stone, sabemos, é um sujeito com pé no oportunismo, mas obcecado pelos EUA. Ainda que com resultados desiguais, sua obra usa bem uma das mais fascinantes possibilidades do cinema, que é o registro de momento histórico.
Foi assim com “JFK” (91), “Nixon” (95), entre outros. Mas, com “W”, Stone parece ter atingido o nível máximo de provocação, já que seu foco agora é não apenas um presidente vivo, mas que ainda estará no poder quando o filme provavelmente estrear. E, não bastasse, sua produção poderá ter certo peso político nas eleições.
Entre os emocionantes momentos do filme estará aquele em que Bush quase morre ao engasgar com um pretzel enquanto assistia a um jogo de beisebol pela TV. Ele foi encontrado quase morto. Stone promete, assim, que será um “verdadeiro e justo retrato do homem”.
Diz Stone à revista: “Bush pode entrar para a história como o pior presidente de todos os tempos. Acho que a história vai ser muito dura para ele. Mas isso não significa que ele não rende uma boa história. É como os filme de Capra, a história de um homem que tinha talentos muito limitados na vida, exceto a habilidade para se vender. Há o fato de que ele teve que superar a sombra do seu pai e o peso do nome da família -você tem que admirar sua persistência (...) Se Fitzgerald estivesse vivo, ele estaria escrevendo sobre Bush. Ele é uma espécie de Gatsby ao contrário”.
No elenco, Elizabeth Banks fará Laura, mas o diretor ainda procura um ator para fazer Dick Cheney. O diretor nega, por exemplo, que Robert Duvall tenha recusado o papel. E tampouco confirma os rumores de que Paul Giamatti o aceite.
A coisa está difícil. “Você ficaria impressionado com a quantidade de atores homens de certa idade em Hollywood que são republicanos”, disse Bill Block, CEO da QED, uma das empresas produtoras do filme. Mesmo os atores democratas querem distância. “Eles odeiam tanto Bush que não entendem por que fazer um filme sobre ele”.
Pensando nisso, lembrei do polêmico texto do dramaturgo/escritor/cineasta norte-americano David Mamet (cujo “Cinturão Vermelho”, com Rodrigo Santoro, estréia dia 20 de junho) publicado no “Village Voice” e reproduzido no Mais!, em que ele explica sua guinada à direita.
Um trecho:
“Constatei não apenas que não confio no governo atual (isso não foi surpresa para mim), mas que uma revisão imparcial revelava que as falhas deste presidente [George W. Bush] -a quem eu, bom esquerdista, via como monstro- diferiam em pouco daquelas de um presidente a quem eu reverenciava.
[George W.] Bush nos mergulhou no Iraque; JFK, no Vietnã. Bush roubou a eleição na Flórida; Kennedy roubou a dele em Chicago. Bush divulgou a identidade de uma agente da CIA; Kennedy deixou centenas deles morrerem na praia da baía dos Porcos [em Cuba]. Bush mentiu sobre seu serviço militar; Kennedy aceitou um Prêmio Pulitzer por um livro escrito por Ted Sorensen. Bush dividiu uma cama com os sauditas; Kennedy, com a máfia. Oh! “
E, então? Trata-se de momento de reavaliar o “legado” de Bush?
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h01 PM
Nove jurados e uma sentença
Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)
A presença de dois longas brasileiros na mostra competitiva –“Blindness – Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, e “Linha de Passe”, de Daniela Thomas e Walter Salles– deve atrair mais atenção do que em anos anteriores à cobertura do Festival de Cannes, que começa amanhã (quarta-feira, dia 14). Eventual vitória ou premiação nobre (direção ou grande prêmio do júri) de um deles voltaria a direcionar o foco da mídia internacional de entretenimento para o cinema brasileiro, cerca de três meses depois da vitória de “Tropa de Elite” no Festival de Berlim.
A divulgação dos premiados ocorrerá apenas na cerimônia de encerramento, no dia 25 (domingo), às 19h30 em Cannes. Como “Blindness” passa logo na abertura (e “Linha de Passe” já no sábado, dia 17, em companhia do novo longa do chinês Jia Zhang-ke, cineasta que Walter Salles admira), as especulações devem começar cedo.
Coberturas de festivais tendem a usar como termômetro a reação da imprensa internacional. Se as avaliações dos jornalistas a um filme são majoritariamente positivas, ele se torna “favorito”. E, se esse filme não recebe prêmios na cerimônia de encerramento, foi uma “surpresa”. Surpresa para quem, cara-pálida?
Quem atribui prêmios oficiais em festivais é o júri, formado por profissionais de cinema. O presidente exerce sobre os colegas ascendência natural; é, portanto, figura-chave. Durante o evento, eles são proibidos de falar à imprensa sobre os filmes da competição. Saber efetivamente o que se passa em suas sessões e reuniões é tarefa das mais difíceis.
Associated Press

A partir da esq. (e Sean Penn ao centro): Alexandra Maria Lara, Sergio Castellitto, Natalie Portman, Alfonso Cuarón, Jeanne Balibar, Rachid Bouchareb, Marjane Satrapi e Apichatpong Weerasethakul
O júri da mostra competitiva de Cannes tem como presidente o ator, diretor e roteirista norte-americano Sean Penn. Na primeira formação, divulgada em abril, seus colegas eram a atriz alemã Alexandra Maria Lara, a atriz israelense-norte-americana Natalie Portman, o diretor francês Rachid Bouchareb, o ator, diretor e roteirista italiano Sergio Castellitto, o diretor mexicano Alfonso Cuarón e o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul. Em cima da hora, entraram também a atriz francesa Jeanne Balibar e a escritora e diretora iraniana Marjane Satrapi.
Alexandre Baxter/Divulgação

O longa brasileiro “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergaele, será exibido no dia 21, quarta-feira, na mostra Um Certo Olhar, que tem júri específico para atribuição de prêmios. O presidente é o cineasta alemão Fatih Akin, acompanhado pela jornalista indiana Anupama Chopra, pela jornalista russa Catherine Mtsitouridze, pelo crítico egípcio Yasser Moheb e pelo espanhol José Maria Prado, diretor da cinemateca de seu país.
Como Nachtergaele é diretor estreante, seu filme concorre também ao prêmio Câmera de Ouro, tarefa de um júri presidido pelo diretor francês Bruno Dumont. A organização do festival não informou quais serão os demais integrantes.
Outro brasileiro que pode sair de Cannes premiado é André Lavaquial, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Seu curta-metragem “O Som e o Resto” será exibido na mostra Cinéfondation, que reúne filmes realizados por estudantes de audiovisual. A premiação cabe a outro júri, presidido pelo diretor chinês Hou Hsiao Hsien. Ele e seus colegas –a diretora dinamarquesa Susanne Bier, a atriz francesa Marina Hands, o diretor francês Olivier Assayas e o norte-americano Larry Kardish, curador de cinema do Museu de Arte Moderna de Nova York– têm ainda a responsabilidade de distribuir os prêmios da mostra competitiva de curtas-metragens.
Os prêmios da crítica serão atribuídos pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), que também forma um júri, convidando alguns de seus associados (pelo estatuto, de três a nove) a acompanhar seleções específicas (ninguém consegue assistir a todos os longas em condições de serem premiados) e a fazer reuniões diárias para eventualmente indicar filmes que os demais colegas não tenham visto.
As escolhas da Fipresci em Cannes abrangem a mostra competitiva e as seleções Um Certo Olhar, Quinzena dos Realizadores (na qual será exibido o curta brasileiro “Muro”, de Tião) e Semana da Crítica (com a participação de outros dois curtas brasileiros: “Areia”, de Caetano Gotardo, e “A Espera”, de Fernanda Teixeira).
Recordar é viver: o júri que atribuiu a Palma de Ouro a “O Pagador de Promessas”, em 1962, tinha o escritor japonês Tetsuro Furukaki como presidente (um dos dois asiáticos a exercer a função em toda a história de Cannes; o outro foi o diretor chinês Wong Kar-wai em 2006) e era formado pela atriz francesa Sophie Desmarets, pelos escritores franceses Jean Dutourd e Romain Gary, pelo ator norte-americano Mel Ferrer, pelo diretor polonês Jerzy Kawalerowicz, pelo produtor alemão Ernst Krüger, pelo diretor soviético Youri Raisman, pelo diretor italiano Mario Soldati e pelo diretor francês François Truffaut– que deu com a língua nos dentes e contou como “Pagador” se impôs como escolha de conciliação entre eles.
Escrito por Sérgio Rizzo às 12h29 PM

Por Leonardo Cruz (em Paris)
“Caro Federico. Eu absolutamente preciso de sua presença calorosa em Cannes
para meu primeiro festival. Te peço urgentemente que esteja comigo no domingo.
Te proponho encontrar hotel nas imediações de Cannes para preservar anonimato e
tranquilidade. Conto com essas horas de tua afeição. De coração. Maurice
Bessy.”
O ano é 1972, e, como a imagem acima deixa claro, o tal Federico é Fellini,
destinário do telegrama desesperado do então delegado-geral do Festival de Cannes, que queria
ver o cineasta no balneário francês para a apresentação de seu novo longa,
“Roma”, exibido fora de competição.
Esse telegrama é um dos preciosos documentos que o site da Biblioteca do
Filme (braço da Cinemateca Francesa) colocou no ar para contar os bastidores do
principal festival de cinema do mundo. O endereço “Cannes, Memória do Festival”
reúne reproduções de cartazes da mostra e de seus filmes premiados. A visita à
página é bom preâmbulo para entrar no espírito do evento, que será aberto nesta
quarta por “Blindness”, de Fernando Meirelles.
Quem passar por lá e clicar na chave “O festival ao longo dos anos” poderá
conferir registros históricos saborosos como:
- A carta do governo francês de 1939, que afirma que a França não
participaria do Festival de Veneza (tomado pelos ideais fascistas) para criar
sua própria mostra cinematográfica, que aconteceria em local a definir:
Biarritz, Nice ou Cannes. Com a Segunda Guerra, a edição inaugural de Cannes só
aconteceu em 46.
- Um manuscrito com a contagem dos votos do júri do primeiro festival, época
em que os filmes eram premiados por país de origem. “Roma, Cidade Aberta” venceu
pela Itália, e “Farrapo Humano”, pelos EUA.
- A nota à imprensa do festival em 1968, anunciando a interrupção da mostra,
por causa da erupção social e política daquele maio na França.
- Um bilhete de agradecimento escrito em 1973 por François Truffaut a Robert
Favre Le Bret, presidente do festival, na noite da bem-sucedida exibição de “A
Noite Americana” em Cannes.
Tem ainda fotos de personalidades na Croisette e convites para eventos do
festival, como este, do jantar de abertura da edição de 1954:

Em tempo: apesar do lacrimoso apelo do delegado-geral Maurice Bessy, Federico
Fellini não tirou os pés de Roma em maio de 1972.
*
Cannes na “Cahiers du Cinéma”
A edição deste mês da revista
traz, obviamente, um especial de Cannes. Sua equipe já viu alguns dos longas do
festival e bate bumbo para o novo filme de Arnaud Desplechin, “Un Conte de
Noël”, definido pelo diretor de Redação Jean-Michel Frodon como “um
impressionante filme-mundo, microcosmo à escala de uma casa que parece reunir
todo o universo humano”.
*
O Brasil aporta em Paris
Divulgação
O cine L’Arlequin, na última
quarta, na abertura do Festival de Cinema Brasileiro de
Paris
Começou na última quarta e vai até o próximo dia 27 o décimo Festival do Cinema
Brasileiro de Paris. O evento deste ano acontece em três cinemas da cidade,
dividido em três partes. Na primeira semana, a mostra competiva apresenta ao
público francês ficções nacionais recentes, como “Mutum”, “A Via Láctea”,
“Saneamento Básico”, “Deserto Feliz” e “Não por Acaso”. O filme de Felipe
Barcinski abriu oficialmente o festival, numa sessão cheia no tradicional cine
L’Arlequin, regada a coxinha, pão de queijo e guaraná.
O festival terá ainda, em sua segunda semana, um ciclo em homenagem a Roberto
Farias, uma retrospectiva de Silvio Tendler e um debate sobre o percurso dos
cinemas francês e brasileiro a partir do Maio de 1968. O programa será
completado com uma semana dedicada ao documentário nacional recente, com
destaque para “Jogo de Cena”, “Operação Condor” e “Hércules 56”.
O festival cresceu em relação a anos anteriores e funciona como um bom resumo
da produção brasileira atual. Ao trazer vários diretores para apresentar seus
filmes, serve também de um espaço importante para difusão da cultura do país na
França.
A lamentar a ausência de “Tropa de Elite” e “Serras da Desordem”, dois
títulos tão opostos quanto importantes, e também a vinheta de abertura do
festival, animação que apresenta mulatas dançando penduradas na torre Eiffel,
estereótipo do Brasil que, felizmente, não se repete nos filmes programados.
Escrito por Leonardo Cruz às 11h59 AM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo (em férias). O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe da Ilustrada, em especial das repórteres Silvana Arantes e Lúcia Valentim Rodrigues.
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