Ilustrada no Cinema

 

 

"Nárnia" é o novo blockbuster da temporada

"Nárnia" é o novo blockbuster da temporada

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a estréia de “As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian”, segundo episódio da bem-sucedida série baseada em livros de C.S. Lewis. No Brasil, o filme é a quarta superprodução em cartaz na temporada, ao lado dos bem-sucedidos “Homem de Ferro” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” e de “Speed Racer”, cujos resultados na bilheteria não andam tão bem. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.


Escrito por Sérgio Rizzo às 8h25 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Na dança dos sentimentos

Na dança dos sentimentos

Por Cássio Starling Carlos

O sobrenome Minnelli, na industria do entretenimento, é sinônimo de espetáculo, música e dança. Com a filha Liza, estrela de “Cabaret”, e com o pai, Vincente, diretor de musicais clássicos como “O Pirata”, “Sinfonia de Paris”, “A Roda da Fortuna” e “Gigi”, cantar e dançar foram elevados no cinema a dimensões expressivas incomparáveis.

Mas é o lado da dor, da exacerbação dos sentimentos que eu gostaria de chamar a atenção, aproveitando o lançamento em DVD de uma obra-prima de Vincente Minnelli que pode passar despercebida. Em meio a dois filmes fáceis de esquecer, a caixa “Frank Sinatra Anos Dourados” (Warner) esconde uma jóia do melodrama, gênero que o diretor praticou de modo revezado às fulgurâncias de seus musicais.

Desde o título extremado que recebeu no Brasil, “Deus Sabe Quanto Amei”, realizado por Minnelli em 1958, já anuncia os excessos que o diretor conduziu, de um gênero a outro de sua especialidade, ao cume. Ao lado de Douglas Sirk, que no ano seguinte realizaria o esplendoroso “Imitação da Vida”, o cineasta explorou os meandros da alma americana em espetáculos sentimentais que transbordam de cor.

Em sua autobiografia, “I Remember It Well”, o diretor revela ter concebido a variedade cromática do filme ao observar a profusão de cores numa jukebok. E expandiu o conceito para a distribuição cênica, com um bairro cheio de bares e de casas de jogos, restaurantes de aparência vulgar e anúncios em néon: tudo deveria se assemelhar ao interior de uma jukebox.

Além do uso expressivo das cores, nos contrastes entre os vermelhos do figurino de Shirley MacLaine e os tons pastéis dos ambientes e vestes da professora French (Martha Hyer), é no confronto entre caracteres que Minnelli atualiza os combates trágicos mantidos vivos sob o melodrama.

Frank Sinatra faz o papel de Dave Hirsh, um típico perdedor, que retorna a Parkman, pequena cidade natal, onde reencontra o irmão, Frank, que lhe é em tudo oposto (bem-sucedido, casado e conservador). Na sua cola vem a espevitada Ginnie (Shirley MacLaine), apaixonada e vulgar, entregue a sentimentalismos e cega à rejeição. Enquanto Ginnie persegue seu amado, é um bocado da estrutura moral da América dos anos 50 que Minneli expõe, em seus jogos de hipocrisia e necessidade de reconhecimento social, elementos centrais do melodrama hollywoodiano nos anos 50.

Mas é na apoteose final que Minnelli exibe seus dotes de gênio. Em meio a uma festa, aparece um antigo amante de Ginnie disposto a um acerto de contas. A perseguição que se dá é toda construída como uma cena coreografada dos musicais do diretor. Do deslocamento dos personagens aos cortes rápidos, do fundo em vermelho saturado aos movimentos dos brinquedos, Minneli alcança uma dimensão realista exacerbando os efeitos de irrealidade.

A versão em DVD restaura as nuances que a versão do filme que costuma ser exibida na TV havia apagado. E comprova que até nos sonhos sombrios, Minnelli enxergava a vida como espetáculo.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h52 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Sydney Pollack, o equilibrista

Sydney Pollack, o equilibrista

Martial Trezzini/Efe

Por Inácio Araujo

Naquele que foi seu último filme (“Esboços para Frank Gehry”), Sydney Pollack (morto na segunda-feira) refere conversas com o arquiteto Frank Gehry: a arte de ambos tem em comum o fato de se equilibrar entre os desejos do artista e as exigências dos clientes.

Gehry é um grande artista. Pollack foi mais do que tudo um simpático equilibrista. Soube ser popular em uma comédia como “Tootsie”, soube cultivar o prestígio em dramas como “Entre Dois Amores”, soube ser honestamente comercial, em “A Firma”, e criou um tipo extremamente simpático e caloroso em seus vários trabalhos como ator.

No entanto, é preciso convir, Pollack não cumpriu a maior parte das promessas de seu início de carreira, quando, com “This Property Is Condemned” (1966), se apresentou como um seguidor da tradição liberal e humanista do cinema americano, o que foi confirmado pelo faroeste “Scalphunters”, menos bom, mas ainda interessante, e pelo drama “A Noite dos Desesperados”, em que voltava à Depressão dos anos 1930 com, pelo menos, propriedade.

Se o início da carreira é marcado pelo plano soberbo plano final, os anos 70, em seus altos e baixos, acabam tendo como emblema as concessões de “Bobby Derfield”. E, como o plano final de “Esta Mulher É Proibida” nunca mais se repetiu, não é impossível credita-lo mais ao fotógrafo (James Wong Howe) do que ao próprio Pollack, cuja importância, com o tempo, vincula-se bem mais aos “grandes temas” que abordou do que propriamente às virtudes do “metteur-en-scène”.

Curiosamente, seu resgate, talvez o definitivo, chegou com um filme modestísssimo, em que Pollack era diretor, roteirista, câmera, entrevistador e mais tudo o que pudesse ser, com exceção de Frank Gehry: modesto na concepção, mas ambicioso intelectualmente, Pollack presta uma homenagem ao seu amigo arquiteto, ao mesmo tempo em que reflete sobre as grandezas e fraquezas de sua arte e, por que não, de sua própria trajetória.

Escrito por Inácio Araujo às 7h49 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Todos pela educação

Todos pela educação

Por Sérgio Rizzo

A Palma de Ouro a “Entre les Murs”, de Laurent Cantet (“A Agenda”, “Em Direção ao Sul”), coincidiu com um intenso debate público sobre educação na França e destaca o novo integrante da extensa tradição nacional de filmes sobre a vida escolar e suas implicações sociopolíticas, que inclui clássicos como “Zero de Comportamento” (1933), de Jean Vigo, e “Os Incompreendidos” (1959), de François Truffaut, e também produções mais recentes como “Quando Tudo Começa” (1999), de Bertrand Tavernier, e o documentário “Ser e Ter” (2002), de Nicolas Philibert.

“Entre les Murs” se inspira no livro homônimo de François Bégaudeau, que relata sua experiência como professor de francês em uma escola do 19º. distrito de Paris. No filme, o próprio Bégaudeau –que nunca havia trabalhado em cinema– interpreta o papel do professor François.

No último sábado (24), um dia antes da premiação, manifestações em diversas cidades reuniram professores, pais e alunos. Foi o quarto protesto em um período de dez dias, contra a redução de 11,2 mil empregos em escolas de ensino básico (a intenção do governo Sarkozy de diminuir postos em diversas áreas gerou uma greve de funcionários públicos), um projeto de lei que, segundo os professores, restringe o direito de greve na educação ao exigir a manutenção de “serviço mínimo” como no transporte público, e os novos rumos da política educacional.

“Todos pela educação”, o título deste post, é também o nome de um movimento brasileiro lançado em 7 de setembro de 2006, mas que ainda não emplacou (cada internauta que não souber do que se trata é uma demonstração de que essa campanha de mobilização da sociedade para o incremento da qualidade do ensino básico não caminhou como se esperava). Nada que diga respeito à melhoria sistêmica da educação no Brasil parece emplacar; as iniciativas pontuais constituem exceções à regra.

Não será por acaso que pouquíssimos filmes brasileiros se detiveram sobre a escola, seus profissionais e todo o rico universo de trocas, transformações e contradições que se desenrola ali. Exemplos raros são “Anjos do Arrabalde” (1987), de Carlos Reichenbach, e “Pro Dia Nascer Feliz” (2006), de João Jardim.

A distribuidora Imovision anunciou que lançará “Entre les Murs” no Brasil, mas não divulgou a data. Ela distribuirá também “Le Silence de Lorna”, dos irmãos Dardenne, que recebeu em Cannes o prêmio de roteiro, e “Un Conte de Noël”, de Arnaud Desplechin, que valeu para Catherine Deneuve o Prêmio do 61º Festival (dividido com Clint Eastwood por “The Exchange”).

Escrito por Sérgio Rizzo às 5h03 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Para lembrar de Cannes 2008

Para lembrar de Cannes 2008

 

Por Silvana Arantes

Foram 12 dias, 22 filmes na disputa pela Palma de Ouro (outros tantos nas seções paralelas) e um prêmio de melhor atriz à brasileira Sandra Corveloni, por sua interpretação da empregada doméstica e mãe-coragem Cleuza em “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas.
A 61ª edição do Festival de Cannes tem muito a se lembrar, como por exemplo:

AS FRASES

“Sandra Corveloni for ‘Linha de Passe’, Sean Penn anunciando o prêmio de melhor atriz

“Se o que você tem a dizer não é mais importante do que o silêncio, não diga”, do filme “Entre les Murs”, de Laurent Cantet, que disse o suficiente para vencer a Palma de Ouro por unanimidade

“Quando a gente tem algo para fazer, envelhece mais lentamente”, do filme “24 City”, de Jia Zhang-ke

“Quer jogar sozinho, joga paciência”, do treinador de futebol em “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas

“Estamos orgulhosos e sentindo muita responsabilidade por representar aqui uma parte do cinema brasileiro que não é muito conhecida e arrisca falar desse enorme, maravilhoso e terrível que é o nosso”, de Matheus Nachtergaele, ao apresentar “A Festa da Menina Morta” na mostra “Um Certo Olhar”

Eric Gaillard/Reuters


Roman Polanski e Matteo Garrone

“Há uma tradição de fazer introduções ao anúncio dos vencedores, mas eu já estive na pele de quem espera o resultado. Por pura misericórdia, vou evitar isso. Senhor presidente, o prêmio vai para?”, Roman Polanski, que apresentou o Grande Prêmio do Júri

“Filmar é uma espécie de pesadelo”, do ganhador do prêmio de melhor direção, o turco Nuri Bilge Ceylan

AS CENAS

- Laurent Cantet, o ganhador da Palma de Ouro, e Sean Penn, o presidente do júri, igualmente emocionados diante dos aplausos ao vencedor

François Guillot/France Presse

- Diante do microfone e com o troféu da atriz Sandra Corveloni nas mãos, Walter Salles e Daniela Thomas se olham por alguns segundos antes de fazer o agradecimento. Não se ouve nada além da respiração dos dois, acelerada pela emoção. “É de tirar o chão. Não sei de onde vieram as palavras”, disse Daniela, após a cerimônia.

Anne-Christine Poujoulat/France Presse

- A platéia do Grande Teatro Lumière se põe de pé e aplaude pela primeira vez um cineasta no festival. É Fernando Meirelles, que chega para a sessão inaugural, com seu “Ensaio sobre a Cegueira”

 - Rodrigo Santoro, em tom sereno e cortês, responde o jornalista chileno que disse que Brasil e México fazem “cinema para exportação”: “Me parece complicado generalizar. Há muitos filmes feitos no Brasil que não são feitos com a intenção de exportar. Gostaria de te sugerir um filme que está aqui em Cannes, ‘A Festa da Menina Morta’. Não foi feito para ser exportado. Mas graças a Deus foi exportado! Está aqui e será visto por muita gente”.

Jean-Paul Pelissier/Reuters

- Manoel de Oliveira, 99, aplaudido de pé pela Palma de Ouro especial em reconhecimento à sua incessante contribuição ao cinema, ao qual ele lança um “Viva!”

- Em “Tyson”, Mike Tyson trava sua mais dura batalha _contra as lágrimas_ ao falar da relação com Cus D’Amato, o homem que descobriu seu talento para o boxe e fortaleceu sua auto-estima

 AS CURIOSIDADES

- Numa sacola com o adesivo “CHE”, a Warner francesa distribuiu um sanduíche, uma garrafa de água e um chocolatinho, no intervalo da sessão para a imprensa do longa de Steven Soderbergh, que tem 4h28. Todo mundo achou ótimo, mas os mais irônicos apelidaram a sacolinha de McLanche

- Feliz. Os convidados da sessão de gala também tiveram intervalo de meia hora entre os dois filmes, com direito a mini-banquete.

- Os irmãos cineastas Luc e Jean-Pierre Dardenne contaram que, toda vez que preparam um longa, antes de ensaiar com os atores, eles mesmos interpretam todos os personagens, nos cenários onde as cenas serão filmadas. “A Lorna [protagonista do longa dos Dardenne na competição] é ótima”, disse Jean-Pierre sobre Luc.

- 17 de maio de 1989 é a data de nascimento mostrada no RG do personagem de Vinicius de Oliveira em “Linha de Passe”. 17 de maio passado foi a data em que o filme estreou, em Cannes

DA SÉRIE “NUNCA!”

- “Nunca pergunto a mim uma coisa dessas. Quando estou preparando uma personagem, não a julgo. Apenas tento entendê-la. Para mim, é suficiente entendê-la”, de Penélope Cruz, desviando-se com categoria da pergunta-pegadinha sobre se, na vida como no filme de Woody Allen “Vicky, Cristina, Barcelona”, ela é adepta de um ménage-à-trois.

Fred Dufour/France Presse

-“Nunca me encontrei com Fidel. Não sei o que ele acharia [do filme “Che”]. Sei que ele gosta de ver filmes. Mas parece que ele tem o hábito de interromper a projeção para discutir todo aspecto do qual discorda. Isso seria inimaginável com esses dois filmes [que duram 4h28]”, de Steven Soderbergh, o diretor de “Che”, sobre o herói da revolução cubana Ernesto Che Guevara.

A BIRRA

- “Merci.” Essa foi a única palavra que o cineasta italiano Matteo Garrone disse, ao receber o Grande Prêmio (equivalente ao segundo lugar) por seu “Gomorra”.  Deu a impressão de que ele acreditou nos rumores que circulavam antes da cerimônia de que “Gomorra” levaria a Palma de Ouro. E não se contentou com nada menos do que o máximo...

Escrito por Silvana Arantes às 12h34 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Cannes 2008: balanço

Cannes 2008: balanço

Por Pedro Butcher, em Cannes

O Festival de Cannes que terminou nesse domingo, 25 de maio, trouxe uma vigorosa combinação do melhor do cinema de autor mundial já consagrado e algumas novidades apaixonantes. Aqui vão algumas notas breves sobre meus filmes favoritos dessa edição –que espero poder rever no Brasil, em breve.

TULPAN – O filme vencedor da mostra Um Certo Olhar, pequena obra-prima vinda do Casaquistão, é uma descoberta deliciosa. Trata-se do primeiro longa-metragem de Sergey Dvortsevoy, diretor que chamou atenção no Festival de Roterdã de 2004 com um documentário de 40 minutos chamado “In the Dark”. Com simplicidade desconcertante, Dvortsevoy conta a história de Asa, jovem que termina seu serviço militar (na marinha) e vai morar com família da irmã. Ela, o marido e os filhos levam uma vida nômade nas estepes do Cazaquistão, criando ovelhas. Asa procura uma noiva, mas uma das poucas jovens solteiras da vizinhança o rejeita por causa das orelhas de abano. Com um grupo de atores excepcional, “Tulpan” traz um trabalho de câmera capaz de captar momentos inusitados absolutamente mágicos. Uma bela resposta a Borat...

FOUR NIGHTS WITH ANA – A volta do cineasta polonês Jerzy Skolimowski depois de um hiato de quase 20 anos abriu a edição comemorativa dos 40 anos da Quinzena dos Realizadores com o pé direito. Produzido pelo português Paulo Branco, famoso por seus filmes de baixíssimo orçamento, o filme de Skolimovski acompanha um estranho e solitário personagem, morador de uma pequena cidade polonesa. A habilidade do cineasta, que manipula tempo e espaço de forma genial, faz com que nossa percepção do protagonista se transforme radicalmente ao longo do filme. Destaque para o trabalho assombroso do ator Artur Steranko.

MY MAGIC - O menor (1h15) e menos ambicioso filme da competição de Cannes, representando Cingapura, foi também o mais comovente. O filme combinação melodrama, realismo e fábula e alcança um resultado estranho mas absolutamente encantador. A imagem pode até parecer demasiadamente simples e precária – o que fez muita gente questionar sua presença na competição de Cannes –, mas uma observação um pouco mais atenta dos enquadramentos e do uso do som é suficiente para confirmar o imenso talento do diretor Eric Khoo.

TWO LOVERS –James Gray abandona o universo do crime e da violência que marcou seus três primeiros longas (“Little Odessa”, “Caminho sem Volta” e “Os Donos da Noite”) para fazer um filme de amor. Mas essa mudança de ares só fez confirmá-lo como um dos melhores diretores do cinema americano contemporâneo. Gray é um autor à moda antiga. Carpinteiro como Billy Wilder, domina a autoria do filme desde o roteiro (construção dos personagens, diálogos) à realização. Ao filmar a história de um homem (Joaquim Phoenix) dividido entre dois amores (Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw), dá um show especial nos enquadramentos, capazes de impregnar de mistério uma história marcada por uma linearidade cristalina.

THE EXCHANGE – O novo filme de Clint Eastwood é a narrativa clássica americana em plena forma –mas, até ai, novidade nenhuma. Seria melhor, talvez, ressaltar aquilo que o filme não é. Eastwood refuta a fórmula americana do triunfo da luta individual sobre as perversidades do “sistema” e ressalta, de forma surpreendente, a absoluta necessidade da cooperação coletiva e da solidariedade para que injustiças possam ser reparadas. Um filme cheio de reviravoltas e de uma estranha contemporaneidade.

ENTRE LES MURS – Vencedor da Palma de Ouro. Confinado no cenário de uma escola francesa parisiense, com mais de duas horas de diálogo, sem música, Laurent Cantet demonstra um domínio que havia apenas esboçado em seus filmes anteriores ( “Recursos Humanos”, “A Agenda” e em “Em Direção ao Sul”). Apesar de sua “relevância social”, tocando em temas como a educação e a tolerância, a linguagem é o personagem central desse filme ao mesmo tempo simples e apaixonante.

Escrito por Pedro Butcher às 12h28 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

O novo de Olivier Assayas

Por Sofia Pleym, em Cannes

São coisas que só acontecem em Cannes: enquanto a multidão se desdobra para assistir aos quase 60 filmes das mostras oficiais, os quase mil filmes restantes, trazidos ao festival por diretores e produtores, passam desapercebidos nas pequenas salas do Palácio do Festival e da própria cidade.

Foi o que ocorreu com o novo filme de Olivier Assayas, “L’Heure d’Été”, cuja exibição na última quarta-feira, no pequeno cinema Arcades, foi prestigiada por pouco mais de 20 pessoas.

O filme teve origem em projeto do Musée D’Orsay de 2006, no qual quatro cineastas (Olivier Assayas, Raoul Ruiz, Hou Hsiao-hsien e Jim Jarmusch) foram convidados a realizar curtas-metragens por ocasião da comemoração dos 20 anos do museu.

O projeto nunca foi concluído, mas as pesquisas dos diretores para desenvolvimento dos curtas serviram, no caso de Hsiao-hsien e Assayas, como impulso inicial para a realização de dois belos longas metragens sobre arte: “Le Voyage du Ballon Rouge” (A Viagem do Balão Vermelho) e “L’Heure d’Été”, respectivamente.

Em sua obra, Assayas situa o espectador no seio de uma família bastante acostumada com o meio artístico: a matriarca (vivida por Edith Scob), que completa 75 anos, passou a vida dedicando-se à gestão da obra de seu tio, grande pintor do século 20. Com a aproximação do final da vida, ela começa a preparar sua sucessão e a transferência desse legado aos filhos, interpretados por Charles Bering, Juliette Binoche e Jérémie Renier.

A partir desse enredo, são abordadas questões como a significação das obras de arte e a relação das pessoas com esses objetos _que, como declara um dos personagens, seriam reminiscências de algo muito maior e significativo (a experiência, a vida, as memórias).

Mas o diretor não pára aí. Como já de praxe em seus filmes, são acrescentadas diversas camadas sobre o argumento inicial e Assayas acaba por lidar com diversas variantes temáticas ao redor desse núcleo familiar. “L’Été” é um filme também sobre a dinâmica de uma família, numa leitura cuidadosa e imparcial do diretor, sem maniqueísmos e filiações a um ou outro ponto de vista, sem que isto signifique distanciamento mas sim um olhar carregado de cumplicidade por aqueles personagens.

Fala-se também sobre as dificuldades de lidar com a ausência daqueles que se vão e o papel que os objetos desempenham no sentido de resguardar e simbolizar algo que está sendo perdido.

O filme não deixa de ser uma espécie de retorno do diretor à França de sua origens, depois de filmes como “Clean” (2004) e “Boarding Gate” (2007), em que havia uma espécie de transferência da trama para a América, no primeiro caso, e para a Ásia no segundo.

Nesse caso, estamos em pleno seio da cultura francesa, inclusive no que se refere à arte, mas Assayas consegue trazer ao longa esses universos que lhe são tão caros por meio dos dois filhos mais novos, que vivem como expatriados nos referidos continentes.

Mais uma vez, Assayas mostra sua habilidade em transitar livremente por ambientes clássicos e outros de pura jovialidade. Com isso, ele consegue a proeza de posicionar o “fim” (da vida, dos objetos, das histórias) numa espécie de recomeço ou continuação, mostrando que existe alguma coisa que continua e que certas reminiscências podem (e devem) ser carregadas sem ajuda de objetos.

Escrito por Sofia Pleym às 6h47 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

“Baby One More Time”

“Baby One More Time”

Por Cássio Starling Carlos


Indiana Jones - “Mac, por que você me traiu com os comunistas?"

Com o dedo apontado para a platéia, o personagem Mac responde: “Porque eu sou capitalista. E eles pagam...”.

A cena, logo ao fim da primeira cena de ação de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, escancara a ironia que domina este quarto título da série milionária da dupla George Lucas/Steven Spielberg.

Concebida num encontro da dupla no Havaí em 1977, quando ambos ainda eram jovens, e Lucas, um ambicioso produtor apenas começava a dar o grande passo de sua carreira com a saga “Guerra nas Estrelas”, que viria a transformar o cinema de ação e inventar o conceito de “blockbuster”, a série alcança agora novos caminhos.

Na origem, a intenção de Lucas e Spielberg era realizar uma trilogia protagonizada pelo aventureiro arqueólogo, inspirando-se nos seriados de ação que animavam as matinês da geração de seus criadores quando crianças.

Quase 20 anos depois do último título, o retorno de Indiana guarda o mesmo sabor de aventuras e, neste sentido, fiel ao espírito original. Mas funciona também para dar sentido à lógica comercial explicitada na frase do personagem Mac: se nós, platéias, pagamos, algo precisa acontecer.

Neste intervalo de 20 anos, não foram só as produções de TV que ganharam terreno explorando a eficácia da serialidade. Numa época em que se ouve com muita freqüência a queixa nostálgica de que os jovens não lêem mais, a saga literária do bruxo Harry Potter restaurou, ao menos provisoriamente, o hábito de consumir histórias escritas, graças às habilidades de J.K. Rowling, que soube manter vivo o interesse dos fãs do personagem ao adotar recursos da narrativa seriada. O modo do folhetim de estruturar uma história em capítulos diários contamina até mesmo no interesse público pelas tragédias, como se pôde verificar recentemente no caso Isabella.

Neste sentido, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” funciona como um ritual de passagem e, para isso, incorpora do modelo seriado a recorrência de algumas figuras. A mais evidente é o retorno da personagem Marion Ravenwood, interpretada por Karen Allen (foto). Outras, menos explícitas, referem-se a figuras que a série constituiu ao longo da trilogia original e até mesmo a temas e imagens da filmografia de Spielberg.

Enquanto em “Caçadores da Arca Perdida” a paródia consistia em citações cinéfilas a filmes do passado, nos episódios seguintes os índices buscaram reiterar e fortalecer a mitologia da própria série: o chapéu de Indiana, seu medo de cobras e outros signos que garantiam às platéias o conforto de reconhecer e identificar um velho amigo.

Depois de consolidado, o recurso agora se repete desde a imagem de abertura do filme. Desta vez, o logo da Paramount vira um montinho de terra no deserto, do qual emerge uma toupeira, transformando-o na imagem da montanha de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.

O segundo elemento de fixação e entrada em cena do protagonista se dá à distância, com a câmera alta, para em seguida mostrar em close (foto) o chapéu de Indiana, signo de sua aparição antes mesmo de sua presença física aparecer na tela.

E, por fim, a apoteose desta aventura num templo maia, em que Spielberg revisita um dos maiores ícones de sua filmografia: os extraterrestres de “Contatos Imediatos” e de “E.T.”.

São todos procedimentos não de auto-citação, mas de transmissão de estabilidade, que se complementam, do lado da platéia, pelo prazer do reconhecimento, fator que se transmuta em fidelização de público e em boas expectativas de ótimo desempenho nas bilheterias.

Mas para que o efeito de serialidade se torne plenamente eficaz é necessária a conjugação de repetições e renovações. O segundo termo é satisfeito agora com a entrada em cena do personagem de Mutt Williams, que emerge da fumaça de um trem sobre uma moto reproduzindo uma cena de Marlon Brando em “O Selvagem”, filme de 1954, dirigido por Laslo Benedek.

A intenção explícita aqui é fazer a ponte entre passado e futuro por intermédio do ícone de juventude que Brando representou naquele momento, além de sintonizada narrativamente com a época em que o filme se passa. Mutt Willians é um contraponto ao personagem de Sean Connery em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, no qual o primeiro ator que encarnou James Bond fazia o papel do pai de arqueólogo e deixava claro, de uma vez por todas, a filiação entre o aventureiro e o espião.

Só que desta vez é para o futuro e não para o passado que a saga se desloca. A cada ano que passa e Harrison Ford envelhece torna-se mais improvável que ele volte a protagonizar muitas outras aventuras da série. Na última cena de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, tal problema parece resolvido quando o chapéu de Indiana voa e bate em Mutt Williams.

Assim, garante-se que o velho tipo encarne numa nova face, Shia LaBeouf, ator nascido em 1986 e que tem hoje, portanto, idade suficiente para espelhar a identidade de milhões de jovens espectadores loucos para pagar.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h02 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

O medo de Meirelles diante de Saramago

O medo de Meirelles diante de Saramago

Fernando Meirelles, além de cineasta badalado, é, quem diria, um bom jornalista.

Em artigo publicado na Ilustrada de hoje, ele descreve como foi a sensação de ter assistido a "Ensaio sobre a Cegueira" ao lado do autor do livro, José Saramago, em Lisboa. O que ele sentiu? Pânico? Medo? Uma mistura de tudo isso? Graças ao YouTube temos aqui o registro de como foi a cena. E, depois, leia o artigo para ver como o relato de Meirelles é fiel. Ou, então, faça o contrário. Seja vendo o vídeo seja lendo o texto, acompanhamos o desespero de Meirelles naquele momento crucial em que os créditos começam a subir e que Saramago fica calado, pensativo.

 

Por Fernando Meirelles

Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme “Ensaio sobre a Cegueira” para o autor da história, José Saramago.

Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso _e não estava errado.

Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.

Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma.

Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.

Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: “Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever ‘O Ensaio sobre a Cegueira’”.

Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua.
Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa. Na conversa e no jantar que se seguiram, ele disse que não considera o filme um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente.

Disse ter gostado da experiência de ver algo que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não conhecia. Falou que o filme não era perfeito, mas que nunca havia assistido a um filme perfeito. Comentou algumas imagens que o emocionaram especialmente e disse ter achado o nosso Cão das Lágrimas muito doce; preferia que fosse mais agressivo.

Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha, ele imediatamente lembrou e recontou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança.

Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto um velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com o grupo e reclama da situação: “Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado?”. Então, os dois montam no burro, mas alguém acha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno.

Finalmente, resolvem ambos carregar o burro nas costas, até que outro passante observa como são estúpidos por carregar o animal. E, enfim, o velho decide voltar para a primeira situação e parar de dar importância ao que dizem.

“É isso que faço sempre”, concluiu o escritor.

Acabo de deixar José Saramago e sua mulher no Ministério da Cultura de Portugal, onde está sendo exibida uma retrospectiva de seu trabalho e sua vida.

Houve uma pequena coletiva de imprensa ali, depois de visitarmos juntos a exposição. Meu filminho de menos de duas horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h16 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Argentino em Cannes

Argentino em Cannes

Por Sofia Pleym, em Cannes

Créditos de abertura em letras vermelhas garrafais sobre fundo preto, ao som de rock pesado. Na seqüência, trabalhadores em salas de maquinário cercados por equipamentos e barulho de motores. O início de “Liverpool”, novo filme do argentino Lisandro Alonso, atração do Festival de Cannes, remete o espectador a um universo urbano e industrial, diametralmente oposto à experiência vivida em seu longa anterior, “Los Muertos” (2004), rodado em plena floresta tropical.

No entanto, bastam alguns minutos para que ela, a natureza, invada também esta história: os personagens se revelam estar num grande navio cargueiro, rodeados por apenas céu e água. O protagonista logo deixará o barco, mas o seguiremos em sua jornada por paisagem igualmente imponente -a imensidão glacial do extremo sul da Argentina.

Mais uma vez, Alonso acompanha a busca de um personagem masculino, solitário e silencioso: se Vargas (Argentino Vargas), protagonista de “Los Muertos”, buscava a filha, Farrel (Juan Fernandez), de “Liverpool”, deixa o navio em que trabalha para encontrar a mãe em sua terra natal.

Farrel logo conquista o espectador, que passa a seguir esse ser solitário e errante, silencioso e (talvez por isso) um tanto misterioso, por seu caminho tortuoso pela inóspita região. A câmera parada de Alonso, com enquadramentos que isolam os personagens em paisagens tomadas pelo branco da neve, contribuem para a empatia do espectador, que testemunha o isolamento e o vício daquele solitário, resignado e sem esperança. O diretor consegue a proeza de explorar a natureza em sua magnitude e os personagens em sua humanidade.

É curioso que Alonso venha pela quarta vez a Cannes (os anteriores foram “La Libertad”, na seleção Un Certain Regard 2001; “Los Muertos”, na Quinzena 2004, e “Fantasma” na Quinzena 2006) com filmes sobre personagens afastados da civilização sem, contudo, sustentar a bandeira de retorno às origens como “solução”. O diretor parece guiado por sua curiosidade por aqueles personagens que, muito mais do que moldados e entregues ao ator para execução, são misteriosos, deixando espaço para suposição e imaginação -inclusive para o próprio Alonso, que confessou ter dúvidas sobre Farrel e sua trajetória.

“Liverpool” confirma que o diretor argentino é, antes de tudo, um observador e um ouvinte. Não surpreende que, na apresentação de seu filme em Cannes, ele tenha se limitado a agradecer a equipe técnica, convidando todos os presentes a se reunirem num bar vizinho após a projeção.

Escrito por Sofia Pleym às 11h54 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

América Latina amplia espaço em Cannes

América Latina amplia espaço em Cannes

Por Sérgio Rizzo

“Buena onda” foi mais um carimbo criado pela imprensa para designar a ascendente produção latino-americana dos anos 2000 do que uma tendência ou movimento capaz de reunir cineastas de Argentina, Brasil e México em torno de idéias ou princípios de ação, segundo a argentina Lucrecia Martel em entrevista à Folha, em fevereiro de 2007.

Apesar disso, não há como ignorar as “buenas notícias” enviadas pela mostra competitiva do Festival de Cannes deste ano. Entre os 22 longas que disputam a Palma de Ouro, quatro têm bandeiras de países latino-americanos: “Blindness – Ensaio sobre a Cegueira” (inscrito por Brasil/Canadá/Japão), de Fernando Meirelles; “Linha de Passe” (Brasil), de Daniela Thomas e Walter Salles; “A Mulher sem Cabeça” (Argentina/Espanha/França; foto), de Martel; e “Leonera” (Argentina/Coréia do Sul/Brasil), de Pablo Trapero.

Para o bem ou para o mal, a presença latino-americana na competição oficial passa também por “Che” (EUA/França/Espanha), de Steven Soderbergh, com Benicio Del Toro no papel de Ernesto Guevara.

Em 2007, havia apenas um latino-americano entre os 22 longas da mostra competitiva: “Luz Silenciosa” (México/França/Holanda), de Carlos Reygadas, com estréia programada para a próxima quinta-feira (dia 22) no Brasil. Nenhum outro filme tratava de personagem, fato ou espaço da região.

O salto abrupto de um ano para outro tem a ver, entre outros aspectos, com algo circunstancial: cineastas latino-americanos com elevado prestígio entre os organizadores do festival tinham longas inéditos prontos para exibição (Meirelles fez sucesso com a exibição fora-de-concurso de “Cidade de Deus” em 2002, Salles é muito admirado na França e Martel, reconhecida como um talento de primeira grandeza; os dois últimos já integraram o júri – Salles em 2002, sob a presidência de David Lynch, e Martel em 2006, sob a presidência de Wong Kar-wai).

A crescente participação de produtores e distribuidores latino-americanos no Mercado do Filme de Cannes, criado em 1959 e responsável por boa parte do combustível financeiro do festival, também funciona como avalista da presença significativa na competição oficial deste ano.

A América Latina foi quem mais ampliou seu espaço no mercado em 2007, com 28% de crescimento no número de participantes em relação a 2006 (contra um aumento geral de apenas 4%). O Chile teve o salto mais notável, com 14 profissionais em 2006 e 33 em 2007.

No total, foram exibidos 889 filmes (em 1.565 sessões) e oferecidos (mas não necessariamente comercializados) 5.157 filmes, com 10.491 profissionais (de 92 países) credenciados exclusivamente para o mercado. A maior delegação foi a dos EUA, com 1.972 profissionais; em segundo lugar veio o Reino Unido, com 1.374. Os dados de 2008 serão divulgados ao final do evento. Espera-se um pequeno aumento em relação a 2007.

Anunciado como “o maior encontro de profissionais de cinema do mundo”, o mercado de Cannes começou no dia 14, junto com a abertura do festival, e será encerrado na próxima sexta (dia 23). A cerimônia de premiação ocorrerá no domingo, mas é muito razoável supor que, com quatro latino-americanos na competição, outro no júri (Alfonso Cuarón) e presença crescente no mercado, alguém que fala português ou espanhol sairá de Cannes com ao menos um prêmio importante.

Escrito por Sérgio Rizzo às 7h22 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Sobre tetas e telas

Sobre tetas e telas

Por Cássio Starling Carlos

Na semana passada, depois que postei um texto elogiando o livro de ensaios em torno de “Serras da Desordem”, um leitor reagiu com um comentário agressivo, acusando-me de “demagogia jurássica de intelectual brasileiro que se presume acima das pipocas mortais” e completou generalizando que “o cinema brasileiro não se paga e vive de teta estatal”.

O ataque me fez lembrar na hora da personagem de Dona Martírio, que acha que “cinema é coisa de vagabundo”. Martírio é a mãe do aspirante a cineasta Zé Rocha, protagonista de “Samba-Canção”, “filme invisível” que tem duas sessões programadas, hoje e domingo, no ciclo “O Assunto É Cinema Volume 2”, em cartaz na Cinemateca.

O longa de estréia de Rafael Conde, realizado em 2002 e nunca exibido comercialmente em São Paulo, joga esses temas num só balaio e sacode com força.

Em vez de choramingar as condições de ser cineasta no Brasil, Conde adota a paródia como forma mais eficaz de riso e crítica. Seu filme conta a história de Zé Rocha, cineasta aspirante de talento duvidoso que tenta com Edna Marla, sua produtora, obter apoio financeiro junto a vários empresários. Como o dinheiro é sempre pouco, a produtora sugere os inevitáveis ajustes, cortando as asas de Zé Rocha, que quer filmar em 35 mm, cor e cinemascope. Para reduzir custos ela sugere que o filme seja feito em preto-e-branco, depois 16 mm, que a certa altura cai para super-8 até bater, no fim, no chão do vídeo. A cada sugestão de Edna é o próprio “Samba-Canção” que se ajusta à bitola, provocando um curto-circuito entre os dois níveis da ficção.

Mas não é este tipo de “intelectualismo” que interessa. O que chama a atenção é o fato de “Samba-Canção” ser um filme de estrutura simples, popular, quase uma comédia maluca, porém nunca pôde testar convenientemente seu potencial de mercado porque não chegou ao circuito comercial.

Como se pode deduzir que o público não quer ver filme brasileiro se os filmes não chegam a ser exibidos? E se, quando chegam, ficam restritos ao circuitinho “de arte”?

Feito com um orçamento irrisório (para os padrões de um longa) de R$ 400 mil, “Samba-Canção” foi produzido sem recurso às “tetas do governo”. Com exceção das duas semanas que ficou em cartaz em Belo Horizonte em 2002, só é conhecido por freqüentadores do circuito alternativo, culturalmente interessante mas comercialmente restrito. Agora, o diretor considera disponibilizá-lo em DVD e também oferecer uma versão para download.

Sem grandes ambições comerciais, mas sempre fiel à necessidade de garantir que a obra circule entre um público mais amplo o cineasta já reuniu no DVD “Seis Curtas” parte de sua filmografia iniciada há duas décadas.

E espera uma melhor sorte para “Fronteira”, baseado no romance homônimo de Cornélio Penna, segundo longa recém-concluído e feito com recursos dos programas Filme em Minas e B.O. do MinC, ambos governamentais.

Nele, o realizador mineiro volta a exercitar um dos pontos fortes de sua obra, na habilidade de transmutar o universo literário em fílmico testada com sucesso na trilogia de curtas baseados em contos de Luiz Vilela (“Françoise”, “Rua da Amargura” e “A Chuva nos Telhados Antigos”).
Pelo menos se sabe que “Fronteira” será visível, pois sua distribuição está garantida pela Usina Digital, a mesma que tirou “Serras da Desordem” do limbo alternativo, para satisfação de uns e raiva de outros.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 6h25 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Agüenta o Bush!

Agüenta o Bush!

Por Bruno Yutaka Saito

Muita gente achou que fosse piada de 1º de abril. Mas Oliver Stone está, sim, fazendo “W”, filme sobre o “pior presidente norte-americano da história”, George W. Bush.

Até que Josh Brolin (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) ficou parecido com o presidente que é a cara do Newman (aquele cartum que é o símbolo da “Mad”), a julgar pela matéria que a revista “Entertainment Weekly” publicou recentemente. Mas atores parecidos com as personalidades retratadas não são suficientes para que um filme seja bom.

Stone, sabemos, é um sujeito com pé no oportunismo, mas obcecado pelos EUA. Ainda que com resultados desiguais, sua obra usa bem uma das mais fascinantes possibilidades do cinema, que é o registro de momento histórico.

Foi assim com “JFK” (91), “Nixon” (95), entre outros. Mas, com “W”, Stone parece ter atingido o nível máximo de provocação, já que seu foco agora é não apenas um presidente vivo, mas que ainda estará no poder quando o filme provavelmente estrear. E, não bastasse, sua produção poderá ter certo peso político nas eleições.

Entre os emocionantes momentos do filme estará aquele em que Bush quase morre ao engasgar com um pretzel enquanto assistia a um jogo de beisebol pela TV. Ele foi encontrado quase morto. Stone promete, assim, que será um “verdadeiro e justo retrato do homem”.

Diz Stone à revista: “Bush pode entrar para a história como o pior presidente de todos os tempos. Acho que a história vai ser muito dura para ele. Mas isso não significa que ele não rende uma boa história. É como os filme de Capra, a história de um homem que tinha talentos muito limitados na vida, exceto a habilidade para se vender. Há o fato de que ele teve que superar a sombra do seu pai e o peso do nome da família -você tem que admirar sua persistência (...) Se Fitzgerald estivesse vivo, ele estaria escrevendo sobre Bush. Ele é uma espécie de Gatsby ao contrário”.

No elenco, Elizabeth Banks fará Laura, mas o diretor ainda procura um ator para fazer Dick Cheney. O diretor nega, por exemplo, que Robert Duvall tenha recusado o papel. E tampouco confirma os rumores de que Paul Giamatti o aceite.

A coisa está difícil. “Você ficaria impressionado com a quantidade de atores homens de certa idade em Hollywood que são republicanos”, disse Bill Block, CEO da QED, uma das empresas produtoras do filme. Mesmo os atores democratas querem distância. “Eles odeiam tanto Bush que não entendem por que fazer um filme sobre ele”.

Pensando nisso, lembrei do polêmico texto do dramaturgo/escritor/cineasta norte-americano David Mamet (cujo “Cinturão Vermelho”, com Rodrigo Santoro, estréia dia 20 de junho) publicado no “Village Voice” e reproduzido no Mais!, em que ele explica sua guinada à direita.

Um trecho:

“Constatei não apenas que não confio no governo atual (isso não foi surpresa para mim), mas que uma revisão imparcial revelava que as falhas deste presidente [George W. Bush] -a quem eu, bom esquerdista, via como monstro- diferiam em pouco daquelas de um presidente a quem eu reverenciava.

[George W.] Bush nos mergulhou no Iraque; JFK, no Vietnã. Bush roubou a eleição na Flórida; Kennedy roubou a dele em Chicago. Bush divulgou a identidade de uma agente da CIA; Kennedy deixou centenas deles morrerem na praia da baía dos Porcos [em Cuba]. Bush mentiu sobre seu serviço militar; Kennedy aceitou um Prêmio Pulitzer por um livro escrito por Ted Sorensen. Bush dividiu uma cama com os sauditas; Kennedy, com a máfia.
Oh! “

E, então? Trata-se de momento de reavaliar o “legado” de Bush?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h01 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Nove jurados e uma sentença

Nove jurados e uma sentença

 

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

A presença de dois longas brasileiros na mostra competitiva –“Blindness – Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, e “Linha de Passe”, de Daniela Thomas e Walter Salles– deve atrair mais atenção do que em anos anteriores à cobertura do Festival de Cannes, que começa amanhã (quarta-feira, dia 14). Eventual vitória ou premiação nobre (direção ou grande prêmio do júri) de um deles voltaria a direcionar o foco da mídia internacional de entretenimento para o cinema brasileiro, cerca de três meses depois da vitória de “Tropa de Elite” no Festival de Berlim.

A divulgação dos premiados ocorrerá apenas na cerimônia de encerramento, no dia 25 (domingo), às 19h30 em Cannes. Como “Blindness” passa logo na abertura (e “Linha de Passe” já no sábado, dia 17, em companhia do novo longa do chinês Jia Zhang-ke, cineasta que Walter Salles admira), as especulações devem começar cedo.

Coberturas de festivais tendem a usar como termômetro a reação da imprensa internacional. Se as avaliações dos jornalistas a um filme são majoritariamente positivas, ele se torna “favorito”. E, se esse filme não recebe prêmios na cerimônia de encerramento, foi uma “surpresa”. Surpresa para quem, cara-pálida?

Quem atribui prêmios oficiais em festivais é o júri, formado por profissionais de cinema. O presidente exerce sobre os colegas ascendência natural; é, portanto, figura-chave. Durante o evento, eles são proibidos de falar à imprensa sobre os filmes da competição. Saber efetivamente o que se passa em suas sessões e reuniões é tarefa das mais difíceis.

Associated Press

A partir da esq. (e Sean Penn ao centro): Alexandra Maria Lara, Sergio Castellitto,
 Natalie Portman, Alfonso Cuarón, Jeanne Balibar, Rachid Bouchareb,
 Marjane Satrapi e Apichatpong Weerasethakul

O júri da mostra competitiva de Cannes tem como presidente o ator, diretor e roteirista norte-americano Sean Penn. Na primeira formação, divulgada em abril, seus colegas eram a atriz alemã Alexandra Maria Lara, a atriz israelense-norte-americana Natalie Portman, o diretor francês Rachid Bouchareb, o ator, diretor e roteirista italiano Sergio Castellitto, o diretor mexicano Alfonso Cuarón e o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul. Em cima da hora, entraram também a atriz francesa Jeanne Balibar e a escritora e diretora iraniana Marjane Satrapi.

 Alexandre Baxter/Divulgação

O longa brasileiro “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergaele, será exibido no dia 21, quarta-feira, na mostra Um Certo Olhar, que tem júri específico para atribuição de prêmios. O presidente é o cineasta alemão Fatih Akin, acompanhado pela jornalista indiana Anupama Chopra, pela jornalista russa Catherine Mtsitouridze, pelo crítico egípcio Yasser Moheb e pelo espanhol José Maria Prado, diretor da cinemateca de seu país.

Como Nachtergaele é diretor estreante, seu filme concorre também ao prêmio Câmera de Ouro, tarefa de um júri presidido pelo diretor francês Bruno Dumont. A organização do festival não informou quais serão os demais integrantes.

Outro brasileiro que pode sair de Cannes premiado é André Lavaquial, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Seu curta-metragem “O Som e o Resto” será exibido na mostra Cinéfondation, que reúne filmes realizados por estudantes de audiovisual. A premiação cabe a outro júri, presidido pelo diretor chinês Hou Hsiao Hsien. Ele e seus colegas –a diretora dinamarquesa Susanne Bier, a atriz francesa Marina Hands, o diretor francês Olivier Assayas e o norte-americano Larry Kardish, curador de cinema do Museu de Arte Moderna de Nova York– têm ainda a responsabilidade de distribuir os prêmios da mostra competitiva de curtas-metragens.

Os prêmios da crítica serão atribuídos pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), que também forma um júri, convidando alguns de seus associados (pelo estatuto, de três a nove) a acompanhar seleções específicas (ninguém consegue assistir a todos os longas em condições de serem premiados) e a fazer reuniões diárias para eventualmente indicar filmes que os demais colegas não tenham visto.

As escolhas da Fipresci em Cannes abrangem a mostra competitiva e as seleções Um Certo Olhar, Quinzena dos Realizadores (na qual será exibido o curta brasileiro “Muro”, de Tião) e Semana da Crítica (com a participação de outros dois curtas brasileiros: “Areia”, de Caetano Gotardo, e “A Espera”, de Fernanda Teixeira).

Recordar é viver: o júri que atribuiu a Palma de Ouro a “O Pagador de Promessas”, em 1962, tinha o escritor japonês Tetsuro Furukaki como presidente (um dos dois asiáticos a exercer a função em toda a história de Cannes; o outro foi o diretor chinês Wong Kar-wai em 2006) e era formado pela atriz francesa Sophie Desmarets, pelos escritores franceses Jean Dutourd e Romain Gary, pelo ator norte-americano Mel Ferrer, pelo diretor polonês Jerzy Kawalerowicz, pelo produtor alemão Ernst Krüger, pelo diretor soviético Youri Raisman, pelo diretor italiano Mario Soldati e pelo diretor francês François Truffaut– que deu com a língua nos dentes e contou como “Pagador” se impôs como escolha de conciliação entre eles.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h29 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

No espírito de Cannes

 

Por Leonardo Cruz (em Paris)

“Caro Federico. Eu absolutamente preciso de sua presença calorosa em Cannes para meu primeiro festival. Te peço urgentemente que esteja comigo no domingo. Te proponho encontrar hotel nas imediações de Cannes para preservar anonimato e tranquilidade. Conto com essas horas de tua afeição. De coração. Maurice Bessy.”

O ano é 1972, e, como a imagem acima deixa claro, o tal Federico é Fellini, destinário do telegrama desesperado do então delegado-geral do Festival de Cannes, que queria ver o cineasta no balneário francês para a apresentação de seu novo longa, “Roma”, exibido fora de competição.

Esse telegrama é um dos preciosos documentos que o site da Biblioteca do Filme (braço da Cinemateca Francesa) colocou no ar para contar os bastidores do principal festival de cinema do mundo. O endereço “Cannes, Memória do Festival” reúne reproduções de cartazes da mostra e de seus filmes premiados. A visita à página é bom preâmbulo para entrar no espírito do evento, que será aberto nesta quarta por “Blindness”, de Fernando Meirelles.

Quem passar por lá e clicar na chave “O festival ao longo dos anos” poderá conferir registros históricos saborosos como:

- A carta do governo francês de 1939, que afirma que a França não participaria do Festival de Veneza (tomado pelos ideais fascistas) para criar sua própria mostra cinematográfica, que aconteceria em local a definir: Biarritz, Nice ou Cannes. Com a Segunda Guerra, a edição inaugural de Cannes só aconteceu em 46.

- Um manuscrito com a contagem dos votos do júri do primeiro festival, época em que os filmes eram premiados por país de origem. “Roma, Cidade Aberta” venceu pela Itália, e “Farrapo Humano”, pelos EUA.

- A nota à imprensa do festival em 1968, anunciando a interrupção da mostra, por causa da erupção social e política daquele maio na França.

- Um bilhete de agradecimento escrito em 1973 por François Truffaut a Robert Favre Le Bret, presidente do festival, na noite da bem-sucedida exibição de “A Noite Americana” em Cannes.

Tem ainda fotos de personalidades na Croisette e convites para eventos do festival, como este, do jantar de abertura da edição de 1954:


Em tempo: apesar do lacrimoso apelo do delegado-geral Maurice Bessy, Federico Fellini não tirou os pés de Roma em maio de 1972.

*

Cannes na “Cahiers du Cinéma”

A edição deste mês da revista traz, obviamente, um especial de Cannes. Sua equipe já viu alguns dos longas do festival e bate bumbo para o novo filme de Arnaud Desplechin, “Un Conte de Noël”, definido pelo diretor de Redação Jean-Michel Frodon como “um impressionante filme-mundo, microcosmo à escala de uma casa que parece reunir todo o universo humano”.

*

O Brasil aporta em Paris

Divulgação


O cine L’Arlequin, na última quarta, na abertura
do Festival de Cinema Brasileiro de Paris

Começou na última quarta e vai até o próximo dia 27 o décimo Festival do Cinema Brasileiro de Paris. O evento deste ano acontece em três cinemas da cidade, dividido em três partes. Na primeira semana, a mostra competiva apresenta ao público francês ficções nacionais recentes, como “Mutum”, “A Via Láctea”, “Saneamento Básico”, “Deserto Feliz” e “Não por Acaso”. O filme de Felipe Barcinski abriu oficialmente o festival, numa sessão cheia no tradicional cine L’Arlequin, regada a coxinha, pão de queijo e guaraná.

O festival terá ainda, em sua segunda semana, um ciclo em homenagem a Roberto Farias, uma retrospectiva de Silvio Tendler e um debate sobre o percurso dos cinemas francês e brasileiro a partir do Maio de 1968. O programa será completado com uma semana dedicada ao documentário nacional recente, com destaque para “Jogo de Cena”, “Operação Condor” e “Hércules 56”.

O festival cresceu em relação a anos anteriores e funciona como um bom resumo da produção brasileira atual. Ao trazer vários diretores para apresentar seus filmes, serve também de um espaço importante para difusão da cultura do país na França.

A lamentar a ausência de “Tropa de Elite” e “Serras da Desordem”, dois títulos tão opostos quanto importantes, e também a vinheta de abertura do festival, animação que apresenta mulatas dançando penduradas na torre Eiffel, estereótipo do Brasil que, felizmente, não se repete nos filmes programados.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h59 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O "flop" dos independentes

O "flop" dos independentes

Ainda que edições recentes do Oscar e uma rápida olhada nos filmes em cartaz dêem a entender que o cinema independente/de arte vive boa fase, ele não vai bem, obrigado.

Ao menos na Warner Brothers. A companhia anunciou recentemente que vai fechar duas problemáticas divisões dedicadas ao segmento.

A Picturehouse, de filmes como “O Labirinto do Fauno”, e a Warner Independent Pictures, de “Marcha dos Pinguins”, vão encerrar atividades, fazendo cerca de 70 profissionais perderem seus empregos.

“Essa decisão reflete a realidade de um mercado em mudança e nossa necessidade de gerir prudentemente nosso negócio com eficiência crescente”, disse o presidente do estúdio, Alan F. Horn.

Ou seja, por mais que filmes como os dois citados tenham gerado interesse do público e do Oscar, por exemplo, no balanço final as contas não fecham.

Entre os recentes “flops” da Warner Independent estão “No Vale das Sombras” (Paul Haggis), que rendeu a insuficiente soma de US$ 6,7 milhões, e o oscarizado “Piaf”, que levou “apenas” US$ 10 milhões na América do Norte.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h16 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

O impacto dos blockbusters

O impacto dos blockbusters

O crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta, no podcast desta semana, a estréia do filme "Speed Racer". Ou, melhor, fala sobre o impacto que a estréia deste blockbuster e "Homem de Ferro" causam no circuito brasileiro. Praticamente metade das salas de cinema do Brasil estão ocupadas pelos dois filmes. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h08 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

“Serras da Desordem” - O Retorno

“Serras da Desordem” - O Retorno

Por Cássio Starling Carlos

Dois anos depois de concluído, o brilhante “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, vem sendo exibido discretamente em circuito comercial. Já passou por Belo Horizonte e São Paulo e está em cartaz no Rio e em Brasília.

A quase invisibilidade de sua passagem pelo mercado não esconde a potência que o filme carrega, anunciada nos prêmios de melhor direção e fotografia no Festival de Gramado de 2006, na escolha como melhor longa de 2006 na entrega do prêmio Jairo Ferreira e reiterada na recepção crítica que vem recebendo.

O espaço que jornais como a Folha e revistas eletrônicas como Trópico, Cinética e Contracampo já dedicaram para refletir o trabalho de Tonacci vem agora se consolidar na forma do livro recém-lançado “Serras da Desordem” (Editora Azougue, 144 págs.), com organização do crítico, professor e cineasta Daniel Caetano.

O volume traz cinco ensaios e uma longa entrevista com Tonacci que ampliam as possibilidades de análise do filme para muito além dos limites relativamente acanhados de sua recepção no âmbito jornalístico.

O professor Ismail Xavier abre com sua chave de ouro a reunião de textos com uma incisiva reflexão focada nas ambigüidades do material documental e ficcional que imbricam formas e conteúdos de “Serras da Desordem”, sua transformação incessante de sentidos que se impõe ao espectador ao mesmo tempo em que nos levam a abandonar os estereótipos culturais que aplicamos à representação do índio.

O crítico Luís Alberto Rocha Melo indaga o uso que Tonacci realiza de materiais de arquivos, pela qual o filme ultrapassa suas representações imediatas para se afirmar como interpretação da construção do país num determinado período histórico através de suas imagens.

Já a etnóloga Clarice Cohn se concentra no lugar que o índio Carapiru ocupa em meio às múltiplas instâncias narrativas que compõem o filme, trazendo para o livro uma saudável abordagem extra-cinematográfica.

O crítico Rodrigo de Oliveira expande o fio de sua interpretação do objeto único para as estratégias de encenação adotadas por Tonacci desde “Bang Bang”, seu primeiro longa, feito em 1970, passando pela experimentação com o olhar indígena em “Conversas no Maranhão” (1977).

O último ensaio é assinado por Daniel Caetano, que propõe uma aproximação do filme com “O Signo do Caos”, derradeiro trabalho de Rogério Sganzerla, numa leitura modulada por valiosas considerações acerca dos sentidos do realismo que os dois cineastas brasileiros renovam em diálogo fecundo com a tradição do cinema moderno.

Uma entrevista com Tonacci, conduzida por Daniel Caetano, dá espaço para o diretor explicitar o longo processo de construção da obra, desmistificar as opções de encenação do ator/personagem Carapiru e lançar luzes sobre suas preferências estéticas.

Com este material farto e instigante, o livro “Serras da Desordem” inaugura a coleção “Odeon”, que se propõe pensar as produções relevantes do cinema brasileiro contemporâneo.

O cinema e o leitor agradecem! 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h19 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Tudo em família

Tudo em família

Por Bruno Yutaka Saito

Filmes sobre família não são necessariamente “filmes família”. Ao contrário, quando o campo em questão é o cinema independente, ou com ares mais alternativos, eles têm mais cara é de filme de terror. Dois lançamentos recentes em DVD são bons exemplos.

Chegando direto ao formato, “Margot e o Casamento” (“Margot at the Wedding”) é o novo longa de Noah Baumbach (de “A Lula e a Baleia”).

Margot (Nicole Kidman) é a escritora de meia-idade que viaja a Long Island para o casamento de sua irmã, Pauline (Jennifer Jason Leigh), com o traste Malcom (Jack Black). Elas estão brigadas há tempos, e resolvem fazer as pazes.

O que parece guiar o longa, no entanto, é uma profunda devoção ao estilo e ao clima dos filmes de John Cassavetes. Ficam evidentes a colaboração íntima e cúmplice entre atores e diretor, uma tensão permanente no ar, algo claustrofóbica, necessária quando o assunto é família (as disfuncionais, ao menos). O mérito de Baumbach é fazer parecer que a câmera flutua entre os atores, sempre entrando no meio das cenas, dando ao espectador certa sensação de proximidade.

Diz Baumbach à revista “Sight & Sound”: “Um encontro de família pode trazer o melhor e o pior de você, com pessoas freqüentemente regredindo a atos infantis. Além disso, membros de uma família dividem uma história, uma linguagem secreta, uma série de questões de orgulho e suposições etc., mas quando todos se tornam mais velhos, essas questões se quebram, e eu estou interessado em como as pessoas lidam com isso”.

Já em outro extremo, nada realista, está o registro de David Lynch para questões pessoais. Seu primeiro longa, o cultuado “Eraserhead” (1977) finalmente ganha lançamento em DVD no Brasil.

Longa-metragem que têm mais a ver com os primeiros trabalhos de videoarte de David Lynch, “Eraserhead” não têm uma estrutura convencional. Pode parecer óbvio, para quem assistiu a “Cidade dos Sonhos” ou “Império dos Sonhos”, mas o fato é que em “Eraserhead” estamos em um lugar não-identificado, que poderia ser a Terra ou qualquer outro planeta, época ou dimensão. E as pessoas não se parecem muito com pessoas, são criaturas/monstros literais.

No sentido simbólico, são metáforas claras de Lynch para um drama que ele vivia na época. Ele buscava representar seu medo da paternidade. Enquanto Lynch não chega ao Brasil para sua palestra, “Eraserhead” é fundamental para se entender as paisagens mentais do artista.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h37 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Lançamentos em DVD | PermalinkPermalink #

Ethan Coen, Mamet, Castellitto

Ethan Coen, Mamet, Castellitto

Por Sérgio Rizzo (em Nova York)

“Isto aqui não é David Mamet!”, diz um dos personagens para se defender dos insultos do outro. Ambos protagonizam um debate que parece eleitoral, mas que gira em torno da obediência aos Dez Mandamentos. O sujeito que insulta o colega (e a platéia), colérico com o comportamento da humanidade, se veste com uma bata branca e tem os cabelos longos e rebeldes; o outro, mais gentil e ponderado, usa paletó e gravata. Eles representam dois aspectos de Deus, ou da idéia de Deus, ou do humor que Ethan Coen extrai de figuras divinas em chave contemporânea.

A cena pertence a “Debate”, a última das três peças curtas que somam 85 minutos e compõem o espetáculo “Almost an Evening”, que estreou em Nova York no início do ano, no Linda Gross Theater (casa da Atlantic Theater Company, que produz a peça), e prossegue em cartaz no Theatres at 45 Bleecker Street, pequeno teatro off-Broadway, no Village. No domingo (dia 4), havia cerca de 50 espectadores – em sala com capacidade para o dobro.

A estréia de Ethan Coen no teatro – ele também é autor dos livros “Gates of Eden”, de contos, e “The Drunken Driver Has The Right of Way”, de poemas – está em plena sintonia com o tom de humor dos filmes realizados com o irmão, Joel Coen. “Debate” fica para o fim porque é a mais longa e divertida, com a estrutura de peça-dentro-da-peça: o tal confonto entre o Deus que Julga (F. Murray Abraham) e o Deus que Ama (Mark Linn-Baker) é um espetáculo teatral; quando termina, acompanhamos o que ocorre em um restaurante com um casal que assistiu ao espetáculo e com um dos atores. No final, volta-se ao espetáculo, na apresentação seguinte.

“Waiting”, que abre “Almost an Evening”, recria um purgatório com cara de repartição pública. Ali, um pobre coitado (Joey Slotnick) arrasta-se de sala em sala na tentativa de liberar a sua ida para o céu, mas os funcionários do lugar não colaboram – ou, como se desconfia, talvez façam apenas a sua parte. “Four Benches”, a peça curta intermediária, ironiza a trajetória de um britânico (Tim Hopper) nos EUA por meio de quatro encontros com outros homens em bancos, dois deles em saunas.

Assinada por Neil Pepe, diretor artístico do Atlantic Theater desde 1992, a montagem tem Abraham (o Salieri de “Amadeus”) como destaque em elenco de tipos bem marcantes – atores que poderiam estar em “Fargo” ou “O Grande Lebowski”. “Almost an Evening” cairia muito bem em um dos teatros da Praça Roosevelt, em São Paulo. Sugiro o ator Marco Antônio Pâmio -que adaptou recentemente “Edmond”, de David Mamet, e tem familiaridade com esse gênero de humor negro norte-americano- para cuidar da tarefa.

Além da frase mencionada lá em cima, há outra referência (indireta) a Mamet no espetáculo, quando alguém faz uma piada com jiu-jítsu (leia abaixo). São inserções carinhosas, ninguém tenha dúvida: Ethan Coen admira o talento de Mamet e Neil Pepe dirigiu textos do dramaturgo e cineasta, como “American Buffalo” e “Romance”.

“Brazilian jiu-jítsu”

“Cinturão Vermelho”, o filme de David Mamet ambientado no universo do “Brazilian jiu-jítsu” de Los Angeles, estreou em Nova York na última sexta-feira (dia 2), em três cinemas. Na sessão nobre de sábado, no complexo Loews/AMC próximo ao Lincoln Center, havia cerca de 20 pessoas em uma sala com capacidade para 300. Enquanto isso, “Homem de Ferro” abarrotava outras salas do multiplex e fazia o banheiro masculino ter fila muito maior do que o feminino, coisa rara ali.

A “Folha” assistiu a dois dias de filmagens, em junho do ano passado, em Los Angeles. Era fácil perceber, na ocasião, o entusiasmo de Mamet com o jiu-jitsu e com seus professores brasileiros. Esse envolvimento foi parar nas cenas de lutas, muito bem coreografadas. O que cerca a ação -incluindo os personagens brasileiros feitos por Alice Braga, a mulher do protagonista (Chiwetel Ejiofor), e Rodrigo Santoro, que faz seu irmão- não corresponde à densidade de personagens e à agilidade de diálogos a que faz referência aquela brincadeira de Ethan Coen e Neil Pepe em “Almost an Evening”. Para dizer o mínimo.

Castellitto em “Nárnia”

Depois de David Mamet dirigir filme sobre “Brazilian jiu-jitsu”, Philip Glass fazer a trilha sonora de um filme de Woody Allen (“O Sonho de Cassandra”) e Robert Downey Jr. interpretar super-herói de HQ (“Homem de Ferro”), outro encontro improvável de 2008: o ator italiano Sergio Castellitto (“Concorrência Desleal”, “Não se Mova”) como um vilão de filme da Disney em “As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian”.

A Folha assistiu nesta segunda-feira (dia 5) a uma pré-estréia do filme, em Nova York, em uma ampla sala da rua 42, com cerca de 600 espectadores; metade eram crianças e adolescentes. A meninada aplaudiu meia dúzia de vezes – em grandes feitos dos mocinhos, em um beijo anunciado o filme inteiro e quando acontece ao personagem de Castellitto, o Rei Miraz, o que você já imagina que vá acontecer, mesmo que não tenha lido o livro.

Público que vibra com a derrocada do vilão só pode deixar o ator que o interpreta satisfeito. Boa, Castellitto.

(O jornalista Sérgio Rizzo viaja a Nova York a convite da Disney.)

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h45 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Sucesso em 3D

Sucesso em 3D

Por Silvana Arantes

“Hannah Montana” fez 16,6 mil espectadores em sua estréia no Brasil, na semana passada. O volume de público não impressiona, se considerado isoladamente. Levando-se em conta que o filme ocupou apenas cinco salas (equipadas com tecnologia 3D), no entanto, vê-se que o título adolescente alcançou a excepcional média de 3.252 espectadores por cópia. O site Filme B observou que “é a melhor média de um filme 3D desde a implantação do formato no país, em outubro de 2006”. A segunda melhor média do fim de semana retrasado foi de “Quebrando a Banca” _693 espectadores por cópia. Enquanto isso, nos EUA, esquenta a discussão sobre a implantação de salas 3D, que os grandes da indústria querem acelerar.

Escrito por Silvana Arantes às 4h28 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

A zona

A zona

No podcast deste final de semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o filme "Zona do Crime", produção Espanha/México, que estréia hoje. Primeiro longa do diretor Rodrigo Plá, "Zona do Crime" aborda o tema das desigualdades sociais ao focar moradores de um condomínio de luxo, na Cidade do México, que tentam se isolar da violência urbana. Para ouvir o podcast, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h27 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

À espera de um milagre

À espera de um milagre

Por Cássio Starling Carlos

As relações amorosas entre Eric Rohmer e seu público brasileiro costumam, como nos filmes do diretor francês, ser instáveis, irregulares e subtraídas por causa da inconstância dos distribuidores.

Ausente das nossas telas durante décadas, com exceção de exibições demasiado esparsas ao longo dos anos 80 e 90, os filmes de Rohmer reencontraram seu público há poucos anos, quando os ciclos dos “Contos Morais”, das “Comédias e Provérbios” e dos “Contos das Quatro Estações” puderam ser redescobertos em bloco.

Mas o último trabalho de Rohmer a ser exibido aqui foi “A Inglesa e o Duque”. Dos dois mais recentes, “Agente Triplo” e “Os Amores de Astrée e Celadon”, salvo engano, só o primeiro foi mostrado no Festival do Rio em 2004, enquanto o último permanece criminosamente inédito.

Em DVD, a sorte dos admiradores de Rohmer pelo menos se manteve com o pacote de 19 títulos lançados pela Europa Filmes. E para quem ficou em São Paulo neste feriado prolongado, há uma boa oportunidade de conhecer um recorte da obra de Rohmer no ciclo “O Jogo da Sedução”, em cartaz no Centro Cultural São Paulo até domingo.

Em meio às ficções, dois documentários programados no ciclo são utilíssimos para entender por que Rohmer encanta alguns e provoca ira em outros. Em “A Fábrica do Conto de Verão”, o assistente de direção Jean-André Fieschi registra em tom de “making of” o processo de “mise-en-scène” de Rohmer, o trabalho de corpo-a-corpo com os atores (ver o diretor octogenário se divertindo numa pista de dança é um dos tantos momentos deliciosos da produção) e, em particular, a obsessão rohmeriana na construção dos espaços e a peculiaridade do realismo de seu cinema.

O outro título ganhou a tradução confusa de “Eric Rohmer, Provas de Apoio aos 120’”, mas o equivalente mais adequado em português é “Baseado em Provas”. Trata-se de um título da importantíssima série francesa “Cineastas do Nosso Tempo”, dirigida por André S. Labarthe. Neste, Rohmer recebe no escritório de sua produtora o crítico Jean Douchet e ao longo de duas horas os dois conversam sobre o método de criação do cineasta e as implicações do que alguns chamam, equivocadamente, de “improvisações”.

Com sua aparência burlesca, tal como os tipos de Buster Keaton, Rohmer abre sua caixa de segredos e entulha uma mesa com uma série de revelações, desde os cadernos de cores específicas nos quais anota o processo de pensamento de um filme até os registros de ensaios com os atores, passando por comentários extremamente esclarecedores a respeito do processo, que muitos consideram misterioso, chamado “mise-en-scène”.

Sem nenhuma ênfase no didatismo, mas também sem pudores de esteta que se esconde sob segredos, Rohmer rompe mistérios, lança luz sobre o enigma da criação, tal como um filósofo iluminista. Ao final, o espectador posta-se ainda mais admirado ao entender como a arte de Rohmer faz a transmutação do prosaico em poético, da imanência (dos corpos, da natureza) em transcendência. Na falta de uma palavra que melhor defina esse processo, a mais adequada continua sendo aquela que também dá nome a um fenômeno que ocorre com certa freqüência na obra do diretor: milagre.

***

Milagre também é o que se assemelha ao que Rohmer alcança em seu último filme, “Les Amours de Astrée et Céladon”, que acaba de sair em DVD na França. Baseado em um clássico do início do século 17, um romance de mais de 5.000 páginas, escrito por Honoré d’Urfé, o filme narra as peripécias de Eros, que flecha dois jovens pastores e ao mesmo tempo os impede de se aproximarem. Carregado de deliciosos anacronismos, “Les Amours de Astrée et Céladon” renova o interesse de Rohmer pelas vicissitudes do desejo e sua obsessão pela palavra como aquilo que, ao mesmo tempo, possibilita e impede a comunicação plena entre duas pessoas.

Como em todos os filmes do diretor, neste fala-se pelos cotovelos e quanto mais se fala mais se confunde. O modo de escapar desta armadilha humana, demasiado humana, será pela imagem, ainda uma vez indireta, carregada de subterfúgios (uma situação de travestismo na qual se reconhece em Rohmer um herdeiro de Hitchcock).

Só o classicismo de sua feitura e o anacronismo de seu tema e forma já bastariam para considerar um milagre a existência deste filme nos dias de hoje.

Mais milagroso ainda é ver um artista que acaba de completar 88 anos filmar a vida e o amor como se tivesse acabado de chegar ao mundo.  

Veja trecho de “Les Amours de Astrée et Céladon”:

Escrito por Cássio Starling Carlos às 1h27 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Colunistas do blog | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.