Ilustrada no Cinema
 

A zona

A zona

No podcast deste final de semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o filme "Zona do Crime", produção Espanha/México, que estréia hoje. Primeiro longa do diretor Rodrigo Plá, "Zona do Crime" aborda o tema das desigualdades sociais ao focar moradores de um condomínio de luxo, na Cidade do México, que tentam se isolar da violência urbana. Para ouvir o podcast, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h27 AM

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À espera de um milagre

À espera de um milagre

Por Cássio Starling Carlos

As relações amorosas entre Eric Rohmer e seu público brasileiro costumam, como nos filmes do diretor francês, ser instáveis, irregulares e subtraídas por causa da inconstância dos distribuidores.

Ausente das nossas telas durante décadas, com exceção de exibições demasiado esparsas ao longo dos anos 80 e 90, os filmes de Rohmer reencontraram seu público há poucos anos, quando os ciclos dos “Contos Morais”, das “Comédias e Provérbios” e dos “Contos das Quatro Estações” puderam ser redescobertos em bloco.

Mas o último trabalho de Rohmer a ser exibido aqui foi “A Inglesa e o Duque”. Dos dois mais recentes, “Agente Triplo” e “Os Amores de Astrée e Celadon”, salvo engano, só o primeiro foi mostrado no Festival do Rio em 2004, enquanto o último permanece criminosamente inédito.

Em DVD, a sorte dos admiradores de Rohmer pelo menos se manteve com o pacote de 19 títulos lançados pela Europa Filmes. E para quem ficou em São Paulo neste feriado prolongado, há uma boa oportunidade de conhecer um recorte da obra de Rohmer no ciclo “O Jogo da Sedução”, em cartaz no Centro Cultural São Paulo até domingo.

Em meio às ficções, dois documentários programados no ciclo são utilíssimos para entender por que Rohmer encanta alguns e provoca ira em outros. Em “A Fábrica do Conto de Verão”, o assistente de direção Jean-André Fieschi registra em tom de “making of” o processo de “mise-en-scène” de Rohmer, o trabalho de corpo-a-corpo com os atores (ver o diretor octogenário se divertindo numa pista de dança é um dos tantos momentos deliciosos da produção) e, em particular, a obsessão rohmeriana na construção dos espaços e a peculiaridade do realismo de seu cinema.

O outro título ganhou a tradução confusa de “Eric Rohmer, Provas de Apoio aos 120’”, mas o equivalente mais adequado em português é “Baseado em Provas”. Trata-se de um título da importantíssima série francesa “Cineastas do Nosso Tempo”, dirigida por André S. Labarthe. Neste, Rohmer recebe no escritório de sua produtora o crítico Jean Douchet e ao longo de duas horas os dois conversam sobre o método de criação do cineasta e as implicações do que alguns chamam, equivocadamente, de “improvisações”.

Com sua aparência burlesca, tal como os tipos de Buster Keaton, Rohmer abre sua caixa de segredos e entulha uma mesa com uma série de revelações, desde os cadernos de cores específicas nos quais anota o processo de pensamento de um filme até os registros de ensaios com os atores, passando por comentários extremamente esclarecedores a respeito do processo, que muitos consideram misterioso, chamado “mise-en-scène”.

Sem nenhuma ênfase no didatismo, mas também sem pudores de esteta que se esconde sob segredos, Rohmer rompe mistérios, lança luz sobre o enigma da criação, tal como um filósofo iluminista. Ao final, o espectador posta-se ainda mais admirado ao entender como a arte de Rohmer faz a transmutação do prosaico em poético, da imanência (dos corpos, da natureza) em transcendência. Na falta de uma palavra que melhor defina esse processo, a mais adequada continua sendo aquela que também dá nome a um fenômeno que ocorre com certa freqüência na obra do diretor: milagre.

***

Milagre também é o que se assemelha ao que Rohmer alcança em seu último filme, “Les Amours de Astrée et Céladon”, que acaba de sair em DVD na França. Baseado em um clássico do início do século 17, um romance de mais de 5.000 páginas, escrito por Honoré d’Urfé, o filme narra as peripécias de Eros, que flecha dois jovens pastores e ao mesmo tempo os impede de se aproximarem. Carregado de deliciosos anacronismos, “Les Amours de Astrée et Céladon” renova o interesse de Rohmer pelas vicissitudes do desejo e sua obsessão pela palavra como aquilo que, ao mesmo tempo, possibilita e impede a comunicação plena entre duas pessoas.

Como em todos os filmes do diretor, neste fala-se pelos cotovelos e quanto mais se fala mais se confunde. O modo de escapar desta armadilha humana, demasiado humana, será pela imagem, ainda uma vez indireta, carregada de subterfúgios (uma situação de travestismo na qual se reconhece em Rohmer um herdeiro de Hitchcock).

Só o classicismo de sua feitura e o anacronismo de seu tema e forma já bastariam para considerar um milagre a existência deste filme nos dias de hoje.

Mais milagroso ainda é ver um artista que acaba de completar 88 anos filmar a vida e o amor como se tivesse acabado de chegar ao mundo.  

Veja trecho de “Les Amours de Astrée et Céladon”:

Escrito por Cássio Starling Carlos às 1h27 PM

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Os estranhos de Jim Jarmusch

Os estranhos de Jim Jarmusch

 

Por Bruno Yutaka Saito

Era 2003, e o Cinesesc resolvera abrir uma micromostra-relâmpago com dois filmes de Jim Jarmusch: “Estranhos no Paraíso” (84) e “Down by Law” (86). Surpresa: na primeira exibição, do primeiro filme, uma fila quilométrica fazia o público dobrar a esquina da rua Augusta.

Supresa, mas nem tanto. A pequena multidão ali presente apenas confirmava o fato de que Jarmusch está num lugar privilegiado da memória afetiva de quem acompanhou seu surgimento, nos anos 80, ou apenas ouviu relatos de amigos apaixonados.

Para esses fãs, a boa notícia: “Permanent Vacation” (80), seu primeiro filme, visto por pouquíssimas pessoas por aqui, já está nas lojas de DVDs. Na seqüência, chegam “Estranhos no Paraíso” e “Dead Man” (95).

Jarmusch em registro ainda bruto, como costumam ser filmes de estréias, “Permanent Vacation” acompanha Allie, jovem fã de Charlie Parker, que vagueia à esmo pelo Lower East Side, em Manhattan (Nova York), que mais parece uma cidade destruída por bombas (o registro de época é um dos pontos fortes do filme). Ele está num profundo vazio existencial, e vai encontrando estranhos personagens pelo caminho.

Ou seja, personagens solitários em uma trama sobre o “nada”, território que Jarmusch refinaria em suas produções seguintes. A diferença é que, em “Permanent Vacation”, o tom cômico fica um pouco por baixo do drama. Não é exagero comparar a melancolia de Allie ao zeitgeist da época, do pós-punk, ainda que seja o jazz que dê o tom do filme.

E por que Jarmusch causa filas e fascínio? É fácil entender a razão na geração próxima dos 40 anos. Filmes como “Estranhos no Paraíso” fazem parte de um contexto que englobava bandas como The Smiths, Legião Urbana e The Cure, livros de Caio Fernando Abreu etc., nomes, enfim, que evocam um romantismo urbano, adequado para certo clima de fim da civilização. Para os mais novos, desolação, alienação, solidão e busca por contato e afeto, questões também tocadas por Jarmusch, são fatores que sempre vão causar fascínio.

Veja abaixo uma cena, com uma sensacional dança de Allie, personagem que adota o lema “viva intensamente, morra jovem”:

 

A seguir, trailer de "Estranhos no Paraíso":

E um videoclipe de "Dead Man" (com trilha de Neil Young):

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h39 PM

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Fernando Meirelles abre Cannes

Fernando Meirelles abre Cannes

Por Silvana Arantes

É oficial. O Festival de Cannes acaba de anunciar que "Blindness", o novo filme de Fernando Meirelles, abrirá a sua 61ª edição, no próximo dia 14 de maio, competindo pela Palma de Ouro. Em geral, os filmes de abertura em Cannes são exibidos fora de competição. O trailer está aqui.

Escrito por Silvana Arantes às 4h32 PM

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“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

 
Cena de "Homem de Ferro"

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Encerrado o primeiro quadrimestre, nenhum filme lançado no Brasil se aproximou da faixa de três milhões de espectadores. A liderança está com “Eu Sou a Lenda” (2,222 milhões), seguido de “Meu Nome Não É Johnny” (2,1 milhões) e “Alvin e os Esquilos” (1,411 milhões), de acordo com levantamento do Filme B.

A retração de público em relação a 2007 _que já havia mostrado redução na comparação com 2006_ tem variado, nos últimos finais de semana, entre 1% e 33%. Distribuidores e exibidores a atribuem, entre diversos fatores, à falta de títulos com fôlego para atingir números expressivos.

Em 2007, cinco filmes chegaram à marca simbólica dos 3 milhões de espectadores: “Homem-Aranha 3” (6,141 milhões), “Shrek Terceiro” (4,688 milhões), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (4,263 milhões), “Piratas do Caribe 3” (3,826 milhões) e “Uma Noite no Museu” (3,030 milhões).

A partir desta semana, no entanto, o fator oferta não poderá mais ser invocado para explicar a retração. Começam amanhã (quarta, dia 30) a entrar em campo os candidatos aos primeiros postos do ranking em 2008, com o lançamento de “Homem de Ferro”. A distribuidora Paramount informa que serão 500 cópias _333 legendadas e 167 dubladas. O número equivale a algo entre 20% e 25% do total de salas em funcionamento no país, pouco superior a 2 mil.

Se esses filmes também não obtiverem números significativos, outras razões para a crise ganham força. Preço dos ingressos, pirataria e mudanças de hábito do público, sobretudo o jovem, lideram a fila, não necessariamente nessa ordem.

Acompanhe o calendário da corrida dos milhões no Brasil, ou a “turma das 500 cópias”:

9 de maio: “Speed Racer”, dos irmãos Andy e Larry Wachowski, Warner

22 de maio: “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, Paramount

30 de maio: “As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian”, de Andrew Adamson, Disney

13 de junho: “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan, Fox; e “O Incrível Hulk”, de Louis Leterrier, Universal

18 de julho: “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, Warner

7 de novembro: “007 – Quantum of Solace”, de Marc Forster, Sony

21 de novembro: “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, de David Yates, Warner

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h18 PM

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Haneke reafirma a vitória da barbárie

Haneke reafirma a vitória da barbárie


O original: Paul (Arno Frisch) flerta com
 a platéia em “Funny Games” (1997)

Por Leonardo Cruz (em Paris)

O que motiva um cineasta a refazer o mesmo filme dez anos depois? E um filme como “Funny Games”, que transforma a platéia em cúmplice de uma sessão lúdica de tortura e assassinato? A resposta do diretor Michael Haneke: o longa original, de 1997, rodado na Áustria e falado em alemão, não atingiu seu alvo.

“O primeiro filme já se endereçava aos espectadores anglófonos, consumidores de violência. Mas não funcionou. A língua foi um obstáculo, e o filme ficou restrito nos EUA ao circuito de arte. Por isso aceitei esse remake”, declarou Haneke ao jornal “Libération”, por conta do recente lançamento na França de “Funny Games U.S.”.

Produção da Warner Independent, filmado no ano passado nos EUA, falado em inglês e com Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt como protagonistas, o novo “Funny Games” é uma cópia fiel ao original, mesmo argumento, mesmos diálogos, mesmos planos, mesmo exercício de sadismo. Vemos novamente a história da família rica e feliz que tem sua casa na beira do lago gentilmente invadida por dois jovens que brincam de matar. E mais uma vez aceitamos acompanhar o jogo que massacra pai, mãe, filho e cãozinho fofo.


A cópia: Paul (Michael Pitt) flerta com
 a platéia em “Funny Games U.S.” (2007)

Com nova roupagem, “Funny Games U.S.” não tem mais o efeito surpresa do original, mas a repetição das mesmas seqüências de violência talvez seja mais atordoante do que há uma década, porque tudo o que Hakene nos mostra (ou apenas nos sugere) continua atual. Ou melhor, torna-se ainda mais atual, plausível, nestes tempos de Columbines e Abu Ghraibs.

Ao refazer o mesmo filme de horror, Haneke parece querer nos dizer que o tempo passou, e a barbárie continua, prevalece, e que estamos nos habituando a ela. Como disse o diretor no “Libération”, “ninguém é inocente”, todos somos jogadores.

Por não abrir mão dessa barbárie, “Funny Games U.S.” foi rejeitado por redes de multiplex norte-americanas. Estreou nos EUA em março em 288 salas e acumula até agora renda doméstica de US$ 1,3 milhão, números bastante modestos para os padrões hollywoodianos. E sinal de que, mesmo falada em inglês, a mensagem de Haneke não atinge plenamente seu alvo.

No Brasil, O longa está comprado pela distribuidora Califórnia e, segundo o portal Filme B, deve estrear em agosto. A seguir, os trailers dois filmes de Haneke, primeiro o austríaco, depois o americano.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 12h05 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo (em férias). O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe da Ilustrada, em especial das repórteres Silvana Arantes e Lúcia Valentim Rodrigues.

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