No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a programação de cinema da Virada Cultural, evento cultural que toma São Paulo durante 24 horas, a partir do sábado, às 18h. Entre os destaques, a Galeria Olido traz a Mostra Internacional de Cinema na Virada, com filmes como o mexicano “O Violino” e o chileno “Machuca”, e o Sesc Ipiranga, que vai exibir curtas de Charles Chaplin ao ar livre. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.
Quase um ano depois de fazer sua premiére mundial no Festival de Cannes, “Pecados Inocentes” estréia hoje (sexta) em São Paulo (já estava em cartaz no Rio de Janeiro desde a semana passada), será exibido amanhã (sábado) no Festival Tribeca, em Nova York, e tem estréia prevista nos EUA para o final de maio.
Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Tom Kalin desde “Swoon – Colapso do Desejo” (1992), o filme se baseia no livro “Savage Grace”, de Natalie Robins e Steven M. L. Aronson, a “verdadeira história das relações fatais em uma rica e famosa família norte-americana”, os Baekeland.
Abaixo, os principais trechos de entrevista concedida ontem por Kalin à Folha.
“Tenho uma carreira eclética. Trabalhei como produtor para outros diretores, por exemplo. Fiz diversos trabalhos experimentais em cinema e vídeo, em paralelo a meus filmes narrativos, ao longo dos últimos 20 anos. Sou professor no programa de graduação da Universidade Columbia há uma década. Depois de ‘Swoon’, produzi ‘O Par Perfeito’ (1994) e ‘Um Tiro para Andy Warhol’ (1996). Desenvolvi dois longas de não-ficção – um sobre as relações entre Patti Smith e Robert Mapplethorpe, e outro sobre a banda de rock norte-americana The Monks. Escrevi o roteiro de ambos, mas não os filmei. Durante os anos 90, fiz vários curtas de ficção, como ‘Geoffrey Beene 30’, com Marcia Gay Harden, Claire Danes e Viveca Lindfors, e ‘Plain Pleasures’, com Frances McDormand, Will Patton e Lili Taylor. Meu trabalho experimental recente inclui ‘Every Wandering Cloud’ e ‘Cheap & Vulgar’, que existem também em forma de instalação, e que já foram exibidos em festivais, canais de TV e no circuito de galerias e museus.”
“Minha produtora Christine Vachon e eu dividimos uma predileção pouco saudável por histórias sobre crimes verdadeiros. Ela me deu ‘Savage Grace’ enquanto eu fazia ‘Swoon’ e o livro me agarrou pela garganta. Está um degrau acima de muitos livros do gênero, com uma inesquecível mistura de sensacionalismo de tablóide com tragédia grega. É contado em primeira pessoa, nas vozes dos personagens, uma obra jornalística notável que nos oferece muitas visões contraditórias. Christine e eu tentamos, sem sucesso, fazer um projeto com o grupo The Really Useful Group, de Andrew Lloyd Weber, em meados dos anos 90 (até então, nenhuma versão musical havia sido planejada). Por muitos anos, ‘Savage Grace’ ainda permaneceu em minha imaginação. Assim, começamos a rolar a bola outra vez. A partir do momento em que Julianne Moore entrou no projeto, tudo começou a andar. Filmamos o longa inteiramente em Barcelona (Julianne é a única norte-americana do elenco) no verão de 2006.”
“Julianne foi a única pessoa que eu poderia imaginar como Barbara. Eu a conhecia superficialmente dos períodos em que Todd Haynes estava filmando ‘Safe – Mal do Século’ e ‘Longe do Paraíso’. Ela é muito amistosa, pé no chão. Eu escrevi a ela uma carta pessoal e enviei junto o roteiro assombroso de Howard Rodman. Uma semana depois, estávamos almoçando. Ela disse ‘sim’ imediatamente e foi o seu envolvimento que tornou o filme possível.”
“Fiz testes com cerca de 100 atores para o papel de Antony. Eddie Redmayne simplesmente apareceu e ficou com o personagem. Ele era surpreendente, envolvente, passando de um rapaz terno e frágil para um homem ansioso, e com um rosto inesquecível que evoca os anos 60. Ele também se parece muito com o que poderia ser um filho de Julianne, e isso acrescenta um poder visceral ao papel.”
“Dirigir atores é uma dança complexa e única com cada pessoa que trabalha com você. O papel do diretor é orquestrar a atenção do público, e não dar aos atores as falas do diálogo. Às vezes, a melhor coisa que se pode fazer é dar ao ator espaço e liberdade para correr riscos. Julianne é notável em sua maneira de encontrar os menores e mais precisos momentos de comportamento e de ação física que trazem vida à cena. Escalar bem o elenco de um filme é a melhor desforra porque, se (como diz o clichê) atuar é reagir, o filme se beneficia enormemente de uma grande química entre os atores.”
“Barbara e Tony são personagens simbióticos; no sentido místico, quase as duas metades de um todo. O filme é baseado na perspectiva de ambos, embora na visão tradicional possamos ver Barbara como a principal protagonista porque ela conduz a história para a frente, literalmente. Penso que, nesse filme, a empatia e a compaixão são mais importantes do que a tradicional ‘identificação’ com os personagens. A voz over de Tony é também uma janela dentro do filme e seu personagem oferece um aspecto emocional diferente para a história. Barbara e Tony são apanhados em uma dança terrível e fatal.”
(Atenção: abaixo, o diretor conta detalhes da trama)
“O filme é a história de um profundo fracasso nos mais simples deveres do amor. Por exemplo, o dever de um marido amar a esposa, ou o de pai e mãe amarem sua criança... Essa família acabou transformando o que poderia ser carinhoso e libertário em uma prisão claustrofóbica. Enquanto fazia o filme, eu estava muito interessado nesta questão: Tony é quem mata Barbara ou a morte dela é, de certa forma, um complexo suicídio? Ela usa seu filho como instrumento para terminar com a própria vida? A tragédia é uma história humana fundamental e, embora fortemente movido por essas emoções, penso que foi possível também trazer empatia e compaixão para o filme.”
“Tomo emprestada a sabedoria de uma frase de Elia Kazan: ‘Dirigir consiste em transformar psicologia em comportamento’. Como muitos já disseram, cinema é um meio para ‘mostrar’ e não ‘dizer’. Quis fazer uma abordagem lírica e visual do colapso mental de Barbara e Tony, e baseá-la em momentos específicos de comportamento que trazem para a luz o que está debaixo da superfície.”
“Eu e meus colaboradores estávamos interessados em expressar os cinco períodos de tempo, de 1946 a 1972, com referências à linguagem cinematográfica daquelas épocas. Assisti a filmes como ‘Gilda’, ‘Bela da Tarde’, ‘O Criado’, ‘Desprezo’ e ‘Morte em Veneza’ para saturar meus olhos e sensibilidade. (Robert) Bresson estava na minha cabeça também. Apesar disso, não vejo esse filme como ‘pós-moderno’. Quis encontrar uma linguagem sincera e específica para ‘Pecados Inocentes’. Ao mesmo tempo em que fomos inspirados por muitos diretores, procuramos sempre achar uma linguagem visual única, misteriosa e específica para essa história. Cada filme dirá a você como filmá-lo se você o ouvir atentamente.”
“Hoje, admiro mais cineastas do que os que aparecem nesta lista, mas são eles que vêm à mente nesta manhã, sem nenhuma ordem de preferência: Lucrecia Martel, Agnés Varda, Hou Hsiao-hsien, Alfonso Cuarón, Todd Haynes, Paul Thomas Anderson, Kelly Reichardt, Gus Van Sant, Lynne Ramsay, Claude Chabrol, Karïm Ainouz, Wong Kar-wai.”
O tempo e a memória, os amores perdidos e a impossibilidade de reencontrá-los são os temas mais recorrentes nos filmes de Wong Kar-wai, como se pode conferir, ainda uma vez, no belo “Um Beijo Roubado”, incursão do diretor chinês em território norte-americano. Em ritmo de conta-gotas, o público brasileiro pôde conhecer as minúcias do ritmo ao longo de toda a obra de WKW, desde que se decidiu distribuir os trabalhos anteriores à sua repercussão internacional, cujo marco é “Amores Expressos”.
Mas ficou faltando “Ashes of Time”, um título considerado atípico, em particular por ser uma incursão no universo “wuxia”, o filme de artes marciais.
Depois de ser exibido na 19ª Mostra Internacional de São Paulo, em 1995, “Ashes of Time” virou raridade. Agora em versão “redux”, “Ashes of Time” tem seu relançamento anunciado com pompa, com direito a exibição especial durante o próximo Festival de Cannes, de 14 a 25 de maio. A Sony Picture Classics já fechou com a Fortissimo a distribuição para o mercado norte-americano. E espera-se que desperte a atenção de algum distribuidor brasileiro.
Segundo informações dispersas, para “Ashes of Time Redux” WKW não rodou novo material, mas remasterizou, restaurou e reeditou o original. A intenção do diretor foi reorganizar a estrutura narrativa, impor mais clareza e formatar uma versão definitiva para posterior lançamento em DVD.
Acostumados ao universo predominantemente urbano do direto, mesmo que por vezes sujeito a nostalgias, os fãs dos filmes de WKW podem estranhar seu mergulho no tempo imemorial em “Ashes of Time”. Descrito sumariamente como “filme de kung fu”, “Ashes of Time” faz parte do esforço de WKW em se adaptar ao modelo industrial do cinema de Hong Kong, calcado na produção de gêneros. Depois de realizar um policial e um melodrama, WKW se dedicou ao “wuxia”. Como a ênfase na complexidade visual exigiu uma pós-produção mais demorada, WKW aproveitou o tempo para rodar, com leveza e agilidade, “Amores Expressos”, o filme que fez seu nome circular no Ocidente.
De kung fu, contudo, não há muito em “Ashes of Time”. As lutas estão lá, coreografadas como de hábito no cinema local, mas passam por um processo de desconstrução na imagem, que se tornaria daí em diante uma das marcas recorrentes dos filmes de WKW. O gesto é decomposto, desacelerado, até mesmo paralisado, e reacelerado, num esforço de tornar visível o tempo por trás da ação. É curioso observar como WKW formata esse recurso justamente nas cenas em que o movimento se impõe como o centro da nossa atenção.
À margem desses momentos, o diretor tece uma complexa trama de nostalgia e evocações, a partir das figuras dos dois heróis centrais e das mitologias que os acompanham. A sobreposição de tempos, a indeterminação do foco da narrativa, a aparição de personagens em memórias desconectadas tornam a compreensão do filme bastante complicada.
Entretanto, a imersão num universo que lhe é estranho em aparência torna ainda mais evidentes as recorrências formais do diretor. Dá para conferir na telinha do YouTube, mas espera-se que a versão “redux” não demore a chegar a uma telona ao nosso alcance.
Os organizadores do Festival de Cannes divulgam amanhã (dia 23), em entrevista coletiva, a programação deste ano. A 61ª edição do evento, a ser realizada de 14 a 25 de maio, fará homenagens à 21ª, interrompida pelos eventos de maio de 1968.
A seção Cannes Classics projetará filmes que integravam a mostra competitiva daquele ano. “Eu Te Amo, Eu Te Amo”, do francês Alain Resnais, “Peppermint Frappé”, do espanhol Carlos Saura, e “Quatro Devem Morrer”, do inglês Peter Collinson, estão entre os que já foram anunciados.
O festival de 1968 foi aberto em 10 de maio, sexta-feira, com a exibição de uma cópia em 70 mm de “...E o Vento Levou” (1939). Quatro dias antes, em Paris, as universidades haviam sido fechadas e a polícia ocupava o Quartier Latin. A escalada de manifestações começara em 22 de março, na Universidade de Nanterre, cujas dependências administrativas foram ocupadas por estudantes em represália às prisões que se seguiram a um protesto contra a intervenção militar dos EUA no Vietnã.
Em Cannes, profissionais de cinema solidários aos estudantes articularam o apoio público a eles. A Associação Francesa da Crítica propôs que as atividades fossem suspensas no dia 13, segunda-feira, para que todos participassem da manifestação nacional convocada para o dia. O fundador do festival e então seu diretor-geral, Robert Favre Le Bret (1905-1987), não acatou a sugestão. Decidiu apenas suspender festas e demais eventos sociais.
Os cineastas François Truffaut (1932-1984), Jean-Luc Godard, Roger Vadim (1928-2000) e Claude Lelouch, bem como o ator Jean-Pierre Léaud, entre muitos outros, organizaram protestos contra o afastamento de Henri Langlois (1914-1977) da direção da Cinemateca, por determinação do ministro da Cultura, o escritor André Malraux (1901-1976). Integrantes do júri de longas-metragens, como a atriz Monica Vitti e os cineastas Louis Malle (1932-1995) e Roman Polanski, também saíram às ruas.
Abaixo, Godard, Truffaut e Polanski em um debate:
No dia 18, sábado, gritos de “revolução, revolução” calaram na sala escura os de “projeção, projeção” antes do início de “Peppermint Frappé”. Godard afirmou que o filme seria exibido “contra a vontade de seu autor”.
Na manhã seguinte, Le Bret entrega os pontos em nota oficial: “O conselho de administração decide encerrar o 21º Festival Internacional de Cinema no domingo, 19 de maio, ao meio-dia”. Não houve premiação.
Enquanto Cannes vivia a mais incendiária de suas edições, Bernardo Bertolucci fazia na Itália “Partner”, recém-lançado em DVD no Brasil. O colunista José Geraldo Couto escreveu na Ilustrada sobre o disco, que inclui nos extras duas longas entrevistas, uma com o diretor e outra com o montador Roberto Perpignani.
Bertolucci conta como o ator francês Pierre Clémenti (1942-1999), que viajava até Paris durante os finais de semana, lhe trazia informações sobre as manifestações estudantis, incluindo palavras de ordem que foram parar no filme. Enquanto “Os Sonhadores” (2003) é “sobre” 1968, “Partner” é “de” 1968, e expressa com riqueza aquele maio do qual muito ainda vai se falar nas próximas semanas, não só em Cannes.
Méliès no auge: o cineasta (à esq.), em seu estúdio, pintando um cenário
Por Leonardo Cruz (em Paris)
“Se Georges Méliès tivesse nascido nos Estados Unidos, Hollywood já teria feito um ou mais filmes sobre sua vida, imortalizando a lenda.” Assim começa o prefácio de Costa-Gavras e Serge Toubiana para o catálogo que acompanha a exposição “Méliès, Mágico do Cinema”, recém-aberta na Cinemateca Francesa e parcialmente reproduzida na internet.
O raciocínio do presidente e do diretor geral da Cinemateca faz sentido: mágico profissional, pioneiro da ficção e dos efeitos especiais no cinema, autor de mais de 500 filmes, Méliès teve uma trajetória de sucesso na virada do século passado e de fracasso menos de 20 anos depois. Foi dono de um teatro, construiu um estúdio de cinema em sua casa, entrou para a história com o curta fantástico “Viagem à Lua” (1902), perdeu tudo e passou o fim da vida vendendo brinquedos e geringonças em uma lojinha em uma estação de trem parisiense, antes de se recolher ao asilo onde morreu.
É esse percurso fascinante, turbulento e trágico que a Cinemateca reconstrói em três salas do sétimo andar de seu prédio em Bercy, com desenhos, fotos, aparelhos de mágica, roupas, cartas, maquetes, cenários e, claro, filmes.
Na primeira parte da mostra, encontramos o mágico que em 1890 compra o teatro Robert-Houdin em Paris para fazer os números de ilusionismo que mais tarde seriam explorados em seus filmes. É nessa sala também que estão a primeira câmera e o primeiro projetor de Méliès, comprados em Londres em 1896, após a recusa dos irmãos Lumière de vender a ele o maquinário.
A parte seguinte é dedicada ao estúdio envidraçado que Méliès construiu em sua propriedade em Montreuil, na periferia de Paris, em 1897 _o primeiro espaço no mundo projetado exclusivamente para a realização de filmes. A sala tem a maquete e plantas do galpão, fotos do local nos anos 50 (pouco antes de sua demolição) e um painel eletrônico que reconstitui digitalmente a área. É nesse estúdio que o mágico faz filmes cheios de trucagens, como “O Homem-Orquestra” (1900), que você vê a seguir:
A terceira sala, batizada de “O Universo Fantástico de Méliès”, abriga os objetos de cena e figurinos dos curtas do mágico; há as roupas usadas pelo capeta em “Caldeirão Infernal” (1903) e um boneco em tamanho real de uma criatura lunar de “Viagem à Lua”. O espaço também conta um pouco do crescimento da indústria do cinema na França: ao construírem complexos de estúdios no início dos anos 10, Pathé e Gaumont se tornam produtoras de longas-metragens realistas. Tais filmes, como os de Griffith vindos dos EUA, atraem o público e marcam a decadência de Méliès; seus curtas fantásticos agora parecem apenas truques de um mágico ordinário.
Méliès esquecido: em sua banca de brinquedos na estação Montparnasse
É possível explorar um bocado da exposição pelo site da Cinemateca Francesa, que criou um zoom virtual sobre a obra de Méliès. É possível ver, por exemplo, toda a concepção do curta “O Homem da Cabeça de Borracha” (1901), dos desenhos originais do realizador ao resultado final na tela, e comprovar como Méliès era um multi-homem do cinema: financiava, produzia, dirigia, protagonizava, distribuía e projetava suas obras. O zoom virtual também mostra como cineastas contemporâneos exploraram recursos concebidos pelo mágico, de Hitchcock em “Um Corpo de Cai” a Cronenberg em “Scanners”.
A mostra na Cinemateca vem acompanhada de um caminhão de lançamentos e eventos para compreender melhor a obra do diretor: um catálogo de 500 páginas, duas caixas de DVDs com filmes dele e sobre ele, sessões especiais com acompanhamento musical ao vivo e palestras. A seguir, divirta-se com “O Homem da Cabeça de Borracha”.
Mariana Bazo - 5.11.04/Reuters Abimael Guzman, líder do Sendero Luminoso, tema de "La Trinchera Luminosa del Presidente Gonzalo"
Sylvia Colombo (em Buenos Aires)
O Bafici (Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires) terminou ontem, premiando, na seleção internacional, o filme mexicano: "Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo", de Yulene Olaizola. A diretora, de 24 anos, filmou a avó, que vive, justamente, na esquina das ruas Shakespeare e Victor Hugo, na Cidade do México. A senhora conta a história de um assassino que morou no seu edifício por oito anos. Na seleção argentina, venceu "Unidad 25", de Alejo Hoijman, sobre o qual já falamos neste blog.
Cena de "Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo"
O evento foi sucesso de público. Cerca de 170 mil entradas foram vendidas (63% a mais do que no ano passado), num festival que contou com 427 curtas e longa-metragens. A cinematografia local foi representada por 60 filmes.
Apesar de seguir certa tendência internacional de privilegiar documentários ou ficção com muito conteúdo político e social, houve bastante variedade de temas e abordagens.
Disputadíssimas foram, por exemplo, as sessões de filmes sobre música. "Patti Smith - Dream of Life" (Steven Sebring), "Control" (Anton Corbjin), "Joy Division" (Grant Gee), "Shine a Light" (o decepcionante filme sobre os Stones, de Scorsese, que estreou no Bafici e foi, na seqüência, para o circuito comercial portenho) fizeram lotar sessões com grande antecipação.
Cena de "Joe Strummer: The Future Is Unwritten"
Destacou-se, ainda, a retrospectiva dos documentários do britânico Julian Temple, "The Filth and the Fury", "Glastonbury" e o comovente "Joe Strummer; the Future Is Unwritten". O diretor era amigo do líder do Clash e seu filme, apesar de retratar toda a trajetória musical da banda e o contexto cultural em que ela surgiu, tem como fio condutor a vida pessoal do artista. O suicídio do irmão quando ainda era garoto, a relação conflituosa com os outros membros da banda, a depressão depois que esta terminou e a volta por cima após o encontro com os Mescaleros. Mick Jones, Topper Headon, Bono, Steve Buscemi, Johnny Depp, mais amigos e mulheres das fases hippie e punk de Strummer comentam sua obra e personalidade.
Do punk ao terror, assisti no sábado a um filme sobre o Sendero Luminoso ("La Trinchera Luminosa del Presidente Gonzalo"), grupo terrorista de esquerda peruano que atuou nos anos 70 e 80, liderado pelo mítico Abimael Guzman. O norte-americano Jim Finn tentou aproximar-se do tema construindo uma ficção baseada na atuação verdadeira das mulheres nas ações do bando. Uma das guerrilhas mais letais que o mundo conheceu, em que o fanatismo ideológico atingiu níveis surpreendentes, tem seus "ideais" e dogmas expostos por integrantes que estão presas. Dentro da cadeia, elas reproduzem os rituais e a disciplina de punição, crítica interna, treinamentos de luta armada e doutrinamento ideológico.
No final da sessão, Finn explicou à platéia seu espanto ao conhecer o Sendero. "Nos EUA, as pessoas não têm idéia do que realmente foi a história do comunismo no mundo. Pensam simplesmente, esse grupo é bom, aquele é ruim. Prova disso é que acham que Obama é de esquerda. Mas, quando uma pessoa como eu sai do Missouri e vem olhar a esquerda na América Latina, toma um susto. Nada aqui é simples de entender."
O Bafici acabou com música, com um concerto do francês Benjamin Biolay, mescla de Serge Gainsbourg e Nick Cave. Entusiasmou a platéia, apesar da apresentação meio preguiçosa, metade da banda estava num laptop, e o rapaz, um pouco abatido e fumando muito, a la anos 60.
Se o cinema argentino melhorou ou não nesses 10 anos de Bafici, é uma questão a ser discutida. De minha parte, só queria mencionar uma passagem de um texto do jornalista Pablo Sirvén, do "La Nación", que ilustra de modo mais amplo, e irônico, esse período. Quando o Bafici começou, explica: "Menem era presidente; um peso era um dólar e Buenos Aires não respirava outra fumaça que não a dos ônibus. Não existia Youtube; os celulares não tiravam fotos e Bin Laden, provavelmente, ainda não tinha tido a idéia de atirar dois aviões contra o World Trade Center. Palermo Viejo era realmente "viejo" [hoje, por conta do hype, tem várias subdivisões, Hollywood, Soho, etc]; não havia MP3 nem Pilates, e os vídeos ainda era assistidos em aparelhos VHS..."
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo (em férias). O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe da Ilustrada, em especial das repórteres Silvana Arantes e Lúcia Valentim Rodrigues.
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