No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o “documentário satírico” “Viva Zapatero!”, que estréia hoje. Dirigido por Sabina Guzzanti, o filme levanta questões como a democratização dos meios de comunicação e censura, ao atacar o premiê italiano Silvio Berlusconi. Para ouvir o podcast, clique no microfone.
Cinema é o futebol das artes. Como acontece após uma partida, todos têm sempre alguma opinião a dar (neste caso, a respeito de filmes, diretores, atores). Qualquer pessoa já viu no mínimo meia dúzia de filmes na vida e se acha apto a opinar. E, como nos debates futebolísticos, geralmente ouvimos discussões acalorados. Ler posts de internautas, em blogs como o Ilustrada no Cinema, é um bom jeito de identificar essas paixões e esses ódios.
Por isso a função de crítico de cinema é uma das mais incompreendidas e atacadas pelos leitores. Quase sempre, ele é visto como um sujeito ranzinza, que fala mal de filmes ótimos e elogia produções chatérrimas, maçantes. Na melhor das hipóteses, o crítico é visto como o espertalhão que tem uma das melhores e mais fáceis profissões do mundo: ficar sentado numa poltrona e ver filmes o dia inteiro.
Nos EUA, Roger Ebert é um dos mais populares críticos de cinema e construiu uma imagem que vai contra o estereótipo do sujeito brigão. Detalhe: ele é um dos mais populares, e não necessariamente respeitados ou afiados. Após anunciar sua aposentadoria da televisão, devido a problemas de saúde, ele recentemente anunciou seu retorno à imprensa escrita, nas páginas do “Chicago Sun-Times”. Não é exagero dizer que, por ali, ele é referência fortíssima.
Por aqui, Ebert é quase motivo de piada, já que uma infinidade de DVDs carregam alguma frase sua na capa. Experimente ir na loja/locadora mais próxima: há sempre aquele filme que você nunca ouviu falar na vida, mas vai encontrar algo do tipo “Não perca”; “Ótimo filme”; “Grande atuações”, e a assinatura: Roger Ebert.
Ebert, na verdade, apenas vai em outro caminho de nomes como Pauline Kael e Jonathan Rosenbaum, célebres por seus textos analíticos, críticos, teóricos, repletos de contextualização. Para Ebert, tudo é Ok, e ele sempre está mais preocupado em dividir suas impressões de determinado filme com o leitor do que julgar. Ebert acaba, no final, falando mais de sua vida do que do filme em questão. Em um texto sobre “A Doce Vida”, por exemplo, ele fala sobre o fato de ter assistido ao filme quando adolescente, depois por volta dos 30, depois por volta dos 40 etc., e, de cada vez, ter sentido algo diferente e contraditório em relação ao personagem de Marcello Mastroianni.
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A melhor piada de todos os tempos
Se a crítica de cinema pode parecer subjetiva, as eleições na linha “os melhores de” soam ainda mais aleatórias.
Excelente site que mistura comportamento, sexo e cultura, o Nerve, junto com o Independent Film Channel, deixou disponíveis esses tais 50 sketches. É a chance de rever quadros históricos do “Saturday Night Live” ou “Abbott and Costello”.
O vencedor? Um quadro absurdo do genial Monty Python, de 1969, onde John Cleese é o cara que tenta devolver o papagaio que comprou da loja de Michael Palin. O motivo? A ave veio com um pequeno defeito: ele veio morto. Merece o primeiro lugar, de tão idiota, cretino, inteligente, imbecil e surreal (Palin tenta provar que o papagaio está vivo) que o quadro é. Como as boas comédias são. (Aliás, se você é fã do Monty Python, há uma série de lançamentos recentes em DVD do grupo, em especial, as duas primeiras temporadas do "Monty Pyhton's Flying Circus).
Se você conseguir entender o inglês de sotaque britânico carregadíssimo, veja o quadro do "papagaio morto":
Filas gigantescas, briga por ingressos a cada sessão, filmes de diretores badalados ao lado de produção "independente" de países distantes, público jovem de look cyber-universitário, engravatados ou moças de tailler fugindo de reuniões vespertinas, tipos circunspectos de meia-idade e idosos de óculos na ponta do nariz tentando ler os tipos mínimos da grade de programação. Parece a Mostra de SP? Sim, talvez com a única diferença de que, aqui, não há atrasos imensos e cancelamentos de sessão repentinos. Estamos no Bafici (Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires), que neste ano completa seu décimo aniversário.
Espalhado por vários pontos da capital portenha, o evento ocorre em salas do eixo comercial, como multiplex de shoppings, e em espaços mais identificados com esse tipo de programação, como o Centro Cultural Recoleta ou o Malba (Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires). Outra diferença com relação à Mostra de SP: ingressos baratíssimos, a inteira custa 6 pesos argentinos (pouco mais de R$ 3).
Entre os internacionais, muita coisa da programação deste ano ou já passou na Mostra de SP ou está pintando por aí. Mas o que faz do Bafici um evento especial é o fato de ter visto explodir, desde sua primeira edição, a tão falada "buena onda" do cinema argentino, e de, até hoje, acompanhar a trilha desse fenômeno.
Foi no primeiro Bafici, em 1999, que "Mundo Grúa", de Pablo Trapero, surgiu, abrindo caminho para outros diretores dessa geração dourada. "Esperando al Mesias", de Daniel Burman, e "Los Rubios", de Albertina Carri, o seguiram, entre tantos outros.
O que dá pra concluir, de um modo geral, entre os filmes argentinos dessa edição, é que a crise econômica de 2000/2001 deixou de pautar a produção local. Curiosamente, foi em torno desse tema tão funesto que saíram lindos, engenhosos e tocantes filmes, como "O Filho da Noiva" e "Nove Rainhas", entre tantos.
Agora, não são mais os grandes traumas, divisores da opinião política, principalmente, que oferecem o cardápio de assuntos. Se antes, a ditadura militar ou o colapso econômico eram a matéria-prima essencial, agora vêm à tona detalhes da vida cotidiana ou outros aspectos da realidade social do país.
Ontem, assisti a "Unidad 25", um documentário sobre uma prisão evangélica em Buenos Aires. Ignoro se algo do gênero existe no Brasil, mas essa unidade penitenciária reúne detentos devotos dessa religião e outros que se fazem passar por fiéis para ter uma vida menos violenta do que oferecem os cárceres comuns. O diretor Alejo Hoijman conseguiu expor com talento a complexidade e a urgência de vários temas intrincados nessa mesma trama -crime e punição, fé e liberdade religiosa na Argentina.
Ainda entre os locais, causa expectativa o novo filme de Albertina Carri, desta vez sobre um triângulo amoroso que termina de forma violenta no campo, e o resultado de uma iniciativa divertida, em que o renomado Adrián Caetano ("Cronica de uma Fuga") e Roberto Palmieri, um funcionário de segurança de um edifício comercial da cidade, foram convidados a filmar um documentário juntos.
Dependendo da massa polar que jogou as temperaturas pra baixo dos 10 graus nesta semana -e deu aquela preguiça de sair de casa- e do tamanho das filas.... volto a dar notícias sobre filmes que consegui assistir no Bafici até o domingo. Combinado?
É respeitável a lista de bons cineastas com quem o ator francês Vincent Cassel trabalhou, desde "O Ódio" (1995), de Mathieu Kassovitz, o filme que o colocou no mapa do cinema mundial: Gaspar Noé ("Irreversível"), Steven Soderbergh ("12 Homens e um Segredo"), David Cronenberg ("Senhores do Crime"), por exemplo.
Há um filme e um diretor na carreira de Cassel, contudo, que ele preferiria esquecer. Na impossibilidade de apagar "Joana D’Arc de Luc Besson" (1999) de sua filmografia, o francês decidiu tratá-lo como "uma lição". Uma lição do que não fazer, bem entendido.
"Antes de participar desse filme, eu já não gostava muito do Luc Besson. Depois, entendi que não gosto nada do Luc Besson. Quando as filmagens terminaram, eu disse a ele: Nunca mais trabalho com você!", contou Cassel à Folha, em Arraial do Cabo, onde ele está filmando "À Deriva", o terceiro longa de Heitor Dhalia ("Nina", "O Cheiro do Ralo").
A bronca com Besson é por diferenças inconciliáveis na forma de encarar o cinema: "É um cinema oportunista o que ele faz. Aproveitou-se dos filões [temáticos] da juventude e da periferia, para produzir uma seqüência de filmes completamente descerebrados. É tudo o que sou contra", diz Cassel. Como Cassel, 41, foi parar num filme ruim de um cineasta que despreza é a tal lição aprendida: "Eu me dei para este filme. Nem sequer me vendi, porque o dinheiro era bem pouco".
Sobre "Joana D’Arc de Luc Besson", o mestre Inácio Araujo escreveu, na época de seu lançamento no Brasil: "Besson pretende mais ser assimilado pelo cinema americano do que assimilá-lo. Resulta daí uma ‘Joana d’Arc’ estranha, como que saída de um velho filme de Cecil B. DeMille, em que a verdade não vem da história, mas de um poder encantatório que o cinema perdeu à força de ser moderno e que os americanos bem ou mal reencontraram com Spielberg e cia. Não é o que de mais fascinante o cinema já prometeu um dia como arte, mas é o que se impôs na era da pipoca e do multiplex". Fim.
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A produção de "À Deriva", cujas filmagens foram tema de reportagem na Ilustrada deste domingo, contém uma novidade no panorama brasileiro. Orçado em R$ 6,5 milhões, é o primeiro título da parceria que a O2 firmou com a Focus, subsidiária da Universal, para produzir aqui longas com dinheiro de lá. David Linde, executivo da Universal, disse à Variety que pretende produzir entre dois e três filmes por ano no Brasil nesse formato. O que atraiu a Universal, segundo Linde, é a habilidade dos cineastas brasileiros de fazer filmes de cor local que interessem também ao público estrangeiro, ou seja, a possibilidade de cravar um sucesso ao mesmo tempo nacional e para exportação. Citou Fernando Meirelles, Cao Hamburger, Walter Salles e José Padilha como exemplos.
Uma semana de debates, palestras e análises de filmes. Acompanhar todo dia ao menos um filme esmiuçado por um estudioso de cinema ou apresentado por seu realizador. Foi o que fiz nesta última semana, para comprovar a tese que Paris não é só a capital mundial para ver filmes mas também para refletir sobre eles. À maratona:
Segunda, 7/4, 19h30, Cinemateca Francesa, 6 euros
O grande Jean Douchet pergunta: o que você achou do filme?
A semana começa, claro, na Cinemateca, a mãe de todos os cinemas de Paris, onde Jean Douchet apresenta mais uma sessão de seu cineclube. Neste semestre, o tema é o cinema francês de 1995 a 2005. Como toda segunda, Douchet mostra um filme e depois o discute com a platéia. Nesta semana, no último encontro da temporada, o tema é “Histoire(s) du Cinéma”, a série de oito episódios realizada por Jean-Luc Godard de 1988 a 1998. Após a exibição de três capítulos, o veterano crítico da “Cahiers du Cinéma” colhe impressões dos espectadores e, a partir delas, destrincha a obra do cineasta. Para Douchet, Godard é um diretor muito à frente de seu tempo, que “propõe um cinema do depois de amanhã”.
Terça, 8/4, 20h, Cine Pantheon, 7,50 euros
Douchet, de novo! Outra sala, outro tema, outro filme. É mais um cineclube de Jean Douchet, este mensal, sempre na primeira terça do mês, no Pantheon. O filme da noite é “A Herança da Carne” (“Home From the Hill”, 1960), de Vincente Minnelli. Douchet repete o método da noite anterior e ouve a platéia para comentar o longa, melodrama em que um casal em crise disputa a atenção e o afeto do filho adolescente. Em uma hora de conversa, o crítico (e também diretor e roteirista) analisa a forma como Minnelli constrói o universo de cada um desses três personagens centrais, dos diálogos aos cenários.
Quarta, 9/4, , 18h30, Instituto Nacional de História da Arte, zero euro
O curso de cinema do Forum des Images: semanal e gratuito
Ao lado da Cinemateca e do Centro Pompidou, o Forum des Images é um dos principais centros de difusão de cinema em Paris. Atualmente está em obras, mas continua com atividades fora de sua sede. Toda quarta, às 18h30, o Forum organiza no INHA um curso de cinema gratuito, em que convidados analisam filmes sobre Paris ou rodados na cidade. Na quarta passada, durante uma hora, Christophe Gautier, conservador da Cinemateca de Toulouse, comentou “Fantômas”, a série policial francesa dos anos 10, de cinco filmes, de Louis Feuillade. Aqui o formato é de palestra, na qual trechos dos filmes são exibidos. “Fantômas” nos leva de volta ao início do século passado, com imagens de rua que já mostram uma Paris moderna, com seus bondes e estações de metrô. Todas as aulas do curso são filmadas e colocadas na internet. Para assistir, é só clicar aqui.
Quinta, 10/4, 12h, Universidade Sorbonne-Nouvelle, zero euro
A Paris 3 (Sorbonne-Nouvelle) é uma das principais universidades de Paris para quem quer se graduar em cinema. Prova disso é que o chefe de seu departamento de doutorado é Jacques Aumont, um dos principais teóricos de cinema da França. E quinta é o dia em que Aumont dá seu curso sobre a “mise en scène”. A incursão clandestina pela universidade começa por uma aula de “análise do filme”, da graduação. Em um grande anfiteatro, uma professora tenta explicar a cerca de 150 alunos as diferentes formas de percepção da imagem, de compreensão do objeto filmado. Cita teorias e filmes clássicos. Em vão. Só uns 20 prestam atenção, e o resto da galera conversa, fala ao celular, lê revistas... De chorar. Já fora da sala, encontro o cineclube local, que passa dois filmes por dia e nesta semana exibe um ciclo de musicais. Em cartaz: “A Ópera do Malandro”, de Ruy Guerra. Por fim, ninguém aparece para a aula de Aumont, nem o próprio. Descubro que o professor suspendera o curso neste mês para reorganizar o programa. Novas aulas, só em maio. Ok, volto em maio.
Sexta, 11/4, 20h, Cine Le Saint Germain des Près, 8,50 euros
“A Retirada”, filme mais recente de Amos Gitaï, é uma das estréias da semana na França, e o diretor israelense vai ao Saint Germain des Près para falar ao público. Conta que decidiu fazer um filme sobre a saída de colonos israelenses da Faixa de Gaza após ter testemunhado a retirada na região, em setembro de 2005. Viu tudo ao lado do filho, então no Exército de Israel. “Aprendi a ver esse episódio pelo lado dos colonos, contra quem sempre me opus, e tentei fazer com que este filme tivesse também a visão deles”, comenta o diretor. Exibido em SP na última Mostra, “A Retirada” ainda não tem previsão de estréia no circuito brasileiro.
Na entrada do cinema: o público faz fila para ouvir Amos Gitaï
Sábado, 12/4, 20h30, Cinemateca Francesa, 4 euros
De volta à Cinemateca, para mais um mergulho no passado, numa retrospectiva de Émile Cohl. Trata-se de um dos pioneiros da animação, com filmes que datam de 1908. As historiadoras de cinema Isabelle Marinone e Valérie Vignaux analisam a forma como Cohl explora em sua obra a caricatura e o grotesco. Dois músicos acompanham a sessão, tocando as músicas originais que acompanhavam as animações de Cohl. Tudo muito lúdico e divertido.
Domingo, 13/4, 11h, Cine L’Arlequin, 6 euros
Cerca de 150 pessoas madrugam no domingo para ir ao Arlequin para o cineclube semanal de Claude-Jean Philippe. Crítico e ensaísta, autor de livros sobre Jean Renoir e Jacques Truffaut, Philippe apresenta a pré-estréia de “Em Minha Memória”, terceiro longa de Saverio Constanzo (“Invasão de Domicílio”, 2004). O diretor italiano viria para comentar o filme, mas cancelou na última hora, para cuidar do filho doente. Após a sessão deste belo drama sobre os questionamentos existenciais de um jovem seminarista, Philippe conduz um animado debate com a platéia (há até um jesuíta), dividida sobre a visão amarga que Constanzo tem da Igreja Católica.
Ufa! A sessão de “Em Minha Memória” encerra essa pequena maratona de sete dias. Mas a corrida só termina aqui, neste post, porque hoje à noite tem mais cinema. E amanhã também. E depois de amanhã. E depois, e depois, e depois...
“Um país sem cinema é como uma casa sem espelhos.” A frase, usada pelo produtor Luiz Carlos Barreto ao agradecer a homenagem que recebeu do CineCeará por seus 80 anos de idade, na noite do último sábado em Fortaleza, aplica-se sem emenda aos filmes selecionados para a competição de longas-metragens ibero-americanos do festival que se realiza até a próxima quinta em Fortaleza.
Após a homenagem, foi exibida a ficção venezuelana “Cartões Postais de Leningrado”, segundo longa da diretora Mariana Rondón (que já integrou a seleção da última Mostra Internacional de Cinema de SP). O mergulho no tema da guerrilha de esquerda dos anos 60 em seu país poderia ser confundido com as diretrizes do projeto do presidente Hugo Chávez ao criar a Fundação Villa del Cine, estúdio estatal de cinema venezuelano constituído com a ambição de combater “a ditadura de Hollywood” sob o lema “luzes, câmera, revolução”.
Em vez de se limitar a um acerto de contas com o passado (opção do documentário chileno “Circunstâncias Especiais”, apresentado na noite de sexta), Rondón explora hábitos e costumes populares e registra aspectos de uma família que vive em uma região rural e tem alguns de seus filhos atuando na guerrilha. Para evitar os riscos da cartilha ideológica, a diretora contrabandeia para dentro do filme um arsenal lúdico, graças à adoção do ponto de vista das duas crianças que narram a história.
A repressão policial, por exemplo, não guarda nada das ficções brasileiras que se dedicaram a tema equivalente. A tortura em tanques de água faz surgir delas um imaginário homem-rã, com seu aparato de mergulhador. Os tiros que os personagens levam em combates, em vez de sanguinolência explícita transformam-se em intervenções gráficas, com animações em vermelho. Com tais escolhas, ela escapa do pedagogismo, e o conjunto, se não chega a entusiasmar, não deixa de ser simpático.
*** Na noite de ontem foi a vez do veterano Carlos Reichenbach mostrar ao público cearense seu longa mais recente, “Falsa Loura”, que estréia em circuito comercial em SP e no Rio nesta semana.
Com uma peruca loura na cabeça, Reichenbach encerrou sua subida ao palco com a frase: “A loura é falsa, mas o filme é de verdade”. Fórmula bastante justa, como se pôde verificar em seguida, nas desventuras da jovem Silmara, uma garota operária da periferia que vive cercada de ilusões que é a cara de jovens brasileiras do Brasil afora.
Desse embate entre falsidades e verdades se nutre a ficção de “Falsa Loura” e todo o cinema de Reichenbach. Quem conhece os filmes do diretor sabe que ele é avesso às tramas homogêneas e que adota com freqüência as rupturas de tom, acentua inverossimilhanças e cria seus filmes a partir de uma sucessão de desajustes entre sonhos dos personagens e a realidade brutalizante.
Em “Falsa Loura” ele retoma temas já trabalhados no antológico “Anjos do Arrabalde” e em “Garotas do ABC”, em relação ao qual, seu novo trabalho se assemelha a uma pedra lapidada.
Enquanto naquele o ambiente social se sobrepunha com uma violência por vezes demasiado discursiva, “Falsa Loura” privilegia as subjetividades, ao acompanhar de dentro o processo de desilusão que persegue a personagem.
Silmara funciona como uma agente do falso, desde quando assume a tarefa de transformar a colega de apelido “bruxinha” em uma Cinderela, mesmo que seja por uma noite. Em seguida, a personagem vai ela mesma passar por um processo de auto-desvendamento, tanto mais doloroso quanto mais ela se deixa enredar numa teia de ilusões. A fórmula “conhece-te a si mesmo”, do filósofo grego Sócrates, que está presente em citações ao longo do filme, persegue a personagem como uma danação de tragédia grega.
Mas como Reichenbach faz cinema e não filosofia, o filme não se resume a citações eruditas, preferindo desenhar dramaturgicamente o périplo da dor na vida de Silmara.
Alguns vão taxar de inverossímeis as viradas do roteiro, mas elas se justificam por estarem sempre ligadas à intromissão das ilusões no terreno da realidade da operária.
Elas fazem parte da estratégia de fazer das falsidades uma ferramenta que Reichenbach manipula com precisão em sua obsessão de realizar um cinema de verdade.
(O crítico Cássio Starling Carlos viaja a Fortaleza a convite do CineCeará)
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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