Ilustrada no Cinema

 

 

Os estranhos de Jim Jarmusch

Os estranhos de Jim Jarmusch

 

Por Bruno Yutaka Saito

Era 2003, e o Cinesesc resolvera abrir uma micromostra-relâmpago com dois filmes de Jim Jarmusch: “Estranhos no Paraíso” (84) e “Down by Law” (86). Surpresa: na primeira exibição, do primeiro filme, uma fila quilométrica fazia o público dobrar a esquina da rua Augusta.

Supresa, mas nem tanto. A pequena multidão ali presente apenas confirmava o fato de que Jarmusch está num lugar privilegiado da memória afetiva de quem acompanhou seu surgimento, nos anos 80, ou apenas ouviu relatos de amigos apaixonados.

Para esses fãs, a boa notícia: “Permanent Vacation” (80), seu primeiro filme, visto por pouquíssimas pessoas por aqui, já está nas lojas de DVDs. Na seqüência, chegam “Estranhos no Paraíso” e “Dead Man” (95).

Jarmusch em registro ainda bruto, como costumam ser filmes de estréias, “Permanent Vacation” acompanha Allie, jovem fã de Charlie Parker, que vagueia à esmo pelo Lower East Side, em Manhattan (Nova York), que mais parece uma cidade destruída por bombas (o registro de época é um dos pontos fortes do filme). Ele está num profundo vazio existencial, e vai encontrando estranhos personagens pelo caminho.

Ou seja, personagens solitários em uma trama sobre o “nada”, território que Jarmusch refinaria em suas produções seguintes. A diferença é que, em “Permanent Vacation”, o tom cômico fica um pouco por baixo do drama. Não é exagero comparar a melancolia de Allie ao zeitgeist da época, do pós-punk, ainda que seja o jazz que dê o tom do filme.

E por que Jarmusch causa filas e fascínio? É fácil entender a razão na geração próxima dos 40 anos. Filmes como “Estranhos no Paraíso” fazem parte de um contexto que englobava bandas como The Smiths, Legião Urbana e The Cure, livros de Caio Fernando Abreu etc., nomes, enfim, que evocam um romantismo urbano, adequado para certo clima de fim da civilização. Para os mais novos, desolação, alienação, solidão e busca por contato e afeto, questões também tocadas por Jarmusch, são fatores que sempre vão causar fascínio.

Veja abaixo uma cena, com uma sensacional dança de Allie, personagem que adota o lema “viva intensamente, morra jovem”:

 

A seguir, trailer de "Estranhos no Paraíso":

E um videoclipe de "Dead Man" (com trilha de Neil Young):

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h39 PM

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Fernando Meirelles abre Cannes

Fernando Meirelles abre Cannes

Por Silvana Arantes

É oficial. O Festival de Cannes acaba de anunciar que "Blindness", o novo filme de Fernando Meirelles, abrirá a sua 61ª edição, no próximo dia 14 de maio, competindo pela Palma de Ouro. Em geral, os filmes de abertura em Cannes são exibidos fora de competição. O trailer está aqui.

Escrito por Silvana Arantes às 4h32 PM

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“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

 
Cena de "Homem de Ferro"

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Encerrado o primeiro quadrimestre, nenhum filme lançado no Brasil se aproximou da faixa de três milhões de espectadores. A liderança está com “Eu Sou a Lenda” (2,222 milhões), seguido de “Meu Nome Não É Johnny” (2,1 milhões) e “Alvin e os Esquilos” (1,411 milhões), de acordo com levantamento do Filme B.

A retração de público em relação a 2007 _que já havia mostrado redução na comparação com 2006_ tem variado, nos últimos finais de semana, entre 1% e 33%. Distribuidores e exibidores a atribuem, entre diversos fatores, à falta de títulos com fôlego para atingir números expressivos.

Em 2007, cinco filmes chegaram à marca simbólica dos 3 milhões de espectadores: “Homem-Aranha 3” (6,141 milhões), “Shrek Terceiro” (4,688 milhões), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (4,263 milhões), “Piratas do Caribe 3” (3,826 milhões) e “Uma Noite no Museu” (3,030 milhões).

A partir desta semana, no entanto, o fator oferta não poderá mais ser invocado para explicar a retração. Começam amanhã (quarta, dia 30) a entrar em campo os candidatos aos primeiros postos do ranking em 2008, com o lançamento de “Homem de Ferro”. A distribuidora Paramount informa que serão 500 cópias _333 legendadas e 167 dubladas. O número equivale a algo entre 20% e 25% do total de salas em funcionamento no país, pouco superior a 2 mil.

Se esses filmes também não obtiverem números significativos, outras razões para a crise ganham força. Preço dos ingressos, pirataria e mudanças de hábito do público, sobretudo o jovem, lideram a fila, não necessariamente nessa ordem.

Acompanhe o calendário da corrida dos milhões no Brasil, ou a “turma das 500 cópias”:

9 de maio: “Speed Racer”, dos irmãos Andy e Larry Wachowski, Warner

22 de maio: “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, Paramount

30 de maio: “As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian”, de Andrew Adamson, Disney

13 de junho: “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan, Fox; e “O Incrível Hulk”, de Louis Leterrier, Universal

18 de julho: “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, Warner

7 de novembro: “007 – Quantum of Solace”, de Marc Forster, Sony

21 de novembro: “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, de David Yates, Warner

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h18 PM

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Haneke reafirma a vitória da barbárie

Haneke reafirma a vitória da barbárie


O original: Paul (Arno Frisch) flerta com
 a platéia em “Funny Games” (1997)

Por Leonardo Cruz (em Paris)

O que motiva um cineasta a refazer o mesmo filme dez anos depois? E um filme como “Funny Games”, que transforma a platéia em cúmplice de uma sessão lúdica de tortura e assassinato? A resposta do diretor Michael Haneke: o longa original, de 1997, rodado na Áustria e falado em alemão, não atingiu seu alvo.

“O primeiro filme já se endereçava aos espectadores anglófonos, consumidores de violência. Mas não funcionou. A língua foi um obstáculo, e o filme ficou restrito nos EUA ao circuito de arte. Por isso aceitei esse remake”, declarou Haneke ao jornal “Libération”, por conta do recente lançamento na França de “Funny Games U.S.”.

Produção da Warner Independent, filmado no ano passado nos EUA, falado em inglês e com Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt como protagonistas, o novo “Funny Games” é uma cópia fiel ao original, mesmo argumento, mesmos diálogos, mesmos planos, mesmo exercício de sadismo. Vemos novamente a história da família rica e feliz que tem sua casa na beira do lago gentilmente invadida por dois jovens que brincam de matar. E mais uma vez aceitamos acompanhar o jogo que massacra pai, mãe, filho e cãozinho fofo.


A cópia: Paul (Michael Pitt) flerta com
 a platéia em “Funny Games U.S.” (2007)

Com nova roupagem, “Funny Games U.S.” não tem mais o efeito surpresa do original, mas a repetição das mesmas seqüências de violência talvez seja mais atordoante do que há uma década, porque tudo o que Hakene nos mostra (ou apenas nos sugere) continua atual. Ou melhor, torna-se ainda mais atual, plausível, nestes tempos de Columbines e Abu Ghraibs.

Ao refazer o mesmo filme de horror, Haneke parece querer nos dizer que o tempo passou, e a barbárie continua, prevalece, e que estamos nos habituando a ela. Como disse o diretor no “Libération”, “ninguém é inocente”, todos somos jogadores.

Por não abrir mão dessa barbárie, “Funny Games U.S.” foi rejeitado por redes de multiplex norte-americanas. Estreou nos EUA em março em 288 salas e acumula até agora renda doméstica de US$ 1,3 milhão, números bastante modestos para os padrões hollywoodianos. E sinal de que, mesmo falada em inglês, a mensagem de Haneke não atinge plenamente seu alvo.

No Brasil, O longa está comprado pela distribuidora Califórnia e, segundo o portal Filme B, deve estrear em agosto. A seguir, os trailers dois filmes de Haneke, primeiro o austríaco, depois o americano.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 12h05 PM

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Cinema na Virada

Cinema na Virada

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a programação de cinema da Virada Cultural, evento cultural que toma São Paulo durante 24 horas, a partir do sábado, às 18h. Entre os destaques, a Galeria Olido traz a Mostra Internacional de Cinema na Virada, com filmes como o mexicano “O Violino” e o chileno “Machuca”, e o Sesc Ipiranga, que vai exibir curtas de Charles Chaplin ao ar livre. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h42 AM

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Tom Kalin fala sobre “Pecados Inocentes”

Tom Kalin fala sobre “Pecados Inocentes”

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Quase um ano depois de fazer sua premiére mundial no Festival de Cannes, “Pecados Inocentes” estréia hoje (sexta) em São Paulo (já estava em cartaz no Rio de Janeiro desde a semana passada), será exibido amanhã (sábado) no Festival Tribeca, em Nova York, e tem estréia prevista nos EUA para o final de maio.

Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Tom Kalin desde “Swoon – Colapso do Desejo” (1992), o filme se baseia no livro “Savage Grace”, de Natalie Robins e Steven M. L. Aronson, a “verdadeira história das relações fatais em uma rica e famosa família norte-americana”, os Baekeland.

Abaixo, os principais trechos de entrevista concedida ontem por Kalin à Folha.

“Tenho uma carreira eclética. Trabalhei como produtor para outros diretores, por exemplo. Fiz diversos trabalhos experimentais em cinema e vídeo, em paralelo a meus filmes narrativos, ao longo dos últimos 20 anos. Sou professor no programa de graduação da Universidade Columbia há uma década. Depois de ‘Swoon’, produzi ‘O Par Perfeito’ (1994) e ‘Um Tiro para Andy Warhol’ (1996). Desenvolvi dois longas de não-ficção – um sobre as relações entre Patti Smith e Robert Mapplethorpe, e outro sobre a banda de rock norte-americana The Monks. Escrevi o roteiro de ambos, mas não os filmei. Durante os anos 90, fiz vários curtas de ficção, como ‘Geoffrey Beene 30’, com Marcia Gay Harden, Claire Danes e Viveca Lindfors, e ‘Plain Pleasures’, com Frances McDormand, Will Patton e Lili Taylor. Meu trabalho experimental recente inclui ‘Every Wandering Cloud’ e ‘Cheap & Vulgar’, que existem também em forma de instalação, e que já foram exibidos em festivais, canais de TV e no circuito de galerias e museus.”

“Minha produtora Christine Vachon e eu dividimos uma predileção pouco saudável por histórias sobre crimes verdadeiros. Ela me deu ‘Savage Grace’ enquanto eu fazia ‘Swoon’ e o livro me agarrou pela garganta. Está um degrau acima de muitos livros do gênero, com uma inesquecível mistura de sensacionalismo de tablóide com tragédia grega. É contado em primeira pessoa, nas vozes dos personagens, uma obra jornalística notável que nos oferece muitas visões contraditórias. Christine e eu tentamos, sem sucesso, fazer um projeto com o grupo The Really Useful Group, de Andrew Lloyd Weber, em meados dos anos 90 (até então, nenhuma versão musical havia sido planejada). Por muitos anos, ‘Savage Grace’ ainda permaneceu em minha imaginação. Assim, começamos a rolar a bola outra vez. A partir do momento em que Julianne Moore entrou no projeto, tudo começou a andar. Filmamos o longa inteiramente em Barcelona (Julianne é a única norte-americana do elenco) no verão de 2006.”

“Julianne foi a única pessoa que eu poderia imaginar como Barbara. Eu a conhecia superficialmente dos períodos em que Todd Haynes estava filmando ‘Safe – Mal do Século’ e ‘Longe do Paraíso’. Ela é muito amistosa, pé no chão. Eu escrevi a ela uma carta pessoal e enviei junto o roteiro assombroso de Howard Rodman. Uma semana depois, estávamos almoçando. Ela disse ‘sim’ imediatamente e foi o seu envolvimento que tornou o filme possível.”

“Fiz testes com cerca de 100 atores para o papel de Antony. Eddie Redmayne simplesmente apareceu e ficou com o personagem. Ele era surpreendente, envolvente, passando de um rapaz terno e frágil para um homem ansioso, e com um rosto inesquecível que evoca os anos 60. Ele também se parece muito com o que poderia ser um filho de Julianne, e isso acrescenta um poder visceral ao papel.”

“Dirigir atores é uma dança complexa e única com cada pessoa que trabalha com você. O papel do diretor é orquestrar a atenção do público, e não dar aos atores as falas do diálogo. Às vezes, a melhor coisa que se pode fazer é dar ao ator espaço e liberdade para correr riscos. Julianne é notável em sua maneira de encontrar os menores e mais precisos momentos de comportamento e de ação física que trazem vida à cena. Escalar bem o elenco de um filme é a melhor desforra porque, se (como diz o clichê) atuar é reagir, o filme se beneficia enormemente de uma grande química entre os atores.”

“Barbara e Tony são personagens simbióticos; no sentido místico, quase as duas metades de um todo. O filme é baseado na perspectiva de ambos, embora na visão tradicional possamos ver Barbara como a principal protagonista porque ela conduz a história para a frente, literalmente. Penso que, nesse filme, a empatia e a compaixão são mais importantes do que a tradicional ‘identificação’ com os personagens. A voz over de Tony é também uma janela dentro do filme e seu personagem oferece um aspecto emocional diferente para a história. Barbara e Tony são apanhados em uma dança terrível e fatal.”

(Atenção: abaixo, o diretor conta detalhes da trama)

“O filme é a história de um profundo fracasso nos mais simples deveres do amor. Por exemplo, o dever de um marido amar a esposa, ou o de pai e mãe amarem sua criança... Essa família acabou transformando o que poderia ser carinhoso e libertário em uma prisão claustrofóbica. Enquanto fazia o filme, eu estava muito interessado nesta questão: Tony é quem mata Barbara ou a morte dela é, de certa forma, um complexo suicídio? Ela usa seu filho como instrumento para terminar com a própria vida? A tragédia é uma história humana fundamental e, embora fortemente movido por essas emoções, penso que foi possível também trazer empatia e compaixão para o filme.”

“Tomo emprestada a sabedoria de uma frase de Elia Kazan: ‘Dirigir consiste em transformar psicologia em comportamento’. Como muitos já disseram, cinema é um meio para ‘mostrar’ e não ‘dizer’. Quis fazer uma abordagem lírica e visual do colapso mental de Barbara e Tony, e baseá-la em momentos específicos de comportamento que trazem para a luz o que está debaixo da superfície.”

“Eu e meus colaboradores estávamos interessados em expressar os cinco períodos de tempo, de 1946 a 1972, com referências à linguagem cinematográfica daquelas épocas. Assisti a filmes como ‘Gilda’, ‘Bela da Tarde’, ‘O Criado’, ‘Desprezo’ e ‘Morte em Veneza’ para saturar meus olhos e sensibilidade. (Robert) Bresson estava na minha cabeça também. Apesar disso, não vejo esse filme como ‘pós-moderno’. Quis encontrar uma linguagem sincera e específica para ‘Pecados Inocentes’. Ao mesmo tempo em que fomos inspirados por muitos diretores, procuramos sempre achar uma linguagem visual única, misteriosa e específica para essa história. Cada filme dirá a você como filmá-lo se você o ouvir atentamente.”

“Hoje, admiro mais cineastas do que os que aparecem nesta lista, mas são eles que vêm à mente nesta manhã, sem nenhuma ordem de preferência: Lucrecia Martel, Agnés Varda, Hou Hsiao-hsien, Alfonso Cuarón,  Todd Haynes, Paul Thomas Anderson, Kelly Reichardt, Gus Van Sant, Lynne Ramsay, Claude Chabrol, Karïm Ainouz, Wong Kar-wai.”

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h39 PM

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Em busca do filme perdido

Em busca do filme perdido

Por Cássio Starling Carlos

O tempo e a memória, os amores perdidos e a impossibilidade de reencontrá-los são os temas mais recorrentes nos filmes de Wong Kar-wai, como se pode conferir, ainda uma vez, no belo “Um Beijo Roubado”, incursão do diretor chinês em território norte-americano. Em ritmo de conta-gotas, o público brasileiro pôde conhecer as minúcias do ritmo ao longo de toda a obra de WKW, desde que se decidiu distribuir os trabalhos anteriores à sua repercussão internacional, cujo marco é “Amores Expressos”.

Mas ficou faltando “Ashes of Time”, um título considerado atípico, em particular por ser uma incursão no universo “wuxia”, o filme de artes marciais.

Depois de ser exibido na 19ª Mostra Internacional de São Paulo, em 1995, “Ashes of Time” virou raridade. Agora em versão “redux”, “Ashes of Time” tem seu relançamento anunciado com pompa, com direito a exibição especial durante o próximo Festival de Cannes, de 14 a 25 de maio. A Sony Picture Classics já fechou com a Fortissimo a distribuição para o mercado norte-americano. E espera-se que desperte a atenção de algum distribuidor brasileiro.

Segundo informações dispersas, para “Ashes of Time Redux” WKW não rodou novo material, mas remasterizou, restaurou e reeditou o original. A intenção do diretor foi reorganizar a estrutura narrativa, impor mais clareza e formatar uma versão definitiva para posterior lançamento em DVD.

Acostumados ao universo predominantemente urbano do direto, mesmo que por vezes sujeito a nostalgias, os fãs dos filmes de WKW podem estranhar seu mergulho no tempo imemorial em “Ashes of Time”. Descrito sumariamente como “filme de kung fu”, “Ashes of Time” faz parte do esforço de WKW em se adaptar ao modelo industrial do cinema de Hong Kong, calcado na produção de gêneros. Depois de realizar um policial e um melodrama, WKW se dedicou ao “wuxia”. Como a ênfase na complexidade visual exigiu uma pós-produção mais demorada, WKW aproveitou o tempo para rodar, com leveza e agilidade, “Amores Expressos”, o filme que fez seu nome circular no Ocidente. 

De kung fu, contudo, não há muito em “Ashes of Time”. As lutas estão lá, coreografadas como de hábito no cinema local, mas passam por um processo de desconstrução na imagem, que se tornaria daí em diante uma das marcas recorrentes dos filmes de WKW. O gesto é decomposto, desacelerado, até mesmo paralisado, e reacelerado, num esforço de tornar visível o tempo por trás da ação. É curioso observar como WKW formata esse recurso justamente nas cenas em que o movimento se impõe como o centro da nossa atenção.

À margem desses momentos, o diretor tece uma complexa trama de nostalgia e evocações, a partir das figuras dos dois heróis centrais e das mitologias que os acompanham. A sobreposição de tempos, a indeterminação do foco da narrativa, a aparição de personagens em memórias desconectadas tornam a compreensão do filme bastante complicada.

Entretanto, a imersão num universo que lhe é estranho em aparência torna ainda mais evidentes as recorrências formais do diretor. Dá para conferir na telinha do YouTube, mas espera-se que a versão “redux” não demore a chegar a uma telona ao nosso alcance.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h04 PM

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Maio de 1968, em Cannes, e “Partner”

Maio de 1968, em Cannes, e “Partner”

 
Cena de "Partner"

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Os organizadores do Festival de Cannes divulgam amanhã (dia 23), em entrevista coletiva, a programação deste ano. A 61ª edição do evento, a ser realizada de 14 a 25 de maio, fará homenagens à 21ª, interrompida pelos eventos de maio de 1968.

A seção Cannes Classics projetará filmes que integravam a mostra competitiva daquele ano. “Eu Te Amo, Eu Te Amo”, do francês Alain Resnais, “Peppermint Frappé”, do espanhol Carlos Saura, e “Quatro Devem Morrer”, do inglês Peter Collinson, estão entre os que já foram anunciados.

O festival de 1968 foi aberto em 10 de maio, sexta-feira, com a exibição de uma cópia em 70 mm de “...E o Vento Levou” (1939). Quatro dias antes, em Paris, as universidades haviam sido fechadas e a polícia ocupava o Quartier Latin. A escalada de manifestações começara em 22 de março, na Universidade de Nanterre, cujas dependências administrativas foram ocupadas por estudantes em represália às prisões que se seguiram a um protesto contra a intervenção militar dos EUA no Vietnã.

Em Cannes, profissionais de cinema solidários aos estudantes articularam o apoio público a eles. A Associação Francesa da Crítica propôs que as atividades fossem suspensas no dia 13, segunda-feira, para que todos participassem da manifestação nacional convocada para o dia. O fundador do festival e então seu diretor-geral, Robert Favre Le Bret (1905-1987), não acatou a sugestão. Decidiu apenas suspender festas e demais eventos sociais.

Os cineastas François Truffaut (1932-1984), Jean-Luc Godard, Roger Vadim (1928-2000) e Claude Lelouch, bem como o ator Jean-Pierre Léaud, entre muitos outros, organizaram protestos contra o afastamento de Henri Langlois (1914-1977) da direção da Cinemateca, por determinação do ministro da Cultura, o escritor André Malraux (1901-1976). Integrantes do júri de longas-metragens, como a atriz Monica Vitti e os cineastas Louis Malle (1932-1995) e Roman Polanski, também saíram às ruas.

Abaixo, Godard, Truffaut e Polanski em um debate:

 

No dia 18, sábado, gritos de “revolução, revolução” calaram na sala escura os de “projeção, projeção” antes do início de “Peppermint Frappé”. Godard afirmou que o filme seria exibido “contra a vontade de seu autor”.

Na manhã seguinte, Le Bret entrega os pontos em nota oficial: “O conselho de administração decide encerrar o 21º Festival Internacional de Cinema no domingo, 19 de maio, ao meio-dia”. Não houve premiação.

Enquanto Cannes vivia a mais incendiária de suas edições, Bernardo Bertolucci fazia na Itália “Partner”, recém-lançado em DVD no Brasil. O colunista José Geraldo Couto escreveu na Ilustrada sobre o disco, que inclui nos extras duas longas entrevistas, uma com o diretor e outra com o montador Roberto Perpignani.

Bertolucci conta como o ator francês Pierre Clémenti (1942-1999), que viajava até Paris durante os finais de semana, lhe trazia informações sobre as manifestações estudantis, incluindo palavras de ordem que foram parar no filme. Enquanto “Os Sonhadores” (2003) é “sobre” 1968, “Partner” é “de” 1968, e expressa com riqueza aquele maio do qual muito ainda vai se falar nas próximas semanas, não só em Cannes.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h39 AM

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No mundo fantástico de Méliès


Méliès no auge: o cineasta (à esq.), em seu estúdio, pintando um cenário

Por Leonardo Cruz (em Paris)

“Se Georges Méliès tivesse nascido nos Estados Unidos, Hollywood já teria feito um ou mais filmes sobre sua vida, imortalizando a lenda.” Assim começa o prefácio de Costa-Gavras e Serge Toubiana para o catálogo que acompanha a exposição “Méliès, Mágico do Cinema”, recém-aberta na Cinemateca Francesa e parcialmente reproduzida na internet.

O raciocínio do presidente e do diretor geral da Cinemateca faz sentido: mágico profissional, pioneiro da ficção e dos efeitos especiais no cinema, autor de mais de 500 filmes, Méliès teve uma trajetória de sucesso na virada do século passado e de fracasso menos de 20 anos depois. Foi dono de um teatro, construiu um estúdio de cinema em sua casa, entrou para a história com o curta fantástico “Viagem à Lua” (1902), perdeu tudo e passou o fim da vida vendendo brinquedos e geringonças em uma lojinha em uma estação de trem parisiense, antes de se recolher ao asilo onde morreu.

É esse percurso fascinante, turbulento e trágico que a Cinemateca reconstrói em três salas do sétimo andar de seu prédio em Bercy, com desenhos, fotos, aparelhos de mágica, roupas, cartas, maquetes, cenários e, claro, filmes.

Na primeira parte da mostra, encontramos o mágico que em 1890 compra o teatro Robert-Houdin em Paris para fazer os números de ilusionismo que mais tarde seriam explorados em seus filmes. É nessa sala também que estão a primeira câmera e o primeiro projetor de Méliès, comprados em Londres em 1896, após a recusa dos irmãos Lumière de vender a ele o maquinário.

A parte seguinte é dedicada ao estúdio envidraçado que Méliès construiu em sua propriedade em Montreuil, na periferia de Paris, em 1897 _o primeiro espaço no mundo projetado exclusivamente para a realização de filmes. A sala tem a maquete e plantas do galpão, fotos do local nos anos 50 (pouco antes de sua demolição) e um painel eletrônico que reconstitui digitalmente a área. É nesse estúdio que o mágico faz filmes cheios de trucagens, como “O Homem-Orquestra” (1900), que você vê a seguir:



A terceira sala, batizada de “O Universo Fantástico de Méliès”, abriga os objetos de cena e figurinos dos curtas do mágico; há as roupas usadas pelo capeta em “Caldeirão Infernal” (1903) e um boneco em tamanho real de uma criatura lunar de “Viagem à Lua”. O espaço também conta um pouco do crescimento da indústria do cinema na França: ao construírem complexos de estúdios no início dos anos 10, Pathé e Gaumont se tornam produtoras de longas-metragens realistas. Tais filmes, como os de Griffith vindos dos EUA, atraem o público e marcam a decadência de Méliès; seus curtas fantásticos agora parecem apenas truques de um mágico ordinário.


Méliès esquecido: em sua banca de brinquedos na estação Montparnasse

É possível explorar um bocado da exposição pelo site da Cinemateca Francesa, que criou um zoom virtual sobre a obra de Méliès. É possível ver, por exemplo, toda a concepção do curta “O Homem da Cabeça de Borracha” (1901), dos desenhos originais do realizador ao resultado final na tela, e comprovar como Méliès era um multi-homem do cinema: financiava, produzia, dirigia, protagonizava, distribuía e projetava suas obras. O zoom virtual também mostra como cineastas contemporâneos exploraram recursos concebidos pelo mágico, de Hitchcock em “Um Corpo de Cai” a Cronenberg em “Scanners”.

A mostra na Cinemateca vem acompanhada de um caminhão de lançamentos e eventos para compreender melhor a obra do diretor: um catálogo de 500 páginas, duas caixas de DVDs com filmes dele e sobre ele, sessões especiais com acompanhamento musical ao vivo e palestras. A seguir, divirta-se com “O Homem da Cabeça de Borracha”.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h35 PM

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Pop, terror e canção francesa encerram Bafici

Mariana Bazo - 5.11.04/Reuters

 Abimael Guzman, líder do Sendero Luminoso,
 tema de "La Trinchera Luminosa del Presidente Gonzalo"

Sylvia Colombo (em Buenos Aires)
 
O Bafici (Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires) terminou ontem, premiando, na seleção internacional, o filme mexicano: "Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo", de Yulene Olaizola. A diretora, de 24 anos, filmou a avó, que vive, justamente, na esquina das ruas Shakespeare e Victor Hugo, na Cidade do México. A senhora conta a história de um assassino que morou no seu edifício por oito anos. Na seleção argentina, venceu "Unidad 25", de Alejo Hoijman, sobre o qual já falamos neste blog.


Cena de "Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo"

O evento foi sucesso de público. Cerca de 170 mil entradas foram vendidas (63% a mais do que no ano passado), num festival que contou com 427 curtas e longa-metragens. A cinematografia local foi representada por 60 filmes.
 
Apesar de seguir certa tendência internacional de privilegiar documentários ou ficção com muito conteúdo político e social, houve bastante variedade de temas e abordagens.
 
Disputadíssimas foram, por exemplo, as sessões de filmes sobre música. "Patti Smith - Dream of Life" (Steven Sebring), "Control" (Anton Corbjin), "Joy Division" (Grant Gee), "Shine a Light" (o decepcionante filme sobre os Stones, de Scorsese, que estreou no Bafici e foi, na seqüência, para o circuito comercial portenho) fizeram lotar sessões com grande antecipação.


Cena de "Joe Strummer: The Future Is Unwritten"

Destacou-se, ainda, a retrospectiva dos documentários do britânico Julian Temple, "The Filth and the Fury", "Glastonbury" e o comovente "Joe Strummer; the Future Is Unwritten". O diretor era amigo do líder do Clash e seu filme, apesar de retratar toda a trajetória musical da banda e o contexto cultural em que ela surgiu, tem como fio condutor a vida pessoal do artista. O suicídio do irmão quando ainda era garoto, a relação conflituosa com os outros membros da banda, a depressão depois que esta terminou e a volta por cima após o encontro com os Mescaleros. Mick Jones, Topper Headon, Bono, Steve Buscemi, Johnny Depp, mais amigos e mulheres das fases hippie e punk de Strummer comentam sua obra e personalidade.
 
Do punk ao terror, assisti no sábado a um filme sobre o Sendero Luminoso ("La Trinchera Luminosa del Presidente Gonzalo"), grupo terrorista de esquerda peruano que atuou nos anos 70 e 80, liderado pelo mítico Abimael Guzman. O norte-americano Jim Finn tentou aproximar-se do tema construindo uma ficção baseada na atuação verdadeira das mulheres nas ações do bando. Uma das guerrilhas mais letais que o mundo conheceu, em que o fanatismo ideológico atingiu níveis surpreendentes, tem seus "ideais" e dogmas expostos por integrantes que estão presas. Dentro da cadeia, elas reproduzem os rituais e a disciplina de punição, crítica interna, treinamentos de luta armada e doutrinamento ideológico.
 
No final da sessão, Finn explicou à platéia seu espanto ao conhecer o Sendero. "Nos EUA, as pessoas não têm idéia do que realmente foi a história do comunismo no mundo. Pensam simplesmente, esse grupo é bom, aquele é ruim. Prova disso é que acham que Obama é de esquerda. Mas, quando uma pessoa como eu sai do Missouri e vem olhar a esquerda na América Latina, toma um susto. Nada aqui é simples de entender."

O Bafici acabou com música, com um concerto do francês Benjamin Biolay, mescla de Serge Gainsbourg e Nick Cave. Entusiasmou a platéia, apesar da apresentação meio preguiçosa, metade da banda estava num laptop, e o rapaz, um pouco abatido e fumando muito, a la anos 60.
 
Se o cinema argentino melhorou ou não nesses 10 anos de Bafici, é uma questão a ser discutida. De minha parte, só queria mencionar uma passagem de um texto do jornalista Pablo Sirvén, do "La Nación", que ilustra de modo mais amplo, e irônico, esse período. Quando o Bafici começou, explica: "Menem era presidente; um peso era um dólar e Buenos Aires não respirava outra fumaça que não a dos ônibus. Não existia Youtube; os celulares não tiravam fotos e Bin Laden, provavelmente, ainda não tinha tido a idéia de atirar dois aviões contra o World Trade Center. Palermo Viejo era realmente "viejo" [hoje, por conta do hype, tem várias subdivisões, Hollywood, Soho, etc]; não havia MP3 nem Pilates, e os vídeos ainda era assistidos em aparelhos VHS..."

Escrito por Sylvia Colombo às 12h29 PM

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Censura!

Censura!

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o “documentário satírico” “Viva Zapatero!”, que estréia hoje. Dirigido por Sabina Guzzanti, o filme levanta questões como a democratização dos meios de comunicação e censura, ao atacar o premiê italiano Silvio Berlusconi. Para ouvir o podcast, clique no microfone.


Escrito por Sérgio Rizzo às 12h05 PM

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A volta do crítico amigo

 
Gene Siskel e Roger Ebert

Por Bruno Yutaka Saito

Cinema é o futebol das artes. Como acontece após uma partida, todos têm sempre alguma opinião a dar (neste caso, a respeito de filmes, diretores, atores). Qualquer pessoa já viu no mínimo meia dúzia de filmes na vida e se acha apto a opinar. E, como nos debates futebolísticos, geralmente ouvimos discussões acalorados. Ler posts de internautas, em blogs como o Ilustrada no Cinema, é um bom jeito de identificar essas paixões e esses ódios.

Por isso a função de crítico de cinema é uma das mais incompreendidas e atacadas pelos leitores. Quase sempre, ele é visto como um sujeito ranzinza, que fala mal de filmes ótimos e elogia produções chatérrimas, maçantes. Na melhor das hipóteses, o crítico é visto como o espertalhão que tem uma das melhores e mais fáceis profissões do mundo: ficar sentado numa poltrona e ver filmes o dia inteiro.

Nos EUA, Roger Ebert é um dos mais populares críticos de cinema e construiu uma imagem que vai contra o estereótipo do sujeito brigão. Detalhe: ele é um dos mais populares, e não necessariamente respeitados ou afiados. Após anunciar sua aposentadoria da televisão, devido a problemas de saúde, ele recentemente anunciou seu retorno à imprensa escrita, nas páginas do “Chicago Sun-Times”. Não é exagero dizer que, por ali, ele é referência fortíssima.

Por aqui, Ebert é quase motivo de piada, já que uma infinidade de DVDs carregam alguma frase sua na capa. Experimente ir na loja/locadora mais próxima: há sempre aquele filme que você nunca ouviu falar na vida, mas vai encontrar algo do tipo “Não perca”; “Ótimo filme”; “Grande atuações”, e a assinatura: Roger Ebert.

Ebert, na verdade, apenas vai em outro caminho de nomes como Pauline Kael e Jonathan Rosenbaum, célebres por seus textos analíticos, críticos, teóricos, repletos de contextualização. Para Ebert, tudo é Ok, e ele sempre está mais preocupado em dividir suas impressões de determinado filme com o leitor do que julgar. Ebert acaba, no final, falando mais de sua vida do que do filme em questão. Em um texto sobre “A Doce Vida”, por exemplo, ele fala sobre o fato de ter assistido ao filme quando adolescente, depois por volta dos 30, depois por volta dos 40 etc., e, de cada vez, ter sentido algo diferente e contraditório em relação ao personagem de Marcello Mastroianni.

***

A melhor piada de todos os tempos

Se a crítica de cinema pode parecer subjetiva, as eleições na linha “os melhores de” soam ainda mais aleatórias.

Mas, na eleição que o site Nerve fez a respeito dos 50 melhores sketches cômicos de TV de todos os tempos, não há dúvida: os risos são de verdade.

Excelente site que mistura comportamento, sexo e cultura, o Nerve, junto com o Independent Film Channel, deixou disponíveis esses tais 50 sketches. É a chance de rever quadros históricos do “Saturday Night Live” ou “Abbott and Costello”.

O vencedor? Um quadro absurdo do genial Monty Python, de 1969, onde John Cleese é o cara que tenta devolver o papagaio que comprou da loja de Michael Palin. O motivo? A ave veio com um pequeno defeito: ele veio morto. Merece o primeiro lugar, de tão idiota, cretino, inteligente, imbecil e surreal (Palin tenta provar que o papagaio está vivo) que o quadro é. Como as boas comédias são. (Aliás, se você é fã do Monty Python, há uma série de lançamentos recentes em DVD do grupo, em especial, as duas primeiras temporadas do "Monty Pyhton's Flying Circus).

Se você conseguir entender o inglês de sotaque britânico carregadíssimo, veja o quadro do "papagaio morto":

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 7h23 PM

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O cinema independente de Buenos Aires

 
Cena do documentário "Unidad 25"

Por Sylvia Colombo (em Buenos Aires)
 
Filas gigantescas, briga por ingressos a cada sessão, filmes de diretores badalados ao lado de produção "independente" de países distantes, público jovem de look cyber-universitário, engravatados ou moças de tailler fugindo de reuniões vespertinas, tipos circunspectos de meia-idade e idosos de óculos na ponta do nariz tentando ler os tipos mínimos da grade de programação. Parece a Mostra de SP? Sim, talvez com a única diferença de que, aqui, não há atrasos imensos e cancelamentos de sessão repentinos. Estamos no Bafici (Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires), que neste ano completa seu décimo aniversário.
 
Espalhado por vários pontos da capital portenha, o evento ocorre em salas do eixo comercial, como multiplex de shoppings, e em espaços mais identificados com esse tipo de programação, como o Centro Cultural Recoleta ou o Malba (Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires). Outra diferença com relação à Mostra de SP: ingressos baratíssimos, a inteira custa 6 pesos argentinos (pouco mais de R$ 3).
 
Entre os internacionais, muita coisa da programação deste ano ou já passou na Mostra de SP ou está pintando por aí. Mas o que faz do Bafici um evento especial é o fato de ter visto explodir, desde sua primeira edição, a tão falada "buena onda" do cinema argentino, e de, até hoje, acompanhar a trilha desse fenômeno.
 
Foi no primeiro Bafici, em 1999, que "Mundo Grúa", de Pablo Trapero, surgiu, abrindo caminho para outros diretores dessa geração dourada. "Esperando al Mesias", de Daniel Burman, e "Los Rubios", de Albertina Carri, o seguiram, entre tantos outros.
 
O que dá pra concluir, de um modo geral, entre os filmes argentinos dessa edição, é que a crise econômica de 2000/2001 deixou de pautar a produção local. Curiosamente, foi em torno desse tema tão funesto que saíram lindos, engenhosos e tocantes filmes, como "O Filho da Noiva" e "Nove Rainhas", entre tantos.
 
Agora, não são mais os grandes traumas, divisores da opinião política, principalmente, que oferecem o cardápio de assuntos. Se antes, a ditadura militar ou o colapso econômico eram a matéria-prima essencial, agora vêm à tona detalhes da vida cotidiana ou outros aspectos da realidade social do país.
 
Ontem, assisti a "Unidad 25", um documentário sobre uma prisão evangélica em Buenos Aires. Ignoro se algo do gênero existe no Brasil, mas essa unidade penitenciária reúne detentos devotos dessa religião e outros que se fazem passar por fiéis para ter uma vida menos violenta do que oferecem os cárceres comuns. O diretor Alejo Hoijman conseguiu expor com talento a complexidade e a urgência de vários temas intrincados nessa mesma trama -crime e punição, fé e liberdade religiosa na Argentina.
 
Ainda entre os locais, causa expectativa o novo filme de Albertina Carri, desta vez sobre um triângulo amoroso que termina de forma violenta no campo, e o resultado de uma iniciativa divertida, em que o renomado Adrián Caetano ("Cronica de uma Fuga") e Roberto Palmieri, um funcionário de segurança de um edifício comercial da cidade, foram convidados a filmar um documentário juntos.
 
Dependendo da massa polar que jogou as temperaturas pra baixo dos 10 graus nesta semana -e deu aquela preguiça de sair de casa- e do tamanho das filas.... volto a dar notícias sobre filmes que consegui assistir no Bafici até o domingo. Combinado? 

Escrito por Sylvia Colombo às 12h28 PM

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Vincent Cassel detesta Luc Besson (e nós também)

                                                   Bruno Miranda/Folha Imagem

Por Silvana Arantes

É respeitável a lista de bons cineastas com quem o ator francês Vincent Cassel trabalhou, desde "O Ódio" (1995), de Mathieu Kassovitz, o filme que o colocou no mapa do cinema mundial: Gaspar Noé ("Irreversível"), Steven Soderbergh ("12 Homens e um Segredo"), David Cronenberg ("Senhores do Crime"), por exemplo.

Há um filme e um diretor na carreira de Cassel, contudo, que ele preferiria esquecer. Na impossibilidade de apagar "Joana D’Arc de Luc Besson" (1999) de sua filmografia, o francês decidiu tratá-lo como "uma lição". Uma lição do que não fazer, bem entendido.

"Antes de participar desse filme, eu já não gostava muito do Luc Besson. Depois, entendi que não gosto nada do Luc Besson. Quando as filmagens terminaram, eu disse a ele: Nunca mais trabalho com você!", contou Cassel à Folha, em Arraial do Cabo, onde ele está filmando "À Deriva", o terceiro longa de Heitor Dhalia ("Nina", "O Cheiro do Ralo").

A bronca com Besson é por diferenças inconciliáveis na forma de encarar o cinema: "É um cinema oportunista o que ele faz. Aproveitou-se dos filões [temáticos] da juventude e da periferia, para produzir uma seqüência de filmes completamente descerebrados. É tudo o que sou contra", diz Cassel. Como Cassel, 41, foi parar num filme ruim de um cineasta que despreza é a tal lição aprendida: "Eu me dei para este filme. Nem sequer me vendi, porque o dinheiro era bem pouco".

Sobre "Joana D’Arc de Luc Besson", o mestre Inácio Araujo escreveu, na época de seu lançamento no Brasil: "Besson pretende mais ser assimilado pelo cinema americano do que assimilá-lo. Resulta daí uma ‘Joana d’Arc’ estranha, como que saída de um velho filme de Cecil B. DeMille, em que a verdade não vem da história, mas de um poder encantatório que o cinema perdeu à força de ser moderno e que os americanos bem ou mal reencontraram com Spielberg e cia. Não é o que de mais fascinante o cinema já prometeu um dia como arte, mas é o que se impôs na era da pipoca e do multiplex". Fim.

***

A produção de "À Deriva", cujas filmagens foram tema de reportagem na Ilustrada deste domingo, contém uma novidade no panorama brasileiro. Orçado em R$ 6,5 milhões, é o primeiro título da parceria que a O2 firmou com a Focus, subsidiária da Universal, para produzir aqui longas com dinheiro de lá. David Linde, executivo da Universal, disse à Variety que pretende produzir entre dois e três filmes por ano no Brasil nesse formato. O que atraiu a Universal, segundo Linde, é a habilidade dos cineastas brasileiros de fazer filmes de cor local que interessem também ao público estrangeiro, ou seja, a possibilidade de cravar um sucesso ao mesmo tempo nacional e para exportação. Citou Fernando Meirelles, Cao Hamburger, Walter Salles e José Padilha como exemplos.

Escrito por Silvana Arantes às 12h21 PM

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7 dias de maratona cinéfila

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Uma semana de debates, palestras e análises de filmes. Acompanhar todo dia ao menos um filme esmiuçado por um estudioso de cinema ou apresentado por seu realizador. Foi o que fiz nesta última semana, para comprovar a tese que Paris não é só a capital mundial para ver filmes mas também para refletir sobre eles. À maratona:

Segunda, 7/4, 19h30, Cinemateca Francesa, 6 euros


O grande Jean Douchet pergunta: o que você achou do filme?

A semana começa, claro, na Cinemateca, a mãe de todos os cinemas de Paris, onde Jean Douchet apresenta mais uma sessão de seu cineclube. Neste semestre, o tema é o cinema francês de 1995 a 2005. Como toda segunda, Douchet mostra um filme e depois o discute com a platéia. Nesta semana, no último encontro da temporada, o tema é “Histoire(s) du Cinéma”, a série de oito episódios realizada por Jean-Luc Godard de 1988 a 1998. Após a exibição de três capítulos, o veterano crítico da “Cahiers du Cinéma” colhe impressões dos espectadores e, a partir delas, destrincha a obra do cineasta. Para Douchet, Godard é um diretor muito à frente de seu tempo, que “propõe um cinema do depois de amanhã”.

Terça, 8/4, 20h, Cine Pantheon, 7,50 euros

Douchet, de novo! Outra sala, outro tema, outro filme. É mais um cineclube de Jean Douchet, este mensal, sempre na primeira terça do mês, no Pantheon. O filme da noite é “A Herança da Carne” (“Home From the Hill”, 1960), de Vincente Minnelli. Douchet repete o método da noite anterior e ouve a platéia para comentar o longa, melodrama em que um casal em crise disputa a atenção e o afeto do filho adolescente. Em uma hora de conversa, o crítico (e também diretor e roteirista) analisa a forma como Minnelli constrói o universo de cada um desses três personagens centrais, dos diálogos aos cenários.

Quarta, 9/4, , 18h30, Instituto Nacional de História da Arte, zero euro


O curso de cinema do Forum des Images: semanal e gratuito

Ao lado da Cinemateca e do Centro Pompidou, o Forum des Images é um dos principais centros de difusão de cinema em Paris. Atualmente está em obras, mas continua com atividades fora de sua sede. Toda quarta, às 18h30, o Forum organiza no INHA um curso de cinema gratuito, em que convidados analisam filmes sobre Paris ou rodados na cidade. Na quarta passada, durante uma hora, Christophe Gautier, conservador da Cinemateca de Toulouse, comentou “Fantômas”, a série policial francesa dos anos 10, de cinco filmes, de Louis Feuillade. Aqui o formato é de palestra, na qual trechos dos filmes são exibidos. “Fantômas” nos leva de volta ao início do século passado, com imagens de rua que já mostram uma Paris moderna, com seus bondes e estações de metrô. Todas as aulas do curso são filmadas e colocadas na internet. Para assistir, é só clicar aqui.

Quinta, 10/4, 12h, Universidade Sorbonne-Nouvelle, zero euro

A Paris 3 (Sorbonne-Nouvelle) é uma das principais universidades de Paris para quem quer se graduar em cinema. Prova disso é que o chefe de seu departamento de doutorado é Jacques Aumont, um dos principais teóricos de cinema da França. E quinta é o dia em que Aumont dá seu curso sobre a “mise en scène”. A incursão clandestina pela universidade começa por uma aula de “análise do filme”, da graduação. Em um grande anfiteatro, uma professora tenta explicar a cerca de 150 alunos as diferentes formas de percepção da imagem, de compreensão do objeto filmado. Cita teorias e filmes clássicos. Em vão. Só uns 20 prestam atenção, e o resto da galera conversa, fala ao celular, lê revistas... De chorar. Já fora da sala, encontro o cineclube local, que passa dois filmes por dia e nesta semana exibe um ciclo de musicais. Em cartaz: “A Ópera do Malandro”, de Ruy Guerra. Por fim, ninguém aparece para a aula de Aumont, nem o próprio. Descubro que o professor suspendera o curso neste mês para reorganizar o programa. Novas aulas, só em maio. Ok, volto em maio.

Sexta, 11/4, 20h, Cine Le Saint Germain des Près, 8,50 euros

“A Retirada”, filme mais recente de Amos Gitaï, é uma das estréias da semana na França, e o diretor israelense vai ao Saint Germain des Près para falar ao público. Conta que decidiu fazer um filme sobre a saída de colonos israelenses da Faixa de Gaza após ter testemunhado a retirada na região, em setembro de 2005. Viu tudo ao lado do filho, então no Exército de Israel. “Aprendi a ver esse episódio pelo lado dos colonos, contra quem sempre me opus, e tentei fazer com que este filme tivesse também a visão deles”, comenta o diretor. Exibido em SP na última Mostra, “A Retirada” ainda não tem previsão de estréia no circuito brasileiro.


Na entrada do cinema: o público faz fila para ouvir Amos Gitaï

Sábado, 12/4, 20h30, Cinemateca Francesa, 4 euros

De volta à Cinemateca, para mais um mergulho no passado, numa retrospectiva de Émile Cohl. Trata-se de um dos pioneiros da animação, com filmes que datam de 1908. As historiadoras de cinema Isabelle Marinone e Valérie Vignaux analisam a forma como Cohl explora em sua obra a caricatura e o grotesco. Dois músicos acompanham a sessão, tocando as músicas originais que acompanhavam as animações de Cohl. Tudo muito lúdico e divertido.

Domingo, 13/4, 11h, Cine L’Arlequin, 6 euros

Cerca de 150 pessoas madrugam no domingo para ir ao Arlequin para o cineclube semanal de Claude-Jean Philippe. Crítico e ensaísta, autor de livros sobre Jean Renoir e Jacques Truffaut, Philippe apresenta a pré-estréia de “Em Minha Memória”, terceiro longa de Saverio Constanzo (“Invasão de Domicílio”, 2004). O diretor italiano viria para comentar o filme, mas cancelou na última hora, para cuidar do filho doente. Após a sessão deste belo drama sobre os questionamentos existenciais de um jovem seminarista, Philippe conduz um animado debate com a platéia (há até um jesuíta), dividida sobre a visão amarga que Constanzo tem da Igreja Católica.

Ufa! A sessão de “Em Minha Memória” encerra essa pequena maratona de sete dias. Mas a corrida só termina aqui, neste post, porque hoje à noite tem mais cinema. E amanhã também. E depois de amanhã. E depois, e depois, e depois...

Escrito por Leonardo Cruz às 5h55 PM

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Duas casas, dois espelhos

Duas casas, dois espelhos

                                                                           Aline Arruda

O cineasta Carlos Reichenbach

Por Cássio Starling Carlos, em Fortaleza

“Um país sem cinema é como uma casa sem espelhos.” A frase, usada pelo produtor Luiz Carlos Barreto ao agradecer a homenagem que recebeu do CineCeará por seus 80 anos de idade, na noite do último sábado em Fortaleza, aplica-se sem emenda aos filmes selecionados para a competição de longas-metragens ibero-americanos do festival que se realiza até a próxima quinta em Fortaleza.

Após a homenagem, foi exibida a ficção venezuelana “Cartões Postais de Leningrado”, segundo longa da diretora Mariana Rondón (que já integrou a seleção da última Mostra Internacional de Cinema de SP). O mergulho no tema da guerrilha de esquerda dos anos 60 em seu país poderia ser confundido com as diretrizes do projeto do presidente Hugo Chávez ao criar a Fundação Villa del Cine, estúdio estatal de cinema venezuelano constituído com a ambição de combater “a ditadura de Hollywood” sob o lema “luzes, câmera, revolução”.

Em vez de se limitar a um acerto de contas com o passado (opção do documentário chileno “Circunstâncias Especiais”, apresentado na noite de sexta), Rondón explora hábitos e costumes populares e registra aspectos de uma família que vive em uma região rural e tem alguns de seus filhos atuando na guerrilha. Para evitar os riscos da cartilha ideológica, a diretora contrabandeia para dentro do filme um arsenal lúdico, graças à adoção do ponto de vista das duas crianças que narram a história.

A repressão policial, por exemplo, não guarda nada das ficções brasileiras que se dedicaram a tema equivalente. A tortura em tanques de água faz surgir delas um imaginário homem-rã, com seu aparato de mergulhador. Os tiros que os personagens levam em combates, em vez de sanguinolência explícita transformam-se em intervenções gráficas, com animações em vermelho. Com tais escolhas, ela escapa do pedagogismo, e o conjunto, se não chega a entusiasmar, não deixa de ser simpático.

                                                                   ***
Na noite de ontem foi a vez do veterano Carlos Reichenbach mostrar ao público cearense seu longa mais recente, “Falsa Loura”, que estréia em circuito comercial em SP e no Rio nesta semana.

Com uma peruca loura na cabeça, Reichenbach encerrou sua subida ao palco com a frase: “A loura é falsa, mas o filme é de verdade”. Fórmula bastante justa, como se pôde verificar em seguida, nas desventuras da jovem Silmara, uma garota operária da periferia que vive cercada de ilusões que é a cara de jovens brasileiras do Brasil afora.

Desse embate entre falsidades e verdades se nutre a ficção de “Falsa Loura” e todo o cinema de Reichenbach.
Quem conhece os filmes do diretor sabe que ele é avesso às tramas homogêneas e que adota com freqüência as rupturas de tom, acentua inverossimilhanças e cria seus filmes a partir de uma sucessão de desajustes entre sonhos dos personagens e a realidade brutalizante.

Em “Falsa Loura” ele retoma temas já trabalhados no antológico “Anjos do Arrabalde” e em “Garotas do ABC”, em relação ao qual, seu novo trabalho se assemelha a uma pedra lapidada.

Enquanto naquele o ambiente social se sobrepunha com uma violência por vezes demasiado discursiva, “Falsa Loura” privilegia as subjetividades, ao acompanhar de dentro o processo de desilusão que persegue a personagem.

Silmara funciona como uma agente do falso, desde quando assume a tarefa de transformar a colega de apelido “bruxinha” em uma Cinderela, mesmo que seja por uma noite. Em seguida, a personagem vai ela mesma passar por um processo de auto-desvendamento, tanto mais doloroso quanto mais ela se deixa enredar numa teia de ilusões. A fórmula “conhece-te a si mesmo”, do filósofo grego Sócrates, que está presente em citações ao longo do filme, persegue a personagem como uma danação de tragédia grega.

Mas como Reichenbach faz cinema e não filosofia, o filme não se resume a citações eruditas, preferindo desenhar dramaturgicamente o périplo da dor na vida de Silmara.

Alguns vão taxar de inverossímeis as viradas do roteiro, mas elas se justificam por estarem sempre ligadas à intromissão das ilusões no terreno da realidade da operária.

Elas fazem parte da estratégia de fazer das falsidades uma ferramenta que Reichenbach manipula com precisão em sua obsessão de realizar um cinema de verdade.

(O crítico Cássio Starling Carlos viaja a Fortaleza a convite do CineCeará) 
 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h01 PM

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Última chance

Última chance

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o Festival Sesc de melhores filmes de 2007. Entre os eleitos, por público e crítica, estão filmes como "Tropa de Elite", "Jogo de Cena", "Em Busca da Vida" e "A Vida dos Outros". O festival fica em cartaz até o dia 24. Para ouvir o podcast, clique no microfone:

Escrito por Sérgio Rizzo às 3h59 PM

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Imagens da margem

Imagens da margem

                                                                                 Aline Arruda

José Dumont e Fernando Birri
 
Por Cássio Starling Carlos, em Fortaleza

Com um emocionante trabalho de cunho memorialístico e uma impactante estréia de diretor em longa, a 18 edição do CineCeará foi aberta na noite de ontem em Fortaleza com o pé direito.

Após uma justa homenagem aos 30 anos de carreira no cinema do ator paraibano José Dumont, o diretor argentino Fernando Birri, hoje com 83 anos, exibiu seu mais recente trabalho, o curta “Elegia Friulana”.

Birri, patriarca do cinema latino-americano e autor de títulos fundamentais, como “Los Inundados”, recupera, em “Elegia Friulana”, parte da história de sua família, centrada na figura do avô, habitante do Friuli (região norte da Itália) que emigrou para a Argentina nos anos 1880.

A imagem recorrente das rodas de um moinho reitera a passagem entre dois mundos e dois tempos. As fotos de família trazem à tona a memória do avô, enquanto a voz do neto narra as condições precárias de existência, a imigração e as expectativas de uma nova vida em outro mundo. Uma pintura mostra Adão e Eva como agricultores num paraíso anterior ao pecado e à danação, mas já como trabalhadores, transformadores da realidade. Ao fundo, uma antiga canção anarquista entoa os versos “nossa pátria é o mundo inteiro/ nossa lei é a liberdade”.

O suceder de ritmos feito de música e imagem estabelece a fluidez temporal que abole a separação, a distinção entre mortos e vivos, entre passado e presente, apagada no canto dos ideais anarquistas, cultivados como uma tradição familiar que sustenta o trabalho dos Birri.

***

Outra margem

Em seguida à projeção do poema do diretor argentino, foi exibida em primeira mão a estréia do cineasta brasileiro Reinaldo Pinheiro em longas. Um experiente e premiado diretor de curtas, conhecido pelo ótimo “BMW Vermelho” o paulista Pinheiro adaptou um texto do dramaturgo Mário Bortolotto em “Nossa Vida Não Cabe num Opala”.

A crueza das situações e a visceralidade dos personagens habituais de Bortolotto ganham outra dimensão nas mãos de Pinheiro. 

O filme narra as trajetórias erráticas de quatro irmãos paulistanos, Monk (Leonardo Medeiros), Lupa (Milhem Cortaz), Slide (Gabriel Pinheiro) e Magali (Maria Manoella), que acabam de perder o pai (Paulo Cesar Peréio). Todos vivem uma vida de improviso, tentando sobreviver à margem do sucesso (a pianista de churrascaria Magali) ou por meio de pequenos esquemas ilícitos (os três irmãos ladrões de carros).

Apesar de um conjunto de referências mais ou menos explícitas (ao boxe e à dissolução da família de “Rocco e Seus Irmãos”, ao mundo povoado por almas notívagas de “Anjos da Noite”, Cidade Oculta” e “Janete”), Pinheiro adota tais balizas para demarcar um território, próximo, mas eqüidistante delas, nunca soçobrando ao efeito-citação.

E em vez de oferecer mais uma crônica da marginalidade, território em que diretores como Sganzerla e Candeias já estabeleceram marcas fortes, Pinheiro e o roteirista Di Moretti conduzem seus personagens por outros meandros, não menos interessantes.

A figura do pai morto e os encontros recorrentes dos três irmãos com uma enigmática mulher (Maria Luisa Mendonça em aparições fantásticas) fazem o filme deslizar para outro terreno, em que a crueza física se dissemina até perder os contornos e se aprofundar na metafísica.
A primeira impressão é de uma estética de choque, reiterada na fotografia suja e na sofisticada ambiência musical e sonora. A recorrência de canções de rock reforça a sensação de desconforto, com o uso metódico de dissonâncias que amplificam significados sem nunca reduzi-los à literalidade.

A presença no elenco de Jonas Bloch com sua face dura, junto ao retrato de marginalizados, induz a uma aproximação com “Amarelo Manga” e ao universo do pernambucano Cláudio Assis. Mas trata-se, como quase tudo em “Nossa Vida Não Cabe num Opala”, de uma falsa impressão.
Enquanto Assis tem a paixão pelo obsceno, de submeter o espectador ao tratamento de choque, o cinema de Pinheiro é quase o contrário. No cinema de Assis, a intensidade do choque depende proporcionalmente da ênfase muitas vezes exagerada no naturalismo, forma de mergulho que lança seus personagens no domínio da bestialidade.

De algum modo, trata-se de uma tentação que também assombra a dramaturgia de Bortolotto. E talvez por isso Pinheiro tenha se interessado pela marca do autor teatral.

Pois é antes como desafio que o universo do dramaturgo serve a Pinheiro. Não se trata nem de reiterá-lo nem de suavizá-lo, mas de atravessá-lo. O realismo inerente à forma de expressão cinematográfica correria o risco de apenas exagerar mais o interesse de Bortolotto pelo desagradável.
Sem anulá-lo, o filme de Pinheiro prefere usar os recursos banais do realismo para ultrapassá-lo. A câmera na mão e a edição aflita quando aparecem são pura paródia de “ação” e de “urgência”, momentos de comédia maluca, como na aparição de Derci Gonçalves.

Em “Nossa Vida Não Cabe num Opala”, o realismo converte-se em passaporte e em língua de passagem para o irrealismo, uma forma de enxergar o mundo e seus seres comuns aos sonhos, à imaginação e ao cinema. E em modo de dizer, de forma surpreendente, que o metafísico é tudo o que se encontra à margem do físico.

(O crítico Cássio Starling Carlos viaja a Fortaleza a convite do CineCeará) 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h54 PM

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Amores de Wong Kar-wai

 

Por Bruno Yutaka Saito

Chega neste fim de semana aos cinemas brasileiros o aguardado “Um Beijo Roubado” (título que entrega o final de “My Blueberry Nights”), estréia do chinês Wong Kar-wai em território norte-americano. Antes de mais nada, esqueça tudo o que você leu a respeito do filme _ele é bom.

Novamente Kar-wai apóia-se em um fiapo de trama para desfilar seus temas prediletos (amores perdidos; a memória que se apaga com o tempo etc.). Desta vez, temos Norah Jones como a mulher que, após decepção amorosa, empreende viagem pelos EUA para manter a cabeça ocupada.

Para quem acompanha a carreira de Kar-wai há anos, realmente não há nada de novo. Mas, em certo sentido, “Um Beijo Roubado” é um respiro para o diretor. Lembra, em muitos aspectos, “Amores Expressos” (1994), longa que o tornou conhecido e amado pela platéia ocidental.

Os dois são grandes “filmes menores” de Kar-wai. “Amores Expressos” surgiu como uma espécie de pausa necessária para o diretor, que então cuidava dos toques finais de um épico complicadíssimo (o pouco visto “Ashes of Time”, que em breve ganhará relançamento, já que o cineasta planeja fazer nova montagem).

“Amores Expressos” exalava frescor ao falar sobre desencontros amorosos numa grande metrópole. Era ainda a estréia de Faye Wong nas telas, cantora e modelo famosíssima na China. Uma das principais marcas do filme é o hábito obsessivo de sua personagem em ouvir a música “California Dreamin’”, do Mamas & the Papas, em alto volume, e seu sonho em viajar para a América.

Veja aqui:

Kar-wai só aterrissou na América, com “Um Beijo Roubado”, porque teve que interromper a produção de seu próximo longa, “The Lady from Shangai”, com Nicole Kidman. É também um respiro após a complicada e longa gestação de “2046”, seu filme anterior, que levou cinco anos para ser realizado.

“Um Beijo Roubado” foi filmado em sete semanas, algo impensável antes para Kar-wai. E foi todo criado em cima da imagem que ele tinha da cantora Norah Jones, também fazendo suas estréia no cinema _consta que o diretor não deixou que Norah tivesse aulas de atuação.

E, não bastasse essa paixão por belas mulheres e música, Kar-wai ainda convidou Chan Marshall (a Cat Power, musa que causa desmaios no público de música indie) para seu debute nas telas, como a ex-namorada de Jude Law. A canção “The Greatest”, de Cat Power, é o “California Dreamin” da vez, e é usada repetidamente durante “Um Beijo Roubado”.

Veja ela aqui:

 Perguntado pela revista francesa “Les Inrockuptibles” o porquê de Cat Power, Kar-wai disse: “Por que não convida-la? Ela é misteriosa e tem um rosto muito expressivo. Gosto muito dela. E não a veja como uma cantora, nem Norah Jones. Eu as considero duas personalidades interessantes”.

E, numa ocasião que entrevistei a Cat Power para a Folha, ela me disse sobre Kar-wai: “Ele nunca tira os óculos escuros. Parece um daqueles mafiosos chineses de filmes!”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h54 PM

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Heston, Moore e a ética do documentário

Heston, Moore e a ética do documentário

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Os obituários de Charlton Heston, morto no último sábado aos 84, relacionaram como pontos altos de sua extensa carreira o Moisés de “Os Dez Mandamentos” (1956), o personagem-título de “Ben-Hur” (1959), João Batista em “A Maior História de Todos os Tempos” (1965) e o astronauta George Taylor de “O Planeta dos Macacos” (1968), entre outros.

Embora o último papel tenha sido o do nazista Josef Mengele em “Meu Pai” (2003), sua derradeira aparição em filme amplamente visto foi no documentário “Tiros em Columbine” (2002), de Michael Moore. Charlton Heston interpretava ali o papel de Charlton Heston, convicto defensor do porte de armas, ex-presidente da National Rifle Association.

Muito razoável que Moore quisesse ouvi-lo em sua investigação sobre a relação entre o uso de armas de fogo e a violência nos EUA. Era uma fonte qualificada, sobretudo por associar à causa seu prestígio como astro de cinema, construído majoritariamente com base em personagens íntegros. O problema é que Moore não contou ao ator o que o levou até sua casa; câmera ligada, o constrangeu com uma armadilha retórica.

As imagens do encontro – ou ao menos parte delas – estão no filme, que valeu a Moore o Oscar de documentário e a oportunidade de discursar, na cerimônia de entrega do prêmio, para a maior platéia de sua carreira. O procedimento de Moore foi legítimo? A defesa de tese que lhe pareça moralmente correta permite ao realizador enganar seus entrevistados? O derradeiro momento significativo de Charlton Heston no cinema tornou-se exemplo radical da falta de limites no documentário contemporâneo.

Veja um trecho:

 

Adotar procedimentos como os de Moore com Heston, ainda que mais sutis ou disfarçados pela montagem, se impõe como um dos principais temas de debate, hoje. Na 8ª Conferência Internacional do Documentário, realizada em São Paulo durante o 13º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, o professor Michael Renov, da University of Southern Califórnia, falou justamente sobre a “função ética” do documentário. Até onde se admite que vá o cineasta, em nome de propósitos eventualmente nobres, na apropriação da imagem de terceiros?

Glauber Rocha (1939-1981), cuja obra documental foi analisada pela professora Tetê Mattos na Conferência, oferece caso fértil para discussão: o curta-metragem “Di”, também conhecido como “Di Glauber”, “Di Cavalcanti” ou “Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de Sua Última Quimera; Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável”, rodado durante os funerais do pintor, em outubro de 1976.

O cineasta filmou o velório sem autorização da família. Entre outros detalhes, escalou o ator Joel Barcellos – que não conhecia o falecido – para segurar uma das alças do caixão no transporte para o carro funerário. A família solicitou a interdição do filme. Questões jurídicas à parte, Glauber tinha o direito de agir dessa forma? Seu pressuposto é o de que Di Cavalcanti pertencia à cultura brasileira. Isso torna razoável passar por cima dos desejos da família (na falta de autorização prévia do pintor) e transformar o velório em performance?

No post mais recente de seu blog Zoom, mantido no web site do jornal “The New York Times”, o cineasta norte-americano Errol Morris (“A Tênue Linha da Morte”, “Sob a Névoa da Guerra”) explora outro terreno pantanoso: o dos eventuais limites para as reconstituições dramáticas de cenas que não deixaram registro em imagens. É um extenso post-ensaio, de valor extraordinário por vir de quem vem – um dos maiores documentaristas em atividade.

A programação do É Tudo Verdade leva dilemas como esses, subitamente expostos ou ardilosamente escamoteados em diversos filmes, para Bauru (10 a 13/4), Brasília (14 a 20/4), Recife (17 a 20/4) e Caxias do Sul (24 a 27/4).

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h24 PM

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O bom retorno de Jacques Doillon

O bom retorno de Jacques Doillon


Clémentine Beaugrand e Gérald Thomassin,
 no belo “Le Premier Venu”, de Jacques Doillon

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Os dois nomes mais ouvidos no circuito cinéfilo parisiense nestes dias são Jacques Doillon e Kiju Yoshida. O cineasta francês, que outrora realizava em média um filme por ano, lançou na semana passada “Le Premier Venu” (“O Primeiro que Vier”), seu primeiro longa desde 2003, exibido no último Festival de Berlim. Já o diretor japonês é tema de uma enorme retrospectiva. Mas falaremos dele daqui a pouco. Primeiro, a prata da casa.

Cineasta da primeira geração pós-nouvelle vague, Jacques Doillon começou a filmar nos anos 70 e dirigiu mais de 20 filmes até o final dos anos 90 _sua obra mais conhecida no Brasil talvez seja “Ponette”, vencedor do principal prêmio da Mostra de SP de 1996.

Seu “Le Premier Venu” conta a história de Camille, jovem parisiense, riquinha e entediada que decide se entregar à primeira pessoa que encontrar (daí o título do filme). E quem aparece é Costa, trinta e poucos anos, provinciano, mal-encarado, rude e pobre. Mas Doillon não mostra esse primeiro contato –o filme começa no dia seguinte, com os dois saindo de uma estação de trem em Le Crotoy, pequena cidade a beira-rio no norte da França onde Costa vive. É o primeiro dos quatro dias em que o filme se divide.

A primeira conversa entre os dois, em que Camille exige desculpas de Costa (Gérald Thomassin) por certos abusos na noite anterior, dá o tom do universo que Doillon retratará ao longo de duas horas ­–um mundo em frangalhos, de pessoas frustradas, agressivas, confusas e a mercê dos jogos e desejos de Camille. Em um roteiro de diálogos sempre tensos, filmados em passo acelerado.

A protagonista é interpretada pela estreante Clémentine Beaugrand, que cria uma Camille tão fascinante quanto enigmática, quase andrógina, de olhar fulminante e motivações indecifráveis para a platéia e para os demais personagens por ela manipulados. Sua jornada pessoal contra o tédio burguês mudará decisivamente as vidas de Costa, da ex-mulher dele, de um policial amante dela e de um corretor de imóveis.

O grande filme de Doillon foi recebido com festa por boa parte da crítica francesa. Com uma longa entrevista com o diretor, a revista “Cahiers du Cinéma” dedica sua capa de abril ao filme e afirma: “‘Le Premier Venu’ foi uma unanimidade na Redação da ‘Cahiers’. É um dos mais belos filmes de seu autor e a quintessência de um certo cinema francês romanesco, a expressão de uma tradição que em poucas ocasiões pudemos ver assim tão viva e renovada”.

A “Positif”, outra revista bacana, disse que “os protagonistas, jovens adultos, transmitem uma energia indispensável para um filme tão denso”. Por último, na capa da “Les Inrockuptibles” da última semana, a chamada: “Jacques Doillon, a volta de um cineasta essencial”.

A seguir, o trailer de “Le Premier Venu”, que, infelizmente, ainda não tem previsão de estréia no Brasil.

***

Reencontro com a nouvelle vague japonesa


Mariko Okada em “Mulheres no Espelho”, de Kiju Yoshida

Até meados de maio, Paris pertence a Kiju Yoshida. Um dos principais diretores da nouvelle vague japonesa, esse senhor de 75 anos está na cidade para acompanhar a retrospectiva integral de sua obra, realizada pelo Centre Pompidou. São 19 ficções e 22 documentários, em sessões diárias. E mais: “As Termas de Akitsu” (1963) e “Eros + Massacre” (1969), dois de seus principais longas, reestrearam no circuito comercial, em cópias restauradas. E mais: seus 11 primeiros longas acabam de sair em DVD em duas caixas, além de uma edição de colecionador de “Eros + Massacre”. E mais: no próximo dia 26, durante quatro horas, o cineasta participará de um debate sobre cinema, acompanhado pelos principais críticos franceses, de graça, no Pompidou.

Yoshida têm comparecido a várias sessões no Pompidou para apresentar seus filmes, sempre acompanhado por sua mulher, a atriz Mariko Okada, 75, estrela de muitos de seus longas. Ontem, foi a vez de “Mulheres no Espelho”, lançado em 2003, um drama sobre o impacto da bomba de Hiroshima na vida de três gerações de mulheres de uma mesma família. Yoshida contou que demorou 50 anos para ter coragem de fazer um filme sobre Hiroshima. Disse que não se sentia autorizado a criar uma obra sobre o assunto por não ser um sobrevivente direto da bomba atômica, apesar de ter escapado de um bombardeio na Segunda Guerra, em Fukui, sua cidade natal. Já Okada lembrou que teve muita dificuldade para superar um monólogo de seis minutos que fez diante das ruínas do Domo de Hiroshima, símbolo da destruição de 1945. “Tinha sempre a impressão de estar sendo observada. Só depois de três dias, entendi que eram as almas dos mortos pela bomba. Usei essa energia para fazer a cena”.

 A obra de Yoshida não é desconhecida do público paulistano. Em 2003, o cineasta fez parte do júri da 27ª Mostra de SP e teve sete filmes seus exibidos no festival, incluindo “As Termas de Akitsu”, “Eros + Massacre” e “Mulheres no Espelho”. À época, o diretor rodou na Liberdade seu episódio do longa “Bem-Vindo a São Paulo”, de Leon Cakoff.

Para os fãs do diretor, aí vai uma das mais belas passagens de “Mulheres no Espelho”.

***

Paulada na tropa

A edição deste mês da revista “Cahiers du Cinéma” dedica duas páginas a um balanço do Festival de Berlim deste ano. São dois textos: um de Jean-Michel Frodon, sobre os filmes da primeira semana da mostra; e outro, do crítico Antoine Thirion, sobre a segunda semana. O tom geral é pessimista, avaliando a seleção como fraca, de poucas descobertas. O filme brasileiro “Tropa de Elite” é mencionado uma única vez, na análise de Frodon. Ao elogiar o longa mexicano “Lake Tahoe”, de Fernando Eimbcke,  o diretor de Redação metralha a obra de José Padilha: “Esqueçamos o imundo ‘Tropa de Elite’, ganhador de um Urso de Ouro vergonhoso”.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h29 PM

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Música e Sokurov

Música e Sokurov

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a onda de filmes relacionados ao mundo da música em exibição nos cinemas. Além de documentários do festival É Tudo Verdade que abordam nomes como Wilson Simonal e Waldick Soriano, há as estréias de "Rolling Stones - Shine a Light", com direção de Martin Scorsese, e "Irina Palm", com a cantora Marianne Faithfull no papel principal. Outra boa estréia da semana é "O Sol", do russo Alexander Sokurov.

Clique no microfone para ouvir o podcast.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h40 PM

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Cine rock

Cine rock

 
Scorsese e os Stones

Por Cássio Starling Carlos

De um lado, devem estar os fãs dos Rolling Stones já tremendo de expectativa com a estréia, amanhã, de “Shine a Light”; de outro, leio aqui e ali comentários de quem já viu e não se entusiasmou com o resultado do trabalho do não menor Martin Scorsese.

A reação me leva a perguntar por que os cineastas insistem em captar uma experiência tão difícil de traduzir em outro meio quanto é um grande show de rock? É como se duas formas de expressão quase opostas _o cinema, com seu distanciamento e frieza na concepção, controle, encenação e edição; o rock, com sua energia, vigor, som alto e visceralidade na execução ao vivo_ se misturassem e do encontro sempre saísse uma boa cerveja que fosse servida morna.


Godard e os Stones

Os Stones, muito antes de se transformar nos ícones-múmias do rock, flertaram desde cedo com o cinema, com resultados que na maioria das vezes só frustraram seus fãs. A experimentação de “Sympathy For the Devil/One + One” pode interessar quem gosta de Godard, mas sua proposta de desconstrução do formato pop mata de tédio até o mais fiel seguidor das estripulias músico-cênicas de Jagger e sua trupe.

Insatisfeita com a proposta, a banda optou nas décadas seguintes por registros tecnicamente bem-feitos e acompanhados por uma grife de certo renome. Em 1970, os documentaristas Albert e David Maysles realizaram “Gimme Shelter” e, em 1983, o cineasta Hal Ashby registrou um show dos Stones no filme-concerto “Let’s Spend the Night Together”.

O formato filme-concerto tornou-se predominante em épocas em que vídeo e DVD não passavam de quimeras. Títulos como “The Song Remains the Same”, com o Led Zeppelin, “Live at Pompeii”, com o Pink Floyd, e tantos outros funcionavam como produto paralelo para satisfazer os fãs espalhados em cantos do mundo onde as bandas míticas nunca chegavam.

Na outra ponta desses encontros do cinema com o rock estão os filmes feitos por cineastas que, além de uma câmera na mão, andam com idéias na cabeça. O resultado são títulos que se apropriam do universo do rock, que imaginam um show (no sentido de lhes “dar uma imagem”), que encenam os dois lados do circo, os bastidores e a cena.


Cena de Stop Making Sense

Deste lote mais criativo fazem parte o trabalho de Jonathan Demme com os Talking Heads em “Stop Making Sense”, o do próprio Scorsese no crepuscular “O Último Concerto de Rock” e, em certa medida, o esforço bem-sucedido de Phil Joanou com o U2 em “Rattle and Hum”.

                                                              ***
Depois da estréia de “Shine a Light”, a curiosidade vai se mover para o que o artista plástico e cineasta Julian Schnabel conseguiu mostrar em “Berlin”. O filme, que acaba de estrear na Europa, registra uma série de concertos que Lou Reed fez em 2006 com canções de seu mítico álbum interpretadas por uma penca de convidados ilustres.

                                                           
                                                              ***

O semanário pop “LesInrockuptibles”, que entende bem tanto de rock quanto de cinema, acaba de publicar, junto à crítica do “Berlin” de Schnabel” uma lista de “Cinco Clássicos do Cine-Rock”. Os escolhidos foram:

- Gimme Shelter, dos Irmãos Maysles (1971)
O concerto mítico e terrível dos Rolling Stones em Altamont, a filmagem ao vivo do fim do grande sonho dos anos 60. Enorme.

- Rude Boy, de Jack Hazan (1980)
Perfeita captura das magníficas deflagrações que eram os shows do Clash, cuja carga política é acentuada pelo contexto social da Inglaterra de Margaret Thatcher

- Stop Making Sense, de Jonathan Demme (1984)
O funk-rock branco dos Talking Heads filmado com inspiração, precisão e dinamismo

- Year of the Horse, de Jim Jarmusch (1997)
A tempestade elétrica de Neil Young e seu Crazy Horse acompanhada pelo meteorologista Jarmusch

- Noise, de Olivier Assayas (2005)
O free-rock do Sonic Youth e Jim O’Rourke enquadrado por um cineasta atento à história das formas e à tectônica de sons e imagens.

                                                              ***

E na sua lista de favoritos, que filmes-rock entram?

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h29 PM

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Os melhores

Por Bruno Yutaka Saito

A Quinzena dos Realizadores virou uma quarentona. Segmento paralelo do Festival de Cannes criado para dar vazão à grande quantidade de filmes mais independentes que surgiam a cada edição por ali, comemora 40 anos em abril (a 61ª edição do Festival acontece entre 14 e 25 de maio).

Para celebrar a data, começa em 16 de abril no cinema Action, em Paris, uma retrospectiva com alguns dos grandes filmes descobertos na Quinzena. Depois, a mostra seguirá itinerante, por Buenos Aires, Nova York, Los Angeles, Roma, Atenas, Seul, Bucareste, entre outros lugares.

Entre os grandes nomes revelados na Quinzena estão o brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, com seu "Macunaíma" (1969); o hoje nada desconhecido George Lucas, com "THX 1138" (1971); o cultuado Jim Jarmusch ("Estranhos no Paraíso", 1984), entre outros.

Melhores de 2007

Enquanto isso, uma das melhores salas de cinema de São Paulo, o CineSesc, organiza seu "best of". Público e críticos votaram naqueles que acreditam ser os melhores filmes a entrar em cartaz por aqui no ano passado. Há alguns títulos questionáveis, na minha opinião, já que a grande graça de uma sala com programação mais alternativa como o CineSesc, é exibir filmes que são esmagados e não ganham espaço no esquemão das salas multiplex.

A mostra que exibirá os filmes tem títulos como o blockbuster "Piratas do Caribe", por exemplo. Nada contra o longa em si, mas é uma produção que não necessitaria de uma sala especial como o CineSesc. Mas, ao mesmo tempo, entram filmes como "Uma Mulher Sob Influência", de John Cassavetes, que mesmo tendo sido lançado em 1974, entrou nessa mostra porque o CineSesc voltou a colocar em cartaz, ano passado, uma série de obras do cineasta.

Quando: de 8 a 24 de abril
Onde: CineSesc (r. Augusta, 2.075, SP, tel. 0/xx/11/3087-0500)
Quanto: R$ 6

Veja a seguir a programação completa:

8 de abril – terça-feira

14h30 - "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton

16h30 - "Mais Estranho que a Ficção", de Marc Forster

19h - "A Rainha", de Stephen Frears

21h - "O Passado", de Hector Babenco

 9 de abril – quarta-feira

 14h30 - "Noel, Poeta da Vila", de Ricardo van Steen

16h30 - "Novo Mundo", de Emanuele Crialese

19h - "O Grande Chefe", de Lars Von Trier

21h - "Piaf, Um Hino ao Amor", de Olivier Dahan

10 de abril – quinta-feira

14h30 - "Cão Sem Dono", de Beto Brant

16h30 - "Babel", de Alejandro González Iñarritu

19h - "Em Paris", de Christophe Honoré

21h - "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", de Andrew Dominik

11 de abril – sexta-feira

14h30 - "Notas sobre Um Escândalo", de Richard Eyre

16h30 - "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia

19h - "A Via Láctea", de Lina Chamie

21h - "Império dos Sonhos", de David Lynch

12 de abril – sábado

14h30 - "Baixio das Bestas", de Claudio Assis

16h30 - "Babel", de Alejandro González Iñarritu

19h - "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho

21h - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

13 de abril – domingo

14h30 - "A Casa de Alice", de Chico Teixeira

16h30 - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

19h - "Maria", de Abel Ferrara

21h - "Tropa de Elite", de José Padilha

14 de abril – segunda-feira

14h30 - "A Culpa é do Fidel", de Julie Gavras

16h30 - "À Procura da Felicidade", de Gabriele Muccino

19h - "O Violino", de Francisco Vargas

21h - "O Sobrevivente", de Werner Herzog

15 de abril – terça-feira

14h30 - "Não por Acaso", de Philippe Barcinski

16h30 - "Conduta de Risco", de Tony Gilroy

19h - "Vermelho como o Céu", de Cristiano Bortone

21h - "Zodíaco", de David Fincher

16 de abril – quarta-feira

14h30 - "A Comédia do Poder", de Claude Chabrol

16h30 - "Cartas de Iwo Jima", de Clint Eastwood

19h - "A Casa de Alice", de Chico Teixeira

21h - "O Passado", de Hector Babenco

17 de abril – quinta-feira

14h30 - "Saneamento Básico", de Jorge Furtado

16h30 - "Medos Privados em Lugares Públicos", de Alain Resnais

19h - "Viagem a Darjeeling", de Wes Anderson

21h - "Piratas do Caribe – No Fim do Mundo", de Gore Verbinski

18 de abril – sexta-feira

14h30 - "Proibido Proibir", de Jorge Duran

16h30 - "Pecados Íntimos", de Todd Field

19h - "Querô", de Carlos Cortez

21h - "Tropa de Elite", de José Padilha

19 de abril – sábado

14h30 - "A Via Láctea", de Lina Chamie

16h30 - "Piaf, Um Hino ao Amor", de Olivier Dahan

19h - "Santiago", de João Moreira Salles

21h - "Uma Mulher Sob Influência", de John Cassavetes

20 de abril – domingo

11h - "As aventuras de Azur e Asmar", de Michel Ocelot

14h30 - "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho

16h30 - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

19h - "O Preço da Coragem", de Michael Winterbottom

21h - "No Vale das Sombras", de Paul Haggis

21 de abril – segunda-feira

11h - "Ratatoiulle", de Brad Bird

14h30 - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

16h30 - "Ratatoiulle", de Brad Bird

19h - "Cartola", de Lírio Ferreirra

21h - "Lady Chatterley", de Pascale Ferran

22 de abril – terça-feira

14h30 - "Possuídos", de William Friedkin

16h30 - "O Amor nos Tempos do Cólera", de Mike Newell

19h - "O Engenho de Zé Lins", de Vladimir Carvalho

21h - "O Último Rei da Escócia", de Kevin Macdonald

23 de abril – quarta-feira

14h30 - "Mutum", de Sandra Kogut

16h30 - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

19h - "Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá", de Silvio Tendler

21h - "O Hospedeiro", de Joon-ho Bong

24 de abril – quinta-feira

14h30 - "500 Almas", de Joel Pizzini

16h30 - "A Leste de Bucareste", de Corneliu Porumboiu

19h - "Carreiras", de Domingos de Oliveira

21h - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h30 PM

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Por que tanto documentário?

Por que tanto documentário?

                                                      Rafael Andrade/Folha Imagem

 Eduardo Escorel e José Joffily

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Eduardo Escorel e José Joffily, ambos com 62, assinaram a direção de “Vocação do Poder” (2005), que abriu no Rio de Janeiro a 10ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em 2005. Na edição deste ano, Escorel participa da competição brasileira de longas-metragens com “O Tempo e o Lugar” e Joffily exibe “A Paixão Segundo Callado” na mostra especial Vidas Brasileiras.

A Folha publicou no último sábado reportagem com ambos sobre os filmes. Abaixo, trechos inéditos em que falam a respeito do número significativo de documentários realizados no Brasil durante os últimos anos.

Eduardo Escorel

“O Amir (Labaki, fundador e diretor do É Tudo Verdade) teve intuição e sensibilidade para perceber, mais de dez anos atrás, que surgia um interesse cada vez maior pelo documentário. E, ao criar o festival, ele passou também a ser responsável por esse interesse. O festival tem um efeito civilizador, no sentido de dar acesso ao que de melhor é feito no mundo e ao conhecimento histórico, por meio das retrospectivas. Passou a ser agente estimulador e legitimador do documentário.”

“Tendo a acreditar que os documentários têm se prevalecido no Brasil do fato de que são filmes muito mais baratos (do que os de ficção), e a independência do realizador é inversamente proporcional ao tamanho do orçamento. Hoje, qualquer pessoa sozinha pode fazer um documentário. Isso talvez seja um fator para a vitalidade. Não se tem compromisso com a busca de resultado de bilheteria.”

“Poucos países têm uma produção, em quantidade e interesse, equivalente à do Brasil. Tendo a atribuir isso à ‘loucura brasileira’, ou seja, à dificuldade de entender um país que não se resolve nunca e de lidar com ele. Não temos uma sociedade estável e organizada, e esse é um terreno muito fértil para o documentário.”

“Algumas figuras muito influentes têm grande peso na criação da cultura do documentário no Brasil. Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Andrea Tonacci. O trabalho deles marca vertentes possíveis. E há certos gêneros que vão se consolidando, como o dos documentários de caráter biográfico.”

“Nunca se investiu tanto em cinema no Brasil quanto se investe hoje. As cifras são muito expressivas. Para o documentário, a principal dificuldade é uma excessiva burocratização do processo (de captação de recursos), que tolhe iniciativas. Às vezes, um documentário é resposta a algo do momento, tem sentimento de urgência. Mas, se você precisa de um ou dois anos para cumprir ritos burocráticos, aquilo já se tornou passado.”

“As fronteiras entre ficção e documentário tendem a se diluir cada vez mais. A classificação de gêneros não interessa muito a quem faz; tem a ver com aspectos comerciais, com os quais precisamos lidar. Os documentários recentes mais interessantes são os híbridos, como ‘Andarilho” (de Cao Guimarães), ‘Santiago’ (de João Moreira Salles) e ‘Juízo’ (de Maria Augusta Ramos), que lidam com as duas linguagens de maneira magistral. A diluição das fronteiras tem efeito provocador sobre os dois gêneros.”

José Joffily

“A expressiva produção de documentários tem a ver com o fato de que, no Brasil, a TV é muito bobinha. As emissoras produzem coisas com a mesma cara. Sim, porque o dono é um só. Em outros países, o conteúdo é mais variado porque a produção é terceirizada. Na França, por exemplo, as emissoras só fazem jornalismo; os documentários que exibem são terceirizados. A programação da TV brasileira provoca as novas gerações a fazer outra coisa. Você liga o aparelho e só vê bobagem. Liga bobo e desliga mais bobo ainda.”

“O mercado cinematográfico é muito ruim para os documentários. Eles deveriam estar ocupando a TV. Não faz sentido, para a maior parte dos títulos, que o produto final precise ser efetivado em filme, em película, para lançamento em salas de cinema, como exigem os mecanismos de financiamento. Por outro lado, se as emissoras de TV ocupassem esse espaço, rotineiramente, e participando do risco da produção, não apenas comprando filme pronto, talvez não houvesse ‘boom’ do documentário no Brasil.”

“Por que o Banco Central legisla sobre o sistema bancário e a Ancine (Agência Nacional de Cinema) não pode legislar sobre as emissoras de TV? O governo tem a obrigação de cuidar disso, estabelecendo a obrigatoriedade de exibição de produtos terceirizados. Ainda estamos na pré-história do audiovisual. A produção precisa ter a participação de todos os meios, com as responsabilidades divididas.”

“Acredito que a situação melhore nos próximos anos. Piorar, não pode. O acervo de documentários realizados nos últimos 10 anos é monumental. Sem falar do que não alcança visibilidade porque não chega nem mesmo a festivais. Muitos são convencionais, como o que eu fiz (‘A Paixão Segundo Callado’), e outros mais ousados. O surpreendente é que, apesar de não ser escoada, a produção continua.”

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h38 PM

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