Ilustrada no Cinema
 

Música e Sokurov

Música e Sokurov

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a onda de filmes relacionados ao mundo da música em exibição nos cinemas. Além de documentários do festival É Tudo Verdade que abordam nomes como Wilson Simonal e Waldick Soriano, há as estréias de "Rolling Stones - Shine a Light", com direção de Martin Scorsese, e "Irina Palm", com a cantora Marianne Faithfull no papel principal. Outra boa estréia da semana é "O Sol", do russo Alexander Sokurov.

Clique no microfone para ouvir o podcast.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h40 PM

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Cine rock

Cine rock

 
Scorsese e os Stones

Por Cássio Starling Carlos

De um lado, devem estar os fãs dos Rolling Stones já tremendo de expectativa com a estréia, amanhã, de “Shine a Light”; de outro, leio aqui e ali comentários de quem já viu e não se entusiasmou com o resultado do trabalho do não menor Martin Scorsese.

A reação me leva a perguntar por que os cineastas insistem em captar uma experiência tão difícil de traduzir em outro meio quanto é um grande show de rock? É como se duas formas de expressão quase opostas _o cinema, com seu distanciamento e frieza na concepção, controle, encenação e edição; o rock, com sua energia, vigor, som alto e visceralidade na execução ao vivo_ se misturassem e do encontro sempre saísse uma boa cerveja que fosse servida morna.


Godard e os Stones

Os Stones, muito antes de se transformar nos ícones-múmias do rock, flertaram desde cedo com o cinema, com resultados que na maioria das vezes só frustraram seus fãs. A experimentação de “Sympathy For the Devil/One + One” pode interessar quem gosta de Godard, mas sua proposta de desconstrução do formato pop mata de tédio até o mais fiel seguidor das estripulias músico-cênicas de Jagger e sua trupe.

Insatisfeita com a proposta, a banda optou nas décadas seguintes por registros tecnicamente bem-feitos e acompanhados por uma grife de certo renome. Em 1970, os documentaristas Albert e David Maysles realizaram “Gimme Shelter” e, em 1983, o cineasta Hal Ashby registrou um show dos Stones no filme-concerto “Let’s Spend the Night Together”.

O formato filme-concerto tornou-se predominante em épocas em que vídeo e DVD não passavam de quimeras. Títulos como “The Song Remains the Same”, com o Led Zeppelin, “Live at Pompeii”, com o Pink Floyd, e tantos outros funcionavam como produto paralelo para satisfazer os fãs espalhados em cantos do mundo onde as bandas míticas nunca chegavam.

Na outra ponta desses encontros do cinema com o rock estão os filmes feitos por cineastas que, além de uma câmera na mão, andam com idéias na cabeça. O resultado são títulos que se apropriam do universo do rock, que imaginam um show (no sentido de lhes “dar uma imagem”), que encenam os dois lados do circo, os bastidores e a cena.


Cena de Stop Making Sense

Deste lote mais criativo fazem parte o trabalho de Jonathan Demme com os Talking Heads em “Stop Making Sense”, o do próprio Scorsese no crepuscular “O Último Concerto de Rock” e, em certa medida, o esforço bem-sucedido de Phil Joanou com o U2 em “Rattle and Hum”.

                                                              ***
Depois da estréia de “Shine a Light”, a curiosidade vai se mover para o que o artista plástico e cineasta Julian Schnabel conseguiu mostrar em “Berlin”. O filme, que acaba de estrear na Europa, registra uma série de concertos que Lou Reed fez em 2006 com canções de seu mítico álbum interpretadas por uma penca de convidados ilustres.

                                                           
                                                              ***

O semanário pop “LesInrockuptibles”, que entende bem tanto de rock quanto de cinema, acaba de publicar, junto à crítica do “Berlin” de Schnabel” uma lista de “Cinco Clássicos do Cine-Rock”. Os escolhidos foram:

- Gimme Shelter, dos Irmãos Maysles (1971)
O concerto mítico e terrível dos Rolling Stones em Altamont, a filmagem ao vivo do fim do grande sonho dos anos 60. Enorme.

- Rude Boy, de Jack Hazan (1980)
Perfeita captura das magníficas deflagrações que eram os shows do Clash, cuja carga política é acentuada pelo contexto social da Inglaterra de Margaret Thatcher

- Stop Making Sense, de Jonathan Demme (1984)
O funk-rock branco dos Talking Heads filmado com inspiração, precisão e dinamismo

- Year of the Horse, de Jim Jarmusch (1997)
A tempestade elétrica de Neil Young e seu Crazy Horse acompanhada pelo meteorologista Jarmusch

- Noise, de Olivier Assayas (2005)
O free-rock do Sonic Youth e Jim O’Rourke enquadrado por um cineasta atento à história das formas e à tectônica de sons e imagens.

                                                              ***

E na sua lista de favoritos, que filmes-rock entram?

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h29 PM

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Os melhores

Por Bruno Yutaka Saito

A Quinzena dos Realizadores virou uma quarentona. Segmento paralelo do Festival de Cannes criado para dar vazão à grande quantidade de filmes mais independentes que surgiam a cada edição por ali, comemora 40 anos em abril (a 61ª edição do Festival acontece entre 14 e 25 de maio).

Para celebrar a data, começa em 16 de abril no cinema Action, em Paris, uma retrospectiva com alguns dos grandes filmes descobertos na Quinzena. Depois, a mostra seguirá itinerante, por Buenos Aires, Nova York, Los Angeles, Roma, Atenas, Seul, Bucareste, entre outros lugares.

Entre os grandes nomes revelados na Quinzena estão o brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, com seu "Macunaíma" (1969); o hoje nada desconhecido George Lucas, com "THX 1138" (1971); o cultuado Jim Jarmusch ("Estranhos no Paraíso", 1984), entre outros.

Melhores de 2007

Enquanto isso, uma das melhores salas de cinema de São Paulo, o CineSesc, organiza seu "best of". Público e críticos votaram naqueles que acreditam ser os melhores filmes a entrar em cartaz por aqui no ano passado. Há alguns títulos questionáveis, na minha opinião, já que a grande graça de uma sala com programação mais alternativa como o CineSesc, é exibir filmes que são esmagados e não ganham espaço no esquemão das salas multiplex.

A mostra que exibirá os filmes tem títulos como o blockbuster "Piratas do Caribe", por exemplo. Nada contra o longa em si, mas é uma produção que não necessitaria de uma sala especial como o CineSesc. Mas, ao mesmo tempo, entram filmes como "Uma Mulher Sob Influência", de John Cassavetes, que mesmo tendo sido lançado em 1974, entrou nessa mostra porque o CineSesc voltou a colocar em cartaz, ano passado, uma série de obras do cineasta.

Quando: de 8 a 24 de abril
Onde: CineSesc (r. Augusta, 2.075, SP, tel. 0/xx/11/3087-0500)
Quanto: R$ 6

Veja a seguir a programação completa:

8 de abril – terça-feira

14h30 - "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton

16h30 - "Mais Estranho que a Ficção", de Marc Forster

19h - "A Rainha", de Stephen Frears

21h - "O Passado", de Hector Babenco

 9 de abril – quarta-feira

 14h30 - "Noel, Poeta da Vila", de Ricardo van Steen

16h30 - "Novo Mundo", de Emanuele Crialese

19h - "O Grande Chefe", de Lars Von Trier

21h - "Piaf, Um Hino ao Amor", de Olivier Dahan

10 de abril – quinta-feira

14h30 - "Cão Sem Dono", de Beto Brant

16h30 - "Babel", de Alejandro González Iñarritu

19h - "Em Paris", de Christophe Honoré

21h - "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", de Andrew Dominik

11 de abril – sexta-feira

14h30 - "Notas sobre Um Escândalo", de Richard Eyre

16h30 - "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia

19h - "A Via Láctea", de Lina Chamie

21h - "Império dos Sonhos", de David Lynch

12 de abril – sábado

14h30 - "Baixio das Bestas", de Claudio Assis

16h30 - "Babel", de Alejandro González Iñarritu

19h - "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho

21h - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

13 de abril – domingo

14h30 - "A Casa de Alice", de Chico Teixeira

16h30 - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

19h - "Maria", de Abel Ferrara

21h - "Tropa de Elite", de José Padilha

14 de abril – segunda-feira

14h30 - "A Culpa é do Fidel", de Julie Gavras

16h30 - "À Procura da Felicidade", de Gabriele Muccino

19h - "O Violino", de Francisco Vargas

21h - "O Sobrevivente", de Werner Herzog

15 de abril – terça-feira

14h30 - "Não por Acaso", de Philippe Barcinski

16h30 - "Conduta de Risco", de Tony Gilroy

19h - "Vermelho como o Céu", de Cristiano Bortone

21h - "Zodíaco", de David Fincher

16 de abril – quarta-feira

14h30 - "A Comédia do Poder", de Claude Chabrol

16h30 - "Cartas de Iwo Jima", de Clint Eastwood

19h - "A Casa de Alice", de Chico Teixeira

21h - "O Passado", de Hector Babenco

17 de abril – quinta-feira

14h30 - "Saneamento Básico", de Jorge Furtado

16h30 - "Medos Privados em Lugares Públicos", de Alain Resnais

19h - "Viagem a Darjeeling", de Wes Anderson

21h - "Piratas do Caribe – No Fim do Mundo", de Gore Verbinski

18 de abril – sexta-feira

14h30 - "Proibido Proibir", de Jorge Duran

16h30 - "Pecados Íntimos", de Todd Field

19h - "Querô", de Carlos Cortez

21h - "Tropa de Elite", de José Padilha

19 de abril – sábado

14h30 - "A Via Láctea", de Lina Chamie

16h30 - "Piaf, Um Hino ao Amor", de Olivier Dahan

19h - "Santiago", de João Moreira Salles

21h - "Uma Mulher Sob Influência", de John Cassavetes

20 de abril – domingo

11h - "As aventuras de Azur e Asmar", de Michel Ocelot

14h30 - "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho

16h30 - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

19h - "O Preço da Coragem", de Michael Winterbottom

21h - "No Vale das Sombras", de Paul Haggis

21 de abril – segunda-feira

11h - "Ratatoiulle", de Brad Bird

14h30 - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

16h30 - "Ratatoiulle", de Brad Bird

19h - "Cartola", de Lírio Ferreirra

21h - "Lady Chatterley", de Pascale Ferran

22 de abril – terça-feira

14h30 - "Possuídos", de William Friedkin

16h30 - "O Amor nos Tempos do Cólera", de Mike Newell

19h - "O Engenho de Zé Lins", de Vladimir Carvalho

21h - "O Último Rei da Escócia", de Kevin Macdonald

23 de abril – quarta-feira

14h30 - "Mutum", de Sandra Kogut

16h30 - "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck

19h - "Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá", de Silvio Tendler

21h - "O Hospedeiro", de Joon-ho Bong

24 de abril – quinta-feira

14h30 - "500 Almas", de Joel Pizzini

16h30 - "A Leste de Bucareste", de Corneliu Porumboiu

19h - "Carreiras", de Domingos de Oliveira

21h - "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-ke

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h30 PM

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Por que tanto documentário?

Por que tanto documentário?

                                                      Rafael Andrade/Folha Imagem

 Eduardo Escorel e José Joffily

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Eduardo Escorel e José Joffily, ambos com 62, assinaram a direção de “Vocação do Poder” (2005), que abriu no Rio de Janeiro a 10ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em 2005. Na edição deste ano, Escorel participa da competição brasileira de longas-metragens com “O Tempo e o Lugar” e Joffily exibe “A Paixão Segundo Callado” na mostra especial Vidas Brasileiras.

A Folha publicou no último sábado reportagem com ambos sobre os filmes. Abaixo, trechos inéditos em que falam a respeito do número significativo de documentários realizados no Brasil durante os últimos anos.

Eduardo Escorel

“O Amir (Labaki, fundador e diretor do É Tudo Verdade) teve intuição e sensibilidade para perceber, mais de dez anos atrás, que surgia um interesse cada vez maior pelo documentário. E, ao criar o festival, ele passou também a ser responsável por esse interesse. O festival tem um efeito civilizador, no sentido de dar acesso ao que de melhor é feito no mundo e ao conhecimento histórico, por meio das retrospectivas. Passou a ser agente estimulador e legitimador do documentário.”

“Tendo a acreditar que os documentários têm se prevalecido no Brasil do fato de que são filmes muito mais baratos (do que os de ficção), e a independência do realizador é inversamente proporcional ao tamanho do orçamento. Hoje, qualquer pessoa sozinha pode fazer um documentário. Isso talvez seja um fator para a vitalidade. Não se tem compromisso com a busca de resultado de bilheteria.”

“Poucos países têm uma produção, em quantidade e interesse, equivalente à do Brasil. Tendo a atribuir isso à ‘loucura brasileira’, ou seja, à dificuldade de entender um país que não se resolve nunca e de lidar com ele. Não temos uma sociedade estável e organizada, e esse é um terreno muito fértil para o documentário.”

“Algumas figuras muito influentes têm grande peso na criação da cultura do documentário no Brasil. Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Andrea Tonacci. O trabalho deles marca vertentes possíveis. E há certos gêneros que vão se consolidando, como o dos documentários de caráter biográfico.”

“Nunca se investiu tanto em cinema no Brasil quanto se investe hoje. As cifras são muito expressivas. Para o documentário, a principal dificuldade é uma excessiva burocratização do processo (de captação de recursos), que tolhe iniciativas. Às vezes, um documentário é resposta a algo do momento, tem sentimento de urgência. Mas, se você precisa de um ou dois anos para cumprir ritos burocráticos, aquilo já se tornou passado.”

“As fronteiras entre ficção e documentário tendem a se diluir cada vez mais. A classificação de gêneros não interessa muito a quem faz; tem a ver com aspectos comerciais, com os quais precisamos lidar. Os documentários recentes mais interessantes são os híbridos, como ‘Andarilho” (de Cao Guimarães), ‘Santiago’ (de João Moreira Salles) e ‘Juízo’ (de Maria Augusta Ramos), que lidam com as duas linguagens de maneira magistral. A diluição das fronteiras tem efeito provocador sobre os dois gêneros.”

José Joffily

“A expressiva produção de documentários tem a ver com o fato de que, no Brasil, a TV é muito bobinha. As emissoras produzem coisas com a mesma cara. Sim, porque o dono é um só. Em outros países, o conteúdo é mais variado porque a produção é terceirizada. Na França, por exemplo, as emissoras só fazem jornalismo; os documentários que exibem são terceirizados. A programação da TV brasileira provoca as novas gerações a fazer outra coisa. Você liga o aparelho e só vê bobagem. Liga bobo e desliga mais bobo ainda.”

“O mercado cinematográfico é muito ruim para os documentários. Eles deveriam estar ocupando a TV. Não faz sentido, para a maior parte dos títulos, que o produto final precise ser efetivado em filme, em película, para lançamento em salas de cinema, como exigem os mecanismos de financiamento. Por outro lado, se as emissoras de TV ocupassem esse espaço, rotineiramente, e participando do risco da produção, não apenas comprando filme pronto, talvez não houvesse ‘boom’ do documentário no Brasil.”

“Por que o Banco Central legisla sobre o sistema bancário e a Ancine (Agência Nacional de Cinema) não pode legislar sobre as emissoras de TV? O governo tem a obrigação de cuidar disso, estabelecendo a obrigatoriedade de exibição de produtos terceirizados. Ainda estamos na pré-história do audiovisual. A produção precisa ter a participação de todos os meios, com as responsabilidades divididas.”

“Acredito que a situação melhore nos próximos anos. Piorar, não pode. O acervo de documentários realizados nos últimos 10 anos é monumental. Sem falar do que não alcança visibilidade porque não chega nem mesmo a festivais. Muitos são convencionais, como o que eu fiz (‘A Paixão Segundo Callado’), e outros mais ousados. O surpreendente é que, apesar de não ser escoada, a produção continua.”

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h38 PM

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Acredite: o cinema francês está em crise

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Manchete do jornal “Libération” da última sexta: “Um roteiro para salvar o cinema francês”. Como? O cinema francês precisa ser salvo? Os números indicam outra coisa: em 2007, 228 filmes foram realizados na França, quase sempre com algum tipo de apoio público, e as produções nacionais responderam por 44,7% dos ingressos vendidos no país, a maior fatia do mercado. Nos próximos dias, um longa deve ultrapassar a marca de 17 milhões de espectadores, para se tornar o filme nacional mais visto da história. Essa indústria de exceção, que protege o cinema de autor e deixa muitos outros países com inveja, está em crise?

Sim, responde a cineasta Pascale Ferran (do ótimo “Lady Chatterley”), líder do Clube dos 13, grupo de 13 profissionais de cinema (diretores, roteiristas, produtores, distribuidores, exibidores e nenhum cartola de futebol). Na semana passada,  essa trupe apresentou um relatório de mais de 200 páginas, elaborado ao longo de dez meses, sobre o estado de saúde da produção cinematográfica nacional.

O diagnóstico de Ferran: o sistema de financiamento público, desenvolvido nos anos 80, está obsoleto, não é mais capaz de atender de forma eficaz os filmes que mais precisam dele, os de médio e baixo orçamento. Para a diretora, o cinema francês hoje é formado por “filmes muito ricos e por outros anormalmente pobres, alguns superexpostos e outros renegados a um silêncio absoluto”. Soa familiar, não?

Uma das questões centrais em debate é o papel das grandes redes da TV aberta. Por lei, elas são obrigadas a investir em cinema e se tornam a principal fonte de financiamento dos filmes de médio orçamento (entre 4 milhões e 7 milhões de euros). Cada vez mais, as emissoras têm julgado o conteúdo dos filmes, pois avaliam que o cinema de arte não dá audiência. “Temas, gêneros, roteiros, elencos, prazos e níveis de financiamento, tudo se tornou objeto de limitações cada vez mais drásticas e muitas vezes arbitrárias”, argumenta Ferran. Resultado: os filmes médios são cada vez mais raros na França, e cresce o número de produções de baixo orçamento (menos de 2 milhões de euros).

Outro ponto-chave: criar um imposto de 5,5% sobre os lucros das grandes cadeias de exibição com propaganda de cinema. A receita desses cinemas franceses com publicidade saltou de 2,5 milhões de euros em 1998 para 54 milhões em 2006. O valor arrecadado seria usado para modernização das salas independentes, que se dedicam ao cinema de autor.

O documento apresenta ainda outras propostas, como a criação de um fundo de apoio à venda de produções francesas no exterior, e aborda todas as etapas da elaboração de um filme. Foi endossado por 75 profissionais de cinema e será entregue na próxima quinta a Christine Albanel, a ministra da Cultura da França. Nas palavras de um de seus defensores, o veterano Claude Chabrol, “é uma máquina de guerra contra os imbecis” que atrapalham o cinema francês.


A diretora Pascale Ferran, que passou dez meses
elaborando estudo sobre o cinema francês

Para os interessados: a “Cahiers du Cinéma” preparou em seu site um dossiê sobre o relatório de Pascale Ferran, com trechos do documento e uma análise de seu editor-chefe, Jean-Michel Frodon. A íntegra da proposta sairá em livro na França no próximo dia 15 e depois será colocada na internet.

***

A febre que vem do norte


Dany Boon (à dir.), como o carteiro
 Antoine em “Bienvenue Chez Les Cht’is”

Noite de sábado, Stade de France, Paris. Na tribuna do estádio, o presidente Nicolas Sarzoky aguarda para entregar a Pauleta, o capitão do Paris Saint-German, a taça de campeão da Copa da Liga da França _o PSG acaba de vencer o Lens por 2 a 1. Enquanto espera, Sarkozy é abordado por um repórter do canal France 2, que, lá pelas tantas,  pergunta: “Sr. presidente, o sr. já viu ‘Bienvenue Chez Les Ch’tis’?”. Resposta: “Não, ainda não tive tempo por causa de minha agenda de viagens internacionais, mas estou ansioso para vê-lo”.

Essa cena bizarra, transmitida ao vivo pelo canal para todo o país, dá a dimensão de um fenômeno que toma conta da França há quatro semanas, desde que “Bienvenue Chez Les Ch’tis” entrou em cartaz. Na última quinta, o longa chegou a 15,3 milhões de espectadores, marca que o coloca como o segundo filme nacional mais visto até hoje, atrás apenas de “A Grande Escapada”, filme de 1966 de Gérard Oury, visto nos cinemas por 17,3 milhões de pessoas. A média de espectadores indica que “Ch’tis” ultrapassará essa marca e que tem boas chances de superar “Titanic”, o recordista estrangeiro, que em 1998 atraiu um público de 20,7 milhões.

Escrito, dirigido e estrelado pelo comediante Dany Boon, “Ch’tis” brinca com as diferenças regionais da França, ao colocar em foco os costumes, o sotaque e as gírias dos moradores do norte. Nascido na região, o humorista transforma em piada a visão estereotipada que boa parte do país tem dos nortistas, vistos como rudes e iletrados. Seu filme conta a história de um diretor de uma agência do correio que é transferido da ensolarada Salon-de-Provence, no sul, para a pequena e gélida Bergues. Boon é o carteiro que mostrará ao novo chefe que o norte não é tão inóspito quanto parece.

O sucesso do longa provoca um frisson da mídia francesa, e o rosto de Dany Boon pulula em reportagens de capa de revistas, em programas de TV, em perfis em jornais. Seu show de humor em Paris tem sessões lotadas, e o comediante empresta sua voz ao elefante que protagoniza a animação “Horton”, na dublagem francesa do desenho. Para explicar o êxito, o diário “Le Fígaro”  publicou reportagem de uma página inteira sobre o amor que as platéias têm pelos anti-heróis, pelos personagens comuns, com os quais se identificam facilmente. Essa tese foi ratificada pelo sociólogo e professor da Sorbonne Michel Maffesoli, que em entrevista disse que “prevalece hoje na sociedade francesa um interesse pela vida cotidiana, banal”.

O apelo popular de “Ch’tis” não rendeu a equivalente admiração da crítica francesa. Uma das análises mais interessantes foi a do jornalista Pierre Murat, na revista semanal "Telérama", que usou o filme como exemplo da produção nacional atual: “Em um salto para trás de meio século, o cinema francês voltou ao que era na metade dos anos 50. Profissional e asfixiado. Tragado por essa ‘qualidade França’ que incomodava críticos como André Bazin e futuros cineastas como François Truffaut”. Em outras palavras”, “Ch’tis” simboliza a tal crise do cinema francês de que fala Pascale Ferran.

Veja o trailer:



Escrito por Leonardo Cruz às 12h27 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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