Ilustrada no Cinema
 

Tudo sobre o É Tudo Verdade

Tudo sobre o É Tudo Verdade

O festival É Tudo Verdade é a principal vitrine de documentários da América Latina. No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo dá alguns truques sobre como se orientar em meio à grande quantidade de bons filmes da mostra. Nesta edição, o festival acontece simultaneamente em São Paulo e Rio até o dia 6 de abril e, depois, parte resumido para outros endereços: Bauru (10 a 13/4); Brasília (14 a 20/4); Recife (17 a 20/4) e Caxias (24 a 27/4).

Clique no microfone abaixo:

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h36 PM

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A verdade às vezes dói

A verdade às vezes dói

Por Cássio Starling Carlos

De um festival de documentários a expectativa mais banal é que exiba horas e horas de filmes cuja principal vocação seja a revelação de verdades. Afinal, temos a sensação de que documentários são instrutivos, que aprendemos a respeito de fatos, de histórias, de personagens e de comportamentos quando os assistimos.

O nome “É Tudo Verdade”, dado a uma dos eventos mais importantes de cinema oferecidos anualmente a parte do público brasileiro, não deixa de comportar ironias. Alguns títulos programados nos levam, sobretudo, a pôr em questão a estreiteza de nossas concepções de “verdade”, daí a validade de o festival trazer um nome tão incisivo.

Nesta 13ª edição, há opções para todos os gostos. Entretanto, quem se interessa mais de perto tanto por cinema quanto por documentários não pode perder os títulos da Retrospectiva Internacional, batizada sem modéstia como “Dez Documentários que Abalaram o Mundo”.

Nesta seleção, meus favoritos são dois títulos que exemplificam com perfeição as ambigüidades contidas na expressão “É Tudo Verdade”, além de serem aulas de cinema.

O primeiro é o trabalho do cineasta Marcel Ophüls em “A Dor e a Piedade”, uma crônica da vida em uma cidade francesa sob a ocupação alemã durante a Segunda Guerra. O diretor explora o descompasso entre aquilo que parte de seus entrevistados crê ter acontecido e como foi de fato a relação entre dominadores e dominados, revelada em extraordinárias imagens de arquivo, além de entrevistas, fotos pessoais e memórias.

Veja o trailer:

Ophüls traz à tona o deslizamento de valores provocado pelas mudanças de ocupantes no trono da história e produz um filme tão incômodo que sua exibição na TV francesa ficou vetada por mais de uma década.

 

Do outro lado da mesma história, pode-se detestar, mas não é possível ignorar o trabalho de Leni Riefensthal no mítico “O Triunfo da Vontade”. Realizado em 1936, o filme registra o gigantesco congresso do Partido Nacional Socialista de Hitler na cidade alemã de Nuremberg em 1934.

Veja a abertura:

 

Por trás das imagens documentais de Riefenstahl, dois elementos mais resistentes saltam à nossa vista. Primeiro, o quanto uma imagem é resultado de uma construção. Segundo, como um registro factual pode exercer um tal poder de fascínio, mesmo quando se sabe que ele está submetido à propaganda de valores que teoricamente recusamos.

Há um predomínio no cinema de Riefenstahl pelo culto à monumentalidade, contido nos planos de grandes blocos formais e no recurso reiterado da câmera baixa. Esse gigantismo da forma esmaga de tal modo nosso olhar que se torna evidente a sedução por ele exercida sobre as massas de espectadores alemães, convertidos ao culto da força e da superioridade arianas.

Da mesma maneira, a idéia de perfeição que emana das imagens de “O Triunfo da Vontade” não se desvincula da ideologia nazista, pois ambas se sustentam nos ideais de submissão à forma, no controle total da figura, no tudo em seu exato lugar, que se verá reafirmado no posterior “Olympia”.

Curiosamente, a “desnazificação” de Riefenstahl pode ter tido efeitos sobre sua vida pessoal, mas nunca afetou sua estética. Nas fotos que ela fez da tribo dos Nuba, no Sudão, nos anos 70, a beleza formalista se impõe ao interesse politicamente correto da artista por indivíduos negros.

Até em seu último documentário, “Impressões Debaixo d”Água”, em que filma a dança submarina de criaturas animais fica a impressão de que Riefenstahl é nazista até debaixo d’água.

Com estes dois exemplos, o festival de documentários repete uma velha e boa lição: que certas verdades permanecem mais incômodas que outras.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 6h21 PM

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Três vezes Cronenberg

Três vezes Cronenberg

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ocasião raríssima: dois filmes recentes do canadense David Cronenberg circulam pelos cinemas do país. Ninguém haveria de esquecer “Senhores do Crime” (tradução besta para “Eastern Promises”), muito bem apresentado neste blog por Alcino Leite Neto durante a Mostra Internacional de São Paulo do ano passado. Quando estreou, em fevereiro, Inácio Araujo e Jorge Coli escreveram sobre ele na versão impressa da Folha.

Cronenberg também está em cartaz, no entanto, graças a “Cada um Com Seu Cinema", que traz um curta dirigido e protagonizado por ele (“No Suicídio do Último Judeu do Mundo no Último Cinema do Mundo”) entre os 31 reunidos para homenagear, em 2007, os 60 anos do Festival de Cannes (seriam 33, mas o dos irmãos Coen e o de Michael Cimino não integram a cópia brasileira, segundo a distribuidora Dreamland, porque a autorização não chegou a tempo).

Quem já viu “Cada Um Com Seu Cinema” sabe que o curta de Cronenberg integra o grupo dos que resolveram pôr a cabeça para funcionar nessa coletânea repleta de narcisismo e de preguiça. Literalmente, por sinal: é a cabeça do próprio Cronenberg que vemos o tempo todo, enquanto ouve-se um casal de narradores que... Deixe pra lá. Melhor não estragar a surpresa de quem ainda não teve a oportunidade de conferir.

Um dos talentos mais explosivos (a palavra foi escolhida por causa do curta) entre os cineastas em atividade, Cronenberg foi também notícia recentemente no mercado editorial brasileiro. A editora Objetiva, por meio do selo Alfaguara, comprou os direitos de publicação por aqui de “Consumed”, título provisório do primeiro romance escrito pelo cineasta.

Calma, calma. De acordo com o diário inglês “The Independent”, em artigo de Graeme Neill publicado em 15 de março, o cineasta concluiu apenas as primeiras 40 páginas do livro. Foi o bastante, no entanto, para que editoras de diversos países travassem batalhas pelos direitos.

No Reino Unido, a editora Fourth Estate pagou um adiantamento de cinco dígitos (em libras) por essa aposta em relativa escuridão -o manuscrito deverá ser entregue apenas em 2009.

“A abertura é absolutamente fantástica e não há motivos para pensar que o restante do livro seja inferior”, diz o editor Mark Richards, da Fourth Estate. A publicação especializada “The Bookseller”  informa que a trama do romance é protagonizada por um casal de jornalistas investigativos que trabalha em histórias distintas.

Ela está em Paris, apurando informações sobre o assassinato de uma mulher cujo corpo teria sido comido. Ele está em algum outro ponto da Europa, fazendo uma reportagem sobre um médico que desenvolveu novo tratamento de câncer.

O que se segue, afirma Richards, vem da “imaginação formidável” do cineasta. “Para onde vamos, a partir desse ponto, é parte da diversão”, diz. A editora Nicole Winstanley, da Penguin canadense, foi quem teria convencido Cronenberg a escrever um romance. Quando houve o anúncio oficial do projeto, em novembro do ano passado, previa-se que o livro seria ambientado em Toronto e que sairia apenas em 2010. “Esperei 50 anos por isso. Estou excitado”, disse Cronenberg na ocasião.

Grande Nicole. Não sei você, mas eu ainda não li e já gostei.

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h32 PM

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Um bate-papo com Wes Anderson


O mediador da Fnac, o diretor Wes Anderson e o produtor Roman Coppola

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Quando preparavam o roteiro de "Viagem a Darjeeling", o diretor Wes Anderson, o produtor Roman Coppola e o ator Jason Schwartzman percorreram a Índia de trem em busca de locações para as filmagens. Numa das paradas, chegaram a um vilarejo de casas azuis e foram convidados pelos anciãos a experimentar um chá de ópio. Podiam beber um ou três goles da infusão. Todos tomaram três. "É mais ou menos como tomar um Valium", brincou o diretor, falando para as mais de 300 pessoas que lotaram o pequeno auditório da Fnac Montparnasse, no último sábado, em Paris. É claro que o vilarejo azul e seus moradores entraram no filme.

Durante pouco mais de uma hora, Anderson e Coppola (o integrante menos famoso da ilustre família) participaram de um debate com o público sobre "Darjeeling", que só agora estreou na França, numa espécie de "making of verbal" do longa. Sobre o que o inspirou para fazê-lo, o cineasta disse: "Sempre andei muito de trem, gosto muito de viajar. E gosto de filmes que se passam em viagens, em cenários que se movem, que também mudam ao longo da história. Queria fazer um filme assim".

O diretor contou também que a nova obra teve três grandes fontes de inspiração cinematográfica: os documentários de Louis Malle sobre a Índia, o longa "O Rio Sagrado" (1951), de Jean Renoir, e a obra do cineasta indiano Satyajit Ray, homenageado pela Mostra de SP há alguns anos. O interesse pela filmografia de Ray foi tanto que Anderson usou na trilha de "Darjeeling" músicas que o indiano compusera para seus próprios filmes.

Mas o que mais definiu a cara do filme foi a tal viagem de preparação do roteiro. Anderson, Coppola e Schwartzman já haviam escrito 40 páginas em Paris, sem nunca terem pisado na Índia. "Grande parte do texto foi desenvolvida durante nossa viagem, conforme fomos conhecendo os lugares e as pessoas", disse Coppola. "Éramos três amigos em um trem indiano escrevendo a história de três irmãos em um trem indiano. O filme é fruto direto dessa nossa experiência", completou Anderson.

Após a viagem, os três tinham um roteiro para duas horas e meia de longa-metragem e passaram cerca de um ano para chegar à versão final, de 91 minutos. O passo seguinte foi a filmagem, realizada quase toda na Índia, com um trem local, alugado e adaptado para a produção e decorado por artistas indianos de acordo com a tradição rajastani. "Com nosso próprio trem, sem depender do sistema ferroviário indiano, conseguimos filmar muito rápido, sem precisar fazer grandes paradas. Isso foi ótimo para que os atores mantivessem o foco, a concentração", lembrou Coppola.

Questionado por seu gosto por famílias disfuncionais, como em "Darjeeling" e "Os Excêntricos Tenenbaums", Anderson disse que queria fugir um pouco disso no novo filme. "No início, tínhamos uma regra estabelecida: o filme não teria nenhuma menção ao resto da família. Nem pai nem mãe, nada. Só os três irmãos. No fim, toda a história gira em torno do impacto da morte do pai e da busca pela mãe."

Ao final da conversa, Anderson revelou um pouco de seu próximo trabalho: será uma adaptação do livro infanto-juvenil "The Fantastic Mr. Fox", de Roald Dahl, lançado no Brasil como "Raposas e Fazendeiros", pela editora Martins Fontes. Dahl é o mesmo autor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate", e o filme de Anderson será uma animação em stop-motion, feita no Reino Unido, com as vozes de George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Angélica Huston e, claro, Jason Schwartzman. Cool.

*

No cinema com Monicelli


Mario Monicelli na Cinemateca Francesa. Responda rápido: parece que ele tem 93 anos?

A Cinemateca Francesa começou na última semana uma enorme retrospectiva da obra do diretor italiano Mario Monicelli, 93, autor de mais de 60 filmes desde os anos 30. Ao longo de dois meses, a Cinemateca exibirá 48 longas do italiano, incluindo os mais famosos "O Incrível Exército de Brancaleone" (1966), "Meus Caros Amigos" (1975) e "Parente É Serpente" (1992). Além disso, fará palestras sobre as fases do cinema italiano das quais Monicelli fez parte. O próprio diretor participa da homenagem: na semana passada, apresentou dois de seus filmes e fez uma palestra com trechos de sua filmografia.

Na última quinta, o cineasta conversou rapidamente com a platéia antes da exibição de "Os Eternos Desconhecidos", longa de 1958 que lhe rendeu reconhecimento internacional e uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. É uma sátira aos filmes de assalto a banco da época e tem no elenco os então novatos Vitorio Gassman, Marcello Mastroianni e Claudia Cardinale. Divertidíssimo, o filme foi assumidamente uma inspiração para Woody Allen para a primeira parte de "Os Trapaceiros".

Monicelli contou que o longa estreou discretamente na França, em apenas uma sala, mas ficou muito tempo em cartaz. O boca-boca positivo chamou a atenção da "Cahiers du Cinéma", que incumbiu o crítico Jean Wagner de analisá-lo. O resultado foi um texto elogioso, na edição de número 101, afirmando que o longa de Monicelli criava um novo marco para a "comédia à italiana". A partir daí, o nome do diretor passou a ser diretamente associado ao gênero. E a revista incluiu "Os Estranhos Desconhecidos" na sua lista de melhores filmes de 1959. Para quem ficou curioso, uma dica: "Os Eternos Desconhecidos" (foto abaixo) está disponível em DVD no Brasil, lançado pela Versátil.

*

Booooooooooooooon

Há um fenômeno cultural em curso na França. Chama-se "Bienvenue Chez les Ch'tis", escrito, dirigido e estrelado pelo comediante Dany Boon. Nos próximos dias, deve se tornar o filme mais visto da história do cinema francês. Mas falarei disso na semana que vem, pois este post já está longo demais.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h10 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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