Ilustrada no Cinema
 

Dylan e saudade

Dylan e saudade

Nesta semana, o crítico Sérgio Rizzo fala, no podcast, sobre duas estréias que lidam, de alguma forma com a música. Entre elas, "Não Estou Lá", o aguardado longa de Todd Haynes inspirado pelas "muitas vidas de Bob Dylan". Seis atores interpretam o cantor e compositor. A outra grande estréia do fim de semana é o nacional "Chega de Saudade", de Laís Bodanzky, que se passa inteiro numa única noite em um baile da terceira idade.

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h28 PM

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Quando o olho aprende a dançar

Quando o olho aprende a dançar

Por Cássio Starling Carlos (crítico da Folha)

Da colcha de retalhos que é o resultado do filme-coletivo “Cada Um com Seu Cinema”, um dos curtas que mais se destaca é “Recrudescence”, dirigido pelo cineasta francês Olivier Assayas. Em vez de mirar o próprio umbigo e pôr em prática tiques autorais, Assayas inventa uma ficção, brevíssima, sobre o roubo de uma bolsa durante a projeção.

Salta aos olhos o modo elegante como Assayas filma, constituído por um jogo de olhares breves e um conjunto de movimentos firmes e fugazes. Nesta combinação, o que o diretor reitera é a própria construção da imagem de cinema, feita de angulações e de deslocamentos dos corpos.

Em “Eldorado/Preljocaj”, seu trabalho mais recente, exibido na TV franco-alemã ARTE há duas semanas, Assayas deixa ainda mais clara sua preferência por um olhar capaz de revelar o dentro e o fora dos movimentos, suas causas e seus efeitos.

A convite do coreógrafo Angelin Preljocaj, Assayas acompanhou os ensaios do espetáculo “Eldorado” e registrou cada etapa da construção do trabalho. Desde os diálogos de Preljocaj com Karlheinz Stockhausen, autor da música utilizada no espetáculo, até os processos de desenvolvimento da coreografia, sua incorporação pelos bailarinos, a criação de cenários e figurinos, o que Assayas oferece é um documento profundamente revelador do processo de criação artística.

Em todos os seus âmbitos e significados, a idéia mais presente é a de ensaio. De um lado, os bastidores e as repetições do grupo de Preljocaj. Do outro, um documentário ao modo de esboço no qual Assayas exercita um modo de olhar sem precisar que este denote um acabamento completo na forma.

Por mais que a dança tenha sempre feito parte do universo cinematográfico, sobretudo sua presença constante nos musicais, poucos cineastas aceitaram o desafio de filmá-la como objeto. As experiências de Saura com o flamenco e a de Altman em “De Corpo e Alma” ainda são tidas como desvios do foco cinema.

Já a aproximação entre “Recrudescence” e “Eldorado/Preljocaj” torna bastante nítidos tanto o modo como Assayas nos dá a ver os corpos como sua maneira de ressaltá-los a partir dessa expressão comum à dança e ao cinema que são os movimentos.

“Para evocar meu trabalho, eu falo de coreografia, arte que conheço muito pouco, mas da qual intuo que os princípios e valores mantêm uma relação com o que no cinema chamamos mise-en-scène, equivalente à que existe, na literatura, entre a poesia e o romance”, explica o cineasta.

"É como se a dança fosse o núcleo escondido do plano de cinema e da maneira como, neste, os corpos dos atores evoluem.”

“Eldorado/Preljocaj” é uma bela oportunidade de experimentar as delícias dessa dança do olhar.

 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 5h15 PM

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O paciente inglês: uma odisséia no espaço

O paciente inglês: uma odisséia no espaço

Por Bruno Yutaka Saito

Quando Antonioni morreu, em julho do ano passado, pouquíssimo tempo após Bergman, não foram poucos os que apontaram aí um simbólico fim de uma determinada era do cinema, como se houvesse uma simetria no acaso.

Claro que é exagero comparar essas duas perdas às de Anthony Minghella e Arthur C. Clarke, que aconteceram ontem. Digo exagero no sentido de impacto e marcas que deixaram no cinema, não na questão humana, óbvio.

Se houver simetria entre Minghella e Clarke, ela está no fato de que eles parecem estar em campos quase opostos. E também no fato de que suas principais obras tiveram forte impressão no público.

Menos no caso de Minghella, mas é inegável que “O Paciente Inglês” (1996) foi um daqueles filmes, em sua época, que ganharam fãs ardorosos ao mesmo tempo em que era odiado intensamente por outros.

É um daqueles filmes que parecem ser feitos para o Oscar de antigamente (hoje, sabemos, o Oscar parece estar tomado por uma nova geração, e não mais por tiozinhos).

Há um certo peso em cada cena, romance, teor épico, como se “Lawrence da Arábia” estivesse entre nós de novo. Cinemão como “de antigamente”.

Hoje, praticamente pouco se fala sobre “O Paciente Inglês”. Aparente vitória para os detratores, para quem acreditava que após o “hype” do Oscar, ele sumiria.

O melhor exemplo de inserção do filme na cultura popular, naquele momento, foi um episódio, hoje “clássico”, de “Seinfeld”, que satirizou bem essa “torcida”.

No episódio, Elaine e seu namorado vão assistir a “O Paciente Inglês”. Ela odeia profundamente. Esse fato vai torná-la uma espécie de pária. Todos irão olhar torto para ela, inclusive o namorado, que vai lhe dar um pé na bunda.

Elaine começa a ficar preocupada com sua impopularidade. Começa, então, a mentir, e dizer que nunca assistiu ao filme.

Já em relação a Arthur C. Clarke, a coincidência vem do fato de que “2001: Uma Odisséia no Espaço”, o filme de Stanley Kubrick baseado em sua obra, completa 40 anos. Acabou de chegar às lojas um DVD comemorativo do filme, com um disco inteiro de material extra.

Como bem reparou o crítico da Folha Sérgio Rizzo em seu texto sobre o DVD, interessante é observar o Clarke da época, que surge com ar de sabe-tudo em questões futuristas, e o Clarke dos dias de hoje, mais tranqüilo, sabendo que o futuro, enfim, não era tudo aquilo que foi sonhado.

Ainda que, hoje, novas gerações talvez nem saibam direito quem seja o escritor, só o fato de ter inspirado a produção de Kubrick já o coloca como nome central no cinema.

“Assim Falou Zaratustra”, de Strauss, que serviu de trilha para o filme, por exemplo, foi tão banalizada e incorporada em uma espécie de inconsciente coletivo, que parece sempre ter existido. Deve ter servido de fundo sonoro para tudo quanto é comercial de TV, filmes besteirol, transmissões de Jogos Olímpicos, enfim, tudo que necessite de “emoção” e “grandiosidade”.

Isso sem contar que “2001” ainda causa estranhamento. Woody Allen, que no lançamento do filme já tinha mais de 30 anos, disse certa vez ter ficado decepcionado com o longa: “Parecia um comercial da Nasa”.

***

Começou ontem, na Caixa Cultural do Rio, e vai até o dia 30, a mostra "Eu É um Outro - O Autor e o Objeto no Documentário Brasileiro Recente". São 36 documentários em longa-metragem realizados a partir de 2000.

As produções vêm divididas em seis blocos:

“Íntimo e Pessoal”; “Ilustres Conhecidos e Ilustres Anônimos”; “Ontem É Hoje”; “Em Processo”; “A Parte pelo Todo” e “Impressão da Expressão ou Expressão da Impressão”.

Entre os filmes, “Person”, “Estamira”, “Santiago”, “Fabricando Tom Zé” etc., ou seja, só produções significativas dos últimos anos.

A mostra é organizada por gente que sabe, entre eles, a ótima “Revista Cinética”, a produtora Duas Mariola Filmes e a Associação Cultural Contracampo, com curadoria dos críticos Eduardo Valente e Cléber Eduardo

Veja aqui a programação completa da mostra.

A Caixa Cultural do Rio de Janeiro  fica na av. Almirante Barroso, 25, tel. 0/xx/21/2544-4080); entrada franca. Atenção: Cine 1 (exibição em película) e 2 (exibição digital)

***

Bel Pedrosa - 15.out.1994/Folha Imagem

 

Fôssemos tentar definir Caio Fernando Abreu (1948-1996) em poucas palavras, poderíamos dizer que ele tem um peso semelhante, na literatura, ao que Renato Russo ou Cazuza tiveram na música brasileira. Ou, então, que seu principal livro, “Morangos Mofados”, é Clarice Lispector com sexo e drogas.

O culto a Caio só aumenta com os anos. Volta e meia estréiam peças de teatro baseadas em textos seus, e volta e meia seus livros ganham novas reedições.

Nesta quinta, dia 20, passa no Cineclube Sated o filme “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado. Nele, Caio faz uma ponta, breve mas divertida, em sintonia com o humor ácido que desenvolveu em sua obra. Não vou lembrar exatamente sua fala, mas é algo sobre se fulano é ou não gay.

Guilherme de Almeida era um dos grandes amigos de Caio, e tem várias citações nos livros póstumos autobiográficos do escritor.

O mesmo clima noir de “Perfume de Gardênia” promete se repetir em “Onde Andará Dulce Veiga”, novo filme de Prado, que ainda não estreou. Trata-se da adaptação do único romance escrito por Caio, uma trama que envolve um jornalista, uma estrela da música brasileira desaparecida há anos e inferninhos e personagens da fauna urbana. Ou seja, o universo preferido de Caio.

Dá para ter uma idéia de o que será o filme, que traz Maitê Proença, Carolina Dieckman e Eriberto Leão no elenco:

 

Na onda Caio, os fãs ainda podem assistir à minissérie da Globo “Queridos Amigos”, de Maria Adelaide Amaral, amicíssima de Caio. Ele é uma das pessoas que serviram de inspiração para o personagem de Guilherme Weber, Benny.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h45 PM

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O montador, esse quase desconhecido

O montador, esse quase desconhecido

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ambientado em um salão de baile de São Paulo durante uma única noite, “Chega de Saudade” entrará em cartaz na próxima sexta-feira. Como ocorre habitualmente, a diretora Laís Bodanzky, 38, e seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, 42, serão alçados pela imprensa à condição de “autores” do filme – o que não deixa de corresponder à realidade de desenvolvimento do projeto.

Esse tratamento reverencial contribui, no entanto, para alimentar no público uma visão romântica do cinema como meio de expressão movido pela “inspiração” e “criatividade” de apenas uma pessoa (nesse caso atípico, seriam duas), a exemplo da literatura e das artes plásticas, e não fruto da colaboração entre diversos profissionais.

Generosos com seus parceiros de trabalho, Laís e Luiz não pertencem ao grupo do “eu fiz”, e sim do “nós fizemos”. Em entrevista ontem à Folha para reportagem que será publicada na versão impressa do jornal ao longo desta semana, eles foram especialmente gentis com o montador Paulo Sacramento (que assina a montagem de “Amarelo Manga” e “Querô”, e a co-direção de “O Prisioneiro da Grade de Ferro”).

Abaixo, trechos da entrevista que são esclarecedores não apenas sobre “Chega de Saudade”, mas também sobre como filmes são feitos.

Luiz Bolognesi – A relação de trabalho do roteirista com o filme volta muito forte na montagem. O “Bicho de Sete Cabeças” nós montamos juntos, a Laís, eu e o montador, Jacopo Quadri. Desta vez, o Paulo montou com a Laís. Eu vinha de fora o tempo todo, mas era uma colaboração muito simpática: “precisamos mudar essa seqüência de lugar”, “temos que trazer aquele diálogo para cá”. “Chega de Saudade” tinha 50 horas de material filmado, com pedacinhos de histórias. As mais longas devem dar 15 ou 16 minutos; tem histórias de oito minutos.

O objetivo era tentar ser vertical nas personagens. Mas aquele material bruto era um caos absoluto. E, no resultado autoral do filme, tem a mão muito forte do Paulo Sacramento. O olhar dele foi muito importante. Ele não só limou e encurtou. Achou também o tempo das seqüências, como sair de um núcleo e entrar no outro, como passar pelas coisas. Ele conseguiu fazer cortes muito sintáticos, que às vezes não estavam no roteiro.

Um desses cortes sintáticos, por exemplo, foi no final da seqüência do argentino (Raul Bordale) vendo a mulher ir embora, a que dança com ele um tango (Clarisse Abujamra), e ele fica sozinho. A mulher pagou a conta pra ele, pagou um uísque pra ele, bateu uma punheta pra ele, e ele está claramente arrasado. Aí o Paulo Sacramento cola imediatamente naquele momento a personagem da Tonia Carrero falando: “Quando a gente ama, é preciso dizer que ama”. O off dela, a voz, entra ainda sobre a imagem dele, triste.

A maestria do Paulo está aí. Isso faz com que as passagens de um núcleo para o outro sejam quase sempre sintáticas: ou dizem por oposição ou por continuidade. Mas é sempre uma relação de comunicação entre significante e significado. Eu ajoelho para o Paulo.

Laís Bodanzky – Durante a mixagem, isso ficava muito claro. Apesar de o filme ser inteiramente realista, com interpretação naturalista, o som não é. Às vezes a gente está aqui conversando e o som da outra personagem entra já vazando na gente; o que ela está falando ali tem a ver com o que está acontecendo aqui. O som do filme não tem nada de realista. A música está tocando alto, depois está tocando baixo. Relaxem, eu dizia para a equipe. O som vai ser o que a gente quiser para o bem da história e da narrativa.

Muita gente pensa, principalmente quem não é da área: “Os atores estavam ali e vocês só ligaram a câmera, né?”. A sensação que dá é essa porque o filme escorrega. O tempo inteiro as histórias escorregam, muito por conta da montagem de imagens brincando com essa passagem do som.

* * *

Para o internauta disposto a entender um pouco melhor o trabalho do montador no cinema, um bom caminho é a leitura de “Num Piscar de Olhos – A Edição de Filmes sob a Ótica de um Mestre”, de Walter Murch (Ed. Jorge Zahar).

O trecho abaixo, que abre o capítulo “Cortes e falsos cortes”, fala de “Apocalypse Now”:

“Muitas vezes são os extremos que mais nos ensinam sobre os estados intermediários: gelo e vapor nos revelam mais sobre a natureza da água do que a própria água. É verdade que qualquer filme que mereça ser feito vai ser único e que as condições nas quais ele se realiza são tão variáveis que seria um equívoco falar em ‘condições normais’; ‘Apocalypse Now’ foi, por qualquer critério que se tome – cronograma, orçamento, ambição artística, inovação tecnológica – o equivalente cinematográfico do vapor e do gelo.

Considerando apenas o tempo que levou para finalizar o filme (eu editei a imagem durante um ano e passei mais um ano preparando e mixando o som), essa foi a pós-produção mais longa de um filme no qual trabalhei e talvez isso ajude a esclarecer um pouco a idéia do que significam ou podem significar ‘condições normais’.

Um dos motivos dessa demora foi simplesmente a quantidade de material filmado: 1.250.000 pés, o que significa um pouco mais de 230 horas. O filme pronto (na primeira versão) tem 2 horas e 25 minutos de duração, portanto, temos aí uma escala de 95 para 1, isto é, 95 minutos ‘não exibidos’ para cada minuto que entrou no produto final. A título de comparação, a média em filmes comerciais é de 20 para 1.

Transitar por esse universo de 95 para 1 era como avançar lentamente por uma floresta densa, encontrar algumas clareiras, parar, e em seguida penetrar de novo na mata. Em alguns casos, como nas seqüências dos helicópteros, havia muita imagem de cobertura, e em outras cenas, comparativamente, muito pouca.

Acho que só as cenas do Coronel Kilgore davam mais de 220 mil pés. Como elas representam 25 minutos do produto final, a escala aí é de 100 para um. Mas muitas das cenas de ligação tinham apenas uma tomada: Francis tinha gasto tanto negativo e tempo nos grandes eventos que compensou fazendo o mínimo de cobertura.”

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h38 PM

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11 horas em um cinema parisiense

11 horas em um cinema parisiense

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Manhã de domingo. Último dia do Cinéma du Réel, o festival de documentários mais importante da França, espécie de É Tudo Verdade local. 42 bravos espectadores se aconchegam nas poltronas da sala 1 do MK2 Beaubourg, um dos principais cinemas de Paris, para o início de uma maratona de quase 11 horas.

Esse é o tempo de duração de “Evolução de uma Família Filipina”, doc em que o diretor Lav Diaz reconstitui 16 anos da história de seu país, na lei marcial da ditadura de Ferdinand Marcos (1971-1986), sob a perspectiva de uma família camponesa pobre.

Antes do início da sessão, Diaz conta que três atores morreram ao longo dos dez anos de filmagem e pede ao público que resista às 10 horas e 45 minutos de, nas palavras dele, “sofrimento”. Para aliviar o esforço, a monitora do festival informa que a exibição será dividida em três partes e que bebidas e petiscos filipinos serão servidos nos dois intervalos de 15 minutos.

A obra de Diaz não é exatamente das mais fáceis, e “Evolução” é uma experiência glauberiana, em que o diretor mistura imagens em película e em vídeo, com encenações do cotidiano da família e cenas de arquivo históricas. A montagem não é linear, e a narrativa vai e volta no tempo acompanhando a trajetória de Raynaldo, o protagonista, e seus parentes.

A projeção digital podre do MK2 também não ajuda (em algumas cenas dá para contar os pixels), e, passada a primeira hora, uma primeira espectadora deixa a sala. A primeira etapa da sessão termina pouco antes das 15h, após quase quatro horas de filme. O quórum agora é de 34 espectadores.

Os tais petiscos filipinos se revelam chá, café e biscoitos nada asiáticos, comprados no mercadinho da esquina. A surpresa mais desagradável vem na seqüência, quando um funcionário do cinema revela que, para ver a segunda parte do filme, é preciso comprar mais um ingresso. E mais outro para o terço final.

Nesse momento chave do dia, o sovinismo supera a cinefilia. Desisto de pagar três entradas para ver o longa de Diaz até o final, abandono a maratona após um terço de prova e vou curtir o fim de tarde parisiense. Sorry, Lav. Não deu.

***

Um dos grandes destaques do Cinéma du Réel 2008 foi “Dans Les Décombres” (Nos Escombros), de Olivier Meys. Belga, o diretor mora na China há três anos e meio e passou um ano e meio filmando o processo de demolição de um bairro inteiro no centro da capital. Parte do plano do governo para os Jogos Olímpicos, a área será totalmente reconstruída, com prédios modernos e largas avenidas.

Com uma equipe chinesa e equipamento digital de pequeno porte, Meys não só conseguiu conquistar a confiança dos moradores do bairro como também pode trabalhar ao largo da censura oficial; nenhuma de suas imagens passou pelo crivo do PC chinês.

O resultado é um documentário de 92 minutos que é “cinema direto” na veia. Com uma câmera discreta e respeitosa, estática ou de movimentos lentos e suaves, sem narração em off ou cartelas explicativas, o filme mostra a rotina dos moradores desalojados: as queixas dos baixos valores pagos pelo governo para a desapropriação, a preparação da mudança e o desespero de ver a antiga casa destruída. Acompanha também o trabalho dos operários e dos chefes de obra.

Mais interessante ainda é a história da família que se recusa a mudar e improvisa uma casa em meio à demolição. Com essa colagem de personagens, “Dans Les Décombres” se revela um poderoso documento das transformações em curso na China atual. A torcer para que chegue ao Brasil.

***

A semana parisiense começa muito bem, obrigado. Ontem, hoje e amanhã acontece a Printemps du Cinéma, promoção em que quase todos os cinemas da França cobram 3,50 euros pelo ingresso. Nada mal, já que normalmente a entrada inteira custa cerca de 8 euros. É o nono ano do evento, que reúne 5.300 salas pelo país e que no ano passado vendeu 2,6 milhões de entradas.

O êxito da Printemps serviu de inspiração para a São Paulo no Cinema, festa parecida realizada na capital paulista em abril do ano passado. Acontecerá de novo em 2008?

Escrito por Leonardo Cruz às 11h27 AM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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