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O último filme de Rubens de Falco
No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta “Fim da Linha”, filme de estréia de Gustavo Steinberg, que entra em cartaz nos cinemas hoje. Comédia de humor negro, a produção é o último filme com o ator Rubens de Falco, morto recentemente. Para ouvir, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 2h49 PM
Por dentro da Boca

Por Cássio Starling Carlos (crítico da Folha)
Os “snuff movies” são uma das mais bem armadas lendas urbanas que se espalharam nos anos 70. Apareceram do nada e acabaram virando uma espécie de mito reflexivo do próprio cinema. Supostamente, tratava-se de filmes em que as cenas de agressão e assassinato ultrapassavam os limites da encenação ao se converterem em ato. Ou seja, um modo de se libertar das amarras do realismo e alcançar a coisa em si, em direção a um obsceno que hoje a pornografia se encarregou de suplantar.
“Vítimas do Prazer”, um filme da Boca do Lixo realizado em 1977 por Cláudio Cunha a partir de um roteiro assinado pelo diretor junto com Carlos Reichenbach, explora a temática em voga na época de um modo bastante interessante.
Dois produtores picaretas chegam a São Paulo e convencem uma trupe de técnicos e elenco em situações precárias de sobrevivência a se isolarem num sítio do interior e participarem da realização de um filme de sacanagem. Há um pouco de nudez, que hoje soa bem pudica, como fórmula básica do filme comercial produzido na Boca.
Mas é menos pelo valor arqueológico e mais pelas questões estéticas que vale a pena dar uma conferida no filme, que será exibido hoje, às 19h, do Cineclube Sated, seguido de um debate com a presença do diretor.
Em primeiro lugar, o status de precariedade do nosso cinema, desde o modo de sobrevivência dos técnicos e artistas até as condições de realização, é um tema muito mais central da obra do que o argumento sensacionalista do “snuff movie”.
Carlos Vereza faz um proprietário de uma produtora à beira da falência que acaba aceitando a proposta de dois gringos para alugar seu equipamento e também ocupar as funções de câmera na produção. Uma atriz de certo renome, mas ameaçada pela falta de trabalho aceita embarcar na aventura. O ator é tirado de dentro de um hospício. E a coadjuvante gostosa sobrevive expondo seu corpo em espetáculos de strip-tease em clubes e teatros do centrão.
Completa esse retrato social a forma canibalista da postura do produtor, um falso gringo que explora a situação mambembe dos profissionais para lançá-los na aventura da filmagem perversa.
Sob a forma de filme B, o que acaba se revelando é a própria situação do cinema. Cunha e Reichenbach não perdem tempo com metalinguagens, nem sobrecarregam as situações dramáticas com intelectualismos.
O que fazem é um típico produto da Boca, um filme que explora as possibilidades comerciais da época sem perder de vista a possibilidade de refletir sobre as condições do próprio fazer cinematográfico nesse nosso modo brasileiro, ainda precário, mas sempre confiante em sua inteligência.
***
Vale à pena ficar de olho na programação de clássicos da Boca do Cineclube Sated (av. São João, 1.086, cj 401 - Centro), que exibirá nas próximas semanas o impactante “Lílian M: Relatório Confidencial”, de Carlos Reichenbach (dia 13), “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado (dia 20), e “Corpo e Alma de uma Mulher”, de David Cardoso, dia 27.
Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h35 AM
Guerra sem fim
 Cena do game "Star Wars: The Force Unleashed"
Por Bruno Yutaka Saito
Se você é devoto de “Star Wars”, já deve saber há tempos que começa hoje a exposição no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. Estão lá mais de 200 peças originais que foram usadas nos filmes da saga de George Lucas.
Mas, se você nunca deu muita bola para a série, talvez ache exagero que Luke, Darth Vader e cia. ganhem tanto espaço em uma exposição desse porte.
Será?
Não é preciso ser nenhum fã da série para saber que, sim, “Star Wars” mudou para sempre a forma de fazer, consumir e pensar cinema. E, mais ainda, que “Star Wars” é um mito, hoje, por si só, que vai além dos seis filmes.
E, nesses 30 anos de existência da franquia, a questão que mais me vem à mente, ao menos do ponto de vista cinematográfico, é observar como George Lucas deixou de lado a ambição de falar sobre outros temas, outros personagens, de fazer outros filmes, enfim.
A tese não é nova. Há quem compare a própria história de Lucas à de Anakin Skywalker, aquele sujeito do bem que, tomado por uma força maior, torna-se o vilão Darth Vader.
O fato é que Lucas criou uma obra excepcional, mas acabou aprisionado por ela. Há anos não dirige outro filme que não seja do mundo “Star Wars”. E a exposição que vem agora ao Brasil é um bom exemplo de como o mito é mantido.
De tempos em tempos Lucas lança versões refeitas, estendidas, etc., dos filmes da trilogia original. Volta e meia sai uma nova caixa com esses filmes, com mais extras e tal.
No dia 12, por exemplo, a Fox lança outra caixa com a trilogia clássica. Cada um dos filmes virá com um disco de extras. Segundo a distribuidora, a caixa será vendida apenas durante o tempo em que a exposição estiver em cartaz (29 de junho).
Outro fator que mostra como Lucas ainda tem “Star Wars” como idéia fixa, e que pretende sempre renovar a geração de devotos, é o lançamento, neste ano, do game “Star Wars - The Force Unleashed”. Veja o trailer aqui.
Com ele, Lucas quer fazer no mundo dos games aquilo que ele já fez no cinema, em 1977, ou seja, renovar os parâmetros de uma mídia.
Com “Force Unleashed”, a empresa de Lucas quer passar por cima daquele principal bloqueio que os games têm: por mais que o jogador faça manobras diferenciadas, o software irá sempre responder de maneiras semelhantes.
Agora, a idéia é dotar os games de uma espécie de inteligência artificial. Ou seja, os personagens irão reagir de diferentes maneiras a diferentes estímulos. Sempre de maneiras "imprevisíveis", como se fossem humanos. Pode parecer pouca coisa, mas não é.
O novo game, por exemplo, vai contar o que acontece entre os episódios 3 e 4 da série (“A Vingança dos Sith” e “Uma Nova Esperança”). Darth Vader terá um aprendiz, e a Força será usada (pelos jogadores) para fins nada nobres.
Se a tecnologia realmente funcionar, “Star Wars” pode novamente entrar para a história.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 3h45 PM
Multiplex de fino trato
Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)
Stanley Kubrick, Steven Spielberg, Marcello Mastroianni, Elizabeth Taylor,
Jerry Lewis e Peter Watkins, mais Branca de Neve, Mowgli e Superman. Toda essa
turma, e um punhado de outros cineastas, atores e personagens, estão reunidos na
programação do mais sofisticado (e improvisado) multiplex de São Paulo
(provavelmente, do Brasil) até o próximo dia 30, graças à exposição “Colateral 2
– Quando a Arte Olha o Cinema”, no Sesc
Avenida Paulista.
 "Superman Recites Selections From "The Bell
Jar" and Other Works By Sylvia Plath", de Mike Kelley
Como o subtítulo sugere, a mostra lembra que alguns dos trabalhos
audiovisuais mais inventivos e provocantes não estão hoje nos cinemas, nem mesmo
os de programação alternativa, e sim em galerias de arte.
“Devido à sua natureza, o cinema se presta a ser despedaçado. Um filme é
feito da junção de imagens individuais que, editadas juntas em seqüências, dão
um sentido ao enredo. Indo na outra direção, as seqüências podem ser desmontadas
e remontadas em um outro contexto. Esta foi a grande lição do dadaísmo, que nos
primórdios da descontextualização introduziu o princípio da colagem e dos
‘objets trouvés’ (objetos achados)”, diz a curadora de “Colateral 2”, a armênia
Adelina von Fürstenberg, fundadora e presidente da ART for the World, associada ao
Departamento de Informações Públicas da ONU.
“Colateral 2” reúne, em três espaços distintos, 15 obras. As três instaladas
no térreo sofrem com as péssimas condições de luz e som do local. Pena, porque
ao menos “Star Tricks” (1996), do grego Dimitris Kozaris,
merecia espaço mais nobre do que o corredor de entrada do prédio. É uma colagem,
de 32 minutos, em que “Jornada nas Estrelas” e “2001, uma Odisséia no Espaço” se
combinam com propaganda de pasta de dentes, o Batman de Adam West e Jerry
Lewis.
 Esse Batman desesperado com a bomba está em "Star
Tricks"
No terceiro e quarto andares do prédio, as condições são bem mais favoráveis.
Pequenas salas de projeção foram montadas para exibição contínua de 12
trabalhos. Em quase todas, há poltronas de cinema (inclusive com o descanso para
copo), o que vem a calhar, porque há longas-metragens exibidos na íntegra.
Se não houver tempo para tudo, procure conferir:
- “Murder” (2002), do suíço Thomas G. Em pouco mais de dois
minutos, uma cena de “O Iluminado” é exibida em câmera lenta, de trás para a
frente, com o menino interpretado por Danny Lloyd repetindo a palavra do título
(assassinato).
 A cena do garoto de "O Iluminado" que é retrabalhada em "Murder"
- “Kristall” (2006), dos alemães Christoph
Girardet e Matthias
Müller. Cenas de filmes dos anos 40, 50 e 60, com personagens diante de
espelhos, criam uma inebriante sucessão de momentos partidos e recompostos.
- “Body Double 21” (2005), do francês Brice Dellsperger. Episódio de
série que trabalha sobre a dilatação do tempo de seqüências de longas-metragens.
Aqui, a cena de suicídio na banheira de “As Regras da Atração”, de Roger Avary,
se estende por cerca de 20 minutos graças a diversas inserções.
Escrito por Sérgio Rizzo às 11h15 AM
Por Bruno Yutaka Saito
Existiria espaço para Alfred Hitchcock nos dias atuais? Se sim, quais atores ele iria escalar para seus filmes?
Respondendo à segunda pergunta, a revista “Vanity Fair” decidiu entrar na brincadeira em sua edição de março. No seu já tradicional especial Hollywood Portfolio, que traça um “quem é quem” dos atores mais quentes do momento, a equipe da revista convidou 21 astros e estrelas para recriar cenas de 11 diferentes clássicos do diretor.
É uma delícia ver como os editores e fotógrafos da “Vanity Fair” fizeram seu cast.
Norman Jean Roy

Claro que dá uma sensação conservadora do tipo “não há substitutos à altura” quando vemos Renée Zellweger incorporando a atormentada Kim Novak de “Um Corpo que Cai” (1958).
Mas o oscarizado Javier Bardem não está nada mal como o James Stewart voyeur de “Janela Indiscreta” (1954). E, se não há mulher mais elegante do que Grace Kelly, Scarlett Johansson esbanja graça na sua incorporação da fiel Lisa.
Compare:
Norman Jean Roy

E o original:

A recriação e a preocupação nos detalhes espanta. Afinal, como a revista mesmo destaca, Hitchcock era um perfeccionista, que já desenhava na cabeça e em storyboards exatamente como gostaria que a cena saísse.
O caso “Os Pássaros” (1963) é um bom exemplo. Havia o problema de hoje em dia não ser mais fabricada a cabine telefônica onde Tippi Hedren é atacada. Como solução, a equipe encomendou uma cabine especialmente para que Jodie Foster pudesse exprimir todo seu pânico.
Norman Jean Roy

E só mais uma comparação. A aterrorizante cena do chuveiro de "Psicose" (1960), complicadíssima em termos "fílmicos", é uma das melhores do ensaio. Marion Cotillard, a Piaf, enfrenta Norman Bates com coragem. Embaixo, uma cena do ensaio e, depois, cena do original.
Mark Seliger


Veja aqui um making of. E veja aqui um especial que já está no ar no YouTube com as fotos do ensaio.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h11 AM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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