Ilustrada no Cinema

 

 

Acredite: o cinema francês está em crise

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Manchete do jornal “Libération” da última sexta: “Um roteiro para salvar o cinema francês”. Como? O cinema francês precisa ser salvo? Os números indicam outra coisa: em 2007, 228 filmes foram realizados na França, quase sempre com algum tipo de apoio público, e as produções nacionais responderam por 44,7% dos ingressos vendidos no país, a maior fatia do mercado. Nos próximos dias, um longa deve ultrapassar a marca de 17 milhões de espectadores, para se tornar o filme nacional mais visto da história. Essa indústria de exceção, que protege o cinema de autor e deixa muitos outros países com inveja, está em crise?

Sim, responde a cineasta Pascale Ferran (do ótimo “Lady Chatterley”), líder do Clube dos 13, grupo de 13 profissionais de cinema (diretores, roteiristas, produtores, distribuidores, exibidores e nenhum cartola de futebol). Na semana passada,  essa trupe apresentou um relatório de mais de 200 páginas, elaborado ao longo de dez meses, sobre o estado de saúde da produção cinematográfica nacional.

O diagnóstico de Ferran: o sistema de financiamento público, desenvolvido nos anos 80, está obsoleto, não é mais capaz de atender de forma eficaz os filmes que mais precisam dele, os de médio e baixo orçamento. Para a diretora, o cinema francês hoje é formado por “filmes muito ricos e por outros anormalmente pobres, alguns superexpostos e outros renegados a um silêncio absoluto”. Soa familiar, não?

Uma das questões centrais em debate é o papel das grandes redes da TV aberta. Por lei, elas são obrigadas a investir em cinema e se tornam a principal fonte de financiamento dos filmes de médio orçamento (entre 4 milhões e 7 milhões de euros). Cada vez mais, as emissoras têm julgado o conteúdo dos filmes, pois avaliam que o cinema de arte não dá audiência. “Temas, gêneros, roteiros, elencos, prazos e níveis de financiamento, tudo se tornou objeto de limitações cada vez mais drásticas e muitas vezes arbitrárias”, argumenta Ferran. Resultado: os filmes médios são cada vez mais raros na França, e cresce o número de produções de baixo orçamento (menos de 2 milhões de euros).

Outro ponto-chave: criar um imposto de 5,5% sobre os lucros das grandes cadeias de exibição com propaganda de cinema. A receita desses cinemas franceses com publicidade saltou de 2,5 milhões de euros em 1998 para 54 milhões em 2006. O valor arrecadado seria usado para modernização das salas independentes, que se dedicam ao cinema de autor.

O documento apresenta ainda outras propostas, como a criação de um fundo de apoio à venda de produções francesas no exterior, e aborda todas as etapas da elaboração de um filme. Foi endossado por 75 profissionais de cinema e será entregue na próxima quinta a Christine Albanel, a ministra da Cultura da França. Nas palavras de um de seus defensores, o veterano Claude Chabrol, “é uma máquina de guerra contra os imbecis” que atrapalham o cinema francês.


A diretora Pascale Ferran, que passou dez meses
elaborando estudo sobre o cinema francês

Para os interessados: a “Cahiers du Cinéma” preparou em seu site um dossiê sobre o relatório de Pascale Ferran, com trechos do documento e uma análise de seu editor-chefe, Jean-Michel Frodon. A íntegra da proposta sairá em livro na França no próximo dia 15 e depois será colocada na internet.

***

A febre que vem do norte


Dany Boon (à dir.), como o carteiro
 Antoine em “Bienvenue Chez Les Cht’is”

Noite de sábado, Stade de France, Paris. Na tribuna do estádio, o presidente Nicolas Sarzoky aguarda para entregar a Pauleta, o capitão do Paris Saint-German, a taça de campeão da Copa da Liga da França _o PSG acaba de vencer o Lens por 2 a 1. Enquanto espera, Sarkozy é abordado por um repórter do canal France 2, que, lá pelas tantas,  pergunta: “Sr. presidente, o sr. já viu ‘Bienvenue Chez Les Ch’tis’?”. Resposta: “Não, ainda não tive tempo por causa de minha agenda de viagens internacionais, mas estou ansioso para vê-lo”.

Essa cena bizarra, transmitida ao vivo pelo canal para todo o país, dá a dimensão de um fenômeno que toma conta da França há quatro semanas, desde que “Bienvenue Chez Les Ch’tis” entrou em cartaz. Na última quinta, o longa chegou a 15,3 milhões de espectadores, marca que o coloca como o segundo filme nacional mais visto até hoje, atrás apenas de “A Grande Escapada”, filme de 1966 de Gérard Oury, visto nos cinemas por 17,3 milhões de pessoas. A média de espectadores indica que “Ch’tis” ultrapassará essa marca e que tem boas chances de superar “Titanic”, o recordista estrangeiro, que em 1998 atraiu um público de 20,7 milhões.

Escrito, dirigido e estrelado pelo comediante Dany Boon, “Ch’tis” brinca com as diferenças regionais da França, ao colocar em foco os costumes, o sotaque e as gírias dos moradores do norte. Nascido na região, o humorista transforma em piada a visão estereotipada que boa parte do país tem dos nortistas, vistos como rudes e iletrados. Seu filme conta a história de um diretor de uma agência do correio que é transferido da ensolarada Salon-de-Provence, no sul, para a pequena e gélida Bergues. Boon é o carteiro que mostrará ao novo chefe que o norte não é tão inóspito quanto parece.

O sucesso do longa provoca um frisson da mídia francesa, e o rosto de Dany Boon pulula em reportagens de capa de revistas, em programas de TV, em perfis em jornais. Seu show de humor em Paris tem sessões lotadas, e o comediante empresta sua voz ao elefante que protagoniza a animação “Horton”, na dublagem francesa do desenho. Para explicar o êxito, o diário “Le Fígaro”  publicou reportagem de uma página inteira sobre o amor que as platéias têm pelos anti-heróis, pelos personagens comuns, com os quais se identificam facilmente. Essa tese foi ratificada pelo sociólogo e professor da Sorbonne Michel Maffesoli, que em entrevista disse que “prevalece hoje na sociedade francesa um interesse pela vida cotidiana, banal”.

O apelo popular de “Ch’tis” não rendeu a equivalente admiração da crítica francesa. Uma das análises mais interessantes foi a do jornalista Pierre Murat, na revista semanal "Telérama", que usou o filme como exemplo da produção nacional atual: “Em um salto para trás de meio século, o cinema francês voltou ao que era na metade dos anos 50. Profissional e asfixiado. Tragado por essa ‘qualidade França’ que incomodava críticos como André Bazin e futuros cineastas como François Truffaut”. Em outras palavras”, “Ch’tis” simboliza a tal crise do cinema francês de que fala Pascale Ferran.

Veja o trailer:



Escrito por Leonardo Cruz às 12h27 PM

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Tudo sobre o É Tudo Verdade

Tudo sobre o É Tudo Verdade

O festival É Tudo Verdade é a principal vitrine de documentários da América Latina. No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo dá alguns truques sobre como se orientar em meio à grande quantidade de bons filmes da mostra. Nesta edição, o festival acontece simultaneamente em São Paulo e Rio até o dia 6 de abril e, depois, parte resumido para outros endereços: Bauru (10 a 13/4); Brasília (14 a 20/4); Recife (17 a 20/4) e Caxias (24 a 27/4).

Clique no microfone abaixo:

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h36 PM

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A verdade às vezes dói

A verdade às vezes dói

Por Cássio Starling Carlos

De um festival de documentários a expectativa mais banal é que exiba horas e horas de filmes cuja principal vocação seja a revelação de verdades. Afinal, temos a sensação de que documentários são instrutivos, que aprendemos a respeito de fatos, de histórias, de personagens e de comportamentos quando os assistimos.

O nome “É Tudo Verdade”, dado a uma dos eventos mais importantes de cinema oferecidos anualmente a parte do público brasileiro, não deixa de comportar ironias. Alguns títulos programados nos levam, sobretudo, a pôr em questão a estreiteza de nossas concepções de “verdade”, daí a validade de o festival trazer um nome tão incisivo.

Nesta 13ª edição, há opções para todos os gostos. Entretanto, quem se interessa mais de perto tanto por cinema quanto por documentários não pode perder os títulos da Retrospectiva Internacional, batizada sem modéstia como “Dez Documentários que Abalaram o Mundo”.

Nesta seleção, meus favoritos são dois títulos que exemplificam com perfeição as ambigüidades contidas na expressão “É Tudo Verdade”, além de serem aulas de cinema.

O primeiro é o trabalho do cineasta Marcel Ophüls em “A Dor e a Piedade”, uma crônica da vida em uma cidade francesa sob a ocupação alemã durante a Segunda Guerra. O diretor explora o descompasso entre aquilo que parte de seus entrevistados crê ter acontecido e como foi de fato a relação entre dominadores e dominados, revelada em extraordinárias imagens de arquivo, além de entrevistas, fotos pessoais e memórias.

Veja o trailer:

Ophüls traz à tona o deslizamento de valores provocado pelas mudanças de ocupantes no trono da história e produz um filme tão incômodo que sua exibição na TV francesa ficou vetada por mais de uma década.

 

Do outro lado da mesma história, pode-se detestar, mas não é possível ignorar o trabalho de Leni Riefensthal no mítico “O Triunfo da Vontade”. Realizado em 1936, o filme registra o gigantesco congresso do Partido Nacional Socialista de Hitler na cidade alemã de Nuremberg em 1934.

Veja a abertura:

 

Por trás das imagens documentais de Riefenstahl, dois elementos mais resistentes saltam à nossa vista. Primeiro, o quanto uma imagem é resultado de uma construção. Segundo, como um registro factual pode exercer um tal poder de fascínio, mesmo quando se sabe que ele está submetido à propaganda de valores que teoricamente recusamos.

Há um predomínio no cinema de Riefenstahl pelo culto à monumentalidade, contido nos planos de grandes blocos formais e no recurso reiterado da câmera baixa. Esse gigantismo da forma esmaga de tal modo nosso olhar que se torna evidente a sedução por ele exercida sobre as massas de espectadores alemães, convertidos ao culto da força e da superioridade arianas.

Da mesma maneira, a idéia de perfeição que emana das imagens de “O Triunfo da Vontade” não se desvincula da ideologia nazista, pois ambas se sustentam nos ideais de submissão à forma, no controle total da figura, no tudo em seu exato lugar, que se verá reafirmado no posterior “Olympia”.

Curiosamente, a “desnazificação” de Riefenstahl pode ter tido efeitos sobre sua vida pessoal, mas nunca afetou sua estética. Nas fotos que ela fez da tribo dos Nuba, no Sudão, nos anos 70, a beleza formalista se impõe ao interesse politicamente correto da artista por indivíduos negros.

Até em seu último documentário, “Impressões Debaixo d”Água”, em que filma a dança submarina de criaturas animais fica a impressão de que Riefenstahl é nazista até debaixo d’água.

Com estes dois exemplos, o festival de documentários repete uma velha e boa lição: que certas verdades permanecem mais incômodas que outras.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 6h21 PM

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Três vezes Cronenberg

Três vezes Cronenberg

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ocasião raríssima: dois filmes recentes do canadense David Cronenberg circulam pelos cinemas do país. Ninguém haveria de esquecer “Senhores do Crime” (tradução besta para “Eastern Promises”), muito bem apresentado neste blog por Alcino Leite Neto durante a Mostra Internacional de São Paulo do ano passado. Quando estreou, em fevereiro, Inácio Araujo e Jorge Coli escreveram sobre ele na versão impressa da Folha.

Cronenberg também está em cartaz, no entanto, graças a “Cada um Com Seu Cinema", que traz um curta dirigido e protagonizado por ele (“No Suicídio do Último Judeu do Mundo no Último Cinema do Mundo”) entre os 31 reunidos para homenagear, em 2007, os 60 anos do Festival de Cannes (seriam 33, mas o dos irmãos Coen e o de Michael Cimino não integram a cópia brasileira, segundo a distribuidora Dreamland, porque a autorização não chegou a tempo).

Quem já viu “Cada Um Com Seu Cinema” sabe que o curta de Cronenberg integra o grupo dos que resolveram pôr a cabeça para funcionar nessa coletânea repleta de narcisismo e de preguiça. Literalmente, por sinal: é a cabeça do próprio Cronenberg que vemos o tempo todo, enquanto ouve-se um casal de narradores que... Deixe pra lá. Melhor não estragar a surpresa de quem ainda não teve a oportunidade de conferir.

Um dos talentos mais explosivos (a palavra foi escolhida por causa do curta) entre os cineastas em atividade, Cronenberg foi também notícia recentemente no mercado editorial brasileiro. A editora Objetiva, por meio do selo Alfaguara, comprou os direitos de publicação por aqui de “Consumed”, título provisório do primeiro romance escrito pelo cineasta.

Calma, calma. De acordo com o diário inglês “The Independent”, em artigo de Graeme Neill publicado em 15 de março, o cineasta concluiu apenas as primeiras 40 páginas do livro. Foi o bastante, no entanto, para que editoras de diversos países travassem batalhas pelos direitos.

No Reino Unido, a editora Fourth Estate pagou um adiantamento de cinco dígitos (em libras) por essa aposta em relativa escuridão -o manuscrito deverá ser entregue apenas em 2009.

“A abertura é absolutamente fantástica e não há motivos para pensar que o restante do livro seja inferior”, diz o editor Mark Richards, da Fourth Estate. A publicação especializada “The Bookseller”  informa que a trama do romance é protagonizada por um casal de jornalistas investigativos que trabalha em histórias distintas.

Ela está em Paris, apurando informações sobre o assassinato de uma mulher cujo corpo teria sido comido. Ele está em algum outro ponto da Europa, fazendo uma reportagem sobre um médico que desenvolveu novo tratamento de câncer.

O que se segue, afirma Richards, vem da “imaginação formidável” do cineasta. “Para onde vamos, a partir desse ponto, é parte da diversão”, diz. A editora Nicole Winstanley, da Penguin canadense, foi quem teria convencido Cronenberg a escrever um romance. Quando houve o anúncio oficial do projeto, em novembro do ano passado, previa-se que o livro seria ambientado em Toronto e que sairia apenas em 2010. “Esperei 50 anos por isso. Estou excitado”, disse Cronenberg na ocasião.

Grande Nicole. Não sei você, mas eu ainda não li e já gostei.

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h32 PM

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Um bate-papo com Wes Anderson


O mediador da Fnac, o diretor Wes Anderson e o produtor Roman Coppola

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Quando preparavam o roteiro de "Viagem a Darjeeling", o diretor Wes Anderson, o produtor Roman Coppola e o ator Jason Schwartzman percorreram a Índia de trem em busca de locações para as filmagens. Numa das paradas, chegaram a um vilarejo de casas azuis e foram convidados pelos anciãos a experimentar um chá de ópio. Podiam beber um ou três goles da infusão. Todos tomaram três. "É mais ou menos como tomar um Valium", brincou o diretor, falando para as mais de 300 pessoas que lotaram o pequeno auditório da Fnac Montparnasse, no último sábado, em Paris. É claro que o vilarejo azul e seus moradores entraram no filme.

Durante pouco mais de uma hora, Anderson e Coppola (o integrante menos famoso da ilustre família) participaram de um debate com o público sobre "Darjeeling", que só agora estreou na França, numa espécie de "making of verbal" do longa. Sobre o que o inspirou para fazê-lo, o cineasta disse: "Sempre andei muito de trem, gosto muito de viajar. E gosto de filmes que se passam em viagens, em cenários que se movem, que também mudam ao longo da história. Queria fazer um filme assim".

O diretor contou também que a nova obra teve três grandes fontes de inspiração cinematográfica: os documentários de Louis Malle sobre a Índia, o longa "O Rio Sagrado" (1951), de Jean Renoir, e a obra do cineasta indiano Satyajit Ray, homenageado pela Mostra de SP há alguns anos. O interesse pela filmografia de Ray foi tanto que Anderson usou na trilha de "Darjeeling" músicas que o indiano compusera para seus próprios filmes.

Mas o que mais definiu a cara do filme foi a tal viagem de preparação do roteiro. Anderson, Coppola e Schwartzman já haviam escrito 40 páginas em Paris, sem nunca terem pisado na Índia. "Grande parte do texto foi desenvolvida durante nossa viagem, conforme fomos conhecendo os lugares e as pessoas", disse Coppola. "Éramos três amigos em um trem indiano escrevendo a história de três irmãos em um trem indiano. O filme é fruto direto dessa nossa experiência", completou Anderson.

Após a viagem, os três tinham um roteiro para duas horas e meia de longa-metragem e passaram cerca de um ano para chegar à versão final, de 91 minutos. O passo seguinte foi a filmagem, realizada quase toda na Índia, com um trem local, alugado e adaptado para a produção e decorado por artistas indianos de acordo com a tradição rajastani. "Com nosso próprio trem, sem depender do sistema ferroviário indiano, conseguimos filmar muito rápido, sem precisar fazer grandes paradas. Isso foi ótimo para que os atores mantivessem o foco, a concentração", lembrou Coppola.

Questionado por seu gosto por famílias disfuncionais, como em "Darjeeling" e "Os Excêntricos Tenenbaums", Anderson disse que queria fugir um pouco disso no novo filme. "No início, tínhamos uma regra estabelecida: o filme não teria nenhuma menção ao resto da família. Nem pai nem mãe, nada. Só os três irmãos. No fim, toda a história gira em torno do impacto da morte do pai e da busca pela mãe."

Ao final da conversa, Anderson revelou um pouco de seu próximo trabalho: será uma adaptação do livro infanto-juvenil "The Fantastic Mr. Fox", de Roald Dahl, lançado no Brasil como "Raposas e Fazendeiros", pela editora Martins Fontes. Dahl é o mesmo autor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate", e o filme de Anderson será uma animação em stop-motion, feita no Reino Unido, com as vozes de George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Angélica Huston e, claro, Jason Schwartzman. Cool.

*

No cinema com Monicelli


Mario Monicelli na Cinemateca Francesa. Responda rápido: parece que ele tem 93 anos?

A Cinemateca Francesa começou na última semana uma enorme retrospectiva da obra do diretor italiano Mario Monicelli, 93, autor de mais de 60 filmes desde os anos 30. Ao longo de dois meses, a Cinemateca exibirá 48 longas do italiano, incluindo os mais famosos "O Incrível Exército de Brancaleone" (1966), "Meus Caros Amigos" (1975) e "Parente É Serpente" (1992). Além disso, fará palestras sobre as fases do cinema italiano das quais Monicelli fez parte. O próprio diretor participa da homenagem: na semana passada, apresentou dois de seus filmes e fez uma palestra com trechos de sua filmografia.

Na última quinta, o cineasta conversou rapidamente com a platéia antes da exibição de "Os Eternos Desconhecidos", longa de 1958 que lhe rendeu reconhecimento internacional e uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. É uma sátira aos filmes de assalto a banco da época e tem no elenco os então novatos Vitorio Gassman, Marcello Mastroianni e Claudia Cardinale. Divertidíssimo, o filme foi assumidamente uma inspiração para Woody Allen para a primeira parte de "Os Trapaceiros".

Monicelli contou que o longa estreou discretamente na França, em apenas uma sala, mas ficou muito tempo em cartaz. O boca-boca positivo chamou a atenção da "Cahiers du Cinéma", que incumbiu o crítico Jean Wagner de analisá-lo. O resultado foi um texto elogioso, na edição de número 101, afirmando que o longa de Monicelli criava um novo marco para a "comédia à italiana". A partir daí, o nome do diretor passou a ser diretamente associado ao gênero. E a revista incluiu "Os Estranhos Desconhecidos" na sua lista de melhores filmes de 1959. Para quem ficou curioso, uma dica: "Os Eternos Desconhecidos" (foto abaixo) está disponível em DVD no Brasil, lançado pela Versátil.

*

Booooooooooooooon

Há um fenômeno cultural em curso na França. Chama-se "Bienvenue Chez les Ch'tis", escrito, dirigido e estrelado pelo comediante Dany Boon. Nos próximos dias, deve se tornar o filme mais visto da história do cinema francês. Mas falarei disso na semana que vem, pois este post já está longo demais.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h10 PM

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Dylan e saudade

Dylan e saudade

Nesta semana, o crítico Sérgio Rizzo fala, no podcast, sobre duas estréias que lidam, de alguma forma com a música. Entre elas, "Não Estou Lá", o aguardado longa de Todd Haynes inspirado pelas "muitas vidas de Bob Dylan". Seis atores interpretam o cantor e compositor. A outra grande estréia do fim de semana é o nacional "Chega de Saudade", de Laís Bodanzky, que se passa inteiro numa única noite em um baile da terceira idade.

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h28 PM

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Quando o olho aprende a dançar

Quando o olho aprende a dançar

Por Cássio Starling Carlos (crítico da Folha)

Da colcha de retalhos que é o resultado do filme-coletivo “Cada Um com Seu Cinema”, um dos curtas que mais se destaca é “Recrudescence”, dirigido pelo cineasta francês Olivier Assayas. Em vez de mirar o próprio umbigo e pôr em prática tiques autorais, Assayas inventa uma ficção, brevíssima, sobre o roubo de uma bolsa durante a projeção.

Salta aos olhos o modo elegante como Assayas filma, constituído por um jogo de olhares breves e um conjunto de movimentos firmes e fugazes. Nesta combinação, o que o diretor reitera é a própria construção da imagem de cinema, feita de angulações e de deslocamentos dos corpos.

Em “Eldorado/Preljocaj”, seu trabalho mais recente, exibido na TV franco-alemã ARTE há duas semanas, Assayas deixa ainda mais clara sua preferência por um olhar capaz de revelar o dentro e o fora dos movimentos, suas causas e seus efeitos.

A convite do coreógrafo Angelin Preljocaj, Assayas acompanhou os ensaios do espetáculo “Eldorado” e registrou cada etapa da construção do trabalho. Desde os diálogos de Preljocaj com Karlheinz Stockhausen, autor da música utilizada no espetáculo, até os processos de desenvolvimento da coreografia, sua incorporação pelos bailarinos, a criação de cenários e figurinos, o que Assayas oferece é um documento profundamente revelador do processo de criação artística.

Em todos os seus âmbitos e significados, a idéia mais presente é a de ensaio. De um lado, os bastidores e as repetições do grupo de Preljocaj. Do outro, um documentário ao modo de esboço no qual Assayas exercita um modo de olhar sem precisar que este denote um acabamento completo na forma.

Por mais que a dança tenha sempre feito parte do universo cinematográfico, sobretudo sua presença constante nos musicais, poucos cineastas aceitaram o desafio de filmá-la como objeto. As experiências de Saura com o flamenco e a de Altman em “De Corpo e Alma” ainda são tidas como desvios do foco cinema.

Já a aproximação entre “Recrudescence” e “Eldorado/Preljocaj” torna bastante nítidos tanto o modo como Assayas nos dá a ver os corpos como sua maneira de ressaltá-los a partir dessa expressão comum à dança e ao cinema que são os movimentos.

“Para evocar meu trabalho, eu falo de coreografia, arte que conheço muito pouco, mas da qual intuo que os princípios e valores mantêm uma relação com o que no cinema chamamos mise-en-scène, equivalente à que existe, na literatura, entre a poesia e o romance”, explica o cineasta.

"É como se a dança fosse o núcleo escondido do plano de cinema e da maneira como, neste, os corpos dos atores evoluem.”

“Eldorado/Preljocaj” é uma bela oportunidade de experimentar as delícias dessa dança do olhar.

 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 5h15 PM

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O paciente inglês: uma odisséia no espaço

O paciente inglês: uma odisséia no espaço

Por Bruno Yutaka Saito

Quando Antonioni morreu, em julho do ano passado, pouquíssimo tempo após Bergman, não foram poucos os que apontaram aí um simbólico fim de uma determinada era do cinema, como se houvesse uma simetria no acaso.

Claro que é exagero comparar essas duas perdas às de Anthony Minghella e Arthur C. Clarke, que aconteceram ontem. Digo exagero no sentido de impacto e marcas que deixaram no cinema, não na questão humana, óbvio.

Se houver simetria entre Minghella e Clarke, ela está no fato de que eles parecem estar em campos quase opostos. E também no fato de que suas principais obras tiveram forte impressão no público.

Menos no caso de Minghella, mas é inegável que “O Paciente Inglês” (1996) foi um daqueles filmes, em sua época, que ganharam fãs ardorosos ao mesmo tempo em que era odiado intensamente por outros.

É um daqueles filmes que parecem ser feitos para o Oscar de antigamente (hoje, sabemos, o Oscar parece estar tomado por uma nova geração, e não mais por tiozinhos).

Há um certo peso em cada cena, romance, teor épico, como se “Lawrence da Arábia” estivesse entre nós de novo. Cinemão como “de antigamente”.

Hoje, praticamente pouco se fala sobre “O Paciente Inglês”. Aparente vitória para os detratores, para quem acreditava que após o “hype” do Oscar, ele sumiria.

O melhor exemplo de inserção do filme na cultura popular, naquele momento, foi um episódio, hoje “clássico”, de “Seinfeld”, que satirizou bem essa “torcida”.

No episódio, Elaine e seu namorado vão assistir a “O Paciente Inglês”. Ela odeia profundamente. Esse fato vai torná-la uma espécie de pária. Todos irão olhar torto para ela, inclusive o namorado, que vai lhe dar um pé na bunda.

Elaine começa a ficar preocupada com sua impopularidade. Começa, então, a mentir, e dizer que nunca assistiu ao filme.

Já em relação a Arthur C. Clarke, a coincidência vem do fato de que “2001: Uma Odisséia no Espaço”, o filme de Stanley Kubrick baseado em sua obra, completa 40 anos. Acabou de chegar às lojas um DVD comemorativo do filme, com um disco inteiro de material extra.

Como bem reparou o crítico da Folha Sérgio Rizzo em seu texto sobre o DVD, interessante é observar o Clarke da época, que surge com ar de sabe-tudo em questões futuristas, e o Clarke dos dias de hoje, mais tranqüilo, sabendo que o futuro, enfim, não era tudo aquilo que foi sonhado.

Ainda que, hoje, novas gerações talvez nem saibam direito quem seja o escritor, só o fato de ter inspirado a produção de Kubrick já o coloca como nome central no cinema.

“Assim Falou Zaratustra”, de Strauss, que serviu de trilha para o filme, por exemplo, foi tão banalizada e incorporada em uma espécie de inconsciente coletivo, que parece sempre ter existido. Deve ter servido de fundo sonoro para tudo quanto é comercial de TV, filmes besteirol, transmissões de Jogos Olímpicos, enfim, tudo que necessite de “emoção” e “grandiosidade”.

Isso sem contar que “2001” ainda causa estranhamento. Woody Allen, que no lançamento do filme já tinha mais de 30 anos, disse certa vez ter ficado decepcionado com o longa: “Parecia um comercial da Nasa”.

***

Começou ontem, na Caixa Cultural do Rio, e vai até o dia 30, a mostra "Eu É um Outro - O Autor e o Objeto no Documentário Brasileiro Recente". São 36 documentários em longa-metragem realizados a partir de 2000.

As produções vêm divididas em seis blocos:

“Íntimo e Pessoal”; “Ilustres Conhecidos e Ilustres Anônimos”; “Ontem É Hoje”; “Em Processo”; “A Parte pelo Todo” e “Impressão da Expressão ou Expressão da Impressão”.

Entre os filmes, “Person”, “Estamira”, “Santiago”, “Fabricando Tom Zé” etc., ou seja, só produções significativas dos últimos anos.

A mostra é organizada por gente que sabe, entre eles, a ótima “Revista Cinética”, a produtora Duas Mariola Filmes e a Associação Cultural Contracampo, com curadoria dos críticos Eduardo Valente e Cléber Eduardo

Veja aqui a programação completa da mostra.

A Caixa Cultural do Rio de Janeiro  fica na av. Almirante Barroso, 25, tel. 0/xx/21/2544-4080); entrada franca. Atenção: Cine 1 (exibição em película) e 2 (exibição digital)

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Bel Pedrosa - 15.out.1994/Folha Imagem

 

Fôssemos tentar definir Caio Fernando Abreu (1948-1996) em poucas palavras, poderíamos dizer que ele tem um peso semelhante, na literatura, ao que Renato Russo ou Cazuza tiveram na música brasileira. Ou, então, que seu principal livro, “Morangos Mofados”, é Clarice Lispector com sexo e drogas.

O culto a Caio só aumenta com os anos. Volta e meia estréiam peças de teatro baseadas em textos seus, e volta e meia seus livros ganham novas reedições.

Nesta quinta, dia 20, passa no Cineclube Sated o filme “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado. Nele, Caio faz uma ponta, breve mas divertida, em sintonia com o humor ácido que desenvolveu em sua obra. Não vou lembrar exatamente sua fala, mas é algo sobre se fulano é ou não gay.

Guilherme de Almeida era um dos grandes amigos de Caio, e tem várias citações nos livros póstumos autobiográficos do escritor.

O mesmo clima noir de “Perfume de Gardênia” promete se repetir em “Onde Andará Dulce Veiga”, novo filme de Prado, que ainda não estreou. Trata-se da adaptação do único romance escrito por Caio, uma trama que envolve um jornalista, uma estrela da música brasileira desaparecida há anos e inferninhos e personagens da fauna urbana. Ou seja, o universo preferido de Caio.

Dá para ter uma idéia de o que será o filme, que traz Maitê Proença, Carolina Dieckman e Eriberto Leão no elenco:

 

Na onda Caio, os fãs ainda podem assistir à minissérie da Globo “Queridos Amigos”, de Maria Adelaide Amaral, amicíssima de Caio. Ele é uma das pessoas que serviram de inspiração para o personagem de Guilherme Weber, Benny.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h45 PM

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O montador, esse quase desconhecido

O montador, esse quase desconhecido

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ambientado em um salão de baile de São Paulo durante uma única noite, “Chega de Saudade” entrará em cartaz na próxima sexta-feira. Como ocorre habitualmente, a diretora Laís Bodanzky, 38, e seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, 42, serão alçados pela imprensa à condição de “autores” do filme – o que não deixa de corresponder à realidade de desenvolvimento do projeto.

Esse tratamento reverencial contribui, no entanto, para alimentar no público uma visão romântica do cinema como meio de expressão movido pela “inspiração” e “criatividade” de apenas uma pessoa (nesse caso atípico, seriam duas), a exemplo da literatura e das artes plásticas, e não fruto da colaboração entre diversos profissionais.

Generosos com seus parceiros de trabalho, Laís e Luiz não pertencem ao grupo do “eu fiz”, e sim do “nós fizemos”. Em entrevista ontem à Folha para reportagem que será publicada na versão impressa do jornal ao longo desta semana, eles foram especialmente gentis com o montador Paulo Sacramento (que assina a montagem de “Amarelo Manga” e “Querô”, e a co-direção de “O Prisioneiro da Grade de Ferro”).

Abaixo, trechos da entrevista que são esclarecedores não apenas sobre “Chega de Saudade”, mas também sobre como filmes são feitos.

Luiz Bolognesi – A relação de trabalho do roteirista com o filme volta muito forte na montagem. O “Bicho de Sete Cabeças” nós montamos juntos, a Laís, eu e o montador, Jacopo Quadri. Desta vez, o Paulo montou com a Laís. Eu vinha de fora o tempo todo, mas era uma colaboração muito simpática: “precisamos mudar essa seqüência de lugar”, “temos que trazer aquele diálogo para cá”. “Chega de Saudade” tinha 50 horas de material filmado, com pedacinhos de histórias. As mais longas devem dar 15 ou 16 minutos; tem histórias de oito minutos.

O objetivo era tentar ser vertical nas personagens. Mas aquele material bruto era um caos absoluto. E, no resultado autoral do filme, tem a mão muito forte do Paulo Sacramento. O olhar dele foi muito importante. Ele não só limou e encurtou. Achou também o tempo das seqüências, como sair de um núcleo e entrar no outro, como passar pelas coisas. Ele conseguiu fazer cortes muito sintáticos, que às vezes não estavam no roteiro.

Um desses cortes sintáticos, por exemplo, foi no final da seqüência do argentino (Raul Bordale) vendo a mulher ir embora, a que dança com ele um tango (Clarisse Abujamra), e ele fica sozinho. A mulher pagou a conta pra ele, pagou um uísque pra ele, bateu uma punheta pra ele, e ele está claramente arrasado. Aí o Paulo Sacramento cola imediatamente naquele momento a personagem da Tonia Carrero falando: “Quando a gente ama, é preciso dizer que ama”. O off dela, a voz, entra ainda sobre a imagem dele, triste.

A maestria do Paulo está aí. Isso faz com que as passagens de um núcleo para o outro sejam quase sempre sintáticas: ou dizem por oposição ou por continuidade. Mas é sempre uma relação de comunicação entre significante e significado. Eu ajoelho para o Paulo.

Laís Bodanzky – Durante a mixagem, isso ficava muito claro. Apesar de o filme ser inteiramente realista, com interpretação naturalista, o som não é. Às vezes a gente está aqui conversando e o som da outra personagem entra já vazando na gente; o que ela está falando ali tem a ver com o que está acontecendo aqui. O som do filme não tem nada de realista. A música está tocando alto, depois está tocando baixo. Relaxem, eu dizia para a equipe. O som vai ser o que a gente quiser para o bem da história e da narrativa.

Muita gente pensa, principalmente quem não é da área: “Os atores estavam ali e vocês só ligaram a câmera, né?”. A sensação que dá é essa porque o filme escorrega. O tempo inteiro as histórias escorregam, muito por conta da montagem de imagens brincando com essa passagem do som.

* * *

Para o internauta disposto a entender um pouco melhor o trabalho do montador no cinema, um bom caminho é a leitura de “Num Piscar de Olhos – A Edição de Filmes sob a Ótica de um Mestre”, de Walter Murch (Ed. Jorge Zahar).

O trecho abaixo, que abre o capítulo “Cortes e falsos cortes”, fala de “Apocalypse Now”:

“Muitas vezes são os extremos que mais nos ensinam sobre os estados intermediários: gelo e vapor nos revelam mais sobre a natureza da água do que a própria água. É verdade que qualquer filme que mereça ser feito vai ser único e que as condições nas quais ele se realiza são tão variáveis que seria um equívoco falar em ‘condições normais’; ‘Apocalypse Now’ foi, por qualquer critério que se tome – cronograma, orçamento, ambição artística, inovação tecnológica – o equivalente cinematográfico do vapor e do gelo.

Considerando apenas o tempo que levou para finalizar o filme (eu editei a imagem durante um ano e passei mais um ano preparando e mixando o som), essa foi a pós-produção mais longa de um filme no qual trabalhei e talvez isso ajude a esclarecer um pouco a idéia do que significam ou podem significar ‘condições normais’.

Um dos motivos dessa demora foi simplesmente a quantidade de material filmado: 1.250.000 pés, o que significa um pouco mais de 230 horas. O filme pronto (na primeira versão) tem 2 horas e 25 minutos de duração, portanto, temos aí uma escala de 95 para 1, isto é, 95 minutos ‘não exibidos’ para cada minuto que entrou no produto final. A título de comparação, a média em filmes comerciais é de 20 para 1.

Transitar por esse universo de 95 para 1 era como avançar lentamente por uma floresta densa, encontrar algumas clareiras, parar, e em seguida penetrar de novo na mata. Em alguns casos, como nas seqüências dos helicópteros, havia muita imagem de cobertura, e em outras cenas, comparativamente, muito pouca.

Acho que só as cenas do Coronel Kilgore davam mais de 220 mil pés. Como elas representam 25 minutos do produto final, a escala aí é de 100 para um. Mas muitas das cenas de ligação tinham apenas uma tomada: Francis tinha gasto tanto negativo e tempo nos grandes eventos que compensou fazendo o mínimo de cobertura.”

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h38 PM

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11 horas em um cinema parisiense

11 horas em um cinema parisiense

Por Leonardo Cruz (em Paris)

Manhã de domingo. Último dia do Cinéma du Réel, o festival de documentários mais importante da França, espécie de É Tudo Verdade local. 42 bravos espectadores se aconchegam nas poltronas da sala 1 do MK2 Beaubourg, um dos principais cinemas de Paris, para o início de uma maratona de quase 11 horas.

Esse é o tempo de duração de “Evolução de uma Família Filipina”, doc em que o diretor Lav Diaz reconstitui 16 anos da história de seu país, na lei marcial da ditadura de Ferdinand Marcos (1971-1986), sob a perspectiva de uma família camponesa pobre.

Antes do início da sessão, Diaz conta que três atores morreram ao longo dos dez anos de filmagem e pede ao público que resista às 10 horas e 45 minutos de, nas palavras dele, “sofrimento”. Para aliviar o esforço, a monitora do festival informa que a exibição será dividida em três partes e que bebidas e petiscos filipinos serão servidos nos dois intervalos de 15 minutos.

A obra de Diaz não é exatamente das mais fáceis, e “Evolução” é uma experiência glauberiana, em que o diretor mistura imagens em película e em vídeo, com encenações do cotidiano da família e cenas de arquivo históricas. A montagem não é linear, e a narrativa vai e volta no tempo acompanhando a trajetória de Raynaldo, o protagonista, e seus parentes.

A projeção digital podre do MK2 também não ajuda (em algumas cenas dá para contar os pixels), e, passada a primeira hora, uma primeira espectadora deixa a sala. A primeira etapa da sessão termina pouco antes das 15h, após quase quatro horas de filme. O quórum agora é de 34 espectadores.

Os tais petiscos filipinos se revelam chá, café e biscoitos nada asiáticos, comprados no mercadinho da esquina. A surpresa mais desagradável vem na seqüência, quando um funcionário do cinema revela que, para ver a segunda parte do filme, é preciso comprar mais um ingresso. E mais outro para o terço final.

Nesse momento chave do dia, o sovinismo supera a cinefilia. Desisto de pagar três entradas para ver o longa de Diaz até o final, abandono a maratona após um terço de prova e vou curtir o fim de tarde parisiense. Sorry, Lav. Não deu.

***

Um dos grandes destaques do Cinéma du Réel 2008 foi “Dans Les Décombres” (Nos Escombros), de Olivier Meys. Belga, o diretor mora na China há três anos e meio e passou um ano e meio filmando o processo de demolição de um bairro inteiro no centro da capital. Parte do plano do governo para os Jogos Olímpicos, a área será totalmente reconstruída, com prédios modernos e largas avenidas.

Com uma equipe chinesa e equipamento digital de pequeno porte, Meys não só conseguiu conquistar a confiança dos moradores do bairro como também pode trabalhar ao largo da censura oficial; nenhuma de suas imagens passou pelo crivo do PC chinês.

O resultado é um documentário de 92 minutos que é “cinema direto” na veia. Com uma câmera discreta e respeitosa, estática ou de movimentos lentos e suaves, sem narração em off ou cartelas explicativas, o filme mostra a rotina dos moradores desalojados: as queixas dos baixos valores pagos pelo governo para a desapropriação, a preparação da mudança e o desespero de ver a antiga casa destruída. Acompanha também o trabalho dos operários e dos chefes de obra.

Mais interessante ainda é a história da família que se recusa a mudar e improvisa uma casa em meio à demolição. Com essa colagem de personagens, “Dans Les Décombres” se revela um poderoso documento das transformações em curso na China atual. A torcer para que chegue ao Brasil.

***

A semana parisiense começa muito bem, obrigado. Ontem, hoje e amanhã acontece a Printemps du Cinéma, promoção em que quase todos os cinemas da França cobram 3,50 euros pelo ingresso. Nada mal, já que normalmente a entrada inteira custa cerca de 8 euros. É o nono ano do evento, que reúne 5.300 salas pelo país e que no ano passado vendeu 2,6 milhões de entradas.

O êxito da Printemps serviu de inspiração para a São Paulo no Cinema, festa parecida realizada na capital paulista em abril do ano passado. Acontecerá de novo em 2008?

Escrito por Leonardo Cruz às 11h27 AM

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Lições de uma guerra particular

Lições de uma guerra particular

Por Lúcia Valentim Rodrigues

O estreante Charles H. Ferguson gastou boa parte da fortuna que ganhou na bolha da internet para criticar a Guerra do Iraque. Não, ele não financiou nenhuma campanha política. Fez melhor. Escreveu, dirigiu, produziu e pagou do próprio bolso sua primeira incursão no cinema: "Sem Fim à Vista" (No End in Sight), que concorreu ao Oscar de melhor documentário neste ano, mas perdeu para "Táxi para a Escuridão". Gastou US$ 2 milhões.

Já premiado em Sundance, o documentário agora aporta em território brasileiro logo na abertura do festival É Tudo Verdade. O filme foi escolhido para a abertura no Rio de Janeiro, no dia 27. (Em SP, no dia anterior, passará "Stranded", de Gonzalo Arijon, sobre tragédia aérea nos Andes em 1972.)

"Sem Fim à Vista" destrincha como foi tramada a estratégia de invadir o Iraque após o 11 de Setembro de 2001 e as subseqüentes trapalhadas da gestão George W. Bush no país.

O longa não envereda para um discurso panfletário, à la Michael Moore. Os entrevistados vão contando pouco a pouco, com declarações diretas, como se deram a invasão, a bandalheira que o país virou, a política de não fazer nada para conter o caos local, a falta de tato para discutir o futuro e a participação dos líderes locais e, ao final, o clima de guerra civil em que o Iraque ainda se encontra --daí a desesperança do título do filme.

O grande mérito do diretor foi conseguir trazer os depoimentos de gente de gabarito e peso nas decisões (ou melhor, na falta delas), como Richard Armitage, secretário de Estado logo abaixo Colin Powell; Barbara K. Bodine, que assumiu a instituição para reorganizar o Iraque após a ocupação; e Samantha Power, que fez a biografia do diplomata Sérgio Vieira de Mello e dá um depoimento emocionado sobre a participação do brasileiro no conflito.

Dá vergonha ver e ouvir as declarações do então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. E é de aplaudir de pé (se não fosse uma gafe no cinema) a escalada das imagens de abertura, contrapondo as aspas desses agentes políticos e a realidade retratada em imagens que todo o mundo viu nos telejornais.

*

Para dar mais um aperitivo da programação do festival, que deve entrar daqui a pouco no site oficial (www.etudoverdade.com.br), duas retrospectivas valem ser ressaltadas. "10 Documentários que Mudaram o Mundo", mostra exibida em Londres no ano passado, reúne "Tiros em Columbine", de Michael Moore, "O Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, "A Dor e a Piedade", de Marcel Ophüls, e "A Tênue Linha da Morte", de Errol Morris, entre outros filmes que marcaram o gênero.

O festival ainda analisa o documentário experimental brasileiro (tema também das conferências no Cinusp, com destaque para a presença do dinamarquês Jorgen Leth no dia 4). Entre os filmes, "Céu sobre Água", de José Agrippino de Paula (1937-2007), "Juvenília", de Paulo Sacramento, "Vera Cruz", de Rosangela Rennó, e "Congo", de Arthur Omar.

**

E, nas palavras do fundador Amir Labaki, "por ainda estarmos de luto pelas mortes de Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman", o festival exibe "O Olhar de Michelangelo", penúltimo trabalho do italiano, "O Rosto de Karin", curta feito por Bergman sobre sua mãe, e "Ingmar Bergman; Intermezzo" e "A Voz de Bergman", de Gunnar Bergdahl.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 6h16 PM

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Vários cineastas e várias visões

Vários cineastas e várias visões

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo fala sobre o filme coletivo "Cada um com Seu Cinema", feito para o 60º aniversário do Festival de Cannes. Entre os destaques, estão os curtas dirigidos por David Cronenberg, David Lynch e os irmãos Dardenne.

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h01 PM

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Nervoso

Nervoso

Por Bruno Yutaka Saito

Saiu o trailer do novo “Hulk”. (Dica do Marco Aurélio Canônico, da Ilustrada)

Considerar todos os filmes baseados em HQs mero lixo cultural é bobagem. “Homem-Aranha” e “X-Men” são alguns dos exemplos de que é possível, sim, discutir temas interessantes, profundos até, e agradar àqueles que só procuram ação incessante, monstros e carros em alta velocidade.

Por isso tudo, “Hulk” representa um caso emblemático.

Todos se lembram de que, em 2003, Ang Lee dirigiu uma polêmica e poética versão massacrada pela crítica e ridicularizada pela maior parte do público.

Mas, olhando a filmografia de Lee, difícil é imaginar que os produtores não sabiam com quem estavam lidando. Fôssemos dividir o mundo do cinema em duas partes, poderíamos dizer que se tratava de um diretor de filmes de arte infiltrado no sistemão de Hollywood.

Devo ser, ao lado de Lee e da mãe dele, uma das três pessoas que gostaram do longa. O fato de o Hulk em CGI parecer o Shrek só faz o grau de irrealidade necessário da trama aumentar: afinal, quem vai acreditar que um gigante verde com cara de bravo pode existir na vida real?

E, outro dia, lendo uma entrevista com o cineasta malaio Tsai Ming-liang (“O Sabor da Melancia”) na revista “Sight & Sound”, me deparei com uma declaração interessantíssima.

O repórter conta que quando se encontrou com Ang Lee na época de “O Segredo de Brokeback Mountain”, o cineasta confessou que pegou muitos elementos gays de Tsai. “Eu sempre digo que a relação entre o Hulk e seu pai é muito Tsai Ming-liang”.

Quem viu “O Rio”, de Tsai Ming-liang, deve se lembrar da cena em que o rapaz vai à sauna gay e começa a se pegar com seu pai (e nenhum dos dois se dá conta direito do que está acontecendo).

Bem, esse era o Hulk de Ang Lee.

O novo Hulk, agora do ainda pouco expressivo Louis Leterrier, promete ser o típico filme de ação hollywoodiano. Estréia dia 13 de junho.

Edward Norton agora é Bruce Banner, o cientista que tenta achar a fórmula para não mais se transformar no Hulk. Mas entra em dilema moral quando surge um supervilão: Abominável, um monstrengo que só pode ser detido pelo verdão. Liv Tyler é a mocinha, e ainda temos William Hurt no elenco.

Preste atenção no trailer: dá para ver brevemente as cenas que foram gravadas no Brasil (e outro detalhe: mesmo tendo usado o Rio de Janeiro como cenário, eles não voltarão aqui para divulgar o filme ou fazer as chamadas “junkets”, momento em que jornalistas e equipe do filme se encontram para fazer entrevistas).

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h27 PM

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Ela ainda está lá

Ela ainda está lá

Por Cássio Starling Carlos

Com a estréia iminente de “Não Estou Lá”, programada para a próxima sexta, vamos poder conferir o pontapé que Todd Haynes deu num dos gêneros mais resistentes e conservadores da história do cinema.


O “biopic”, ou filme biográfico, alimenta-se desse parasita ficcional chamado “história verdadeira” e tenta nos empurrar goela abaixo um arsenal inesgotável de bons sentimentos. Quase ninguém se dispôs a desafiar suas regras e inocular outras vidas nas vidas oficiais. De memória, lembro apenas das apropriações de Júlio Bressane, que começou no terreno nacional, ressuscitando Lamartine Babo, Antônio Vieira e Mário Reis, e depois não se intimidou diante dos universais São Jerônimo, Nietzsche e Cleópatra. E guardo uma lembrança forte do “Van Gogh” do francês Maurice Pialat, que fugiu do óbvio criando o que se poderia chamar, muito livremente, de biografia espiritual.

Haynes vai além e implode o gênero, ao se basear nas “várias vidas” de Bob Dylan, um personagem que não cabe nem em uma definição, muito menos em uma linearidade. E nos força a reconhecer que quem vive só uma vida são esses bichos que nascem de manhã e morrem ao fim do dia.

A distorção do filme biográfico não é novidade na carreira de Haynes. Alguns devem se lembrar, mesmo sob disfarces, que era fácil reconhecer a trajetória de David Bowie sob a maquiagem do ídolo pop Brian Slade em “Velvet Goldmine”. Mas ali não era tanto a trajetória do rock star que interessava e mais o efeito de sua influência sobre seus fãs.

O desconforto de Haynes com o formato quadradão do gênero se anunciou bem cedo em sua filmografia. O segundo trabalho do diretor, feito em 1987, já era em ruptura com a tradição.


“Superstar”, um média-metragem de 43 minutos, narra a degradação física de Karen Carpenter (a voz doce da dupla The Carpenters, ao lado do irmão Richard), um ícone dos anos 70. Vítima desde cedo de anorexia, síndrome pouco conhecida na época, Karen morreu, em 1983, aos 32 anos.


Sua história daria (assim como deu) um telefilme lacrimoso. Nas mãos de Haynes, ela se transforma em ícone da perversão social e cultural vigente já desde algumas décadas. Em vez de atores, o diretor encena a história com bonecos, utilizando uma Barbie em várias versões para o papel de Karen.

A idéia, que hoje pode parecer óbvia, em 1987 era pura provocação: apontar a Barbie como um modelo nefasto de beleza física, uma usina de doentes de auto-imagem. Hoje, as Barbies humanas se tornaram legião. E o filme, odiado por Richard Carpenter, teve sua difusão censurada com base na ilegalidade do uso, sem direito, de canções da dupla. Mas pode ser conferido inteirinho no YouTube.
 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h58 PM

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A ópera de David Lynch

A ópera de David Lynch

Por Bruno Yutaka Saito

Com “A Estrada Perdida” (1997), David Lynch deu início a uma espécie de trilogia (até o momento, completada por “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos”) em que a tradicional linearidade narrativa é abolida, criando um dos casamentos mais perfeitos já vistos entre psicologia, sonhos, símbolos e cinema.

Não foram poucos aqueles que ficaram desnorteados durante a exibição do filme. É piada recorrente: o sujeito vai ao banheiro no meio do filme e, quando retorna, acha que entrou na sala errada, já que os protagonistas mudam: a loira vira morena, o homem maduro vira um jovem etc.

Agora, “A Estrada Perdida” vai retornar, também modificado. A English National Opera e o teatro Young Vic , de Londres, estão produzindo uma ópera baseada no filme, com música da austríaca Olga Neuwirth.

Com direção da norte-americana Diane Paulus, a ópera estréia em 4 de abril por ali, para apenas seis exibições. A “história” do longa dizia respeito, ao menos em seu início, a um saxofonista que, aparentemente, matava a mulher e era condenado à cadeira elétrica.

A ópera não vai ficar devendo nada ao original, ao que tudo indica, ao menos em termos do que se entende pela palavra “normalidade”. Segundo a diretora, durante os primeiros  20 minutos não se cantará nada, apenas surgirão “sussurros misteriosos”.
Segundo o próprio Lynch, “a ópera é sobre um homem metido em problemas” (bem parecido com sua definição sobre “Império dos Sonhos”: “é a história de uma mulher com problemas”); quando o filme estreou, ele disse ter pensando em O.J. Simpson, o ex-jogador de futebol americano acusado de assassinar a ex-mulher.

A diretora da montagem também vê um quê de Otelo, e a loucura que deriva do ciúme, nessa história.

Eis aqui um teaser da montagem.

E, falando no filme, é uma das grandes lacunas em se tratando de David Lynch em DVD no Brasil. Mesmo nos EUA é difícil encontrar uma cópia decente do filme.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h13 PM

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Ingmar Bergman, vizinho do Piolin

Ingmar Bergman, vizinho do Piolin


Cena de "Juventude"

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Na primeira sessão pública do cinematógrafo, em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière estenderam um lençol no salão do Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, e organizaram a platéia em dois grupos. Metade ficou em companhia do projetor; quem se acomodou do outro lado do lençol, no entanto, assistiu aos filmes invertidos.

Recurso cenográfico semelhante divide em duas partes uma ampla sala de ensaios de São Paulo, com os espectadores (no máximo, 50) divididos em dois grupos que não vêem (e também não ouvem) exatamente as mesmas coisas. Foi a solução encontrada pela Companhia dos Truões da Cooperativa Paulista de Teatro para evocar a obra do sueco Ingmar Bergman (1918-2007) no espetáculo “O que Refletem Esses Pedaços”, em cartaz até 13 de abril no espaço O Lugar, vizinho de um dos mais tradicionais restaurantes paulistanos, a Cantina d’Amico Piolin, na rua Augusta.

A tela instalada na sala representa uma parede. Duas atrizes (Renata Coloni e Rita Grillo) iniciam o espetáculo afastadas por esse anteparo, mas sensibilizadas de alguma forma pelo que ocorre do outro lado. À medida que o espetáculo avança, elas se encontram (em um dos lados, ou na divisa entre eles), trocam de campo e sugerem, nesse balé de coreografia visceral, que talvez expressem aspectos da personalidade de uma única mulher (de todas as mulheres?), mobilizada pelas conexões (e distâncias) entre sonho e realidade, desejo e repressão.

O programa da peça, dirigida por Nicole Aun, traz citações de Bergman e faz referência a seu processo criativo. “Ao ver seus filmes o que se revela não é a sua beleza e nem as suas virtudes, mas sim que essas são pautadas e dimensionadas por todos os fantasmas e demônios que como público somos obrigados a reconhecer em nós mesmos”, diz o texto. A energia criativa feminina de “O que Refletem Esses Pedaços” procura transportar esse universo para o teatro, com saudável liberdade poética e ênfase na duplicidade, tema caro ao cineasta (que, não custa lembrar, começou no teatro e jamais o abandonou).

Aos interessados, o grupo recomenda os filmes de Bergman que “serviram diretamente a criar esse espetáculo”: “Noites de Circo” (1953), “O Sétimo Selo” (1957), “Morangos Silvestres” (1957), “Luz de Inverno” (1962), “Persona” (1966), “A Hora do Lobo” (1968), “Gritos e Sussurros” (1972), “Sonata de Outono” (1978) e “Fanny e Alexander” (1982). Todos foram lançados em DVD no Brasil.

O pacote é extraordinário, e poderia incluir o recém-lançado “Juventude” (1951), 10º longa-metragem de Bergman, sobre uma bailarina que relembra seu primeiro amor.

Ninguém aqui está reclamando, mas os admiradores do cineasta agradeceriam se fossem lançados também:

- Os primeiros longas de Bergman, melodramas de aprendizado feitos na Svensk Filmindustri, um dos maiores estúdios da Europa no pós-guerra. A caixa “Early Bergman”, lançada nos EUA, traz cinco deles, incluindo “Tormenta” (1944), escrito por Bergman e dirigido por Alf Sjöberg.

- “Depois do Ensaio” (1984) ou: nunca fomos tão felizes quanto no palco de um teatro.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h28 AM

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Teorias da conspiração

Teorias da conspiração

Por Bruno Yutaka Saito

Logo depois que o ator Heath Ledger morreu, em janeiro passado, começaram a circular as mais diversas especulações sobre os motivos que o levaram a ter uma overdose de remédios para dormir.

A principal foi a de que sua imersão no Coringa, em “O Cavaleiro das Trevas” (estréia prevista para 18 de julho), havia sido total. Ou seja, Ledger teria ficado tão tomado pelo personagem que a loucura, insanidade e o lado negro do Coringa teriam ficado nele mesmo após o término das filmagens.

Um texto publicado ontem no “New York Times” conta um pouco como foram os bastidores. Segundo a matéria, Ledger disse que nunca tivera (e que nunca mais teria) tanta diversão interpretando um personagem.

E completa Michael Caine (o mordomo Alfred): “Ele estava exausto, ele realmente estava cansado. Lembro-me de ter dito para ele: ‘Sou muito velho para ter essa energia para interpretar o Coringa’. E pensei comigo mesmo, eu nunca tive essa energia mesmo quando tinha a sua idade [28]”.

Já o diretor de fotografia, Wally Pfister, conta: “As filmagens eram como sessões espíritas, quando o médium incorpora outra pessoa e é completamente tomado”.

Ou seja, alegria para os amantes de teorias da conspiração.

***

Mais “Tropa”

Começou sexta-feira passada e vai até 13 de março a 23ª edição do Festival de Guadalajara. Entre longas, curtas e documentários, o Brasil vai comparecer com 16 filmes. Entre outros brasileiros nobres, estarão por ali “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho); “Maré, Nossa História de Amor” (Lúcia Murat); “Os Desafinados” (Walter Lima Júnior) e “Juízo” (Maria Augusta Ramos).

E essa é também mais uma chance para “Tropa de Elite” causar discussões, ser acusado de fascista, ser amado, odiado e, quem sabe, colecionar mais um prêmio.

E essa é ainda mais uma chance para o “nosso” Capitão Nascimento, agora poliglota, gritar: “Pida para salir”.

***

Depois do sexo

Dica da Cristina Fibe, da Ilustrada. Já está na rede um trailer mais completo de “Sex and the City”, o filme, que estréia lá fora em 30 de maio.

Nele, vemos o que acontece com as personagens quatro anos após o último episódio da série. Aquela narração em off, datada, mas que os fãs adoram, continua.

Estranho mesmo é ver o que acontece após um final feliz. Todos se lembram que no final da série, Carrie finalmente se entendia com o Mr. Big. No filme, eles se preparam para casar.

O trailer brinca bem com esse estranhamento. É como se tentássemos saber o que acontece com a Cinderela depois de encontrar seu príncipe encantado.

 

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h59 AM

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O último filme de Rubens de Falco

O último filme de Rubens de Falco

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta “Fim da Linha”, filme de estréia de Gustavo Steinberg, que entra em cartaz nos cinemas hoje. Comédia de humor negro, a produção é o último filme com o ator Rubens de Falco, morto recentemente. Para ouvir, clique no microfone.

 

Escrito por Sérgio Rizzo às 2h49 PM

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Por dentro da Boca

Por dentro da Boca

Por Cássio Starling Carlos (crítico da Folha)

Os “snuff movies” são uma das mais bem armadas lendas urbanas que se espalharam nos anos 70. Apareceram do nada e acabaram virando uma espécie de mito reflexivo do próprio cinema. Supostamente, tratava-se de filmes em que as cenas de agressão e assassinato ultrapassavam os limites da encenação ao se converterem em ato. Ou seja, um modo de se libertar das amarras do realismo e alcançar a coisa em si, em direção a um obsceno que hoje a pornografia se encarregou de suplantar.

“Vítimas do Prazer”, um filme da Boca do Lixo realizado em 1977 por Cláudio Cunha a partir de um roteiro assinado pelo diretor junto com Carlos Reichenbach, explora a temática em voga na época de um modo bastante interessante.

Dois produtores picaretas chegam a São Paulo e convencem uma trupe de técnicos e elenco em situações precárias de sobrevivência a se isolarem num sítio do interior e participarem da realização de um filme de sacanagem. Há um pouco de nudez, que hoje soa bem pudica, como fórmula básica do filme comercial produzido na Boca.

Mas é menos pelo valor arqueológico e mais pelas questões estéticas que vale a pena dar uma conferida no filme, que será exibido hoje, às 19h, do Cineclube Sated, seguido de um debate com a presença do diretor.

Em primeiro lugar, o status de precariedade do nosso cinema, desde o modo de sobrevivência dos técnicos e artistas até as condições de realização, é um tema muito mais central da obra do que o argumento sensacionalista do “snuff movie”.

Carlos Vereza faz um proprietário de uma produtora à beira da falência que acaba aceitando a proposta de dois gringos para alugar seu equipamento e também ocupar as funções de câmera na produção. Uma atriz de certo renome, mas ameaçada pela falta de trabalho aceita embarcar na aventura. O ator é tirado de dentro de um hospício. E a coadjuvante gostosa sobrevive expondo seu corpo em espetáculos de strip-tease em clubes e teatros do centrão.

Completa esse retrato social a forma canibalista da postura do produtor, um falso gringo que explora a situação mambembe dos profissionais para lançá-los na aventura da filmagem perversa.

Sob a forma de filme B, o que acaba se revelando é a própria situação do cinema. Cunha e Reichenbach não perdem tempo com metalinguagens, nem sobrecarregam as situações dramáticas com intelectualismos.

O que fazem é um típico produto da Boca, um filme que explora as possibilidades comerciais da época sem perder de vista a possibilidade de refletir sobre as condições do próprio fazer cinematográfico nesse nosso modo brasileiro, ainda precário, mas sempre confiante em sua inteligência.

***

Vale à pena ficar de olho na programação de clássicos da Boca do Cineclube Sated (av. São João, 1.086, cj 401 - Centro), que exibirá nas próximas semanas o impactante “Lílian M: Relatório Confidencial”, de Carlos Reichenbach (dia 13), “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado (dia 20), e “Corpo e Alma de uma Mulher”, de David Cardoso, dia 27.


  

Escrito por Cássio Starling Carlos às 11h35 AM

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Guerra sem fim

Guerra sem fim


Cena do game "Star Wars: The Force Unleashed"

Por Bruno Yutaka Saito

Se você é devoto de “Star Wars”, já deve saber há tempos que começa hoje a exposição no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. Estão lá mais de 200 peças originais que foram usadas nos filmes da saga de George Lucas.

Mas, se você nunca deu muita bola para a série, talvez ache exagero que Luke, Darth Vader e cia. ganhem tanto espaço em uma exposição desse porte.

Será?

Não é preciso ser nenhum fã da série para saber que, sim, “Star Wars” mudou para sempre a forma de fazer, consumir e pensar cinema. E, mais ainda, que “Star Wars” é um mito, hoje, por si só, que vai além dos seis filmes.

E, nesses 30 anos de existência da franquia, a questão que mais me vem à mente, ao menos do ponto de vista cinematográfico, é observar como George Lucas deixou de lado a ambição de falar sobre outros temas, outros personagens, de fazer outros filmes, enfim.

A tese não é nova. Há quem compare a própria história de Lucas à de Anakin Skywalker, aquele sujeito do bem que, tomado por uma força maior, torna-se o vilão Darth Vader.

O fato é que Lucas criou uma obra excepcional, mas acabou aprisionado por ela. Há anos não dirige outro filme que não seja do mundo “Star Wars”. E a exposição que vem agora ao Brasil é um bom exemplo de como o mito é mantido.

De tempos em tempos Lucas lança versões refeitas, estendidas, etc., dos filmes da trilogia original. Volta e meia sai uma nova caixa com esses filmes, com mais extras e tal.

No dia 12, por exemplo, a Fox lança outra caixa com a trilogia clássica. Cada um dos filmes virá com um disco de extras. Segundo a distribuidora, a caixa será vendida apenas durante o tempo em que a exposição estiver em cartaz (29 de junho).

Outro fator que mostra como Lucas ainda tem “Star Wars” como idéia fixa, e que pretende sempre renovar a geração de devotos, é o lançamento, neste ano, do game “Star Wars - The Force Unleashed”. Veja o trailer aqui.

Com ele, Lucas quer fazer no mundo dos games aquilo que ele já fez no cinema, em 1977, ou seja, renovar os parâmetros de uma mídia.

Com “Force Unleashed”, a empresa de Lucas quer passar por cima daquele principal bloqueio que os games têm: por mais que o jogador faça manobras diferenciadas, o software irá sempre responder de maneiras semelhantes.

Agora, a idéia é dotar os games de uma espécie de inteligência artificial. Ou seja, os personagens irão reagir de diferentes maneiras a diferentes estímulos. Sempre de maneiras "imprevisíveis", como se fossem humanos. Pode parecer pouca coisa, mas não é.

O novo game, por exemplo, vai contar o que acontece entre os episódios 3 e 4 da série (“A Vingança dos Sith” e “Uma Nova Esperança”). Darth Vader terá um aprendiz, e a Força será usada (pelos jogadores) para fins nada nobres.

Se a tecnologia realmente funcionar, “Star Wars” pode novamente entrar para a história.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 3h45 PM

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Multiplex de fino trato

Multiplex de fino trato

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Stanley Kubrick, Steven Spielberg, Marcello Mastroianni, Elizabeth Taylor, Jerry Lewis e Peter Watkins, mais Branca de Neve, Mowgli e Superman. Toda essa turma, e um punhado de outros cineastas, atores e personagens, estão reunidos na programação do mais sofisticado (e improvisado) multiplex de São Paulo (provavelmente, do Brasil) até o próximo dia 30, graças à exposição “Colateral 2 – Quando a Arte Olha o Cinema”, no Sesc Avenida Paulista.



"Superman Recites Selections From "The Bell Jar"
 and Other Works By Sylvia Plath", de Mike Kelley

Como o subtítulo sugere, a mostra lembra que alguns dos trabalhos audiovisuais mais inventivos e provocantes não estão hoje nos cinemas, nem mesmo os de programação alternativa, e sim em galerias de arte.

“Devido à sua natureza, o cinema se presta a ser despedaçado. Um filme é feito da junção de imagens individuais que, editadas juntas em seqüências, dão um sentido ao enredo. Indo na outra direção, as seqüências podem ser desmontadas e remontadas em um outro contexto. Esta foi a grande lição do dadaísmo, que nos primórdios da descontextualização introduziu o princípio da colagem e dos ‘objets trouvés’ (objetos achados)”, diz a curadora de “Colateral 2”, a armênia Adelina von Fürstenberg, fundadora e presidente da ART for the World, associada ao Departamento de Informações Públicas da ONU.

“Colateral 2” reúne, em três espaços distintos, 15 obras. As três instaladas no térreo sofrem com as péssimas condições de luz e som do local. Pena, porque ao menos “Star Tricks” (1996), do grego Dimitris Kozaris, merecia espaço mais nobre do que o corredor de entrada do prédio. É uma colagem, de 32 minutos, em que “Jornada nas Estrelas” e “2001, uma Odisséia no Espaço” se combinam com propaganda de pasta de dentes, o Batman de Adam West e Jerry Lewis.


Esse Batman desesperado com a bomba está em "Star Tricks"

No terceiro e quarto andares do prédio, as condições são bem mais favoráveis. Pequenas salas de projeção foram montadas para exibição contínua de 12 trabalhos. Em quase todas, há poltronas de cinema (inclusive com o descanso para copo), o que vem a calhar, porque há longas-metragens exibidos na íntegra.

Se não houver tempo para tudo, procure conferir:

- “Murder” (2002), do suíço Thomas G. Em pouco mais de dois minutos, uma cena de “O Iluminado” é exibida em câmera lenta, de trás para a frente, com o menino interpretado por Danny Lloyd repetindo a palavra do título (assassinato).


A cena do garoto de "O Iluminado" que é retrabalhada em "Murder"

- “Kristall” (2006), dos alemães Christoph Girardet e Matthias Müller. Cenas de filmes dos anos 40, 50 e 60, com personagens diante de espelhos, criam uma inebriante sucessão de momentos partidos e recompostos.

- “Body Double 21” (2005), do francês Brice Dellsperger. Episódio de série que trabalha sobre a dilatação do tempo de seqüências de longas-metragens. Aqui, a cena de suicídio na banheira de “As Regras da Atração”, de Roger Avary, se estende por cerca de 20 minutos graças a diversas inserções.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h15 AM

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Brincando de Hitchcock

Por Bruno Yutaka Saito

 

Existiria espaço para Alfred Hitchcock nos dias atuais? Se sim, quais atores ele iria escalar para seus filmes?

 

Respondendo à segunda pergunta, a revista “Vanity Fair” decidiu entrar na brincadeira em sua edição de março. No seu já tradicional especial Hollywood Portfolio, que traça um “quem é quem” dos atores mais quentes do momento, a equipe da revista convidou 21 astros e estrelas para recriar cenas de 11 diferentes clássicos do diretor.

  

É uma delícia ver como os editores e fotógrafos da “Vanity Fair” fizeram seu cast.

                                                                    Norman Jean Roy

 

Claro que dá uma sensação conservadora do tipo “não há substitutos à altura” quando vemos Renée Zellweger incorporando a atormentada Kim Novak de “Um Corpo que Cai” (1958).

 

Mas o oscarizado Javier Bardem não está nada mal como o James Stewart voyeur de “Janela Indiscreta” (1954). E, se não há mulher mais elegante do que Grace Kelly, Scarlett Johansson esbanja graça na sua incorporação da fiel Lisa.

 

Compare:

                                                                                                         Norman Jean Roy

 

E o original:

 

 

A recriação e a preocupação nos detalhes espanta. Afinal, como a revista mesmo destaca, Hitchcock era um perfeccionista, que já desenhava na cabeça e em storyboards exatamente como gostaria que a cena saísse.

 

O caso “Os Pássaros” (1963) é um bom exemplo. Havia o problema de hoje em dia não ser mais fabricada a cabine telefônica onde Tippi Hedren é atacada. Como solução, a equipe encomendou uma cabine especialmente para que Jodie Foster pudesse exprimir todo seu pânico.

 

                                                                                              Norman Jean Roy

 

E só mais uma comparação. A aterrorizante cena do chuveiro de "Psicose" (1960), complicadíssima em termos "fílmicos", é uma das melhores do ensaio. Marion Cotillard, a Piaf, enfrenta Norman Bates com coragem. Embaixo, uma cena do ensaio e, depois, cena do original.

                                                                                                         Mark Seliger

 

 

Veja aqui um making of. E veja aqui um especial que já está no ar no YouTube com as fotos do ensaio.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h11 AM

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