Por Leonardo Cruz (editor-assistente da Ilustrada)
E então? Quem vai levar os brinquedinhos aí de cima? Este blog já fez uma primeira rodada de palpites para o Oscar logo após o anúncio das indicações da Academia, em 22 de janeiro. Um mês depois, após muito estudo e reflexão, é hora da rodada final de previsões. E o que mudou nesses 30 dias? Rigorosamente nada! As apostas de vencedores do Ilustrada no Cinema em dez categorias continuam as mesmas. Sabedoria? Coerência? Teimosia? Picaretagem? Você decide.
O fato é que, se no Oscar do ano passado havia uma boa margem para zebra, principalmente na categoria melhor filme, neste ano parece tudo muito mais claro, previsível, sem muito espaço para azarões. Ao que interessa: o que diz nossa bola de cristal paraguaia, alimentada diretamente por todos os prêmios já distribuídos nos EUA nas últimas semanas e também pelos milhares de colunas e blogs americanos de "especialistas" em Oscar.
Melhor filme: "Onde os Fracos Não Têm Vez" Chance de zebra? Não, não, não. O filme já ganhou os principais prêmios dos sindicatos dos atores, dos diretores, dos roteiristas, dos produtores e dos assassinos de aluguel. Preciso explicar mais?
Melhor diretor: Joel e Ethan Coen ("Onde os Fracos Não Têm Vez") Chance de zebra? Também não. Na história do Oscar, o vencedor do prêmio do sindicato dos diretores também ficou com esta estatueta em 88% das vezes.
Melhor ator: Daniel Day-Lewis ("Sangue Negro") Chance de zebra? Não. Este milk-shake só tem um canudo.
Melhor atriz: Julie Christie ("Longe Dela") Chance de zebra? Sim, alguma, uns 23,7%. Christie já ganhou muita coisa neste ano, mas alguns bons blogueiros gringos ainda apostam em Marion "Piaf" Cotillard.
Melhor ator coadjuvante: Javier Bardem ("Onde os Fracos Não Têm Vez") Chance de zebra? Alguém ousaria aborrecer Anton Chigurh?
Melhor atriz coadjuvante: Cate Blanchett ("Não Estou Lá") Chance de zebra? Muuuuuuuita. Ruby Dee levou o prêmio do sindicato dos atores e subiu nas apostas nas últimas semanas. E Tilda Swinton também não pode ser descartada. Mas Cate, ah, Cate, segue em alta conta por aqui.
Melhor roteiro original: Diablo Cody ("Juno") Chance de zebra? Remota. Se alguém tirar o prêmio da mulher-capeta, será Tony Gilroy, por "Conduta de Risco".
Melhor roteiro adaptado: Joel e Ethan Coen ("Onde os Fracos Não Têm Vez") Chance de zebra? Ainda menor. Assim como Diablo, os irmãos já levaram o troféu do sindicato dos roteiristas nesta categoria e devem fechar a trinca filme-direção-roteiro.
Melhor filme estrangeiro: "The Counterfeiters" (Áustria) Chance de zebra? Sempre. Depois que o vencedor da Palma de Ouro em Cannes não entrou nesta lista, até o filme do Cazaquistão pode ganhar.
Melhor animação: "Ratatouille" Chance de zebra? Por mais que "Persépolis" seja simpático, desde que esta categoria foi criada, o Oscar quase sempre acompanha o Annie, o principal prêmio do mundo da animação. E quem levou último Annie? O rato gourmet e sua gangue.
E você? Já tem seus palpites?
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Para ver o Oscar no domingo A única emissora a transmitir o Oscar na íntegra do Brasil será a TNT, a partir das 22h30, com comentários de Chris Nicklas e Rubens Ewald Filho. Na TV aberta, a Globo repetirá o que fez no ano passado: mutila o começo da cerimônia e entra no ar só após o "BBB8". Os comentários serão de Maria Beltrão e José Wilker. Uma boa alternativa para quem prefere ouvir o som original é ligar a tecla SAP da TV e sintonizar o rádio na BandNews FM, onde o crítico da Folha e colunista deste blog Sérgio Rizzo analisará a cerimônia.
No podcast desta semana, Sérgio Rizzo comenta as quatro estréias desta semana que concorrem ao Oscar no domingo: "Juno", "Senhores do Crime", "Persépolis" e "Na Natureza Selvagem". O crítico também faz suas apostas para as principais categorias no prêmio da Academia. Para ouvir, basta clicar no microfone.
“Um filme não só arrojado pelo radicalismo de sua realização mas também desconcertante, como uma criança indesejada numa era de crescimento populacional zero.” Com tais palavras exatas e ironia cortante, a ensaísta norte-americana Susan Sontag definiu, num texto de 1979, o monumental “Hitler, um Filme da Alemanha”, de Hans Jürgen Syberberg.
Diretor alemão inclassificável, Syberberg misturou literatura, teatro, ópera e música na composição de um cinema que parece tudo, menos cinema no sentido banal que consumimos hoje. Seu “Hitler”, feito em 1977, é considerado por muitos sua obra máxima. E quem se dispuser a enfrentar as dificuldades que a experiência impõe, as mais de sete horas de duração, divididas em quatro partes, serão apresentadas de hoje a domingo no ciclo “A Alemanha e a Segunda Grande Guerra”, em exibição no Centro Cultural São Paulo.
Contemporâneo da geração que protagonizou o novo cinema alemão, a partir de 1962, Syberberg nunca se deixou identificar com facilidade. Apesar disso, há traços em comum com obras como as de Alexander Kluge e Rainer Werner Fassbinder, entre os quais se destacam a assumida referência ao teatro de Brecht e a necessidade de enfrentar os traumas da história alemã e, sobretudo, não levar em conta o nazismo como um período superado e ultrapassado.
Dessa reaproximação, seu “Hitler” é um ápice tanto em conteúdos quanto em estética. O espectador desavisado não deve esperar nada parecido com “A Queda - As Últimas Horas de Hitler”. Há uma ética dentro da estética de Syberberg que não admite a reconstituição naturalista de Hitler como protagonista de um filme de ação. O que vemos em “Hitler” são vários atores em cena revezando-se com marionetes na figura do ditador. E não há ação. Em seu lugar vemos imagens do espetáculo nazista projetadas num telão, enquanto num palco atores transitam e declamam, e discursos de autoridades nazistas se sobrepõem à trilha de temas clássicos e operísticos.
A estratégia do diretor é não permitir ao público a identificação neutra de Hitler a um outro, reconhecer e apontar o vilão de sempre. Sua intenção maligna é estabelecer um nexo nunca antes ousado, explícito na equação Hitler = Nós.
Um “nós” que inclui todos os alemães, que Syberberg tira do lugar seguro de vítimas do nazismo para colocá-los no papel de agentes, de atores de um processo, de diretores de uma grande obra, por isso chamada “Hitler, um Filme da Alemanha”.
Mas também um “nós” que nos inclui, que nos tira do lugar passivo de espectadores e nos conduz a identificar no mundo pós-Hitler um conjunto evidente de características da sociedade de homens superiores sonhada por Hitler.
Como alerta Susan Sontag no final de seu ensaio, “após assistir a ‘Hitler, um Filme da Alemanha’”, damo-nos conta de que existe o filme de Syberberg _e depois todos os outros que admiramos”.
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Quem estiver fora de São Paulo ou não conseguir ir ao CCSP pode assistir a “Hitler, um Filme da Alemanha” na internet. É evidente que a microtela disponível na rede não se compara à experiência de assistir ao longa em um cinema de verdade. Ainda assim, dá para ter uma idéia do que se trata a obra de Syberberg. O filme está aqui (na versão original, em alemão) ou aqui (na versão com narração e legendas em inglês).
Por Leonardo Cruz (editor-assistente da Ilustrada)
Quais os melhores filmes de 2007? Pergunta velha, né?! É, mas vale a pena respondê-la no site do Sesc, para participar da seleção dos longas que formarão a 34ª edição do Festival Melhores Filmes do Ano. Os mais votados serão exibidos no Cinesesc de 8 a 24 de abril, em uma eleição dividida entre escolhas do público e da crítica.
Quem entrar no site do Sesc poderá votar em produções brasileiras e estrangeiras em quatro categorias: filme, diretor, ator e atriz. Estão na lista os 68 longas nacionais _de "3 Efes" a "Odiquê?"_ e os 263 internacionais _de "100 Escovadas Antes de Dormir" a "Zodíaco"_ lançados comercialmente no Brasil em 2007.
No festival do ano passado, as escolhas de 69 críticos e 8.400 internautas e freqüentadores do Cinesesc resultaram na seleção de 50 filmes _entre os estrangeiros, o vencedor de público e imprensa foi "Caché", de Michael Haneke; entre os nacionais, os espectadores preferiram "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, e os jornalistas elegeram "O Céu de Suely", de Karim Aïnouz.
E na mostra deste ano? Os palpites deste blog, nada originais, são os filmes que pipocaram em várias listas de melhores divulgadas no final do ano passado: "Em Busca da Vida" (foto), de Jia Zhang-ke, e "Santiago", de João Moreira Salles.
A eleição vai até 2 de março, e a programação do festival deve ser divulgada no início de abril. E você? Já definiu seu voto?
Por Leonardo Cruz (editor-assistente da Ilustrada)
O cinema é uma boa porta de entrada para quem quiser entender o que representaram para Cuba os 49 anos de poder de Fidel Castro. O Internet Movie Database registra mais de uma dúzia de filmes em que o ditador cubano é protagonista ou coadjuvante. Há dois registros de Fidel como ator, em produções americanas pré-Revolução. Sempre segundo o IMDb, Fidel foi figurante na comédia "Easy to Wed" (1946), com Lucille Ball, e no musical "Holiday in Mexico", também de 1946. Mas eram apenas pontas, e Fidel nem foi creditado nesses longas. O que interessa mesmo são os filmes pós-Revolução, a maioria documentários, em que Fidel aparece como ele mesmo, no exercício do comando.
Desses todos, um dos mais famosos está disponível na íntegra no YouTube. Trata-se de "Comandante", o longa-metragem que Oliver Stone fez com Fidel em 2003. O diretor de "Platoon" (1986) e "JFK" (1991) teve total acesso à rotina do homem mais poderoso de Cuba e realizou um documentário que mescla imagens de arquivo e entrevistas feitas em Havana. No YouTube, "Comandante" está dividido em 12 partes. Para encontrá-las, basta digitar "Fidel Castro Oliver Stone" no campo de busca, ou clicar aqui. A primeira parte vai a seguir. Dê uma olhada.
Na cerimônia do Oscar-2007, há cerca de um ano, Francis Ford Coppola foi entregar o prêmio de melhor direção a Martin Scorsese em companhia de outros dois peso-pesados da mesma geração, George Lucas e Steven Spielberg. Aquele Coppola é o que os fãs de cinema conhecem bem, profissional multitarefa (diretor, roteirista e produtor, eventualmente compositor, montador e ator) que, só para continuar no território do Oscar, recebeu 14 indicações e cinco prêmios – como roteirista por “Patton, Rebelde ou Herói?” (1970) e “O Poderoso Chefão” (1972), e como produtor, diretor e roteirista por “O Poderoso Chefão 2” (1974).
O pai Carmine, a irmã Talia Shire, a mulher Eleanor (de quem saiu há pouco nos EUA a versão especial em DVD de “Hearts of Darkness – A Filmmaker’s Apocalypse”, documentário sobre as filmagens conturbadas de “Apocalypse Now”), os filhos Sofia e Roman e o sobrinho Nicolas Cage nos lembram também que a paixão por fazer cinema contaminou mais gente na família.
Afastado da direção por uma década, entre “O Homem que Fazia Chover” (1997) e “Youth Without Youth” (2007), Francis se dedicou nesse período a outras atividades, como tocar uma vinícola, administrar um centro cultural em San Francisco e publicar uma revista trimestral, “Zoetrope: All-Story”.
É uma dos raríssimos títulos a trazer sobre o logo de capa, como no pôster de um filme, crédito para seu criador: “Francis Ford Coppola presents”. Fundada em 1997 por Francis e pela escritora Adrienne Brodeur, ela carrega o nome do zootrópio, aparelho óptico que já batizou outras pessoas jurídicas na carreira do cineasta, a produtora American Zoetrope e os Zoetrope Studios.
Na penúltima edição, com data de outono (do hemisfério Norte) e preço de capa US$ 6,95, o designer convidado é o ator inglês Tim Roth, que apresenta fotos de sua autoria feitas na Romênia durante as filmagens de “Youth Without Youth” (lançado como um filme nanico nos EUA, com 18 cópias, e sem data de estréia prevista para o Brasil). “Foi um período extraordinário para mim, e me lembro dele com profundo afeto”, diz Roth no texto introdutório.
A edição de outono traz ainda os contos “The Russian”, do cineasta Ethan Coen, que disputa no próximo domingo o Oscar por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, e “Seattle”, do escritor Jonathan Baumbach, pai do cineasta Noah Baumbach (“A Lula e a Baleia”). A quarta capa funciona como capa alternativa, dedicada a “Youth Without Youth”. Basta virar a revista de cabeça para baixo e, nesse outro fluxo de leitura, conhecer a “edição comemorativa” ao filme, que inclui a íntegra do romance do romeno Mircea Eliade (traduzido para o inglês por Mac Linscott Ricketts) que inspirou o roteiro.
Esse novo pacote de artigos reúne entrevistas de Eleanor Coppola com Roth e com a atriz romena Alexandra Maria Lara e ensaios da historiadora Wendy Doniger e do montador Walter Murch. A jóia, no entanto, é uma entrevista de Francis concedida... ao próprio Francis. Na verdade, trata-se de uma carta ao leitor escrita no formato de pergunta e resposta, com elegante ironia.
Pela internet, já é possível comprar a edição de inverno da “All-Story” (capa acima), comemorativa de seu 10º aniversário. Uma das atrações é “Hotel Chevalier”, roteiro do curta-metragem de Wes Anderson que virou prólogo de “Viagem a Darjeeling” (2007).
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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