Ilustrada no Cinema
 

O cartão de visitas de 'Tropa de Elite' nos EUA

                                                              David Prichard/Divulgação

O diretor José Padilha, durante as filmagens de "Tropa de Elite"

O “New York Times” de hoje publica um longa reportagem, com foto, sobre José Padilha, o diretor brasileiro de “Tropa de Elite”. Assinado pelo correspondente Alexei Barrionuevo, o artigo “Um cineasta e um desafiador da consciência do Brasil” é o Perfil de Sábado, seção fixa do jornal, publicada logo em seu primeiro caderno, na página A4.

No texto, o jornalista do “Times” conta a trajetória profissional de Padilha, desde o início no cinema como produtor e roteirista de “Os Carvoeiros” (1999) até o sucesso de “Tropa de Elite”, e relata a discussão sobre violência policial gerada pelo filme no Brasil. O cineasta afirma que não esperava que “Tropa” fosse criar “esse grande fenômeno social”, mas conclui que o cinema é um caminho eficaz para iniciar um debate nacional.

Não é a primeira vez que “Tropa de Elite” aparece no “New York Times”. Em 14 de outubro, logo após a estréia do filme nos cinemas brasileiros, o mesmo Alexei Barrionuevo escreveu uma reportagem sobre o alvoroço causado pelo longa no país desde o surgimento das cópias piratas.

Já naquele primeiro texto, Barrionuevo comparava o Capitão Nascimento de “Tropa” ao agente Jack Bauer de “24 Horas” _nada mais natural, afinal são dois angustiados defensores do uso da tortura para atingir objetivos estratégicos. Nas duas reportagens, o correspondente do “Times” lembra que nenhum filme causava tanta comoção no Brasil desde “Cidade de Deus”.

A comparação com “24 Horas” e o paralelo com “Cidade de Deus” são referências essenciais para o leitor americano, dado o sucesso da série de TV e ao fato de que o filme de Fernando Meirelles se tornou no exterior um símbolo do cinema brasileiro recente, de apelo popular nos EUA e na Europa.

“Tropa de Elite” tem sua estréia marcada nos EUA para 25 de janeiro. O perfil de Padilha no “New York Times” de hoje é um passo ainda inicial, mas fundamental, para a carreira internacional do filme. Dada a influência do jornal entre os formadores de opinião americanos, o artigo é um ótimo cartão de visitas para o longa brasileiro e para seu diretor.

Para ler a íntegra da reportagem do “Times” em português, clique aqui (só assinantes UOL). Para ler a versão original, em inglês, clique aqui (é necessário cadastro, gratuito, no site do “NYT”).

Escrito por Leonardo Cruz às 10h21 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um abacaxi chamado 'O Reino'

Um abacaxi chamado 'O Reino'

No podcast deste semana, o crítico Sérgio Rizzo descasca o abacaxi "O Reino", longa sobre uma ação do FBI na Arábia Saudita, dirigido por Peter Berg e com Jamie Foxx, e recomenda "Viagem a Darjeeling", o novo filme de Wes Anderson, o mesmo de "A Vida Marinha com Steve Zissou". Para ouvir, é só clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h56 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

A dependência da TV e um bar para chamar de seu

A dependência da TV e um bar para chamar de seu

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Um contrato com a TV tirou a atriz Rosane Mulholland da estréia de "Meu Mundo em Perigo" (foto), de José Eduardo Belmonte, o segundo longa apresentado na competitiva do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ontem à noite. "A Rosane está na novela [das sete da Globo, "Sete Pecados"] e não conseguiu chegar. Infelizmente", disse Belmonte, que revelou a atriz em "A Concepção", antes da sessão de seu novo título.

Agora à tarde, no debate sobre "Meu Mundo em Perigo", o ator Milhem Cortaz, que está no elenco do filme, encerrou um aparte comercial do bar que abriu em São Paulo com essa frase: "Espero que vocês vão lá, tomem bastante cachaça e comam muitos espetinhos. Me deixem rico, para eu não ter de depender de nenhum contrato com a TV".

Cortaz teve de sair do debate antes do fim, porque deixaria Brasília para atender um compromisso com o teatro. Antes, contou que abriu o bar para "dar um teto para trabalhar" ao seu pai, "que vendia cachorro quente nas madrugadas de São Paulo".

Isso foi há quatro meses e, depois da sessão do filme de Belmonte ontem, o ator se deu conta de como os dois assuntos estão interligados. É que a paternidade _e os conflitos decorrentes dela_ são o tema central do longa.

Belmonte disse que, com sua obra, queria falar sobre "o que significa ser pai, num mundo de códigos muito rígidos". Os códigos, no caso, são os da classe média brasileira, sobre os quais "o filme tenta sutilmente jogar uma luz", diz o diretor.

Na trama de "Meu Mundo em Perigo", Elias (Eucir de Souza, em interpretação candidatíssima ao Candango de melhor ator) tenta ser um pai dedicado do filho que teve com uma dependente química. Os dois brigam na Justiça pela guarda do garoto. Elias está desempregado, o que é, segundo sua advogada, a mais prejudicial de suas características.

Já o personagem de Cortaz, Fito, é constantemente humilhado pelo pai, um ex-militar saudoso da ditadura, e pela mulher, a quem o sogro assedia. As histórias de Elias e Fito se cruzam quando o primeiro atropela o pai do segundo. Em fuga, Elias se ancora em Ísis (Rosane Mulholland), que, por sua vez, tenta fugir de uma crise provocada pela imagem fantasmagórica do pai, "um homem que tinha uma dor imensa, que ninguém conseguia tirar" e ficava "vendo TV pelado". Do ponto de vista dela, "um pai que parecia a Yoko Ono".

Em suma, "Meu Mundo em Perigo" é uma tradução da idéia de Belmonte de que "a família não é um lugar cômodo". Escrito pelo diretor e pelo dramaturgo Mário Bortolotto, o filme nasceu como um melodrama, até que os dois, segundo Belmonte, perceberam que se tratava de uma tragédia, na qual quiseram inclusive um "coro grego". Por isso "a trilha [do DJ Zepedro] funciona como um comentário divino sobre o que está acontecendo".
 
Em tempo: o bar de Milhem Cortaz fica na Afonso Bovero, 554, esquina com Apinagés. Chama-se "Cortaz". "Botei meu sobrenome, porque o negócio é sério. Minha dinastia toda está em jogo", disse o ator.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 5h46 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

                                                                 Aline Arruda/Divulgação

O diretor Daniel Bandeira apresenta seu filme em Brasília

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Na história recente do cinema brasileiro, Pernambuco entra no capítulo das boas surpresas, inauguradas com "Baile Perfumado", de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Depois vieram Cláudio Assis ("Amarelo Manga", "Baixio das Bestas") e Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"). Agora, Daniel Bandeira segue a "tradição", com "Amigos de Risco", seu primeiro longa, que abriu ontem a competição do 40o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Realizado com R$ 200 mil, orçamento modesto para os padrões nacionais, "Amigos de Risco" é mais do que o cartão-de-visita de Bandeira; é seu estatuto pessoal de cinema. No debate de hoje de manhã, ele evitou a ladainha da dificuldade de filmar no Brasil. "Não nos interessa alardear que este filme foi feito na raça", declarou, ao assumir como próprio à linguagem do filme a precariedade de suas condições de filmagem: "Neste filme existe um diálogo entre técnica e conteúdo. Nenhum dos erros que existem nele parte do relaxamento".

O diretor disse que, se tivesse mais dinheiro, melhoraria alguns aspectos, como o áudio do longa, mas afirmou que não buscaria um "padrão de qualidade" hoje perseguido pela maioria das produções no Brasil, cuja idéia de perfeição técnica o incomoda. Em outras palavras, Bandeira fez a defesa de um cinema precário, imperfeito ou subdesenvolvido, para usar o termo definidor da cinematografia nacional segundo Paulo Emílio Salles Gomes, o criador do Festival de Brasília, nesta edição (merecidamente) lembrado a cada filme e a cada debate.

"Existe uma urgência [de filmar] em Recife. Com 'Amigos de Risco', fomos até aonde foi possível chegar", disse Bandeira. O longa foi filmado digitalmente. Ao ser ampliado para o formato 35mm e encher a tela grande do Cine Brasília, resultou numa imagem que incomodou muita gente, conforme ficou claro no debate desta quinta.

Mas a equipe do filme tem orgulho do resultado que alcançou. O fotógrafo Pedro Sotero explicou aos que reclamaram de "falta de foco" que não é exatamente esse o problema de acabamento que eles identificaram. "Este filme foi captado com câmera mini-DV. É um formato semiprofissional. O que parece fora de foco é falta de definição, porque a mini-DV não segura a ampliação [para 35mm]. Na verdade, a câmera surpreendeu. A gente esperava menos dela."

Quanto à trama, a discussão que "Amigos de Risco" propõe é sobre os limites da amizade. Ou, nas palavras de Bandeira, uma investigação sobre "até que ponto os laços de amizade agüentam a alteridade e a pressão das condições sociais".

Trocando em miúdos, Joca (Irandhir Santos, o Quaderna da minissérie "A Pedra do Reino", de Luiz Fernando Carvalho) é o amigo encrenqueiro de Benito (Rodrigo Riszla) e Nelson (Paulo Dias), que volta para Recife depois de dois anos "foragido" no Rio de Janeiro. Ela havia deixado a cidade depois de dar diversos golpes na praça e retorna com a intenção de retomar os "negócios", usando os amigos como "laranjas".

O histórico do afeto e das desavenças entre os três surge de suas conversas, de bar em bar, na noite do reencontro. Até que Joca sofre uma overdose, e os amigos têm que, literalmente, carregá-lo nas costas, Recife acima e abaixo. Assim, a amizade _e a vida do imperfeitíssimo Joca_ viram um peso nas mãos de Benito e Nelson, que decidem, até o amanhecer, se o suportam ou o descartam.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 6h01 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cinema em debate | PermalinkPermalink #

Brasília, 40, começa com gritos e provocações

Brasília, 40, começa com gritos e provocações

                                                                Junior Aragão/Divulgação

O ator Emanuel Cavalcanti discursa na abertura do festival

Por Silvana Arantes (em Brasília)

O Festival de Brasília chegou aos 40 com um misto de orgulho, saudosismo e irreverência. E um pouco de atraso também. O festival foi criado em 1965, mas teve três edições suspensas no período da ditadura militar. Para a abertura da 40 edição, marcada para as 20h de ontem, no Teatro Nacional, 60 minutos foi o tempo que os convidados esperaram, até que a cerimônia de fato começasse, com a orquestra sinfônica do teatro executando Villa-Lobos sob a regência do maestro Ira Levin.

Os filmes que vieram a seguir e sobretudo os discursos dos artistas que os realizaram _e apenas dos artistas, já que nenhum organizador ou político ocupou o palco_ demonstraram que esta será uma edição carregada de simbolismos. Pedro Jorge de Castro apresentou seu curta "Brinquedo Popular do Nordeste", lembrando que, em 1977, quando ele estreou (e venceu o festival), "a platéia [de estudantes da UnB] entoou a palavra de ordem 'A greve continua!', mantendo uma greve que iniciou o processo de redemocratização da instituição". Castro dedicou seu filme aos estudantes e homenageou postumamente o autor do longa que viria a seguir, Paulo Gil Soares, "que abriu as portas da TV para cineastas [enquanto comandou a fase áurea do "Globo Repórter"]".

Com "Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", Paulo Gil venceu o primeiro Candango _o troféu não existia antes de 1967. Paula, filha dele, fez uma fala sucinta e emocionada, para apresentar a versão do filme restaurada pela Cinemateca Brasileira. Lembrou que seu pai, "foi um cineasta que talvez tenha ficado em segundo plano", daí a emoção com que recebia a homenagem do festival a ele.

Quando parecia que os discursos iriam se encerrar nesse tom contido e comportado, os atores Emanuel Cavalcanti e Joel Barcelos resolveram temperar a festa. "Peço licença para romper a mudez, rasgar a alma e expressar o sentimento de alegria de ver uma obra ser restaurada com dignidade por uma nova tecnologia [a digital]", começou Cavalcanti.

A platéia despertou, e o ator emendou sua fala elevando cada vez mais a voz, até terminar apoteoticamente num grito "de amor ao cinema, especialmente o brasileiro". A "seqüência" do discurso de Cavalcanti foi assim: "São 40 festas inigualáveis, 40 rugidos, 40 braçadas de flores que reconstituem a dignidade do artista brasileiro. [O fotógrafo] Dib [Lutfi] está presente! Obrigado, Brasília. Obrigado, Fernando Adolfo [coordenador do festival] e obrigado ao grande, ao inigualável criador deste festival: Paaaaaau-lo E-miiiiiiiiii-lio Saaaaaaalles Gooooooooomes!".

Depois da explosão de Cavalcanti, Joel Barcelos foi ao microfone dizendo-se "ruim de fala" e fez o mais divertido discurso da noite, com uma provocação à Petrobras, a grande patrocinadora do cinema brasileiro, incluindo o Festival de Brasília e a restauração de clássicos.

"Esse filme está atualíssimo. É sobre a descoberta de um poço de petróleo que faz o 'capetalismo' invadir uma cidade", disse Barcelos, que interpreta um "pegador de almas" no longa. Depois da gargalhada geral, ele concluiu: "Trata-se de um filme atualíssimo, porque é sobre o 'capetalismo'". No post abaixo, veja como o "capetalismo" chega à vila de Leva-e-Trás.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 3h47 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Proezas do capeta na terra do petróleo

Proezas do capeta na terra do petróleo

Por Silvana Arantes (em Brasília)

"Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", que venceu o Festival de Brasília em 1967 e foi exibido ontem, em cópia restaurada pela Cinemateca Brasileira, começa com um pesadelo (ou sonho profético) do personagem de Emanuel Cavalcanti. Ele não tem um dos braços e lá pela metade do filme descobrimos que o perdeu "na máquina da fábrica, lá em São Paulo".

É provavelmente a invalidez para o trabalho operário que o leva de volta à pequena vila de Leva-e-Trás, onde vive com a mulher, uma devota católica interpretada por Isabella. As filmagens foram feitas em Tiradentes (MG). Após a sessão de ontem, Cavalcanti lembrava que, sem dinheiro para alugar rebatedores de luz, Paulo Gil usou lençóis brancos em seu lugar.

No sonho do personagem, uma velha lhe indica o local a ser cavado para a descoberta de um tesouro, mas aponta que as conseqüências para a cidade serão devastadoras. O tesouro é o petróleo, e o resultado para os cidadãos que, como o protagonista, possuem alguma desvantagem para se adaptar ao processo industrial é o alijamento da pujança econômica trazida pela exploração do "ouro negro". Uma cidade "pré-fabricada" é erguida nas redondezas de Leva-e-Trás, para abrigar os trabalhadores do novo negócio. Para lá se muda a prostituta e até o padre de Leva-e-Trás, levando com ele a imagem da santa.

Nesse processo, eventos estranhos, como o aparecimento de mulas-sem-cabeça e o nascimento de bezerros que gargalham, apavoram os que ficam _um cego cantador, um anão, o ex-operário mutilado e sua mulher. Eles mandam chamar um "pegador de almas" (Joel Barcellos) para solucionar o problema. Mas como o caso não era de alma penada, tudo continua como antes.

Ou pior, quando o Diabo chega em pessoa a Leva-e-Trás. A comunidade de excluídos de início resiste, mas depois sucumbe à oferta para vender a alma. Trato feito, o Diabo é batizado Antônio Bispo dos Anjos e sai candidato à Presidência da República, com "a plataforma de retomar a política desenvolvimentista". O cego, que agora vê, pleiteia o Senado.

Quem interpreta o cego é Jofre Soares, mas toda vez que ele canta no filme (e ele canta muito) a voz é de Caetano Veloso, que assina a trilha sonora. É de Caetano a frase final de "Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", em verso cantado: "Perdoai o funeral sem enterro de nossa miséria".

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 3h37 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.