Ilustrada no Cinema
 

'Tropa de Elite' é o filme brasileiro mais visto em 2007

'Tropa de Elite' é o filme brasileiro mais visto em 2007

Agora é oficial. Certamente o filme brasileiro mais visto do ano por causa da febre no mercado pirata, “Tropa de Elite” assumiu também neste final de semana o primeiro lugar no ranking nacional de público nos cinemas. Segundo dados da Zazen, a produtora de Marcos Prado e José Padilha, o longa chegou a 2,040 milhões de espectadores, superando “A Grande Família – O Filme”, que levou às salas 2,031 milhões.

O filme de ação sobre o cotidiano do Bope ocupa agora o décimo lugar no ranking geral de público em 2007 _o longa mais visto no ano até agora pelos brasileiros foi “Homem-Aranha 3”, que fez 6,1 milhões. Em cartaz desde 5/10 em mais de 250 salas do país, “Tropa de Elite” ainda deve permanecer muitas semanas em exibição e tem boas chances de ganhar mais posições nesse ranking geral. Seu total de público até agora não está muito distante do nono colocado (“Quarteto Fantástico”, 2,13 milhões), do oitavo (“Os Simpsons – O Filme”, 2,22 milhões) e do sétimo (“Ratatouille”, 2,27 milhões).

Por outro lado, a produção de Padilha ainda aparece bem longe das dez produções com maiores públicos na história do cinema nacional _o décimo colocado é “O Casamento dos Trapalhões” (1988), com 4,7 milhões de espectadores, e o filme mais visto até hoje nos cinemas do Brasil é “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), com 10,7 milhões.

Se não tivesse chegado ao mercado de DVDs piratas dois meses antes de sua previsão inicial de estréia, o filme teria um desempenho ainda melhor de público? Provavelmente sim. A queda vertiginosa de público no Rio de Janeiro nas semanas posteriores à estréia indica que o sucesso da versão ilegal de “Tropa de Elite” abalou sensivelmente a freqüência nos cinemas, em especial nas regiões de mais baixa renda. Qual o impacto exato da pirataria no resultado final do longa de Padilha é a pergunta que nunca terá resposta.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h43 PM

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Desconstruindo Mojica

Desconstruindo Mojica

Como já contado aqui no blog, em um post logo abaixo, começa amanhã para o público em São Paulo a maior retrospectiva da obra do cineasta José Mojica Marins. Para acompanhar a exibição dos 40 filmes, a Heco, produtora da mostra, elaborou em belo catálogo, com 178 páginas e muitas fotos inéditas. Nele, cineastas, críticos e pesquisadores de cinema analisam cada filme do mestre do terror brasileiro. O livro estará à venda durante o ciclo de Mojica, por R$ 30, mas todo seu conteúdo estará em breve disponível no site da Heco. A seguir, trechos dos artigos escritos especialmente para o livro, em seleção feita pelo editor do Folhateen, Ivan Finotti.

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Sobre “A Praga” (1980/2007), por Carlos Reichenbach, cineasta
Rodado em Super-8, “A Praga” era um de seus projetos fílmicos dados como inacabados e/ou interrompidos. Foi o ensejo prospectivo de Eugênio Puppo que trouxe à tona (e à vida) essa história de danação concebida pelo fértil Rubens Lucchetti. A primeira coisa que chama a atenção no trabalho de Puppo como montador do filme é a absoluta fidelidade ao "estranho mundo de Zé do Caixão". Ao incluir um certo grafismo ao delírio imagético concebido pelo diretor, Puppo buscou subverter a precariedade da bitola e do apuro técnico com imaginação e originalidade. "A Praga" nos deixa perplexos, comovidos e deliciosamente incomodados.

Curiosamente, "A Praga" lembra muito alguns dos filmes mais radicais de outro outsider, o espanhol Jesus Franco (o homem dos quase duzentos filmes), e em particular de "Macumba Sexual" (1983). Em ambos os enredos, um personagem é assolado constantemente por pesadelos tenebrosos vaticinados por uma entidade terrível. Os dois diretores mandam o realismo às favas e reinventam uma religião e um sincretismo quase blasfemos. Franco faz uma salada mista de personagens mitológicos. Mojica, mais modesto, mistura mesa branca, candomblé, umbanda e quimbanda; na verdade, ele cria uma religião própria, cujo guia espiritual se assemelha ao índio Aymoré; aquele das antigas latas de biscoito. Mas, aparentemente, não existe em nenhum dos dois casos o intuito de deboche ou menosprezo pela fé dos deserdados, mas uma recusa explícita do realismo. Não interessa a Mojica e a Jesus Franco reproduzir fielmente o ritual dos cultos e seitas existentes, pois eles sabem que toda encenação do real, por mais bem intencionada que seja, pressupõe a perfídia.

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Sobre “D'Gajão Mata para Vingar” (1971), por Inácio Araujo, crítico da Folha
O melhor de "D’Gajão Mata para Vingar" está no início, na seqüência de abertura, em que uma mulher, num idioma que não conhecemos, pronuncia palavras das quais nossos ouvidos não sabem captar mais do que os sons. A isso correspondem gestos e expressões que, logo, nos informam tratar-se de um casamento. Em seguida, percebemos que a cena se passa em uma comunidade cigana. Quem casa com uma bela jovem é D’Gajão, aparentemente o líder do grupo ou seu representante mais eminente.

À cerimônia segue-se a comemoração, com as danças. D’Gajão olha feliz para sua noiva. Esta responde com o semblante sombrio. Pesa-lhe a intuição de que momentos árduos estão por vir. Ela está certa: os ciganos são vítimas de preconceito e racismo —e o filme não ajuda muito a desfazer os lugares-comuns a respeito deles. Não demora para as mulheres saírem às ruas de uma cidadezinha atrás de alguém que pretenda conhecer o destino pela leitura de suas mãos.

D’Gajão, entrementes, passa a demonstrar as virtudes dos heróis de faroeste. Como durante um jogo de cartas, em que vence implacavelmente seus adversários, mas termina, magnânimo, por deixar o dinheiro para seus parceiros. Os ciganos são magnânimos, compreendemos, mas isso é insuficiente para aplacar os preconceitos.

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Sobre “Finis Hominis” (1970), por Ruy Gardnier, editor da Contracampo
Dependendo do ponto de vista adotado, "Finis Hominis" pode ser visto como um anárquico libelo antitradição ou simplesmente um bizarro e engraçado filme-piada, aproveitando a bem conhecida e já bastante utilizada semelhança formal entre profecia e loucura, entre relativização dos valores da sociedade e insanidade. É possível pensar em, entre outros grandes filmes da história do cinema, "A Vida de Brian" (1979), de Terry Jones, "Europa 51" (1952), de Roberto Rossellini, "Nazarin" (1959), de Luis Buñuel. As ênfases, naturalmente, variam de acordo com as predileções de cada cineasta. Mas resiste em todas essas obras um desejo de afrontar a hipocrisia de uma sociedade que busca a salvação enquanto na prática abusa de todos os egoísmos, oportunismos e outras maldades.

Feito de pequenos episódios interligados de forma tênue –ou mesmo nada interligados–, o filme tem um rico imaginário de heresia e de choque em relação aos valores instituídos. Visto assim, nada mais é do que uma continuação lógica da filosofia dos filmes de Zé do Caixão, que colocava a nu preconceitos e crendices estúpidas da população mais humilde.

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Sobre “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, por Alexandre Agabiti, autor de tese sobre Zé do Caixão na Universidade de Paris
A figuração do inferno faz parte de um pesadelo de Zé [em "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver"]. Esse sonho terrível começa sutilmente com uma fusão, que introduz um salto de nível narrativo, em que passamos da realidade do personagem ao seu inconsciente. Zé é arrancado da cama e arrastado até o cemitério por uma figura estranha, extremamente magra, de pele escura, que lembra uma múmia sem bandagens. Situada entre o mundo dos vivos e o dos mortos, pois conserva algo da aparência humana, a múmia é a instância mediadora entre o protagonista e o inferno, entre o mundo dos vivos e o dos mortos condenados ao suplício. No cemitério, Zé é “engolido” pela terra, e um jogo de associações se põe em marcha: o buraco lembra as pinturas de Hieronymous Bosch (c. 1450-1516), nas quais as figurações da oralidade vão além da boca e se apresentam sob a forma de fendas, cavidades e cloacas; Zé chega ao inferno pelo cemitério, enquanto a múmia remete à pirâmide, a um túmulo; o inferno, com seus sucessivos círculos, como no poema de Dante, tem a forma de um funil, que lembra uma pirâmide invertida.

As correspondências entre "A Divina Comédia" e o filme são numerosas. A descida aos infernos de Zé começa quando ele cai sobre a lama onde estão deitados os danados (canto 6 do "Inferno"). Em seguida, há um terremoto (canto 3), que leva Zé ao círculo seguinte; os demônios chicoteiam (canto 18) e cravam tridentes na carne dos pecadores (canto 22); estes se arrastam pelos caminhos (canto 29); sofrem crucificações (cantos 16 e 23); são presos com correntes (canto 31); mordidos por serpentes (canto 24); enterrados de ponta-cabeça no fundo da gruta (canto 19) e colocados em poços (canto 31).

Ao vasto repertório dantesco de tormentos, Mojica acrescenta martírios que inventou, como as marteladas na cabeça dos danados e o emparedamento dos pecadores na gruta. Os gases fétidos, o gelo e as chamas são abundantes, como no poema. Zé fica muito impressionado com o que vê, como Dante, mas segue seu périplo.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h26 AM

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Coutinho joga com a realidade e a ficção

Coutinho joga com a realidade e a ficção

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta o excelente documentário "Jogo de Cena". Nele, o diretor Eduardo Coutinho apresenta depoimentos de mulheres anônimas e famosas, misturando relatos reais e representação. Ao mesmo tempo, um filme sobre o que é ser mulher no Brasil atual e uma reflexão sobre a arte de interpretação e os limites entre real e ficcional. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h25 PM

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Sessão de 'Mutum' marca aniversário do blog

Sessão de 'Mutum' marca aniversário do blog

A celebração é um tanto atrasada, mas a data não poderia passar em branco. Este blog completou seu primeiro aniversário no último dia 20, no meio da correria da Mostra, o que impediu qualquer tipo de festejo.

Passada a maratona de filmes, tudo fica mais fácil. E o aniversário do blog Ilustrada no Cinema será finalmente celebrado na próxima terça-feira, dia 13, às 19h, no Cine Bombril 1, com a pré-estréia de "Mutum", o premiado longa de Sandra Kogut, inspirado na obra de Guimarães Rosa.

Parceria entre a Folha e o Cine Bombril, a sessão será gratuita, com distribuição de ingressos a partir das 18h, na bilheteria do cinema (Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3285-3696). Após a exibição, a diretora discutirá o filme com a platéia, em um debate do qual também participarão o crítico literário e colunista da Folha Manuel da Costa Pinto e este que vos escreve.

Exibido na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes e eleito melhor filme pelo júri do Festival do Rio, "Mutum" tem como ponto de partida a novela "Campo Geral", de Guimarães Rosa, e aborda a descoberta do mundo por Thiago, garoto de dez anos que vive com sua família num ponto isolado do sertão de Minas Gerais.

No site do filme, Sandra Kogut conta que viajou pelo sertão durante um ano e meio, "para conhecer as pessoas, o lugar, em seguida para procurar as crianças do filme". Em visitas às escolas rurais da região, esteve com cerca de mil crianças _após testes e oficinas, a cineasta escolheu Thiago da Silva Mariz para o papel principal e Wallison Felipe Leal Barroso para ser Felipe, o irmão mais novo do protagonista.

Na tela, fica claro que Sandra fez uma ótima escolha. Confira o trailer abaixo, e venha ver a versão integral conosco, na terça-feira, às 19h, no Cine Bombril.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h54 PM

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Cinema nacional a R$ 2

Cinema nacional a R$ 2

A Rede Cinemark, que chega a cobrar R$ 21 por ingresso, faz hoje seu afago anual no espectador (e no cinema do país) e realiza mais uma edição do Projeta Brasil. Em suas 358 salas de 43 complexos, serão exibidos exclusivamente filmes nacionais, lançados de novembro de 2006 até o mês passado. E cada entrada custa apenas R$ 2 _preço competitivo até para o “mercado alternativo” de DVDs, cada vez mais forte no país inteiro.

Em sua oitava edição, o projeto da rede norte-americana é uma chance para ver (ou rever), em 25 cidades, algumas boas obras brasileiras que passaram pelas telas nos últimos meses. Quem está em Salvador, por exemplo, pode assistir hoje a dez opções no Cinemark local, entre elas “Não por Acaso” (foto), a bela estréia de Philippe Barcisnki na direção de longas , ou a “Saneamento Básico, o Filme”, a boa comédia de Jorge Furtado. Já em Porto Alegre, um boa pedida é o candidato brasileiro a uma vaga no Oscar, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger. Mas, como bem apontou um leitor, faltaram alguns filmes recentes importantes, como "Cão Sem Dono", de Beto Brant, e "Baixio das Bestas", de Claudio Assis.

Realizado sempre numa segunda-feira, dia em que normalmente o movimento das salas não é dos mais altos, a renda obtida pela Cinemark com o Projeta Brasil volta para o cinema brasileiro, em iniciativas como o patrocínio dos prêmios do júri popular nos festivais de Gramado, Brasília e Rio e liberação de verba para a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio.

Vai um filminho brasileiro aí? A programação completa está no site da Cinemark.


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Saiu o Prêmio Jairo Ferreira da Mostra de SP
Os colegas das revistas Cinética, Cinequanon, Contracampo e Paisà anunciaram neste domingo o Prêmio Jairo Ferreira para melhor filme da Mostra de SP. Apurados os votos dos 20 críticos participantes, dividiram o primeiro lugar “I’m Not There”, de Todd Haynes, e “Le Voyage du Ballon Rouge”, de Hou Hsiao-hsien.

Uma vez mais, ótimas escolhas. Vale notar que “I’m Not There”, sem dúvida um dos melhores longas de 2007, já tinha levado o Jairo Ferreira no Festival do Rio, divindo o prêmio com “Síndromes e um Século”, de Apichatpong Weerasethakul, e “Paranoid Park”, de Gus Van Sant. Vale registrar também que “Le Voyage du Ballon Rouge” foi o segundo colocado na eleição do prêmio oficial da crítica concedido pela Mostra, que teve 18 votantes. O filme de Hou Hsiao-hsien perdeu por apenas 1 ponto para “A Questão Humana”, de Nicolas Klotz, que foi o terceiro colocado no Jairo Ferreira. Sinal de que, neste ano, os dois prêmios da crítica (o da Mostra e o Jairo Ferreira) estiveram na mesma sintonia.

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Inveja dos mineiros
Para quem se interessa pelo cinema brasileiro, o melhor lugar para estar hoje é Belo Horizonte. Duvida? Pois lá acontece a Mostra CineBH, que apresenta filmes brasileiros antigos e recentes, acompanhados por debates, oficinas e seminários. Ainda duvida? Pois quem está em BH hoje pode escolher entre o clássico “Iracema, uma Transa Amazônica” (1974), de Jorge Bodansky e Orlando Senna, o ótimo “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2003), de Marcelo Gomes, e o superelogiado e ainda inédito “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci. O festival começou no último dia 31 e vai até amanhã. Ainda duvida? É tudo de graça.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h09 AM

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PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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