Ilustrada no Cinema

 

 

Estréia promissora

Estréia promissora

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta a estréia de "A Vida dos Outros", que deu o Oscar de filme estrangeiro em 2007 para o primeiro filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Para ouvir, é só clicar no microfone.

Escrito por Silvana Arantes às 11h16 AM

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O vai-não-vai de 'Tropa de Elite' em Sundance

O vai-não-vai de 'Tropa de Elite' em Sundance

 

Ontem, quando o Festival de Sundance divulgou a lista dos filmes que disputarão sua próxima edição _17/1 a 27/1_, "Tropa de Elite" estava entre os 16 concorrentes da categoria Cinema Mundial - Ficção. Hoje, não está mais. A relação mudou, mas continuou do mesmo tamanho _16 filmes, incluindo produções da Colômbia e do Panamá concorrem entre si.

Quem tomou a decisão de retirar "Tropa de Elite" da competição de Sundance foi Harvey Weinstein, o ex-Miramax e atual Weinstein Company, que detém os direitos de distribuição de "Tropa de Elite" fora do Brasil. É o que diz o cineasta Marcos Prado, sócio de José Padilha e produtor de "Tropa de Elite". Por que exatamente Harvey Weinstein fez isso, Prado não diz. "Todo mundo sabe que o Harvey é temperamental", brinca, dizendo esperar que ele tenha "uma boa carta na manga" para fazer o que fez.

Em entrevista à Folha na semana passada, Padilha contou que "Tropa de Elite" tinha recebido convite "dos principais festivais que abrem o ano", mas que faltava decidir se a carreira internacional do filme começaria pelos Estados Unidos ou pela Europa.

É provável que Harvey Weinstein esteja negociando com os festivais de Berlim (fevereiro) e Cannes (maio) uma vaga em suas competições. Participar da competição de Sundance não ajuda esses objetivos.

"Tropa de Elite" não será o único aspirante de um diretor brasileiro aos principais festivais europeus. "Cegueira", de Fernando Meirelles, tentará ir a Cannes. "174", a ficção de Bruno Barreto baseada no documentário "Ônibus 174", de Padilha, ambiciona estar em Berlim. Comenta-se que outro candidato a Berlim é "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas. Walter Salles tem ótimo histórico com o festival alemão, desde que "Central do Brasil" arrebatou os Ursos de Ouro e Prata (Fernanda Montenegro) em 1998.

Escrito por Silvana Arantes às 4h36 PM

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Onde andará Tibério César?

Onde andará Tibério César?

Numa semana de prêmios para Cleópatra e Júlio César no cinema brasileiro, Alcino Leite Neto, com sua prodigiosa cultura cinéfila, nos faz lembrar que há ao menos mais um filme nacional que tem o Império Romano como tema. Trata-se de "Nos Tempos de Tibério César", produção de 1954-57, filmado na região de Três Corações (MG).

Longa de 80 minutos em preto-e-branco, "Tibério César" foi realizado pela Irmãos Brescia, companhia mineira capitaneada por Luiz Renato Brescia e sua família. O caráter caseiro se destaca na ficha técnica do filme, disponível no site da Cinemateca. Ettore Brescia assina a direção, a produção e o roteiro. Arnaldo Brescia é o cenógrafo e faz parte do elenco. Irene Brescia cuidou da música. E o próprio Luiz Renato fez a fotografia.

Alcino conta que o tosco épico mineiro transformou a frente da Igreja Católica da cidade de Lambari em entrada do palácio dos romanos pagãos. Segundo a "Enciclopédia do Cinema Brasileiro", de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, "a precariedade do filme inviabilizou a comercialização na época". Anos mais tarde, o longa foi relançado como "Centuriões Rivais", também sem sucesso.

E do que trata a história? A sinopse original do filme fala da disputa entre o legionário Horácio (Simeão Rezende) e o centurião Petrônio (Márcio Amaral) pelo amor da jovem Pompéia (Shirley Freitas), em meio à caça aos cristãos ordenada pelo império. Um trechinho do texto dá o tom da coisa:

"Roma, ano 35, tumultuava-se com as perseguições aos cristãos! Legionários romanos esquadrinhavam todos os recantos do Império Romano à destes contraventores das leis dos Césares!... Eram levados ao circo romano para o gáudio da população! Horácio, sobrinho do senador Gálio, em uma destas buscas, prende grande números de cristãos. Ao levá-los a Roma, resolve chegar ao palácio do tio para saber notícias de sua prima, a quem ama!"

A foto acima é extraída de "Minas Gerais - Ensaio de Filmografia", livro de Márcio da Rocha Galdino, lançado em 1983, que reconta a trajetória do cinema mineiro. É um dos poucos registros disponíveis da existência de "Nos Tempos de Tibério César". O filme consta do banco de dados da Cinemateca Brasileira, mas a instituição não possui nenhuma cópia dos negativos. Se nem a Cinemateca tem o longa, é bem possível que a obra esteja perdida. Ou alguém sabe onde encontrar uma cópia desse ícone trash?

Escrito por Leonardo Cruz às 7h35 AM

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Sundance seleciona 'Tropa de Elite'

Sundance seleciona 'Tropa de Elite'

                                                            David Prichard/Divulgação

Depois do artigo elogioso no "New York Times", "Tropa de Elite" chega agora a Sundance e dá mais um passo importante em sua carreira internacional. A revista "Variety" acaba de divulgar a lista dos filmes selecionados para a próxima edição do principal festival de cinema independente dos EUA, e o longa de José Padilha é o único brasileiro presente. O thriller policial estrelado Wagner Moura disputará com outros 15 filmes na categoria Cinema Mundial - Ficção, para a qual inicialmente foram inscritas 983 produções de 15 países.

A edição 2008 da tradicional mostra acontece em Park City, Utah, de 17 a 27 de janeiro. A lista completa dos selecionados, nas quatro categorias, está aqui (em inglês).

Escrito por Leonardo Cruz às 7h24 PM

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Decepcionada, platéia de Brasília protesta

Decepcionada, platéia de Brasília protesta

                                                                                       Junior Aragão/Divulgação

Premiados em Brasília: Joel Pizzini, Paloma Rocha,
Helena Ignez, Julio Bressane e Djin Sganzerla

Por Silvana Arantes (em Brasília)

A maior parte do público que foi ontem ao Teatro Nacional assistir à entrega dos prêmios do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro esperava ver duas coisas que não aconteceram _a atriz brasiliense Rosane Mulholland e o longa paulista "Chega de Saudade" saírem vencedores. O resultado é que a platéia protestou quando ambos foram derrotados pela "Cleópatra" de Julio Bressane.

Mulholland, que interpreta a "Falsa Loura" de Carlos Reichenbach e a protagonista feminina de "Meu Mundo em Perigo" (José Eduardo Belmonte) viu o Candango ir parar nas mãos do produtor Tarcísio Vidigal, que o recebeu em nome de Alessandra Negrini, a Cleópatra. A ausência de Alessandra a poupou de ouvir as sonoras vaias com que o público reagiu ao anúncio de sua premiação.

Quando "Cleópatra" foi anunciado como melhor filme, o protesto foi ainda mais contundente. Levas de pessoas deixaram a sala, enquanto muitas outras vaiavam. Os que aprovaram o resultado se desdobraram para compensar o ruído de rejeição, aplaudindo Bressane de pé.

O protagonista de "Meu Mundo em Perigo", Eucir de Souza, ensaiou um delicado desagravo a Rosane. Tentou levá-la junto com ele ao palco, quando seu Candango de melhor ator foi anunciado. Ela recusou e ficou sentada em seu lugar, com um bico indisfarçável, que se desfez num sorriso quando, no palco, Eucir se referiu a ela como "uma grande, grande atriz", e a platéia o acompanhou com aplausos.

Foi o segundo troféu da vida de Eucir. Ambos saíram na mesma noite. O primeiro, um prêmio paralelo oferecido pelo jornal "Correio Braziliense", ele não ouviu ser anunciado. Estava nos movimentados arredores do teatro, comendo acarajé. Voltou correndo e disse: "É o primeiro prêmio que ganho na vida e não ouvi". Quando agarrou o Candango oficial, fez graça: "É o segundo prêmio que ganho na vida e desta vez eu ouvi", para em seguida se emocionar. "Desculpe fazer vocês me verem chorando de novo, mas desta vez é de alegria." Elias, seu personagem em "Meu Mundo em Perigo" sofre pra burro ao longo do filme. Eucir dedicou o troféu aos seus pais e avós. "A quem me amou antes de eu provar qualquer coisa".

Os seis troféus de "Cleópatra" e os dois de "Anabazys" foram um claro sinal do júri de aprovação à vertente mais autoral e sofisticada da disputa. Carlos Reichenbach, que trouxe sua marca pessoal num filme que tem pelo menos um dos pés no brega, ficou restrito a um único troféu _de atriz coadjuvante para Djin Sganzerla. "Amigos de Risco", de Daniel Bandeira, que fez sua estréia em longas com um método que a própria equipe definiu como semi-profissional (o título foi filmado em mini-DV e ampliado para 35 mm, num resultado que compromete a definição das imagens) foi o único a sair sem prêmios.

A premiação dos curtas em 35 mm deu a Bressane a companhia de um cineasta que também foi vaiado pelo público, mas deixou Brasília com um Candango. O pernambucano Leonardo Lacca, cujo "Décimo Segundo" o público reprovou vaiando, foi eleito melhor diretor. De resto, "Trópico das Cabras", de Fernando Coimbra, fez a festa dos Candangos na categoria curta em 35 mm _melhor filme segundo o júri oficial e o da crítica, melhor fotografia (Lula Carvalho), melhor atriz (Larissa Salgado) e prêmio de aquisição do Canal Brasil.

Laís Bodanzky lembrou que o cinema pode machucar os diretores também na hora em que os filmes estão sendo feitos. Ela contou que viveu uma crise na primeira semana de filmagens de "Chega de Saudade", o que "é normal", questionando-se sobre aquele projeto especificamente e até sobre a validade de sua profissão. "Não quero reinventar a vida, quero viver a vida", dizia ao marido (e roteirista do longa) Luiz Bolognesi, quando ouviu dele a exortação: "Agora pára de falar e chama o elevador. Tem um carro lá embaixo te esperando para você ir trabalhar". A Luiz e ao seu carinhoso empurrão Laís dedicou o Candango.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 3h03 PM

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'Cleópatra' vence o Festival de Brasília e é vaiado

'Cleópatra' vence o Festival de Brasília e é vaiado

Por Silvana Arantes (em Brasília) e Leonardo Cruz

“Cleópatra” (foto), de Julio Bressane, é o grande vencedor do Festival de Brasília, que realiza neste momento sua cerimônia de encerramento na capital federal. A versão tropical da história da rainha egípcia ficou com o Candango de melhor filme e com mais outros cinco prêmios: atriz (Alessandra Negrini), fotografia (Walter Carvalho), direção de arte (Moa Batson), trilha sonora (Guilherme Vaz) e som (Leandro Lima).

O resultado reafirma a importância que o Festival de Brasília dá ao cinema autoral de Bressane. Filmes do diretor já haviam sido premiados em outras três edições do festival: 1982 (“Tabu”), 1997 (“Miramar”) e 2003 (“Filme de Amor).

“Chega de Saudade”, o longa-metragem que mais empolgou a platéia de Brasília, ficou com o prêmio de melhor filme pelo público. O júri ainda elegeu Laís Bodansky a melhor diretora e também deu a seu filme o Candango de melhor roteiro (Luiz Bolognesi).

“Meu Mundo em Perigo”, de José Eduardo Belmonte, ficou com os prêmios de melhor ator (Eucir de Souza) e ator coadjuvante (Milhem Cortaz) e com o prêmio da crítica. Djin Sganzerla foi escolhida e melhor coadjuvante por seu desempenho em “Falsa Loura”, de Carlos Reichenbach.

O júri concedeu ainda um prêmio especial ao documentário “Anabazys”, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, que também ganhou melhor montagem (Ricardo Miranda).

Entre os curtas em 35 mm, o júri deu a "Trópico das Cabras" os Candangos de filme, atriz (Larissa Salgado) e fotografia (Lula Carvalho) _a obra de Fernando Coimbra também foi a preferida da crítica. Já o prêmio de direção foi para Leonardo Lacca, por "Décimo Segundo", enquanto o júri popular elegeu "Eu Sou Assim - Wilson Batista", de Luiz Guimarães de Castro.

A lista completa dos vencedores está aqui.

*

Adendo pós-premiação (escrito às 12h40 de quarta)

Alguns e-mails e comentários enviados motivaram este complemento tardio no post. Primeiro, em resposta ao leitor Henrique, de São Paulo, informo que, quando este post foi escrito, os Candangos ainda não haviam sido entregues, por isso não há nada sobre as vaias. Sim, tanto Bressane quanto Alessandra Negrini foram vaiados na entrega de seus prêmios _como bem definiu a própria assessoria de imprensa do festival, foi a maior vaia da história de Brasília.

Por e-mail, um bom amigo lembra que é importante informar a composição do júri que tomou tal decisão polêmica. Vamos a ele: os atores Chico Diaz e Dira Paes, o crítico de cinema da Folha Inácio Araujo, os jornalistas João Paulo Pinto da Cunha e Mauro Ventura, o escritor e roteirista Marçal Aquino e o documentarista Manfredo Caldas.

A leitora Juliana, também de São Paulo, lamenta a falta de atenção aqui no blog (e na imprensa como um todo) à competição em 16 mm de curtas, médias e longas. Juliana, você tem razão. Para minimizar o problema, aqui vai a relação dos premiados na categoria.

Melhor Filme: "Convite para Jantar com o Camarada Stalin", de Ricardo Alves Junior
Melhor Direção: Ricardo Alves Junior, por "Convite para jantar com o Camarada Stalin"
Melhor Ator: Arduino Colassanti, por "Esconde Esconde", de Álvaro Furlan
Melhor Atriz: Suzanna Kruger, também por "Esconde Esconde"
Melhor Roteiro: Alvaro Furloni, também por "Esconde Esconde"
Melhor Fotografia: Tomas Peres Silva, por "Convite para Jantar com o Camarada Stalin"
Melhor Montagem: Marina Meliande, por "O Labirinto", de Gleysson Spadetti
Premio Especial do Júri: "O Criador de Imagens", de Diego Hoefel e Miguel Freire
Menção Honrosa: "Sistema Interno", de Carolina Durão

Escrito por Leo Cruz e Silvana Arantes às 11h19 PM

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Brasília de pé, por dona Lúcia Rocha

Brasília de pé, por dona Lúcia Rocha

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Somente ontem, no último dia da mostra competitiva do 40° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a platéia que a cada noite lota o Cine Brasília se levantou, em peso, para aplaudir. Não era a um filme que se endereçava a ovação, mas a uma pessoa _dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha (1939-81).

Dona Lúcia estava no palco, para a apresentação do último longa concorrente, "Anabazys", documentário de Joel Pizzini e Paloma Rocha (filha de Glauber com Helena Ignez), sobre a realização de "A Idade da Terra" (1980), último filme de Glauber.

Quando Paloma disse: "Este filme é resultado de um grande projeto que estamos fazendo no Tempo Glauber, entidade que minha avó fundou, para a preservação e a difusão da obra do meu pai", a platéia a interrompeu com aplausos. Dona Lúcia deu, então, um passo à frente e viu o público continuar aplaudindo-a, agora de pé. "Este é o palco das emoções", disse.

Na tela, ecoou pouco depois o discurso feérico de Glauber, extraído do "making of" de "A Idade da Terra" e de entrevistas que ele deu no Festival de Veneza, onde o filme foi rechaçado pela imprensa italiana, suspeitosa de que Glauber havia abandonado o marxismo para se converter ao pensamento religioso e ao apoio à ditadura militar brasileira.

Não haviam sido muito diferentes as reações, no Brasil, às declarações de Glauber em apoio ao general Ernesto Geisel _que ele antevia como executor de uma política de distensão, em direção à redemocratização do país. O isolamento intelectual e as dificuldades para obter o dinheiro pra realizar "A Idade da Terra" são aspectos fartamente abordados por Glauber em "Anabazys", até o ponto de ele se ver como um cineasta "entre a genialidade e o sacrifício". "Sou o João Goulart do cinema. Vocês me deram o golpe" e "Fiquei de castigo ideológico" são outras de suas declarações a respeito.

Quando analisa "a conspiração da mediocridade" que sujeita o fazer artístico no país, ele define a forma como encara a tensão existente na arte industrial que é o cinema: "Uma coisa é conquistar o público. Outra coisa é explorar o público. O cineasta deve viver a aventura da conquista".

Paloma Rocha dedicou a sessão aos atores glauberianos, a Helena Ignez e ao seu padrasto, Rogério Sganzerla, lembrando que o DVD de "O Bandido da Luz Vermelha", vencedor do Festival de Brasília em 1968, havia sido lançado durante a tarde de ontem.
Após a sessão, Joel Pizzini, assediado por jornalistas, falava da contraditória figura que Glauber representa hoje no cinema brasileiro: "Ele é o farol e também o fantasma".

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 1h57 PM

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Como unir cinema autoral e cinema popular?

Como unir cinema autoral e cinema popular?

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Com seu primeiro longa, "Bicho de Sete Cabeças", Laís Bodanzky deixou o Festival de Brasília consagrada por sete troféus Candango, em 2000. Ontem, o segundo filme da diretora, "Chega de Saudade" (foto), estreou no festival com calorosa acolhida do público.
Mas, no debate em torno dele, hoje à tarde, o diretor Edgar Navarro ("Eu Me Lembro"), confessou-se frustrado. "O filme é ótimo. Mas eu esperava mais. É um filme ótimo que qualquer um faria. De Laís Bodanzky eu queria mais", disse Navarro, tocando na questão que é o tema de fundo da disputa que se desenrola neste festival _de que modo(s) a marca autoral é capaz de se conjugar com o gosto popular no cinema brasileiro?

Antes da intervenção de Navarro, Laís havia dito que ouve com freqüência a observação de que foi longo demais o intervalo entre seu primeiro e seu segundo filmes. Nesse tempo, ela e o roteirista Luiz Bolognesi, com quem é casada, idealizaram e executaram o projeto Cine Tela Brasil, de exibições itinerantes de títulos brasileiros para populações de baixa renda e/ou que moram muito longe das salas de cinema.

Exibindo filmes, Laís disse que aprendeu muito sobre como fazê-los. "A gente sempre imagina o tal 'grande público' achando que, para dialogar com ele, é preciso nivelar por baixo, como a TV muitas vezes faz." Com a experiência do Cine Tela Brasil, a diretora disse haver descoberto que não é bem assim, que um público não-familiar ao cinema é capaz de perceber sutilezas e apreciar filmes complexos. Citou o exemplo da poesia de Arnaldo Antunes em "Bicho de Sete Cabeças", que era elogiada por quem nunca antes tivera contato com a obra do músico.

A Navarro, Laís respondeu com franqueza e sem confrontação: "Sei que, por causa do 'Bicho...', havia uma grande expectativa sobre meu segundo filme. Por isso tive tanto frio na barriga [na hora de apresentá-lo, ontem à noite]. Mas te digo que fiz 'Chega de Saudade' com toda a minha concentração. Fui até aonde consegui. Talvez esse seja o meu limite".

O ator Stepan Nercessian, que interpreta um dos personagens de destaque no filme, pediu então a palavra e questionou o ponto de vista de Navarro. "Talvez leve algum tempo para entendermos que o 'algo mais' de que você sente falta nesse filme é justamente o fato de que ele não tem um 'algo mais'. Não há um herói, uma vítima, ninguém que queira romper com nada neste filme. Lá, somos todos apenas o que somos: pessoas vivendo com suas limitações. O que você viu é o que você é."

*

A estréia de "Chega de Saudade" está prevista para 21 de março de 2008. Os irmãos produtores Caio e Fabiano Gullane disseram que pretendem lançá-lo nos mesmos moldes adotados para "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", que fez aproximadamente 400 mil espectadores _estréia em várias capitais simultaneamente, mas com poucas cópias em cada uma. A seguir, o trailer do longa de Laís Bodansky.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 5h54 PM

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O filme brasileiro na final do concurso do YouTube

O filme brasileiro na final do concurso do YouTube

Chama-se “Laços” o único filme brasileiro selecionado para a fase final do Project Direct, concurso criado em outubro pelo YouTube, no qual internautas de sete países foram convidados a enviar ao portal um curta-metragem de ficção, de até 7 minutos, cuja história respeitasse três regras estabelecidas pelo cineasta Jason Reitman, de “Obrigado por Fumar”.

Os 20 escolhidos por Reitman e sua equipe foram anunciados no último sábado. O YouTube não informa quantos projetos foram inscritos nem a divisão por países, mas a maior parcela dos selecionados é americana. São 11 curtas dos EUA, quatro espanhóis, dois ingleses, um italiano, um canadense e um brasileiro. Não há nenhum da França, o sétimo país participante, porém um dos filmes americanos é parcialmente falado em francês.

O finalista brasileiro é um projeto familiar de duas profissionais que trabalham com TV e cinema. A diretora Flávia Lacerda e a roteirista Adriana Falcão criaram a história de um encontro entre uma garota em fuga e um aparente desconhecido. Quem faz a protagonista é a filha de Adriana, Clarice, também compositora e intérprete da música-tema de “Laços”. Ela divide a cena com o amigo Célio Porto _os dois descobriram o concurso e deram o primeiro passo para que o filme fosse feito.

“Mais caseiro, impossível. Meu marido fez a câmera. O motorista fez o grip. Foi uma verdadeira ação entre amigos”, conta a diretora. “Laços” foi rodado no Rio de Janeiro, numa área residencial perto do Horto. Por ser uma competição internacional, os criadores queriam uma locação neutra, de apelo universal, no mesmo espírito do roteiro. As gravações duraram apenas um dia, feitas com uma câmera mini-DV. O curta custou entre R$ 2.000 e R$ 2.500, estima Flávia Lacerda _o principal investimento foi a diária da ilha de edição.

Profissional da Globo, Flávia foi assistente de direção nas minisséries “Auto da Compadecida” e “Caramuru”, já dirigiu quadros do “Fantástico” e capítulos da novela “Belíssima” e co-dirigiu a série “Sexo Frágil”, com o cineasta João Falcão, marido da roteirista de “Laços”. Experiente, Adriana Falcão está entre os autores dos longas “Se Eu Fosse Você”, “Irma Vap - O Retorno” e “A Máquina” e também escreveu episódios da série “A Grande Família”.

Os 20 finalistas podem ser vistos no YouTube, e o vencedor será escolhido pelos internautas. O portal promete anunciar o ganhador no próximo dia 5, quando também entrará no ar uma galeria com os 200 melhores curtas inscritos. Para assistir a “Laços”, basta clicar no vídeo acima. Mas, para votar nele (ou nos outros 19 concorrentes), é preciso entrar no site do Project Direct.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h08 AM

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O cartão de visitas de 'Tropa de Elite' nos EUA

                                                              David Prichard/Divulgação

O diretor José Padilha, durante as filmagens de "Tropa de Elite"

O “New York Times” de hoje publica um longa reportagem, com foto, sobre José Padilha, o diretor brasileiro de “Tropa de Elite”. Assinado pelo correspondente Alexei Barrionuevo, o artigo “Um cineasta e um desafiador da consciência do Brasil” é o Perfil de Sábado, seção fixa do jornal, publicada logo em seu primeiro caderno, na página A4.

No texto, o jornalista do “Times” conta a trajetória profissional de Padilha, desde o início no cinema como produtor e roteirista de “Os Carvoeiros” (1999) até o sucesso de “Tropa de Elite”, e relata a discussão sobre violência policial gerada pelo filme no Brasil. O cineasta afirma que não esperava que “Tropa” fosse criar “esse grande fenômeno social”, mas conclui que o cinema é um caminho eficaz para iniciar um debate nacional.

Não é a primeira vez que “Tropa de Elite” aparece no “New York Times”. Em 14 de outubro, logo após a estréia do filme nos cinemas brasileiros, o mesmo Alexei Barrionuevo escreveu uma reportagem sobre o alvoroço causado pelo longa no país desde o surgimento das cópias piratas.

Já naquele primeiro texto, Barrionuevo comparava o Capitão Nascimento de “Tropa” ao agente Jack Bauer de “24 Horas” _nada mais natural, afinal são dois angustiados defensores do uso da tortura para atingir objetivos estratégicos. Nas duas reportagens, o correspondente do “Times” lembra que nenhum filme causava tanta comoção no Brasil desde “Cidade de Deus”.

A comparação com “24 Horas” e o paralelo com “Cidade de Deus” são referências essenciais para o leitor americano, dado o sucesso da série de TV e ao fato de que o filme de Fernando Meirelles se tornou no exterior um símbolo do cinema brasileiro recente, de apelo popular nos EUA e na Europa.

“Tropa de Elite” tem sua estréia marcada nos EUA para 25 de janeiro. O perfil de Padilha no “New York Times” de hoje é um passo ainda inicial, mas fundamental, para a carreira internacional do filme. Dada a influência do jornal entre os formadores de opinião americanos, o artigo é um ótimo cartão de visitas para o longa brasileiro e para seu diretor.

Para ler a íntegra da reportagem do “Times” em português, clique aqui (só assinantes UOL). Para ler a versão original, em inglês, clique aqui (é necessário cadastro, gratuito, no site do “NYT”).

Escrito por Leonardo Cruz às 10h21 AM

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Um abacaxi chamado 'O Reino'

Um abacaxi chamado 'O Reino'

No podcast deste semana, o crítico Sérgio Rizzo descasca o abacaxi "O Reino", longa sobre uma ação do FBI na Arábia Saudita, dirigido por Peter Berg e com Jamie Foxx, e recomenda "Viagem a Darjeeling", o novo filme de Wes Anderson, o mesmo de "A Vida Marinha com Steve Zissou". Para ouvir, é só clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h56 PM

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A dependência da TV e um bar para chamar de seu

A dependência da TV e um bar para chamar de seu

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Um contrato com a TV tirou a atriz Rosane Mulholland da estréia de "Meu Mundo em Perigo" (foto), de José Eduardo Belmonte, o segundo longa apresentado na competitiva do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ontem à noite. "A Rosane está na novela [das sete da Globo, "Sete Pecados"] e não conseguiu chegar. Infelizmente", disse Belmonte, que revelou a atriz em "A Concepção", antes da sessão de seu novo título.

Agora à tarde, no debate sobre "Meu Mundo em Perigo", o ator Milhem Cortaz, que está no elenco do filme, encerrou um aparte comercial do bar que abriu em São Paulo com essa frase: "Espero que vocês vão lá, tomem bastante cachaça e comam muitos espetinhos. Me deixem rico, para eu não ter de depender de nenhum contrato com a TV".

Cortaz teve de sair do debate antes do fim, porque deixaria Brasília para atender um compromisso com o teatro. Antes, contou que abriu o bar para "dar um teto para trabalhar" ao seu pai, "que vendia cachorro quente nas madrugadas de São Paulo".

Isso foi há quatro meses e, depois da sessão do filme de Belmonte ontem, o ator se deu conta de como os dois assuntos estão interligados. É que a paternidade _e os conflitos decorrentes dela_ são o tema central do longa.

Belmonte disse que, com sua obra, queria falar sobre "o que significa ser pai, num mundo de códigos muito rígidos". Os códigos, no caso, são os da classe média brasileira, sobre os quais "o filme tenta sutilmente jogar uma luz", diz o diretor.

Na trama de "Meu Mundo em Perigo", Elias (Eucir de Souza, em interpretação candidatíssima ao Candango de melhor ator) tenta ser um pai dedicado do filho que teve com uma dependente química. Os dois brigam na Justiça pela guarda do garoto. Elias está desempregado, o que é, segundo sua advogada, a mais prejudicial de suas características.

Já o personagem de Cortaz, Fito, é constantemente humilhado pelo pai, um ex-militar saudoso da ditadura, e pela mulher, a quem o sogro assedia. As histórias de Elias e Fito se cruzam quando o primeiro atropela o pai do segundo. Em fuga, Elias se ancora em Ísis (Rosane Mulholland), que, por sua vez, tenta fugir de uma crise provocada pela imagem fantasmagórica do pai, "um homem que tinha uma dor imensa, que ninguém conseguia tirar" e ficava "vendo TV pelado". Do ponto de vista dela, "um pai que parecia a Yoko Ono".

Em suma, "Meu Mundo em Perigo" é uma tradução da idéia de Belmonte de que "a família não é um lugar cômodo". Escrito pelo diretor e pelo dramaturgo Mário Bortolotto, o filme nasceu como um melodrama, até que os dois, segundo Belmonte, perceberam que se tratava de uma tragédia, na qual quiseram inclusive um "coro grego". Por isso "a trilha [do DJ Zepedro] funciona como um comentário divino sobre o que está acontecendo".
 
Em tempo: o bar de Milhem Cortaz fica na Afonso Bovero, 554, esquina com Apinagés. Chama-se "Cortaz". "Botei meu sobrenome, porque o negócio é sério. Minha dinastia toda está em jogo", disse o ator.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 5h46 PM

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Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

Estreante em Brasília defende cinema imperfeito

                                                                 Aline Arruda/Divulgação

O diretor Daniel Bandeira apresenta seu filme em Brasília

Por Silvana Arantes (em Brasília)

Na história recente do cinema brasileiro, Pernambuco entra no capítulo das boas surpresas, inauguradas com "Baile Perfumado", de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Depois vieram Cláudio Assis ("Amarelo Manga", "Baixio das Bestas") e Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"). Agora, Daniel Bandeira segue a "tradição", com "Amigos de Risco", seu primeiro longa, que abriu ontem a competição do 40o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Realizado com R$ 200 mil, orçamento modesto para os padrões nacionais, "Amigos de Risco" é mais do que o cartão-de-visita de Bandeira; é seu estatuto pessoal de cinema. No debate de hoje de manhã, ele evitou a ladainha da dificuldade de filmar no Brasil. "Não nos interessa alardear que este filme foi feito na raça", declarou, ao assumir como próprio à linguagem do filme a precariedade de suas condições de filmagem: "Neste filme existe um diálogo entre técnica e conteúdo. Nenhum dos erros que existem nele parte do relaxamento".

O diretor disse que, se tivesse mais dinheiro, melhoraria alguns aspectos, como o áudio do longa, mas afirmou que não buscaria um "padrão de qualidade" hoje perseguido pela maioria das produções no Brasil, cuja idéia de perfeição técnica o incomoda. Em outras palavras, Bandeira fez a defesa de um cinema precário, imperfeito ou subdesenvolvido, para usar o termo definidor da cinematografia nacional segundo Paulo Emílio Salles Gomes, o criador do Festival de Brasília, nesta edição (merecidamente) lembrado a cada filme e a cada debate.

"Existe uma urgência [de filmar] em Recife. Com 'Amigos de Risco', fomos até aonde foi possível chegar", disse Bandeira. O longa foi filmado digitalmente. Ao ser ampliado para o formato 35mm e encher a tela grande do Cine Brasília, resultou numa imagem que incomodou muita gente, conforme ficou claro no debate desta quinta.

Mas a equipe do filme tem orgulho do resultado que alcançou. O fotógrafo Pedro Sotero explicou aos que reclamaram de "falta de foco" que não é exatamente esse o problema de acabamento que eles identificaram. "Este filme foi captado com câmera mini-DV. É um formato semiprofissional. O que parece fora de foco é falta de definição, porque a mini-DV não segura a ampliação [para 35mm]. Na verdade, a câmera surpreendeu. A gente esperava menos dela."

Quanto à trama, a discussão que "Amigos de Risco" propõe é sobre os limites da amizade. Ou, nas palavras de Bandeira, uma investigação sobre "até que ponto os laços de amizade agüentam a alteridade e a pressão das condições sociais".

Trocando em miúdos, Joca (Irandhir Santos, o Quaderna da minissérie "A Pedra do Reino", de Luiz Fernando Carvalho) é o amigo encrenqueiro de Benito (Rodrigo Riszla) e Nelson (Paulo Dias), que volta para Recife depois de dois anos "foragido" no Rio de Janeiro. Ela havia deixado a cidade depois de dar diversos golpes na praça e retorna com a intenção de retomar os "negócios", usando os amigos como "laranjas".

O histórico do afeto e das desavenças entre os três surge de suas conversas, de bar em bar, na noite do reencontro. Até que Joca sofre uma overdose, e os amigos têm que, literalmente, carregá-lo nas costas, Recife acima e abaixo. Assim, a amizade _e a vida do imperfeitíssimo Joca_ viram um peso nas mãos de Benito e Nelson, que decidem, até o amanhecer, se o suportam ou o descartam.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 6h01 PM

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Brasília, 40, começa com gritos e provocações

Brasília, 40, começa com gritos e provocações

                                                                Junior Aragão/Divulgação

O ator Emanuel Cavalcanti discursa na abertura do festival

Por Silvana Arantes (em Brasília)

O Festival de Brasília chegou aos 40 com um misto de orgulho, saudosismo e irreverência. E um pouco de atraso também. O festival foi criado em 1965, mas teve três edições suspensas no período da ditadura militar. Para a abertura da 40 edição, marcada para as 20h de ontem, no Teatro Nacional, 60 minutos foi o tempo que os convidados esperaram, até que a cerimônia de fato começasse, com a orquestra sinfônica do teatro executando Villa-Lobos sob a regência do maestro Ira Levin.

Os filmes que vieram a seguir e sobretudo os discursos dos artistas que os realizaram _e apenas dos artistas, já que nenhum organizador ou político ocupou o palco_ demonstraram que esta será uma edição carregada de simbolismos. Pedro Jorge de Castro apresentou seu curta "Brinquedo Popular do Nordeste", lembrando que, em 1977, quando ele estreou (e venceu o festival), "a platéia [de estudantes da UnB] entoou a palavra de ordem 'A greve continua!', mantendo uma greve que iniciou o processo de redemocratização da instituição". Castro dedicou seu filme aos estudantes e homenageou postumamente o autor do longa que viria a seguir, Paulo Gil Soares, "que abriu as portas da TV para cineastas [enquanto comandou a fase áurea do "Globo Repórter"]".

Com "Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", Paulo Gil venceu o primeiro Candango _o troféu não existia antes de 1967. Paula, filha dele, fez uma fala sucinta e emocionada, para apresentar a versão do filme restaurada pela Cinemateca Brasileira. Lembrou que seu pai, "foi um cineasta que talvez tenha ficado em segundo plano", daí a emoção com que recebia a homenagem do festival a ele.

Quando parecia que os discursos iriam se encerrar nesse tom contido e comportado, os atores Emanuel Cavalcanti e Joel Barcelos resolveram temperar a festa. "Peço licença para romper a mudez, rasgar a alma e expressar o sentimento de alegria de ver uma obra ser restaurada com dignidade por uma nova tecnologia [a digital]", começou Cavalcanti.

A platéia despertou, e o ator emendou sua fala elevando cada vez mais a voz, até terminar apoteoticamente num grito "de amor ao cinema, especialmente o brasileiro". A "seqüência" do discurso de Cavalcanti foi assim: "São 40 festas inigualáveis, 40 rugidos, 40 braçadas de flores que reconstituem a dignidade do artista brasileiro. [O fotógrafo] Dib [Lutfi] está presente! Obrigado, Brasília. Obrigado, Fernando Adolfo [coordenador do festival] e obrigado ao grande, ao inigualável criador deste festival: Paaaaaau-lo E-miiiiiiiiii-lio Saaaaaaalles Gooooooooomes!".

Depois da explosão de Cavalcanti, Joel Barcelos foi ao microfone dizendo-se "ruim de fala" e fez o mais divertido discurso da noite, com uma provocação à Petrobras, a grande patrocinadora do cinema brasileiro, incluindo o Festival de Brasília e a restauração de clássicos.

"Esse filme está atualíssimo. É sobre a descoberta de um poço de petróleo que faz o 'capetalismo' invadir uma cidade", disse Barcelos, que interpreta um "pegador de almas" no longa. Depois da gargalhada geral, ele concluiu: "Trata-se de um filme atualíssimo, porque é sobre o 'capetalismo'". No post abaixo, veja como o "capetalismo" chega à vila de Leva-e-Trás.

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 3h47 PM

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Proezas do capeta na terra do petróleo

Proezas do capeta na terra do petróleo

Por Silvana Arantes (em Brasília)

"Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", que venceu o Festival de Brasília em 1967 e foi exibido ontem, em cópia restaurada pela Cinemateca Brasileira, começa com um pesadelo (ou sonho profético) do personagem de Emanuel Cavalcanti. Ele não tem um dos braços e lá pela metade do filme descobrimos que o perdeu "na máquina da fábrica, lá em São Paulo".

É provavelmente a invalidez para o trabalho operário que o leva de volta à pequena vila de Leva-e-Trás, onde vive com a mulher, uma devota católica interpretada por Isabella. As filmagens foram feitas em Tiradentes (MG). Após a sessão de ontem, Cavalcanti lembrava que, sem dinheiro para alugar rebatedores de luz, Paulo Gil usou lençóis brancos em seu lugar.

No sonho do personagem, uma velha lhe indica o local a ser cavado para a descoberta de um tesouro, mas aponta que as conseqüências para a cidade serão devastadoras. O tesouro é o petróleo, e o resultado para os cidadãos que, como o protagonista, possuem alguma desvantagem para se adaptar ao processo industrial é o alijamento da pujança econômica trazida pela exploração do "ouro negro". Uma cidade "pré-fabricada" é erguida nas redondezas de Leva-e-Trás, para abrigar os trabalhadores do novo negócio. Para lá se muda a prostituta e até o padre de Leva-e-Trás, levando com ele a imagem da santa.

Nesse processo, eventos estranhos, como o aparecimento de mulas-sem-cabeça e o nascimento de bezerros que gargalham, apavoram os que ficam _um cego cantador, um anão, o ex-operário mutilado e sua mulher. Eles mandam chamar um "pegador de almas" (Joel Barcellos) para solucionar o problema. Mas como o caso não era de alma penada, tudo continua como antes.

Ou pior, quando o Diabo chega em pessoa a Leva-e-Trás. A comunidade de excluídos de início resiste, mas depois sucumbe à oferta para vender a alma. Trato feito, o Diabo é batizado Antônio Bispo dos Anjos e sai candidato à Presidência da República, com "a plataforma de retomar a política desenvolvimentista". O cego, que agora vê, pleiteia o Senado.

Quem interpreta o cego é Jofre Soares, mas toda vez que ele canta no filme (e ele canta muito) a voz é de Caetano Veloso, que assina a trilha sonora. É de Caetano a frase final de "Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Trás", em verso cantado: "Perdoai o funeral sem enterro de nossa miséria".

Escrito por Silvana Arantes (em Brasília) às 3h37 PM

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Alice dark e o cachorro Frankenstein

Alice dark e o cachorro Frankenstein

"Sweeney Todd", o novo longa de Tim Burton, ainda nem estreou, mas o cineasta norte-americano já anunciou seus dois próximos projetos, em parceria com os estúdios Disney. Segundo a Variety, já no primeiro semestre de 2008, Burton filmará uma versão 3-D de "Alice no País das Maravilhas", o clássico texto de Lewis Carroll. Com roteiro de Linda Woolverton (de "O Rei Leão"), o filme combinará cenas reais com passagens em animação computadorizada. A premissa é das mais interessantes: unir o universo sombrio de Burton à fantasia amalucada de Carroll. Será que teremos uma Alice dark? Ou um chapeleiro maluco movido a alucinógenos?

Depois de "Alice", Burton voltará a trabalhar com stop-motion, o gênero de animação em massinha no qual já fez o bom "A Noiva-Cadáver" e o excelente "O Estranho Mundo de Jack". Também exibida no sistema 3-D, a obra será uma versão em longa-metragem de "Frankenweenie" (foto acima), um dos primeiros curtas da carreira do diretor, rodado em 1984, em preto-e-branco. Nele, um garoto traz de volta à vida seu cachorrinho de estimação, usando técnicas, digamos, incomuns. O título do curta dá uma idéia da técnica de ressurreição, e quem já viu o filme, disponível no DVD de "O Estranho Mundo de Jack", sabe do que estou falando.

Antes de tudo isso, veremos, claro, "Sweeney Todd", que chegará aos cinemas americanos ainda neste ano e, ao Brasil, só em 8 de fevereiro, com subtítulo "O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet". O musical traz Johnny Depp como o barbeiro londrino que vira serial killer nas horas de folga. Um conto de vingança, como fica evidente no trailer a seguir.

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Extra de "Ratatouille" já caiu no YouTube
Mais uma boa dica do repórter e blogueiro Marco Aurélio Canônico: a versão dublada em português de "O Seu Amigo, o Rato", extra do DVD de "Ratatouille", foi parar no YouTube. No curta de dez minutos, os camundongos Remy e Emile nos explicam como os roedores vêem os homens de igual para igual. Divertido, bem divertido. Cheguei a colocar o vídeo aqui no blog, mas estava lento demais. Quem quiser pode conferir direto no YouTube.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h53 PM

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Três opções para o feriado

Três opções para o feriado

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo comenta as estréias nos cinemas deste feriadão, com destaque para o brasileiro "Mutum", de Sandra Kogut, e os franceses "Crimes de Autor", suspense de Claude Lelouch, e "A Noiva Perfeita", comédia romântica de Eric Lartigau. Para ouvir, é só clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h53 AM

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Um bom roteiro para o 15º Mix Brasil

Um bom roteiro para o 15º Mix Brasil

 
Gus Van Sant, em cena de "A Incrível História do Cinema Gay"

Por Cássio Starling Carlos (Crítico da Folha)

Para quem não está disposto a encarar horas de engarrafamento nas estradas, o feriado de seis dias em São Paulo a partir de hoje conta com a atração bastante animada da 15ª edição do Mix Brasil. Espalhada em seis salas (Centro Cultural da Juventude, Olido, Cinesesc, duas salas do Espaço Unibanco e Cinusp), a programação do festival traz alguns trabalhos, sobretudo no campo dos documentários, que ultrapassam o mero interesse de identidades gays.

Com sessões nesta quinta (Unibanco 4, 22h) e no sábado (Cinesesc, 22h), “With Gilbert & George” é o resultado de 17 anos de filmagens em que o diretor Julian Cole registrou a dupla de artistas britânicos, desde o relativo anonimato até a fama. Neste percurso, é todo o processo de constituição da obra, com suas idiossincrasias, manipulação da própria imagem e momentos verdadeiros de criatividade, que vêm à tona.

Desaparecido: Danny Williams na Factory de Warhol” é outro documentário que desvenda a intimidade de um ícone da arte contemporânea. Dirigido pela sobrinha de Danny Williams, o trabalho, que tem exibições nesta sexta (Cinesesc, 20h) e no domingo (Unibanco 4, 18h), resgata do esquecimento um personagem que foi amante de Andy Warhol e realizou uma série de registros em filme do grupo que orbitava em torno do artista na Nova York dos anos 60. Williams desapareceu no mar em 1966, e o documentário, além de recuperar ricas imagens produzidas por ele, desmistifica a figura de Warhol (e também de alguns companheiros de trupe), exibindo sua faceta humana, demasiado humana.

Ainda no campo dos documentários, há o excelente trabalho do alemão André Schäfer em “A Incrível História do Cinema Gay”. Com uma estratégia assumidamente politizada e politizante, segue o trajeto dos filmes “queer” desde a rebelião de Stonewall até a diluição na linguagem “mainstream” com os amantes caubóis de “O Segredo de Brokeback Mountain”. Bem de acordo com a atitude “queer”, o documentário coloca uma pedra no sapato do esforço gay de aceitação. Tem sessões nesta sexta (Unibanco 1, 15h) e no sábado (Unibanco 4, 16h).

No campo da ficção, o festival programou para domingo (Unibanco 1, 15h) e segunda (Unibanco 1, 23h) “XXY”, estimulante estréia da argentina Lucia Puenzo já exibida na Mostra. Sem cair na caricatura, a diretora consegue pintar a adolescência como zona de indeterminação sexual, o evidente apelo da androginia e a situação dos afetos quando expostos a um livre jogo que antecede as escolhas impostas pelos gêneros masculino/feminino.

Apesar de premiadas no Festival de Berlim, é recomendável evitar duas ficções de Taiwan. “Spider Lilies” e “Eterno Verão” reproduzem os mais manjados clichês dos melodramas românticos e não trazem nada do frescor habitualmente associado aos filmes orientais.

Para quem se interessa por manifestações arqueológicas, a segunda (Unibanco 1, 21h) tem a exibição de “Pink Narcissus”, uma experimentação visual ultrakitsch de 1971 com os delírios sexuais de um prostituto e foi, em sua época, um marco de vanguarda.

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A seguir, o trailer de "XXY".

Escrito por Cássio Starling Carlos às 10h55 AM

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Sessão especial de 'Mutum' é hoje

Sessão especial de 'Mutum' é hoje

Este é um post-lembrete: acontece na noite desta terça, às 19h, no Cine Bombril 1, a pré-estréia de "Mutum", o primeiro longa ficcional de Sandra Kogut. A sessão especial do filme vencedor do Festival do Rio marca também o primeiro aniversário deste blog, como anunciado aqui na semana passada.

A pré-estréia é gratuita, e os ingressos podem ser retirados a partir das 18h na bilheteria do Bombril (Conj. Nacional, av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3285-3696). Para garantir a entrada, convém chegar cedo. Após a exibição do filme, haverá um debate com a diretora e o crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Inspirado na novela "Campo Geral", de Guimarães Rosa, "Mutum" narra o cotidiano de uma família no sertão de Minas Gerais, sob a ótica do garoto Thiago _transposição para a tela do personagem Miguilim do texto original de Rosa.

Grande parte do elenco do filme é formado por atores não-profissionais, moradores da região convidados por Sandra Kogut para atuar no longa _muitos nunca tinham ido ao cinema. Uma das poucas exceções é João Miguel, de "Cinema, Aspirinas e Urubus" e "O Céu de Suely", que em "Mutum" interpreta o pai de Thiago.

Leia mais sobre "Mutum" (para assinantes UOL ou Folha):
Reportagem sobre o filme, por José Geraldo Couto
Crítica do longa, por Inácio Araujo

Escrito por Leonardo Cruz às 11h10 PM

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'Tropa de Elite' é o filme brasileiro mais visto em 2007

'Tropa de Elite' é o filme brasileiro mais visto em 2007

Agora é oficial. Certamente o filme brasileiro mais visto do ano por causa da febre no mercado pirata, “Tropa de Elite” assumiu também neste final de semana o primeiro lugar no ranking nacional de público nos cinemas. Segundo dados da Zazen, a produtora de Marcos Prado e José Padilha, o longa chegou a 2,040 milhões de espectadores, superando “A Grande Família – O Filme”, que levou às salas 2,031 milhões.

O filme de ação sobre o cotidiano do Bope ocupa agora o décimo lugar no ranking geral de público em 2007 _o longa mais visto no ano até agora pelos brasileiros foi “Homem-Aranha 3”, que fez 6,1 milhões. Em cartaz desde 5/10 em mais de 250 salas do país, “Tropa de Elite” ainda deve permanecer muitas semanas em exibição e tem boas chances de ganhar mais posições nesse ranking geral. Seu total de público até agora não está muito distante do nono colocado (“Quarteto Fantástico”, 2,13 milhões), do oitavo (“Os Simpsons – O Filme”, 2,22 milhões) e do sétimo (“Ratatouille”, 2,27 milhões).

Por outro lado, a produção de Padilha ainda aparece bem longe das dez produções com maiores públicos na história do cinema nacional _o décimo colocado é “O Casamento dos Trapalhões” (1988), com 4,7 milhões de espectadores, e o filme mais visto até hoje nos cinemas do Brasil é “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), com 10,7 milhões.

Se não tivesse chegado ao mercado de DVDs piratas dois meses antes de sua previsão inicial de estréia, o filme teria um desempenho ainda melhor de público? Provavelmente sim. A queda vertiginosa de público no Rio de Janeiro nas semanas posteriores à estréia indica que o sucesso da versão ilegal de “Tropa de Elite” abalou sensivelmente a freqüência nos cinemas, em especial nas regiões de mais baixa renda. Qual o impacto exato da pirataria no resultado final do longa de Padilha é a pergunta que nunca terá resposta.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h43 PM

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Desconstruindo Mojica

Desconstruindo Mojica

Como já contado aqui no blog, em um post logo abaixo, começa amanhã para o público em São Paulo a maior retrospectiva da obra do cineasta José Mojica Marins. Para acompanhar a exibição dos 40 filmes, a Heco, produtora da mostra, elaborou em belo catálogo, com 178 páginas e muitas fotos inéditas. Nele, cineastas, críticos e pesquisadores de cinema analisam cada filme do mestre do terror brasileiro. O livro estará à venda durante o ciclo de Mojica, por R$ 30, mas todo seu conteúdo estará em breve disponível no site da Heco. A seguir, trechos dos artigos escritos especialmente para o livro, em seleção feita pelo editor do Folhateen, Ivan Finotti.

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Sobre “A Praga” (1980/2007), por Carlos Reichenbach, cineasta
Rodado em Super-8, “A Praga” era um de seus projetos fílmicos dados como inacabados e/ou interrompidos. Foi o ensejo prospectivo de Eugênio Puppo que trouxe à tona (e à vida) essa história de danação concebida pelo fértil Rubens Lucchetti. A primeira coisa que chama a atenção no trabalho de Puppo como montador do filme é a absoluta fidelidade ao "estranho mundo de Zé do Caixão". Ao incluir um certo grafismo ao delírio imagético concebido pelo diretor, Puppo buscou subverter a precariedade da bitola e do apuro técnico com imaginação e originalidade. "A Praga" nos deixa perplexos, comovidos e deliciosamente incomodados.

Curiosamente, "A Praga" lembra muito alguns dos filmes mais radicais de outro outsider, o espanhol Jesus Franco (o homem dos quase duzentos filmes), e em particular de "Macumba Sexual" (1983). Em ambos os enredos, um personagem é assolado constantemente por pesadelos tenebrosos vaticinados por uma entidade terrível. Os dois diretores mandam o realismo às favas e reinventam uma religião e um sincretismo quase blasfemos. Franco faz uma salada mista de personagens mitológicos. Mojica, mais modesto, mistura mesa branca, candomblé, umbanda e quimbanda; na verdade, ele cria uma religião própria, cujo guia espiritual se assemelha ao índio Aymoré; aquele das antigas latas de biscoito. Mas, aparentemente, não existe em nenhum dos dois casos o intuito de deboche ou menosprezo pela fé dos deserdados, mas uma recusa explícita do realismo. Não interessa a Mojica e a Jesus Franco reproduzir fielmente o ritual dos cultos e seitas existentes, pois eles sabem que toda encenação do real, por mais bem intencionada que seja, pressupõe a perfídia.

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Sobre “D'Gajão Mata para Vingar” (1971), por Inácio Araujo, crítico da Folha
O melhor de "D’Gajão Mata para Vingar" está no início, na seqüência de abertura, em que uma mulher, num idioma que não conhecemos, pronuncia palavras das quais nossos ouvidos não sabem captar mais do que os sons. A isso correspondem gestos e expressões que, logo, nos informam tratar-se de um casamento. Em seguida, percebemos que a cena se passa em uma comunidade cigana. Quem casa com uma bela jovem é D’Gajão, aparentemente o líder do grupo ou seu representante mais eminente.

À cerimônia segue-se a comemoração, com as danças. D’Gajão olha feliz para sua noiva. Esta responde com o semblante sombrio. Pesa-lhe a intuição de que momentos árduos estão por vir. Ela está certa: os ciganos são vítimas de preconceito e racismo —e o filme não ajuda muito a desfazer os lugares-comuns a respeito deles. Não demora para as mulheres saírem às ruas de uma cidadezinha atrás de alguém que pretenda conhecer o destino pela leitura de suas mãos.

D’Gajão, entrementes, passa a demonstrar as virtudes dos heróis de faroeste. Como durante um jogo de cartas, em que vence implacavelmente seus adversários, mas termina, magnânimo, por deixar o dinheiro para seus parceiros. Os ciganos são magnânimos, compreendemos, mas isso é insuficiente para aplacar os preconceitos.

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Sobre “Finis Hominis” (1970), por Ruy Gardnier, editor da Contracampo
Dependendo do ponto de vista adotado, "Finis Hominis" pode ser visto como um anárquico libelo antitradição ou simplesmente um bizarro e engraçado filme-piada, aproveitando a bem conhecida e já bastante utilizada semelhança formal entre profecia e loucura, entre relativização dos valores da sociedade e insanidade. É possível pensar em, entre outros grandes filmes da história do cinema, "A Vida de Brian" (1979), de Terry Jones, "Europa 51" (1952), de Roberto Rossellini, "Nazarin" (1959), de Luis Buñuel. As ênfases, naturalmente, variam de acordo com as predileções de cada cineasta. Mas resiste em todas essas obras um desejo de afrontar a hipocrisia de uma sociedade que busca a salvação enquanto na prática abusa de todos os egoísmos, oportunismos e outras maldades.

Feito de pequenos episódios interligados de forma tênue –ou mesmo nada interligados–, o filme tem um rico imaginário de heresia e de choque em relação aos valores instituídos. Visto assim, nada mais é do que uma continuação lógica da filosofia dos filmes de Zé do Caixão, que colocava a nu preconceitos e crendices estúpidas da população mais humilde.

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Sobre “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, por Alexandre Agabiti, autor de tese sobre Zé do Caixão na Universidade de Paris
A figuração do inferno faz parte de um pesadelo de Zé [em "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver"]. Esse sonho terrível começa sutilmente com uma fusão, que introduz um salto de nível narrativo, em que passamos da realidade do personagem ao seu inconsciente. Zé é arrancado da cama e arrastado até o cemitério por uma figura estranha, extremamente magra, de pele escura, que lembra uma múmia sem bandagens. Situada entre o mundo dos vivos e o dos mortos, pois conserva algo da aparência humana, a múmia é a instância mediadora entre o protagonista e o inferno, entre o mundo dos vivos e o dos mortos condenados ao suplício. No cemitério, Zé é “engolido” pela terra, e um jogo de associações se põe em marcha: o buraco lembra as pinturas de Hieronymous Bosch (c. 1450-1516), nas quais as figurações da oralidade vão além da boca e se apresentam sob a forma de fendas, cavidades e cloacas; Zé chega ao inferno pelo cemitério, enquanto a múmia remete à pirâmide, a um túmulo; o inferno, com seus sucessivos círculos, como no poema de Dante, tem a forma de um funil, que lembra uma pirâmide invertida.

As correspondências entre "A Divina Comédia" e o filme são numerosas. A descida aos infernos de Zé começa quando ele cai sobre a lama onde estão deitados os danados (canto 6 do "Inferno"). Em seguida, há um terremoto (canto 3), que leva Zé ao círculo seguinte; os demônios chicoteiam (canto 18) e cravam tridentes na carne dos pecadores (canto 22); estes se arrastam pelos caminhos (canto 29); sofrem crucificações (cantos 16 e 23); são presos com correntes (canto 31); mordidos por serpentes (canto 24); enterrados de ponta-cabeça no fundo da gruta (canto 19) e colocados em poços (canto 31).

Ao vasto repertório dantesco de tormentos, Mojica acrescenta martírios que inventou, como as marteladas na cabeça dos danados e o emparedamento dos pecadores na gruta. Os gases fétidos, o gelo e as chamas são abundantes, como no poema. Zé fica muito impressionado com o que vê, como Dante, mas segue seu périplo.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h26 AM

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Coutinho joga com a realidade e a ficção

Coutinho joga com a realidade e a ficção

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta o excelente documentário "Jogo de Cena". Nele, o diretor Eduardo Coutinho apresenta depoimentos de mulheres anônimas e famosas, misturando relatos reais e representação. Ao mesmo tempo, um filme sobre o que é ser mulher no Brasil atual e uma reflexão sobre a arte de interpretação e os limites entre real e ficcional. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h25 PM

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Sessão de 'Mutum' marca aniversário do blog

Sessão de 'Mutum' marca aniversário do blog

A celebração é um tanto atrasada, mas a data não poderia passar em branco. Este blog completou seu primeiro aniversário no último dia 20, no meio da correria da Mostra, o que impediu qualquer tipo de festejo.

Passada a maratona de filmes, tudo fica mais fácil. E o aniversário do blog Ilustrada no Cinema será finalmente celebrado na próxima terça-feira, dia 13, às 19h, no Cine Bombril 1, com a pré-estréia de "Mutum", o premiado longa de Sandra Kogut, inspirado na obra de Guimarães Rosa.

Parceria entre a Folha e o Cine Bombril, a sessão será gratuita, com distribuição de ingressos a partir das 18h, na bilheteria do cinema (Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3285-3696). Após a exibição, a diretora discutirá o filme com a platéia, em um debate do qual também participarão o crítico literário e colunista da Folha Manuel da Costa Pinto e este que vos escreve.

Exibido na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes e eleito melhor filme pelo júri do Festival do Rio, "Mutum" tem como ponto de partida a novela "Campo Geral", de Guimarães Rosa, e aborda a descoberta do mundo por Thiago, garoto de dez anos que vive com sua família num ponto isolado do sertão de Minas Gerais.

No site do filme, Sandra Kogut conta que viajou pelo sertão durante um ano e meio, "para conhecer as pessoas, o lugar, em seguida para procurar as crianças do filme". Em visitas às escolas rurais da região, esteve com cerca de mil crianças _após testes e oficinas, a cineasta escolheu Thiago da Silva Mariz para o papel principal e Wallison Felipe Leal Barroso para ser Felipe, o irmão mais novo do protagonista.

Na tela, fica claro que Sandra fez uma ótima escolha. Confira o trailer abaixo, e venha ver a versão integral conosco, na terça-feira, às 19h, no Cine Bombril.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h54 PM

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Cinema nacional a R$ 2

Cinema nacional a R$ 2

A Rede Cinemark, que chega a cobrar R$ 21 por ingresso, faz hoje seu afago anual no espectador (e no cinema do país) e realiza mais uma edição do Projeta Brasil. Em suas 358 salas de 43 complexos, serão exibidos exclusivamente filmes nacionais, lançados de novembro de 2006 até o mês passado. E cada entrada custa apenas R$ 2 _preço competitivo até para o “mercado alternativo” de DVDs, cada vez mais forte no país inteiro.

Em sua oitava edição, o projeto da rede norte-americana é uma chance para ver (ou rever), em 25 cidades, algumas boas obras brasileiras que passaram pelas telas nos últimos meses. Quem está em Salvador, por exemplo, pode assistir hoje a dez opções no Cinemark local, entre elas “Não por Acaso” (foto), a bela estréia de Philippe Barcisnki na direção de longas , ou a “Saneamento Básico, o Filme”, a boa comédia de Jorge Furtado. Já em Porto Alegre, um boa pedida é o candidato brasileiro a uma vaga no Oscar, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger. Mas, como bem apontou um leitor, faltaram alguns filmes recentes importantes, como "Cão Sem Dono", de Beto Brant, e "Baixio das Bestas", de Claudio Assis.

Realizado sempre numa segunda-feira, dia em que normalmente o movimento das salas não é dos mais altos, a renda obtida pela Cinemark com o Projeta Brasil volta para o cinema brasileiro, em iniciativas como o patrocínio dos prêmios do júri popular nos festivais de Gramado, Brasília e Rio e liberação de verba para a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio.

Vai um filminho brasileiro aí? A programação completa está no site da Cinemark.


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Saiu o Prêmio Jairo Ferreira da Mostra de SP
Os colegas das revistas Cinética, Cinequanon, Contracampo e Paisà anunciaram neste domingo o Prêmio Jairo Ferreira para melhor filme da Mostra de SP. Apurados os votos dos 20 críticos participantes, dividiram o primeiro lugar “I’m Not There”, de Todd Haynes, e “Le Voyage du Ballon Rouge”, de Hou Hsiao-hsien.

Uma vez mais, ótimas escolhas. Vale notar que “I’m Not There”, sem dúvida um dos melhores longas de 2007, já tinha levado o Jairo Ferreira no Festival do Rio, divindo o prêmio com “Síndromes e um Século”, de Apichatpong Weerasethakul, e “Paranoid Park”, de Gus Van Sant. Vale registrar também que “Le Voyage du Ballon Rouge” foi o segundo colocado na eleição do prêmio oficial da crítica concedido pela Mostra, que teve 18 votantes. O filme de Hou Hsiao-hsien perdeu por apenas 1 ponto para “A Questão Humana”, de Nicolas Klotz, que foi o terceiro colocado no Jairo Ferreira. Sinal de que, neste ano, os dois prêmios da crítica (o da Mostra e o Jairo Ferreira) estiveram na mesma sintonia.

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Inveja dos mineiros
Para quem se interessa pelo cinema brasileiro, o melhor lugar para estar hoje é Belo Horizonte. Duvida? Pois lá acontece a Mostra CineBH, que apresenta filmes brasileiros antigos e recentes, acompanhados por debates, oficinas e seminários. Ainda duvida? Pois quem está em BH hoje pode escolher entre o clássico “Iracema, uma Transa Amazônica” (1974), de Jorge Bodansky e Orlando Senna, o ótimo “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2003), de Marcelo Gomes, e o superelogiado e ainda inédito “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci. O festival começou no último dia 31 e vai até amanhã. Ainda duvida? É tudo de graça.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h09 AM

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A Mostra acabou, as mostras começaram

A Mostra acabou, as mostras começaram

Com o fim da Mostra, o circuito cinematográfico paulistano volta ao seu ritmo normal. Na verdade, nem tão normal assim: há vários ciclos e festivais começando nestes dias na cidade, além, como já comentou Sérgio Rizzo no podcast desta semana, das nove estréias da semana.

A minimaratona de retrospectivas começou ontem no Cine Bombril 2, com a homenagem a Eduardo Coutinho. Como já disse aqui no blog, são sete documentários do autor de "Cabra Marcado para Morrer", um a cada dia, em cartaz até a próxima quinta, quando haverá a pré-estréia de "Jogo de Cena", seguida de debate com o diretor.

Na terça (6), a Cinemateca Brasileira dá início à retrospectiva completa da obra de Norman McLaren (1914-87), nome-chave da animação no mundo, figura que influenciou os pioneiros do gênero no Brasil. São dez programas, que exibirão os mais de cem curtas do diretor canadense e um documentário sobre seu processo criativo. Uma boa porta de entrada para quem quer conhecer esse universo é o McLaren Clássicos, programa com as obras mais famosas do animador, como "Pas de Deux" (1968, foto acima), todas restauradas pelo National Film Board do Canadá. Também serão mostrados os curtas de Roberto Miller, que estudou com McLaren no NFB e trouxe ao Brasil suas técnicas de animação. Todas as sessões são gratuitas.

Também na terça, mas na pequena sala do CCBB-SP, começa o ciclo com 34 documentários do francês Jean Manzon, fotojornalista radicado no Brasil que ficou famoso por suas reportagens para a revista "O Cruzeiro". Com sessões até sexta (9), a retrospectiva é um curso intensivo de etnografia do país, com obras como "Brasil, Terra de Contrastes". Também é tudo de graça.

Na mesma sexta (9) o cine HSBC Belas Artes apresenta em sua sala 2 um festival com produções recentes do cinema francês. Patrocinada por uma marca de lentes de contato, a mostra acontece até o dia 15, com sete longas franceses, entre eles "A Culpa É do Fidel", de Julie Gavras, e "Em Paris", de Christophe Honoré _os dois tiveram sessões muito concorridas na Mostra de SP e no Festival do Rio. Depois de São Paulo, o Festival Varilux irá ainda a Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Campinas, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza.

Mas o programa mais interessante talvez seja mesmo o que começa no dia 10 em São Paulo no CCBB local e na Cinemateca Brasileira. Trata-se da celebração dos 50 anos de carreira de José Mojica Marins, criador do Zé Caixão, grande nome do cinema popular no Brasil. Serão exibidos 41 filmes em que Mojica participou como diretor, ator ou entrevistado. Estarão lá os clássicos e mais conhecidos "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1963-64) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1965-66) e também raridades como "A Sina do Aventureiro" (1957-58) e "Finis Hominis" (1970-71). Em São Paulo, Mojica participará de dois debates com o público, um no domingo (11), às 17h30, na Cinemateca, e outro no CCBB, no dia 18, às 19h. Haverá também uma exposição fotográfica da carreira do artista no saguão da Cinemateca. A retrospectiva de José Mojica Marins irá até 25/11 e voltaremos a ela aqui no blog.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h03 PM

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Lina Chamie faz poesia visual em 'A Via Láctea'

Lina Chamie faz poesia visual em 'A Via Láctea'

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo faz uma análise de "A Via Láctea", novo filme da diretora Lina Chamie, a mesma de "Tônica Dominante". No longa, vemos um casal em crise _após uma discussão por telefone, Heitor (Marco Ricca) vai ao encontro de sua namorada (Alice Braga). E esse trajeto é o espaço escolhido pela diretora para criar uma narrativa visual e musicalmente poética. Para ouvir o comentário, basta clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h10 PM

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Mostra de SP premia 'O Banheiro do Papa'

Mostra de SP premia 'O Banheiro do Papa'

Pelo terceiro ano consecutivo um filme brasileiro (ao menos em parte) ficou com o principal prêmio da Mostra Internacional de Cinema de SP, divulgado nesta noite de quinta na cerimônia de encerramento, no Memorial da América Latina. "O Banheiro do Papa", de Enrique Fernández e César Charlone, foi eleito o melhor filme pelo júri do festival, formado por cinco diretores: a portuguesa Inês de Medeiros, o senegalês Moussa Sene Absa, o japonês Hirokazu Kore-eda, O tunisiano Férid Boughédir e a brasileira Lúcia Murat. Eles apontaram que a co-produção Brasil/Uruguai/França apresenta "autenticidade na descrição da luta pela sobrevivência dos mais humildes". Com o troféu, "O Banheiro do Papa" repete o feito de "O Cheiro do Ralo" no ano passado e de "Cinema, Aspirinas e Urubus" em 2005.

O júri da Mostra concedeu ainda outros quatro prêmios para longas-metragens: o Especial para o longa polonês "Truques", de Andrzej Jakimowski, o de melhor atriz para Carla Ribas, por "A Casa de Alice", de melhor documentário para "Transformaram Nosso Deserto em Fogo", de Mark Brecke, e o de revelação para o venezuelano "Postales de Leningrado", de Mariana Rondon, que também ficou com o troféu do público do Festival da Juventude.

Além do prêmio concedido pelos estudantes do ensino médio, o público da Mostra elegeu cinco longas-metragens. "Into the Wild", de Sean Penn, e "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Parannoud, foram consideradas as melhores ficções estrangeiras. "Estórias de Trancoso", de Augusto Sevá, foi a melhor ficção nacional, e "Pindorama", de Roberto Berliner, Leo Criverale e Lula Queiroga, o melhor documentário brasileiro. Os freqüentadores do festival escolheram como melhor documentário estrangeiro "O Filme da Rainha", do argentino Sergio Mercurio.

Já o prêmio da crítica, para o qual votaram críticos e repórteres da Folha, foi para "A Questão Humana", do francês Nicolas Klotz, em vitória apertada sobre o segundo colocado, "Le Voyage du Ballon Rouge", de Hou Hsiao-hsien.

O cineasta israelense Amos Gitaï foi homenageado com o Prêmio Humanidade, concedido anualmente pela organização da Mostra.

A seguir, o trailer do vencedor do festival paulistano, que ainda não tem previsão de estréia comercial no país.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h26 PM

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Destaques da repescagem da Mostra

Destaques da repescagem da Mostra

A Mostra de SP acaba de divulgar a programação completa de sua repescagem, que acontece de amanhã até a próxima quinta, no Cinesesc e na sala 1 do Cine Bombril. É mais uma chance para quem perdeu os filmes mais concorridos e as retrospectivas dos homenageados Jia Zhang-ke, Jean Paul Civeyrac e Claude Lelouch.

Os ingressos para as sessões extras continuam por R$ 16 (de sexta a domingo) e R$ 13 (segunda a quinta) _e agora só podem ser comprados nas bilheterias das salas, pois não há mais venda pelo site Ingresso.com. Quem tem permanente integral ou especial também tem de retirar seus ingressos diretamente nos cinemas, pois a Central de Mostra encerra suas operações hoje. É sempre bom lembrar que, assim que abrem, as bilheterias já vendem entradas para todas as sessões do dia _a do Bombril funciona a partir das 11h; a do Cinesesc, a partir das 12h.

A seguir, toda a programação extra, para que você possa escolher o que ver. Em amarelo, as recomendações do blog.

SEXTA
Cine Bombril 1
12:00 - MILAGRE DE MEDÉIA, de Tonino De Bernardi
13:40 - BRAND UPON THE BRAIN, de Guy Maddin
15:30 - BEAUFORT, de Joseph Cedar
17:50 - CADA UM COM SEU CINEMA, de vários diretores
20:00 - PERSÉPOLIS, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
21:50 - SAVAGE GRACE, de Tom Kalin
23:40 - ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (foto), de Joel Coen, Ethan Coen

Cinesesc
13:00 - MAUS HÁBITOS, de Simón Bross
14:50 - FATA MORGANA, de Simon Gross
16:30 - BALADA BRANCA, de Stefano Odoardi
18:00 - COCHOCHI, de Israel Cárdenas, Laura Amelia Guzmán
19:40 - POSTALES DE LENINGRADO, de Mariana Rondon
21:20 - VALENTE, de Neil Jordan
23:40 - EL ORFANATO, de Juan Antonio Bayona


SÁBADO
Cine Bombril 1
12:00 - LONGE DELA, de Sarah Polley
14:00 - CARGO 200, de Alexey Balabanov
15:40 - TRUQUES, de Andrzej Jakimowski
17:40 - SOMBRAS, de Milcho Manchevski
19:50 - O BANHEIRO DO PAPA, de César Charlone
21:40 - DO OUTRO LADO, de Fatih Akin
00:00 - GO GO TALES, de Abel Ferrara

Cinesesc
13:00 - MAL NASCIDA, de João Canijo
15:10 - PARANOID PARK, de Gus Van Sant
16:50 - EM PARIS, de Christophe Honoré
18:40 - CANÇÕES DE AMOR, de Christophe Honoré
20:30 - INTO THE WILD, de Sean Penn
23:10 - I´M NOT THERE, de Todd Haynes

DOMINGO
Cine Bombril 1
12:00 - NACIDO SIN, de Eva Norvind
13:40 - O FILME DA RAINHA, de Sergio Mercurio
15:10 - NO VALE DAS SOMBRAS, de Paul Haggis
17:30 - A FRANÇA, de Serge Bozon
19:30 - SOS SAÚDE, de Michael Moore
21:40 - REDACTED, de Brian De Palma

Cinesesc
13:00 - PRAZERES DESCONHECIDOS, de Jia Zhang-Ke
15:10 - OS OTIMISTAS, de Goran Paskaljevic
17:00 - PINTORA AOS 4 ANOS, de Amyr Bar-Lev
19:00 - EN LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis Guerín
20:40 - A CASA DAS COTOVIAS, de Paolo Taviani, Vittorio Taviani
23:00 - ACROSS THE UNIVERSE, de Julie Taymor


SEGUNDA
Cine Bombril 1
12:00 - TEMPO DE PEIXES, de Heiko Aufdermauer
13:40 - SCREAMERS, de Carla Garapedian
15:30 - NEM PENSAR!, de Gianni Zanasi
17:30 - PROGRAMA DUPLO 9: PRIMROSE HILL, de Mikhaël Hers, e CARTAS A UMA DITADURA, de Inês de Medeiros
19:40 - PINDORAMA, de Roberto Berliner
21:20 - A CASA DAS COTOVIAS, de Paolo Taviani, Vittorio Taviani

Cinesesc
13:00 - MUNYURANGABO, de Lee Isaac Chung
14:50 - BUUD YAM, de Gaston Jean-Marie Kaboré
16:40 - TERANGA BLUES, de Moussa Sene Absa
18:50 - HEREMAKONO - ESPERANDO A FELICIDADE, de Abderrahmane Sissako
20:40 - TRANSFORMARAM NOSSO DESERTO EM FOGO, de Mark Brecke
22:20 - IRINA PALM, de Sam Garbarski

TERÇA
Cine Bombril 1
12:00 - O ANO DO PEIXE, de David Kaplan
13:50 - HALFAOUINE, de Férid Boughédir
15:40 - VERÃO EM LA GOULETTE, de Férid Boughédir
17:20 - NASCIDO E CRIADO, de Pablo Trapero
19:10 - BOMB IT, de Jon Reiss
21:00 - A AMADA, de Arnaud Desplechin
22:20 - XXY, de Lucia Puenzo

Cinesesc
13:00 - TILAÏ, de Idrissa Ouedraogo
14:40 - YO SOY LA JUANI, de Bigas Luna
16:30 - CRISTOVÃO COLOMBO, O ENIGMA, de Manoel de Oliveira
18:00 - ANGEL, de François Ozon
20:30 - THE NOTORIOUS BETTIE PAGE, de Mary Harron
22:20 - VOCÊS, OS VIVOS (foto), de Roy Andersson

QUARTA
Cine Bombril 1
12:00 - O MUNDO, de Jia Zhang-ke
14:30 - PICKPOCKET, de Jia Zhang-ke
16:30 - DONG, de Jia Zhang-ke
17:50 - EM BUSCA DA VIDA, de Jia Zhang-ke
19:50 - INÚTIL, de Jia Zhang-ke
21:40 - PLATAFORMA, de Jia Zhang-ke

Cinesesc
13:00 - OS SOLITÁRIOS, de Jean Paul Civeyrac
14:40 - O DOCE AMOR DOS HOMENS, de Jean Paul Civeyrac
16:20 - ATRAVÉS DA FLORESTA, de Jean Paul Civeyrac
17:50 - TODAS AS BELAS PROMESSAS, de Jean Paul Civeyrac
19:30 - NEM DE EVA, NEM DE ADÃO, de Jean Paul Civeyrac
21:10 - FANTASMAS, de Jean Paul Civeyrac

QUINTA
Cine Bombril 1
12:00 - ITINERÁRIO DE UM AVENTUREIRO, de Claude Lelouch
14:20 - OS MISERÁVEIS, de Claude Lelouch
17:30 - UM HOMEM, UMA MULHER, de Claude Lelouch
19:30 - A CORAGEM DE AMAR, de Claude Lelouch
21:30 - CRIMES DE AUTOR, de Claude Lelouch

Cinesesc
13:00 - A GUERRA CONTRA AS DROGAS, de Sebastian J. F.
14:50 - A DESCONHECIDA, de Giuseppe Tornatore
17:00 - LE VOYAGE DU BALLON ROUGE, de Hou Hsiao-hsien
19:10 - IMPORT EXPORT, de Ulrich Seidl
21:40 - ESTÓRIAS DE TRANCOSO, de Augusto Sevá

Escrito por Leonardo Cruz às 3h17 PM

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Para Jia, só o digital capta a velocidade do mundo

Para Jia, só o digital capta a velocidade do mundo

Por Sérgio Rizzo (Crítico da Folha)

A edição impressa da Ilustrada publica hoje entrevista com o cineasta chinês Jia Zhang-ke, 37, homenageado pela 31ª Mostra Internacional com uma retrospectiva de sua obra. A seguir, trechos inéditos, traduzidos do mandarim para o português pelo brasileiro Inty Mendoza, 32.
 
O cinema na China
A produção cinematográfica na China é concentrada em Pequim e Xangai. São as nossas grandes cidades, onde houve transformações mais radicais, e que ostentam a riqueza do país. As pessoas pensam que elas são a China, mas há outras regiões, mais periféricas, onde se percebe a desigualdade social, a pobreza. São regiões pouco retratadas nos filmes. Sou da Província de Shanxi, que fica no interior, mais pobre. Vivi até os 18 anos ali. Eu me sinto muito ligado a ela. Aquela região sou eu. Levo meus projetos sempre em sua direção. Há uma série de lacunas no cinema chinês, regiões que não foram mostradas, que não aparecem nas telas. Esse é o meu projeto, dar visibilidade a elas.

Menor orçamento, maior liberdade
Meu primeiro curta-metragem, feito em vídeo, custou pouco mais de US$ 1.000. No meu primeiro longa, em 16 mm, trabalhei com uma produtora de Hong Kong e orçamento maior. Outros de meus filmes tiveram produtoras coreanas, francesas, japonesas, e orçamentos maiores. Não gosto de orçamentos altos para ter maior liberdade. “Em Busca da Vida” (2006, foto abaixo) teve patrocínio exclusivo de empresas chinesas, muito por conta do crescimento da economia. Foi rodado em HDTV e custou US$ 400 mil. “O Mundo” (2004), feito em película, dentro de um parque temático, saiu um pouco mais caro, cerca de US$ 800 mil. Para os padrões chineses, são muito baratos. Mas, assim, tenho 100% de liberdade. Nenhum dos meus filmes recebeu dinheiro do Estado, que só participa quando há algo que lhe interesse no sentido de propaganda política.

Pirataria & crítica
É muito difícil contabilizar o público de filmes na China. A bilheteria de cinema não dá uma idéia precisa, porque as pessoas têm mais acesso aos filmes em DVD e pela internet. “Em Busca da Vida” vendeu 600 mil cópias de DVD, mas a pirataria na China é algo muito sério. Meus filmes são muito pirateados. Meus três primeiros longas foram censurados, mas apareceram cópias piratas e fiquei num dilema terrível: me sentia roubado, mas ao mesmo tempo percebia que as pessoas ao menos conseguiam vê-los.
Os críticos vinculados aos maiores veículos de comunicação, que divulgam o discurso oficial, são da velha-guarda e não gostam do meu trabalho, porque, segundo eles, mostra uma China “atrasada”, do jeito “que o Ocidente quer ver”. Na internet, recebo críticas positivas.

Digital & película
Optei pelo digital nos filmes mais recentes pela velocidade. A digitalização corresponde à velocidade do mundo hoje; só o digital consegue captar a velocidade do que está acontecendo. E também pela questão estética, por causa do que posso fazer em relação a cores e a efeitos especiais. Entre os meus projetos, há uma série de histórias da China moderna mas também uma série de histórias da China antiga. Se eu for para a China antiga, é possível que volte a usar película.

Cinema asiático
Como diretor asiático, noto que há uma nova geração, muito autoral, procurando uma linguagem própria, de cineastas coreanos, japoneses e de outros países da região. É algo que vem da década de 1980 para cá: Tsai Ming-liang, Hirokazu Kore-eda, Hou Hsiao-Hsien, entre outros. No cinema ocidental, admiro os irmãos Dardenne. São os que me vêm à cabeça neste momento.

O processo de criação
O mais trabalhoso, para mim, é a concepção, a escritura. Depois, a edição. Durante a filmagem, a relação é direta e menos trabalhosa. Pensei muito tempo, por exemplo, se os dois personagens principais de “Em Busca da Vida” iriam ou não se encontrar. No fim, concluí que o ser humano é solitário e optei pela solução do filme. Até chegar a essa estrutura, tive muito trabalho. É quando percebo qual é a minha visão de mundo e o que eu quero transmitir. Mas sou totalmente aberto a inserir uma novidade enquanto filmo. Às vezes são coisas que acontecem, espaços que eu vejo, a interação com os atores, algo que surge e coloco no meio do filme, sem problemas, e aí o resultado escapa do que havia sido planejado.

O “filho” preferido
Sinto enorme identificação com “Plataforma”. Ele se passa de 1979 até 1990. Pega dos 10 aos 20 anos de minha vida. Tenho uma relação de proximidade muito grande com o filme. A primeira metade é a história da minha irmã mais velha, e a segunda foi vivida por mim.

Próximos projetos
Estou rodando meu novo filme, “História da Cidade 24”. É a história de uma fábrica estatal, de 1959 até hoje. O filme seguinte será um documentário sobre um arquiteto, formando com “Dong” (2006) e “Inútil” (2007, foto acima) uma trilogia sobre artistas.

China & Brasil
Sinto que existem semelhanças muito grandes entre a China e o Brasil, principalmente no desenvolvimento econômico e em suas conseqüências. Quero ver qual é a reação das pessoas, aqui, a essas questões em meus filmes, se elas percebem dessa forma ou não.
Não se deve temer o desenvolvimento econômico de nenhum país, mas sim as suas conseqüências, se ele está promovendo maior desigualdade ou não. Os chineses estão conscientes disso e querem mais liberdade, democracia. Haverá maquiagem durante os Jogos Olímpicos, mas há um movimento, que o governo não consegue conter, em direção à democracia. Ninguém conceberia hoje um retorno à situação em que não havia nem mesmo o direito de ir e vir, em que eu não poderia estudar em Pequim.

*

Na Mostra
"O Mundo" tem sessão hoje, às 13h30, no Cinesesc. Projeção digital.
"Em Busca da Vida" tem sessão hoje, às 19h, no Cinemark - Shopping Eldorado. Projeção em película.
"Dong" tem sessão hoje, às 19h, no Cine Tam. Projeção digital.
"Pickpocket" tem sessão hoje, às 19h, na Sala Cinemateca (Petrobras). Projeção digital, cópia ruim.
"Prazeres Desconhecidos" tem sessão hoje, às 20h, no Centro Cultural São Paulo. Projeção digital, cópia ruim.

A Mostra anunciará ainda nesta quinta os filmes que estarão em sua "repescagem", que acontecerá até o dia 8 no Cinesesc e no Cine Bombril. Já está definido que filmes de Jia Zhang-ke terão novas exibições.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
A versão impressa da entrevista com Jia Zhang-ke, por Sérgio Rizzo
Crítica de "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, por Amir Labaki
Crítica de "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, por Marco Aurélio Canônico

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h11 AM

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