Com o fim da Mostra, o circuito cinematográfico paulistano volta ao seu ritmo normal. Na verdade, nem tão normal assim: há vários ciclos e festivais começando nestes dias na cidade, além, como já comentou Sérgio Rizzo no podcast desta semana, das nove estréias da semana.
A minimaratona de retrospectivas começou ontem no Cine Bombril 2, com a homenagem a Eduardo Coutinho. Como já disse aqui no blog, são sete documentários do autor de "Cabra Marcado para Morrer", um a cada dia, em cartaz até a próxima quinta, quando haverá a pré-estréia de "Jogo de Cena", seguida de debate com o diretor.
Na terça (6), a Cinemateca Brasileira dá início à retrospectiva completa da obra de Norman McLaren (1914-87), nome-chave da animação no mundo, figura que influenciou os pioneiros do gênero no Brasil. São dez programas, que exibirão os mais de cem curtas do diretor canadense e um documentário sobre seu processo criativo. Uma boa porta de entrada para quem quer conhecer esse universo é o McLaren Clássicos, programa com as obras mais famosas do animador, como "Pas de Deux" (1968, foto acima), todas restauradas pelo National Film Board do Canadá. Também serão mostrados os curtas de Roberto Miller, que estudou com McLaren no NFB e trouxe ao Brasil suas técnicas de animação. Todas as sessões são gratuitas.
Também na terça, mas na pequena sala do CCBB-SP, começa o ciclo com 34 documentários do francês Jean Manzon, fotojornalista radicado no Brasil que ficou famoso por suas reportagens para a revista "O Cruzeiro". Com sessões até sexta (9), a retrospectiva é um curso intensivo de etnografia do país, com obras como "Brasil, Terra de Contrastes". Também é tudo de graça.
Na mesma sexta (9) o cine HSBC Belas Artes apresenta em sua sala 2 um festival com produções recentes do cinema francês. Patrocinada por uma marca de lentes de contato, a mostra acontece até o dia 15, com sete longas franceses, entre eles "A Culpa É do Fidel", de Julie Gavras, e "Em Paris", de Christophe Honoré _os dois tiveram sessões muito concorridas na Mostra de SP e no Festival do Rio. Depois de São Paulo, o Festival Varilux irá ainda a Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Campinas, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza.
Mas o programa mais interessante talvez seja mesmo o que começa no dia 10 em São Paulo no CCBB local e na Cinemateca Brasileira. Trata-se da celebração dos 50 anos de carreira de José Mojica Marins, criador do Zé Caixão, grande nome do cinema popular no Brasil. Serão exibidos 41 filmes em que Mojica participou como diretor, ator ou entrevistado. Estarão lá os clássicos e mais conhecidos "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1963-64) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1965-66) e também raridades como "A Sina do Aventureiro" (1957-58) e "Finis Hominis" (1970-71). Em São Paulo, Mojica participará de dois debates com o público, um no domingo (11), às 17h30, na Cinemateca, e outro no CCBB, no dia 18, às 19h. Haverá também uma exposição fotográfica da carreira do artista no saguão da Cinemateca. A retrospectiva de José Mojica Marins irá até 25/11 e voltaremos a ela aqui no blog.
No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo faz uma análise de "A Via Láctea", novo filme da diretora Lina Chamie, a mesma de "Tônica Dominante". No longa, vemos um casal em crise _após uma discussão por telefone, Heitor (Marco Ricca) vai ao encontro de sua namorada (Alice Braga). E esse trajeto é o espaço escolhido pela diretora para criar uma narrativa visual e musicalmente poética. Para ouvir o comentário, basta clicar no microfone.
Pelo terceiro ano consecutivo um filme brasileiro (ao menos em parte) ficou com o principal prêmio da Mostra Internacional de Cinema de SP, divulgado nesta noite de quinta na cerimônia de encerramento, no Memorial da América Latina. "O Banheiro do Papa", de Enrique Fernández e César Charlone, foi eleito o melhor filme pelo júri do festival, formado por cinco diretores: a portuguesa Inês de Medeiros, o senegalês Moussa Sene Absa, o japonês Hirokazu Kore-eda, O tunisiano Férid Boughédir e a brasileira Lúcia Murat. Eles apontaram que a co-produção Brasil/Uruguai/França apresenta "autenticidade na descrição da luta pela sobrevivência dos mais humildes". Com o troféu, "O Banheiro do Papa" repete o feito de "O Cheiro do Ralo" no ano passado e de "Cinema, Aspirinas e Urubus" em 2005.
O júri da Mostra concedeu ainda outros quatro prêmios para longas-metragens: o Especial para o longa polonês "Truques", de Andrzej Jakimowski, o de melhor atriz para Carla Ribas, por "A Casa de Alice", de melhor documentário para "Transformaram Nosso Deserto em Fogo", de Mark Brecke, e o de revelação para o venezuelano "Postales de Leningrado", de Mariana Rondon, que também ficou com o troféu do público do Festival da Juventude.
Além do prêmio concedido pelos estudantes do ensino médio, o público da Mostra elegeu cinco longas-metragens. "Into the Wild", de Sean Penn, e "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Parannoud, foram consideradas as melhores ficções estrangeiras. "Estórias de Trancoso", de Augusto Sevá, foi a melhor ficção nacional, e "Pindorama", de Roberto Berliner, Leo Criverale e Lula Queiroga, o melhor documentário brasileiro. Os freqüentadores do festival escolheram como melhor documentário estrangeiro "O Filme da Rainha", do argentino Sergio Mercurio.
Já o prêmio da crítica, para o qual votaram críticos e repórteres da Folha, foi para "A Questão Humana", do francês Nicolas Klotz, em vitória apertada sobre o segundo colocado, "Le Voyage du Ballon Rouge", de Hou Hsiao-hsien.
O cineasta israelense Amos Gitaï foi homenageado com o Prêmio Humanidade, concedido anualmente pela organização da Mostra.
A seguir, o trailer do vencedor do festival paulistano, que ainda não tem previsão de estréia comercial no país.
A Mostra de SP acaba de divulgar a programação completa de sua repescagem, que acontece de amanhã até a próxima quinta, no Cinesesc e na sala 1 do Cine Bombril. É mais uma chance para quem perdeu os filmes mais concorridos e as retrospectivas dos homenageados Jia Zhang-ke, Jean Paul Civeyrac e Claude Lelouch.
Os ingressos para as sessões extras continuam por R$ 16 (de sexta a domingo) e R$ 13 (segunda a quinta) _e agora só podem ser comprados nas bilheterias das salas, pois não há mais venda pelo site Ingresso.com. Quem tem permanente integral ou especial também tem de retirar seus ingressos diretamente nos cinemas, pois a Central de Mostra encerra suas operações hoje. É sempre bom lembrar que, assim que abrem, as bilheterias já vendem entradas para todas as sessões do dia _a do Bombril funciona a partir das 11h; a do Cinesesc, a partir das 12h.
A seguir, toda a programação extra, para que você possa escolher o que ver. Em amarelo, as recomendações do blog.
SEXTA Cine Bombril 1 12:00 - MILAGRE DE MEDÉIA, de Tonino De Bernardi 13:40 - BRAND UPON THE BRAIN, de Guy Maddin 15:30 - BEAUFORT, de Joseph Cedar 17:50 - CADA UM COM SEU CINEMA, de vários diretores 20:00 - PERSÉPOLIS, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud 21:50 - SAVAGE GRACE, de Tom Kalin 23:40 - ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (foto), de Joel Coen, Ethan Coen
Cinesesc 13:00 - MAUS HÁBITOS, de Simón Bross 14:50 - FATA MORGANA, de Simon Gross 16:30 - BALADA BRANCA, de Stefano Odoardi 18:00 - COCHOCHI, de Israel Cárdenas, Laura Amelia Guzmán 19:40 - POSTALES DE LENINGRADO, de Mariana Rondon 21:20 - VALENTE, de Neil Jordan 23:40 - EL ORFANATO, de Juan Antonio Bayona
SÁBADO Cine Bombril 1 12:00 - LONGE DELA, de Sarah Polley 14:00 - CARGO 200, de Alexey Balabanov 15:40 - TRUQUES, de Andrzej Jakimowski 17:40 - SOMBRAS, de Milcho Manchevski 19:50 - O BANHEIRO DO PAPA, de César Charlone 21:40 - DO OUTRO LADO, de Fatih Akin 00:00 - GO GO TALES, de Abel Ferrara
Cinesesc 13:00 - MAL NASCIDA, de João Canijo 15:10 - PARANOID PARK, de Gus Van Sant 16:50 - EM PARIS, de Christophe Honoré 18:40 - CANÇÕES DE AMOR, de Christophe Honoré 20:30 - INTO THE WILD, de Sean Penn 23:10 - I´M NOT THERE, de Todd Haynes
DOMINGO Cine Bombril 1 12:00 - NACIDO SIN, de Eva Norvind 13:40 - O FILME DA RAINHA, de Sergio Mercurio 15:10 - NO VALE DAS SOMBRAS, de Paul Haggis 17:30 - A FRANÇA, de Serge Bozon 19:30 - SOS SAÚDE, de Michael Moore 21:40 - REDACTED, de Brian De Palma
Cinesesc 13:00 - PRAZERES DESCONHECIDOS, de Jia Zhang-Ke 15:10 - OS OTIMISTAS, de Goran Paskaljevic 17:00 - PINTORA AOS 4 ANOS, de Amyr Bar-Lev 19:00 - EN LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis Guerín 20:40 - A CASA DAS COTOVIAS, de Paolo Taviani, Vittorio Taviani 23:00 - ACROSS THE UNIVERSE, de Julie Taymor
SEGUNDA Cine Bombril 1 12:00 - TEMPO DE PEIXES, de Heiko Aufdermauer 13:40 - SCREAMERS, de Carla Garapedian 15:30 - NEM PENSAR!, de Gianni Zanasi 17:30 - PROGRAMA DUPLO 9: PRIMROSE HILL, de Mikhaël Hers, e CARTAS A UMA DITADURA, de Inês de Medeiros 19:40 - PINDORAMA, de Roberto Berliner 21:20 - A CASA DAS COTOVIAS, de Paolo Taviani, Vittorio Taviani
Cinesesc 13:00 - MUNYURANGABO, de Lee Isaac Chung 14:50 - BUUD YAM, de Gaston Jean-Marie Kaboré 16:40 - TERANGA BLUES, de Moussa Sene Absa 18:50 - HEREMAKONO - ESPERANDO A FELICIDADE, de Abderrahmane Sissako 20:40 - TRANSFORMARAM NOSSO DESERTO EM FOGO, de Mark Brecke 22:20 - IRINA PALM, de Sam Garbarski
TERÇA Cine Bombril 1 12:00 - O ANO DO PEIXE, de David Kaplan 13:50 - HALFAOUINE, de Férid Boughédir 15:40 - VERÃO EM LA GOULETTE, de Férid Boughédir 17:20 - NASCIDO E CRIADO, de Pablo Trapero 19:10 - BOMB IT, de Jon Reiss 21:00 - A AMADA, de Arnaud Desplechin 22:20 - XXY, de Lucia Puenzo
Cinesesc 13:00 - TILAÏ, de Idrissa Ouedraogo 14:40 - YO SOY LA JUANI, de Bigas Luna 16:30 - CRISTOVÃO COLOMBO, O ENIGMA, de Manoel de Oliveira 18:00 - ANGEL, de François Ozon 20:30 - THE NOTORIOUS BETTIE PAGE, de Mary Harron 22:20 - VOCÊS, OS VIVOS (foto), de Roy Andersson
QUARTA Cine Bombril 1 12:00 - O MUNDO, de Jia Zhang-ke 14:30 - PICKPOCKET, de Jia Zhang-ke 16:30 - DONG, de Jia Zhang-ke 17:50 - EM BUSCA DA VIDA, de Jia Zhang-ke 19:50 - INÚTIL, de Jia Zhang-ke 21:40 - PLATAFORMA, de Jia Zhang-ke
Cinesesc 13:00 - OS SOLITÁRIOS, de Jean Paul Civeyrac 14:40 - O DOCE AMOR DOS HOMENS, de Jean Paul Civeyrac 16:20 - ATRAVÉS DA FLORESTA, de Jean Paul Civeyrac 17:50 - TODAS AS BELAS PROMESSAS, de Jean Paul Civeyrac 19:30 - NEM DE EVA, NEM DE ADÃO, de Jean Paul Civeyrac 21:10 - FANTASMAS, de Jean Paul Civeyrac
QUINTA Cine Bombril 1 12:00 - ITINERÁRIO DE UM AVENTUREIRO, de Claude Lelouch 14:20 - OS MISERÁVEIS, de Claude Lelouch 17:30 - UM HOMEM, UMA MULHER, de Claude Lelouch 19:30 - A CORAGEM DE AMAR, de Claude Lelouch 21:30 - CRIMES DE AUTOR, de Claude Lelouch
Cinesesc 13:00 - A GUERRA CONTRA AS DROGAS, de Sebastian J. F. 14:50 - A DESCONHECIDA, de Giuseppe Tornatore 17:00 - LE VOYAGE DU BALLON ROUGE, de Hou Hsiao-hsien 19:10 - IMPORT EXPORT, de Ulrich Seidl 21:40 - ESTÓRIAS DE TRANCOSO, de Augusto Sevá
Para Jia, só o digital capta a velocidade do mundo
Por Sérgio Rizzo (Crítico da Folha)
A edição impressa da Ilustrada publica hoje entrevista com o cineasta chinês Jia Zhang-ke, 37, homenageado pela 31ª Mostra Internacional com uma retrospectiva de sua obra. A seguir, trechos inéditos, traduzidos do mandarim para o português pelo brasileiro Inty Mendoza, 32.
O cinema na China A produção cinematográfica na China é concentrada em Pequim e Xangai. São as nossas grandes cidades, onde houve transformações mais radicais, e que ostentam a riqueza do país. As pessoas pensam que elas são a China, mas há outras regiões, mais periféricas, onde se percebe a desigualdade social, a pobreza. São regiões pouco retratadas nos filmes. Sou da Província de Shanxi, que fica no interior, mais pobre. Vivi até os 18 anos ali. Eu me sinto muito ligado a ela. Aquela região sou eu. Levo meus projetos sempre em sua direção. Há uma série de lacunas no cinema chinês, regiões que não foram mostradas, que não aparecem nas telas. Esse é o meu projeto, dar visibilidade a elas.
Menor orçamento, maior liberdade Meu primeiro curta-metragem, feito em vídeo, custou pouco mais de US$ 1.000. No meu primeiro longa, em 16 mm, trabalhei com uma produtora de Hong Kong e orçamento maior. Outros de meus filmes tiveram produtoras coreanas, francesas, japonesas, e orçamentos maiores. Não gosto de orçamentos altos para ter maior liberdade. “Em Busca da Vida” (2006, foto abaixo) teve patrocínio exclusivo de empresas chinesas, muito por conta do crescimento da economia. Foi rodado em HDTV e custou US$ 400 mil. “O Mundo” (2004), feito em película, dentro de um parque temático, saiu um pouco mais caro, cerca de US$ 800 mil. Para os padrões chineses, são muito baratos. Mas, assim, tenho 100% de liberdade. Nenhum dos meus filmes recebeu dinheiro do Estado, que só participa quando há algo que lhe interesse no sentido de propaganda política.
Pirataria & crítica É muito difícil contabilizar o público de filmes na China. A bilheteria de cinema não dá uma idéia precisa, porque as pessoas têm mais acesso aos filmes em DVD e pela internet. “Em Busca da Vida” vendeu 600 mil cópias de DVD, mas a pirataria na China é algo muito sério. Meus filmes são muito pirateados. Meus três primeiros longas foram censurados, mas apareceram cópias piratas e fiquei num dilema terrível: me sentia roubado, mas ao mesmo tempo percebia que as pessoas ao menos conseguiam vê-los. Os críticos vinculados aos maiores veículos de comunicação, que divulgam o discurso oficial, são da velha-guarda e não gostam do meu trabalho, porque, segundo eles, mostra uma China “atrasada”, do jeito “que o Ocidente quer ver”. Na internet, recebo críticas positivas.
Digital & película Optei pelo digital nos filmes mais recentes pela velocidade. A digitalização corresponde à velocidade do mundo hoje; só o digital consegue captar a velocidade do que está acontecendo. E também pela questão estética, por causa do que posso fazer em relação a cores e a efeitos especiais. Entre os meus projetos, há uma série de histórias da China moderna mas também uma série de histórias da China antiga. Se eu for para a China antiga, é possível que volte a usar película.
Cinema asiático Como diretor asiático, noto que há uma nova geração, muito autoral, procurando uma linguagem própria, de cineastas coreanos, japoneses e de outros países da região. É algo que vem da década de 1980 para cá: Tsai Ming-liang, Hirokazu Kore-eda, Hou Hsiao-Hsien, entre outros. No cinema ocidental, admiro os irmãos Dardenne. São os que me vêm à cabeça neste momento.
O processo de criação O mais trabalhoso, para mim, é a concepção, a escritura. Depois, a edição. Durante a filmagem, a relação é direta e menos trabalhosa. Pensei muito tempo, por exemplo, se os dois personagens principais de “Em Busca da Vida” iriam ou não se encontrar. No fim, concluí que o ser humano é solitário e optei pela solução do filme. Até chegar a essa estrutura, tive muito trabalho. É quando percebo qual é a minha visão de mundo e o que eu quero transmitir. Mas sou totalmente aberto a inserir uma novidade enquanto filmo. Às vezes são coisas que acontecem, espaços que eu vejo, a interação com os atores, algo que surge e coloco no meio do filme, sem problemas, e aí o resultado escapa do que havia sido planejado.
O “filho” preferido Sinto enorme identificação com “Plataforma”. Ele se passa de 1979 até 1990. Pega dos 10 aos 20 anos de minha vida. Tenho uma relação de proximidade muito grande com o filme. A primeira metade é a história da minha irmã mais velha, e a segunda foi vivida por mim.
Próximos projetos Estou rodando meu novo filme, “História da Cidade 24”. É a história de uma fábrica estatal, de 1959 até hoje. O filme seguinte será um documentário sobre um arquiteto, formando com “Dong” (2006) e “Inútil” (2007, foto acima) uma trilogia sobre artistas.
China & Brasil Sinto que existem semelhanças muito grandes entre a China e o Brasil, principalmente no desenvolvimento econômico e em suas conseqüências. Quero ver qual é a reação das pessoas, aqui, a essas questões em meus filmes, se elas percebem dessa forma ou não. Não se deve temer o desenvolvimento econômico de nenhum país, mas sim as suas conseqüências, se ele está promovendo maior desigualdade ou não. Os chineses estão conscientes disso e querem mais liberdade, democracia. Haverá maquiagem durante os Jogos Olímpicos, mas há um movimento, que o governo não consegue conter, em direção à democracia. Ninguém conceberia hoje um retorno à situação em que não havia nem mesmo o direito de ir e vir, em que eu não poderia estudar em Pequim.
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Na Mostra "O Mundo" tem sessão hoje, às 13h30, no Cinesesc. Projeção digital. "Em Busca da Vida" tem sessão hoje, às 19h, no Cinemark - Shopping Eldorado. Projeção em película. "Dong" tem sessão hoje, às 19h, no Cine Tam. Projeção digital. "Pickpocket" tem sessão hoje, às 19h, na Sala Cinemateca (Petrobras). Projeção digital, cópia ruim. "Prazeres Desconhecidos" tem sessão hoje, às 20h, no Centro Cultural São Paulo. Projeção digital, cópia ruim.
A Mostra anunciará ainda nesta quinta os filmes que estarão em sua "repescagem", que acontecerá até o dia 8 no Cinesesc e no Cine Bombril. Já está definido que filmes de Jia Zhang-ke terão novas exibições.
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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha): A versão impressa da entrevista com Jia Zhang-ke, por Sérgio Rizzo Crítica de "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, por Amir Labaki Crítica de "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, por Marco Aurélio Canônico
A “Caótica Ana” referida no título do novo filme de Julio Medem não é tão caótica assim. É apenas uma jovem pintora que vive numa caverna com o pai, ao abrigo dos males do mundo até ser descoberta por Justine (Charlotte Rampling), uma mecenas que abriga em Madri um grupo de artistas que julga promissores.
Ana (Manuela Vellés) vive ali um primeiro amor com Said (Nicolas Cazalé), um berbere, portanto, alguém desse grupo incômodo que costuma lembrar aos árabes que eles não são apenas perseguidos, também sabem perseguir com ferocidade.
Do desaparecimento precoce de Said _que abre a porta do afeto para Ana_ resulta o centro narrativo do filme: ele estará na relação de Ana com um hipnotizador que a colocará em contato com suas vidas passadas (seja isso o que for, e o filme não é tolo a ponto de julgá-las verdadeiramente passadas: ele as vê como constitutivas da vida de alguém).
As inúmeras vidas de Ana nos conduzirão, ao mesmo tempo, à metáfora básica do filme (o cinema espanhol adora metáforas): o falcão, ave capaz de, com rapidez, prender e destroçar outras aves. Medem criará a partir delas algumas pérolas de mau gosto, como o momento em que um falcão arranca os olhos de um cadáver.
Se todos os problemas fossem estes, não estaríamos tão mal. O fato é que, desde que o assunto Guerra Civil se esgotou, uma parcela do cinema espanhol não sabe mais o que fazer da vida. Desta vez Medem faz um passeio pelo mundo. Vai do deserto do Saara a Monument Valley, dos berberes aos índios, catalogando as violências e iniquidades dos homens.
Todas elas Ana experimentou, vivenciou, sofreu. Os transes hipnóticos são momentos em que revive essas dores. Ana não é tão caótica quanto pretende o título. O filme, que nos leva de maneira um tanto arbitrária de um ponto a outro do mundo _até se fechar nos EUA_, tratará de maneira não menos arbitrária de ilustrar a metáfora do falcão enunciada no início.
Convém não contar como se dão as relações entre Ana e o falcão, que acontecem na parte final do filme. Digamos que não primam pelo bom gosto. E vale lembrar, quase num anexo, que este cinema habitualmente tão deficiente quanto o espanhol é hoje talvez o único no mundo a filmar cenas de sexo com desenvoltura: uma herança que devemos, por ironia, ao atraso e ao moralismo do franquismo.
Avaliação: regular
Na Mostra: "Caótica Ana" tem sessão hoje (1/11), às 18h40, no Cine Bombril 1.
"Senhores do Crime" (2007) é um impactante thriller sobre máfias, que de certa forma dá continuidade ao flerte do diretor canadense David Cronenberg com um cinema mais tradicional. Ao lado de "Marcas da Violência" (2005), a obra anterior de Cronenberg, "Senhores do Crime" forma um díptico interessantíssimo, feito de temas semelhantes e dominado pela figura perturbadora do ator Viggo Mortensen. O novo filme, porém, foi feito com muito mais liberdade do que permitia o neoclassicismo de "Marcas de Violência". Sendo mais livre, é também muito mais cronenberguiano.
No início, temos apenas isso: uma jovem russa morre na hora do parto e, entre os seus pertences, a médica (Naomi Watts) encontra um diário. A fim de descobrir a origem da moça e do bebê, a médica acaba se aproximando de um núcleo mafioso russo que atua em Londres. Os segredos contidos no diário deslancharão a trama _e muito mais coisas, a depender da disposição do espectador.
A seguir, cinco motivos para assistir a este filme excelente.
1. O elenco multicultural
"Senhores do Crime" reúne um elenco impecável. O chefe mafioso é interpretado por Armin Mueller-Stahl, um dos grandes atores alemães no cinema, estrela de "Lola" e "O Desespero de Veronika Voss", de Fassbinder. A mãe do personagem de Naomi Watts é uma formidável atriz irlandesa, formada no teatro shakespeareano: Sinéad Cusack (que tem dois filhos de Jeremy Irons).
A estrela do filme é, claro, Viggo Mortensen. Mas em certos momentos o ator francês Vincent Cassel praticamente rouba a cena, num dos seus melhores papéis no cinema. Neste panorama, Naomi Watts faz uma atuação correta, mas afinal modesta.
Uma curiosidade: o tio Stepan é encarnado pelo diretor polonês Jerzy Skolimovsky, pouco conhecido no Brasil, mas um dos principais cineastas dos anos 60 _na foto acima, ele aparece ao lado de Mortensen. No tópico interpretação, vale atentar à difícil recriação do sotaque russo pelo elenco multicultural. Conta-se, inclusive, que o nova-iorquino Mortensen fez uma longa viagem à Rússia antes das filmagens para ajudar a construir o personagem e sua dicção.
2. Uma arte do espaço
A construção dos espaços de "Os Senhores do Crime" é algo para prestar muita atenção. A idéia de ambientar o núcleo da máfia num restaurante de culinária russa é um achado, de alguma forma devedor da modernização que "Sopranos" imprimiu ao imaginário visual da máfia.
Cronenberg filma de maneira notável esse espaço, distribuindo os planos entre a porta de entrada muito britânica, o salão principal de ambiência russa, a cozinha moderna e certos recantos obscuros, como a adega. O lugar adquire múltiplas funções: aparece como um restaurante de luxo kitsch, um sinistro bunker da máfia, um refúgio nostálgico de imigrantes e o "palácio" familiar do poderoso chefão _o "palco" onde se enfrentam o pai e o filho beberrão e sexualmente ambíguo.
Um dos duetos mais brilhantes do filme se passa no fundo da adega: o interlúdio entre Kirill (Cassel) e Nikolai (Mortensen), em que o primeiro quase não esconde a sua atração pelo segundo.
3. As histórias do pai
É evidente que Cronenberg coloca neste filme alguns assuntos relevantes da Europa atual, como a atuação da máfia russa no Ocidente, o tráfico de mulheres e os dramas da imigração. Mas estes não são os temas principais de "Senhores do Crime", que está longe de pretender ser uma obra de cunho sociológico, à la Ken Loach.
São outras as questões que interessam ao diretor canadense. Como em "Marcas da Violência", os temas da origem, da família e da paternidade são bem importantes.
O chefe mafioso é uma espécie de Grande Pai, que domina as linhas ficcionais. Ele é o pai da bebê nascida de um estupro. É o pai zeloso do mimado Kirill (Vincent Cassel). E é o pai simbólico do personagem interpretado por Viggo Mortensen. Este, ao ser entronizado na máfia, precisa renegar o seu pai natural diante do grupo de chefões, adotando a nova família do crime.
Quando a médica de origem russa (Naomi Watts) encontra pela primeira vez o chefe mafioso, ele logo de cara pergunta à doutora o nome de seu pai, para saber o patronímico (o nome do meio na tradição russa, que remete ao nome paterno). É uma forma de ele reiterar a hierarquia paterna _o que ela recusará a respeitar, complicando a trama.
Nesse passeio pelo cinema mais clássico que Cronenberg tem feito ultimamente, é como se o diretor dissesse que a função simbólica do pai estrutura a ficção tradicional, que a família é a cena central do melodrama e que o mistério da origem é similar ao mistério policial.
4. A grande cena
"Senhores do Crime" não é um filme feito de cenas virtuosísticas, inclinado ao fetichismo cinematográfico, à maneira de Tarantino. Mas tem seqüências memoráveis, particularmente a briga na sauna, que deverá ficar como uma das maiores do cinema policial, não apenas por causa da orquestração perfeita da ação e da planificação estupenda mas também porque Cronenberg teve a ousadia de fazê-la com Viggo Mortensen inteiramente nu.
Deve ser a primeira vez no cinema que uma estrela é mostrada assim, sem roupa, lutando violentamente por sua vida, entre ladrilhos molhados e poças de sangue. Trata-se do grande momento de "Senhores do Crime", o mais perverso e o mais elucidativo. Pode-se até mesmo dizer que o filme todo foi construído em função dessa cena _e da obsessão evidente de Cronenberg, como metteur-en-scène, pela plasticidade estranha, reptilineana, do corpo de Mortensen.
O corpo nu de Mortensen, estampado com um sem número de tatuagens, explicita que ele está lutando também por sua história. Cada tatuagem é um ícone de um passagem de sua vida. "Nas prisões russas, sua vida está escrita nas tatuagens. Se você não tem tatuagens, não existe", diz um personagem (vale lembrar a importância do ícone na religião, na arte e no imaginário russos).
Para sujeitos como Nikolai (nome do personagem de Mortensen), lançados no crime desde a infância e sem eira nem beira, trazer a sua história no corpo é uma garantia de que ela poderá ser lida por outros, mesmo depois da morte. Aliás, é o que acontece quando a polícia descobre o cadáver de um mafioso no rio: ele não traz as impressões digitais, mas a pele tatuada narra as suas origens (como se as histórias fossem mais importantes que a identidade).
Garantir que sua história seja lida deve ser também o que motivou a garota russa feita escrava branca na Inglaterra a escrever o diário que deslanchará toda a trama do filme. Vê-se assim que, mais que um thriller sobre máfias, "Senhores do Crime" é um filme sobre a própria narrativa.
De um lado, temos a ficção clássica, regida pela lei simbólica do pai e conforme aos códigos tradicionais. De outro, o cinema cronenberguiano, construído com o corpo, buscando um modo de transfigurar a carne e as vísceras em signos e linguagem.
5. Promessas não cumpridas
Referências religiosas perpassam "Senhores do Crime". A trama acontece entre o Natal, época em que nasce a criança, e o Ano Novo. No corpo de Mortensen, vê-se as tatuagens de um crucifixo (no peito) e de uma catedral russa ortodoxa (nas costas). Mas não há mensagem de salvação no filme, pelo contrário. As promessas, sejam as do Leste ou do Oeste (o filme se chama "Eastern Promises"), não são cumpridas nunca.
Toda história nasce e termina num ato de violência. "Às vezes, parto e morte vão juntos", diz um personagem. Nascer já é por si só uma violência. Os bebês são como uma golfada de sangue mundo afora. Depois, basta uma navalhada no pescoço de um homem para ele, zás!, retornar ao nada. Os túmulos não passam de pedras frias onde se pode mijar. É um terrível pessimismo.
Na Mostra: "Senhores do Crime" tem sessão hoje, às 19h20, no Cinesesc.
Gitaï e Binoche, num intervalo das filmagens de 'A Retirada'
Em um debate com a platéia durante o último Festival de Toronto, a atriz Juliette Binoche descreveu sua experiência com o diretor Amos Gitaï como “uma luta por um pedaço de carne”. Ela se referia aos atritos entre os dois durante as filmagens de “A Retirada”, novo longa do cineasta israelense, em cartaz na Mostra de SP.
Em conversa com a Folha para falar sobre a “A Retirada”, Gitaï descreveu a relação com Binoche, algumas vezes tensa, como parte natural do processo criativo. “Juliette é uma grande atriz. E o diretor tem um papel muito importante para grandes atores e atrizes. Porque eles têm uns botões que costumam apertar quando estão acomodados. É um conjunto de truques, que eu já conheço e tento evitar”, conta Gitaï.
“Cabe ao diretor ser crítico e convencer seus atores a fugirem do convencional. O bom cineasta é aquele capaz de fazer o ator perder o controle sobre sua forma premeditada de interpretação. Coppola disse recentemente que os atores com quem trabalhou no passado, De Niro, Al Pacino, estão preguiçosos. É verdade. Eles estão só apertando os botões”, conclui o diretor.
Enquanto “A Retirada” ainda percorre o circuito de festivais e nem estreou comercialmente, Amos Gitaï já prepara seu próximo trabalho. Filma em Paris uma versão do livro “Plus Tard, Tu Comprendras” (Mais Tarde, Você Compreenderá), de Jérôme Clément. Na obra, o autor conta a história de sua mãe, mulher de origem judaica cujos pais foram deportados no Holocausto.
A adaptação de Gitaï, um longa de 90 minutos, é uma produção para o canal de TV France 2 e terá no elenco Emanuelle Devos, Hippolyte Girardot, Dominique Blanc e, uma vez mais, Jeanne Moreau, que faz um papel secundário em “A Retirada”.
Na Mostra: "A Retirada" tem sessões hoje (30), às 20h40, no Cinesesc; e amanhã, às 18h40, no Unibanco Arteplex 1.
A alcunha e o numeral de fato remetem aos coadjuvantes de Branca de Neve, mas não espere arroubos idílicos de "Pindorama - A Verdadeira História dos Sete Anões", documentário de Roberto Berliner, Leo Crivelare e Lula Queiroga que tem sua última exibição na 31ª Mostra de Cinema de SP hoje à noite. Aqui, a fantasia em technicolor Disney dá lugar ao registro das frustrações e inseguranças _mas também da galhofa e dos desejos_ do septeto de irmãos que, dividido entre funções administrativas e artísticas, comanda uma trupe circense que cruza o sertão nordestino.
Berliner conheceu a família no fim de 2002, quando foi a Arcoverde, no interior pernambucano, capturar imagens para um videoclipe da música "O Palhaço do Circo sem Futuro", da banda Cordel do Fogo Encantado. "Quando entrei [no circo Pindorama], foi como se tivesse chegado a outro planeta, onde anão é quem manda", lembra.
As cenas com os anões ficaram fora da versão final do clipe, mas não por descaso de Berliner _que voltaria ao picadeiro do Pindorama (desta vez montado em Pesqueira, PE) ainda em 2002, agora acompanhado dos dois co-diretores. Uma semana de pesquisa para um possível documentário gerou 50 horas de material bruto.
Com um trailer debaixo do braço, o trio saiu à cata de financiamento para as filmagens de fato. A via-crúcis durou quatro anos; no fim do ano passado, com a verba de um prêmio do MinC, o trabalho pôde ser retomado. O problema foi descobrir o paradeiro do Pindorama. "Demoramos muito para reencontrá-los. Eles tinham sumido, os telefones, mudado", diz Berliner.
Na linha de frente de uma equipe de 17 pessoas, ele, Queiroga e Crivelare sabatinaram os sete irmãos (e seus filhos e cônjuges) durante um mês, na rota Paulo Afonso-Geremoaba (ambos na Bahia). Das conversas saíram impressões sobre preconceito, isolamento, conflito de egos, relações afetivas ("um anão não quer outro; dois pequenos não dá certo!", pontifica a certa altura Charles, o locutor e dono do picadeiro) e sexo.
Com os anões de "Pindorama", a lente de Berliner se volta mais uma vez para os portadores de necessidades especiais; o filme anterior dele é "A Pessoa É para o que Nasce", sobre o périplo de três irmãs cegas por feiras nordestinas, onde cantam e tocam ganzá.
É deliberada a escolha de personagens com esse perfil? "Não existe nada premeditado. As irmãs cegas me encantaram pela maneira como conseguiram se organizar para sobreviver. No circo, o que interessou a gente foi ver esse mundo em que a baixa estatura era mais forte do que a alta. As ceguinhas pediam esmola, os anões cobram ingresso, tiram partido da deficiência para sobreviver _e fazem isso com muito humor e personalidade; chegam a ser meio marrentos, meio Romário", afirma Berliner.
"Pindorama" tem previsão de estréia para o primeiro semestre de 2008, via Filmes do Estação. É também nesse período que deve chegar aos cinemas "Herbert de Perto", raio-x do líder dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, pelo amigo de longa data Berliner.
Ele também trabalha atualmente no roteiro de sua primeira ficção, sobre a conceituada psiquiatra Nise da Silveira, discípula de Jung que, nos anos 50, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio. A atriz Drica Moraes encarnará a protagonista.
Na Mostra: "Pindorama" tem sessão hoje, às 20h50, no Unibanco Arteplex 4
Esqueça Cuba. Este filme não é sobre Fidel Castro nem sobre a ilha perdida no tempo nem muito exatamente sobre ditaduras ou revoluções. Mas o fato de o título ter sido pinçado das falas de uma personagem secundária não falha em expor as principais qualidades do primeiro longa ficcional de Julie Gavras: humor, perspicácia, delicadeza e, como havia de ser com o DNA que a diretora tem, uma dose bem medida de política.
Julie, 37, é filha do grego Costa-Gavras, um dos diretores que mais se dedicou a cutucar as feridas das ditaduras militares na América Latina (são seus os fundamentais “Estado de Sítio”, de 1972, e “Desaparecido”, de 1982). É difícil não imaginar que na pequena protagonista do filme _que toma de base o livro autobiográfico da jornalista Domitilla Calamai_ não ressoe também sua própria biografia.
Na Paris de 1971, Anna, 9, é acordada de sopetão de seu pequeno e ordenado mundinho quando seus pais decidem engajar-se na campanha socialista no Chile.
Os dois trazem o peso dolorido do comodismo político e da ascendência afluente naqueles anos turbulentos: ele, um espanhol de família franquista que tem o cunhado morto sob as botas do regime do generalíssimo; ela, vinda de uma família aristocrática e católica de Bordeaux. A vida de Anna e de seu irmão mais novo, François, incluía casa com jardim, escola de freiras e uma babá anticomunista já intoleráveis para o casal em purgação.
Norteia o filme a visão da menina _a quem o pai apelida causticamente de “minha pequena múmia” por sua resistência quase reacionária (se uma criança pudesse ser reacionária) em manter o status quo, quando ele decide virar a vida da família de cabeça para baixo após uma viagem ao Chile.
Anna odeia o novo e apertado apartamento, detesta ser eximida das aulas de catecismo enquanto as coleguinhas debatem Jesus no recreio e sofre com as trocas de babás _da cubana anticastrista para a grega que espera o marido ser solto pelo regime militar para a vietnamita fugida da guerra_, ilustrada com um humor sutil na sucessão de cardápios e histórias de ninar a que as crianças são submetidas. Em seu turbilhão pré-adolescência, é só aos tropeços que a menina aprenderá o que é solidariedade, e o desprendimento repentino mostrado pelos pais antes a angustia do que a ensina.
Não são poucos os filmes que têm como eixo a experiência de um regime autoritário pelos olhos de uma criança, mas Julie Gavras conseguiu com destreza e sem pretensões grandiloqüentes refrescar a fórmula batida. Da luta de Salvador Allende no Chile ou da ditadura de Franco o filme só traz os ecos; sem excessos dramáticos, roubam a cena o humor pueril e a perspicácia única de uma criança aprendendo na prática o que é socialismo.
Avaliação: bom
Na Mostra: "A Culpa É do Fidel" tem sessões hoje (28), às 14h, no IG Cine; e quinta, às 22h30, no Cine Bombril 1.
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