Ilustrada no Cinema
 

Béla Tarr é sempre imperdível

Béla Tarr é sempre imperdível

Por Pedro Butcher (Crítico da Folha)

Antes de qualquer coisa é preciso dizer que a oportunidade de assistir a um filme de Béla Tarr é raríssima e absolutamente imperdível. Hoje com 55 anos, o diretor húngaro é dono de uma obra bissexta de alto impacto no cinema contemporâneo. Filmes como "Danação" (1988) e "Satantango" (1994) _exibidos na 18ª Mostra de São Paulo, em 1994_ foram uma influência confessa para os filmes recentes de Gus Van Sant, por exemplo.

Mas o projeto de "O Homem de Londres", primeiro longa-metragem de Tarr em sete anos, foi muito problemático, e as turbulências transparecem no resultado final. O incidente mais grave foi a morte do produtor Humbert Balsan, em fevereiro de 2005, que levou a uma briga entre os outros co-produtores e a um longo período de interrupção nas filmagens. As imposições dos sistemas de co-produção européia também se fazem sentir: a história é inspirada em uma obra do francês Georges Simenon, as filmagens se realizaram na Espanha, o ator principal é tcheco, e a inglesa Tilda Swinton faz uma pequena participação, dublada em húngaro.

Os elementos que Tarr usa para construir seu universo particular, no entanto, continuam os mesmos. "O Homem de Londres" traz o mesmo preto-e-branco, os mesmos atores de rosto comum interpretando em um tom não-naturalista, e os mesmos planos-seqüências altamente elaborados, em que a câmera desliza lentamente, para os lados ou para cima, quase sempre ao som de uma música hipnotizante.

Mas, nesse caso, esses elementos simplesmente não deram liga. O resultado termina ressaltando em excesso a tendência formalista de Tarr, e o estilo do diretor, que é tão fluente em seu belíssimo filme anterior ("As Harmonias Werckmeister", de 2000), ganha um peso excessivo, quase sufocante.

Um filme de Béla Tarr, porém, não se dispensa. Há muito para se desfrutar em "O Homem de Londres", que, com todas as restrições, continua sendo uma experiência única, rara expressão singular de um diretor com seu tempo muito próprio, que exige desprendimento, mas que sempre encontra seu fascínio.

Avaliação: Regular


Na Mostra: "O Homem de Londres" tem sessão hoje (27), às 18h, no Memorial da América Latina.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com César Charlone, diretor de "O Banheiro do Papa", por Cristina Fibe
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Escrito por Pedro Butcher às 11h02 PM

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Eduardo Coutinho terá retrospectiva em SP

Eduardo Coutinho terá retrospectiva em SP

 

Boa notícia para quem gosta de documentários: sete filmes de Eduardo Coutinho estarão em uma retrospectiva do cineasta a partir do próximo dia 2, sexta-feira, no Cine Bombril, em São Paulo.

A retrospectiva marcará o segundo aniversário do Folha Documenta, idealizado pelo exibidor Adhemar Oliveira, em parceria com o jornal. Desde novembro de 2005, o programa mantém no Bombril uma sessão diária de documentários e promove ciclos e debates com diretores.

Na retrospectiva de Eduardo Coutinho, cada filme terá quatro sessões diárias na sala 2 do Bombril. "Cabra Marcado para Morrer" (1984), o clássico da carreira do cineasta, será o longa em exibição no primeiro dia. O ciclo segue em ordem cronológica, com: "Santo Forte" (1999), no sábado, dia 3; "Babilônia 2000" (2000), no domingo; "Edifício Master" (2002), na segunda; "Peões" (2004), na terça; e "O Fim e o Princípio" (2005), na quarta.

Na quinta-feira, dia 8, haverá mais uma sessão de "Peões", outra de "O Fim e o Princípio", além da pré-estréia, às 19h, de "Jogo de Cena" (foto), o mais novo filme de Coutinho. Após a exibição, o diretor participará de um debate com a platéia. No longa, o documentarista acompanha depoimentos de mulheres desconhecidas e atrizes, num jogo que embaralha a realidade e a representação.

Sobre "Jogo de Cena", o próprio Coutinho escreveu um breve texto no blog oficial do filme. Vale a leitura:

"Este é um documentário - impuro, já que incorpora atrizes - que tematiza aquilo que se diz das personagens de um documentário. O que está em discussão é o caráter da representação. Representar está ligado a brincar, jogar - o que aparece claramente em línguas como o inglês (to play), o francês (jouer) e o alemão (spielen).
Fala-se do aspecto verdadeiro, natural, autêntico das personagens, ao mesmo tempo em que críticos mais agudos reconhecem quanto de teatro, ou de performance, há nelas, acentuados pelo efeito-câmera. E a memória está sempre no presente, por isso é feita de esquecimento e invenção.

Neste filme, o jogo a ser jogado inclui pelo menos três camadas de representação: primeiro, personagens reais falam de sua própria vida; segundo, estas personagens se tornam modelos a desafiar atrizes; e, por fim, algumas atrizes jogam o jogo de falar de sua vida real.
A aposta do documentário é a de que personagens e atrizes escapem dos estereótipos e, de alguma forma, se afirmem como sujeitos singulares até o limite que o jogo permita."

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Escrito por Leonardo Cruz às 4h03 PM

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Uma boa conversa com Manoel de Oliveira

Uma boa conversa com Manoel de Oliveira

Por Inácio Araujo (Crítico da Folha)

Manoel de Oliveira, 98, é quem conta a história: em Kyoto, num templo zen-budista, um monge explica que existem 15 pedras, mas apenas 14 delas visíveis. O visitante logo descobre que, na verdade, todas as pedras são visíveis, mas nunca ao mesmo tempo: conforme o ângulo, vemos uma ou outra, mas sempre uma permanece invisível. "Essa pedra só pode ser vista com o coração", explica Oliveira a seu interlocutor, o crítico e hoje diretor da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa.

Vem daí o título "A 15ª Pedra". São duas horas de prosa inteligente e um pouco constrangida registrada por Rita Azevedo Gomes num plano quase único. E constrangida por quê? Vimos há poucos anos um outro diálogo da mesma natureza, envolvendo Oliveira e a escritora Agustina Bessa-Luís. A vantagem desse é que ali prevalecia a amizade que os liga, o que deixava Agustina à vontade para contradizer, não sem humor por vezes, o que dizia Oliveira.

Bénard da Costa não se mostra à vontade para tanto nessa conversa. Sente-se ali o crítico que, antes de tudo, procura compreender e interpretar o outro. Não que isso torne a interlocução aborrecida, mas existe de parte a parte a necessidade de se mostrar à altura da conversa e, com isso, pouca ou nenhuma distensão.

Isso não é um defeito, mas é preciso admitir que, se fosse dividido em duas partes de uma hora, facilitaria a recepção. Dito isso, convém destacar apenas algumas questões suscitadas ao longo dessa rica conversação.

À frente de todas, duas que mais concernem a um realizador e a um crítico: a necessidade de pensar como representar a vida e a necessidade de "ensinar a ver". Mais: a arte como atividade mundana ("Fazer um filme é cometer um crime"; "[Arte é] vaidade, não possui a virtude da santidade", diz Oliveira); a liberdade ("É um dever", afirma Oliveira); a recusa do público em compreender o cinema ("[Existe] uma espécie de gala do analfabetismo", avalia Bénard). Um diálogo estimulante, para dizer o mínimo.

Avaliação: Bom


Na Mostra: "A 15ª Pedra" tem sessões hoje (26), às 20h, na Sala Cinemateca (Petrobras); amanhã (27), às 15h40, no Unibanco Arteplex 4; e segunda (29), no Unibanco Arteplex 3, às 14h20.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com Gus Van Sant, de "Paranoid Park"
Crítica de "Paranoid Park", por Pedro Butcher
Crítica de "Juízo", de Maria Augusta Ramos, por José Geraldo Couto
Reportagem sobre o debate da crítica, por Silvana Arantes

Escrito por Inácio Araujo às 11h24 PM

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Babenco volta mais intimista

Babenco volta mais intimista

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta "O Passado", décimo longa-metragem do cineasta Hector Babenco, inspirado no livro homônimo do argentino Alan Pauls. Protagonizado por Gael García Bernal, o filme entra em cartaz no país nesta sexta-feira. Segundo o crítico, é uma obra muito mais intimista, distante de outros longas de preocupação política e social de Babenco. Para ouvir, basta clicar no microfone.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 11h19 PM

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A crítica de cinema está em crise?

A crítica de cinema está em crise?

Há uma crise na cinefilia? Os espectadores deixaram de acompanhar a opinião dos críticos? Essas questões motivam um interessante debate nas páginas da versão impressa da Ilustrada de ontem e de hoje. A tese da cinefilia em xeque foi apresentada por Leon Cakoff, diretor da Mostra, na entrevista coletiva do festival, em 6 de outubro. Naquela ocasião, Cakoff afirmou: "Sou crítico. Caiu a ficha. Estamos perdendo a platéia. Hoje, a cinefilia não é mais como no meu passado".

A Folha decidiu então, em 8/10, convidar Cakoff para desenvolver mais seu raciocínio e aprofundar a discussão. O resultado foi o artigo "Não cabe à crítica querer educar o cinema", publicado na Ilustrada de ontem. Nele, o diretor do festival (e também cineasta, distribuidor e exibidor de cinema) escreveu:

"Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes. [...] Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção."

A resposta ao diretor da Mostra está na Ilustrada desta quinta. Na réplica "Cabe à crítica dividir o amor ao cinema", o crítico da Folha Cássio Starling Carlos rebate a afirmação de Cakoff contra as "opiniões e considerações excludentes" de críticos e cinéfilos:

"Tal tipo de acusação reproduz o estereótipo que separa os filmes entre 'os que a crítica aprova, e o público detesta' e 'os que o público adora, e os críticos odeiam'. Tal separação, quando radicalizada, leva a supor que, de um lado, os críticos só escrevem para eles e que, de outro, o público não se interessa pela opinião da crítica."

O crítico da Folha avalia ainda que houve uma democratização da crítica de cinema no Brasil devido à recente expansão de sites e revistas dedicados ao assunto, casos das publicações virtuais Cinética e Contracampo e das impressas Paisà e Teorema. "Tal democratização vem aos poucos suprimindo o totalitarismo do gosto e abalando os resíduos de dogmatismo, na medida em que se permite publicar argumentos contrastados e/ou opostos, ampliando os horizontes de quem apenas lê e ainda mais de quem escreve", aponta Starling Carlos.

*

Antes de tudo, recomendo a leitura da íntegra dos dois artigos. Pessoalmente, estou de pleno acordo com o crítico da Folha. Não há crise na cinefilia nem na crítica, ao menos não no sentido de decadência. Há sim uma transformação em curso, em que as fontes de informação sobre cinema se ampliam rapidamente. De uns tempos para cá, os espectadores têm à disposição não só as resenhas dos cadernos culturais dos grandes jornais e revistas mas também uma gama crescente de publicações especializadas, a maioria delas na internet.

A mídia virtual, de custo sensivelmente menor que a mídia impressa, permite a criação desses novos espaços de análise cinematográfica, que conseguem se manter mesmo com baixo (às vezes nenhum) retorno financeiro.

Com o encolhimento físico dos jornais diários ao longo dos anos, o espaço dedicado à crítica de cinema (e ao noticiário como um todo) foi obviamente reduzido.  Em contrapartida, a cada semana há um número maior de estréias nos cinemas. Nesse cenário, os cadernos culturais tentam selecionar, de forma ainda mais criteriosa, quais filmes serão resenhados, levando em conta os muitos perfis de seus leitores.

É natural, então, que uma parte da crítica migre para a internet e se desenvolva nela. Ao contrário do que argumenta Leon Cakoff, não há "menos críticos empenhados na formação de platéias". Há mais. Eles continuam nos diários impressos, porém com menos espaço do que em décadas passadas, e se multiplicam na rede. Basta saber onde procurá-los.

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E você, caro leitor, cinéfilo ou crítico? O que pensa desse debate?

Escrito por Leonardo Cruz às 2h17 AM

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'O Estado do Mundo' e a divisão do planeta Cinema

'O Estado do Mundo' e a divisão do planeta Cinema

Por Paulo Santos Lima (Colaboração para a Folha)

“O Estado do Mundo”. Se o título já condiciona o olhar do espectador para o que ele verá na tela (ou ao menos o que ele deve esperar do filme), a grande pergunta a ser feita é: "Quão condicionados estiveram os seis diretores convidados para o projeto?". O que diretores de livre criação como Apichatpong Weerasethakul e Chantal Akerman pensaram e puderam fazer para este filme de encomenda que oferece um assunto em questão?

A premissa, em si, é bastante aberta (o estado do mundo seria a saúde biológica ou política da humanidade, a geografia do planeta ou a relação homem-mundo?), mas a reunião de trabalhos e a duração encurtada são verdadeiras âncoras para artistas como Pedro Costa _o outro diretor, ao lado do tailandês e da belga, a fazer parte da trinca de ases de realizadores.

O episódio “Luminous People”, de Apichatpong, é a grande cereja do bolo: além de ser o melhor dos seis trabalhos, é um exercício estético à altura de outras duas obras dele, “Mal dos Trópicos” e “Síndromes e um Século”. Um barco e um funeral unem dois povos, animais e homens também se integram, o som das águas faz consonância com os ruídos humanos, apresentações artísticas que animam a todos no convés. Com movimentos de câmera trépidos e ultragranulação, a sensorialidade das imagens torna-se valiosa, ou seja, interessa mais ver como as coisas são mostradas do que saber para que essas imagens nos são apresentadas.

O discurso cinematográfico de Apichatpong é oposto ao didatismo elucidativo de “Germano”, de Vicente Ferraz (diretor de “Soy Cuba – O Mamute Siberiano”). Aqui, pescadores lutam contra a poluição do mar e, de quebra, peitam o vilão, que é um enorme petroleiro. Talvez seja o mais “obediente” dos curtas, e o confronto entre um pequeno barco de pesca e um gigante dos mares é um equívoco na construção do espaço, dos deslocamentos e distâncias (chave de um suspense que os diretores planejaram para o clímax do filme).

A exploração da mão-de-obra dos nepalenses na Índia é o tema do filme de Aiysha Abraham, cujas imagens servem, efetivamente, para ilustrar a condição desairosa desses seres, como um filme-denúncia. Há, inclusive, um pedreiro que constrói casas, mas não tem a sua _situação que nos remete ao curta de Pedro Costa, que usa a oralidade e a construção rigorosa de enquadramentos para falar de um homem que será despejado de sua casa.

O chinês Wang Bing mostra-se um bom esteta, usando o espaço de uma fábrica sinistra para falar sobre as torturas da era Mao, no caso, contra uma mulher. O problema é que suas imagens servem a um desfile de metáforas, como o plano final, em que o chão contaminado pelo passado violento é lavado. Bing é outro “aluno comportado” que fez suas travessuras para, no final, cumprir o dever de casa.

Chantal Akerman, sempre radical, faz um punhado de longuíssimos planos, câmera fixa, mostrando uma noite em Xanghai, na qual sentimos a presença humana a partir de suas manifestações mais visíveis: arranha-céus com outdoors luminosos criando narrativas sobre a mudança frenética do mundo em processo de modernização. É o filme que traduz melhor, em imagens, qual o estado do mundo. Mas é um procedimento usual, este de deixar a duração do plano escorrer pela tela. Usual demais para alguém como Akerman.

Em seus seis curtas, “O Estado do Mundo” se mostra um planeta cinematográfico cindido, entre o “Primeiro Mundo”, onde vivem autores como Apichatpong, Akerman e Costa, e "os emergentes", entre os quais estão os outros três cineastas, esforçados em suas construções visuais, mas presos em excesso à pauta oferecida pelo projeto.

Avaliação: Regular


Na Mostra: "O Estado do Mundo" tem sessões hoje (25), às 18h10, no Unibanco Arteplex 3; e amanhã (26), às 20h10, no Unibanco Arteplex 1.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Crítica de "À Prova de Morte", de Quentin Tarantino, por Pedro Butcher
Crítica de "A Última Hora", de Nadia Conners e Leila Conners Petersen, por Ricardo Bonalume Neto
Reportagem sobre a exibição de "Brand upon the Brain", de Guy Maddin, por Silvana Arantes
Lanterninha: notas do festival

Escrito por Paulo Santos Lima às 12h03 AM

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Audiovisual brasileiro terá novo observatório

Audiovisual brasileiro terá novo observatório

                                                                         Paula Lyn Carvalho

Por Sérgio Rizzo (Crítico da Folha)

A edição impressa da Folha publica nesta quinta reportagem sobre o lançamento da coleção “Cinema no Mundo - Indústria, Política e Mercado”, organizada pela pesquisadora Alessandra Meleiro, 35 (foto). Seus cinco volumes _dedicados, pela ordem, a África, América Latina, Ásia, Estados Unidos e Europa_ trazem 33 artigos, fora introduções e prefácios, e totalizam cerca de 1.200 páginas. A sessão de autógrafos começa às 18h30, no Clube da Mostra (Shopping Frei Caneca). Confira abaixo a entrevista com Alessandra.

Em que medida o material (e em especial o volume sobre a América Latina) poderia servir como referência para políticas a serem desenvolvidas no Brasil?
A América Latina não conta com dados confiáveis sobre os sistemas produtivos e os modos de operação dos mercados locais, e as políticas e legislações que determinam o rumo desta indústria também não receberam um tratamento adequado para a integração deste setor estratégico da economia e da cultura. Sem o conhecimento das indústrias cinematográficas da região é impossível elaborar estratégias de desenvolvimento, que passam, por exemplo, pela integração regional dos países do Mercosul. Não podemos mais pensar o quanto cada país da América Latina representa em seu próprio mercado: temos que procurar viabilizar acordos que conduzam a um posicionamento eficaz dos cinemas locais nas telas internacionais.

Qual a sua análise do atual mercado cinematográfico brasileiro?
Hoje os incentivos e as regulamentações governamentais desempenham papel essencial na indústria local. Há uma ausência de percepção para os negócios entre os produtores, resultando em uma tática econômica e comercial equivocada: em vez de satisfazer as exigências dos custos em relação às receitas, a indústria cinematográfica brasileira – ou a tentativa de indústria - está habituada a uma mentalidade de subsídios que resulta em produções não comerciais e não competitivas.
Não houve interesse ou capacidade governamental para construir empreendimentos sustentáveis ou empresários dispostos a investir seriamente neste tipo de empreendimento. Assim, cresceu a presença do capital de grandes conglomerados transnacionais no país, que se valem de recursos governamentais para garantir ainda mais os lucros decorrentes de seus investimentos.

Existem planos para novas edições, para a criação de alguma espécie de "observatório" permanente sobre esses temas ou outros desdobramentos?
Sim. O desdobramento dessa pesquisa será a criação do “Observatório Brasileiro do Audiovisual”, que pretende obter, processar e disponibilizar dados e informações do cinema no país e no exterior. Estamos desenvolvendo um portal de internet que permite estruturar os diversos modelos de gestão de políticas para o audiovisual no mundo (África, Ásia, Europa, América Latina e Estados Unidos), capaz de atender as necessidades e expectativas presentes e futuras de gestores públicos da área cinematográfica, pesquisadores, profissionais da indústria e usuários em geral. O portal estará hospedado brevemente na Incubadora Fapesp. Além da produção e difusão de um boletim eletrônico, o “Observatório” também desenvolverá atividades de investigação e produção de outros meios, segundo as necessidades do cinema e do audiovisual regional. Temos estabelecida uma rede de analistas de instituições como o Observatório Mercosur Audiovisual _circunscrito na região do Mercosul_ e o European Audiovisual Observatory _que faz circular a informação da indústria audiovisual na Europa_, além de acadêmicos internacionais e brasileiros (que também participaram da coleção de livros).

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h07 PM

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'Nanking' revê massacre japonês na China

'Nanking' revê massacre japonês na China

Por Ricardo Bonalume Neto (da Reportagem Local)

Nanquim ou Nanjing, antigamente Nanking na versão em inglês, era a capital da China em 1937 quando os japoneses a invadiram. Localizada no delta do rio Yangtsé, perto do mar, era um alvo fácil. Sua população foi objeto de um massacre deliberado pelas tropas japonesas. Dezenas de milhares de civis foram mortos (as estatísticas, imprecisas, variam de 100 mil a 300 mil), milhares de mulheres foram estupradas. O evento que passou à história como o Massacre ou o Estupro de Nanquim é o tema deste excelente e inquietante documentário.

Poucos alemães negam a existência do Holocausto, que matou 6 milhões de judeus. Mas mesmo hoje o massacre de Nanquim é tema tabu no Japão. Em 1982 o Ministério da Educação japonês chegou a censurar a menção do massacre em livros didáticos. Políticos nacionalistas japoneses ainda acham que o massacre era pura propaganda chinesa.

O documentário procura mostrar o papel de um punhado de ocidentais morando em Nanquim na defesa dos civis chineses. Ironicamente, um dos principais nomes desses defensores era um executivo alemão, John Rabe, membro do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido nazista.

Armado de braçadeira com suástica e carteirinha do partido, este “bom alemão” tentava impedir os excessos de seus aliados orientais. Ele foi o principal idealizador de uma “zona de segurança” para os civis, e estima-se que isso salvou 250 mil pessoas de serem chacinadas ou estupradas. Nada é ficcional neste documentário. Atores lêem extratos de cartas e diários reais desse pequeno grupo de defensores, como Rabe (interpretado por Jürgen Prochnow), o cirurgião americano Bob Wilson (Woody Harrelson), e a professora americana Minnie Vautrin (Mariel Hemingway).

As narrações são pontuadas por entrevistas de chineses sobreviventes do massacre e mesmo de soldados japoneses que o perpetraram, além de trechos de documentários da época e dos filmes e fotografias que os ocidentais conseguiram produzir e contrabandear para provar o massacre. Os soldados japoneses revelam sem nenhum constrangimento como estupravam as chinesas, ou como amarravam prisioneiros de guerra e os metralhavam às margens do rio.

A mescla de depoimentos e filmes da época é perfeita. Um chinês fala da perseguição pelos soldados nos becos estreitos; uma imagem mostra soldados em meio das vielas. Um chinês fala do som das bombas e dos aviões; a imagem logo mostra um trecho de arquivo do bombardeio. Algumas imagens de mortos e feridos são pavorosas. Não é um filme para estômagos fracos.

Avaliação: Ótimo


Na Mostra: "Nanking" tem sessões hoje (24), às 18h, no Centro Cultural São Paulo; e sábado (27), às 19h50, no Unibanco Arteplex 5.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com Lucía Puenzo, diretora de "XXY", por Silvana Arantes
Crítica de "El Otro", de Ariel Rotter, por José Geraldo Couto
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Escrito por Ricardo Bonalume Neto às 12h01 AM

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'Balão Vermelho' explora diferenças e distâncias

'Balão Vermelho' explora diferenças e distâncias

Por Cássio Starling Carlos (Crítico da Folha)

Criminosamente ausente das telas brasileiras, salvo em irregulares apresentações de seus filmes em outras edições da Mostra e no Festival do Rio, Hou Hsiao-hsien, o mais importante cineasta chinês (de Taiwan) vivo, retorna neste ano com um trabalho feito na França.

“Le Voyage du Ballon Rouge” (A Viagem do Balão Vermelho) resgata um título talvez desconhecido das gerações mais recentes, mas que encantou muitas crianças que hoje já têm idade para serem pais e avós. Dirigido em 1956 pelo francês Albert Lamorisse, o média-metragem “O Balão Vermelho” narrava as aventuras de um garoto solitário pelas ruas de Paris sempre acompanhado por um balão que simboliza o amigo imaginário da infância.

Após aceitar o convite do Museu d’Orsay para este trabalho na França, Hou usa o filme de Lamorisse a título de evocação. Não se trata de uma refilmagem, e o tal balão só aparece ocasionalmente, pois o que interessa ao diretor chinês é o outro termo presente no título.

É nos significados de “viagem” que ele se apropria com toda personalidade de um projeto em certa medida impessoal e que justifica todo o culto que os iniciados devotam a seu cinema. Em vez da criança e do balão, seu foco se desloca para Song, uma babá chinesa que cuida do pequeno Simon enquanto a mãe, Suzanne (Juliette Binoche), uma atriz que empresta sua voz a um teatro de marionetes, encontra-se ocupada.

É nesse “fora do lugar” e em particular na idéia recorrente de deslocamento que a câmera de Hou se instala, captando a duração das esperas, inoculando de infinito o espaço limitado do apartamento e transferindo seu interesse para a exploração do que emerge no campo das diferenças (culturais, etárias e das subjetividades) e das distâncias.

Trata-se de mais uma etapa da observação que o cinema de Hou vem fazendo das mutações contemporâneas (sentimentais, perceptivas) e que dá continuidade ao processo iniciado em “Millenium Manbo” (2001) e “Café Lumière” (2003), que retratavam personagens deslocados para o Japão.

Com essa escolha, Hou escapa da armadilha de lançar um olhar, mesmo que exótico, a um espaço urbano (Paris) ultracodificado no cinema e fora dele. Seu filme é o exato oposto de toda a bobagem cultuada no esquecível “Paris Te Amo”. Até quando filma o Museu d’Orsay (provavelmente uma exigência da encomenda), Hou evita o olhar turístico, posicionando a câmera de um ponto de vista externo ao monumento e isolado pelos vidros do telhado da construção.

O que permanece característico de seu cinema é a insistência em fazer o espectador sentir a temporalidade pregnante nas cenas no interior do apartamento, à qual equivale um prolongamento (seria mais correto dizer uma dilatação) no modo como o diretor captura e ressignifica os espaços.

Como os poetas fazem com as palavras, Hou Hsiao-hsien modula esses dois materiais essenciais do cinema para reiterar que a poesia se preserva nos interstícios da vida ordinária.
  
Avaliação: ótimo


Na Mostra: "Le Voyage du Ballon Rouge" tem sessões hoje (23), às 21h20, na Sala Cinemateca (BNDES); amanhã (24), às 19h, no Unibanco Arteplex 1; e na sexta (26), às 20h50, no IG Cine.

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Leia mais críticas (para assinantes UOL ou Folha):
"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu, por Sérgio Rizzo
"Glória ao Cineasta", de Takeshi Kitano, por Pedro Butcher
"De Volta à Normandia", de Nicolas Philibert, por Sérgio Rizzo

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h47 AM

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Arriaga volta a jogar areia nos olhos da platéia

Arriaga volta a jogar areia nos olhos da platéia

 

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ainda não é desta vez que um roteiro assinado pelo mexicano Guillermo Arriaga traz uma história narrada de forma linear. “O Búfalo da Noite” bebe na mesma fonte que alimenta o vaivém temporal de “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), os três dirigidos por Alejandro González Iñárritu, e também de “Três Enterros” (2005), de Tommy Lee Jones.

Nada contra, evidentemente, mas o recurso a essa estratégia narrativa começa a soar, em Arriaga, como um mero cacoete: embaralham-se as cartas para que um material de relativa simplicidade dramática pareça mais complexo, expediente que integra o repertório de procedimentos talvez destinados, no fim das contas, a jogar um pouco de areia nos olhos do espectador.

É inquestionável, no entanto, que os filmes realizados a partir de roteiros com essa estrutura devem muito, para o bem e para o mal, ao trabalho do roteirista, quase o equiparando, na hierarquia de controle sobre o resultado final, ao diretor (e às vezes ao produtor).

Foi o que teria motivado o bate-boca público entre González Iñárritu e Arriaga, incomodado com o que o parceiro (ou já seria melhor dizer ex-parceiro?) andou falando a respeito da responsabilidade por algumas das idéias de “Babel”. Não por acaso, o nome de Arriaga é o que mais aparece nos créditos de “O Búfalo da Noite”: primeiro, junto ao título (coisa rara em cinema); depois, em três entradas distintas, como produtor, roteirista e autor do romance em que o filme é baseado.

Estreante como diretor de longa, o venezuelano Jorge Hernandez Aldana acomoda-se a uma posição secundária. Não é de todo inconveniente, dada a fragilidade do filme, que até larga bem, sugerindo um passado nebuloso, com muitas trovoadas, entre Manuel (Diego Luna, de “E Sua Mãe Também”) e seu amigo Gregorio (Gabriel González), recém-chegado de um período de hospitalização e cercado de atenção intensa pela família.

À medida que a história avança e o filme retrocede no tempo, compreende-se melhor o papel de uma moça (a estreante em cinema Liz Gallardo) na encrenca, a alma atormentada de Gregório, a consciência pesada de Manuel e o significado do tal búfalo, entre outros mistérios do espírito e da matéria. Pouca areia, de qualquer forma, para o tamanho do caminhão, com um certo anacronismo geracional: as considerações existenciais criadas por Arriaga para atormentar seus personagens parecem às vezes algo postiças em personagens tão jovens.

Avaliação: regular


Na Mostra:O Búfalo da Noite” tem sessões hoje (22), às 21h40, no iG Cine; quinta (25), às 19h, no Cinemark Shopping Eldorado; e na quarta (31), às 17h40, no Cine Bombril.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com os diretores de "Personal Che", por Silvana Arantes
Crítica de "As Testemunhas", de André Téchiné, por José Geraldo Couto
Crítica de "A Casa de Alice", de Chico Teixeira, por José Geraldo Couto
Crítica de "Angel", de François Ozon, por José Geraldo Couto

Escrito por Sérgio Rizzo às 1h47 AM

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Cenas de um festival de cinema

Cenas de um festival de cinema

Um cartaz na porta do Cinesesc já alertava os incautos: “Todas as sessões começarão com atraso”. Chovia na noite deste domingo, e os espectadores formavam uma fila que serpenteava na entrada da sala da rua Augusta. Todos no aguardo de “À Prova de Morte” (foto), previsto para 22h40, mas que começou de fato às 23h18 _38 minutos de atraso que a platéia tirou de letra, sem estresse, sem bate-boca, como se soubesse que a redenção viria com o filme de Tarantino. E veio. Catarse coletiva e palmas no final.

O primeiro fim de semana da Mostra terminou como começou: um grande filme, uma sala lotada e um atraso um tanto além da conta. Foi assim com “À Prova de Morte” no Cinesesc, foi assim com “Inútil”, de Jia Zhang-ke, no Unibanco Arteplex 3, no início da tarde de sábado. A sessão, marcada para 12h30, começou quase 13h, após um pedido de desculpas de um monitor do festival e o protesto de uma espectadora, que, dado o avançado da hora, gritou contra a exibição de uma propaganda de 30 segundos da Petrobras.

No intervalo entre “Inútil” e “À Prova de Morte”, dois dias de programação de alto nível, sessões cheias e atrasos em geral toleráveis nos cinemas do eixo Paulista-Augusta-Frei Caneca. Em suma, um bom começo de festival.

Um ponto alto? Os aplausos, ainda que tímidos, de parte do público ao final da sessão deste domingo de “A Questão Humana” no Reserva Cultural. A outra parte dos espectadores ainda estava sob choque após assistir a obra de Nicolas Klotz, uma das mais pessimistas (realistas?) do cinema recente.

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Leitor reclama, a Mostra responde
Fernando Maltempi escreve para o blog para contar que, na sessão de “Déficit” com Gael García Bernal na noite de sábado na Faap, os ingressos foram distribuídos para os alunos da instituição de ensino. Segundo seu relato, ficaram de fora cerca de 300 pessoas, que chegaram ao locar quatro horas antes para retirar as entradas gratuitas.

Sobre a mensagem do Fernando, Leon Cakoff, o diretor da Mostra, enviou a seguinte resposta:

“Sr. Fernando, nós da Mostra também fomos surpreendidos com as decisões da Faap de reservar a maioria dos ingressos para distribuição interna. Lamentamos, mas isso não faz parte de nosso acordo. Sempre tratamos de nossas programações no auditório da Faap com proporção de reserva de 50% para seus alunos e o restante para o público exterior. Lamentamos pelo ocorrido, inédito em nosso histórico de atividades públicas, e vamos avaliar para que fatos lamentáveis como este não voltem a ocorrer. Saudações da Mostra. Leon Cakoff."

Escrito por Leonardo Cruz às 1h36 AM

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Um grito para lembrar o genocídio

Um grito para lembrar o genocídio

Por Ana Laura Nahas (colaboração para a Folha)

O público se espreme no parapeito, e Serj Tankian, vocalista do System of a Down, grita que chegou a hora de a Turquia pagar pelo crime que cometeu. A platéia delira, resumindo a comoção que costuma acompanhar os shows da banda norte-americana formada por quatro descendentes de armênios, o povo massacrado pelos turcos entre 1915 e 1917.

A matança até hoje é negada pelo governo turco _que pelas contas da história acabou com cerca de 1,5 milhão de cidadãos da Armênia e deportou outros 500 mil. Mas o System of a Down e a documentarista Carla Garapedian, norte-americana que trabalha para a BBC de Londres, querem tornar a dor de seus antepassados conhecida pelas novas gerações e reconhecida pelos organismos internacionais. Por isso fizeram "Screamers", que a Mostra lança neste domingo, com a presença da diretora.

"O genocídio armênio foi uma das atrocidades contra os direitos humanos mais divulgadas de seu tempo. Mas poucos países assumem o massacre. Os britânicos chamam de ‘crime contra a humanidade’. O embaixador americano, de ‘assassinato de um povo’. George W. Bush, de ‘exílio forçado e assassinato de 1,5 milhões de pessoas’. Vamos chamá-lo do que realmente é: genocídio. E deixar os sobreviventes cicatrizarem", diz Garapedian à Folha, por e-mail, de Bruxelas, na Bélgica, onde esteve também para mostrar seu filme.

Em "Screamers", ela segue o System of a Down em uma turnê pela Europa e pelos Estados Unidos e mistura imagens e depoimentos sobre o genocídio às cenas dos shows e dos protestos comandados por Tankian e companhia. Às seqüências, acrescenta informações que defendem a estreita correspondência entre as mortes na Armênia, o Holocausto, os conflitos no Camboja, na Bósnia, em Ruanda e, atualmente, o choque entre tribos de Darfur, no Sudão, que já matou entre 50 mil e 450 mil pessoas.

"Eu relutava muito em fazer esse filme, porque o tema é muito pessoal para mim. Faz parte da minha vida há tanto tempo quanto eu posso me lembrar", conta Garapedian. Um show do System of a Down, em 2002, diminuiu a resistência. "Fiquei muito impressionada com seus fãs. Eles sabiam sobre o genocídio armênio _um assunto que não é discutido nos Estados Unidos_ e sobre todos os outros genocídios. A banda fez mais para aumentar a consciência do que políticos e ativistas em anos", defende.

O projeto ganhou corpo quando a BBC decidiu falar do trabalho de Samantha Power, autora do livro "Genocídio" [lançado no Brasil pela Cia. das Letras e Prêmio Pulitzer em 2003]. Power, a primeira a utilizar a expressão “screamers” para os que se recusam a ficar calados diante de um genocídio, dá extenso depoimento no filme, que, depois da Mostra, será exibido na Argentina e na Austrália. Aqui, a diretora quer ouvir o público. "Há uma grande base de fãs do System no Brasil. Espero atender às pessoas que amam a música deles, saber o que pensam e conhecer São Paulo, que ouvi dizer que é fantástica", conta.


Na Mostra: "Screamers" tem sessões neste domingo (21), às 19h, no Cine Bombril 1; na terça (23), às 21h, no Unibanco Arteplex 2; e no domingo (28), às 13h30, no Espaço Unibanco 3.

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Mais quatro filmes lembram massacre
O genocídio de povos da Armênia é destaque na programação da Mostra neste ano. Além de "Screamers", outros quatro filmes tratam do tema, que voltou à tona agora que os congressistas americanos aprovaram, enfim, o reconhecimento do extermínio promovido pelos turcos. A seleção da mostra comandada por Leon Cakoff, ele também descendente de armênios, inclui "O Farol" (Armênia/Rússia), de Maria Saakyan; "Armênia" (França), de Robert Guédiguian; "A Casa das Cotovias" (Itália), de Paolo e Vittorio Taviani; e "Ararat - 14 Visões" (Holanda/Alemanha/Armênia), de Don Askarian.

"O Farol" tem sessões na quarta (24), às 14h, no Reserva Cultural 1; na sexta (26), às 19h10, no Cine Olido; e na terça (30), às 15h, no Unibanco Arteplex 1.
"Armênia" tem sessões na quarta (24), às 21h30, no Cinemark Shopping Eldorado; na quinta (25), às 16h50, no Unibanco Arteplex 2; e no domingo (28), às 15h, no Reserva Cultural 1.
"A Casa das Cotovias" tem sessões na terça (30), às 11h, na Faap; na quarta (31), às 17h, no Cinesesc; e na quinta (01), às 19h20, no Cine TAM.
"Ararat - 14 Visões" tem sessões na terça (23), às 18h10, na Sala Cinemateca (BNDES); na quarta (24), às 21h50, no Cine Olido; e domingo (28), às 17h20, no Reserva Cultural 1.

Escrito por Ana Laura Nahas às 1h00 AM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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