Ilustrada no Cinema

 

 

'Caótica Ana' cataloga os males do mundo

'Caótica Ana' cataloga os males do mundo

Inácio Araujo (Crítico da Folha)

A “Caótica Ana” referida no título do novo filme de Julio Medem não é tão caótica assim. É apenas uma jovem pintora que vive numa caverna com o pai, ao abrigo dos males do mundo até ser descoberta por Justine (Charlotte Rampling), uma mecenas que abriga em Madri um grupo de artistas que julga promissores.

Ana (Manuela Vellés) vive ali um primeiro amor com Said (Nicolas Cazalé), um berbere, portanto, alguém desse grupo incômodo que costuma lembrar aos árabes que eles não são apenas perseguidos, também sabem perseguir com ferocidade.

Do desaparecimento precoce de Said _que abre a porta do afeto para Ana_ resulta o centro narrativo do filme: ele estará na relação de Ana com um hipnotizador que a colocará em contato com suas vidas passadas (seja isso o que for, e o filme não é tolo a ponto de julgá-las verdadeiramente passadas: ele as vê como constitutivas da vida de alguém).

As inúmeras vidas de Ana nos conduzirão, ao mesmo tempo, à metáfora básica do filme (o cinema espanhol adora metáforas): o falcão, ave capaz de, com rapidez, prender e destroçar outras aves. Medem criará a partir delas algumas pérolas de mau gosto, como o momento em que um falcão arranca os olhos de um cadáver.

Se todos os problemas fossem estes, não estaríamos tão mal. O fato é que, desde que o assunto Guerra Civil se esgotou, uma parcela do cinema espanhol não sabe mais o que fazer da vida. Desta vez Medem faz um passeio pelo mundo. Vai do deserto do Saara a Monument Valley, dos berberes aos índios, catalogando as violências e iniquidades dos homens.

Todas elas Ana experimentou, vivenciou, sofreu. Os transes hipnóticos são momentos em que revive essas dores. Ana não é tão caótica quanto pretende o título. O filme, que nos leva de maneira um tanto arbitrária de um ponto a outro do mundo _até se fechar nos EUA_, tratará de maneira não menos arbitrária de ilustrar a metáfora do falcão enunciada no início.

Convém não contar como se dão as relações entre Ana e o falcão, que acontecem na parte final do filme. Digamos que não primam pelo bom gosto. E vale lembrar, quase num anexo, que este cinema habitualmente tão deficiente quanto o espanhol é hoje talvez o único no mundo a filmar cenas de sexo com desenvoltura: uma herança que devemos, por ironia, ao atraso e ao moralismo do franquismo.

Avaliação: regular


Na Mostra: "Caótica Ana" tem sessão hoje (1/11), às 18h40, no Cine Bombril 1.

*

Escrito por Inácio Araujo às 11h30 PM

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Cinco razões para ver 'Senhores do Crime'

Cinco razões para ver 'Senhores do Crime'

Por Alcino Leite Neto (editor de Moda da Folha)

"Senhores do Crime" (2007) é um impactante thriller sobre máfias, que de certa forma dá continuidade ao flerte do diretor canadense David Cronenberg com um cinema mais tradicional. Ao lado de "Marcas da Violência" (2005), a obra anterior de Cronenberg, "Senhores do Crime" forma um díptico interessantíssimo, feito de temas semelhantes e dominado pela figura perturbadora do ator Viggo Mortensen. O novo filme, porém, foi feito com muito mais liberdade do que permitia o neoclassicismo de "Marcas de Violência". Sendo mais livre, é também muito mais cronenberguiano.

No início, temos apenas isso: uma jovem russa morre na hora do parto e, entre os seus pertences, a médica (Naomi Watts) encontra um diário. A fim de descobrir a origem da moça e do bebê, a médica acaba se aproximando de um núcleo mafioso russo que atua em Londres. Os segredos contidos no diário deslancharão a trama _e muito mais coisas, a depender da disposição do espectador.

A seguir, cinco motivos para assistir a este filme excelente.

1. O elenco multicultural

"Senhores do Crime" reúne um elenco impecável. O chefe mafioso é interpretado por Armin Mueller-Stahl, um dos grandes atores alemães no cinema, estrela de "Lola" e "O Desespero de Veronika Voss", de Fassbinder. A mãe do personagem de Naomi Watts é uma formidável atriz irlandesa, formada no teatro shakespeareano: Sinéad Cusack (que tem dois filhos de Jeremy Irons).

A estrela do filme é, claro, Viggo Mortensen. Mas em certos momentos o ator francês Vincent Cassel praticamente rouba a cena, num dos seus melhores papéis no cinema. Neste panorama, Naomi Watts faz uma atuação correta, mas afinal modesta.

Uma curiosidade: o tio Stepan é encarnado pelo diretor polonês Jerzy Skolimovsky, pouco conhecido no Brasil, mas um dos principais cineastas dos anos 60 _na foto acima, ele aparece ao lado de Mortensen. No tópico interpretação, vale atentar à difícil recriação do sotaque russo pelo elenco multicultural. Conta-se, inclusive, que o nova-iorquino Mortensen fez uma longa viagem à Rússia antes das filmagens para ajudar a construir o personagem e sua dicção.

2. Uma arte do espaço

A construção dos espaços de "Os Senhores do Crime" é algo para prestar muita atenção. A idéia de ambientar o núcleo da máfia num restaurante de culinária russa é um achado, de alguma forma devedor da modernização que "Sopranos" imprimiu ao imaginário visual da máfia.

Cronenberg filma de maneira notável esse espaço, distribuindo os planos entre a porta de entrada muito britânica, o salão principal de ambiência russa, a cozinha moderna e certos recantos obscuros, como a adega.
O lugar adquire múltiplas funções: aparece como um restaurante de luxo kitsch, um sinistro bunker da máfia, um refúgio nostálgico de imigrantes e o "palácio" familiar do poderoso chefão _o "palco" onde se enfrentam o pai e o filho beberrão e sexualmente ambíguo.

Um dos duetos mais brilhantes do filme se passa no fundo da adega: o interlúdio entre Kirill (Cassel) e Nikolai (Mortensen), em que o primeiro quase não esconde a sua atração pelo segundo.

3. As histórias do pai

É evidente que Cronenberg coloca neste filme alguns assuntos relevantes da  Europa atual, como a atuação da máfia russa no Ocidente, o tráfico de mulheres e os dramas da imigração. Mas estes não são os temas principais de "Senhores do Crime", que está longe de pretender ser uma obra de cunho sociológico, à la Ken Loach.

São outras as questões que interessam ao diretor canadense. Como em "Marcas da Violência", os temas da origem, da família e da paternidade são bem importantes.

O chefe mafioso é uma espécie de Grande Pai, que domina as linhas ficcionais. Ele é o pai da bebê nascida de um estupro. É o pai zeloso do mimado Kirill (Vincent Cassel). E é o pai simbólico do personagem interpretado por Viggo Mortensen. Este, ao ser entronizado na máfia, precisa renegar o seu pai natural diante do grupo de chefões, adotando a nova família do crime.

Quando a médica de origem russa (Naomi Watts) encontra pela primeira vez o chefe mafioso, ele logo de cara pergunta à doutora o nome de seu pai, para saber o patronímico (o nome do meio na tradição russa, que remete ao nome paterno). É uma forma de ele reiterar a hierarquia paterna _o que ela recusará a respeitar, complicando a trama.

Nesse passeio pelo cinema mais clássico que Cronenberg tem feito ultimamente, é como se o diretor dissesse que a função simbólica do pai estrutura a ficção tradicional, que a família é a cena central do melodrama e que o mistério da origem é similar ao mistério policial.


4. A grande cena

 "Senhores do Crime" não é um filme feito de cenas virtuosísticas, inclinado ao fetichismo cinematográfico, à maneira de Tarantino. Mas tem seqüências memoráveis, particularmente a briga na sauna, que deverá ficar como uma das maiores do cinema policial, não apenas por causa da orquestração perfeita da ação e da planificação estupenda mas também porque Cronenberg teve a ousadia de fazê-la com Viggo Mortensen inteiramente nu.

Deve ser a primeira vez no cinema que uma estrela é mostrada assim, sem roupa, lutando violentamente por sua vida, entre ladrilhos molhados e poças de sangue. Trata-se do grande momento de "Senhores do Crime", o mais perverso e o mais elucidativo. Pode-se até mesmo dizer que o filme todo foi construído em função dessa cena _e da obsessão evidente de Cronenberg, como metteur-en-scène, pela plasticidade estranha, reptilineana, do corpo de Mortensen.

O corpo nu de Mortensen, estampado com um sem número de tatuagens, explicita que ele está lutando também por sua história. Cada tatuagem é um ícone de um passagem de sua vida. "Nas prisões russas, sua vida está escrita nas tatuagens. Se você não tem tatuagens, não existe", diz um personagem (vale lembrar a importância do ícone na religião, na arte e no imaginário russos).

Para sujeitos como Nikolai (nome do personagem de Mortensen), lançados no crime desde a infância e sem eira nem beira, trazer a sua história no corpo é uma garantia de que ela poderá ser lida por outros, mesmo depois da morte. Aliás, é o que acontece quando a polícia descobre o cadáver de um mafioso no rio: ele não traz as impressões digitais, mas a pele tatuada narra as suas origens (como se as histórias fossem mais importantes que a identidade).

Garantir que sua história seja lida deve ser também o que motivou a garota russa feita escrava branca na Inglaterra a escrever o diário que deslanchará toda a trama do filme. Vê-se assim que, mais que um thriller sobre máfias, "Senhores do Crime" é um filme sobre a própria narrativa.

De um lado, temos a ficção clássica, regida pela lei simbólica do pai e conforme aos códigos tradicionais. De outro, o cinema cronenberguiano, construído com o corpo, buscando um modo de transfigurar a carne e as vísceras em signos e linguagem.

5. Promessas não cumpridas

Referências religiosas perpassam "Senhores do Crime". A trama acontece entre o Natal, época em que nasce a criança, e o Ano Novo. No corpo de Mortensen, vê-se as tatuagens de um crucifixo (no peito) e de uma catedral russa ortodoxa (nas costas). Mas não há mensagem de salvação no filme, pelo contrário. As promessas, sejam as do Leste ou do Oeste (o filme se chama "Eastern Promises"), não são cumpridas nunca.

Toda história nasce e termina num ato de violência. "Às vezes, parto e morte vão juntos", diz um personagem. Nascer já é por si só uma violência. Os bebês são como uma golfada de sangue mundo afora. Depois, basta uma navalhada no pescoço de um homem para ele, zás!, retornar ao nada. Os túmulos não passam de pedras frias onde se pode mijar. É um terrível pessimismo.


Na Mostra: "Senhores do Crime" tem sessão hoje, às 19h20, no Cinesesc.

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Escrito por Alcino Leite Neto às 11h14 PM

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'O bom diretor faz o ator perder o controle'

'O bom diretor faz o ator perder o controle'

 
Gitaï e Binoche, num intervalo das filmagens de 'A Retirada'

Em um debate com a platéia durante o último Festival de Toronto, a atriz Juliette Binoche descreveu sua experiência com o diretor Amos Gitaï como “uma luta por um pedaço de carne”. Ela se referia aos atritos entre os dois durante as filmagens de “A Retirada”, novo longa do cineasta israelense, em cartaz na Mostra de SP.

Em conversa com a Folha para falar sobre a “A Retirada”, Gitaï descreveu a relação com Binoche, algumas vezes tensa, como parte natural do processo criativo. “Juliette é uma grande atriz. E o diretor tem um papel muito importante para grandes atores e atrizes. Porque eles têm uns botões que costumam apertar quando estão acomodados. É um conjunto de truques, que eu já conheço e tento evitar”, conta Gitaï.

“Cabe ao diretor ser crítico e convencer seus atores a fugirem do convencional. O bom cineasta é aquele capaz de fazer o ator perder o controle sobre sua forma premeditada de interpretação. Coppola disse recentemente que os atores com quem trabalhou no passado, De Niro, Al Pacino, estão preguiçosos. É verdade. Eles estão só apertando os botões”, conclui o diretor.

Enquanto “A Retirada” ainda percorre o circuito de festivais e nem estreou comercialmente, Amos Gitaï já prepara seu próximo trabalho. Filma em Paris uma versão do livro “Plus Tard, Tu Comprendras” (Mais Tarde, Você Compreenderá), de Jérôme Clément. Na obra, o autor conta a história de sua mãe, mulher de origem judaica cujos pais foram deportados no Holocausto.

A adaptação de Gitaï, um longa de 90 minutos, é uma produção para o canal de TV France 2 e terá no elenco Emanuelle Devos, Hippolyte Girardot, Dominique Blanc e, uma vez mais, Jeanne Moreau, que faz um papel secundário em “A Retirada”.


Na Mostra: "A Retirada" tem sessões hoje (30), às 20h40, no Cinesesc; e amanhã, às 18h40, no Unibanco Arteplex 1.

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Íntegra da entrevista com Amos Gitaï, por Leonardo Cruz
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Escrito por Leonardo Cruz às 11h24 PM

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Os sete anões de Roberto Berliner

Os sete anões de Roberto Berliner

Por Lucas Neves (da Reportagem Local)

A alcunha e o numeral de fato remetem aos coadjuvantes de Branca de Neve, mas não espere arroubos idílicos de "Pindorama - A Verdadeira História dos Sete Anões", documentário de Roberto Berliner, Leo Crivelare e Lula Queiroga que tem sua última exibição na 31ª Mostra de Cinema de SP hoje à noite. Aqui, a fantasia em technicolor Disney dá lugar ao registro das frustrações e inseguranças _mas também da galhofa e dos desejos_ do septeto de irmãos que, dividido entre funções administrativas e artísticas, comanda uma trupe circense que cruza o sertão nordestino.

Berliner conheceu a família no fim de 2002, quando foi a Arcoverde, no interior pernambucano, capturar imagens para um videoclipe da música "O Palhaço do Circo sem Futuro", da banda Cordel do Fogo Encantado. "Quando entrei [no circo Pindorama], foi como se tivesse chegado a outro planeta, onde anão é quem manda", lembra.

As cenas com os anões ficaram fora da versão final do clipe, mas não por descaso de Berliner _que voltaria ao picadeiro do Pindorama (desta vez montado em Pesqueira, PE) ainda em 2002, agora acompanhado dos dois co-diretores. Uma semana de pesquisa para um possível documentário gerou 50 horas de material bruto.

Com um trailer debaixo do braço, o trio saiu à cata de financiamento para as filmagens de fato. A via-crúcis durou quatro anos; no fim do ano passado, com a verba de um prêmio do MinC, o trabalho pôde ser retomado. O problema foi descobrir o paradeiro do Pindorama. "Demoramos muito para reencontrá-los. Eles tinham sumido, os telefones, mudado", diz Berliner.

Na linha de frente de uma equipe de 17 pessoas, ele, Queiroga e Crivelare sabatinaram os sete irmãos (e seus filhos e cônjuges) durante um mês, na rota Paulo Afonso-Geremoaba (ambos na Bahia). Das conversas saíram impressões sobre preconceito, isolamento, conflito de egos, relações afetivas ("um anão não quer outro; dois pequenos não dá certo!", pontifica a certa altura Charles, o locutor e dono do picadeiro) e sexo.

Com os anões de "Pindorama", a lente de Berliner se volta mais uma vez para os portadores de necessidades especiais; o filme anterior dele é "A Pessoa É para o que Nasce", sobre o périplo de três irmãs cegas por feiras nordestinas, onde cantam e tocam ganzá.

É deliberada a escolha de personagens com esse perfil? "Não existe nada premeditado. As irmãs cegas me encantaram pela maneira como conseguiram se organizar para sobreviver. No circo, o que interessou a gente foi ver esse mundo em que a baixa estatura era mais forte do que a alta. As ceguinhas pediam esmola, os anões cobram ingresso, tiram partido da deficiência para sobreviver _e fazem isso com muito humor e personalidade; chegam a ser meio marrentos, meio Romário", afirma Berliner.

"Pindorama" tem previsão de estréia para o primeiro semestre de 2008, via Filmes do Estação. É também nesse período que deve chegar aos cinemas "Herbert de Perto", raio-x do líder dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, pelo amigo de longa data Berliner.

Ele também trabalha atualmente no roteiro de sua primeira ficção, sobre a conceituada psiquiatra Nise da Silveira, discípula de Jung que, nos anos 50, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio. A atriz Drica Moraes encarnará a protagonista.


Na Mostra: "Pindorama" tem sessão hoje, às 20h50, no Unibanco Arteplex 4

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Entrevista com Hirokazu Kore-eda, diretor de "Hana", por Mario Gioia
Crítica de "Estômago", de Marcos Jorge, por Sérgio Rizzo

Escrito por Lucas Neves às 11h32 PM

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Julie Gavras une humor, delicadeza e política

Julie Gavras une humor, delicadeza e política

Por Luciana Coelho (editora-adjunta de Mundo)

Esqueça Cuba. Este filme não é sobre Fidel Castro nem sobre a ilha perdida no tempo nem muito exatamente sobre ditaduras ou revoluções. Mas o fato de o título ter sido pinçado das falas de uma personagem secundária não falha em expor as principais qualidades do primeiro longa ficcional de Julie Gavras: humor, perspicácia, delicadeza e, como havia de ser com o DNA que a diretora tem, uma dose bem medida de política.

Julie, 37, é filha do grego Costa-Gavras, um dos diretores que mais se dedicou a cutucar as feridas das ditaduras militares na América Latina (são seus os fundamentais “Estado de Sítio”, de 1972, e “Desaparecido”, de 1982). É difícil não imaginar que na pequena protagonista do filme _que toma de base o livro autobiográfico da jornalista Domitilla Calamai_ não ressoe também sua própria biografia.

Na Paris de 1971, Anna, 9, é acordada de sopetão de seu pequeno e ordenado mundinho quando seus pais decidem engajar-se na campanha socialista no Chile.

Os dois trazem o peso dolorido do comodismo político e da ascendência afluente naqueles anos turbulentos: ele, um espanhol de família franquista que tem  o cunhado morto sob as botas do regime do generalíssimo; ela, vinda de uma família aristocrática e católica de Bordeaux. A vida de Anna e de seu irmão mais novo, François, incluía casa com jardim, escola de freiras e uma babá anticomunista já intoleráveis para o casal em purgação.
 
Norteia o filme a visão da menina _a quem o pai apelida causticamente de “minha pequena múmia” por sua resistência quase reacionária (se uma criança pudesse ser reacionária) em manter o status quo, quando ele decide virar a vida da família de cabeça para baixo após uma viagem ao Chile.

Anna odeia o novo e apertado apartamento, detesta ser eximida das aulas de catecismo enquanto as coleguinhas debatem Jesus no recreio e sofre com as trocas de babás _da cubana anticastrista para a grega que espera o marido ser solto pelo regime militar para a vietnamita fugida da guerra_, ilustrada com um humor sutil na sucessão de cardápios e histórias de ninar a que as crianças são submetidas. Em seu turbilhão pré-adolescência, é só aos tropeços que a menina aprenderá o que é solidariedade, e o desprendimento repentino mostrado pelos pais antes a angustia do que a ensina.

Não são poucos os filmes que têm como eixo a experiência de um regime autoritário pelos olhos de uma criança, mas Julie Gavras conseguiu com destreza e sem pretensões grandiloqüentes refrescar a fórmula batida. Da luta de Salvador Allende no Chile ou da ditadura de Franco o filme só traz os ecos; sem excessos dramáticos, roubam a cena o humor pueril e a perspicácia única de uma criança aprendendo na prática o que é socialismo.

Avaliação: bom


Na Mostra: "A Culpa É do Fidel" tem sessões hoje (28), às 14h, no IG Cine; e quinta, às 22h30, no Cine Bombril 1.

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Leia mais críticas (para assinantes UOL ou Folha):
"Go Go Tales", de Abel Ferrara, por Paulo Santos Lima
"Kimera - Estranha Sedução", de Paul Auster, por Marcelo Pen

Escrito por Luciana Coelho às 12h20 AM

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Béla Tarr é sempre imperdível

Béla Tarr é sempre imperdível

Por Pedro Butcher (Crítico da Folha)

Antes de qualquer coisa é preciso dizer que a oportunidade de assistir a um filme de Béla Tarr é raríssima e absolutamente imperdível. Hoje com 55 anos, o diretor húngaro é dono de uma obra bissexta de alto impacto no cinema contemporâneo. Filmes como "Danação" (1988) e "Satantango" (1994) _exibidos na 18ª Mostra de São Paulo, em 1994_ foram uma influência confessa para os filmes recentes de Gus Van Sant, por exemplo.

Mas o projeto de "O Homem de Londres", primeiro longa-metragem de Tarr em sete anos, foi muito problemático, e as turbulências transparecem no resultado final. O incidente mais grave foi a morte do produtor Humbert Balsan, em fevereiro de 2005, que levou a uma briga entre os outros co-produtores e a um longo período de interrupção nas filmagens. As imposições dos sistemas de co-produção européia também se fazem sentir: a história é inspirada em uma obra do francês Georges Simenon, as filmagens se realizaram na Espanha, o ator principal é tcheco, e a inglesa Tilda Swinton faz uma pequena participação, dublada em húngaro.

Os elementos que Tarr usa para construir seu universo particular, no entanto, continuam os mesmos. "O Homem de Londres" traz o mesmo preto-e-branco, os mesmos atores de rosto comum interpretando em um tom não-naturalista, e os mesmos planos-seqüências altamente elaborados, em que a câmera desliza lentamente, para os lados ou para cima, quase sempre ao som de uma música hipnotizante.

Mas, nesse caso, esses elementos simplesmente não deram liga. O resultado termina ressaltando em excesso a tendência formalista de Tarr, e o estilo do diretor, que é tão fluente em seu belíssimo filme anterior ("As Harmonias Werckmeister", de 2000), ganha um peso excessivo, quase sufocante.

Um filme de Béla Tarr, porém, não se dispensa. Há muito para se desfrutar em "O Homem de Londres", que, com todas as restrições, continua sendo uma experiência única, rara expressão singular de um diretor com seu tempo muito próprio, que exige desprendimento, mas que sempre encontra seu fascínio.

Avaliação: Regular


Na Mostra: "O Homem de Londres" tem sessão hoje (27), às 18h, no Memorial da América Latina.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
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Escrito por Pedro Butcher às 11h02 PM

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Eduardo Coutinho terá retrospectiva em SP

Eduardo Coutinho terá retrospectiva em SP

 

Boa notícia para quem gosta de documentários: sete filmes de Eduardo Coutinho estarão em uma retrospectiva do cineasta a partir do próximo dia 2, sexta-feira, no Cine Bombril, em São Paulo.

A retrospectiva marcará o segundo aniversário do Folha Documenta, idealizado pelo exibidor Adhemar Oliveira, em parceria com o jornal. Desde novembro de 2005, o programa mantém no Bombril uma sessão diária de documentários e promove ciclos e debates com diretores.

Na retrospectiva de Eduardo Coutinho, cada filme terá quatro sessões diárias na sala 2 do Bombril. "Cabra Marcado para Morrer" (1984), o clássico da carreira do cineasta, será o longa em exibição no primeiro dia. O ciclo segue em ordem cronológica, com: "Santo Forte" (1999), no sábado, dia 3; "Babilônia 2000" (2000), no domingo; "Edifício Master" (2002), na segunda; "Peões" (2004), na terça; e "O Fim e o Princípio" (2005), na quarta.

Na quinta-feira, dia 8, haverá mais uma sessão de "Peões", outra de "O Fim e o Princípio", além da pré-estréia, às 19h, de "Jogo de Cena" (foto), o mais novo filme de Coutinho. Após a exibição, o diretor participará de um debate com a platéia. No longa, o documentarista acompanha depoimentos de mulheres desconhecidas e atrizes, num jogo que embaralha a realidade e a representação.

Sobre "Jogo de Cena", o próprio Coutinho escreveu um breve texto no blog oficial do filme. Vale a leitura:

"Este é um documentário - impuro, já que incorpora atrizes - que tematiza aquilo que se diz das personagens de um documentário. O que está em discussão é o caráter da representação. Representar está ligado a brincar, jogar - o que aparece claramente em línguas como o inglês (to play), o francês (jouer) e o alemão (spielen).
Fala-se do aspecto verdadeiro, natural, autêntico das personagens, ao mesmo tempo em que críticos mais agudos reconhecem quanto de teatro, ou de performance, há nelas, acentuados pelo efeito-câmera. E a memória está sempre no presente, por isso é feita de esquecimento e invenção.

Neste filme, o jogo a ser jogado inclui pelo menos três camadas de representação: primeiro, personagens reais falam de sua própria vida; segundo, estas personagens se tornam modelos a desafiar atrizes; e, por fim, algumas atrizes jogam o jogo de falar de sua vida real.
A aposta do documentário é a de que personagens e atrizes escapem dos estereótipos e, de alguma forma, se afirmem como sujeitos singulares até o limite que o jogo permita."

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Escrito por Leonardo Cruz às 4h03 PM

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Uma boa conversa com Manoel de Oliveira

Uma boa conversa com Manoel de Oliveira

Por Inácio Araujo (Crítico da Folha)

Manoel de Oliveira, 98, é quem conta a história: em Kyoto, num templo zen-budista, um monge explica que existem 15 pedras, mas apenas 14 delas visíveis. O visitante logo descobre que, na verdade, todas as pedras são visíveis, mas nunca ao mesmo tempo: conforme o ângulo, vemos uma ou outra, mas sempre uma permanece invisível. "Essa pedra só pode ser vista com o coração", explica Oliveira a seu interlocutor, o crítico e hoje diretor da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa.

Vem daí o título "A 15ª Pedra". São duas horas de prosa inteligente e um pouco constrangida registrada por Rita Azevedo Gomes num plano quase único. E constrangida por quê? Vimos há poucos anos um outro diálogo da mesma natureza, envolvendo Oliveira e a escritora Agustina Bessa-Luís. A vantagem desse é que ali prevalecia a amizade que os liga, o que deixava Agustina à vontade para contradizer, não sem humor por vezes, o que dizia Oliveira.

Bénard da Costa não se mostra à vontade para tanto nessa conversa. Sente-se ali o crítico que, antes de tudo, procura compreender e interpretar o outro. Não que isso torne a interlocução aborrecida, mas existe de parte a parte a necessidade de se mostrar à altura da conversa e, com isso, pouca ou nenhuma distensão.

Isso não é um defeito, mas é preciso admitir que, se fosse dividido em duas partes de uma hora, facilitaria a recepção. Dito isso, convém destacar apenas algumas questões suscitadas ao longo dessa rica conversação.

À frente de todas, duas que mais concernem a um realizador e a um crítico: a necessidade de pensar como representar a vida e a necessidade de "ensinar a ver". Mais: a arte como atividade mundana ("Fazer um filme é cometer um crime"; "[Arte é] vaidade, não possui a virtude da santidade", diz Oliveira); a liberdade ("É um dever", afirma Oliveira); a recusa do público em compreender o cinema ("[Existe] uma espécie de gala do analfabetismo", avalia Bénard). Um diálogo estimulante, para dizer o mínimo.

Avaliação: Bom


Na Mostra: "A 15ª Pedra" tem sessões hoje (26), às 20h, na Sala Cinemateca (Petrobras); amanhã (27), às 15h40, no Unibanco Arteplex 4; e segunda (29), no Unibanco Arteplex 3, às 14h20.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com Gus Van Sant, de "Paranoid Park"
Crítica de "Paranoid Park", por Pedro Butcher
Crítica de "Juízo", de Maria Augusta Ramos, por José Geraldo Couto
Reportagem sobre o debate da crítica, por Silvana Arantes

Escrito por Inácio Araujo às 11h24 PM

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Babenco volta mais intimista

Babenco volta mais intimista

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta "O Passado", décimo longa-metragem do cineasta Hector Babenco, inspirado no livro homônimo do argentino Alan Pauls. Protagonizado por Gael García Bernal, o filme entra em cartaz no país nesta sexta-feira. Segundo o crítico, é uma obra muito mais intimista, distante de outros longas de preocupação política e social de Babenco. Para ouvir, basta clicar no microfone.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 11h19 PM

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A crítica de cinema está em crise?

A crítica de cinema está em crise?

Há uma crise na cinefilia? Os espectadores deixaram de acompanhar a opinião dos críticos? Essas questões motivam um interessante debate nas páginas da versão impressa da Ilustrada de ontem e de hoje. A tese da cinefilia em xeque foi apresentada por Leon Cakoff, diretor da Mostra, na entrevista coletiva do festival, em 6 de outubro. Naquela ocasião, Cakoff afirmou: "Sou crítico. Caiu a ficha. Estamos perdendo a platéia. Hoje, a cinefilia não é mais como no meu passado".

A Folha decidiu então, em 8/10, convidar Cakoff para desenvolver mais seu raciocínio e aprofundar a discussão. O resultado foi o artigo "Não cabe à crítica querer educar o cinema", publicado na Ilustrada de ontem. Nele, o diretor do festival (e também cineasta, distribuidor e exibidor de cinema) escreveu:

"Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes. [...] Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção."

A resposta ao diretor da Mostra está na Ilustrada desta quinta. Na réplica "Cabe à crítica dividir o amor ao cinema", o crítico da Folha Cássio Starling Carlos rebate a afirmação de Cakoff contra as "opiniões e considerações excludentes" de críticos e cinéfilos:

"Tal tipo de acusação reproduz o estereótipo que separa os filmes entre 'os que a crítica aprova, e o público detesta' e 'os que o público adora, e os críticos odeiam'. Tal separação, quando radicalizada, leva a supor que, de um lado, os críticos só escrevem para eles e que, de outro, o público não se interessa pela opinião da crítica."

O crítico da Folha avalia ainda que houve uma democratização da crítica de cinema no Brasil devido à recente expansão de sites e revistas dedicados ao assunto, casos das publicações virtuais Cinética e Contracampo e das impressas Paisà e Teorema. "Tal democratização vem aos poucos suprimindo o totalitarismo do gosto e abalando os resíduos de dogmatismo, na medida em que se permite publicar argumentos contrastados e/ou opostos, ampliando os horizontes de quem apenas lê e ainda mais de quem escreve", aponta Starling Carlos.

*

Antes de tudo, recomendo a leitura da íntegra dos dois artigos. Pessoalmente, estou de pleno acordo com o crítico da Folha. Não há crise na cinefilia nem na crítica, ao menos não no sentido de decadência. Há sim uma transformação em curso, em que as fontes de informação sobre cinema se ampliam rapidamente. De uns tempos para cá, os espectadores têm à disposição não só as resenhas dos cadernos culturais dos grandes jornais e revistas mas também uma gama crescente de publicações especializadas, a maioria delas na internet.

A mídia virtual, de custo sensivelmente menor que a mídia impressa, permite a criação desses novos espaços de análise cinematográfica, que conseguem se manter mesmo com baixo (às vezes nenhum) retorno financeiro.

Com o encolhimento físico dos jornais diários ao longo dos anos, o espaço dedicado à crítica de cinema (e ao noticiário como um todo) foi obviamente reduzido.  Em contrapartida, a cada semana há um número maior de estréias nos cinemas. Nesse cenário, os cadernos culturais tentam selecionar, de forma ainda mais criteriosa, quais filmes serão resenhados, levando em conta os muitos perfis de seus leitores.

É natural, então, que uma parte da crítica migre para a internet e se desenvolva nela. Ao contrário do que argumenta Leon Cakoff, não há "menos críticos empenhados na formação de platéias". Há mais. Eles continuam nos diários impressos, porém com menos espaço do que em décadas passadas, e se multiplicam na rede. Basta saber onde procurá-los.

*

E você, caro leitor, cinéfilo ou crítico? O que pensa desse debate?

Escrito por Leonardo Cruz às 2h17 AM

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'O Estado do Mundo' e a divisão do planeta Cinema

'O Estado do Mundo' e a divisão do planeta Cinema

Por Paulo Santos Lima (Colaboração para a Folha)

“O Estado do Mundo”. Se o título já condiciona o olhar do espectador para o que ele verá na tela (ou ao menos o que ele deve esperar do filme), a grande pergunta a ser feita é: "Quão condicionados estiveram os seis diretores convidados para o projeto?". O que diretores de livre criação como Apichatpong Weerasethakul e Chantal Akerman pensaram e puderam fazer para este filme de encomenda que oferece um assunto em questão?

A premissa, em si, é bastante aberta (o estado do mundo seria a saúde biológica ou política da humanidade, a geografia do planeta ou a relação homem-mundo?), mas a reunião de trabalhos e a duração encurtada são verdadeiras âncoras para artistas como Pedro Costa _o outro diretor, ao lado do tailandês e da belga, a fazer parte da trinca de ases de realizadores.

O episódio “Luminous People”, de Apichatpong, é a grande cereja do bolo: além de ser o melhor dos seis trabalhos, é um exercício estético à altura de outras duas obras dele, “Mal dos Trópicos” e “Síndromes e um Século”. Um barco e um funeral unem dois povos, animais e homens também se integram, o som das águas faz consonância com os ruídos humanos, apresentações artísticas que animam a todos no convés. Com movimentos de câmera trépidos e ultragranulação, a sensorialidade das imagens torna-se valiosa, ou seja, interessa mais ver como as coisas são mostradas do que saber para que essas imagens nos são apresentadas.

O discurso cinematográfico de Apichatpong é oposto ao didatismo elucidativo de “Germano”, de Vicente Ferraz (diretor de “Soy Cuba – O Mamute Siberiano”). Aqui, pescadores lutam contra a poluição do mar e, de quebra, peitam o vilão, que é um enorme petroleiro. Talvez seja o mais “obediente” dos curtas, e o confronto entre um pequeno barco de pesca e um gigante dos mares é um equívoco na construção do espaço, dos deslocamentos e distâncias (chave de um suspense que os diretores planejaram para o clímax do filme).

A exploração da mão-de-obra dos nepalenses na Índia é o tema do filme de Aiysha Abraham, cujas imagens servem, efetivamente, para ilustrar a condição desairosa desses seres, como um filme-denúncia. Há, inclusive, um pedreiro que constrói casas, mas não tem a sua _situação que nos remete ao curta de Pedro Costa, que usa a oralidade e a construção rigorosa de enquadramentos para falar de um homem que será despejado de sua casa.

O chinês Wang Bing mostra-se um bom esteta, usando o espaço de uma fábrica sinistra para falar sobre as torturas da era Mao, no caso, contra uma mulher. O problema é que suas imagens servem a um desfile de metáforas, como o plano final, em que o chão contaminado pelo passado violento é lavado. Bing é outro “aluno comportado” que fez suas travessuras para, no final, cumprir o dever de casa.

Chantal Akerman, sempre radical, faz um punhado de longuíssimos planos, câmera fixa, mostrando uma noite em Xanghai, na qual sentimos a presença humana a partir de suas manifestações mais visíveis: arranha-céus com outdoors luminosos criando narrativas sobre a mudança frenética do mundo em processo de modernização. É o filme que traduz melhor, em imagens, qual o estado do mundo. Mas é um procedimento usual, este de deixar a duração do plano escorrer pela tela. Usual demais para alguém como Akerman.

Em seus seis curtas, “O Estado do Mundo” se mostra um planeta cinematográfico cindido, entre o “Primeiro Mundo”, onde vivem autores como Apichatpong, Akerman e Costa, e "os emergentes", entre os quais estão os outros três cineastas, esforçados em suas construções visuais, mas presos em excesso à pauta oferecida pelo projeto.

Avaliação: Regular


Na Mostra: "O Estado do Mundo" tem sessões hoje (25), às 18h10, no Unibanco Arteplex 3; e amanhã (26), às 20h10, no Unibanco Arteplex 1.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Crítica de "À Prova de Morte", de Quentin Tarantino, por Pedro Butcher
Crítica de "A Última Hora", de Nadia Conners e Leila Conners Petersen, por Ricardo Bonalume Neto
Reportagem sobre a exibição de "Brand upon the Brain", de Guy Maddin, por Silvana Arantes
Lanterninha: notas do festival

Escrito por Paulo Santos Lima às 12h03 AM

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Audiovisual brasileiro terá novo observatório

Audiovisual brasileiro terá novo observatório

                                                                         Paula Lyn Carvalho

Por Sérgio Rizzo (Crítico da Folha)

A edição impressa da Folha publica nesta quinta reportagem sobre o lançamento da coleção “Cinema no Mundo - Indústria, Política e Mercado”, organizada pela pesquisadora Alessandra Meleiro, 35 (foto). Seus cinco volumes _dedicados, pela ordem, a África, América Latina, Ásia, Estados Unidos e Europa_ trazem 33 artigos, fora introduções e prefácios, e totalizam cerca de 1.200 páginas. A sessão de autógrafos começa às 18h30, no Clube da Mostra (Shopping Frei Caneca). Confira abaixo a entrevista com Alessandra.

Em que medida o material (e em especial o volume sobre a América Latina) poderia servir como referência para políticas a serem desenvolvidas no Brasil?
A América Latina não conta com dados confiáveis sobre os sistemas produtivos e os modos de operação dos mercados locais, e as políticas e legislações que determinam o rumo desta indústria também não receberam um tratamento adequado para a integração deste setor estratégico da economia e da cultura. Sem o conhecimento das indústrias cinematográficas da região é impossível elaborar estratégias de desenvolvimento, que passam, por exemplo, pela integração regional dos países do Mercosul. Não podemos mais pensar o quanto cada país da América Latina representa em seu próprio mercado: temos que procurar viabilizar acordos que conduzam a um posicionamento eficaz dos cinemas locais nas telas internacionais.

Qual a sua análise do atual mercado cinematográfico brasileiro?
Hoje os incentivos e as regulamentações governamentais desempenham papel essencial na indústria local. Há uma ausência de percepção para os negócios entre os produtores, resultando em uma tática econômica e comercial equivocada: em vez de satisfazer as exigências dos custos em relação às receitas, a indústria cinematográfica brasileira – ou a tentativa de indústria - está habituada a uma mentalidade de subsídios que resulta em produções não comerciais e não competitivas.
Não houve interesse ou capacidade governamental para construir empreendimentos sustentáveis ou empresários dispostos a investir seriamente neste tipo de empreendimento. Assim, cresceu a presença do capital de grandes conglomerados transnacionais no país, que se valem de recursos governamentais para garantir ainda mais os lucros decorrentes de seus investimentos.

Existem planos para novas edições, para a criação de alguma espécie de "observatório" permanente sobre esses temas ou outros desdobramentos?
Sim. O desdobramento dessa pesquisa será a criação do “Observatório Brasileiro do Audiovisual”, que pretende obter, processar e disponibilizar dados e informações do cinema no país e no exterior. Estamos desenvolvendo um portal de internet que permite estruturar os diversos modelos de gestão de políticas para o audiovisual no mundo (África, Ásia, Europa, América Latina e Estados Unidos), capaz de atender as necessidades e expectativas presentes e futuras de gestores públicos da área cinematográfica, pesquisadores, profissionais da indústria e usuários em geral. O portal estará hospedado brevemente na Incubadora Fapesp. Além da produção e difusão de um boletim eletrônico, o “Observatório” também desenvolverá atividades de investigação e produção de outros meios, segundo as necessidades do cinema e do audiovisual regional. Temos estabelecida uma rede de analistas de instituições como o Observatório Mercosur Audiovisual _circunscrito na região do Mercosul_ e o European Audiovisual Observatory _que faz circular a informação da indústria audiovisual na Europa_, além de acadêmicos internacionais e brasileiros (que também participaram da coleção de livros).

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h07 PM

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'Nanking' revê massacre japonês na China

'Nanking' revê massacre japonês na China

Por Ricardo Bonalume Neto (da Reportagem Local)

Nanquim ou Nanjing, antigamente Nanking na versão em inglês, era a capital da China em 1937 quando os japoneses a invadiram. Localizada no delta do rio Yangtsé, perto do mar, era um alvo fácil. Sua população foi objeto de um massacre deliberado pelas tropas japonesas. Dezenas de milhares de civis foram mortos (as estatísticas, imprecisas, variam de 100 mil a 300 mil), milhares de mulheres foram estupradas. O evento que passou à história como o Massacre ou o Estupro de Nanquim é o tema deste excelente e inquietante documentário.

Poucos alemães negam a existência do Holocausto, que matou 6 milhões de judeus. Mas mesmo hoje o massacre de Nanquim é tema tabu no Japão. Em 1982 o Ministério da Educação japonês chegou a censurar a menção do massacre em livros didáticos. Políticos nacionalistas japoneses ainda acham que o massacre era pura propaganda chinesa.

O documentário procura mostrar o papel de um punhado de ocidentais morando em Nanquim na defesa dos civis chineses. Ironicamente, um dos principais nomes desses defensores era um executivo alemão, John Rabe, membro do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido nazista.

Armado de braçadeira com suástica e carteirinha do partido, este “bom alemão” tentava impedir os excessos de seus aliados orientais. Ele foi o principal idealizador de uma “zona de segurança” para os civis, e estima-se que isso salvou 250 mil pessoas de serem chacinadas ou estupradas. Nada é ficcional neste documentário. Atores lêem extratos de cartas e diários reais desse pequeno grupo de defensores, como Rabe (interpretado por Jürgen Prochnow), o cirurgião americano Bob Wilson (Woody Harrelson), e a professora americana Minnie Vautrin (Mariel Hemingway).

As narrações são pontuadas por entrevistas de chineses sobreviventes do massacre e mesmo de soldados japoneses que o perpetraram, além de trechos de documentários da época e dos filmes e fotografias que os ocidentais conseguiram produzir e contrabandear para provar o massacre. Os soldados japoneses revelam sem nenhum constrangimento como estupravam as chinesas, ou como amarravam prisioneiros de guerra e os metralhavam às margens do rio.

A mescla de depoimentos e filmes da época é perfeita. Um chinês fala da perseguição pelos soldados nos becos estreitos; uma imagem mostra soldados em meio das vielas. Um chinês fala do som das bombas e dos aviões; a imagem logo mostra um trecho de arquivo do bombardeio. Algumas imagens de mortos e feridos são pavorosas. Não é um filme para estômagos fracos.

Avaliação: Ótimo


Na Mostra: "Nanking" tem sessões hoje (24), às 18h, no Centro Cultural São Paulo; e sábado (27), às 19h50, no Unibanco Arteplex 5.

*

Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com Lucía Puenzo, diretora de "XXY", por Silvana Arantes
Crítica de "El Otro", de Ariel Rotter, por José Geraldo Couto
Crítica de "Armênia", de Robert Guédiguian, por Paulo Santos Lima

Escrito por Ricardo Bonalume Neto às 12h01 AM

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'Balão Vermelho' explora diferenças e distâncias

'Balão Vermelho' explora diferenças e distâncias

Por Cássio Starling Carlos (Crítico da Folha)

Criminosamente ausente das telas brasileiras, salvo em irregulares apresentações de seus filmes em outras edições da Mostra e no Festival do Rio, Hou Hsiao-hsien, o mais importante cineasta chinês (de Taiwan) vivo, retorna neste ano com um trabalho feito na França.

“Le Voyage du Ballon Rouge” (A Viagem do Balão Vermelho) resgata um título talvez desconhecido das gerações mais recentes, mas que encantou muitas crianças que hoje já têm idade para serem pais e avós. Dirigido em 1956 pelo francês Albert Lamorisse, o média-metragem “O Balão Vermelho” narrava as aventuras de um garoto solitário pelas ruas de Paris sempre acompanhado por um balão que simboliza o amigo imaginário da infância.

Após aceitar o convite do Museu d’Orsay para este trabalho na França, Hou usa o filme de Lamorisse a título de evocação. Não se trata de uma refilmagem, e o tal balão só aparece ocasionalmente, pois o que interessa ao diretor chinês é o outro termo presente no título.

É nos significados de “viagem” que ele se apropria com toda personalidade de um projeto em certa medida impessoal e que justifica todo o culto que os iniciados devotam a seu cinema. Em vez da criança e do balão, seu foco se desloca para Song, uma babá chinesa que cuida do pequeno Simon enquanto a mãe, Suzanne (Juliette Binoche), uma atriz que empresta sua voz a um teatro de marionetes, encontra-se ocupada.

É nesse “fora do lugar” e em particular na idéia recorrente de deslocamento que a câmera de Hou se instala, captando a duração das esperas, inoculando de infinito o espaço limitado do apartamento e transferindo seu interesse para a exploração do que emerge no campo das diferenças (culturais, etárias e das subjetividades) e das distâncias.

Trata-se de mais uma etapa da observação que o cinema de Hou vem fazendo das mutações contemporâneas (sentimentais, perceptivas) e que dá continuidade ao processo iniciado em “Millenium Manbo” (2001) e “Café Lumière” (2003), que retratavam personagens deslocados para o Japão.

Com essa escolha, Hou escapa da armadilha de lançar um olhar, mesmo que exótico, a um espaço urbano (Paris) ultracodificado no cinema e fora dele. Seu filme é o exato oposto de toda a bobagem cultuada no esquecível “Paris Te Amo”. Até quando filma o Museu d’Orsay (provavelmente uma exigência da encomenda), Hou evita o olhar turístico, posicionando a câmera de um ponto de vista externo ao monumento e isolado pelos vidros do telhado da construção.

O que permanece característico de seu cinema é a insistência em fazer o espectador sentir a temporalidade pregnante nas cenas no interior do apartamento, à qual equivale um prolongamento (seria mais correto dizer uma dilatação) no modo como o diretor captura e ressignifica os espaços.

Como os poetas fazem com as palavras, Hou Hsiao-hsien modula esses dois materiais essenciais do cinema para reiterar que a poesia se preserva nos interstícios da vida ordinária.
  
Avaliação: ótimo


Na Mostra: "Le Voyage du Ballon Rouge" tem sessões hoje (23), às 21h20, na Sala Cinemateca (BNDES); amanhã (24), às 19h, no Unibanco Arteplex 1; e na sexta (26), às 20h50, no IG Cine.

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Leia mais críticas (para assinantes UOL ou Folha):
"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu, por Sérgio Rizzo
"Glória ao Cineasta", de Takeshi Kitano, por Pedro Butcher
"De Volta à Normandia", de Nicolas Philibert, por Sérgio Rizzo

Escrito por Cássio Starling Carlos às 12h47 AM

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Arriaga volta a jogar areia nos olhos da platéia

Arriaga volta a jogar areia nos olhos da platéia

 

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Ainda não é desta vez que um roteiro assinado pelo mexicano Guillermo Arriaga traz uma história narrada de forma linear. “O Búfalo da Noite” bebe na mesma fonte que alimenta o vaivém temporal de “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), os três dirigidos por Alejandro González Iñárritu, e também de “Três Enterros” (2005), de Tommy Lee Jones.

Nada contra, evidentemente, mas o recurso a essa estratégia narrativa começa a soar, em Arriaga, como um mero cacoete: embaralham-se as cartas para que um material de relativa simplicidade dramática pareça mais complexo, expediente que integra o repertório de procedimentos talvez destinados, no fim das contas, a jogar um pouco de areia nos olhos do espectador.

É inquestionável, no entanto, que os filmes realizados a partir de roteiros com essa estrutura devem muito, para o bem e para o mal, ao trabalho do roteirista, quase o equiparando, na hierarquia de controle sobre o resultado final, ao diretor (e às vezes ao produtor).

Foi o que teria motivado o bate-boca público entre González Iñárritu e Arriaga, incomodado com o que o parceiro (ou já seria melhor dizer ex-parceiro?) andou falando a respeito da responsabilidade por algumas das idéias de “Babel”. Não por acaso, o nome de Arriaga é o que mais aparece nos créditos de “O Búfalo da Noite”: primeiro, junto ao título (coisa rara em cinema); depois, em três entradas distintas, como produtor, roteirista e autor do romance em que o filme é baseado.

Estreante como diretor de longa, o venezuelano Jorge Hernandez Aldana acomoda-se a uma posição secundária. Não é de todo inconveniente, dada a fragilidade do filme, que até larga bem, sugerindo um passado nebuloso, com muitas trovoadas, entre Manuel (Diego Luna, de “E Sua Mãe Também”) e seu amigo Gregorio (Gabriel González), recém-chegado de um período de hospitalização e cercado de atenção intensa pela família.

À medida que a história avança e o filme retrocede no tempo, compreende-se melhor o papel de uma moça (a estreante em cinema Liz Gallardo) na encrenca, a alma atormentada de Gregório, a consciência pesada de Manuel e o significado do tal búfalo, entre outros mistérios do espírito e da matéria. Pouca areia, de qualquer forma, para o tamanho do caminhão, com um certo anacronismo geracional: as considerações existenciais criadas por Arriaga para atormentar seus personagens parecem às vezes algo postiças em personagens tão jovens.

Avaliação: regular


Na Mostra:O Búfalo da Noite” tem sessões hoje (22), às 21h40, no iG Cine; quinta (25), às 19h, no Cinemark Shopping Eldorado; e na quarta (31), às 17h40, no Cine Bombril.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com os diretores de "Personal Che", por Silvana Arantes
Crítica de "As Testemunhas", de André Téchiné, por José Geraldo Couto
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Crítica de "Angel", de François Ozon, por José Geraldo Couto

Escrito por Sérgio Rizzo às 1h47 AM

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Cenas de um festival de cinema

Cenas de um festival de cinema

Um cartaz na porta do Cinesesc já alertava os incautos: “Todas as sessões começarão com atraso”. Chovia na noite deste domingo, e os espectadores formavam uma fila que serpenteava na entrada da sala da rua Augusta. Todos no aguardo de “À Prova de Morte” (foto), previsto para 22h40, mas que começou de fato às 23h18 _38 minutos de atraso que a platéia tirou de letra, sem estresse, sem bate-boca, como se soubesse que a redenção viria com o filme de Tarantino. E veio. Catarse coletiva e palmas no final.

O primeiro fim de semana da Mostra terminou como começou: um grande filme, uma sala lotada e um atraso um tanto além da conta. Foi assim com “À Prova de Morte” no Cinesesc, foi assim com “Inútil”, de Jia Zhang-ke, no Unibanco Arteplex 3, no início da tarde de sábado. A sessão, marcada para 12h30, começou quase 13h, após um pedido de desculpas de um monitor do festival e o protesto de uma espectadora, que, dado o avançado da hora, gritou contra a exibição de uma propaganda de 30 segundos da Petrobras.

No intervalo entre “Inútil” e “À Prova de Morte”, dois dias de programação de alto nível, sessões cheias e atrasos em geral toleráveis nos cinemas do eixo Paulista-Augusta-Frei Caneca. Em suma, um bom começo de festival.

Um ponto alto? Os aplausos, ainda que tímidos, de parte do público ao final da sessão deste domingo de “A Questão Humana” no Reserva Cultural. A outra parte dos espectadores ainda estava sob choque após assistir a obra de Nicolas Klotz, uma das mais pessimistas (realistas?) do cinema recente.

*

Leitor reclama, a Mostra responde
Fernando Maltempi escreve para o blog para contar que, na sessão de “Déficit” com Gael García Bernal na noite de sábado na Faap, os ingressos foram distribuídos para os alunos da instituição de ensino. Segundo seu relato, ficaram de fora cerca de 300 pessoas, que chegaram ao locar quatro horas antes para retirar as entradas gratuitas.

Sobre a mensagem do Fernando, Leon Cakoff, o diretor da Mostra, enviou a seguinte resposta:

“Sr. Fernando, nós da Mostra também fomos surpreendidos com as decisões da Faap de reservar a maioria dos ingressos para distribuição interna. Lamentamos, mas isso não faz parte de nosso acordo. Sempre tratamos de nossas programações no auditório da Faap com proporção de reserva de 50% para seus alunos e o restante para o público exterior. Lamentamos pelo ocorrido, inédito em nosso histórico de atividades públicas, e vamos avaliar para que fatos lamentáveis como este não voltem a ocorrer. Saudações da Mostra. Leon Cakoff."

Escrito por Leonardo Cruz às 1h36 AM

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Um grito para lembrar o genocídio

Um grito para lembrar o genocídio

Por Ana Laura Nahas (colaboração para a Folha)

O público se espreme no parapeito, e Serj Tankian, vocalista do System of a Down, grita que chegou a hora de a Turquia pagar pelo crime que cometeu. A platéia delira, resumindo a comoção que costuma acompanhar os shows da banda norte-americana formada por quatro descendentes de armênios, o povo massacrado pelos turcos entre 1915 e 1917.

A matança até hoje é negada pelo governo turco _que pelas contas da história acabou com cerca de 1,5 milhão de cidadãos da Armênia e deportou outros 500 mil. Mas o System of a Down e a documentarista Carla Garapedian, norte-americana que trabalha para a BBC de Londres, querem tornar a dor de seus antepassados conhecida pelas novas gerações e reconhecida pelos organismos internacionais. Por isso fizeram "Screamers", que a Mostra lança neste domingo, com a presença da diretora.

"O genocídio armênio foi uma das atrocidades contra os direitos humanos mais divulgadas de seu tempo. Mas poucos países assumem o massacre. Os britânicos chamam de ‘crime contra a humanidade’. O embaixador americano, de ‘assassinato de um povo’. George W. Bush, de ‘exílio forçado e assassinato de 1,5 milhões de pessoas’. Vamos chamá-lo do que realmente é: genocídio. E deixar os sobreviventes cicatrizarem", diz Garapedian à Folha, por e-mail, de Bruxelas, na Bélgica, onde esteve também para mostrar seu filme.

Em "Screamers", ela segue o System of a Down em uma turnê pela Europa e pelos Estados Unidos e mistura imagens e depoimentos sobre o genocídio às cenas dos shows e dos protestos comandados por Tankian e companhia. Às seqüências, acrescenta informações que defendem a estreita correspondência entre as mortes na Armênia, o Holocausto, os conflitos no Camboja, na Bósnia, em Ruanda e, atualmente, o choque entre tribos de Darfur, no Sudão, que já matou entre 50 mil e 450 mil pessoas.

"Eu relutava muito em fazer esse filme, porque o tema é muito pessoal para mim. Faz parte da minha vida há tanto tempo quanto eu posso me lembrar", conta Garapedian. Um show do System of a Down, em 2002, diminuiu a resistência. "Fiquei muito impressionada com seus fãs. Eles sabiam sobre o genocídio armênio _um assunto que não é discutido nos Estados Unidos_ e sobre todos os outros genocídios. A banda fez mais para aumentar a consciência do que políticos e ativistas em anos", defende.

O projeto ganhou corpo quando a BBC decidiu falar do trabalho de Samantha Power, autora do livro "Genocídio" [lançado no Brasil pela Cia. das Letras e Prêmio Pulitzer em 2003]. Power, a primeira a utilizar a expressão “screamers” para os que se recusam a ficar calados diante de um genocídio, dá extenso depoimento no filme, que, depois da Mostra, será exibido na Argentina e na Austrália. Aqui, a diretora quer ouvir o público. "Há uma grande base de fãs do System no Brasil. Espero atender às pessoas que amam a música deles, saber o que pensam e conhecer São Paulo, que ouvi dizer que é fantástica", conta.


Na Mostra: "Screamers" tem sessões neste domingo (21), às 19h, no Cine Bombril 1; na terça (23), às 21h, no Unibanco Arteplex 2; e no domingo (28), às 13h30, no Espaço Unibanco 3.

*

Mais quatro filmes lembram massacre
O genocídio de povos da Armênia é destaque na programação da Mostra neste ano. Além de "Screamers", outros quatro filmes tratam do tema, que voltou à tona agora que os congressistas americanos aprovaram, enfim, o reconhecimento do extermínio promovido pelos turcos. A seleção da mostra comandada por Leon Cakoff, ele também descendente de armênios, inclui "O Farol" (Armênia/Rússia), de Maria Saakyan; "Armênia" (França), de Robert Guédiguian; "A Casa das Cotovias" (Itália), de Paolo e Vittorio Taviani; e "Ararat - 14 Visões" (Holanda/Alemanha/Armênia), de Don Askarian.

"O Farol" tem sessões na quarta (24), às 14h, no Reserva Cultural 1; na sexta (26), às 19h10, no Cine Olido; e na terça (30), às 15h, no Unibanco Arteplex 1.
"Armênia" tem sessões na quarta (24), às 21h30, no Cinemark Shopping Eldorado; na quinta (25), às 16h50, no Unibanco Arteplex 2; e no domingo (28), às 15h, no Reserva Cultural 1.
"A Casa das Cotovias" tem sessões na terça (30), às 11h, na Faap; na quarta (31), às 17h, no Cinesesc; e na quinta (01), às 19h20, no Cine TAM.
"Ararat - 14 Visões" tem sessões na terça (23), às 18h10, na Sala Cinemateca (BNDES); na quarta (24), às 21h50, no Cine Olido; e domingo (28), às 17h20, no Reserva Cultural 1.

Escrito por Ana Laura Nahas às 1h00 AM

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Fatih Akin usa fórmula para ganhar festivais

Fatih Akin usa fórmula para ganhar festivais

Por Pedro Butcher (crítico da Folha)

É cada vez mais comum um certo tipo de filme que parece formatado para receber prêmios e visibilidade nos grandes festivais internacionais. Como júris são extremamente heterogêneos, e, sabendo-se que os premiados costumam ser aqueles títulos capazes de gerar algum tipo de consenso, surgem fórmulas para a ocasião: dramas humanistas de fundo político em torno de questões nobres.

“Do Outro Lado” se encaixa nesse perfil. É o quarto longa-metragem do alemão de origem turca Fatih Akin. Seu filme anterior, “Contra a Parede”, recebeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim; este novo, exibido no Festival de Cannes, levou o prêmio de melhor roteiro.

Como em “Babel”, de Alejandro Gonzáles Iñarritu, filme que pertence à mesma estirpe, temos uma gama de personagens do mundo global cujas trajetórias podem ou não se cruzar fisicamente _mas que, invariavelmente, estarão interligadas de alguma forma. Afinal, dramas humanos são determinados pela situação política, pela intolerância e pelas diferenças culturais, com a sempre bem-vinda forcinha do acaso que leva à tragédia (leia-se: artimanhas do roteirista).

A ação se alterna entre Alemanha e Turquia, com uma estrutura circular (começando e terminando na Turquia, durante um feriado religioso). Entre esses dois festejos esperamos pelas mortes que foram anunciadas nos subtítulos que dividem o filme: “a morte de Yetter” e “a morte de Lotte”. Não poderia faltar, é claro, as relações pai e filho / mãe e filha, ingredientes indispensáveis na receita do bolo festivalesco, que também serão o motor de “Do Outro Lado”.

O professor universitário Nejat, que mora em Hamburgo, visita seu pai, Ali, em Bremen. O velho, solitário, se relaciona com a prostituta Yetter, que cede aos convites de Ali para morar com ele depois de ser ameaçada por fundamentalistas. Em uma discussão que se torna violenta, Ali mata Yetter. Nejat, deprimido, muda-se para a Turquia, onde procura Ayten, a filha de Yetter, com o objetivo de financiar seus estudos. Mas ele não a encontra. Ayten, ativista política radical, mudou-se para a Alemanha, onde tem um caso com Lotte, que, por sua vez, tem problemas de relacionamento com a mãe, interpretada por Hannah Schygulla.

A complexidade da trama é mera aparência. É claro que, com tantas deixas para momentos dramáticos e mortes, “Do Outro Lado” gera comoção – mas é uma produção demasiadamente artificial, por vezes brutalmente cortada por diálogos toscos (como o confronto entre Ayten e a mãe de Lotte) e por uma visível falta de talento na construção das cenas.

Avaliação: Regular


Na Mostra:Do Outro Lado” têm sessões hoje (20), às 18h50, na Sala Cinemateca (BNDES); segunda (22), às 21h30, no Reserva Cultural 1; e quarta (31), às 14h, no Ig Cine.

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Leia mais (para assinantes UOL ou Folha):
Entrevista com Gael García Bernal, por Silvana Arantes
Crítica de "Déficit", de Gael García Bernal, por Sérgio Rizzo
Análise da seleção de filmes africanos, por Cássio Starling Carlos
Crítica de "Vocês, os Vivos", de Roy Andersson, por Pedro Butcher
Crítica de "A Questão Humana", de Nicolas Klotz, por Inácio Araujo

Escrito por Pedro Butcher às 1h48 AM

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'Infâncias' investiga formação de gênios do cinema

'Infâncias' investiga formação de gênios do cinema

 

Por José Geraldo Couto (colunista da Folha)

O longa-metragem em episódios “Infâncias” é um verdadeiro achado, quase um ovo de Colombo. A partir de uma idéia do cineasta Yann le Gal, jovens realizadores franceses voltaram seu foco para a infância de gênios do cinema como Fritz Lang, Orson Welles, Jean Renoir e Ingmar Bergman.

Cada segmento do longa reconstitui um evento específico que teria moldado o caráter e a sensibilidade do futuro cineasta em questão.
O conjunto é desigual, claro. O próprio Le Gal aborda a infância de Fritz Lang na Áustria, em 1900, no momento em que o garoto, que tem fortes tendências anti-semitas, descobre que sua amada mãe é judia.

A figura materna marca também os episódios dedicados a Orson Welles (que fica de vigília junto ao leito da mãe doente, temendo que ela morra se ele parar de fitá-la) e a Alfred Hitchcock (cuja mãe católica e repressora queima seu álbum de fotos e autógrafos de estrelas do teatro).
Mas os melhores segmentos _no sentido de captarem melhor a essência dos futuros cineastas_ são os referentes a Jacques Tati (dirigido por Joana Hadjithomas e Khalil Joreige) e a Ingmar Bergman (assinado por Safy Nebbou).

No primeiro, o criador do Monsieur Hulot, ainda pré-adolescente, mas já grandalhão, cria um impasse por ocasião da fotografia oficial da classe, no pátio da escola. Tati simplesmente não se encaixa. Bagunça a simetria buscada pelo meticuloso fotógrafo.

O professor o ameaça, os colegas riem dele. Jacques acaba por entrar na escola vazia, onde se junta a uma menina igualmente desajustada, e ambos dão usos inusitados para o espaço escolar: salas de aula, laboratório, quadra de esportes. Um prenúncio de um cinema que transformará o desajuste do indivíduo em criação poética.

No episódio dedicado a Bergman, o pequeno Ingmar se consome de ciúme quando nasce sua irmãzinha. Instigado pelo irmão mais velho, chega ao limiar do fratricídio. A situação traz uma carga quase intolerável de culpa, dúvidas metafísicas e dilemas morais, a própria substância do cinema bergmaniano.

No todo, um programa saboroso e estimulante, sobretudo para os jovens cinéfilos.

Avaliação: bom


Na Mostra: "Infâncias" tem sessões nesta sexta (19), às 16h, no Memorial da América Latina; nesta sábado (20), às 20h30, no HSBC Belas Artes 2; e no domingo (21), às 22h20, no Unibanco Arteplex 1.

*

Leia mais críticas (para assinantes UOL ou Folha):
"Império dos Sonhos", de David Lynch, por Cássio Starling Carlos
"Nascido e Criado", de Pablo Trapero, por Inácio Araujo
"Cristóvão Colombo - O Enigma", de Manoel de Oliveira, por Inácio Araujo
"Inútil", de Jia Zhang-ke, por Alcino Leite Neto

Escrito por José Geraldo Couto às 11h52 PM

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Muito em breve, em um cinema perto de você

Muito em breve, em um cinema perto de você

No podcast desta semana, o crítico Sérgio Rizzo presta um serviço importante para quem está escolhendo o que ver na Mostra de SP: apresenta uma relação dos filmes que estão no festival, mas que estrearão em breve no circuito comercial. Para quem não faz questão de esperar, são boas dicas. Para ouvir, basta clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h18 PM

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Os filmes do Oscar na Mostra

Os filmes do Oscar na Mostra

A Academia divulgou hoje a lista dos 63 concorrentes ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Mas a notícia maior está na ausência de um longa: "Lust, Caution", de Ang Lee, foi recusado como representante de Taiwan, pois uma parte considerável de sua equipe não é nativa. Em resumo, o caminho ficou um pouco menos difícil para "O Ano" abocanhar uma das cinco indicações ao Oscar.

Quem quiser pode conferir nos cinemas o nível de boa parte dos adversários do filme brasileiro. Dos 63 longas anunciados hoje, 20 estão em cartaz na 31ª Mostra de SP. Aqui vão eles _os links levam às sinopses dos filmes e às datas de exibição.

Alemanha: "Do Outro Lado", de Fatih Akin
Argentina: "XXY", de Lucía Puenzo
Bangladesh: "Nas Asas do Sonho", de Golam Rabbany
Bélgica: "Ben X", de Nic Balthazar
Brasil: "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger
Canadá: "A Era da Inocência", de Denys Arcand
Croácia: "Armin", de Ognjen Svilicic
Dinamarca: "A Arte das Lágrimas", de Peter Schonau Fog
Espanha: "El Orfanato", de J.A. Bayona
França: "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Grécia: "Eduart", de Angeliki Antoniou
Israel: "Beaufort" (foto), de Joseph Cedar
Itália: "A Desconhecida", de Giuseppe Tornatore
Líbano: "Caramel", de Nadine Labaki
Macedônia: "Sombras", de Milcho Manchevski
Romênia: "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu
Sérvia: "Armadilha", de Srdan Golubovic
Suécia: "Vocês, os Vivos", de Roy Andersson
Uruguai: "O Banheiro do Papa", de Enrique Fernández e César Charlone
Venezuela: "Postales de Leningrado", de Mariana Rondón

*

Laerte vai ao cinema, de novo
Mais uma tirinha da versão impressa da Ilustrada. Depois de Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h37 PM

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Mais uma chance para ver 'Serras da Desordem'

Mais uma chance para ver 'Serras da Desordem'

Para quem quiser distância das filas e disputas por ingressos típicas da Mostra de SP, há uma interessante alternativa na tarde deste próximo sábado, dia 20. O Colégio Equipe, em Pinheiros, realiza mais uma sessão de seu cineclube, com uma dobradinha de Andrea Tonacci. O diretor, peça-chave do cinema marginal, estará presente para conversar com a platéia sobre seus dois filmes exibidos: "Bang Bang" (1971), às 14h, e "Serras da Desordem" (2006), às 16h. O cineasta Carlos Reichenbach também participará do debate.

Vale lembrar que "Serras da Desordem" é um dos filmes mais amados e menos vistos do recente cinema nacional. Foi elogiado pela crítica nos festivais pelos quais passou, figurou na lista dos 20 melhores filmes da história do cinema brasileiro feita recentemente pela revista "Paisà", mas ainda não entrou em cartaz em circuito comercial nem tem previsão de estréia. Ou seja, a sessão do Equipe é a uma rara chance de ver o filme e ainda poder discuti-lo com seu realizador.

O Cineclube Equipe, para quem não conhece, exibe clássicos do cinema e filmes raros, de pouco ou nenhum espaço no circuito comercial. É voltado para alunos do colégio, mas aberto a todos que aparecerem por lá. Começou em março com "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, e já apresentou longas como "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla, "Acossado", de Jean-Luc Godard, e "Um Homem com uma Câmera", de Dziga Vertov.

Basta ler os objetivos dos organizadores do cineclube para entender o espírito da iniciativa: "Queremos, na medida do possível (e do nosso pequeno tamanho), democratizar o cinema; mostrar às pessoas que têm (ou não) acesso filmes que nunca viram; expandir o discutir e pensar criticamente o cinema." Nada mal.

O cineclube fica no Colégio Equipe, na rua Bento Frias, 223, Pinheiros. O ingresso para a sessão dupla com debate custa R$ 5. Mais detalhes no site do cineclube.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h16 AM

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Diretor japonês desconstrói o amor

Diretor japonês desconstrói o amor

Por Roberto Maxwell*

Um dos convidados da 31ª Mostra de SP, o diretor Hideki Kitagawa é ambicioso. Aos 43 anos, o professor da Tokyo Visual Arts School lança seu primeiro longa-metragem de forma totalmente independente. Com orçamento “muito modesto”, ele filmou em HDV "Amor Pulsa Mais Rápido que Sangue", uma obra não-narrativa de 75 minutos sobre a forma como vê o amor. “O amor é um sentimento possessivo. Alguém sempre tem que se sacrificar”, afirma o diretor, para explicar que queria fazer um filme diferente sobre o tema. “Há muitos filmes de amor sendo feitos”, justifica Kitagawa, que confessa não ter encontrado uma fórmula nova, como ambicionava.

O filme mostra a história _dark e regada a sangue_ do amor entre um artista e sua modelo. Animado com a participação de sua obra na competição de novos diretores da Mostra, o diretor quase mudou de lado na entrevista. “Posso fazer uma pergunta?”, dizia o tempo todo. Com sua fala mansa e respostas bastante pensadas, ele contou um pouco sobre o filme que chega ao Brasil após passagem pelo Melbourne Underground Film Festival _onde o filme foi laureado com os prêmios de melhor ator internacional (para o próprio Kitagawa) e melhor atriz internacional (para a protagonista Mihiro, que aparece na foto acima, em cena do filme). A seguir, os principais trechos da entrevista, feita antes da vinda do cineasta ao Brasil.

*

Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre "Love Runs Faster Than Blood" e a opção por um filme não-realista para a sua estréia na direção de longas-metragens?
Eu estava tentando fazer um filme no Vietnã. Não é fácil filmar no exterior, e no Vietnã há muitos problemas, estava sendo difícil conseguir as coisas. Tive que desistir, mas já estava no pique de fazer um filme. Então escrevi este roteiro em duas semanas. Decidi fazer um filme de amor. Mas há muitos filmes de amor sendo feitos. Então, tive que pensar numa história original, para chamar a atenção das pessoas. "Amor Pulsa" não é um filme realista. A maioria prefere o oposto, procura o realismo. Para dizer a verdade, só consigo fazer esse tipo de filme, que não é realista. É o que consigo fazer, e espero que o filme seja bem-sucedido, porque disso depende que eu produza meu próximo trabalho.

O senhor acha que conseguiu ser original?
(Pensa.) Não, acho que não muito (risos).

O senhor trabalhou com duas atrizes em papéis difíceis. Como chegou até elas? O senhor também atua no filme. Como foi essa experiência?
Foi difícil escalar as atrizes. Primeiro, porque elas teriam que ficar nuas, e ninguém quer aparecer nu num filme. Fiz alguns testes para encontrar a atriz, e nunca surgia alguém que se encaixasse no perfil da personagem. Tive que procurar fora do circuito tradicional de atores e atrizes. Por sorte, encontrei a Mihiro. Quanto a mim, foi a primeira vez que  atuei. Eu tinha escolhido um ator, e nós começamos a filmar. No primeiro dia, fiquei realmente desapontado com a performance dele. Mas eu já tinha começado a produção e não podia mudar as datas. Decidi mudar o ator, mas sabia que não iria achar um ator em um dia. Conclui que eu deveria fazer. Ninguém conhecia o personagem melhor do que eu.

O que o senhor espera da Mostra de SP?
Quero mostrar o meu filme, e o festival é grande, soube que é um dos maiores da América Latina. Há ainda a competição especial para novos realizadores. Até onde sei, a Mostra de São Paulo é o única que tem esse tipo de competição especial, e acho muito importante esse esforço para descobrir novos talentos. Não é um festival somente para diretores já estabelecidos, e isso é muito bom.


Na Mostra: "Amor Pulsa Mais Rápido que Sangue" tem sessões nesta sexta (19), às 22h20, e na quinta (25), às 13h30, no Unibanco Arteplex 2; e na quinta (1º/11), às 22h30, no Reserva Cultural 1.

* O brasileiro Roberto Maxwell é jornalista e videoartista, mora e trabalha no Japão. Seus textos e vídeos podem ser vistos no site Produtos Notáveis.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h16 PM

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Mostra - modo de usar

Mostra - modo de usar

Alguns leitores têm escrito nos últimos dias com questões sobre a compra de ingressos para a Mostra. Por isso, aqui vai um tira-dúvidas.

  • Ingressos na Central
    Quem já tem permanente ou pacote de 20 ou 40 ingressos pode retirar entradas na Central da Mostra até quatro dias antes da sessão. Ou seja, amanhã (quarta-feira) estarão disponíveis ingressos para todas as sessões de sexta, sábado e domingo. Na quinta, estarão liberados os bilhetes para os filmes de segunda. E assim por diante. Ainda há permanentes e pacotes de 40 ingressos à venda na Central, pelos preços divulgados aqui. O posto no Conjunto Nacional fica aberto das 10h às 21h.

  • Ingressos nos cinemas
    Uma das formas de comprar ingressos avulsos é direto nas salas, no dia da sessão. Para os filmes mais badalados, convém passar no cinema bem mais cedo, muitas horas antes. Isso porque, na maioria das salas, as bilheterias podem, assim que abrem, vender entradas para todas as sessões do dia. Por exemplo, se você quiser ver "Control", no sábado, às 22h40, no Unibanco Arteplex 1, é bom chegar ao shopping Frei Caneca por volta do meio-dia, quando a bilheteria é aberta. Garanta seu ingresso e volte à noite.

  • Ingressos pela internet
    A outra forma de obter ingressos avulsos é pelo site ingresso.com, que, em teoria, deveria vender as entradas com os mesmos quatro dias de antecedência da Central. Mas, ao menos hoje (terça), os ingressos para os filmes do festival ainda não estavam à venda. O site cobra um taxa de conveniência em cima do preço normal das entradas (R$ 13, de seg. a qui.; R$ 16, de sex. a dom).

  • A partilha dos ingressos
    Os ingressos de todas as sessões são divididos assim: 70% ficam disponíveis na Central da Mostra (para quem tem permanente ou pacote de ingressos) e no site ingresso.com (para venda avulsa), e 30% são vendidos no dia da sessão, nas bilheterias dos cinemas.

  • Ingressos de graça
    A entrada é franca para todas as sessões em cinco espaços de exibição: Olido, Faap, Centro Cultural São Paulo, Memorial da América Latina e vão livre do Masp. Nessas salas, os ingressos são distribuídos uma hora antes das sessões.  

Ainda tem dúvidas? Pergunte à vontade.

*

Brasília mostra sua força
Deixando a Mostra um pouco de lado, o Festival de Brasília anunciou hoje os filmes que disputarão os Candangos da 40ª edição do evento, que acontece de 20 a 27 de novembro na capital federal. Ao menos no papel, é uma bela seleção. Na competição de longas, destaque para os novos trabalhos de dois cineastas veteranos: Carlos Reichenbach apresenta seu "Falsa Loura" (foto), e Julio Bressane mostra "Cleópatra", bem-recebido no último Festival de Veneza. Laís Bodansky, do ótimo "Bicho de Sete Cabeças", concorre com "Chega de Saudade". Paloma Rocha e Joel Pizzini disputam com o documentário "Anabazys", sobre o método de trabalho de Glauber Rocha. Fecham a lista "Meu Mundo em Perigo", de José Eduardo Belmonte (o mesmo de "A Concepção"), e "Amigos de Risco", estréia do pernambucano Daniel Bandeira em longas-metragens.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h00 PM

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Mostra de SP - 50 filmes selecionados

Mostra de SP - 50 filmes selecionados

Mostra de SP - 50 filmes selecionados

Como escolher o que ver entre os mais de 400 filmes da 31ª Mostra? Para ajudar quem está montando uma programação para a maratona, o blog apresenta abaixo uma seleção de 50 longas, elaborada com ajuda dos críticos da Folha Cássio Starling Carlos, José Geraldo Couto, Pedro Butcher e Sérgio Rizzo. A divisão em três partes é assumidamente inspirada no formato adotado pela Contracampo na lista de indicações que a revista eletrônica fez para o Festival do Rio. Obviamente, não é uma seleção absoluta _estes 50 não são os únicos filmes a serem vistos na Mostra, mas um recorte do que parece ser mais interessante. Obras que valem as filas, as esperas, as salas lotadas.

Os fundamentais
"Angel", de François Ozon
"Bamako", de Abderrahmane Sissako
"Blind Mountain", de Li Yang
"Go Go Tales", de Abel Ferrara (foto)
"Em Paris", de Christophe Honoré
"I'm Not There", de Todd Haynes
"Império dos Sonhos", de David Lynch
"Inútil", de Jia Zhang-ke
"Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho
"Lady Chatterley", de Pascale Ferran
"Mutum", de Sandra Kogut
"Paranoid Park", de Gus Van Sant
"À Prova de Morte", de Quentin Tarantino
"4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu
"Redacted", de Brian De Palma
"Senhores do Crime", de David Cronenberg
"Sympathy for the Devil" e "One + One", de Jean-Luc Godard
"As Testemunhas", de André Téchiné
"Vocês, os Vivos", de Roy Andersson

Temos boas referências
"Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto", de Sidney Lumet
"Cada um com Seu Cinema", de vários diretores
"Cristóvão Colombo, o Enigma", de Manoel de Oliveira (foto)
"De Volta à Normandia", de Nicolas Philibert
"Do Outro Lado", de Fatih Akin
"Infâncias", de vários diretores
"Lust, Caution", de Ang Lee
"Não Toque no Machado", de Jacques Rivette
"Onde os Fracos Não Têm Vez", de Joel e Ethan Coen
"Nascido e Criado", de Pablo Trapero
"A Retirada", de Amos Gitaï
"S.O.S. Saúde", de Michael Moore
"A Questão Humana", de Nicolas Klotz
"Via Láctea", de Lina Chamie
"Le Voyage du Ballon Rouge", de Hou Hsiao-Hsien

Vale apostar
"Ainda Orangotangos", de Gustavo Spolidoro
"Andarilho",  de Cao Guimarães
"A Amada", de Arnaud Desplechin
"Atrizes", de Valeria Bruni Tedeschi
"Canções de Amor", de Christophe Honoré
"Casa de Alice", de Chico Teixeira
"Control", de Anton Corbjin
"A Era da Inocência", de Denys Arcand
"Fay Grim", de Hal Hartley
"Glória ao Cineasta", de Takeshi Kitano (foto)
"Indo Para Casa", de Zhang Yang
"Import Export", de Ulrich Seidl
"Perdido em Pequim", de Li Yu
"Sukiaki Western Django", de Takashi Miike
"XXY", de Lucia Puenzo

*

Leitor reclama, a Mostra responde
O leitor Ronaldo Toledo mandou uma longa mensagem sobre o atendimento na Central da Mostra no último sábado, quando começaram a ser vendidos os pacotes de ingressos e as integrais. Após elogiar o atendimento no ano passado, ele diz em resumo o seguinte:

"Neste ano reinventaram a roda. Primeiro íamos ao Balcão apenas com formulário e RG. Pagávamos. Aí o destino era atrás das cabines, embaixo da escada rolante, onde se misturavam os que ainda não tinham fotos com os que tinham, um aglomerado sem nenhum critério. Os formulários cadastrados seguiam sem nenhuma ordem, e as carteirinhas eram distribuídas aos berros, quem tinha mais sorte virava 'o próximo'. Um horror! No meu caso e de minha mulher, somente a plastificação da carteirinha levou uma hora, depois de muito berro, discussão, pouco caso, tumulto, empurrões, etc. Uma hora depois, ao passarmos por lá novamente, pessoas que estavam na nossa frente na fila inicial ainda agurdavam uma solução."

Sobre a reclamação do Ronaldo, a Mostra enviou a seguinte resposta:

"A organização da 31ª Mostra Internacional de Cinema lamenta os transtornos causados aos seus fãs e freqüentadores. Ao contrário do que aconteceu nos outros anos, problemas técnicos atrasaram a compra das permanentes e pacotes de ingressos no sábado. Também houve um aumento expressivo da procura por pacotes de ingressos nas primeiras horas de venda em relação aos outros anos _a partir das 15h30, o movimento já estava normalizado. Os funcionários da Central, no entanto, trataram a todos com gentileza, mesmo diante dos problemas."

*

Aviso aos navegantes
Com este post, o blog dá início à cobertura especial que fará da 31ª Mostra de SP, que começa nesta quinta e vai até 1º de novembro. Será uma cobertura integrada e complementar à da versão impressa da Ilustrada, com críticas diárias, notícias, roteiros selecionados, notas e curiosidades do principal evento cultural de São Paulo.

*

Falando em Manoel de Oliveira
Tirinha de Laerte publicada na Ilustrada de hoje. Genial, como de hábito.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h23 PM

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Piaf no podcast

Piaf no podcast

Depois de algumas semanas de ausência, está de volta o podcast Ilustrada no Cinema, agora sob comando do crítico da Folha Sérgio Rizzo. Nesta semana, ele fala sobre o filme "Piaf - Um Hino de Amor" e sobre o bom desempenho de "Tropa de Elite" em sua estréia em São Paulo e no Rio. Como o podcast também vai ao ar na página principal da Folha Online, há ainda um comentário sobre o post abaixo, das peripécias publicitárias de David Lynch. Para ouvir, é só clicar no microfone.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h44 AM

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O comercial de David Lynch

O comercial de David Lynch

 

Este post, dica do repórter Marco Aurélio Canônico, é um aperitivo para os fãs de David Lynch que aguardam a estréia de "Império dos Sonhos" (foto). O quebra-cabeças insolúvel do diretor já passou no Festival do Rio, será exibido na Mostra de SP e deve entrar em cartaz no dia 2 de novembro.

Nos últimos anos, o diretor americano tem trabalhado de forma cada vez mais independente, longe dos grandes estúdios. E como Lynch financia seus projetos pessoais? Com empreitadas comerciais como esta: uma propaganda para a grife Gucci. O vídeo, de pouco mais de um minuto, não deixa de ser um reclame de perfume, mas carrega o estilo de Lynch por todos os lados. Confira:

Mais legal que o comercial é o "making of", em que o diretor aparece conduzindo a equipe, orientando as modelos e pilotando a câmera. Olha só:

Por fim, uma outra peça publicitária do diretor de "Veludo Azul". É um comercial para a Prefeitura de Nova York, para convencer a população a não jogar lixo na rua. É bem mais antiga, circula na internet há um bom tempo. Talvez você já tenha visto. Se não, divirta-se.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h35 PM

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Filmoteca - Lucia Murat

Filmoteca - Lucia Murat

 

A cineasta Lucia Murat marcou seu nome no cinema brasileiro a partir de 1989, quando seu primeiro longa, "Que Bom Te Ver Viva", foi o grande vencedor do Festival de Brasília. Ex-integrante do movimento estudantil e do grupo MR-8, ela recuperava naquele filme depoimentos de mulheres torturadas na ditadura militar. Desde então, Murat consolidou uma filmografia centrada em temas políticos e sociais do país, com "Doces Poderes" (1997), "Brava Gente Brasileira" (2000), "Quase Dois Irmãos" (2003) e "Olhar Estrangeiro" (2005). Seu mais recente filme é "Maré, Nossa História de Amor", que estreou no último Festival do Rio e que estará na programação da 31ª Mostra de SP. Uma releitura de "Romeu e Julieta" em um morro carioca, a nova obra deve chegar ao circuito comercial em maio de 2008 _alguns trechos já podem ser vistos no vídeo ao final deste post. A seguir, a cineasta gentilmente escolhe sua Filmoteca para o blog, com filmes que alteraram sua forma de ver o cinema.

*

"A Regra do Jogo" (Jean Renoir, 1939, disponível em DVD)
Um dos clássicos de todos os clássicos. Me formou como pessoa e cineasta. Tudo o que você precisa saber sobre como tratar de relações sociais a partir de personagens. Ou de como criar personagens a partir das relações sociais, em encadeamento maravilhoso.


"West Side Story" (Robert Wise, 1961, foto, disponível em DVD) e "Hair" (Milos Forman, 1979, disponível em DVD)
Musicais que fizeram a história dos musicais. Especialmente o "West Side Story", que revi inúmeras vezes, decupando, antes de rodar meu último filme, "Maré, Nossa História de Amor". Em "West Side", redescobri os melhores bailarinos do mundo, observados por uma câmera que fazia parte do movimento. Em "Hair", que talvez esteja um pouco datado, encontrei a integração do movimento do cotidiano na dança.


"A Bela da Tarde" (Luis Buñuel, 1967)
Filme-chave da minha geração, então recém-liberada. Era tudo o que precisávamos para falar de repressão e sexualidade. Todas queríamos ser a Belle. Voltou à minha cabeça por causa do filme de Manoel de Oliveira ("Belle Toujours"), que ainda não vi.


"Oldboy" (Park Chan-wook, 2003, disponível em DVD)
Um dos filmes que mais me impactou nos últimos anos. Sua relação com a violência, a perversidade, a vingança, sentimentos humanos tratados visceralmente, sem concessões. Tudo isso numa história que está longe de ser realista, que não tem medo do exacerbado. Ela poderia ser, mas não é, e você sabe que não é. Mesmo assim, você não consegue se afastar. Do ponto de vista da direção, acho de uma maestria impressionante.


"Calle Santa Fe" (Carmen Castillo, 2007)
Documentário de quase três horas de Carmen Castillo, que estava em Cannes 2007. Ao tratar da história que viveu com seu marido, dirigente do grupo revolucionário MIR assassinado na sua frente, ela fala despudoradamente da dor, da sobrevivência, da utopia perdida. É para chorar muito e depois se levantar, porque a vida continua.


"Nome Próprio" (Murilo Salles, 2007)
Estreou neste último Festival do Rio e também estará na Mostra de SP. Um filme que acompanhei desde a montagem _o resultado é surpreendentemente poético, apesar de falar de um processo destrutivo. Para mim, é um belo filme sobre a dor do ato de criação e traz uma Leandra Leal excepcional.

Escrito por Leo Cruz e Lúcia Valentim às 8h51 PM

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'Taxi Driver' volta cheio de extras

'Taxi Driver' volta cheio de extras

 

A solidão tem um nome. Travis é o andarilho solitário de "Paris, Texas", de Wim Wenders. Travis é também uma banda escocesa tristonha, que canta versos como "Why Does It Always Rain on Me?" (Porque sempre chove em mim?). Mas nenhum Travis é mais solitário, perdido e perdedor do que Travis Bickle, o "Taxi Driver".

O clássico de 1976 de Martin Scorsese retorna agora em "edição definitiva", pela Sony, em um caprichado DVD duplo que traz um disco inteiro de extras, a preço razoável: R$ 29,90.

"Taxi Driver" faz parte daquela restrita e subjetiva galeria dos cult movies, em que uma simples imagem se descola do filme para criar vida própria. Neste caso, a imagem de Travis (Robert De Niro), com seu sorriso ambíguo e corte de cabelo moicano, enquanto aponta o dedo para a cabeça, ensanguentada, como se fosse uma arma.

Para quem não conhece, um breve resumo. Estamos na Nova York dos anos 70, época barra-pesadíssima. Drogas, decadência, inocência perdida, Hollywood em momento de reinvenção: o clima nada leve contagiava os filmes norte-americanos do período. Travis é o sujeito insone que resolve trabalhar como taxista. Cansado da "sujeira" das ruas, se torna um justiceiro.

É um personagem com várias nuances, fechado em si mesmo, complexo. Por isso mesmo, e pelo caráter mítico que o filme adquiriu, os extras não se tornam redundantes.

Ficamos sabendo de curiosidades: é estranho imaginar que o filme poderia ter sido dirigido por Brian De Palma e estrelado por Dustin Hoffman, por exemplo. No segmento dedicado a Scorsese, ele fala sobre as influências que "Taxi Driver" recebeu. Diz que, naquela época, o cinema europeu exercia grande fascínio sobre os novos cineastas norte-americanos. Que, em "Taxi Driver", ele buscou incorporar o modo como Godard filmava, em que prevalecia um certo distanciamento das coisas. Fassbinder, Franceso Rosi, Salvatore Giuliano e Hitchcock, em especial "The Wrong Man" ("O Homem Errado"), foram outras fontes de inspiração.

Scorsese e o roteirista Paul Schrader falam de sua identificação com Travis, que em dado momento é descrito como uma espécie de Nosferatu, preso em um caixão de metal que flutua por Nova York _um dos melhores extras é um documentário onde ex-taxistas contam como era uma experiência "leve" rodar pela cidade na época.

Schrader dá o resumo definitivo: "Não é um filme sobre a solidão. É um filme sobre a patologia da solidão. A solidão [de Travis] era seu mecanismo de defesa. Ele não é só por natureza, é só por opção. É uma patologia bem americana".

*

Saudade de "Taxi Driver"? Aí vai um trechinho. Tá falando comigo?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h13 AM

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Prepare seu bolso; quebre seu cofrinho

Prepare seu bolso; quebre seu cofrinho

 
O cartaz deste ano, criado
e protagonizado por Hector Babenco

A 31ª Mostra de Cinema de São Paulo definiu os preços de ingressos de seus pacotes promocionais. A partir de segunda, das 12h às 18h, a Central da Mostra, habitualmente no Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073), começa a funcionar para tirar dúvidas e vender bugigangas (bonés, camisetas etc.). No dia 13, podem ser comprados os ingressos, das 10h às 21h, nos seguintes valores:

Integral (passe livre para todas as sessões) - R$ 360
Integral com desconto de 15% para assinantes da Folha - R$ 306
Especial (que vale de segunda a sexta para sessões começadas até as 17h55) - R$ 90
Especial com desconto Folha - R$ 76,50
Pacote de 20 ingressos - R$ 150
Pacote de 40 ingressos - R$ 260
Ingressos individuais - de seg. a qui.: R$ 13; sex., sáb. e dom.: R$ 16.

*

Em tempo, novos confirmados: “Redacted”, de Brian de Palma, que deve chegar mais para o final do evento, e “Senhores do Crime”, de David Cronenberg. Será a estréia nacional desses dois filmes, que depois entrarão em cartaz no Brasil.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 5h39 PM

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Os premiados no Festival do Rio

Os premiados no Festival do Rio

 

O prêmio principal ficou para “Mutum” (foto), mas “Estômago” levou o maior número de troféus no encerramento do Festival do Rio na noite de ontem. A belíssima adaptação de Guimarães Rosa deu à diretora Sandra Kogut o prêmio de melhor longa de ficção segundo o júri. A fábula político-culinária de Marcos Jorge deixou o Cine Odeon com quatro Redentores: melhor longa de ficção pelo júri popular, melhor diretor, melhor ator (João Miguel) e o prêmio especial do júri para o ator Babu Santana, que atua também em “Maré, Nossa História de Amor”, de Lucia Murat. Já premiada em festivais no exterior por seu forte desempenho em “Casa de Alice”, Carla Ribas foi escolhida a melhor atriz no Rio.

A premiação foi mais pulverizada para os documentários. O júri elegeu “Condor”, longa de Roberto Mader sobre a política de cooperação na caça a opositores feita pelas ditaduras sul-americanas nos anos 60 e 70. O público preferiu “Memória para Uso Diário”, outro filme que ataca o regime militar, com depoimentos de integrantes do grupo Tortura Nunca Mais. Cao Guimarães ficou com o Redentor de melhor diretor por “Andarilho”, que acompanha a saga de três homens que caminham por estradas brasileiras.

Entre os curtas, “Sete Minutos”, de Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, foi o vencedor do júri. O público premiou “A Maldita”, de Tetê Mattos.

*

Voltada sempre para os filmes nacionais, a eleição oficial não foi a única realizada no Festival do Rio. Os críticos das revistas “Cinética”, “Contracampo” e “Paisà” também escolheram o melhor filme da mostra carioca, numa edição especial do Prêmio Jairo Ferreira.

Na verdade, escolheram os melhores, pois três grandes longas ficaram empatados na votação final. “I’m Not There”, de Todd Haynes, “Paranoid Park”, de Gus van Sant, e “Síndromes e Um Século”, de Apichatpong Weerasethakul. Ótima seleção. Se tivesse que escolher um dos três, este blog ficaria com os skatistas de Van Sant.

“I’m Not There” e “Paranoid Park” (trailer abaixo) estarão na Mostra de SP e, depois dela, já têm distribuição garantida no Brasil. Para quem gosta de cinema são filmes obrigatórios, entre os melhores do ano. O longa de Apichatpong já tinha sido exibido em SP na Mostra do ano passado. Agora, só deve voltar ao Brasil quando alguma boa alma organizar uma retrospectiva do cineasta tailandês.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h30 AM

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O irmão caçula da Ilustrada

O irmão caçula da Ilustrada

Este blog acaba de ganhar um irmão caçula. O mais novo integrante da família já está no ar: é o Ilustrada no Pop, blog de música e outras coisas legais, coordenado pelos repórteres Thiago Ney e Marco Aurélio Canônico (essas beldades das fotos acima). Nos posts de estréia, Nokia Trends, Arctic Monkeys e, acredite se quiser, Sandy. O primogênito da família Ilustrada deseja boa sorte ao novo rebento.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h27 PM

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Quer fazer um curta pro YouTube?

Quer fazer um curta pro YouTube?

 

 

Já faz tempo que o YouTube virou uma das mais fortes ferramentas para disseminar o cinema na internet, de trailers de filmes a palanque para sucessos de público, como o fenômeno "Tapa na Pantera", de Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes (foto).

Pois o site anunciou nestes dias a criação de um concurso internacional de curtas-metragens, aberto a diretores de Brasil, Canadá, Espanha, EUA, França, Itália e Reino Unido.

A iniciativa se chama Projeto Direto e começará a receber os concorrentes a partir deste próximo domingo. Parece legal, né?! Sim, mas o YouTube criou algumas regras que complicam um bocado o argumento de qualquer filme, especialmente de curta duração. São três elementos obrigatórios no roteiro:
1) um personagem tem de enfrentar uma situação para a qual ainda não tem maturidade;
2) um personagem precisa dizer a seguinte frase: "Exijo uma explicação para tamanhas bobagens! O que você tem a dizer?"; e
3) uma cena precisa mostrar um personagem passando a outro uma fotografia.

Quem quiser encarar a empreitada tem até 9 de novembro para enviar seu filme, que deve ter de 2 a 7 minutos de duração, no máximo 100 MB, e pode ser falado em português, mas precisa ter legendas em inglês. Antes de pegar sua filmadora, convém ler as letrinhas miúdas do concurso.

Um júri encabeçado pelo cineasta Jason Reitman ("Obrigado por Fumar") selecionará os 20 melhores filmes. Os finalistas irão ao ar no YouTube, e os internautas escolherão o vencedor. O resultado será divulgado em 5 de dezembro.

Pelas regras da disputa, o premiado poderá exibir sua obra em uma sessão especial de "uma grande competição internacional de filmes (de 18 a 27 de janeiro de 2008) em Park City, Utah, EUA". O regulamento não diz, mas o que acontece em Park City nessa data? O Festival Sundance. O ganhador também embolsará um cartão com crédito de 5.000 dólares e terá seu curta em todas as homes do YouTube.

Vale o desafio? O Jason Reitman acha que vale. Dê uma olhada abaixo.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h59 PM

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Amos Gitaï fará workshop em SP

Amos Gitaï fará workshop em SP

Amos Gitaï fará workshop em SP

Biscoito fino para profissionais, estudiosos e amantes de cinema: o diretor israelense Amos Gitaï virá a São Paulo no final deste mês para ministrar um workshop na Faap. No evento, organizado pela 31ª Mostra de SP, apenas 20 alunos poderão acompanhar a palestra do autor de ótimos filmes como "Free Zone" (2005), "Alila" (2003) e "Kippur" (2000). O cineasta estará acompanhado da francesa Marie-Jose Sanselme, roteirista de vários longas de Gitaï, incluindo o mais recente, "Désengagement".

A oficina acontecerá em 30 de outubro, das 9h às 12h e das 14h às 18h, no campus da rua Alagoas, e custará R$ 150. Os interessados têm até 12 de outubro para se inscrever, pelo e-mail oficina@mostra.org. É necessário enviar currículo e um texto de um parágrafo que responda à pergunta: "Por que você quer fazer a oficina de Amos Gitaï e Marie-Jose Sanselme?". Os nomes dos 20 selecionados serão divulgados em 16 de outubro.

A oficina não é o único motivo da vinda de Gitaï e de sua roteirista a São Paulo. O cineasta, que já foi homenageado com uma restropectiva na 28ª Mostra, também terá seu novo filme exibido no festival paulistano. Estrelado por Juliette Binoche, "Désengagement" conta a história de dois irmãos e do impacto que a saída de Israel da faixa de Gaza tem sobre suas vidas.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h16 AM

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Afinal, quem faz os filmes?

Afinal, quem faz os filmes?

 

"Não era incomum naquela época [início dos anos 80] encontrar cópias pirateadas de filmes recém-lançados ou prestes a serem lançados. Foi o caso de 'Gandhi' [Richard Attenborough, de 1982, foto acima], que podia ser comprado nas ruas de Lagos mesmo antes de seu lançamento na Europa." Soa familiar, não?! Esse caso antigo, que hoje nos parece tão próximo, ilustra o artigo "A Explosão da Videoeconomia: o Caso da Nigéria", de Françoise Balogun, um dos muitos que fazem parte de uma interessante coleção que será lançada neste mês no Brasil.

Trata-se de "Cinema no Mundo: Indústria, Política e Mercado", um panorama da atual produção cinematográfica mundial, dividido em cinco volumes. Quem organiza a coleção é a pesquisadora Alessandra Meleiro, autora de "O Novo Cinema Iraniano".

Cada um dos cinco livros é dedicado a uma região: Ásia, América Latina, EUA, África e Europa. Como indica o título, o foco está menos na historiografia do cinema e mais nas alternativas de produção _como se estruturam os principais mercados dessas regiões e quais as políticas governamentais para estimular esse nicho.

O primeiro tomo, sobre a Ásia, dá uma idéia boa do espírito da coisa: são seis artigos, que traçam um panorama da indústria no Japão, na Coréia do Sul, na Índia, na China, em Taiwan e em Hong Kong.

No volume dedicado à América Latina, há dois artigos sobre o Brasil. O cineasta Jom Tob Azulay escreve sobre a política cinematográfica brasileira, e o pesquisador André Gatti faz uma análise sobre o mercado nacional.

As cinco obras serão publicadas simultaneamente pela Escrituras Editora e chegarão às livrarias a partir do próximo dia 25, quando acontecerá o lançamento da coleção, em um evento dentro da 31ª Mostra de SP. Cada livro custará R$ 25.

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Falando em pirataria...
Depois da estréia pirata nos camelôs e da oficial no Festival do Rio, "Tropa de Elite" finalmente chega aos cinemas nesta sexta-feira. Para aproveitar o frisson da imprensa nas últimas semanas, os produtores decidiram antecipar o lançamento, inicialmente previsto para o dia 12. Ou seja, a partir deste final de semana, começará a ser respondida uma das questões mais discutidas no mercado brasileiro neste segundo semestre: as cópias clandestinas queimaram o potencial de público do filme ou serviram, involuntariamente, para promover o longa de José Padilha? Dado o boca-a-boca positivo, este blog acredita na segunda hipótese.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h26 PM

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Blog Ilustrada no Cinema O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico.

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